Confraria dos Crônicos

De crônica, não basta a vida!



Comments: Quarta-feira, Fevereiro 28, 2007

Considerações sobre nós

Uma coisa consegue me chamar a atenção diante do verdadeiro cenário de guerra que é a cobertura do Congresso Nacional: a facilidade com que bilhões de reais são liberados para os mais variados fins. Sei que posso estar me tornando repetitivo, e talvez até esteja mesmo. Na verdade, esta é a sina dos que escrevem sobre um mesmo Parlamento.
Mas é que a liberação dos bilhões me encanta. Sempre que uma medida provisória é aprova, seja na Câmara, seja no Senado, sinto que um pouco do meu esforço está lá. Não deveria sentir isso, afinal sou cidadão brasileiro e, como tal, não vejo nem de longe o retorno dos impostos. Mas sinto um orgulho besta, uma estranha sensação de estar colaborando com o enriquecimento de outro.
Vamos analisar a liberação de verbas das duas Casas Legislativas apenas nos dois primeiros dias úteis dessa semana. A Câmara, por meio de três medidas provisórias, liberou a bagatela de R$ 1 bilhão e 72 milhões. Parece que até os Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro deste ano vão receber uma parte desse dinheiro. É preciso um pouco de boa vontade para acreditar nisso, mas essa é a vida...
O Senado, que não deixa barato, também liberou o seu bilhão de reais. E mais uns 106 milhões. Tudo isso, também, por meio de medida provisória. O eu podemos extrair dessa conversa toda. Podemos chegar à conclusão de que o Brasil tem lá o seu dinheiro para ser liberado, o que não é nenhuma novidade.
A outra conclusão é a de que o Parlamento serve, pelo menos nessas últimas semanas, para liberar dinheiro para o Executivo. Nas semanas anteriores, o Congresso servia para produzir escândalos e para ser tripudiado. Agora, o pessoal até que está mais sereno com os parlamentares.
Em apenas uma semana, cada Casa do Congresso libera mais de um bilhão de reais, e o assunto não rende nem ao menos conversa de padaria, de manicure, de ponto de ônibus, de fila da sopa. O brasileiro nem ao menos sabe que o Congresso pode liberar essa fortuna.
Falando em fortuna, um senador alertou para os jogos de azar da Caixa Econômica Federal. De acordo com o parlamentar, existe um esquema de lavagem de dinheiro na loteria da Caixa. Parece que tem gente comprando bilhete premiado de loteria para limpar dinheiro sujo. O senador fez a denúncia na tribuna do Senado. A imprensa logo tratou de colocar as orelhas em pé e verificar o que estava acontecendo.
E eis que surge, para acalmar os ânimos, um alto funcionário da instituição financeira dizendo que o senador não tinha descoberto a pólvora, que aquela denúncia era ¿requentada¿, que não existia nenhuma novidade na acusação. É claro que o funcionário da Caixa tratou de dizer que a lavagem não existe, apesar da denúncia ser velhinha.
E como se não bastasse essa história toda, ainda aparece um ex-embaixador do Brasil em Washington afirmando com todas as letras que existe uma verdadeira doutrina anti-americana no Ministério das Relações Exteriores. Para o diplomata, muitos funcionários extremamente qualificados do Itamaraty não são promovidos porque não compactuam com o anti-americanismo que estaria vigorando naquela instituição.
Dentre as nossas tristezas, talvez três delas estejam catalogadas nos parágrafos acima. A nossa incapacidade de fiscalizar o que é e o que não é aprovado no Congresso Nacional. Para falar a verdade, eu só acompanho porque realmente é o jeito. Caso não fosse esta a minha profissão, não acompanharia nem por decreto.
Outra desventura seria a naturalidade com que tratamos dos escândalos, principalmente os escândalos de corrupção, que envolvem o desvio ou a manipulação fraudulenta de fortunas inenarráveis. Está bem que o dinheiro não é nosso, apesar de ser público, mas deveríamos ter um pouco mais de zelo.
E a terceira infelicidade é esta besteira de colocar a culpa nos Estados Unidos, de proclamar que a América é o grande mal. O grande mal é Hugo Chávez, é Evo Morales, é Lula. É tudo o que nos afasta de um ideal de progresso e prosperidade. É tudo que nos mantêm na miséria.

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postado por: RODOLFO TORRES 3:13 AM


Comments: Segunda-feira, Fevereiro 26, 2007

O que é do povo

Nada consegue ser mais sábio do que o gosto popular. A prova disso é a opinião dos críticos, que sempre desaprova o que a grande mídia empurra garganta abaixo de todos nós, que é o que o povo realmente gosta.
Querem outra prova? O desprezo generalizado da população em relação à liberação de dinheiro por parte do Congresso Nacional. Nenhum brasileiro dá a mínima para o dinheiro liberado a ministérios, ao Palácio do Planalto, ou a quer que seja.
E esta é uma prova mais do que explícita da sabedoria popular. Afinal, o dinheiro público do Brasil nunca foi do povo brasileiro. Desde sempre e para toda a eternidade. O brasileiro paga imposto porque tem esta vocação na alma. Dinheiro que vai ao Estado, não volta. E por favor, todos nós sabemos disso muito bem.
A Câmara aprovou nessa segunda três medidas provisórias. Duas delas, liberaram, juntas, quase R$ 1 bilhão de reais. Um monte de ministérios por aí vão receber os seus milhões, sem nem ao menos contarem com a atenção popular.
Dizem que uns R$ 90 milhões, mais ou menos, vão para os jogos Pan-americanos do Rio de Janeiro. Não importa. Na verdade, ninguém tem a menor paciência para ficar contando fortunas que nunca lhe pertenceram. Muito mais urgente é contabilizar as dívidas e tentar negociar com os credores, que teimam em aumentar com o passar dos anos.
Eu até que poderia especificar o número das medidas provisórias e a quantidade exata destinada a cada ministério e à Presidência da República. Mas não vou fazer isso. Creio que chega a ser até um direito nosso sonhar um pouco com o dinheiro que vai aos ministérios, e que não volta, e que se perde, e que é esquecido por todos.
A nossa falta de cuidado com o dinheiro público revela que não sentimos que este é um dinheiro nosso, e como tal pode ser perder aos montes nos corredores sombrios da administração pública. O que não é nosso não merece o menor cuidado.
Triste de quem não enxerga e respeita a sabedoria do povo. O que o povo tem com os bilhões liberados para os ministérios? Nada. Este dinheiro não será, nem daqui a quinze encarnações, patrimônio do povo do Brasil. Então, se não é da conta do povo, para quê se incomodar?
O povo, que não é bobo, muito pelo contrário, que é bastante sábio, tem algo muito melhor para se preocupar do que o dinheiro que nunca será seu: o paredão do Big Brother. Eu ainda acho que o Alemão vai ganhar a disputa. E como a maioria dos brasileiros, não vou com a cara nem do negão, nem do caubói.

