Confraria dos Crônicos

De crônica, não basta a vida!



Comments: Terça-feira, Setembro 25, 2007

Walfrido, tu és pedra...

A cobertura do cenário político-policial está a dever em relação ao “mensalão mineiro”, esquema de caixa dois que teria sido criado em Minas Gerais, nas eleições de 1998, e que alimentou financeiramente as campanhas de muita gente famosa por aí.
Entre os que teriam sido agraciados pelo esquema, estão: Eduardo Azeredo, atual senador pelo PSDB mineiro, à época governador candidato à reeleição; Aécio Neves (PSDB), atual governador de Minas Gerais e pré-candidato à presidência da República em 2010, à época candidato à deputado federal; Walfrido do Mares Guia, atual ministro da articulação política, à época vice-governador de Minas e candidato à reeleição.
Quando Walfrido assumiu a articulação política do governo, o presidente Lula destacou que ele almoçava com deputados e jantava com senadores. Walfrido sabe lhe dar muito bem com parlamentares. Dizem até que ele distribuiu dinheiro em 1998 para mais de uma centena deles.
Os estudiosos da história da corrupção contemporânea no Brasil afirmam que o mensalão mineiro, que teve até a ilustre participação do publicitário Marcos Valério (aquele careca engravatado), foi o embrião do mensalão federal.
Enquanto que o pagamento de mesadas em Minas foi protagonizado pelo PSDB, no Congresso Nacional o PT assumiu a rédea da conversa e deu no que deu: 40 indiciados pelo Supremo Tribunal Federal.
A história ganha ares de drama quando Walfrido, que é um craque na articulação política do governo, afirma que deixará o governo se for indiciado. Aí a situação do governo realmente vai ficar complicada. Afinal, o presidente do Congresso Nacional é um senhor que atende pelo nome de Renan Calheiros.
A função de Walfrido é justamente negociar com parlamentares as propostas de interesse do Planalto. Ele atravessa a Praça dos Três Poderes e negocia pessoalmente os projetos de interesse do governo com líderes e bancadas. Se ele sair, a aprovação da proposta que prorroga a cobrança da (CPMF) Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira vai ficar comprometida.
A situação no Senado está tão delicada que pela primeira vez na história da instituição, o presidente da Casa foi barrado na reunião dos líderes. Essa reunião é que define a pauta das matérias que serão analisadas.
O líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), que está se desdobrando, e que também é um verdadeiro craque na articulação com parlamentares, conseguiu um acordo com a oposição para que os senadores votassem cinco matérias que trancam a pauta do Senado (além de umas indicações).
Depois disso, a proposta que acaba com as votações secretas no Senado será analisada. E aí então, mais uma vez, todos os holofotes estarão explodindo na face dos senadores, que como qualquer político, busca o seu espaço ao Jornal Nacional. Agora, imaginem a situação do governo, que já está feia, sem o Walfrido...

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 11:17 PM


Comments: Terça-feira, Setembro 18, 2007

Um imposto apaixonante

Digamos que o Congresso está em convulsão. O assunto que realmente interessa é a prorrogação por mais quatro anos da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF). Este não é um imposto, é uma tara, uma obsessão, uma paixão tributária. Sem a CPMF, a vida a política econômica do governo fica órfã.
A brincadeira rende aproximadamente 40 bilhões por ano aos cofres do governo, que já se vê obrigado a mudar a proposta, já que ela não vai passar como está de jeito nenhum no Senado.
No Senado, temos aquela velha conversa de sempre. Todo dia os senadores pedem para que o presidente do Congresso, Renan Calheiros (PMDB-AL), deixe o cargo enquanto os processos contra ele correm no Conselho de Ética.
E todo mundo sabe que existe uma potente blindagem do governo no caso Renan. O Planalto não permitiu, nem vai permitir que o senador alagoano vá para o matadouro político simplesmente porque a mágoa é uma péssima conselheira. Principalmente se o magoado é o detentor do cargo mais alto do legislativo.
Ora, um governo que saiu de um terremoto como o do mensalão, não se pode dar ao luxo de ter um aliado como Renan insatisfeito com a administração federal. Então, mantenha-se Renan no cargo. A oposição, que sabe tanto quanto o governo que Renan não vai sair, faz a sua cena e promove os espetáculos diários de coerência e espírito público.
E fala-se em discutir voto aberto, fala-se em transparência, em acompanhamento da sociedade do processo político... Pura perfumaria. Qualquer outro assunto é, na prática, menor do que a prorrogação do imposto dos sonhos de qualquer governo.
Independente de quem for o presidente da República, daqui até a eternidade, ele defenderá a CPMF. Lula nada mais é do que um liberal arrependido de pregar aquelas bobagens de igualdade durante os tempos de fábrica e presidência de honra do PT.
Daí também comenta-se sobre relatório da CPI do Apagão da Câmara, da tentativa de quebra do sigilo bancário do deputado petista que presidiu a Infraero, da frente parlamentar pelo fim do voto secreto. Nada disso tem a menor relevância.
Aprovada a CPMF, a base do governo estará de férias. O caso Renan só rende alguma coisa ainda por causa da CPMF. Ninguém quer mais saber se Renan é culpado ou inocente. O que interessa é como o inferno institucional do Senado piora ainda mais a situação do governo naquela Casa para aprovar a proposta que estende a cobrança da CPMF até 2011.
Neste momento, enquanto redigo essa crônica miúda do Parlamento diminuto, os deputados brigam para aprovar duas medidas provisórias. Durante o dia, o governo revogou outras duas, para acelerar o processo de análise da matéria que trata da CPMF.
Debaixo do sol não há nada novo, meus caros. Quando o assunto é dinheiro, o resto perde a importância. E vai ser legal ver o governo descer do salto e negociar a prorrogação da CPMF, que, para o desespero do povo brasileiro, vai passar.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 11:01 PM


