Confraria dos Crônicos

De crônica, não basta a vida!



Comments: Quarta-feira, Janeiro 31, 2007

Quem não vai ganhar

Já dizia uma personagem do escritor russo Dostoiévsky: ¿Tenho estudo suficiente para não ser supersticioso, mas sou¿. Não sou uma referência em títulos acadêmicos, apenas posso afirmar que tenho algumas horas de bancos escolares. Também me enquadraria nos indivíduos que não deveriam apelar para a superstição. No entanto, assim como a personagem de Dostô, tenho lá as minhas também.
Uma delas diz respeito a eleições no Plenário da Câmara. Algo muito particular teima em me dizer que Arlindo Chinaglia não vai ganhar a eleição para a presidência da Câmara. Apesar das análises políticas, da leitura dos jornais, do cálculo dos votos que cada partido tem, da formação do mega-bloco PT-PMDB, e do diabo a mais; ainda tenho que o petista não vai levar a presidência da Câmara.
Alguém poderá argumentar que essa afirmação na verdade é uma manifestação velada do meu desejo de ver o PT perder. Bom, não nego que torço contra o PT. Ver o PT perder é mais do que um prazer, é uma lição de vida. O dia fica muito mais belo quando o PT perde.
Mas o pressentimento que tenho não se deve apenas ã minha vontade. Pelo que ouço falar de Chinaglia, ele não é um sujeito que desperta grandes paixões dentro do Congresso. Nem dentro do próprio PT, Chinaglia é tão aclamado assim.
O seu temperamento um tanto quanto mais incisivo já provocou alguns atritos entre ele e outros petistas. Além do mais, Chinaglia também é um discípulo do estilo Zé Dirceu de ser e de fazer política. Quem não se lembra do nariz empinado do Zé?
Lembro que sentia vergonha dos jornalistas que o entrevistavam quando ele era ministro. O Zé sabia como ninguém destroçar um repórter em rede nacional como ninguém. Dizem até que Zé Dirceu só foi cassado devido a sua arrogância enquanto ministro.
Só sei que Chinaglia segue os passos do Zé. E isso é ótimo para os seus adversários. A base do governo, mais uma vez, está dividida na disputa pela presidência da Câmara. E um dos motivos desse ¿racha¿, adivinhem só, é o Zé.
Apesar de Chinaglia afirmar aos quatro ventos que a anistia de Zé Dirceu não é prioridade, todo mundo sabe que se ele ganhar a eleição, o ex-ministro da Casa Civil pode voltar à ativa nas próximas eleições. Votos e capital político para se eleger quando quiser, ele tem.
Outro fator que vai contra Chinaglia é que o presidente nacional do PT, deputado Ricardo Berzoini (SP), está trabalhando em sua campanha. E onde Berzoini trabalha, a chance de acontecer algo negativo é muito grande. Afinal, quem não se lembra da tentativa de compra de um dossiê contra políticos do PSDB...
Chegamos ao dia primeiro de fevereiro, dia responsável pela existência de Brasília no noticiário nacional antes da festa da carne. Em poucas horas, saberemos quem serão os presidentes das Casas Legislativas. E já que por todo o Brasil estão fazendo aposta, aqui vai um palpite de alguém que confia muito mais na superstição do que na análise política sóbria: Chinaglia não ganha.
E se ele ganhar? Pior para nós.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 11:46 PM


Comments: Uma função

Sem nenhum exagero, podemos dizer que a eleição para a presidência da Câmara fez com que Brasília aparecesse no noticiário durante o verão. O fato em si já é representativo. Mas esta eleição em particular está fazendo muito mais do que as anteriores.
A semana começou com um debate televisionado entre os deputados Aldo Rebelo (PCdoB-SP), Arlindo Chinaglia (PT-SP) e Gustavo Fruet (PSDB-PR). Apesar de nesta eleição especificamente os candidatos terem como eleitores apenas os seus colegas de Câmara, eles tiveram que prestar satisfações com a sociedade.
Um dos pontos que mais toca o coração do brasileiro na atualidade é a possibilidade dos parlamentares aumentarem os seus próprios salários em torno de 91%. É a velha briga entre o Judiciário, que detém o teto salarial do funcionalismo público brasileiro (R$ 24,5 mil) e o Legislativo, que ganha algo em torno de R$ 12 mil e uns trocadinhos a mais.
Diante de cifras tão elevadas, se comparadas por exemplo à renda daquelas que não sabem fazer mais na vida a não ser o jornalismo, cabe uma pergunta: para quê existe o Congresso Nacional se ele é tão caro e tão ruim?
Esta foi uma pergunta elaborada pela maior revista brasileira. Se não estou enganado, mais de 60% dos brasileiros acreditam que o Congresso Nacional não serve, não faz falta, não precisaria existir. O humanismo, a leitura dos livros de história, e a comparação com outras nações nos fazem acreditar que o Congresso é necessário.
Mas do jeito que é o Congresso brasileiro, ou seja, ¿um balcão de negócios¿ (palavras de Lula quando ele não era presidente), creio que a opinião do povo deveria ser discutida mais seriamente. Se um povo é soberano para votar, para eleger, por que não seria soberano da mesma forma para fechar o seu Congresso? (não há nessa indagação nenhuma relação com o que está acontecendo na Venezuela)
Se a legislatura que está se encerrando foi tão ruim ao ponto de ser classificada pelo presidente do Conselho de Ética da Câmara, deputado Ricardo Izar (PTB-SP), como a ¿pior da história da República¿; por que o povo não teria o direito de sossegar do Congresso Nacional?
O escritor português José Saramago, que entre outros já levou o prêmio Nobel de Literatura, vive a dizer por aí que a tal da democracia que nós conhecemos, e defendemos, e dizemos que não existe nada melhor, é fruto de nossa preguiça, de nossa incapacidade e de nossa covardia em conceber algo melhor.
Se este modelo de sistema político que conhecemos é o melhor que podemos alcançar, então podemos muito pouco. E se não temos mais a energia necessária para ao menos dizer que precisamos mudar, e mudar urgentemente, então estaremos condenados a assistir a espetáculos grotescos como o da legislatura que se encerra.
Escândalos e mais escândalos, corrupção sistemática, desvios astronômicos de dinheiro público. E nenhuma punição. O Congresso Nacional, tendo a função maior de ser a Casa que elabora as leis do país, não existe. O que existe é um desperdício de dinheiro, de energia e até de boas intenções.
Mas se a sina do país é contar com o Congresso, então lá vamos nós para mais uma eleição para a presidência das duas Casas Legislativas. A eleição do Senado conta com apenas dois candidatos: o atual presidente Renan Calheiros (PMDB-AL), que não fez campanha e se nega a falar com a imprensa; e o senador José Agripino (PFL-RN), que jura que vai vencer.
Animada mesmo está a eleição para a Câmara, que ainda guarda surpresas como a ¿respirada¿ da candidatura de Aldo. Chinaglia está na frente em todo tipo de ¿bolão¿ de Brasília para ver quem ganha a presidência da Câmara.
Mas depois do debate na TV Câmara, que só serviu para a troca pública de farpas entre os parlamentares, que se acusavam mutuamente de fraquezas político-partidárias, entre outras; surge o apoio do PDT e do PV à candidatura de Aldo Rebelo.
Sem contar na ¿aulinha¿ que Aldo, atual presidente da Câmara, deu para os 200 e poucos calouros do Parlamento. E sem contar também que o voto é secreto e o índice de infidelidade nas votações é gigantesco. A eleição da Câmara terá emoção até o último instante. E, quem sabe, a do Senado também. Eis uma das funções do Congresso: o ¿bolão¿. Essa prática tão brasileira, muito popular em época de Copa do Mundo.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 1:38 AM