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postado por: RODOLFO TORRES 11:48 PM


Comments: O cinema permite a vida

O ano finalmente vai começar no Brasil. Com o fim do Carnaval, resta apenas aceitar que 2007 já está aí e o jeito é ver o que faremos com ele. Não existe mais nenhuma possibilidade de adiar o começo do calendário, que já vai retirar nesta semana a sua segunda folha.
Porém, antes do ano começar para valer no Brasil, temos a cerimônia do Oscar. Bom, vamos falar um pouco de cinema, que é uma arte urbana e cada vez mais contemporânea, no que se refere à solidão e ao modo industrial de ser feito.
Não existe possibilidade de se falar a respeito da sétima arte sem dizer que o cinema no dia de domingo é uma instituição, ou deveria ser, para os que procuram fugir um pouco do seu pobre mundo, do seu mundo limitado e sem possibilidade de fuga, de um mundo sempre triste.
O domingo não é um dia feliz. É um dia que pede para ser esquecido. Então, esqueçamos deste dia no cinema, na sala mágica que nos leva a outros mundos, e que faz com que esta viagem permita que a nossa vida tenha um pouco de magia.
Dois dos últimos filmes que vi merecem ser vistos. O clássico Rocky Balboa, como todos os outros da série, é mal feito. Deliciosamente mal feito. Mal feito do jeito célebre de Stallone. O filme que mais vi na vida foi o Rocky 3. Nas férias do colégia, não tinha o que fazer e nem para onde ir. Ficava em casa assitindo Rocky.
Os treinamentos do lutador da Filadélfia para os confrontos são a comprovação de que o cinema sempre é capaz de emocionar quantas vezes necessário o mesmo telespectador. Nesse sábado, enquanto ia a um bar comemorar o aniversário do pai de um amigo, pensava nos treinamentos de Rocky Balboa nesse último filme da série.
Daí vem uma vontade danada de declarar que Stallone, além de excelente ator, é um diretor primoroso. E ele é. Do seu jeito, mas é. O outro filme que vi, e que vi ontem, foi o Borat, ¿o segundo melhor repórter do glorioso país Cazaquistão¿.
O que posso dizer em relação ao Borat, na minha condição de crítico amador, é que qualquer produção cinematográfica que critica os Estados Unidos com humor é bem-vinda. O humor, no caso do Borat, chega a ser violento por ser politicamente incorreto demais. Mas é um filme que precisa ser visto.
E os Estados Unidos, tendo a plena ciência de que o mundo não o vê com bons olhos, principalmente após o Iraque, produz sem o menor problema os seus críticos cinematográficos: Michel Moore, Borat, até mesmo o ex-vice presidente Al Gore.
O fato é que quando se fala em cinema, falamos, sem querer proclamar o óbvio, de um território dominado pelos Estados Unidos (apenas para variar). O cinema, que é uma indústria, e que é capaz de nos transportar por duas horas para outras vidas, é o que ainda torna a vida possível

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postado por: RODOLFO TORRES 1:00 AM


Comments: Sexta-feira, Fevereiro 23, 2007

Mesmo assunto

Aconselho a todo brasileiro, sempre que possível, a assistir à TV Senado. Faz bem para a alma e pode até melhorar o nosso vocabulário, e ajudar a polir os modos. E se tiver então um discurso de Mão Santa (PMDB-PI), a diversão é mais do que garantida. Gosto deste peemedebista do Piauí. Ainda consigo extrair sinceridade dos seus pronunciamentos históricos, além de um monte de risadas.
Os senadores, além de mais elegantes, são bem mais caricatos do que os deputados. Na Câmara, a confusão é generalizada e ninguém ouve o que o outro está dizendo: 513 almas patinando em uma superfície escorregadia e perigosa.
Já no Senado, apesar da superfície não ser diferente, existe a graça, a elegância, o refinamento. Os apartes são concedidos como quem oferece uma fatia de torta em uma mesa de café num lanche de final de tarde chuvosa de junho.
Mas dizia eu que os senadores são mais caricatos do que os deputados. José Agripino (RN), líder do PFL no Senado, faz muito bem o seu papel. Fala mal, e muito mal, do governo Lula, que merece todas as críticas que possam existir neste país. Agripino sempre é assessorado por Arthur Virgílio (PSDB-AM), um dos quadros mais qualificados do Senado Federal.
Arthur Virgílio é diplomata e senador. Sabe do que fala quando ataca o crescimento pífio da economia brasileira sob o comando do governo Lula. Sabe melhor do que muita gente das crises pelas quais o mundo passou durante os malfadados anos FHC. E sempre surge a pergunta inevitável: se Lula pegasse uma crise internacional braba, como se sairia? Se com este momento da economia mundial, que sorri aos países emergentes, o Brasil cresce de maneira insatisfatória, como seria se pegasse uma turbulência pesada no tabuleiro chamado mercado global?
Por sua vez, Eduardo Suplicy (PT-SP), bate, e como bate, na tecla da Renda Mínima de Cidadania. O projeto é o seguinte: todo e qualquer brasileiro, independente de qualquer coisa, deveria ganhar um trocado no final do mês por ser brasileiro. Suplicy defende esta conversa desde muito tempo, e todo mundo concorda com ele, e ninguém o contesta, e apenas ele defende a proposta com ardor. Mas não tem jeito de sair do papel.
Já o senador Cristovam Buarque (PDT-DF), que também é de uma nota só, fala da educação com aquele tom apaixonado. É outro que defende uma proposta, e todos concordam com ele quando profere os seus discursos no Plenário da Casa, e ninguém diz um mísero ¿ai¿ contra; e, no entanto, não há mobilização política que dê jeito na trágica situação da educação brasileira.
Mas não pensem que quem tem apenas uma única idéia, um único discurso, um único tema; é um ser limitado, menor, incapacitado. Longe disso. Feliz daqueles que tem ao menos um discurso para defender. Vejam o exemplo do presidente da República. Passou mais de 20 anos martelando um mesmo discurso para o Brasil, até que conseguiu convencer um país de que ele era capacitado para ser o líder supremo da nação.
O que é mais do que louvável. Se Lula passasse 20 anos na frente de qualquer prefeitura do Brasil, tentando convencer o responsável pela admissão dos garis de que ele tinha condição de exercer a profissão de varredor de ruas, mesmo sem estudo, ele não conseguiria.
Daí ele virou presidente do país da educação lastimável. Nada mais justo.

