Confraria dos Crônicos

De crônica, não basta a vida!



Comments: Sexta-feira, Março 30, 2007

Não julgais

O campeonato de pontos corridos, que vigora no Brasil há alguns anos, é uma completa idiotice. Bom mesmo é a grande final, o desespero generalizado de dois times que se matam dentro das quatro linhas para que, em um lance de pura magia, o gol saia, e desbanque ¿a melhor campanha do torneio¿.
Quem defende o campeonato de pontos corridos, ou seja, aquele que faz mais pontos durante a competição vence, tem como principal argumento ¿a justiça¿. Segundo os defensores dos pontos corridos, o campeonato nestes moldes ¿é mais justo¿.
Como diria um primo meu, que também defende a grande final, e que é advogado, ¿justiça tem que existir no tribunal, não no futebol¿. E é justamente aí que o tema de hoje se inicia.
Depois do escândalo do mensalão, que só foi capaz de cassar o mandato de três deputados, dentre eles o do ex-ministro José Dirceu, os governistas afirmam que o julgamento do Zé foi político. Que mediante as provas cabais, José Dirceu, Roberto Jefferson, Pedro Corrêa, e até mesmo o ex-presidente Fernando Collor de Mello, não deveriam perder os seus mandatos.
E vez por outra esse assunto surge, mas graças ao bom Deus perde a força. E não é difícil encontrar um petista esperançoso na volta do Zé. Ao contrário do ex-presidente Collor. É que ninguém tinha muita cara de vir a publico defender o ¿julgamento político¿ do ex-presidente. No caso do Zé, temos até campanha com banner e tudo o mais que a propaganda pode fazer.
Já que sou jornalista, e já que costumo tentar defender a minha categoria profissional (apesar dela não se ajudar como deveria), vou aqui revelar um segredinho que ouvi, numa desses finais de expediente, no qual a redação fica mais bela e leve.
Dizia alguém que um conhecido seu ouviu falar que algum ministro de um tribunal superior brasileiro qualquer disse que não iria contra 60 milhões de votos. Os argumentos jurídicos existiam para tirar o sujeito do trono, as leis seriam rigorosamente cumpridas, o argumento estava lá, irretocável e imbatível.
Se a diferença dos votos no segundo turno fosse pequena, não fosse tão escandalosa, tão histórica, o sujeito estaria fora. Quem sabe até estaria em prisão domiciliar. Leis para tirá-lo, existem. Leis que garantam a sua punição, também. Só não existem leis que façam com que alguém de um tribunal superior brasileiro qualquer vá contra 60 milhões de votos.
Este também é um julgamento político. No caso, um ¿não julgamento político¿. O que também não deixa de ser um julgamento político. José Dirceu perdeu o mandato por um julgamento político. Lula não perdeu o mandato por outro julgamento político. E o que podemos concluir que é: todos os julgamentos são políticos.
Por falar em julgamento político, o Supremo Tribunal Federal (STF) fez o maior alarme dizendo que hoje sairia a decisão sobre a instalação da CPI do Apagão Aéreo. Pura balela. O STF apenas abriu caminho para que a comissão seja instalada na Câmara, mas a decisão ainda não está tomada. O governo enterrou a CPI na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara e no plenário. Apenas o Supremo poderia ordenar a Câmara a abrir a CPI.
A oposição comemora, e quer abrir a comissão na próxima semana. O governo espera a decisão do plenário do tribunal, que vai se arrastar até o final do próximo mês... Ou mais.
E ninguém sabe o que vai acontecer, e ninguém entende muito bem o que acontece. E a imprensa, que tem que traduzir o mundo diariamente, e que não tem o tempo (nem a remuneração) dos tribunais, faz a ponte entre a indecisão e a ignorância. E pelo salário que recebemos, fazemos maravilhas.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 1:01 AM


Comments: Quinta-feira, Março 29, 2007

TSE inspira PIB

Não sei se é verdade ou não, mas sempre ouvi falar que a constituição americana foi escrita de uma sentada por um general. Não sei nem se foi escrita à luz de um lampião dentro de uma barraca militar, ou sob um céu estrelado e ao lado de uma fogueira. O fato é que foi escrita sem muita delonga. E até hoje é obedecida.
Como temos esse péssimo hábito de nos compararmos com os Estados Unidos, resolvi utilizar esse exemplo acima para falar sobre a decisão dessa terça do Supremo Tribunal Federal, que resolveu dizer que o mandato parlamentar pertence ao partido político, e não ao candidato eleito.
Como diversas outras coisas neste país, cheio de leis, de códigos, de capítulos, incisos e o diabo a quatro; também não entendemos a eleição para o Legislativo. Ninguém sabe explicar de forma clara porque um deputado eleito com uma grande votação por um partido minúsculo leva consigo outros que receberam apenas os votos dos familiares e vizinhos. Dizem que existe no meio dessa conversa um tal de coeficiente eleitoral, mas ninguém também sabe ao certo o que isso quer dizer.
A decisão do TSE não tem força de lei, mas vai dar suporte jurídico para que diversos partidos entrem no Supremo Tribunal Federal para reaverem os mandatos dos deputados que se elegeram e trocaram de sigla. Ou seja, estamos matando uma de nossas mais importantes tradições políticas: o troca-troca partidário.
Sem essa tradição dentro do Congresso, nossa política vai ficar mais triste. E o que é pior, além de mais triste, não vai melhorar sob nenhum aspecto. Um país que acha que vai melhorar a partir da política é um país ingênuo. A política é reflexo, nunca, jamais, causadora de alguma coisa. Os políticos são agentes que recebem pressão, nunca, jamais, se movimentam por conta própria.
O troca-troca precisa continuar. Até porque os partidos políticos no Brasil não têm ideologia alguma, o eleitor vota em um rosto, em um sorriso, em um olhar de fúria ou de compaixão. Voto ideológico, além de ultrapassado, é chato por demais.
E já que o TSE decidiu entender que as regras agora devem ser outras, o governo também adotou a moda das ¿mudanças circunstâncias¿ e resolveu mudar as regras para o cálculo do Produto Interno Bruto, mais conhecido como PIB. O PIB é uma sigla bastante usada por economistas e editorias de jornalões para criticar o governo Lula.
Trata-se da soma das riquezas que um país produz durante um ano. Pelo cálculo antigo, e muito mais confiável, o PIB brasileiro em 2006 estava em 2,9%. Agora, muito provavelmente depois de um puxão de orelhas do ¿homem¿, o PIB milagrosamente passou para 3,7%. Não sei a frase ao certo, mas dizem por aí que as estatísticas, quando devidamente torturadas, revelam o que se deseja revelar.
A mudança no PIB, a mudança no entendimento da propriedade do mandato, e tantas outras coisas que mudam assim, de repente, só revelam o óbvio: o país não é sério. E com a nossa carga histórica, já deveríamos saber que a mudança não virá de nenhum dos Poderes.
Precisamos mesmo é de um general americano. Ou de outro povo. A escolher.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 1:07 AM