Comments: Terça-feira, Janeiro 30, 2007

Discussão mesquinha

Apesar de achar o presidente da República engraçadinho, não gosto de Lula. Os petistas querem colocar a situação da seguinte forma: ou o sujeito gosta de Lula, ou o sujeito é contra o povo. Se é condição essencial não gostar do povo para não gostar de Lula, detesto o povo.
Mas o maniqueísmo petista, como todo maniqueísmo que se preze, é equivocado. A ditadura da mediocridade que devasta o país exige, obriga, que o presidente da República não tenha estudo suficiente para se candidatar a uma vaga de gari em qualquer prefeitura do país.
Não gosto de Lula. E se ele fosse preso, por algum motivo até agora não revelado, ele não teria direito à cela especial pois não tem estudo suficiente para tal. Bom, sonhos à parte, vamos falar de uma nova modalidade de preconceito que estão querendo criar no Brasil: o preconceito contra o PT enquanto governo.
Os mais sábios da política brasileira já alertavam há muito que o PT, no papel de oposição, já demonstrava alguns traços marcantes como autoritarismo, baixíssimo tolerância à crítica, além do clássico e nocivo louvor à figura de Lula.
O debate entre os candidatos à presidência da Câmara me chamou a atenção em apenas um ponto: a tentativa do deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP) de justificar um preconceito contra o Partido dos Trabalhadores. Ora, mas quem é o PT para falar sobre preconceitos?
Se por acaso a palavra preconceito sair do vocabulário dos petistas, eles vão se enxergar muito próximos aos tucanos. Aliás, o que foi essa eleição para a presidência da Câmara senão o sinal mais evidente de que PT e PSDB são parentes próximos? Ou estamos esquecidos de que o PSDB tentou fechar apoio com Chinaglia e a atitude não pegou muito bem?
O PT, e eu sei muito bem disso porque fui estudante em uma universidade federal durante o governo FHC, é basicamente formado por preconceitos. Quem não era petista nos meus tempos de faculdade, não deveria nem ter direito à respiração. O PT patrulhava, fiscalizava, promovia as suas rondas por aí.
Quando o senador Eduardo Suplicy (PT-SP) concorreu para disputar a indicação do PT à Presidência da República com Lula em 2002, os próprios petistas o trataram como se ele tivesse cuspido na cruz ou algo do gênero. Os defensores do governo não concebem a idéia de que alguém possa não amar o presidente. Além de um punhado de críticas em relação a dezenas de assessores íntimos dele...
Depois da crise política que infelizmente está acabando, o PT tenta ressurgir no cenário com a carapaça de vítima de um preconceito infundado. Talvez até produzido pelas ¿elites¿... A democracia no Brasil, que é uma democracia que obriga o cidadão a votar, precisa mais do que nunca que ídolos políticos morram. Somente sem ídolos, poderemos alcançar estágios mais elevados de cidadania.
Mas como não conseguiremos jamais viver sem os preconceitos, que têm lá a sua serventia, vamos realmente alimentar o preconceito contra o PT. Um partido que inexplicavelmente ainda consegue doutrinar muita gente boa por aí. O preconceito contra o PT talvez seja a melhor coisa produzida no Brasil na presente década.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 1:06 AM


Comments: Segunda-feira, Janeiro 29, 2007

Mais um "nunca"