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postado por: RODOLFO TORRES 12:15 AM


Comments: Quinta-feira, Fevereiro 22, 2007

O fim da festa da carne

É muito feio alguém comemorar o fim do Carnaval. Principalmente no Brasil, país no qual o feriado é uma instituição que sustenta um monte de gente por aí. Realmente, não é elegante, nem ao menos de bom tom celebrar o fim do Carnaval.
O mestre Cartola, por sua vez, comemorava o fim de cada verão. Ele, penso eu, com sua alma de outono, não se sentia confortável com o sol escaldante e a alegria incontida dos cariocas durante a primeira estação do ano.
O Carnaval em Brasília é, como todos podem chegar a suspeitar, triste por excelência. Aliás, dizia uma colega de redação, que o ambiente astral em Brasília, a conjunção cósmica da capital federal, favorece ao suicídio.
Não gosto do Carnaval. Não me sinto representado nem pelo Carnaval, nem pelo samba, nem muito menos pelo frevo e suas derivações. Detesto me sentir alegre por obrigação e acho uma perda de tempo correr atrás do trio. Mas, como já disse, é muito feio falar mal do Carnaval no Brasil.
E agora, que a festa chegou ao fim, que a Quarta maligna se fez e resiste em morrer, o que vamos nós fazer para suportar o fardo que é pertencer ao país que é o maior de todos durante míseros quatro dias? Alguém há de dizer que, ao menos, somos os maiores durante quatro dias. Pior seria se nem ao menos estes dias existissem.
É verdade. Não é distinto condenar o Carnaval e o seu povo. Que bom que o Carnaval sempre existirá, para limar a nossa alma e servir de objeto de estudo para um monte de gente por aí.
Que bom que o Carnaval existe, para drenar esse fel que se acumula durante o ano inteiro, e que deságua todo vez que as pessoas concordam em ir à rua e se perder voluntariamente por conta da felicidade de celebrar o incompreensível momento.
O Carnaval sempre acaba. Principalmente com a minha alegria e com a minha disposição de tentar celebrar o que quer que seja. Pois nada que já não tenha sido comemorado está imune às lágrimas que sempre chegam, que sempre chegam, que chegam com a violência da alegria obrigatória do Carnaval.

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postado por: RODOLFO TORRES 12:21 AM


Comments: Sexta-feira, Fevereiro 16, 2007

Evo só vence o Brasil

É muito difícil não ficar comovido com a boa intenção do presidente Lula para com os nossos irmãos, os bolivianos. Não é tarefa fácil criticar um presidente que se comove com as dificuldades de um povo historicamente massacrado pela falta de estrutura de um Estado morto e de um mundo que apenas explora o seu gás e a sua cocaína.
Apesar do investimento brasileiro na Bolívia, algo acima de 1 bilhão de dólares americanos, o presidente Evo Morales vem ao Brasil e diz que vai aumentar o preço do gás natural vendido ao Brasil. Não importa se o Brasil investiu uma montanha de dinheiro para que os bolivianos pudessem se dar conta de que tinham o preciso combustível.
Fato é que o Brasil nunca foi referência em acordos internacionais. Talvez até tenha sido em suas gloriosas conquistas no passado, quando o Barão do Rio Branco, com a sua barriga colossal e seu jeito aristocrático por excelência, dizia como deveria ser a política externa daqui.
Sei que o Barão conquistou o território do Acre para o país. Além desse território, que era da Bolívia, tivemos a honra de incorporar o Uruguai em algum período de nossa história. Além, é claro, de ter destroçado o Paraguai a mando da Inglaterra.
Inclusive, foi por conta da Guerra do Paraguai que o goleiro Chilavert, segundo maior goleiro goleador da história, perdendo apenas para o atual goleiro do São Paulo, deu uma cusparada na cara do então titular absoluto da lateral esquerda da seleção canarinho, Roberto Carlos.
O jogador brasileiro, por ser baixinho, e brasileiro, levou um cuspe do arqueiro paraguaio. Além de ter ouvido a seguinte frase em espanhol: -¿Devolvam nossas terras¿. Talvez ele estivesse falando de Foz do Iguaçu...
No mais, não me recordo de mais nenhuma glória brasileira na história da diplomacia. É claro que se eu diria isso no momento de prestar concurso para o Instituto Rio Branco.
Pois bem. Lula e Evo Morales fecharam nessa quinta-feira um acordo que aumenta o preço do gás natural boliviano ao Brasil. A assinatura dos líderes vai aumentar em 100 milhões de dólares americanos a receita dos bolivianos.
Não sou muito bom com números, mas creio que se os bolivianos vão lucrar US$100 milhões ao ano, os brasileiros vão pagar US$ 100 milhões a mais por ano. Seria este raciocínio tão simples o mais correto? Não sei.
¿Temos as condições para ir muito além do gás. Seremos parceiros na revolução da energia renovável, na petroquímica e na geração de hidroeletricidade. O Brasil apoiará o esforço da Bolívia para se industrializar e deixar de ficar dependente apenas de suas riquezas naturais¿, disse o presidente brasileiro durante a cerimônia de assinatura.
Realmente, é muito bonito ver um país empenhado no bem estar de outro, menos favorecido. Eu até que estava comovido, pois ainda procuro acreditar na bondade de Estado brasileira, quando um colega de redação, ao me ouvir falar sobre o acordo Brasil-Bolívia, quebrou a minha ilusão: ¿50% dos US$ 100 milhões vai para o PT¿.
Daí não demorou muito para que eu fizer uma análise rasteira e breve e chegar a uma conclusão: ¿É possível¿, resmunguei.

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postado por: RODOLFO TORRES 2:05 AM