Comments: Quarta-feira, Março 28, 2007

Nana nenê, gugu dadá, etc, etc, etc

Não é fácil, nem muito menos agradável de confessar, mas temos que admitir que o presidente Lula é um gênio. E como os gênios, e as mulheres bonitas, Lula só precisa ser ele mesmo. Basta respirar e agir conforme a natureza ordena, que está tudo certo.
Sendo o gênio que é, não se faz necessário para o presidente o estudo formal, aquela chateação toda de livros, cadernos, aulas e notas, pelos quais o resto da humanidade letrada teve que passar. O presidente conseguiu, em vida, ser beatificado. E ao que tudo indica, o processo é irreversível. Ou, o que pode ser ainda pior, só tende a aumentar.
Em cerimônia no Palácio no Planalto, após cinco longos meses de completo desespero nos aeroportos brasileiros, o presidente vem a público e diz que quer ¿dia e hora¿ para anunciar ao Brasil que a crise aérea vai acabar. Enquanto isso, a Câmara dos Deputados enterrou a possibilidade de instalação de uma CPI.
É evidente que todo governo tem medo que suas contas sejam conferidas. E isso não seria, nem de longe, uma exceção no governo do PT. Mas é que a crise nos aeroportos brasileiros está senil e sem nenhuma previsão de quando que será encerrada.
Lula, como de costume, fez reuniões, e mais reuniões. E, como de costume, nada ficou decidido. Se existe uma coisa que todo petista gosta de fazer é a tal da reunião. Ou então criar um grupo de trabalho qualquer. E resultado que é bom, não vem.
A oposição acredita que o Supremo Tribunal Federal (STF) vai ordenar que a CPI do Apagão Aéreo seja instalada na Câmara. Caso o STF admita que a comissão não tem objeto definido de investigação, como argumentam os parlamentares governistas, os senadores oposicionistas já avisaram que no Senado Federal a CPI vai para frente.
Diferente da Câmara, no Senado a situação não é tão mansa para o governo. Não sei por que razão, mais os governistas do Senado são mais tímidos, mais reservados, mais envergonhados em defender a gestão Lula. Na Câmara, deputados só faltam se derreter em elogios ao governo. No Senado, os parlamentares têm uma postura mais receosa em relação à defesa do governo.
Quem sabe seja pelo grau de estudo, que deve ser maior do que o da Câmara. Não sei bem. O líder do PFL (que passará a se chamar ¿Democratas¿) no Senado, José Agripino Maia (RN), já avisou que a oposição conta com assinaturas suficientes para abrir a comissão que promete fazer uma devassa nas contas da Infraero, e se não me engano, vão vasculhar até mesmo as Forças Armadas.
Tomara que o senador ¿democrata¿ tenha razão. Da última vez que ele resolveu fazer alguma espécie de cálculo dentro do Senado, foi na eleição para a presidência da Casa. Ele avisou a todo mundo que poderia surpreender o atual presidente, Renan Calheiros (PMDB-AL), que concorria à época à reeleição. E realmente Agripino surpreendeu: recebeu menos votos do que o esperado.
O pior de tudo é que com CPI, sem CPI, com atraso nos vôos, sem atraso nos vôos, Lula permanecerá até o seu último instante sendo idolatrado. E trata-se de uma idolatria esquisita. Afinal de contas, ele não consegue resolver uma crise entre controladores de tráfego aéreo e o comando militar.
Sem falar que a sua equipe econômica, de uma hora para outra, resolver mudar a forma de cálculo do Produto Interno Bruto para que o crescimento da economia fosse maior.
Ora, um presidente que deixa os passageiros de avião (teoricamente a classe privilegiada da economia do país) esperando horas e mais horas em aeroportos durante cinco meses, e que ainda conta com 48% de aprovação, é um gênio.
Um sujeito que muda as regras do cálculo do PIB do país para que o crescimento da economia sob sua gestão ficasse maior para a posteridade, é um gênio. E gênio que é gênio, produz seus geninhos. Alguém por aí se lembra do filho de Lula, o Lulinha, que de uma hora para outra recebeu milhões de reais de uma empresa de telefonia para a sua empresa? Antes do pai ser presidente, o sujeito ganhava R$ 600 reais...
E como todo gênio, Lula mais uma vez se faz entender com suas metáforas de primário: ¿Exigi deles [grupo de ministros e militares com que se reuniu no Planalto] um diagnóstico preciso, porque um bom médico só pode acertar o remédio que vai dar para o seu paciente se ele souber qual é a doença do paciente". Ou seja, Lula conversa com o país como quem conversa com uma criança. E não é tão ruim assim...

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 1:48 AM


Comments: Terça-feira, Março 27, 2007

Um agrado é sempre bom

O governo quer porque quer aprovar, ainda esta semana, o projeto que aumenta o salário dos parlamentares. Na semana passada, a Comissão de Finanças e Tributação da Câmara já deu sinal verde para que deputados e senadores passem a ganhar mais um trocado no final do mês para que o leite da criançada esteja garantido.
Parece que os salários do presidente, do vice-presidente, e dos ministros vão ter que esperar para engordar. Fundamental nesse momento é fazer agrado no Congresso. E o que a CPI do Apagão Aéreo tem a ver com essa historinha de aumentar salário de congressista?
Mesmo a Câmara engavetando o pedido de CPI, o Supremo ainda pode ordenar que a comissão seja instalada. Se o Supremo disser que a CPI não tem nenhuma razão de ser, dizem que no Senado a conversa não é lá tão favorável ao governo.
Ou seja, no Senado a CPI tem todas as chances de sair. Portanto, nada mais prudente do que aquele agradinho para que os ânimos sejam contidos. Se no final do ano passado, o aumento salarial dos parlamentares serviria para eleger os presidentes da Câmara e do Senado; agora o aumento (um pouco mais discreto, é bem verdade), também serve para dizer que todos no Congresso podem ser felizes, basta não querer investir pelos caminhos mais tortuosos.
Juro que até pensei em espernear, em gritar, em ficar sem beber água por conta deste procedimento em nossa política. Mas juro que estou cansado demais, velho demais para ficar com raiva deste tipo de prática. Acho até que o Congresso vai aumentar pouco o salário dos senhores congressistas.
Nessa segunda, a Câmara aprovou uma medida provisória que libera mais de R$ 400 milhões de reais para a Presidência da República e uma infinidade de ministérios. E não existe por aí quem esteja realmente preocupado em fiscalizar os destinos desta MP.
Se ao menos uma única liberação deste porte fosse fiscalizada, da assinatura presidencial até o seu destino, veríamos que as coisas funcionariam. O problema é que isso dá uma trabalheira desgraçada para muita gente.
E também seria contra a nossa tradição de ver a verba pública escorrer diante dos nossos olhos. Deixa para lá essa história de fiscalizar MP, de brigar contra aumento salarial de parlamentar e de achar ruim a crise aérea nacional.
Amanhã tem jogo da seleção brasileira no início da tarde. E cá entre nós, não existe coisa mais importante para o país do que uma goleada bem aplicada em outra seleção. Essa história de fiscalizar os gastos públicos do poder público do Brasil nunca acaba bem. Para quem fiscaliza...
Portanto, está bom como está. Se ao menos tivéssemos tido forças para mudar o nosso destino em algum momento de nossa história. Mas isso nunca ocorreu. Somos desgraçados por tradição.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 12:59 AM


Comments: Domingo, Março 25, 2007

A maior das penas

Vi ontem que o Procurador Geral da República, Antonio Fernando de Souza, não tem dúvidas sobre a existência do mensalão. E, na verdade, o que foi o mensalão? O nome se deve ao pagamento de propina (mesada) por parte de integrantes do governo aos parlamentares para que projetos de interesse do governo fossem aprovados no Congresso.
Analistas políticos costumam afirmar que a prática não foi invenção do PT, mas que o partido do presidente da República teria aperfeiçoado a técnica, ou perdido os pudores, ou a aplicado em escala industrial.
Quando o deputado cassado e atual presidente do PTB, Roberto Jefferson, denunciou o esquema ao jornal Folha de S.Paulo, mais ou menos no meio do ano de 2005, muita gente tinha a mais profunda convicção de que o governo Lula acabaria ainda naquele ano.
Mas o que se verificou foi o contrário. O governo saiu fortalecido do episódio e o presidente se reelegeu com uma votação histórica. O Procurador pode dizer que existiu "uma sofisticada organização criminosa" por trás do pagamento mensal de propina a deputados, pode afirmar que espera ¿que o Supremo acolha a denúncia e decida abrir ação penal¿, pode falar o que bem entender.
Mas o governo Lula já foi absolvido. No Brasil, eleição também serve de tribunal. Se um político é acusado de corrupção e consegue renovar o seu mandato, ou até mesmo se elege para um outro cargo, ele está absolvido de todas as acusações. Até mesmo porque ele tem direito ao foro privilegiado, que na prática significa dizer que ele não será condenado.
Recordo de um episódio bastante ilustrativo. No final do ano passado, o Supremo anunciou que ia fazer alguma coisa com a denúncia contra os que teriam praticado o mensalão. E todo mundo sabe como são as mulheres e o Judiciário brasileiro: cheios de mistérios.
Como ninguém entende muito bem o funcionamento desse vai e vem de papeis, lá foi um monte de gente perguntar a um ministro do Supremo Tribunal Federal sobre quando o inquérito (ou seja lá que nome os papéis tenham) que apurava o mensalão seria concluído. E o ministro, com um sorriso indisfarçável, respondeu aos jornalistas: ¿quando vocês estiverem bem velhinhos¿.
Diante de uma situação destas, melhor mesmo é seguir a receita de boa vivência dos mais sábios: esquecer. Devemos esquecer o mensalão, assim como quem esquece de um morto indesejável. Ninguém será punido, como é de praxe por aqui. O que esse caso pode provocar é irritação, desgosto e desilusão em alguns.
E que fique bem claro: em alguns. Uma pesquisa que avalia o governo Lula acaba de ser divulgada pelo noticiário televisivo de final de domingo. 48% dos entrevistados consideram o governo ótimo ou bom; 37% consideram o desempenho do governo regular; e 14% acham que o governo ruim ou péssimo.
Diante de números como estes, não há muito o que se fazer. Apenas reconhecer que, infelizmente, eles venceram. O que não deixa de ser uma pena. Aliás, a maior das penas para todos nós. Menos para eles.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 11:16 PM