Um dos dizeres favoritos do presidente Lula é algo do tipo: "Nunca na história tivemos um conjunto de fatores tão favoráveis...". E com esse conjunto de palavras, o presidente pode falar da expectativa de crescimento do PIB, da relação do governo com o Congresso, do combate à fome em escala planetária ou local, e por aí vai.
No lançamento do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), no último dia 22, Lula também se utilizou dessas palavras para exprimir a sua esperança no crescimento de 5% do PIB brasileiro para 2007. Contudo, a oposição e algumas entidades empresariais não consideram que o programa atinja o efeito desejado. Resta aguardar...
E por falar em "nunca na história", a TV Câmara, emissora de televisão da Câmara dos Deputados, vai transmitir amanhã, às 11h (horário de Brasília), um encontro inédito. Pela primeira vez na história da República brasileira, teremos um debate televisivo para a presidência da Câmara dos Deputados.
A idéia é do atual presidente da Casa, e candidato à reeleição, deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP). Aldo vai confrontar propostas e idéias com outro candidato da base de sustentação do governo, o petista Arlindo Chinaglia (SP). E como a base do governo está mais uma vez rachada para essa disputa, surgiu uma terceira candidatura há pouco mais de 15 dias: a de Gustavo Fruet (PSDB-PR).
O governo Lula patrocinou um monte de "nunca na história". Um desses foi a eleição de Severino Cavalcanti (PP-PE) para a presidência da Câmara. Na ocasião, início de 2005, o governo também contava com dois candidatos para a presidência da Câmara dos Deputados: os petistas Luiz Eduardo Greenhalgh (SP) e Virgílio Guimarães (MG).
Com a briga entre os dois governistas, quem acabou levando o terceiro maior cargo da República foi o Severino Cavalcanti, que renunciou ao mandato sete meses depois, para fugir de um processo de cassação. Dizem que Severino cobrava propina de um dono de um restaurante que funciona em um dos anexos da Câmara dos Deputados.
Aldo, Chinaglia e Fruet vão debater propostas polêmicas, entre elas o aumento salarial de 91% que os parlamentares queriam dar a eles próprios no final do ano passado. No entanto, a pressão da sociedade foi tão grande que eles acabaram recuando da idéia naquele instante.
Pela debate promovido pela Folha de S. Paulo na semana passada, teremos uma idéia de como será este confronto. Aldo e Fruet vão se declarar independentes do governo, e dessa forma, teriam uma atuação mais desvinculado do Planalto, que edita medidas provisórias em grande escala.
Do outro, Chinaglia diz que a sua aproximação com o governo fará com que os dois poderes tenham uma maior sintonia, e desta forma, os projetos que precisam sair do papel com maior rapidez terão mais possibilidades de virar realidade.
Bom, para o bem ou para mal, teremos um debate inédito. Já que o Brasil não tem a tradição de discutir o papel do legislativo, poderemos ver como se comportam três parlamentares que buscam o voto de um universo bastante reduzido: os 513 deputados federais. No caso, seriam 511 votos a conquistar, supondo que os candidatos votem em si.
Eis um bom, e inédito, programa para uma segunda de final de verão.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 12:16 AM


Comments: Sexta-feira, Janeiro 26, 2007

Colega invejável

Um encontro de dois membros do partido comunista não deveria ser o assunto de uma coluna de política sem vínculos partidários. Até porque, se formos pensar em um encontro desses, de dois membros do partidão, a imagem que vem à mente não costuma ser a das mais agradáveis.
Entretanto, os tempos são os outros. Hoje em dia não se sabe mais quem defende o quê, quem segue tal orientação ideológica. Basta dizer que o PFL, logo o PFL de coronéis emblemáticos da política brasileira, está apoiando um deputado do PCdoB para a presidência da Câmara.
Se bem que esse mesmo candidato é o atual presidente da Casa, o terceiro maior cargo da República. Numa circunstância destas, tudo é explicável, tudo é compreensível.
O que de mais interessante aconteceu em Brasília nessa quinta-feira nublada e fatídica, um dia típico de verão no país, onde muita gente está na praia ou a procura de emprego; foi o encontro entre o atual presidente da Câmara dos Deputados, Aldo Rebelo (PCd0B-SP) e a deputada federal eleita pelo mesmo PCdoB do Rio Grande do Sul, Manuela D`Ávila.
A parlamentar gaúcha é dona de uma beleza capaz de arrancar aplausos na rua. Ela é daquelas senhoras que temos vontade de dizer: - ¿Me desculpe madame, mas eu tenho que dizer que a senhora é muito bonita¿. E detalhe: temos vontade de dizer isso apenas e tão somente por impulso, sem premeditação.
Manuela e Aldo tiveram um encontro hoje no Congresso Nacional. Ele, educado como sempre, mostrou as dependências da Casa para ela, que com um sorriso mágico encantou jornalistas, assessores e o próprio presidente.
Prova disso é o sorriso mais do que sincero, mais do que maroto do ¿comunista¿ (que está sendo apoiado também pelo PFL). Aldo sorriu como um adolescente, como um menino encantado com a beleza da namoradinha, com o garoto que pergunta a si mesmo em uma noite qualquer de verão por que Deus está sendo tão caridoso com ele.
Aldo posou para fotografias ao lado de Manuela, e do seu rosto jorrava alegria, pingava contentamento. Tudo isso, resultado da presença de uma bela mulher. Ah, a política também tem os seus prazeres. Mesmo que sejam curtos. Porém, esses prazeres são capazes de tatuar em almas mais sensíveis a magia de certos olhares.
Com esse encontro, a campanha de Aldo à reeleição, que está passando por um período delicado em relação aos apoios dos partidos, vai sofrer uma reviravolta. Enquanto Chinaglia e Fruet vão dormir pensando em números, acordos, articulações políticas em geral; Aldo talvez deite pensando em um aroma, em uma mexida despretensiosa no cabelo.
E como ninguém tem certeza de nada em relação à política no Brasil, vai ver o atual presidente conquiste mais um mandato pela sua simpatia fulminante e pelo seu entusiasmo juvenil. E ele está certo. Manuela merece toda a empolgação, o respeito, da República.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 1:21 AM