Comments: Quinta-feira, Fevereiro 15, 2007

As cifras proibidas

Vamos ser sinceros e admitir: ninguém entende o funcionamento do Congresso Nacional. Quando aparece um monte de MP, que se não forem votadas num prazo de noventa dias, trancam a pauta; então a coisa piora ainda mais.
A Câmara aprovou nessa quarta-feira dois projetos que dizem respeito à segurança pública. Um deles é diz que o preso deve cumprir 1/3 da pena para pedir o regime semi-aberto. Antigamente, bastava cumprir 1/6 e logo se partia para a semi-liberdade.
O outro projeto é o que considera falta grave o uso de aparelhos de telefone celular pelos presos. Só no Brasil mesmo para que um disparate como esse, um detento utilizar telefone celular, precisa ir ao Congresso para ser considerado ¿falta grave¿.
E o país comovido com a falta de segurança pública nem se deu conta de que, antes de aprovar os projetos para tentar amenizar o caos em que se encontra a segurança no Brasil, liberou uma verdadeira fortuna para vários ministérios e para a própria Presidência da República. As três Medidas Provisórias que foram aprovadas pela Câmara, antes da aprovação dos projetos de segurança, liberaram, juntas, a módica quantia de R$ 9.760.000.000,00.
Confesso que estou com dúvidas na quantidade de zeros, antão aí vai por extenso mesmo: nove bilhões e setecentos e sessenta milhões de reais. Vejam só vocês... Os dois projetos de segurança não liberaram um vintém para a segurança. E são aclamados como a grande esperança de uma sociedade que já convive com a barbárie com bastante familiaridade.
Confesso que me divirto quando este tipo de situação acontece. O governo dá uma facada colossal nos cofres públicos, o Congresso endossa a vontade do Planalto, bilhões de reais são liberados para ministérios, e todo mundo só fala que celular com preso é falta grave.
De tão óbvia que é esta falta, ela precisou ir ao Congresso Nacional para que os deputados analisassem com todo o cuidado. E olha que ainda precisa passar pelo Senado para virar lei.
A situação no Brasil é tão difícil que talvez tenha sido até melhor que ninguém envolva solução de problemas com dinheiro. É que o pessoal por aqui adora aprovar um imposto, uma contribuição, que eu não duvido que alguém tenha a brilhante idéia de criar uma taxa extra para a segurança pública. Assim como criaram a CPMF, que seria para melhorar a saúde no Brasil.
Realmente, estou convencido de que a solução dos problemas para o Brasil passa pela discussão de projetos que não envolvam a participação de dinheiro. Por isso não considero mais uma demência o fato de duas pequenas gotas serem celebradas como a grande salvação para conter o incêndio que já consome tudo há séculos.
Mas é que não é fácil não falar de quase R$ 10 bilhões aprovados em pouco mais de duas horas.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 1:10 AM


Comments: Quarta-feira, Fevereiro 14, 2007

Chá de cadeira e da verdade

Enquanto o país discute a redução da maioridade penal, devido ao assassinato do menino João Hélio, no Rio de Janeiro, que foi arrastado no asfalto por sete quilômetros por estar preso ao cinto de segurança, depois que o carro de sua mãe foi tomado por assaltantes; o Plenário da Câmara recebeu a visita de três ministros.
O ministro da Fazenda, Guido Mantega; o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo; e a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff; passaram seis horas na Casa Legislativa para explicar aos ilustres parlamentares o que realmente significa o Plano de Aceleração do Crescimento (PAC).
Após a explanação dos auxiliares direto do presidente da República, os líderes de partido subiram à tribuna. Daí, não é difícil imaginar que foi um falatório só. Os deputados da base do governo enalteciam o programa que pretende fazer com que a economia cresça 5% ao ano. Os da oposição, desciam o verbo sem maiores puderes.
E nessa conversa, o presidente da Casa, deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP), teve que encerrar a sessão às 22h, porque afinal ninguém agüentava mais, a não ser os poucos oradores que estavam inscritos e que não puderam falar. Chinaglia ao menos consolou os que não conseguiram se expressar dizendo que eles poderiam escrever as suas questões aos ministros.
O fato é que depois de tanta discussão, chegou-se a um consenso, raro na política brasileira: o plano merecia ser discutido ainda mais. O próprio ministro da Fazenda, depois de escutar tanto deputado falar, principalmente os favoráveis ao governo, admitiu num ímpeto de sinceridade que o PAC não era perfeito.
O ministro do Planejamento, por sua vez, destacou o alto nível de debate da Câmara. No entanto, ele só disse isso quando a sessão estava para acabar. E numa hora dessas, após a seleta oratória parlamentar, qualquer um destaca o alto nível do debate.
De mais a mais, ficou uma lição a mais para o Parlamento nacional: não importa o plano a ser discutido, não importa se os ministros vão à Câmara, nem importa mesmo o que será acordado. O que realmente importa é fatigar um ministro para que ele admita que o seu plano não é perfeito.
O Brasil seria um país muito mais sincero consigo mesmo se a cada seis meses um ministro qualquer fosse à Câmara. Que bom seria se o ministro da Saúde fosse à Câmara e depois de algumas horas ouvindo os discursos dos deputados, admitiria sem nem pensar muito: ¿Eu confesso, a saúde no Brasil está um caco¿.
Ou o ministro da Educação, depois de 32 deputados tendo direito a três minutos no Plenário, dizendo para quem quisesse ouvir que realmente a educação brasileira é analfabeta.
O próprio presidente da República confessaria até os próprios pecados de infância se passasse mais de cinco horas a ouvir os representantes do povo na Câmara. Bom, apesar de ser insuportável ouvir esse falatório, dizem que a democracia sai fortalecida nessas ocasiões. Esta, ao menos, é a nossa torcida e o nosso consolo. Afinal, quem vive de falar das pérolas do Congresso, tem que se auto-sugestionar para que a vida seja suportável.
Mudando um pouco de assunto, nessa terça cheguei cedo demais ao local de trabalho e fui tomar um cafezinho antes da labuta. E eis que encontro ninguém menos do que Bruno Maranhão (ou seu irmão gêmeo), líder do MLST (Movimento de Libertação dos Sem-Terra). Para quem não lembra, ou não sabe mesmo, o MLST invadiu o Congresso Nacional no meio do ano passado e saiu quebrando tudo lá dentro.
Até carro eles viraram. Sem contar que lançaram o busto do ex-governador de São Paulo Mário Covas longe, quebraram terminais eletrônicos da Câmara e desmoralizaram a segurança do Parlamento brasileiro.
Quando soube que o Congresso estava sendo invadido, fui para lá e ainda consegui presenciar um pouco do nervosismo dos presentes. A cena mais marcante foi a de um fotógrafo, chamando o povo brasileiro de desqualificado por ter eleito o atual presidente.
Voltando ao célebre Bruno Maranhão, ele estava indeciso, às 13h 15, sobre qual filme veria num dos shoppings mais populares de Brasília. Estava acompanhado por uma mulher. Devia ser sua filha...