Comments: Sexta-feira, Março 23, 2007

A vez dos jornalistas

Entendo o apelo que o assunto tem, e na verdade o assunto é um dos mais relevantes em termos de cobertura política, mas não vejo muita graça na tal da reforma ministerial. Repito que reconheço que o tema é crucial para se fazer a análise política, afinal os ministérios são braços diretos da presidência da República, que controlam verbas astronômicas, e acalmam ímpetos mais ariscos dentro e fora do Congresso.
Um ministério é capaz de calar uma bancada inteira de um partido médio. No caso do PMDB, o governo foi obrigado a ceder cinco pastas à legenda, que de tão grande pode ser considerada uma ¿anomalia partidária¿. Mas deixemos isso para lá. Afinal, não existe governabilidade sem o PMDB, que sempre pula na barca do governo, seja ele qual for.
Realmente, falar que a reforma ministerial não merece atenção seria um disparate, um devaneio. Se bem que eu acho que tenho o direito de achá-la chata. O que gosto mesmo na reforma ministerial é ler, ou ouvir, sobre a biografia do futuro ministro.
Que um ministério controla uma ¿bolada¿ do orçamento, todo mundo sabe; que um ministério serve para conseguir aliados nos partidos, isso não é novidade; que os ministros são indicados por indicação político-partidária; isso sempre foi uma praxe. Mas nunca me canso de saber da vida dos próximos ministros.
Talvez possa vir a ser um indício inconsciente de que eu esteja lá comparando a minha biografia com os que agora estão entrando no governo. Quem sabe eu não tenha lá as minhas aspirações de servir ao país como ministro de Estado... Enquanto muita gente diz que não queria ter a vida de um ministro, eu digo, sem maiores pudores, que o meu sonho é ser ministro.
Para usar da sinceridade absoluta, eu queria mesmo ser um dos Beatles. Mas como isso não é possível, eu me contentaria em ocupar um prédio da Esplanada dos Ministérios. Mesmo que o próprio presidente da República diga que os ministros ganham pouco (algo em torno de R$ 8mil), mesmo que Lula diga que alguns até pagam para trabalhar, eu queria ser um ministro.
E minhas esperanças estão mais do que renovadas depois dessa quinta-feira (22). Num só dia, o presidente Lula resolve nomear dois ministros que são jornalistas. Seria isso um sinal? Muito provavelmente não, mas não custa acreditar que essa moda de nomear jornalistas pegue. Ora, se um médico pode ser o ministro da Fazenda (refiro-me ao ex-ministro Antônio Palocci), tudo é permitido.
Lula chamou o jornalista Miguel Jorge, que é do Conselho Consultivo do Grupo Estado e vice-presidente do banco Santander, para ser o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Miguel Jorge, que já foi editor-chefe do jornal O Estado de São Paulo, tem uma larga experiência na área econômica de bancos e empresas de automóveis. Além de muita experiência em negociação com sindicatos.
O outro jornalista chamado por Lula foi Franklin Martins, que assumirá a comunicação do governo na próxima semana. Franklin era comentarista da TV Globo e atualmente estava na TV Bandeirantes. Ele participou em 1969, junto com o agora deputado Fernando Gabeira (PV-RJ), do seqüestro do embaixador americano Charles Elbrick. Arriscaram o pescoço para trocar o diplomata por ninguém menos do que José Dirceu, à época preso pelo regime militar.
Há quem diga que Gabeira e Franklin Martins deveriam ter sido punidos por práticas terroristas e por terem resgatado José Dirceu dos porões da ditadura. Eu até que poderia assinar embaixo, mas é que estou também disposto a entrar no primeiro escalão do governo federal.
Se bem que, pensando melhor, assino embaixo. Deste governo não quero nem ministério. Mas podemos conversar sobre uma embaixada... Está bem, um consulado.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 1:51 AM


Comments: Quinta-feira, Março 22, 2007

Deixa como está

Apesar de ser absolutamente contrário ao governo Lula, não apóio à criação da CPI do Apagão Aéreo. Motivos nobres para defender a minha posição? Não tenho. Mas o que seria da nossa pobre vida sem a defesa do absurdo...
Tenho um medo ancestral de voar. Para mim, uma das várias possibilidades de inferno seria a de passar a eternidade num assento de classe econômica (com direito aos lanches de avião) de uma empresa aérea nacional.
E se o sistema de som só contasse com Djavan e música de boate, eu teria a mais plena certeza de que o somatório dos meus pecados em vida foi considerado exemplar para o próprio demônio. E por que defender a não instalação da CPI do Apagão Aéreo?
Existem, até este instante do texto, dois motivos bastante plausíveis. O primeiro é desfiar a morte. Voar, sempre foi uma dança com a própria sepultura. Digam o quiserem, mas quem voa, sempre beija a face gelada e pálida da eternidade escura.
E voar no Brasil? O que significa voar no Brasil? Pelo caos que está a nossa aviação, devido a inúmeros fatores (falta de investimento em equipamentos, pessoal e governantes), voar no Brasil é procurar a morte, e querer findar esse devaneio diário que é a vida.
Quem não teme a morte deve, a princípio, ser admirado? Podemos considerar que sim. No entanto, não existe aquele sujeito que, ao saber que a sua vida está em vias de encerramento, não entre em desespero. Talvez esta seja a razão do meu pânico por voar. Não é o medo propriamente da morte. É o medo da consciência de saber que, por algum defeito mecânico ou seja lá o que for, minha vida terminará em 4 minutos.
Mas e os que não temem a morte? Esses voam, no Brasil, e merecem ser admirado, a princípio, pela coragem extrema, ou pela dissimulação serena. O segundo motivo para não instalar a CPI é bastante prático. Na verdade, prático até demais.
CPI que é CPI só serve como palanque para os parlamentares. Não tem efeito prático nenhum. Parece até que a CPI estimula a impunidade no país, tendo em vista que ninguém é punido por meio de uma CPI. Outro mistério seria o cemitério das CPIs.
Portanto, o governo Lula está certo em não criar a CPI do Apagão Aéreo. Primeiro porque voar sempre foi uma atividade de extremo risco. No Brasil, o extremo risco de voar é potencializado a ¿n¿. E como é agradável ver aquele sujeito que sempre se vangloriou de não ter medo de voar, apreensivo diante de um vôozinho besta de 2 horas.
O governo Lula também está certo, quando enterra a CPI, porque palco é o que não falta para os nobres deputados. E, mais do que tudo, acerta em não querer a CPI porque a oposição vai entrar em obstrução das votações, a Câmara não vai votar nada durante um bom tempo (assim espero), e eu não terei que ficar até tarde da noite tendo que acompanhar a TV Câmara.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 12:49 AM