Comments: Quarta-feira, Janeiro 24, 2007

Uma briga boa

Justiça seja feita, esta eleição para a presidência da Câmara dos Deputados fez com que o Brasil parasse e concluísse: - ¿Existe eleição para a presidência da Câmara dos Deputados¿. Antigamente, todos os presidentes faziam o seu presidente da Câmara, numa tradição que tornava essa disputa apenas uma mera indicação.
Até a primeira eleição do governo Lula para essa Casa, tudo seguiu a tradição. O eleito era o indicado do governo e não se falava mais nisso. Mas o PT veio mostrando ao que veio nos anos seguintes e lá vai Severino Cavalcanti (PP-PE) abocanhar o terceiro maior cargo da República.
Desde então, criou-se um novo interesse nacional: a eleição para a presidência da Câmara. E esta eleição em particular é pioneira em, no mínimo, dois aspectos. Será a primeira vez na história que a eleição se dará por meio de votação eletrônica, o que vai agilizar e muito o processo de apuração. Ao invés de passar horas e mais horas contando votos, saberemos em segundos quem será o próximo presidente da Câmara.
A outra inovação é que teremos debates para essa disputa. Um deles, inclusive, será transmitido pela TV Câmara. Isso é mais do que inédito. O povo brasileiro terá a oportunidade de ver um debate entre membros do legislativo (o que é inédito), e que vão falar para eleitores que são seus colegas de Parlamento.
O máximo que o povo pode fazer numa hora dessas é torcer por esse ou por aquele, porque não teremos direito ao voto desta vez. Votarão nessa eleição tão comentada apenas os que foram eleitos em outubro último. Talvez apareça alguém dizendo por aí que o povo terá uma espécie de voto indireto, mas isso é balela.
Na próxima semana, teremos essa eleição e então Brasília só vai parecer no mapa enquanto notícia depois do carnaval. Já que estamos nos últimos momentos, vale de tudo. O deputado Gustavo Fruet (PSDB-PR), por exemplo, foi pedir apoio à Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Só ganhou a bênção, o que já é alguma coisa.
Fruet e o candidato do PT, Arlindo Chinaglia (SP), estão em Minas Gerais para pedir votos aos parlamentares mineiros. O prefeito de Belo Horizonte é do PT. Já o governador de Minas, é do PSDB. Daí vemos que o Estado está divido.
Enquanto petistas e tucanos se desdobram pelo apoio dos mineiros,o atual presidente da Câmara e candidato à reeleição, Aldo Rebelo (PCdoB-SP), teve uma id[eia muito mais criativa. Sabendo que mais de 200 deputados se elegeram pela primeira vez, e que não sabem patavinas do processo legislativo nacional, Aldo resolveu dar uma espécie de ¿curso intensivo de deputado¿.
Tudo estaria muito bem se o curso não fosse na véspera da eleição para a presidência da Casa. Chinaglia e Fruet já estão chiando, dizendo que isso não é uma atitude das mais acertadas, que os meninos podem ficar impressionados com a oratória de Aldo e acabar votando nele por admiração docente, etc.
Conversa vai, conversa vem, o fato é que nunca uma eleição para a presidência da Câmara se pareceu tanto com uma eleição para o Executivo. E não é demais confessar que esse confronto está se mostrando muito mais divertido. Até porque não tem a chatice da lei seca e do voto obrigatório.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 11:59 PM


Comments: O pacotão do crescimento miúdo

A semana começou com a expectativa de um anúncio de medidas que prometiam o tão esperado, e já em vias de envelhecimento, ¿espetáculo do crescimento¿ do governo Lula. O próprio presidente deixou de assar um carninha no domingo e ficou reunido com um monte de assessores para deixar tudo bonitinho para a manhã da segunda-feira.
Antes do anúncio para a imprensa, reuniões com líderes partidários e com governadores de Estado. No Palácio do Planalto, tinha gente ¿até no lustre¿, como diria o colossal dizer de Nelson Rodrigues. E finalmente, depois de muita promessa, o Programa de Aceleração do Crescimento é revelado.
No momento em que o PAC estava sendo anunciado, lá pelas 11 horas da manhã, eu estava me dirigindo à moderna ponte JK, para assistir de lá a primeira implosão de um prédio em Brasília. O dia estava belíssimo, barcos e mais barcos passavam debaixo daquela construção arrojada (o motor de um deles morreu e os três homens tiveram que remar utilizando os próprios braços até a margem mais próxima), e famílias inteiras se acomodavam como podiam para ver a implosão.
Apesar da paisagem, do clima, da brisa, não conseguia desviar o pensamento no programa de incentivo à economia brasileira. Pelo que tinha visto na TV antes de sair de casa, a coisa era muito séria. Umas 50 medidas seriam anunciadas, um orçamento de meio trilhão de reais seria disponibilizado; algo digno de apreço, de respeito.
Pois bem. Falei que o programa foi anunciado lá pelas 11 horas da manhã. O brasileiro almoçou na segunda-feira (22) com um cardápio televisivo pesado. Críticas e mais críticas de vários setores: empresários, economistas, industriais, políticos, etc. Pode-se até mesmo dizer que o brasileiro nunca viu tanto economista junto de uma só vez na TV.
E toda essa movimentação para dizer que as medidas do PAC são insuficientes se a carga tributária não baixar, além de reformas essenciais, como a educacional. Fala-se muito em reforma da previdência por aqui. E a previdência deve mesmo ser reformada, como tudo nessa vida. No entanto, o argumento que o governo utiliza para que o trabalhador fique mais tempo contribuindo é purista demais.
Ninguém, absolutamente ninguém, associa numa mesma análise rasteira a reforma da previdência e a corrupção; a reforma da previdência e o mau uso do dinheiro público; a reforma da previdência e os fraudadores da própria previdência; a reforma da previdência e a construção de Brasília. Afinal, o presidente Juscelino Kubitschek conseguiu o dinheiro para erguer a capital no Planalto Central com o dinheiro da previdência.
Voltemos a falar do pacotão do governo brasileiro, que deseja acima de tudo que o país cresça 5% ao ano, para tentar compensar o crescimento pífio da economia durante o primeiro mandato do presidente Lula. Quem é empresário no Brasil sabe mais do que ninguém que o governo detesta os empresários. E não me refiro especificamente ao governo Lula. Qualquer governo brasileiro detesta quem abre um negócio qualquer e procura gerar empregos.
A quantidade de impostos que o brasileiro paga é simplesmente indecente. Não existe possibilidade de crescimento da economia com uma carga tributária que é um verdadeiro câncer para o desenvolvimento, aliada às taxas de juros aplicadas por aqui.
O próprio ministro da Fazenda, que é economista, deu um recado claro ao presidente do Banco Central na apresentação do milagroso plano mágico do governo Lula para salvar a pátria. Guido Mantega declarou que o mercado espera que as taxas de juros caiam. E complementou: ¿Ouviu Meirelles?¿, num recado ao presidente do BC, Henrique Meirelles, que tem status de ministro e como tal só pode ser julgado no Supremo. É que aconteceram uns problemas...
Todos sabem que os economistas têm o talento de falar, explicar, exemplificar; e ninguém entender nada. E esta não é uma característica exclusiva dos economistas. Algumas categorias profissionais até se utilizam deste artifício para realmente não serem compreendidas e passarem sem maiores problemas.
A grande questão é que o jornalista deve traduzir ao popular, ao cidadão comum, o que as outras categorias profissionais falam apenas entre si. Então, podemos dizer, em linguagem cotidiana, que esse programa de incentivo ao crescimento da economia é muito bem intencionado. Mas vai gastar uma dinheirama absurda e, conhecendo o Brasil como nós conhecemos, não é preciso ser muito esperto para saber que terá os seus bilhõezinhos de reais desviados.
Governadores já querem se reunir com o presidente no próximo dia 6 de março, para apresentarem propostas de ajustes no programa. O Congresso Nacional já está se preparando para votar as medidas provisórias de incentivo ao crescimento da economia até o meio deste ano. A Ordem dos Advogados do Brasil afirmou que uma das medidas provisórias, que pega o dinheiro do FGTS dos trabalhadores para complementar o dinheiro do PAC, é ilegal.
Bom... Tentando traduzir mais uma vez: o governo lançou um monte de medidas para tentar fazer a economia crescer 5% ao ano. Um monte de gente está falando (economistas, empresários, industriais e políticos) que esse programa de crescimento da economia não vai dar o resultado que o governo está dizendo que vai dar.
E no meio desse vai ou não vai, estão 500 bilhões de reais para serem gastos em 4 anos...