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 1:19 AM


Comments: Terça-feira, Fevereiro 13, 2007

O tema inevitável

O Congresso Nacional que dizem ser a caixa de ressonância da sociedade brasileira, repercutiu, e muito, o assassinato de menino João Hélio, brutalmente assassinado no Rio de Janeiro. O pequeno corpo do garoto foi arrastado durante sete longos quilômetros, depois que o carro de sua mãe foi tomado por assaltantes.
Diversos deputados raivosos propuseram a redução da maioridade penal. Outros parlamentares, mais serenos, argumentavam que a redução da maioridade não resolveria o problema da violência no país.
Conversa vai, conversa vem, até mesmo na votação de outras matérias, de outros projetos, sempre aparecia alguém para relembrar que a sociedade brasileira está insegura e clama, mais do que nunca, por segurança e punição a criminosos.
Um parlamentar, que é conhecido por fazer parte da chamada ¿bancada da bala¿, grupo de parlamentares que têm suas campanhas eleitorais financiadas por empresas de armas, foi profético: ¿A lei só vai mudar quando começar a morrer deputado, senador, ministro¿.
E o pior disto tudo é que eis aí uma verdade, como diria os antigos, inapelável. A coisa só vai para frente no Brasil quando incomoda diretamente o ápice da pirâmide social, ou seja, os ricos. Na sua simplicidade incômoda, o parlamentar da bancada da bala está certo.
Um monte de deputados prestou homenagem à família do garoto e de vez em quando um deles tinha um surto de honestidade, e dizia que a segurança pública, assim como a educação, assim como a carga tributária, assim como um monte de coisas no Brasil, está em estado lastimável, e que não poderia ser solucionada apenas com o falatório oco dos homens públicos.
Enquanto o Parlamento debatia sobre a criação da Super-Receita, que propõe a unificação da receita federal e da receita previdenciária, sempre aparecia aquele que dizia que a votação daquela matéria não era o mais importante para o país no momento.
Na verdade, ninguém tinha a mínima vontade de debater a chatice de unificação de receita. Quando um crime desta dimensão ocorre, a política, que é a mais humana das atividades, e que por conta disso é emotiva por excelência, não pode deixar de ser contaminada. Os próprios deputados, para a motivação da Casa, davam os parabéns a si mesmos por resistirem no Plenário até as 22h de uma segunda-feira, numa semana de véspera de Carnaval.
O Congresso podia querer votar o que fosse nessa segunda. Qualquer assunto seria engolido. Principalmente quando o Jornal Nacional da Rede Globo dispensa mais de 10 minutos de sua edição para tratar exclusivamente de um tema.
Somente dois assuntos, quer dizer, duas pessoas no Brasil suportam com certa integridade diversas edições do JN desfavoráveis a elas: Eurico Miranda e o presidente Lula. Apenas eles conseguem ser a mesma coisa depois que o Jornal Nacional desce a lenha.
O resto do Brasil, seja quem for, não suporta nem 30 segundos do mais popular telejornal do Brasil.

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postado por: RODOLFO TORRES 12:12 AM


Comments: Segunda-feira, Fevereiro 12, 2007

Sapiência britânica

Pouco ou nada importa o fato da revista inglesa The Economist ter publicado um artigo a respeito da eleição da Câmara dos Deputados no Brasil com o seguinte título: ¿Parlamento ou chiqueiro?¿. Isto não é nem um pouco relevante, até porque os ingleses são sábios, apesar de práticos.
O próprio Eça de Queiroz já fazia referência à praticidade britânica no romance ¿Os Maias¿. A certa altura, alguém pergunta como andava a literatura produzida na ilha. Ao receber a notícia de que não se produzia literatura por lá, o sujeito sai com a frase: ¿É um povo prático. É um povo prático¿.
Aliás, um dos passatempos favoritos de Eça de Queiroz era criticar Portugal. Na ocasião da primeira corrida de cavalos da ¿terrinha¿, e que acabou em pancadaria, um nobre qualquer, ou serviçal de nobre, do alto de uma distância segura, profere: ¿Este é um país de quermesses e arraias¿.
Mas eu já dizia que o fato da revista inglesa ter comparado o Parlamento brasileiro a um chiqueiro não é o mais importante. Importante mesmo é o ex-ministro da Educação, ex-governador do Distrito Federal, candidato derrotado à Presidência da República nas últimas eleições e atual senador, Cristovam Buarque (PDT-DF), argumentou sobre o artigo da revista The Economist.
Cristovam declarou, no Plenário do Senado Federal, que o Brasil poderia protestar e até propor um embargo internacional contra a Inglaterra. Esta seria uma das opções da pátria ofendida pela maior revista de análise econômica do planeta. A outra, de acordo com o próprio Cristovam, seria admitir que a conduta do Parlamento nos últimos anos deu margem mais do que suficiente para que os ingleses assim denominassem o Congresso brasileiro.
Se o Congresso do Brasil é um chiqueiro, de acordo com a revista inglesa The Economist; o que dizer então do Congresso da Venezuela, que permitiu que o bufão presidente Hugo Chávez governasse por decreto durante 18 meses?
Mas vamos tratar do especificamente do Brasil. Existe uma prática bastante comum e que é de conhecimento público no Brasil, que é aplicada da seguinte forma: um presidiário, dentro de uma penitência, faz uma ligação a cobrar para qualquer sujeito, e com aquela conversa de malandro, convence quem recebeu o telefonema que algum parente próximo é vítima de um seqüestro (que é também é mais do que comum no Brasil).
Vejam só: um presidiário tem a mais ampla e irrestrita liberdade de se comunicar, por meio de aparelho de telefonia celular, com quem bem entender. E vocês acham que o governo, a polícia e a sociedade sabem desta prática há quanto tempo? No mínimo, e com muita boa vontade, há cinco anos. E alguém faz alguma coisa para remediar a situação? A resposta é: não!
Na semana passada, a deputada Luiza Erundina (PSB-SP) recebeu uma chamada deste tipo em seu aparelho celular, durante uma reunião parlamentar no Congresso Nacional. Falaram que a sua irmã estava sob poder de seqüestradores. A deputada conseguiu entrar em contato com sua irmã, e confirmou que aquilo se tratava de uma tentativa de extorsão.
Um parlamentar, no Congresso Nacional, passa por esse tipo de situação no Brasil. O que pode se imaginar então dos cidadãos normais, que não têm direito ao foro privilegiado?
Ao menos teremos o Carnaval, que lava a alma do povo brasileiro. O mesmo povo que, atônito, viu um garoto de seis anos ser arrastado pelo asfalto por sete quilômetros, após o carro de sua mãe ter sido roubado no Rio de Janeiro. Será que a The Economist sabe disso para comparar o Parlamento brasileiro somente a um chiqueiro?