Comments: Terça-feira, Março 20, 2007

Obstruções e obstruções

Entender a política brasileira não é lá tão difícil. Podemos entendê-la por meio da prática de obstruções no Congresso. A oposição, que quer mais do que tudo a instalação da CPI do Apagão Aéreo, obstruí as votações na Câmara (e agora também no Senado ¿ mas nesta Casa é por um outro motivo) como forma de pressionar para que a comissão seja iniciada.
Líderes oposicionistas foram ao Supremo Tribunal Federal, fizeram barulho, não permitiram que as sessões prosseguissem para que a CPI surgisse. E o caos aéreo no Brasil, mais uma vez, se fez presente nesse último final de semana.
Na segunda-feira (19), diversos parlamentares tentaram chegar a Brasília, mas não conseguiram. E os atrasos nos vôos, que se estendem por mais de cinco meses, ainda não foram nem ao menos amenizados. O que, aliás, não é nenhuma surpresa em se tratando de Brasil.
Os partidos de oposição sobem diariamente às Tribunas do Congresso para dizer que a situação em nossa aviação civil é absurda. Um verdadeiro desrespeito ao cidadão em geral e ao consumidor dos serviços aeroportuários em particular.
Confesso que achei que a solução para esse problema seria brevemente encontrada. Afinal, atinge pessoas com poder aquisitivo diferenciado, com poder de pressionar o Parlamento e o governo. Mas estava errado. No Brasil, não há quem possa fazer pressão nas autoridades legalmente constituídas.
E a oposição, que seguiu na obstrução por duas semanas, teve que mudar de opinião na sessão dessa terça-feira (20). Tudo por causa da sessão da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara, que procurava votar requerimento do PT contra instalação da CPI do Apagão Aéreo. As sessões nas comissões começam de manhã e vão até o início da Ordem do Dia, que geralmente ocorre às 16h.
As comissões são divididas por temas. Tem a Comissão de Educação, de Segurança, de Saúde, etc. E é na Ordem do Dia que os deputados, que até então estavam nas comissões, se reúnem para votar os projetos de lei, medidas provisórias e o que mais aparecer.
Quando o Plenário se inicia, as comissões têm que encerrar as suas atividades. Quando o Plenário encerra a Ordem do Dia, seja por qual motivo for, as comissões podem retornar à atividade.
Ocorreu de tudo na CCJ dessa terça. A oposição, em coro, chamou o presidente da comissão de ¿golpista¿. Sem contar a gritaria e a, digamos, ¿investida corporal¿ do líder da minoria, deputado Júlio Redecker (PSDB-RS), contra o presidente da CCJ, deputado Leonardo Picciani (PMDB-RJ).
Redecker foi contido por alguém que eu não faço a mínima idéia e Picciani se retratou com o tucano.
Depois que a Ordem do Dia da terça foi iniciada, a CCJ teve que parar as suas atividades. Desta vez, quem obstruiu as votações no plenário não foi a oposição. Foi o governo. A bancada governista retirou do painel eletrônico o nome dos seus parlamentares, a sessão não alcançou o quorum necessário e teve que ser encerrada.
E a oposição, que estava obstruindo, dessa vez queria votar as medidas provisórias que já estão trancando a pauta de votações. Com a sessão encerrada, a CCJ voltou a funcionar e, após uma discussão rápida, aprovou o requerimento do PT que é contrário à instalação da CPI do Apagão Aéreo.
A CCJ não define se a CPI vai ou não ser instalada. Quem vai decidir sobre a instalação da CPI é o Plenário da Câmara. Ou o Supremo Tribunal Federal. Ou os dois. Ou nenhum. A esperar.
Mas é quase certo que a CPI não vai ser aprovada na Câmara. O governo conta com maioria e não quer, de jeito nenhum, que o dinheiro destinado a aeroportos seja analisado por parlamentares da oposição. A única esperança dessa CPI sair é por meio do Supremo.
No entanto, não duvido que, apesar do caos institucionalizado de nossa aviação civil, o Supremo acompanhe os parlamentares governistas em sua decisão de enterrar a CPI do Apagão Aéreo.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 11:53 PM


Comments: Uma CPI inevitável

Se não fosse o PFL, a vida do governo Lula seria muito mais fácil. Os pefelistas são para o governo Lula, guardando a devida proporção, tão ácidos quanto eram os petistas durante o governo FHC. Ou será que estamos esquecidos dos escândalos dos petistas diante de qualquer projeto do governo anterior? Daquela história do ¿Fora isso¿ ou ¿Fora aquilo¿?
Destaco aqui a atuação de dois deputados do PFL no papel de oposicionistas: José Carlos Aleluia (BA) e Onix Lorenzoni (RS). O baiano é um parlamentar clássico do PFL: nordestino, cara de poucos amigos e um discurso pesado contra o PT.
Sempre que Aleluia vai à tribuna, podemos esperar palavras firmes e sensatas contra o presidente Lula. Aleluia, apesar da antipatia natural dos pefelistas nordestinos, tem o meu apreço. Na verdade é uma simpatia gratuita, porque não consigo encontrar motivos para gostar dele além do ataque pesado dele contra o governo.
Já o gaúcho é, podemos assim dizer, um fenômeno. Em seu segundo mandato na Câmara, Onix Lorenzoni já é líder do partido na Casa. E fala muito bem, e é combativo, e atua com tanta desenvoltura que mais parece que seu destino sempre foi o de ser líder do partido. Ainda acho que quando o Brasil deixar desta conversa besta de ter o PT no governo, o nome de Lorenzoni será fundamental.
Os dois deputados do PFL, juntamente com mais alguns outros - Arnaldo Faria de Sá (PTB-SP), Júlio Redecker (PSDB-RS), etc ¿ são heróis. Estes parlamentares são os responsáveis pelo equilíbrio democrático na Câmara. E, verdade seja dita, o PFL, o PSDB e o PTB são partidos de muito maior conteúdo na oposição (até mesmo por conta da experiência como governo) do que o PT era.
O PT no governo sempre tem aquela cara, aquele jeito, de estagiário. O PMDB, que é a muleta de todo governo, caminha, sabiamente, para onde o governo for. E qual seria o partido político capaz de desprezar cinco ministérios?
A oposição está obstruindo as votações no Congresso há quase duas semanas. Como também não é uma oposição profissional, ainda se votou um projeto sobre exploração sexual. Mas o fato é que os partidos oposicionistas querem mais do que tudo que a CPI do Apagão Aéreo seja instalada.
O governo não quer a CPI de jeito nenhum, até porque sabe que se alguém for mexer nessa história de dinheiro para aeroportos, vai aparecer coisa não muito agradável para a tal da governabilidade. Levaram a questão para o Supremo, que pede informações mais detalhadas ao Parlamento, que decidirá por meio da CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) se o pedido de CPI é legítimo ou não.
A obstrução das votações, que é uma prática democrática e bastante utilizada pelo PT na época em que era oposição, seguirá até que essa questão da CPI seja decidida.
O governo até que tentou dizer que não era necessário criar uma CPI para investigar o problema. Até que outra série monstruosa de atrasos nos mais diversos aeroportos do país fez com que mais de uma centena de deputados não conseguissem chegar à Brasília a tempo de participar da sessão de hoje.
Agora, parece que a CPI vai sair. Viram que o atraso nos vôos também atinge as votações. E o governo precisa votar. Várias medidas provisórias trancam a pauta e precisam ser analisadas. E a oposição continua até que a CPI seja instalada, heroicamente, em obstrução.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 12:07 AM