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 2:29 AM


Comments: Terça-feira, Janeiro 23, 2007

Se o roubo fosse educado

O pacote de medidas de estímulo à economia nacional, chamado oficialmente de Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), não resistiu muito sem críticas. Lançado no final da manhã dessa segunda-feira, o programa chegou à hora do almoço com um monte de críticas.
Economistas, governadores e até mesmo deputados da base aliada já faziam as suas mais variadas ressalvas. O presidente Lula reuniu ministros, governadores, parlamentares, a imprensa, e fez a sua parte. Saiu na foto como o sujeito que consegue agregar todas as ¿forças políticas¿.
Mas na hora de realmente explicar como que as coisas iriam funcionar, deixou o local e largou dois economistas de formação para se entenderem com o batalhão de repórteres: Guido Mantega, ministro da Fazenda; e Dilma Rousseff, ministra da Casa Civil.
Criticaram o PAC o presidente da Confederação Nacional da Indústria, o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, economistas das mais variadas tendências, e sabe lá Deus quem mais. Todos afirmam que o PAC é insuficiente para garantir o crescimento de 5% ao ano.
O próprio ministro da Fazenda mandou um recado público ao presidente do Banco Central, dizendo que o mercado aguarda a queda da taxa básica de juros. Só para lembrar que o presidente do BC tem status de ministro e adora um juro alto.
E a verba? O PAC vai contar, juntando dinheiro público, privado, extraterrestre e imaginário, uma quantia impressionante: R$ 503,9 bilhões. O país tem quatro anos para investir isso, e nunca é demais ressaltar que o maior talento da administração pública patrícia é o desvio de verba despudorado.
Se 80% desse dinheiro fosse aproveitado da forma devida, cresceríamos até mais. E é óbvio que para afirmar isso eu me utilizo de cálculos e projeções absolutamente íntimas. Mas além de driblar a roubalheira generalizada, o país tem que vencer um monte de outras coisas para crescer a um ritmo razoável.
A carga tributária, que é alta demais e sufoca qualquer desejo de investimento. As leis trabalhistas, que não permitem que um empregador contrate mais; daí temos a migração de verdadeiras populações para o mercado informal de trabalho. E também vemos a falta de qualificação do povo brasileiro - a começar pelo próprio presidente da República, que só tem o diploma do TSE, conferindo-lhe o comando do Executivo; e o do Senai, que lhe confere a certidão de torneiro mecânico.
Mas chega de tentar desmerecer o presidente por meio de sua baixa escolaridade. O fato é que o programa de incentivo da economia brasileira recebeu mais críticas do que elogios, já começa rachado em sua base, e dispõe de uma dinheirama invejável.
O povo brasileiro terá muita sorte se ao menos 60% do meio trilhão de reais do PAC for investido de maneira razoável. Não precisa nem mesmo ser exemplarmente investido. Até porque a pequena corrupção, o roubinho, a falta de cuidado com o patrimônio público, faz parte de nossa condição.
Se tudo fosse certinho demais, seríamos menos do que nós mesmos. O nosso maior problema é o roubão, o desviozão. E isso também nos faz o que somos.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 12:33 AM


Comments: Segunda-feira, Janeiro 22, 2007

Promessa de crescimento

Dentro de poucas horas, o presidente Lula vai se reunir com ministros, governadores, assessores e palpiteiros em geral para anunciar mais um pacote de medidas que visa o crescimento da economia. O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) vai contar com aproximadamente 50 medidas, e com um orçamento singelo de R$ 80 bilhões.
E por que razão o governo está lançando este tal pacote de incentivo ao crescimento, quando o país inteiro se encontra na beira da praia, com a sua singela cervejinha. Após um primeiro mandato desastroso em diversos aspectos, inclusive no crescimento econômico, o governo agora quer fazer com que a economia reaja e cresça a 5%, até 2010.
Após praticar uma taxa de juros conservadora até para os tucanos, o governo Lula resolve fazer um investimento destes para que os números do PIB não fiquem tão feios para a história. O crescimento econômico, por si só, não é garantia de que as coisas melhorarem para a população. Basta ver o exemplo da China.
Hoje, a moda é ensinar Chinês Mandarim para funcionários de multinacionais e pessoas que pensam em atuar num mercado daqui a uns 15 ou 20 anos. A China não cresce como um país comum. O crescimento de lá é espantoso e constante.
No entanto, para que uma economia como aquela cresça a um ritmo desenfreado como esse, é necessário, entre outras atrocidades, uma coisa muito feia para ainda ser praticada: trabalho escravo. Os produtos chineses inundam os outros países, com um preço bem baixinho, porque o custo para fazê-los se aproxima do zero.
Talvez ninguém se preocupe muito com essa questão, mas por que não existem reportagens na TV que falem do cotidiano dos trabalhadores chineses? O governo da China sabe muito bem o que deve ser e o que não deve ser exposto.
No Brasil também existe o tal do trabalho escravo, que envolve a vocação exportadora do país desde sempre: a agricultura e o extrativismo. Se não me engano, existe até Secretaria Especial, com peso de ministério, que trata especificamente do assunto. No nosso caso, a questão é um pouco diferente. Não temos os bilhões de pessoa que a China tem e não temos a disciplina daquele povo.
Por aqui existe eleição direta para os cargos do Executivo e do Legislativo, no entanto o cidadão é obrigado a votar, sob penalidades previstas em lei como o pagamento de multa, a impossibilidade de sair do país, de assumir cargo público, entre outras agressões. Há quem diga que o modelo de cá é democracia. Eu prefiro outra nomeação.
A experiência mostra que um programa grandioso como este tende ao fracasso. A economia mundial parece que não caminha tão bem em relação aos últimos quatro anos. E quando a economia mundial não vai bem, leia-se economia dos Estados Unidos, o resto desanda.
Um outro fator que revela que o PAC não vai dar muito certo é quantidade de dinheiro público envolvida. Quando o governo pretende investir R$ 80 bilhões, no Brasil, a matemática costuma ser um pouco menos generosa do que as cifras oficiais.
Destes R$ 80 bilhões que o PAC vai utilizar, a nossa velha e conhecida corrupção dará o seu jeito de corroer uns 40% (no mínimo). E se o Brasil não crescer 5% neste ano, é só colocar a culpa em cenários externos desfavoráveis, ou no clima que está enlouquecendo. Mas jamais na própria incapacidade de crescer.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 1:05 AM