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 12:07 AM


Comments: Sexta-feira, Fevereiro 09, 2007

Chiqueiro

Nunca foi fácil admitir certas verdades. Uma dessas verdades é: o Brasil nunca teve jeito. Talvez essa falta de jeito do Brasil tenha sido a principal responsável pelo charme brasileiro mundo afora. Talvez a falta de jeito do Brasil tenha tornado o país simpático e os seus habitantes, aqueles sujeitos engraçadinhos aos olhos do mundo.
Uma coisa que sempre me encantou no Brasil foi a capacidade de nossas reportagens de TV transformar uma situação embaraçosa em um exemplo de criatividade. A mais recente que me chamou a atenção foi a reforma do fardamento escolar das crianças brasileiras.
Início do ano, todo mundo sabe como é: não existe dinheiro para nada. E as financeiras, que praticam uma agiotagem mais do que oficial, com propaganda até no Faustão, fazem a festa em um país devastado pela economia.
Falava de uma reportagem de TV. Pois a tal reportagem mostrava, como se fosse a coisa mais bela da vida, reformar tênis usados, dando-lhes o aspecto de semi-novos. Falando isso, alguém pode até esbravejar, dizendo que sou elitista ou algo do tipo. Se ser elitista é não gostar de pobreza, então sou elitista.
Torço, como poucos, pelo crescimento econômico do Brasil. E quando um país cresce na economia, as reportagens de TV não mostram os filhos da classe média reformando os tênis do ano passado. Mostram os filhos dos pobres tendo a condição de comprar tênis novos todos os anos. A indústria de remendos é apenas um curativo para poucos, em tempos de crise econômica.
Aliás, a economia se revela cada vez mais uma grande paixão para mim. É bem interessante ler, e falar, e entender o mínimo que seja de assuntos que a maioria nem ao menos pensa a respeito. Um dos assuntos mais filosóficos que mais me encanta é: o que dá o valor ao dinheiro? Por que as pessoas trocam mercadorias, horas de suor, amores e países por conta de papéis?
O fato é que trocam, sempre trocaram, e contra isso não há muito o que ser feito. Bom, falando em economia, vale apenas citar uma matéria publicada na mais importante revista de economia do mundo, a inglesa The Economist.
Quando a The Economist fala, o pessoal aqui no Brasil, como todo povo subserviente, baixa a cabeça e aceita sem maiores problemas. E o pior é que a revista teima em quase sempre analisar de forma correta. A economia mundial não aceita mais o Estado oneroso, aquele Estado que quer abraçar a sociedade como a um filho doente.
O mundo atual exige um Estado ágil e que dê condições aos seus cidadãos. Nada mais do que isso. O Estado brasileiro, por um lado é grande demais, e pelo outro não funciona. Mas vamos deixar a questão do tamanho do Estado e vamos tratar da matéria da The Economist.
Em sua mais recente edição, a publicação britânica analisa a eleição da Câmara dos Deputados do Brasil. Relembra a pesquisa de opinião da revista Veja, que revela que a população brasileira acredita que os deputados e senadores não servem para muita coisa além de receber muito, trabalhar pouco e participar de esquemas de corrupção.
Por falar em corrupção, a The Economist lembra que a legislatura passada - que foi ¿a pior da história¿, nas palavras do presidente do Conselho de Ética, deputado Ricardo Izar (PTB-SP) ¿ praticamente só se defendeu de escândalos de corrupção.
O título da matéria do The Economist, que é uma indagação de resposta óbvia, não poderia ser mais preciso: ¿Parlamento ou chiqueiro?¿. Precisa falar que, mais uma vez, eles estão certos?

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 1:15 AM


Comments: Quinta-feira, Fevereiro 08, 2007

Só aqui mesmo

A política brasileira ainda é território da mamata. Claro que é. Sem esta prática, tudo estaria perdido e não estaríamos representados em nossas práticas. E quer saber mais? Sempre será. Somos grandes o suficientes para não deixar que o nosso cotidiano seja chato.
A Câmara dos Deputados, por exemplo, quer porque quer mostrar serviço para o restante do país. Deve ser o medo das recentes pesquisas, que demonstram que o brasileiro tem a mais límpida convicção de que o Congresso Nacional não serve para nada a não ser para a prática da corrupção.
Para reverter um pouco a imagem da ¿pior legislatura da história da República¿, que foi a legislatura passada, a Câmara começou o ano com a maca a e está votando o diabo. Deu chence, lá estão os deputados a votar, e votar, e votar. Muitos deles nem ao menos sabem o que estão votando, mas o que realmente importa mesmo é votar.
E de voto em voto, resolveram votar a extinção de 1.050 Cargos de Natureza Especial, os CNEs, o velho cabide de emprego para os parentes e amigos. Ainda restam 1.315 (se não estou enganado) desses cargos, que serão distribuídos entre todos os deputados. Não é preciso dizer que vão brigar por esses CNEs restantes como cachorro de rua briga por carniça.
A justificativa para acabar com os cargos também tem o seu viés econômico. Cada um tem o seu próprio valor para ilustrar a economia que a Câmara fará ao acabar de vez com esses empregos, cujos salários variam de 2 a 8 mil reais. Uns dizem que a economia, por ano, será de R$ 40 milhões. Outros, de R$ 45 milhões. E ninguém sabe ao certo quanto dinheiro sobrará a cada ano para ser desviado.
Brasília foi construída num grande esquema de liberação de dinheiro. Era dinheiro que não acabava mais. O próprio Juscelino torrou a Previdência Social para erguer Brasília. E o que é a vida em Brasília sem o tal do empreguinho arrumado, do pistolão, daquele trocado que se consegue por ser amigo de um político?
Eis mais um patrimônio do Brasil: o cabide de emprego. Sem os empregos desnecessários, insisto em dizer que somos menores, somos incompletos. Que pena que a Câmara quer recuperar uma imagem irrecuperável e tenta, por meio de manobras pirotécnicas, acabar com traços da brasilidade nas dependências do Congresso Nacional.
No entanto, trago a certeza de que muito em breve, os cargos vão aparecer em outros lugares: secretarias, estatais, prostíbulos e toda sorte de canto sujeito à influência dos políticos.
No mesmo dia em que o Brasil ficou menos brasileiro por conta da extinção dos 1.050 CNEs, ao menos tivemos o privilégio de assistir na Câmara a uma cena também bastante brasileira: a tentativa de extorsão via aparelho celular, feitas por bandidos de dentro das penitenciárias aos cidadãos.
A deputada Luiza Erundina (PSB-SP), durante uma reunião na Câmara dos Deputados, recebeu um telefone à cobrar, no qual afirmava que sua irmã tinha sido seqüestrada. Erundina, graças a Deus, conseguiu localizar a sua irmã e constatar que a ligação não passava de um golpe.
E assim o Brasil fica mais brasileiro: bandidos, de dentro dos presídios, interrompendo sessões no Parlamento. Parlamento este que também não é um lar de querubins.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 2:06 AM