Comments: Domingo, Março 18, 2007

O cifrão nos guiará

O escritor italiano Cesare Battisti, que também é foragido da Justiça francesa e italiana, foi preso ontem em Copacabana, no Rio de Janeiro. Não conheço a obra do italiano, mas li por aí que ele é apontado como ex-terrorista de extrema esquerda.
O italiano estava foragido há 26 anos e foi condenado à prisão perpétua em 1993 pela morte de quatro pessoas entre 1978 e 1979. Já disse que não conheço nem a história, muito menos a obra do italiano. O que conheço, talvez menos do que deveria, é a história da esquerda.
Como estudante de universidade federal, nos tempos de Fernando Henrique Cardoso, tinha por obrigação ser de esquerda. Entre os meus colegas de faculdade, ninguém discutia se alguém era de direita ou de esquerda. A discussão era: quanto esquerdista você é.
E os instrumentos da esquerda, como a patrulha ideológica, corriam soltos nas universidades federais brasileiras. Naquela época, todos tinham a mais plena certeza de que o petismo era a salvação para o país. Ou, o que talvez seja até mais grave: todos tinham a certeza de que o petismo era a única salvação possível para o país.
Daí Lula venceu a primeira eleição presidencial, venceu a segunda eleição presidencial e estamos nós na mesma. Ou melhor: estamos piores do que estávamos. Não por culpa do nosso governo. Mas por culpa do mundo, que não deixa o Brasil ser o melhor lugar para se viver sem que seja necessário qualquer investimento, de qualquer espécie.
O próprio presidente Lula chegou a afirmar, há algum tempo, antes do Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça, que quem tem mais de sessenta anos, e é de esquerda, tem algum problema. Sou obrigado a concordar, em termos, com Lula. Na verdade, ele foi muito generoso no prazo para se deixar de ser um entusiasta da esquerda.
O que talvez seja a pior característica das esquerdas é a falta de humor. E o humor, dizem os estudiosos, é um sinal de inteligência. Governos de esquerda costumam não admitir críticas, de nenhuma natureza. Um dos irmãos Caruso, não sei se o Chico ou o Paulo, afirmou que os políticos de esquerda não se dão bem com as charges publicadas em jornais. Ao passo que os de direita são admiradores do trabalho da charge política. Chegam até a colecionar as próprias caricaturas. Delfim Neto é um deles...
Não estou aqui nem para defender, nem muito para menos para fazer apologia das ideologias políticas. Até porque elas já nem existem mais. São como adereços de pensamento sem função, perdidos num mundo que não está mais preocupado se o sujeito defende isso ou aquilo. Já se foi o tempo em que o planeta ainda se preocupava com essas baboseiras ideológicas.
Hoje, somos mais práticos. Mais estúpidos também, mas não é possível evoluir para todos os lados. Então, deixamos de ser sonhadores (afinal sonho não paga a conta do supermercado) e passamos a dar importância exclusiva ao dinheiro, sem essa bobagem de se preocupar sobre a direita ou a esquerda.
Elas morreram. A única função da direita e da esquerda na atualidade é meramente arqueológica. Serve para nos ensinar o quanto somos capazes de errar cada vez mais. Bom, para não dizer que elas não servem mais para nada, elas servem para vender camiseta em centros acadêmicos e tanger uma massa de garotos ainda esperançosos na humanidade.
Eles perderão suas esperanças antes dos trinta. E no ritmo dos dias de hoje, eles perdem a esperança tarde demais.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 11:25 PM


Comments: Segunda-feira, Março 12, 2007

Já era hora

A oposição prometeu e, ao que tudo indica, vai cumprir a sua promessa de obstruir as votações da Câmara até que a CPI do Apagão Aéreo seja instalada. Um monte de deputados foi ontem ao Supremo Tribunal Federal para tentar fazer com que o Judiciário, mais uma vez, meta o bedelho nos assuntos do Legislativo.
Talvez essa seja uma de nossas maiores virtudes: os poderes se misturam sem maiores pudores. O Executivo legisla, o Legislativo julga, e o Judiciário Executa (se não me engano, foi o Joelmir Beting quem disse isso, mas não sei ao certo se a ordem está correta).
A obstrução da pauta da Câmara é um assunto adocicado para quem, como eu, trabalha na cobertura do Congresso. Quando a pauta está trancada, a fofoca, as conversas de corredor, as picuinhas, afloram como mato em terreno baldio.
Quando a pauta está trancada, tudo faz muito mais sentido em política. Os deputados têm mais tempo para denunciar, denegrir e caluniar o que quer que seja, o nível da agressão legislativa tende a ficar maior, e o povo, por conseqüência, começa a entender melhor o que se passa.
Até porque, não existe mais de duas dúzias de pessoas no país que entendam o funcionamento do Legislativo. E digo isso com uma certeza fulminante. Nem mesmos, e principalmente, os deputados entendem. O presidente da Câmara, deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP), estava impondo um ritmo de votação que fazia com os líderes dos mais do mais diversos partidos fossem obrigados a dizer, sem qualquer constrangimento, que não estavam entendendo o que estava sendo aprovado ou rejeitado.
Na campanha para a presidência da Câmara, um dos candidatos, o então presidente Aldo Rebelo (PCdoB-SP), chegou a dar uma espécie de aula aos deputados de primeira viagem, para que eles não ficassem tão perdidos como, ainda hoje, estão.
A atividade legislativa em si é muito chata. Bom mesmo é o tempero que o Congresso brasileiro dá ao Parlamento. Ou existe algo que atraia mais a atenção do povão do que deputando acusando deputado, deputando prestando depoimento na Polícia, Supremo concedendo hábeas corpus preventivo a empresário e ministro, e toda a sorte de tormentas que vimos em 2005?
E no meio dessa confusão (uma crônica de Rubem Braga, chamada ¿Despedida¿, começa assim), alguém pode se perguntar: mas por que o governo está com tanto medo dessa CPI? De acordo com levantamento feito pela Folha Online, existe um receio de que verbas da Infraero sejam analisadas com maior cuidado do que geralmente são.
Parece que o dinheiro que seria para um fim, foi para outro (uma tradição em se tratando da administração das finanças públicas brasileiras). E então, a CPI do Apagão Aéreo está tornando o Congresso, enfim, uma Casa da política nacional.
E já estava na hora de alguém aparecer e parar com essa conversa de fazer da nossa Câmara uma máquina de votar projetos e medidas provisórias. Isso é muito chato e torna a política um exercício distante de nossas raízes. Bom mesmo, para todos, é a confusão.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 11:48 PM


Comments: Educação, de vez em quando, serve para algo

De vez em quando, aparece alguém no Brasil e berra com um desespero incontido: Educação é tudo! E torna a repetir: Educação é tudo! Sempre que isso acontece, dezenas de Organizações não governamentais são formadas, grupos de estudantes universitários visitam comunidades carentes e comitês parlamentares são formados para, mais uma vez, avaliar o quadro da educação em nosso país.
Constatada a péssima qualidade de nossa Educação, e talvez até o seu quadro irremediável, o pessoal vai esquecendo dela, que acaba, mais uma vez, marginalizada. E sempre será assim. Mas por que razão será que falam tanto que a educação é importante? Por que ninguém tem a coragem de dizer que existem formas de educação que são rentáveis, importantes economicamente, capazes de impulsionar o crescimento econômico de um país; e existem formas de educação na qual o sujeito se torna um poço de cultura, mas incapaz de conseguir dinheiro com seu conhecimento?
O problema brasileiro é que, por aqui, não se formam nem cientistas, nem amantes da poesia. Qualquer modalidade de Educação é desencorajada no Brasil. Vamos tratar da Educação rentável, capaz de produzir cientistas, de fazer com que as nossas exportações cresçam.
O brasileiro, por sua história, por sua vocação, e por seu destino, não pode desprezar jamais a agricultura e a pecuária. O que seria do Brasil sem as exportações de produtos agro-pecuários? O que seria de um país continental, de clima tropical, onde degradados e escravos conviviam com nativos? Um Estado ausente por ideologia, que é capaz de sangrar o seu povo com impostos criminosos, e, ao mesmo tempo, sempre foi incompetente para oferecer os serviços mais básicos aos seus...
A visita do presidente americano ao Brasil, George W. Bush, na semana passada, teve um único motivo: diminuir a dependência dos Estados Unidos do petróleo (vendido aos americanos, inclusive, por Hugo Chávez, presidente da Venezuela).
E por que Bush veio ao Brasil? Porque há 35 anos o Brasil permanece com uma história de produzir álcool da cana de açúcar, que serve de combustível para automóveis. O conhecimento que o Brasil adquiriu nessas três décadas vai servir, e muito, para que os americanos aproveitem. Não é difícil imaginar que os cientistas brasileiros que podem auxiliar a América a solucionar o problema da dependência do petróleo, via etanol (álcool da cana), vão para os EUA.
Eis um exemplo prático para demonstrar que a Educação serve para alguma coisa além dos discursos políticos. O Brasil, maior produtor de cana de açúcar do mundo, firmou parcerias com os americanos. Mas e agora? Será que o etanol brasileiro vai inundar a economia dos Estados Unidos? Será que os subsídios que o governo americano dá aos seus agricultores vão, ao menos, reduzir?
A resposta, evidentemente, é não. Os Estados Unidos produzem álcool a partir do milho. O Brasil, a partir da cana. Temos experiência de três décadas com o etanol. Mas vamos investir R$ 40 milhões em pesquisas no setor neste ano. Os americanos, além de puxar o nosso conhecimento no assunto, o que fez com que eles chegassem ao ponto que chegaram (a importação de conhecimento), vão investir, apenas em 2007, US$ 1,6 bilhões na questão dos biocombustíveis.
A questão energética, que sempre motivou guerras e é mais do que estratégica para qualquer país, caminha na direção dos biocombustíveis, até porque poluem menos do que os derivados do petróleo. E o Brasil está na ponta do conhecimento deste processo. Apesar do nosso descaso congênito com a Educação.