Comments: Sexta-feira, Janeiro 19, 2007

Destino da vocação

Ouvi dizer por cima que no ano passado o governo bateu todos os recordes de arrecadação de imposto. O que significa dizer que o brasileiro serve para alguma coisa nessa vida errada. Pagamos impostos por vício. E também por uma certa dose de pudor. E melhor do que qualquer outro povo no mundo.
A carga tributária, ou seja, a quantidade de impostos que se paga nessa republiqueta seria capaz de fazer com que a vida material de nossa população alcance o céu. E como estamos em uma época bastante prática, em que os sonhos já não são desvinculados das cifras, podemos também afirmar que a vida material é o que importa.
Li, também não sei onde, que se a corrupção no Brasil fosse uma empresa, o seu lucro chegaria aos bilhões de reais. E com a eficiente arrecadação de impostos que temos, o lucro da ¿empresa corrupção¿ vai aumentar.
A atividade política serve, entre outras coisas, para acariciar o ego. Não é apenas pelo dinheiro que os políticos são políticos. Existe também a busca pelo poder. E, apesar da maioria das vezes eles andarem juntos, dinheiro e poder nem sempre são sinônimos.
Quantos e quantos empresários, que têm lá as suas dezenas de milhões de dólares, são incapazes de despertar admirações profundas e sinceras em mais de meia dúzia de desconhecidos? O poder é o verdadeiro vício, é a verdadeira alegria. Apenas e tão somente com o poder, que também passa pelo dinheiro, é que o político se sente com a alma massageada.
Nunca o Brasil recolheu tanto imposto. Creio que a corrupção nunca foi tão alta. Alguma relação? Claro que sim! Os impostos financiam a corrupção. Esmagamos o nosso corpo, retorcemos a nossa estrutura para financiar a mordomia de poucos sortudos.
Isso sempre existiu em toda parte do mundo. No Brasil então, é condição essencial para o convívio entre os agentes sociais. Entretanto, somos obrigados a conviver com um elemento muito particular nosso: o respeito às autoridades.
Além de pagar imposto, o brasileiro sabe respeitar alguém que usa terno. Além do terno, tem a farda, a beca e o avental. O brasileiro sabe respeitar. Aí está o seu erro: a adulação às autoridades. Dizem que a autoridade só é autoridade para servir ao coletivo. Não existe autoridade sem função de serviçal.
O problema é que quando aparece alguém que sabe ler, dá logo uma vontade desgraçada de chamar o homem de doutor, de respeitá-lo incondicionalmente e de pagar um imposto qualquer. Há quem diga que o esporte, o passatempo, a religião do brasileiro é o futebol. Mas isso não é verdade.
Nossa única vocação é pagar imposto, pagar imposto, pagar imposto. O governo, com sua política econômica criminosa, massacra cada vez mais o povo que não serve para outra coisa, além de pagar imposto. Triste do povo, que paga tanto imposto a quem nem ao menos é doutor.

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postado por: RODOLFO TORRES 2:01 AM


Comments: Quinta-feira, Janeiro 18, 2007

Forçando não vai

Custou, mas o PSDB entendeu que o apoio ao candidato do PT à presidência da Câmara soava muito estranho. Ao menos nesse caso podemos dizer que houve coerência, houve esforço pela manutenção da coerência.
É bastante triste analisar o quadro político brasileiro e ver que de um lado encontramos o PSDB, enquanto do outro, vemos o PT. Partidos tão semelhantes, que polarizam a disputa política, tornando o Brasil um mero quintal de São Paulo.
Mas até que enfim o líder da bancada tucana na Câmara, deputado Jutahy Júnior (BA), caiu em si e resolveu declarar que agora o partido vai com Gustavo Fruet (PSDB-PR), travar a batalha campal que será a disputa pela presidência da Câmara no próximo dia primeiro de fevereiro.
A disputa, que agora conta com três nomes, está mais do que animada e imprevisível. De minha parte, acredito que o atual presidente da Casa, Aldo Rebelo (PCdoB-SP), vai levar o caneco. Ele conta com o apoio declarado do PFL. Vejam só que situação: um ¿comunista¿ ter apoio do velho PFL dos milicos.
A candidatura de Chinaglia (PT-SP), que até agora saiu varrendo o Congresso, arrebatando todos os apoios possíveis e imagináveis, conseguiu angariar as bênçãos de mais duas agremiações políticas: PTB e PP. Esses partidos, em épocas ¿normais¿, estariam com o PFL, que jamais estaria com o PCdoB. Mas os tempos são outros...
Apesar do namoro entre PT e PSDB ter durado menos de uma semana, talvez possamos extrair do episódio algumas pérolas para os dias que virão. Um dos pensamentos é: ninguém é inimigo demais que não possa se coligar.
PT se unindo com PSDB, PCdoB se aliando com PFL. O que não muda é o velho PMDB, que é um partido governista por vocação e excelência. O ímã que faz grudar o PMDB com qualquer substância governamental tem a sua explicação: cargos.
A análise política, como sempre gosto de ressaltar, é o terreno do palpite deslavado. É na análise do cenário político que encontramos o exercício do livre pensar, do livre achar. Diria até mesmo que a liberdade plena só é possível na análise política.
Partindo deste princípio, afirmo: a eleição para a presidência da Câmara será decidida no segundo turno entre Aldo e Fruet. Chinaglia vai sair da disputa. O PT, que empurrou guela abaixo a candidatura de Chinaglia, pode ter uma surpresa desagradável. Assistir à migração dos votos.
A mais recente eleição para o TCU foi um grande exemplo do que acontece quando o PT quer impor um nome. Detalhe: o PFL, coerente no seu anti-petismo, estava do outro lado da trincheira. E conseguiu emplacar o pefelista Aroldo Cedraz para um cargo que mais parece a confirmação da existência de Deus: ministro do TCU.