Comments: Quarta-feira, Fevereiro 07, 2007

Clô e o Plenário

Nada mais natural do que a empolgação no início de qualquer atividade. E isso é tão verdadeiro, e tão amplo, que se aplica dos romances às aulas. Exemplo: quem não escreveu as suas cartas de amor ¿ridículas¿, como diria Fernando Pessoa, no início dos relacionamentos? Ou então, quem não tinha o maior cuidado com livros e cadernos no início das séries escolares?
Isso também se aplica ao presidente da Câmara. Arlindo Chinaglia (PT-SP) começou a sua trajetória de presidente da Câmara dos Deputados com um vigor poucas vezes visto nos seus antecessores. Bom, ao menos a situação para ele está muito mais favorável do que a dos seus dois antecessores imediatos: Aldo Rebelo (PCdoB-SP) e Severino Cavalcanti (PP-PE).
Em pouco mais de três horas, Chinaglia presidiu uma sessão na câmara e votou duas medidas provisórias (MP¿s). Ou seja, a pauta da Casa está destrancada para que sejam votados projetos como a criação da Super-Receita e outro que prevê a extinção de 1.083 cargos de natureza especial (CNE¿s).
Preciso falar dos CNE¿s, até porque o tema, de tão rico e revelador, merece um texto exclusivo. Voltando às Mp¿s, vale registrar algo que certamente passou batido na grande imprensa brasileira. Trata-se dos valores liberados pelas MP¿s aprovadas na sessão de terça. Uma liberou o pagamento de R$ 1,95 bilhão aos Estados, ao Distrito Federal e aos municípios. A justificativa é que essa foi uma forma encontrada de recompensar as unidades da Federação devido às perdas registradas com a isenção do ICMS sobre exportações. Esta MP só precisa agora da canetada presidencial.
A outra MP, mais modesta do que a primeira, também liberou outra bolada. Esta abre crédito extraordinário em favor das empresas do grupo Eletrobrás, no valor de R$ 106,7 milhões. Por sua vez, esta MP ainda vai para análise do Senado.
Contudo, o melhor da sessão não foi a votação das MP¿s, apesar da votação ter tido de tudo. Desde o aparte do ex-ministro da Fazenda Antônio Palocci (PT-SP), que agora é deputado e está querendo presidir a comissão de assuntos econômicos da Câmara; até o pedido de parlamentares para que Chinaglia convocasse o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Marco Aurélio Mello, para que ele discutisse a questão salarial com os congressistas.
A briga dos salários no Brasil é, antes de tudo, uma ofensa ao povo brasileiro. Um povo massacrado pela sua desfavorável carga história e tributária, pela miséria que encontra neste país um campo fértil para se tornar eterna.
O presidente do TSE afirmou, após uma palestra para estudantes de direito em São Paulo, que trocaria o seu salário pelo de um deputado ou senador. O ministro Marco Aurélio recebe R$ 24,5 mil por mês. Os parlamentares recebem R$ 12 mil e alguma coisa de salário (sem contar com os ¿auxílios não sei o quê lá¿). Um levantamento feito por um amigo, e publicado no país com pioneirismo, revela que cada deputado tem, juntando salários e auxílios, uma verba de aproximadamente R$ 100 mil reais por mês.
Bom, mas dizia eu que o quente foi o que aconteceu antes da sessão que votou as MP¿s. É que minutos antes de ser iniciada a Ordem do Dia, o deputado Clodovil Hernandez fez o seu primeiro discurso como parlamentar. E, diga-se de passagem, ele se saiu muito bem e foi aparteado até mesmo pelo célebre Paulo Maluf.
Clodovil falou em se fazer política com bondade, disse que não teme ninguém, falou sobre Deus e elegância. No entanto ele confessou que o tal do decoro parlamentar, ou a falta dele, o assusta um pouco. Enquanto Clodovil era aparteado, se aproximava da hora de ser iniciada a Ordem do Dia e Chinaglia, que estava mais do que ansioso para mostrar serviço, avisou que os trabalhos seriam iniciados às 16h, sem atrasos.
Resultado: Chinaglia não deixou Clodovil se despedir do jeito que ele queria. E como o deputado Clô não é de deixar barato, afirmou aos jornalistas que o presidente da Câmara é um ¿mal-educado¿. ¿O senhor Chinaglia me botou para fora sem dizer nada, é muito mal-educado. Eu ouvi ele uma hora falando no meu ouvido quando queria o meu voto [para a presidência da Câmara]. Eu não preciso dele para nada. Estou aqui por desejo das pessoas e não dele", declarou Clodovil, para a saúde da democracia.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 2:14 AM


Comments: Terça-feira, Fevereiro 06, 2007

A eternidade pefelista

Morei em São Paulo durante 1 ano. Um pouco menos do que isso, mas o suficiente para perceber que nasci em uma cidade litorânea por acaso. Me dou (o ¿certo¿ seria escrever dou-me) muito melhor com lugares que não são à beira-mar. Coisas de alma árida, ou algo próximo...
Tenho por São Paulo uma afeição rara. E é por conta desse carinho que me sinto suficientemente confortável para dizer que o episódio que envolveu o prefeito e um empresário num posto de Saúde da capital paulista é bastante emblemático.
Vamos ao fato. O prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (PFL), foi inaugurar uma unidade da saúde em um bairro qualquer da capital paulista. Ao perceber que a maior autoridade do município por lá se encontrava, um sujeito cujo primeiro nome é Kaiser, resolveu falar mal da administração municipal da maior cidade brasileira.
Kaiser estava esbravejando contra a gestão de Kassab, quando o prefeito partiu por cima dele e o enxotou da unidade de saúde como quem bota para correr um cão leproso qualquer. E para complementar, o prefeito chamou o cidadão de ¿vagabundo¿. Não foi uma, nem duas vezes. Foram várias.
Recomposto parcialmente do susto, e após beber água com as mãos trêmulas que faziam pena, Kaiser explicou que estava naquele local em busca de tratamento odontológico. Ele estava com seu filho de sete anos e reclamava de uma lei municipal que proíbe a fixação de placas na capital paulista.
Kaiser tinha, ou tem, uma empresa de placas e, após a lei municipal paulistana, perdeu grande parte de sua renda, estando inclusive com o aluguel atrasado por três meses. Um pouco depois do ocorrido, o prefeito de São Paulo afirmou que a sua gestão é democrática e que ele não vai permitir que desrespeitem os doentes.
O grande ponto da administração de São Paulo é que Gilberto Kassab, para o cargo de prefeito da capital paulista, não recebeu um único e esquecido. Kassab era vice na chapa de José Serra, à época em que o tucano resolveu sair na disputa pela prefeitura de Sampa.
Serra, atualmente no cargo de governador do Estado de São Paulo, venceu a disputa com a então prefeita Marta Suplicy e passou apenas um ano e alguma coisa à frente do município. Kassab pegou a coisa pronta.
O mesmo aconteceu com o fabuloso Cláudio Lembo, que também é do PFL. Apenas para que fique registrado, sou fã assumido do ex-governador paulista Cláudio Lembo. Quando Geraldo Alckmin (PSDB) deixou o governo de São Paulo para concorrer ao Planalto, o pefelista tocou o barco. Só que Lembo jamais teria uma reação estúpida como a do prefeito Kassab. Lembo surpreendeu pela sua sinceridade, pela sua naturalidade e pelo seu jeitão todo particular.
No calor dos ataques do PCC à capital, e no calor das eleições presidenciais, lá estava Lembo à frente do maior Estado brasileiro. Ele, por exemplo, afirmava que Alckmin não ganharia a eleição contra o presidente Lula, quando o mínimo que se espera de um político é que ele diga que o candidato de um partido coligado ao seu seja o vencedor, independente dele achar isso ou não.
Podemos até dizer que, em São Paulo, o PSDB ganha, mas quem fica na história são os vices dos tucanos, os pefelistas, que surpreendem para o bem e para o mal.

