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Confraria dos Crônicos
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De crônica, não basta a vida! Comments: Sexta-feira, Dezembro 22, 2006 Cinco, mágicos, reais A CPI dos Sanguessugas, como toda CPI que se preze, não serviu para nada. Apenas fez com que os seus integrantes aparecessem com aquela expressão de quem está compenetrado em alguma atividade. Pura balela. Nessa quinta-feira, último dia de atividade do Congresso Nacional, o Conselho de Ética da Câmara trabalhou como há muito não fazia. Fez lá os seus julgamentos, acusou, pediu absolvição e o resultado é esse: 7 deputados foram absolvidos da acusação de participação naquele esquema criminoso, popularmente chamado de sanguessuga. Mas o que são os sanguessugas? Os sanguessugas são deputados e senadores que apresentaram emendas ao orçamento da União para a compra de ambulâncias superfaturadas. O Conselho de Ética nem ao menos chegou a julgar 56 outros deputados, também acusados de participar desse esquemão criminoso. E apenas quatro deputados foram acusados pelo conselho. O Brasil mais uma vez mostra do que é capaz ao exibir um resultado como esse. A impunidade é o verde de nossa bandeira, é o nosso gosto pelo futebol. Nós somos a impunidade que samba. No entanto, o brasileiro está eufórico com o seu poder de mobilização. Pela primeira vez em muito tempo, uma revolta popular contra um absurdo decidido pelo Parlamento fez com que os políticos voltassem atrás. Semana passada, o aumento de 90,7% que os congressistas se auto-concederam fez com que o país inteiro resolvesse reclamar. Tivemos até um deputado que foi agredido com uma faca. Logo o brasileiro, que é denominado de homem cordial. E logo na Bahia. E era uma mulher de meia idade. Todas as tendências agressivas estão equivocadas. Poderíamos esperar um garotão de um centro urbano nervoso. Nunca uma senhora baiana. O aumento salarial de deputados e senadores ficou para o próximo ano. E a conseqüência desse adiamento é que a candidatura à reeleição do deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP) à Presidência da Câmara está comprometida. Ninguém respeita um presidente da Câmara que não consegue aumentar os salários dos colegas nas vésperas de uma eleição. E nesse aspecto, Severino Cavalcanti era imbatível. Se alguém perguntar a qualquer funcionário da Câmara quem foi o melhor presidente, todos, em uníssono, dirão: ¿Severino Cavalcanti¿. Severino aumentava os salários sem maiores pudores. Ele reajustava os vencimentos com uma naturalidade digna dos homens que nasceram para permanecer no poder, que vieram a este plano para ditar as normas. Severino Cavalcanti é um patrimônio da política partidária brasileira. Já que o aumento dos parlamentares ficou para o próximo ano (se não ocorrer nenhuma manobra durante o verão), a Comissão Mista de Orçamento do Congresso aprovou o novo valor do salário mínimo: R$ 380. Lula, tomado pelo espírito natalino, afirmou que o crescimento da economia brasileira não será comprometido por conta de aumento de cinco reais (a previsão seria de um mínimo de R$ 375). As projeções para o crescimento da economia brasileira não são, nem de longe, animadores. Toda semana, o governo trata de diminuir a projeção de crescimento. E não será por causa de cinco reais no salário mínimo que o país vai deixar de crescer o que deveria. Isso é o que argumenta o arquiteto do aumento salarial de deputados e senadores: o próprio governo. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 1:18 AM Comments: Quinta-feira, Dezembro 21, 2006 A reeleição distante O Congresso Nacional se rendeu às pressões da sociedade e dos parlamentares oportunistas e resolveu votar o aumento salarial dos congressistas somente no próximo ano. E com essa decisão, o governo perdeu novamente. Podemos até dizer que o governo não consegue indicar um ministro ao Tribunal de Contas da União, não consegue definir um valor para o salário mínimo, nem ao menos um candidato único para concorrer à presidência da Câmara. Ontem, um acordão entre PT e PMDB tentou acertar esse ponteiro. Acompanhei de maneira muito superficial (assim como é a cobertura política honesta deste país) esse trato entre os partidos. Mas parece que o PT se comprometeu a apoiar o candidato peemedebista à presidência do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), em troca do apoio do PMDB ao nome de Arlindo Chinaglia (PT-SP) para presidir a Câmara. O PT ainda disse que só queria o apoio do PMDB para essa eleição. Na eleição para presidência da Câmara de 2009, o PT se comprometeria a apoiar o indicado do PMDB. Não era à toa que o atual presidente da Casa, Aldo Rebelo (PCdoB-SP), estava uma pilha ontem. O deputado, visivelmente irritado, presidiu os trabalhos da Câmara na aprovação de quatro Medidas Provisórias que trancavam a pauta. Mas quando foi para votar o aumento dos parlamentares, a coisa desandou de vez. Provavelmente Aldo não será reeleito. Ele não conseguiu votar o aumento dos colegas, o que é um fator decisivo para ganhar essa disputa. Antes mesmo de começar a votação, as lideranças partidárias decidiram que o aumento de 90,7% era demias para a pior legislatura da história. Então eles decidiram que ao invés de ganhar os R$ 24.500 dos ministros do Supremo, deveriam ganhar apenas R$ 16.500. Mas não teve jeito. Muita conversa mole, muito parlamentar querendo tirar proveito dessa situação e mais uma vez aparecer como o guardião da ética em meio ao esgoto moral do Congresso. No entanto, o Congresso terá muito tempo durante janeiro e fevereiro para aprovar as suas medidas. Enquanto todos estão na praia, tomando um sol, com uma cerveja e uma paisagem agradável; os acordos estarão sendo tramados. E quem dará atenção ao noticiário político em janeiro? Nem mesmo os jornalistas que cobrem política em Brasília prestam atenção no Congresso Nacional durante esse período... A manutenção do atual salário dos parlamentares significa que Aldo está fora da disputa. Tanto é verdade que o PT já ensaia alianças com o PMDB sem nenhuma cerimônia. Mesmo Aldo sendo o candidato de Lula para presidir a Câmara. O aumento salarial dos parlamentares é vital para se ganhar a eleição. Num ambiente como a Câmara dos Deputados, a remuneração é obrigatória. Lula quer Aldo, o PT quer Chinaglia, o PMDB quer Eunício. E se o bom Deus quiser, a Câmara vai eleger um novo Severino Cavalcanti, um autêntico representante da legislatura do mensalão e dos sanguessugas. A não aprovação do aumento dos parlamentares abriu caminho para mais um representante do baixo clero assumir o terceiro cargo na hierarquia da República. E que assim seja. Para uma representação fiel. Para uma Câmara, ao menos, sincera em seu mais rasteiro corporativismo. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 3:53 AM Comments: Quarta-feira, Dezembro 20, 2006 Ninando a capital O aumento de salário dos parlamentares é assunto obrigatório. Apesar da gloriosa conquista do Internacional, o salário de deputados e senadores ainda martela forte no imaginário popular. Nada interessa mais ao público do que o reajuste de 90,7% nos vencimentos dos congressistas. Pelos mais distantes rincões da pátria, alguém há de comentar que os políticos ganham muito e não fazem nada para o povo, que político só sabe trabalhar em causa própria, que o povo só serve mesmo na hora da eleição. Ah, a sabedoria popular. Sempre implacável. Vejam só que coisa. O Brasil quase pára por conta de aumento do salário dos deputados. No entanto, até mesmo para uma atitude como essas existe uma razão. Não é porque estamos no Brasil que as coisas acontecem simplesmente por acontecer. Existe uma explicação. E a explicação é: reeleição da Câmara e do Senado. Para se reeleger presidente da Câmara, Aldo Rebelo (PCdoB-SP) vai mandar, assim como Lula já mandou há muito tempo, a sua trajetória para o espaço. Vai defender até o último momento a medida. Afinal, a memória do brasileiro é curta e no próximo ano não teremos eleições. Só que essa revolta toda contra os deputados e senadores é até certo ponto injusta. A