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postado por: RODOLFO TORRES 2:04 AM


Comments: Quarta-feira, Janeiro 17, 2007

O terceiro nome

Quem cobre a política brasileira deve agradecer, e muito, a tal da eleição para a presidência da Câmara dos Deputados. Afinal, deputados e senadores estão de férias e o Congresso Nacional conta apenas com aqueles que lá estão para realmente trabalhar: o pessoal da limpeza, do cafezinho, da segurança, etc.
Se não fosse essa disputa, as editorias de política dos veículos de comunicação teriam que se desdobrar para extrair cada linha publicada no infinito que são seis colunas, quando o assunto não existe. Esse verão em Brasília está animado, e tudo por causa desta eleição.
Além dos tradicionais nomes exaustivamente citados para o tão precioso cargo: Aldo Rebelo (PCdoB-SP), atual presidente da Câmara e candidato à reeleição, e Arlindo Chinaglia (PT-SP), líder do governo na Casa; provavelmente contaremos com mais um nome para a batalha sangrenta que será travada no plenário da Câmara no próximo dia primeiro de fevereiro: Gustavo Fruet (PSDB-PR).
Disse provavelmente porque existe a palavra do líder da bancada tucana no Congresso, deputado Jutahy Jr. (PSDB-BA), em favor da candidatura de Chinaglia. Na semana passada, Jutahy consultou parlamentares do PSDB e anunciou o apoio ao petista. No entanto, alguns setores do partido desaprovaram a aliança com o PT. Diversos deputados do PSDB de São Paulo se declararam contra; o governador da Paraíba, Cássio Cunha Lima, que é do PSDB, foi contra; a governadora do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius, também do PSDB, se declarou contra.
Até, e principalmente, o ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso, publicou carta em que desaprovava o acordo entre PT e PSDB. Os tucanos favoráveis a Chinaglia justificaram a união com uma história de ¿respeito a proporcionalidade¿. Mas parece que essa conversa não colou.
Tanto é verdade que a bancada do PSDB marcou uma nova reunião para a próxima terça-feira (23), para rediscutir o apoio a Chinaglia. Nesse meio tempo, surge a candidatura de Gustavo Fruet ao terceiro cargo da República. Fruet, assim como diversos outros deputados, não apóia a idéia de ver Aldo ou Chinaglia no comando da Câmara. E esse grupo de parlamentares, que defende uma candidatura alternativa, viu que ou lançavam um nome imediatamente, ou a idéia de ver um terceiro nome da disputa seria sepultada pelo pouco que resta.
Fruet ganhou destaque por sua atuação na CPI dos Correios e carrega uma fama rara no Congresso Nacional: a de político sério. Diversos outros deputados se lançaram para a imprensa nos últimos dias, numa mistura de sedução e astúcia, querendo emplacar a própria candidatura por meio dos jornais. Mas o nome que foi escolhido para representar parlamentares dos mais diversos partidos políticos, PMDB, PSDB, PV, PPS, e até mesmo o PT, foi o do tucano paranaense.
Pelo fato de ser tucano, o Psol decidiu que não iria apoiar o nome de Fruet à presidência da Câmara. No entanto, ninguém questionou aos membros do partido que busca o ¿socialismo e a liberdade¿ a razão deles sentarem na mesma mesa de negociação dos tucanos, por semanas, para costurar uma terceira candidatura.
Articular, traçar estratégias, rever posicionamentos políticos para uma disputa importante como é a presidência da Câmara; tudo isso é permitido fazer com o PSDB. Mas o Psol não pode apoiar um candidato tucano ao cargo. Ah, a incoerência na política... Se o Psol, que fazia parte do grupo que apoiava uma candidatura alternativa, corria o risco de ver um tucano sendo indicado, por que razão foi se meter com esse grupo? Por que não lançaram uma candidatura ¿puro sangue¿?
A campanha de Aldo Rebelo deve estar numa alegria de início de férias. Mesmo que Gustavo Fruet diga que a sua candidatura depende ainda da reunião dos tucanos da próxima semana, parece que não tem mais jeito: ele já está no páreo.
Aldo tem a mais profunda certeza de que Fruet vai tirar votos de Chinaglia, que até a segunda-feira (15) arrecadava todos os apoios possíveis dentro do Congresso. Após uma reunião de Aldo com a sua campanha, na noite da mesma segunda, ficou decidido que uma terceira candidatura seria a salvação para o atual presidente. De acordo com a campanha do ¿comunista¿, Fruet é perfeito para levar a eleição para o segundo turno. E nessa hora, que equivale aos pênaltis no futebol, vale de tudo: prometer cargo, abraço apertado e churrasco demorado. Até beijinho deve ser negociado em uma hora dessas.
Mas Chinaglia ainda tem as suas armas letais. Uma delas é a mente de enxadrista do ex-ministro José Dirceu. Inclusive, Chinaglia diz abertamente que não descarta votar em plenário a anistia a Dirceu, caso saia vencedor. Outra coisa que Chinaglia confessa, sem nenhum arrependimento, é que ele vai aumentar o salário dos parlamentares.
O célebre ex-presidente da Câmara Severino Cavalcanti (PP-PE), que teve que renunciar ao mandato para não ser cassado devido a cobrança de propina de um dono de restaurante do Congresso, já avisou que apóia a candidatura de Chinaglia. Severino, mais do que ninguém, sabe qual é o verdadeiro motor dentro do Congresso Nacional.