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postado por: RODOLFO TORRES 12:08 AM


Comments: Segunda-feira, Fevereiro 05, 2007

Se o Zé voltar

Arlindo Chinaglia (PT-SP) venceu a disputa, no segundo turno, e é o novo presidente da Câmara dos Deputados. No Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL) também confirmou a expectativa e levou a presidência.
O sociólogo Francisco Oliveira, um dos fundadores do PT, afirmou em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo que, com a vitória de Chinaglia e Renan, o Legislativo está submisso ao Executivo. Ou seja, o governo Lula vai voltar ao biênio áureo 2003-2004, quando José Sarney (PMDB-AP) e João Paulo Cunha (PT-SP) comandavam respectivamente o Senado e a Câmara.
O governo quer porque quer aprovar as medidas do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) no Congresso. A oposição já disse que vai tratar de impedir que o governo passeie com seus projetos no Congresso. Até mesmo o ex-presidente da Câmara Aldo Rebelo (PCdoB-SP), um dos maiores aliados no governo na Casa (pelo menos até a sua derrota para Chinaglia), já falou que não concorda integralmente com o PAC.
A semana promete ser animada no Congresso, apesar de estarmos em um período no qual a movimentação em Brasília não é grande. Todo mundo sabe que o Brasil só funciona plenamente depois do Carnaval. 2007 foi um ano excepcional porque tivemos posse presidencial e início de uma nova legislatura. Se não fosse por conta disso, Brasília sumiria do noticiário nacional.
Chinaglia pode colocar ainda antes do carnaval uma medida bastante polêmica em votação: o aumento salarial dos parlamentares. A proposta foi lançada no final do ano passado, mas não pegou muito bem. Afinal de contas, como afirma o próprio presidente do Conselho de Ética da Câmara, deputado Ricardo Izar (PTB-SP), a legislatura passada foi a ¿pior da história¿.
Em seu discurso aos colegas de Parlamento antes da eleição da Câmara, Chinaglia foi corporativista e afirmou que não vai aceitar as críticas injustas ao Congresso (leia-se qualquer uma). O presidente da câmara também pretende aprovar em plenário a anistia do ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, que teve o mandato de deputado federal cassado em 2005 devido aos desdobramentos do escândalo do mensalão.
O Campo Majoritário do PT, grupo ao qual Zé Dirceu faz parte, se reuniu nesse fim de semana, no município paulista de São Roque, para tratar de temas relevantes ao partido e ao governo. Aquela velha história de traçar estratégias para pedir cargos na administração pública federal, pressionar o governo de acordo com as vontades dos petistas paulistas, e dar voz a Zé Dirceu.
Quem conhece Dirceu, diz que ele é obsessivo. Afirmam que o ex-ministro ¿respira política¿ durante as 24 horas do dia. A anistia política de José Dirceu praticamente ficou sacramentada com a vitória de Chinaglia. E Dirceu já faz elogios públicos e rasgados ao presidente venezuelano, Hugo Chávez.
Se Dirceu for anistiado politicamente, não é insensatez imaginar que Lula continuará na Presidência por anos e mais anos a fio, sem a necessidade de bobagens eleitorais, ou até mesmo de instituições ¿anti-revolucionárias¿ como é o caso do Congresso Nacional.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 12:34 AM


Comments: Sexta-feira, Fevereiro 02, 2007

O governo ri

O deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP) levou o caneco é agora é o presidente da Câmara dos Deputados. A disputa foi acirrada, é bem verdade. Também é verdade que, quando a eleição foi para o segundo turno, entre Chinaglia e o ex-presidente Aldo Rebelo (PCdoB-SP), muitos partidários do ¿comunista¿ saíram aos berros, afirmando que Aldo seria reeleito.
Talvez Aldo tenha perdido pela arrogância dos seus aliados, que disseram com todas as letras possíveis que ele seria o vencedor da disputa, caso o pleito fosse decidido no segundo turno. Aldo perdeu e agora Chinaglia vai dizer o que deve ou não deve ser votado na Câmara, com qual velocidade cada projeto deve ser votado.
No Senado, a disputa foi mais sossegada e mais previsível. O presidente da Casa, Renan Calheiros (PMDB-AL), conquistou a reeleição. O seu adversário, senador José Agripino Maia (PFL-RN), levou uma ¿lavada¿ do peemedebista. E agora as duas Casas Legislativas serão comandados por parlamentares afinadíssimos com o Palácio do Planalto.
Numa análise racional, podemos dizer que é uma coisa muito boa o governo contar com esta empatia avassaladora que existe entre Lula, Chinaglia e Renan. No entanto, a relação de Lula com o recém-eleito presidente da Câmara é um pouco mais complexa do que a com Renan.
De acordo com os cochichos que correm soltos no Congresso, Chinaglia, apesar de negar veementemente durante a sua campanha para a presidência da Câmara, vai propor a anistia do ex-ministro José Dirceu, que teve o seu mandato de deputado federal cassado em 2005; resquício do escândalo do mensalão.
Muito provavelmente, Zé Dirceu teve uma de suas melhores noites em muito tempo. E se o Zé voltar, e ele tem capital e influência para isso, principalmente depois da vitória de Chinaglia, como será que ele vai se comportar? Será que vai imprensar o Planalto? Será que vai cair em cima dos seus algozes?
Tudo bem... Chinaglia venceu a eleição. Só que a disputa foi para o segundo turno. E no segundo turno, apenas 18 votos separaram Aldo de Chinaglia. Uma diferença mínima para um candidato que reuniu tanto apoio, de tantos partidos, de tantas gente.
No entanto, com Chinaglia, sem Aldo, a vida por aqui continua rasteira. A vida, quando habita no Brasil, é miúda. Eu até gostaria de falar sobre as repercussões da vitória de Chinaglia na Câmara, e as articulações que o Legislativo fará com o Planalto.
Mas tudo isso não passa da uma repetição contínua de nossa mais pura miséria espiritual. De que adianta elevar egos? Nada mais inútil do que a política brasileira. Nada mais inútil, para a alegria geral, do que o Brasil. Um país no qual os intelectuais são obrigados a amá-lo, são obrigados a respaldá-lo.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 2:02 AM



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