Comments: Segunda-feira, Setembro 10, 2007

Secreta e libertadora

Tudo parece conspirar contra as minhas previsões. Mas mesmo assim mantenho a posição de que Renan Calheiros não perderá o mandato na próxima quarta-feira. É evidente que a medida que o dia se aproxima, a tensão aumenta. Contudo, tenho que manter a pose de quem entende um níquel do comportamento do Congresso.
Além disso, estamos tratando de uma votação que definirá se o presidente do Senado vai perder o mandato e os direitos políticos por um longo período de tempo – se tiver o mandato cassado, Renan ficará inelegível até 2018.
Em política, é essencial administrar os egos, as mágoas, as amizades e os ressentimentos. Nada pior do que um ex-presidente do Congresso Nacional profundamente desgostoso com a atuação do governo. Governo este que terá que aprovar a prorrogação por mais quatro anos de um imposto que rende R$ 40 bilhões por ano (CPMF). Governo este que teve seu núcleo considerado uma “organização criminosa” pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
Sim, existe o teatro da imprensa, o circo das teorias, o eterno disse-me-disse tão comum entre os cronistas do Congresso. Tudo isso faz parte do jogo e é válido. Contudo, em uma votação secreta, que faz parte de uma sessão secreta, os interesses do Estado prevalecerão.
Não tenho receio em afirmar que creio que o Senado da República não vai punir seu presidente. Apesar da pressão da sociedade, apesar da condenação que a população já proferiu contra o senador alagoano, teimo em crer que o Parlamento absolvera seu mais alto representante.
O povo ficará revoltado, o Congresso entrará em descrédito profundo, um sentimento de impotência e revolta tomará conta dos eleitores brasileiros. E qual é a novidade neste cenário?
Uma atitude de dois senadores petistas nessa segunda-feira pode ter diferentes significados. Delcídio Amaral (MS) e Eduardo Suplicy (SP) apresentaram projeto de resolução para que a sessão que vai definir o destino político de Renan seja aberta.
Todas as análises do fato vão para a seguinte conclusão: Renan será cassado e os petistas querem, aos 44 do segundo tempo, ainda tirar uma casquinha. Ou seja, já que ele está perdido mesmo, que fique ainda mais.
No entanto, volto a afirmar, vou teimar e considerar que Renan será absolvido por seus pares. Considero que essa proposta dos senadores petistas para que a sessão mais esperada dos últimos anos seja aberta nada mais é do que a tentativa de marcar posição e justificar previamente a posição contrária a Renan.
Eles estão falando à nação que querem que a sessão seja aberta. Sessão que, a meu ver, inocentará o presidente do Senado.

PS: Pelas contas da Globo, Renan tem 35 votos favoráveis, 35 contrários, e 10 senadores estão indecisos. Nesse universo, ele precisa de 6 para livrar a pele.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 10:30 PM


Comments: Segunda-feira, Setembro 03, 2007

O Senado tem o seu lugar

Uma antiga discussão sobre o fim do Senado ganhou corpo durante o 3º Congresso do Partido dos Trabalhadores. De acordo com a proposta, o legislativo brasileiro deveria passar a ser unicameral, ou seja, constituído apenas de uma Casa (no caso, a Câmara dos Deputados).
Os defensores da extinção do Senado afirmam que se o legislativo contar apenas com a Câmara, o processo de elaboração e aprovação de leis ganhará mais agilidade; sem contar que a barganha diminuirá drasticamente.
Entretanto, historicamente, o Senado é a Casa do equilíbrio, da serenidade. Além de contar com apenas 81 membros (ao contrário dos 511 da Câmara), e invariavelmente com três representantes por Estados e pelo Distrito Federal, os senadores têm que ter a idade mínima de 35 anos para aprovar a indicação de embaixadores, ministros de tribunais superiores; e de analisar as propostas que vêm da Câmara e produzir as suas próprias.
Talvez o calvário pelo qual passa o presidente do Senado contribua para essa discussão. O senador Renan Calheiros (PMDB-AL) é a Geni da vez do Congresso, e semanalmente as revistas chegam com mais denúncias contra ele. A última delas afirma que o peemedebista recebia propina de ministérios controlados pelo PMDB.
A novidade é que a mais recente denúncia publicada contra Renan também envolve o líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), que assim como Renan também nega tudo.
Uma das maiores contribuições de Renan para o Senado é que sob a sua presidência a discussão sobre a extinção dessa Casa legislativa promete ganhar mais consistência. O que era o contraponto de serenidade e respeitabilidade no Congresso, sob a batuta de Renan ganhou outros ares.
Apesar da discussão não ser nova, agora questiona-se a necessidade da existência do Senado, a Casa em que Rui Barbosa também brilhou. No entanto, se realmente o legislativo perder o Senado, o Congresso perderá parte importante do seu conteúdo. Inclusive perderá até mesmo parte de sua própria arquitetura.
É claro que em um parlamento bicameral a barganha política é muito maior. Mas o que talvez pode estar por trás desse desejo do PT de extinguir o Senado é que nele o governo não conta com a maioria tão folgada quanto tem na Câmara.
Será que fosse o contrário, se o governo tivesse uma maioria relativa na Câmara, enquanto que no Senado a vantagem fosse folgada, a conversa seria a de acabar com a Câmara?
Questionamentos à parte, o certo é que se o prédio do Congresso brasileiro perder um ou outro “prato”, teremos menos gente disposta a debates as leis, a aparecer na televisão e, principalmente, teremos menos protagonistas de escândalos.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 12:31 AM



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