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postado por: RODOLFO TORRES 12:17 AM


Comments: Sexta-feira, Março 09, 2007

Erro presidencial não existe

Ao contrário da visita do presidente americano, George W. Bush, ao Brasil; a visita do presidente alemão, Horst Köhler, foi mais do que tranqüila. Foi diplomática até demais. É evidente que as visitas têm as suas diferenças, os seus pesos, as suas peculiaridades. Nada disso está, de maneira alguma, sendo desconsiderado aqui.
A primeira diferença é a geografia da visita. Bush está em São Paulo ; Köhler, em Brasília. Os Estados Unidos adotam o presidencialismo como forma de governo. Por sua vez, a Alemanha é parlamentarista. Mas a grande diferença entre um presidente e outro é que Bush provoca ira e revolta por onde passa. Já o presidente alemão, além de discreto, é também muito elegante.
Ele almoçou com Lula na capital federal, falaram entre outras coisas do biocombustível, seguindo aquela onda generalizada de preocupação com o meio ambiente, moda que até Bush está tentando entrar, depois de passar anos e mais anos negando os efeitos do tal efeito estufa para a vida na Terra.
"O presidente Lula me convenceu quanto é importante os biocombustíveis. É importante a liderança do Brasil nesse segmento. Somos quase parceiros naturais e temos que olhar para a experiência do Brasil na eficiência energética¿, disse o presidente alemão.
Lula, por sua vez, criticou o protecionismo dos países ricos aos seus produtos. O que, por conseqüência, impede que os produtos dos países, digamos, não tão ricos, conquistem mercado em terras mais civilizadas. Os Estados Unidos taxam, e muito, os produtos do Brasil. Resultado: o preço do produto brasileiro fica mais caro para os consumidores americanos. A União Européia, que também não tem nada de santa, empurra imposto nos produtos Made in Brazil.
Apesar de estar ao lado do presidente alemão, Lula estava com a cabeça no encontro com Bush. E falava dos Estados Unidos como que por necessidade de treinar o que fosse dizer a um dos poucos homens que detêm o poder de decidir quando a vida no planeta vai acabar.
Dizem que a visita de Bush ao Brasil tem um motivo muito específico: realizar uma parceria com o governo brasileiro para saber o que diabo é esse tal biocombustível, energia que fará com que o petróleo perca a sua força (ao menos em médio prazo). O petróleo perdendo a sua força, um sujeito chamado Hugo Chávez, que preside a Venezuela, deixa de ter voz no continente latino americano. E isso seria o céu.
O venezuelano também decidiu visitar outros países e está na Argentina, para fazer uma espécie de tour anti-Bush pelo continente. Em seu raciocínio, os Estados Unidos é o grande demônio. Demônio este que compra o petróleo da Venezuela.
Bush está certo em tentar anular o poder de Chávez. Chávez está certo, em sua função de bobo da corte, de fazer a sua viagem anti-imperialista. O presidente alemão está certo ao defender o meio-ambiente. E Lula, mais do que todos os outros, acertou quando afirmou, na última quarta feira, em evento sobre doenças sexualmente transmissíveis, que ¿quase todo mundo gosta de sexo¿.

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postado por: RODOLFO TORRES 12:21 AM


Comments: Quinta-feira, Março 08, 2007

A boa forma da Câmara

Digamos que a Câmara dos Deputados voltou à boa forma de sempre nessa quarta-feira, dia em que geralmente a Casa está cheia porque é justamente o meio da semana parlamentar. É também na quarta-feira que os prostíbulos da capital federal ficam mais animados...
Mas dizia eu que a Casa de todos os brasileiros voltou à boa forma. E por que a Câmara voltou aos tempos áureos ontem? Por causa da gritaria, do clima de feira, da briga desavergonhada. Tudo por conta da criação de mais uma CPI. Desta vez, os deputados querem ver o que aconteceu naquele acidente terrível do boeing da Gol, que vitimou 154 pessoas em setembro do ano passado.
Estava tudo certinho até demais. A Câmara aprovando projetos, medidas provisórias, e outras de suas atribuições. Tudo estava transcorrendo como se aqui fosse um país escandinavo. O presidente da Câmara, Arlindo Cgingalia (PT-SP), teria inclusive encomendado um estudo para mostrar que, sob a sua tutela, a produtividade da Casa legislativa era um primor.
Mas queriam instalar essa CPI, o próprio Chinaglia já havia anunciado a criação desse instrumento do Legislativo, quando o líder do PT na Câmara, deputado Luiz Sérgio, resolveu pedir para que a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Casa verificasse se a CPI era ou não legítima. De acordo com o petista, a CPI do Apagão Aéreo não tem razão de ser, pois não tem objetivo definido; e a Polícia Federal já está em campo para saber o que diabos aconteceu naquele triste dia de setembro.
Outro objetivo desta CPI é estabelecer as razões daqueles atrasados monstruosos aos quais milhares de passageiros foram submetidos no final do ano passado e início deste.
A lógica de instalação das CPIs não vai mudar nunca. O PT, partido que só conseguiu aparecer aos olhos do país berrando por comissões parlamentares de inquérito, desta vez não vê razoes para que se investigue os motivos dessa verdadeira piada que é o sistema aéreo brasileiro. E quem poderia ser capaz de dizer que chegaríamos a ver o dia em que o PT não queria instalar CPI?
Por outro lado, o PFL e o PSDB eram os mais sedentos pelas investigações. Tucanos e pefelistas esbravejavam aos quatro ventos, pedindo a todos os santos que a comissão fosse instalada. Esse lado da CPI é até interessante. A tal da dança das cadeiras do poder, que dizem ser bastante salutar para a democracia nacional. PT barrando CPI, PSDB e PFL querendo uma CPI mais do que tudo.
O lado triste dessa história é que a CPI, como toda CPI que se preze, não vai dar em nada. Talvez até coloque a culpa pelo acidente do avião da Gol nos pilotos americanos, que já foram liberados pela Justiça brasileira há muito tempo, e que não voltam para o Brasil nunca mais.
É triste saber que tanta briga só existe por conta de palanque. Não que eu seja contra ao trabalho inútil. Mas CPI que é CPI não dá em nada, desgasta excessivamente o governo vigente e é o grande palanque das oposições. Se tucanos e pefelistas souberem fazer, farão o PT sentir um pouco mais do seu veneno.
O PT merece todo e qualquer tipo de investigação contra o seu governo. Ah, merece sim...