atual legislatura comprovou que o Parlamento brasileiro só serve para causar desgosto à população. Foi tanto escândalo, mas tanto escândalo, que comprovou-se mais uma vez que a paciência do brasileiro é muito superior à paciência dos orientais. Lula e os seus amigos deveriam ser chutados do poder como cachorros sarnentos ainda no ano passado. Mas o PSDB, do alto de sua arrogância, do alto de sua burrice, acreditou naquela conversa de sangrar o presidente até as eleições. A ira nacional é tardia. Ela deveria ter ocorrido há, no mínimo, um ano e meio. Ou será que o brasileiro ainda não é capaz de entender que a eleição, que nos moldes brasileiros é uma chantagem (o voto é obrigatório), só serve para definir a aprovação ou não de medidas populares. Por que será que um mandato no Brasil é garantia de impunidade? Por que será que um julgamento de um parlamentar no Supremo significa necessariamente liberdade? A legislatura atual é a pior da história da República. E quem diz isso é o deputado Ricardo Izar (PTB-SP), presidente do Conselho de Ética da Câmara dos Deputados. Uma legislatura que trouxe vergonha, que diminuiu um país menor, que fez com que a vergonha de pertencer a essa pátria se tornasse hino entre as manhãs de domingo. Não existem mais eleições em curto prazo para que a população consiga barganhar. Porém, teremos ao menos aqueles protestos divertidos. Já tivemos esposas de militares, estudantes, um aposentado, centrais sindicais, e uma facada na Bahia. Teremos ainda um monte de outras coisas contra o aumento de salário dos parlamentares. Tudo isso fez com que o Supremo mandasse os congressistas aprovarem o aumento em plenário. Mas todos sabemos que o verão está aí, que as festas de fim de ano se aproximam, que em janeiro e fevereiro Brasília hiberna. E o principal: não teremos eleições tão cedo. O aumento certamente será aprovado. Dele depende a reeleição dos atuais presidentes da Câmara e do Senado. E a eleição para a presidência das Casas Legislativas será no verão. A estação na qual Brasília dorme. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 1:10 AM Comments: Quarta-feira, Dezembro 13, 2006 Lula pensa A aprovação, ou não, das contas de Lula, e de sua campanha, pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), é um assunto menor, menos importante. Já vieram dizer que mesmo que o TSE rejeita as contas do petista (técnicos do tribunal recomendaram a rejeição duas vezes), ele vai tomar posse do mesmo jeito. De nada adianta o presidente do TSE dizer que quer a coisa no papel, preto no branco. De nada adianta dizer que é ou não é. Será da mesma forma. Portanto, a aprovação das contas de Lula pelo TSE é o que podemos chamar de expectativa sem necessidade. Muito mais emocionante é falar sobre a aprovação do novo salário mínimo. A Comissão Mista de Orçamento do Congresso Nacional aprovou um aumento de 25 reais para o mínimo. Ora, um aumento de 25 reais provoca, na menor das hipóteses, mais uma churrascada no mês (considerando que quem ganha o mínimo come carne). A versão oficial que circula perdida por aí afirma que o governo até queria aumentar o mínimo para R$ 375. Mas é que veio o PIB, com o seu crescimento pífio, e obrigou os matemáticos do Ministério da Fazenda a refazerem os seus cálculos mais temidos. Resultado: o governo fechou com a proposta de R$ 367. A diferença entre o mínino defendido pelo governo e o aprovado vai gerar um custo à Previdência de R$ 1,5 bilhão. Pois é... Ainda bem que o brasileiro está se acostumando com a idéia de presenciar o PT procurando não aumentar o salário mínimo. Dizem que essa é a evolução. Por falar em evolução, o presidente Lula filosofou a respeito do tempo e da ideologia. Apesar dos pesares, Lula recebeu o prêmio de ¿Brasileiro do Ano¿ por uma revista semanal. Se não estou enganado, a mesma revista concedeu o mesmíssimo prêmio ao ex-deputado José Dirceu em 2004. Ou teria sido em 2005, quando ele foi cassado? Enfim, o Zé também recebeu a comenda. Não existe nada que agrade mais ao presidente do que um