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postado por: RODOLFO TORRES 1:39 AM


Comments: Terça-feira, Janeiro 16, 2007

O divórcio sadio

Foi esquisito. Apesar de pensar que tudo pode se realizar em termos de acordos políticos, foi estranhíssimo. Tudo bem, eles são da mesma São Paulo, têm lá as suas semelhanças (principalmente na aérea econômica). Mas foi muito estranho.
O PMDB pode, e deve, apoiar o candidato do partido do presidente. Nada mais peemedebista do que a eterna sede pelo poder. O PL, o Prona e o PSC também podem apoiar quem bem entenderem. Faz parte do joguinho pelos cargos. Nada mais natural.
Mas quando um partido como o PSDB apóia o PT, algo fica errado. Repito que não se trata de diferenças ideológicas, nem de conduta, nem de origem. A coisa é mais pessoal mesmo. E somente um débil mental, um asno irredutível, é capaz de desprezar o lado pessoal nas relações políticas.
É lógico que encontramos exemplos como o de Prestes, que foi capaz de subir no palanque em que Getúlio Vargas estava, anos depois do baixinho de São Borja deportar a esposa de Prestes, a judia alemã Olga Benário, para morrer nos campos de concentração de Hitler na Alemanha.
O célebre poeta Manoel de Barros relatou que deixou de ser comunista naquele dia em que viu prestes no mesmo palanque de Vargas. Diz o pantaneiro que ao ver a cena, sentou-se numa calçada qualquer e começou a chorar. Era a certeza de poeta de que não é possível, de que jamais será possível será o pessoal do político.
Se alguém pede votos para o algoz de sua mulher, esse é um sujeito que merece ser considerado perigoso até demais. Esses perigos da paixão, que sempre teimam em rondar a consciência dos homens mais célebres, também cai sobre a aliança entre PT e PSDB, declarada na semana passada pelo líder da bancada tucana na Câmara, Jutahy Jr. (PSDB-BA).
O apoio de tucanos a petistas é a maior anomalia comportamental da conduta política nacional deste início de século. Está mais do que evidente que nos bastidores um lava a mão do outro. Isso não é segredo para seu ninguém. Mas a rixa entre PT e PSDB é a última pose, o último teatrinho da política brasileira. Uma vez acabada está briga, uma vez encerrada a disputa entre tucanos e petistas; o que mais sobrará para se discutir?
Para que exista a política, é necessário existir o ódio, o desprezo, a rivalidade exacerbada. Não existe política nos trópicos sem gritarias e brigas sem fundamento. A política por aqui precisa de discussão. E mais do que isso: precisa de discussão sem embasamento.
Para a saúde de nossa democracia, o maniqueísmo PT x PSDB precisa existir. É preciso que, nos mais variados rincões desta pátria, alguém tenha a mais profunda certeza de que um ou outro é totalmente bom. E em compensação, o partido rival é tudo de ruim. É assim que conseguimos ser.
E não adianta alguém declarar que ambos são detestáveis, que ambos faliram enquanto projeto de partido, enquanto proposta de condução do país. Deve sempre existir um que esteja totalmente certo; e o outro, plenamente errado.
O apoio do PSDB ao PT precisa ser revisto. Para a saúde de nossa consciência política. Para a saúde de nossa estupidez.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 1:08 AM


Comments: Segunda-feira, Janeiro 15, 2007

Editoria de verão

Hoje é um dia mais do que penoso para muita gente. Alguns saem de casa apenas com um pão dormido, borrado de manteiga, um café fraco e um vale-transporte. O emprego, que é pouco, anda cada vez mais difícil. A qualificação, que nunca foi boa, é mais do que exigida. Ao menos existe a fé.
A fé do brasileiro comum permite acreditar que um país que cresceu em média 2,7% nos últimos quatro anos, enquanto a economia mundial deu saltos quase três vezes maiores, vai melhorar. O governo acredita que a economia vai crescer 5% este ano. Ao menos o governo também tem fé.
Hoje também é um dia triste para o presidente Lula. Sua temporada de descanso oficial na praia acabou e ele terá que suportar mais uma vez a rotina de reuniões engravatada de Brasília. Pelo que o nosso presidente alegou durante esses últimos quatro anos, com toda a quantidade de seus ¿não sei¿ sobre os mais variados escândalos sob suas barbas, a sua conversa está mais para a de um pescador.
Mas a tristeza do desempregado, ou a do presidente pela volta às reuniões de Estado, não é o tema que deve nortear o presente texto. Não que as tristezas sejam menos merecedoras de registros. Mas é que existe uma eleição para a presidência da Câmara dos Deputados para ser registrada.
Falem o que quiserem sobre o noticiário político brasileiro. Digam que ele não aprofunda devidamente os temas de maior interesse, que a editoria de política não passa de uma fofoca travestida de informativo sério. Podem até mesmo afirmar que as notas sobre a política nacional não são merecedoras de confiança. Só não venham me dizer que a editoria política brasileira não faz das tripas coração para encher páginas e mais páginas de jornal.
Já dizia Vinícius de Moraes em uma canção que fez para homenagear Pablo Neruda: ¿Hay dias que no se lo que me passa¿. Da mesma deveria se comportar o caderno de política dos jornais. Até porque o povo se enche fácil desses temas impolutos. É verão, as praias brasileiras estão lotadas, o consumo de cerveja explode, o amor enfim encontra a sua estação nos trópicos. Então, para quê tratar de política nestes dias mais leves?
Existe a disputa pela presidência da Câmara... De um lado, dois candidatos da base de sustentação do governo: Aldo Rebelo (PCdoB-SP), atual presidente da Casa legislativa, e Arlindo Chinaglia (PT-SP), líder do governo na Câmara.
PMDB, PSDB, e outras bancadas de um monte de partidos resolveram apoiar Chinaglia. Mas como a política, principalmente a brasileira, não é nem de longe uma ciência exata, podemos esperar que um número considerável de parlamentares destes mesmos partidos vote em Aldo.
Ainda existe a intenção de se lançar um terceiro nome para a disputa. Parece que será o de Gustavo Fruet (PSDB-PR), político que, por incrível que pareça, se destacou pela sobriedade e eficiência durante a CPI dos Correios.
É... A eleição para a Câmara se aproxima e três candidaturas estão postas. Até o dia primeiro de fevereiro, as editorias de política terão que destrinchar este tema. Pior é quando não existe nem mesmo uma eleição no Congresso Nacional. Aí é que o verão, com suas praias e cervejas, massacra de vez o noticiário político.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 1:21 AM



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