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 1:25 AM


Comments: Quarta-feira, Março 07, 2007

O tempo e a imagem

O governo Lula está se especializando em adiar o anúncio da reforma ministerial. Quando o presidente foi reeleito, ele sabiamente afirmou que não tinha pressa, e aguardou a aprovação do Orçamento para 2007. Então o Congresso aprovou o Orçamento ainda em 2006, fato raro quando estamos falando de Brasil.
Depois da aprovação do Orçamento, a desculpa para não anunciar o novo ministério foi a eleição para a presidência da Câmara dos Deputados. Conversa vai, conversa vem, acordo vai, acordo vem, e o governo elegeu o seu candidato de reta final de eleição, o petista Arlindo Chinaglia (SP).
No Senado, o então presidente, Renan Calheiros (PMDB-AL), candidato mais do que declarado do governo, também levou a disputa. E todos tinham a mais plena certeza de a reforma ministerial sairia. Daí o governo falou que os nomes só sairiam depois que o presidente nacional do PMDB fosse eleito.
A eleição do PMDB, sabiamente considerada estratégica pelo governo Lula (e por qualquer outro governo), será no próximo dia 11 de março, um domingo provavelmente ensolarado, em Brasília. Concorrem ao cargo o atual presidente da sigla, deputado Michel Temer (SP), e o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal Nelson Jobim.
A disputa até que estava interessante, mas Jobim ficou chateado com Lula porque, ao que tudo indica, o presidente vai nomear um deputado muito ligado a Temer, Geddel Vieira Lima (PMDB-BA), como ministro da Integração Nacional. Geddel, além de ser muito próximo de Temer, é da cota do governador baiano, Jaques Wagner (PT), confidente do presidente Lula.
Sem contar que Lula chamou Temer para uma conversa reservado no Palácio do Planalto. Essa foi a gota d`água para Jobim, que desistiu de sua candidatura à presidência do maior partido brasileiro. A candidatura de Jobim, que foi lançada por duas figuras de peso do Senado: o próprio presidente Renan Calheiros e o senador José Sarney (PMDB-AP); não conseguiu sobreviver às articulações do que parte da imprensa brasileira resolveu intitular de ¿PMDB- Câmara¿.
O ministro das Relações Institucionais, Tarso Genro, saiu em defesa de Lula e afirmou que o governo não se meteu, nem vai se meter, na disputa pela presidência do PMDB. A grande esperança dos que sonham com um ministério é que o governo resolva, por fim, anunciar na próxima semana os nomes que vão ocupar a Esplanada dos Ministérios.
O governo Lula sabe muito bem usar o tempo a seu favor. Durante o escândalo do mensalão, quando muita gente acredita piamente que Lula não chegaria ao final do primeiro mandato, os petistas (auxiliados, inclusive, por tucanos e pefelistas) moldaram o tempo a seu favor e souberam fazer com que a poeira baixasse.
Não é uma tarefa fácil acomodar aliados sedentos pelos cargos que a administração pública brasileira é capaz de ofertar aos indicados dos auxiliares do presidente. E, mais uma vez, o governo Lula usa o tempo a seu favor, moldando a seu gosto as votações que lhes são interessantes. Bom, política é isso.
Além de usar o tempo, e as diversas eleições a seu favor, o governo sabe como ninguém explorar o lado ¿conciliador de interesses¿ do presidente Lula. No primeiro mandato do petista, a moda era a tal da ¿reunião ministerial¿. E lá ia a imprensa cobrir o presidente ao redor dos seus ministros. De vez em quando, talvez quando o tédio fosse muito grande, Lula convocava os seus ministros para aparecerem na TV.
Aquela era uma outra época, com ministros mais famosos, petistas clássicos, uma espécie de ¿Real Madri da Esplanada¿: José Dirceu, Antônio Palocci, Luiz Gushiken, etc.
Hoje, os tempos são outros. Os ministros têm um perfil ¿mais técnico¿, como gostam de falar os analistas. Eles não têm o carisma de atrair às TVs como tinha a antiga equipe do presidente.
Então, o governo teve uma outra idéia: chamar os governadores dos Estados e o governador do Distrito Federal para se reunir com o presidente. E lá vai o nosso Lula se reunir com os líderes estaduais, na frente das câmeras de TV, para ouvir suas lamúrias, dizer que falta dinheiro para ajudar a todos como gostaria e que a guerra fiscal entre os Estados brasileiros deve acabar.
O roteiro é velho, é batido. Todos sabem que as reuniões acabam sem resultado prático. Mas até que fica legal na foto ver o presidente e os governadores reunidos. Mais um ponto para o governo.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 1:17 AM


Comments: Terça-feira, Março 06, 2007

Todos ganham

Reforma ministerial é sempre um assunto digno de primeira página, até porque as primeiras páginas são geralmente indignas. Antigamente o sujeito mais idealista poderia resmungar pelos quatro cantos a afirmar que a mudança na Esplanada dos Ministérios não serve para muita coisa além de alimentar aquela velha fogueira vaidosa dos corredores do poder.
Talvez hoje esteja mais claro o entendimento de que política é isso mesmo, que ministérios, estatais, cargos de confiança e tudo o mais servem para acomodar aliados políticos, que dessa forma garantem a tal da governabilidade.
É um jogo bem simples, bem primário. Você me ajuda aqui que eu te ajudo ali. É como a vida. Nada mais simples do que uma aliança política. No caso do Brasil, que não tem lá essas tradições todas em campos como o da política, os acordos são mais do que circunstanciais.
Uma indicação para um ministério pode ser definida em um ¿bom dia¿, em um sorriso mais sincero no início da manhã. Não vamos cair naquela história de que as indicações seguem o critério do preparo e da competência. Afinal, o Brasil se constituiu por meio do nepotismo, da indicação do amigo influente, e por aí caminhamos longos 500 anos.
Também é encantado o argumento que os políticos usam para justificar suas indicações. ¿Não vou contratar um inimigo¿. Pensamento semelhante encontramos no período de Copa do Mundo, quando todo mundo vira analista tático e muita gente diz que ¿Copa é Copa¿ com um ar de extrema profundidade.
Já proclamei algumas vezes e não me canso de repetir: política é a mais irracional das atividades humanas. Quantos ministros não foram afastados por ciúmes presidenciais? Quantos ministros não foram nomeados por ciúmes presidenciais?
A reforma ministerial do governo Lula é urgente, é notícia, não porque ela seja importante no aspecto prático. Ora, Lula foi reeleito, já tem a sua equipe de ministros formada. Ele está mais do que certo quando afirma que não tem pressa para formar a sua equipe, que já está formada.
O problema é que depois da reeleição presidencial, depois da eleição do presidente da Câmara e depois de outras circunstâncias mais discretas, os aliados de Lula estão mais do que ansiosos pelo controle das mais variadas pastas do governo federal.
Quem não ganhou ministério, ganha a presidência de uma estatal, ou uma secretaria de governo, ou uma embaixada, um cartório, um jantar, um churrasco, o diabo. Mas todo mundo tira o seu. Isso é o que existe de certo numa reforma ministerial: todo mundo tira o seu.
Os nomes que comandarão os ministérios não são importantes. Nem muito menos a qualificação que esses nomes deveriam ter. Fundamental é notar que ministério é moeda de troca para apóio político. Até porque não seríamos brasileiros se assumissem cargos públicos as pessoas mais qualificadas.
O que nos faz brasileiros nessa história é uma constante capacidade de rir desse escambo político histórico. No governo, a festa é constante. A festa é eterna.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 12:06 AM


Comments: Segunda-feira, Março 05, 2007

Greve podada

Estranho acordar e, após pensar no que o dia aguardar, lembrar que o presidente Lula assistiu ao filme ¿Dois Filhos de Francisco¿ por meio de um DVD pirata. Ele estava no avião da Presidência da República e viu o filme que trata da história de vida da dupla sertaneja Zezé di Camargo e Luciano com o auxílio de uma cópia pirata. Mas isso já faz muito tempo e não faz a menor importância.
Importante mesmo é falar de um projeto do governo que quer colocar ordem nas greves do setor público. Vejam só que coisa mais irônica: o governo de um sujeito que se tornou conhecido nacionalmente liderando greves quer impedir que categorias do setor público exerçam esse direito.
Se bem que Lula liderou greves de metalúrgicos no ABC paulista, o que nem de longe é comparado às maravilhas do serviço público. Mas o que seria do PT sem o apoio e a reverência incondicional do funcionalismo público? O PT só foi possível porque os funcionários públicos brasileiros abençoaram o partido e o carregaram na alma durante duas décadas.
E agora o governo do mais famoso grevista que o Brasil produziu quer colocar ordem numa das maiores instituições do serviço público nacional: a greve. Ora, se Lula quer limitar o funcionalismo público a fazer greve, tudo e mais um pouco será possível no Brasil. Nada mais contraditório que o presidente Lula querer colocar ordem em algo, principalmente se esse algo é a greve do setor público.
É claro que as centrais sindicais já estão reclamando dessa idéia do governo. Mas elas não podem fazer mais do que barulho. O problema é que o barulho que as centrais sindicais fazem hoje não tem o charme e nem conta com a benevolência de grande parte da imprensa como o barulho que fazia Lula em seu tempo de líder de greve.
E só para variar um pouco, não serão muitos os que vão lembrar do passado de Lula. Afinal, questionar as ações do presidente da República se tornou um dos maiores tabus do nosso tempo. Ninguém está autorizado a falar do que defendia o Lula antes do Planalto.
Outro ponto que não podemos também comentar diz respeito à escolaridade do presidente. Já ia esquecendo que não é de bom tom levantar a discussão sobre a conivência do presidente no mensalão, ou ao fato do seu filho ter enriquecido escandalosamente da noite para o dia.
Assim como os presidiários, os políticos brasileiros também têm o seu código de ética. Um deles diz respeito a não envolver negócios de parentes na discussão pública. A casa pode cair dentro do Congresso, dentro do governo, dentro do que quer que seja. Mas falar dos negócios da esposa do senador, do irmão do deputado, da sobrinha do ministro ou do filho presidente; isso não.
Bom, mas falava eu da greve. O que será do petismo com o instrumento constitucional da greve limitado? O que seria da história de Lula sem a greve? O que será do funcionalismo público com o direito de greve engessado? Questões menos importantes para um cotidiano de tragédias...

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 12:43 AM


Comments: Sexta-feira, Março 02, 2007

Nem reza dá jeito no PIB

A semana trouxe consigo a divulgação do crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro do ano passado, e, como de costume, só estamos na frente do Haiti. O que não é nenhuma surpresa, tendo em vista que ambos os países estão em guerra civil, têm profundas desigualdades sociais e são donos de uma miséria que é capaz de deixar o Satanás encabulado.
E cá estava eu pensando, a caminho do trabalho, depois de um almoço leve, e com a música ¿Whiskey in the Jar¿ (The Dubliners) remoendo na cabeça: o que podemos esperar de um presidente da República que não tem nem ao menos o primeiro grau? Se é o presidente da República, em última análise, o responsável pela nomeação da equipe econômica do governo, da equipe do Banco Central, além dos ministérios afins: Desenvolvimento, Planejamento, Agricultura, etc?
Mas não fica bem dizer que o presidente da República é um analfabeto funcional, tendo em vista que ele tem a admiração de muita gente boa por aqui. Resta saber que o presidente da República só tem escolaridade suficiente para ser presidente da República do Brasil. Creio que com essa escolaridade baixa, nem presidente do Haiti ele poderia ser, caso fosse haitiano.
Nessa conversa de ficar lamentando o baixo grau de instrução presidencial, acabei nem revelando o pífio crescimento da economia do Brasil em 2006. Irrisórios 2,9%. Enquanto o mundo cresceu a 5,1%, o Brasil continua perdendo o bonde e ficando para trás. Pior é que, como disse o senador Cristovam Buarque (PDT-DF), ¿estamos nos acostumando a ficar para trás¿.
O Haiti cresceu 2, 5% em 2006. Deste, nós ganhamos. Vamos agora aos que países que cresceram mais do que nós. A Argentina, pelo quinto ano consecutivo, cresceu quatro vezes mais do que nós. A Venezuela, apesar do presidente, cresceu 10,3%. Um crescimento econômico próximo ao crescimento chinês, que foi de 10,7%. A Índia cresceu 9,2% e a Rússia, 6,7%.
E qual foi a reação do governo? Lula tomou café da manhã ontem, ou seja, no dia seguinte à divulgação do PIB, com um seleto grupo de jornalistas. Falou o de sempre, como sempre. Talvez a única novidade é que ele admitiu que não vai tentar mudar a Constituição para garantir um terceiro mandato - coisa que eu duvido e muito (tenho certeza de que Lula vai buscar o terceiro mandato).
O presidente conversou com os jornalistas, ficou naquela conversa besta por duas horas, posou de estadista, falou que o crescimento brasileiro existe com distribuição de renda (no entanto, ele esqueceu de mencionar o lucro dos bancos), e de outros menores. Mas Lula teve que se sentar com a imprensa para justificar essa vergonha em forma de PIB.
A outra providência do governo foi mais prática. O Banco Central já avisou que o seu diretor de Política Econômica, Afonso Beviláqua, vai deixar o cargo. Ele, que é um dos maiores defensores da política de juros elevados adotada pelo BC, vai sair, após muita chiadeira, principalmente de membros do governo.
Por fim, fica a análise do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. ¿O Brasil não está acostumado com política econômica de sucesso¿. E o pior é que ele tem a sua razão, tendo em vista que o PIB é positivo. E a escolaridade de Lula, também.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 12:39 AM


Comments: Quinta-feira, Março 01, 2007

El troco

Seguindo a tradição desta semana, a Câmara continuou a aprovar medidas provisórias que o governo manda para o Congresso. Até aí, nada demais. A novidade do dia foi a retirada de pauta de 13 MPs, além da confusão que foi aprovar ou não uma medida provisória que libera R$ 20 milhões para o Itamaraty fazer acordos com a Bolívia.
Não é, nem de longe, uma atitude elegante falar mal da Bolívia, principalmente porque eles só nos vencem em tratados bilaterais, mesmo tendo uma economia muito menor do que a nossa.
Certa noite, fui a um seminário do então funcionário do Ministério das Relações Exteriores que estava na ¿geladeira¿, por ser contra à Alca (Área de Livre Comércio das Américas). À época, governo FHC, ainda existia aquela história de Fora FHC, Fora FMI, e outros Foras por aí.
O embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, atual Secretário Geral do Itamaraty, explicou ao pessoal que a Alca não seria um bom negócio, principalmente para nós, brasileiros. O diplomata era enfático ao citar a nossa grandeza econômica em relação aos nossos vizinhos, como o Paraguai, Uruguai e Bolívia. Como exemplo, ele citou um episódio da diplomacia nacional.
Certa vez, o Brasil queria vender algum produto qualquer para os bolivianos. Os bolivianos até que não se opuseram ao acordo, mas exigiram, em contrapartida, que o Brasil comprasse a produção de 1 ano de cerveja deles. Samuel Pinheiro Guimarães, que trabalhava em algum departamento de relações econômicas do ministério, pediu um estudo de impacto na economia brasileira, caso a produção de 1 ano de cerveja boliviana fosse adquirida.
Feito o estudo, chegou-se à conclusão de que a produção de 1 ano da cerveja da Bolívia corresponde ao consumo de um final de semana, durante o verão, da cidade do Rio de Janeiro. Ou seja, em dois dias do verão, os cariocas bebem a produção de cerveja de 1 ano da Bolívia.
O caso foi externado para mostrar que a Alca seria conosco, brasileiros. Não com os outros, mas com essa potência na capacidade dos seus de consumir chamada República Federativa do Brasil.
A Câmara aprovou, depois de muita conversa, de muita ladainha, a liberação desse ¿troco¿ para a Bolívia (é claro que estamos tratando de cifras de Estado). No entanto, o Brasil peca ao liberar essa verba aos bolivianos. O presidente de lá, assim como o de cá, só dá prejuízos ao Brasil. Basta ver a celebra invasão das refinarias da Petrobras, basta ver os acordos sobre compra de Gás Natural, que vai aumentar o preço do produto para os brasileiros e garantir um lucro extra de US$ 100 milhões, por ano, aos nossos vizinhos.
O governo Lula tem um verdadeiro fetiche em ajudar Evo Morales. Toda desculpa é válida para dar mais e mais dinheiro para os bolivianos. E se existe uma pergunta implícita nesta bondade de Estado é: deste dinheiro, quanto é que realmente vai para os bolivianos?

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 12:40 AM



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