holofote, uma câmera, uma platéia. Poderia aqui dizer que a qualidade das platéias brasileiras nunca foi tão ruim. Mas estaria faltando com a sinceridade ao não confessar o meu maior encantamento com as falas de Lula. Entre outras coisas, o nosso líder chegou à conclusão de que esquerdismo é coisa dos mais imaturos. De uma saraivada, Lula renega a sua história. Assim como o PT não cansava de repetir que o então presidente FHC teria dito: ¿Esqueçam o que eu escrevi¿, em relação ao que teria produzido em sua época de sociólogo atuante; da mesma forma Lula renegou a sua história ao receber determinado prêmio. A diferença está no fato que Lula não chegou a escrever muita coisa. Mas aí está o fato, aí está a prova: Lula classificou os seus eleitores, os seus adoradores, os seus beatos, de jovens. Mas jovens no sentido da imaturidade, da falta de malícia, da inocência. Mas o presidente está certo. Somente os puros ainda podem acreditar na esquerda. Somente os que têm o coração mais imaturo ainda acreditam no esquerdismo como algo além de uma plataforma cruel. Cruel porque é bem intencionada. E de boas intenções, até o Congresso está cheio. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 12:08 AM Comments: Terça-feira, Dezembro 12, 2006 Clima e fome E pela segunda vez, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) recomenda a rejeição da prestação de contas de Lula e do PT. E vai lá entender por que razão os dois não são sinônimos nesse caso... É que parece que o candidato declara uma prestação, e o partido outra, sendo que um candidato não pode concorrer sem partido. Entender o seu funcionamento de alguma coisa, nunca foi nem nunca será uma vocação do povo brasileiro. E isso não é lá de todo o mal. Existe uma beleza, uma harmonia toda peculiar em se viver sem compreender o que se passa. Os filósofos do cotidiano, inclusive, afirmam que esse é um dos segredos para os matrimônios mais felizes. O fato é que o TSE rejeitou as contas de Lula por alguns problemas. Dentre eles, destaque para alguns problemas de conciliação bancária; doações de órgãos ou entidades vedadas pela lei; e recursos de origem não identificada. Na minha humilde opinião, o TSE pode chorar lágrimas de sangue, dizendo que as contas de Lula não batem, ou que ele recebeu doações de concessionárias de serviços públicos, ou o que for. O TSE pode até mesmo dizer que Lula não venceu a eleição. Nada pode impedir que o petista assuma o cargo novamente. Do mesmo jeito que a oposição dizia que não existia clima político para que o pedido de impeachment fosse formalizado no auge do mensalão, com o mesmo raciocínio o PT pode alegar que não existe clima legal para a rejeição das contas do presidente. Ou as do PT. Ou as dos dois. Essa conversa de ter ou não ter clima para algo é por demais sugestiva. Podem notar que as grandes decisões do Brasil são tomadas com a presença ou não do ¿clima¿. Com os resquícios do ¿clima eleitoral¿, foram aprovadas a recriação da Sudam, Sudene e Sudeco. Com clima foi aprovado o Fundeb. Mas para a eleição do TCU, não tinha clima que desse jeito para eleger o deputado Paulo Delgado (PT-MG). Outra coisa encantadora é a tal da ¿aprovação com ressalvas¿. Quer dizer, a prestação de contas do candidato tem um errinho ou outro, uma irregularidadezinha ou outra, mas passa sem maiores problemas. Afinal, aqui não é a Alemanha para que tamanha rigidez seja cobrada. Como chegou a dizer o tesoureiro de Lula (ou seria o tesoureiro do PT?), se a média alcançada nessa prestação de contas ao TSE chegar a seis, está tudo certo. Saindo do clima de prestação de contas, que nunca fecham muito bem, passemos para um caso também merece destaque: a greve de fome. O deputado João Correia (PMDB-AC) disse que fará greve de fome até que o seu processo seja julgado pelo Conselho de Ética da Câmara dos Deputados. Segundo o parlamentar, que é acusado de participação no esquema dos sanguessugas (aqueles deputados que apresentavam emendas ao orçamento para a compra de ambulâncias superfaturadas), ele vai ficar só na água até que a sua inocência seja provada. O peemedebista disse que vai ficar no plenário até o bendito dia, e não está nem um pouco abalado com a possibilidade de ficar sem tomar banho até então. "Não tem problema, fico que nem gambá mesmo", profetizou. Ele já conseguiu autorização para dormir no plenário, e, segundo os seus cálculos, ficará por lá uns 11 dias. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 12:17 AM Comments: Segunda-feira, Dezembro 11, 2006 Esqueçam a grande pauta Pinochet está morto. E ainda bem que a imprensa tem esse gancho para não trabalhar em uma grande notícia. Algo que de tão colossal e significativo, foi deixado de lado sem acordo, sem negociação. Refiro-me ao assalto dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), que ocorreu na última quinta-feira (07/12). A presidente do STF, ministra Ellen Gracie, e o vice-presidente do mesmo tribunal, ministro Gilmar Mendes, estavam em um carro oficial, na Linha Vermelha (que liga o aeroporto Tom Jobim ao centro do Rio de Janeiro), quando alguns bandidos fecharam o acesso da Linha e fizeram ¿uma geral¿ em alguns carros que por lá estavam. Dentre os dois carros que foram levados pelos bandidos, estava o carro dos ministros do STF. Aliás, levaram os documentos, as malas e deixaram as duas maiores autoridades do poder Judiciário brasileiro a pé. Como se eles fossem simples cidadãos desse país. Sim, no Brasil, os ministros do STF também sofrem com a violência. O Judiciário patrício é, sem sombra de dúvidas, o mais misterioso dos três poderes. Eles são enigmáticos, reservados, exclusivos. Por alguma circunstância da organização social, eles são detentores de poderes inenarráveis. Principalmente no Brasil. Portanto, não é de bom tom desejar-lhes nada além do céu. A presidente do STF tratou de amenizar a história, afirmando que a situação poderia ter acontecido em qualquer cidade do mundo. Contudo cabe aqui fazer um pequeno registro. Poucas horas depois do assalto aos ministros do STF, os dois bandidos foram mortos em uma ¿troca de tiros com a polícia¿. E a imprensa não falou mais nada. Ficou na conversa oficial e não procurou saber por que os assaltantes dos ministros do STF morreram poucas horas depois do assalto, sendo que o assalto na Linha Vermelha do Rio de Janeiro é cotidiano. Faz parte da paisagem carioca. A imprensa não procurou os corpos, as identidades, as circunstâncias. Com uma simples frase, a morte dos bandidos que assaltaram as maiores autoridades do Judiciário nacional é explicada. E só. Ora, a imprensa brasileira nunca foi lá essas coisas. Aliás, um país em que o governo faz questão de ser o principal anunciante dos grandes veículos de comunicação não pode ser referência em jornalismo. Um país no qual as rádios e as televisões são concessões governamentais distribuídas aos apadrinhados não pode ser exemplo de imprensa decente. Existe na morte dos assaltantes dos ministros do STF uma grande pauta. Talvez uma das maiores pautas do ano. Outra grande pauta está na omissão da imprensa em relação ao fato. Dois sujeitos morrem por assaltarem os ministros do STF e nem ao menos as fotografias deles aparecem na TV ou nos jornais. Apenas um registro de 5 segundos. O Judiciário brasileiro, como já foi dito, é o mais misterioso dos poderes. Ninguém o compreende direito. E talvez seja melhor dessa forma. A imprensa, pelo contrário, chega a ser transparente até demais. Pateticamente transparente. E essa grande história, que deveria ser explorada como um desespero todo particular, será esquecida (para o bem de todos) com a morte de Pinochet. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 12:15 AM Comments: Sexta-feira, Dezembro 08, 2006 Cláusula casamenteira A Justiça, principalmente a brasileira, é misteriosa. Não é à toa que é simbolizada por uma mulher, que tem os olhos vendados, e uma balança, e que está sentada, e tem um decote até generoso para uma grega, e parece que existe até mesmo uma espada. Com tantos apetrechos, não seria possível um outro comportamento que não fosse o misterioso. E eis que, de uma hora para outra, o Supremo Tribunal Federal (STF) derruba uma lei que ficou conhecida como ¿cláusula de barreira¿. Primeiro é preciso dizer que muita gente, e gente poderosa (por exemplo, o segundo e o terceiro homem na hierarquia da República não queriam essa conversa de barreira), não estava muito satisfeita com essa tal de cláusula de barreira. Vamos entender o que significa essa cláusula de barreira (chata até para escrever, por isso vou chamá-la de ¿CB¿). A CB nada mais é do que uma regra que limita o funcionamento de partidos políticos que não tiveram uma boa votação nas eleições deste ano. Para os que querem saber com maior profundidade, aí vai: a CB prevê que os partidos políticos que obtiveram menos de 5% dos votos nacionais para deputado federal e menos de 2% em nove estados não terão direito ao funcionamento parlamentar pleno. Ou seja, quem não atingiu a votação mínima estipulada por sabe Deus quem não teria direito a vagas de liderança em comissões nas casas legislativas. As verbas do fundo partidário também seriam limitadas a quem não atingisse a CB. E o fundo partidário, cá entre nós, é a fonte de receitas dos partidos. Outro castigo para quem recebesse pouco voto seria o de contar com apenas 1 minuto por semestre para propaganda no rádio e televisão. Há quem diga que a CB foi criada para acabar com os já conhecidos partidos de aluguel. Mas essa é uma caça burra. Acabar com as legendas desse tipo é o mesmo que acabar com uma de nossas principais tradições políticas. Outra idiotice sem fim é a tal da fidelidade partidária. Desde quando brasileiro liga, se importa, dá ouvido, a partidos políticos, ideologias, teses? Brasileiro voto no personagem. Já dizia Nelson Rodrigues que um povo que consegue misturar Exu com Marx está salvo. Pois o brasileiro faz isso. Aqui temos católicos espíritas, ateus macumbeiros e judeus com crucifixos. Alguns partidos resolveram acreditar que a CB ia realmente vigorar e resolveram se unir. Duas novas legendas foram criadas (além da incorporação do PAN ao PTB): a MD (união do PPS, PHS e PMN) e o PR (união do PL com o Prona). Agora vem o STF e diz que a CB é inconstitucional porque, de acordo com um ministro desse tribunal, coloca partidos como o PSOL, o PV, o PCdoB e o PPS na mesma situação de outras legendas consideradas menos nobres, digamos assim. Mas existe algo de muito estranho no ar. Sim, existe um clima de mistério velado, uma paz esquisita, uma serenidade que não vem apenas por vir. Mesmo sem a CB, que tanto impedia a vida dos partidos pequenos, os políticos que se coligaram e formaram as novas agremiações políticas estão satisfeitos como estão. Não querem retornar ao tempo em que eram soltos, nanicos, de aluguel. E quando os políticos estão muito satisfeitos, quando eles estão muito compreensivos, sem esbravejar as suas dores e as suas reclamações, existe algo certo para se preocupar. A cláusula de barreira, derrubada agora pelo STF, foi capaz de promover a união entre diversos partidos. E o que é pior nessa história toda: eles gostaram da união. Eis o erro maior: eles gostaram. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 1:07 PM Comments: Quinta-feira, Dezembro 07, 2006 TCU e UTI Finalmente, temos um dia em que Brasília tem o que falar ao resto do Brasil. Mesmo com o caos que está a nossa aviação civil, culpa da irresponsabilidade do governo, o Congresso, quem diria, trabalhou ontem. Para começar, basta dizer que o Fundeb, um programa que vai liberar uns bilhões para todo tipo de educação, foi aprovado. E entre declarações rasgadas às maravilhas que a educação de qualidade pode fazer a um só país, já podemos nos preparar para uns desvios de recursos públicos. Mas o Fundeb nada importa para quem quer falar de política. Para dizer a verdade, a política que interessa é a política que trata de assuntos mais localizados. A velha e conhecida politicagem, que todos nos aprendemos a tolerar nos mais variados noticiários. Quem cobre política não quer falar de projeto de educação aprovado. Isso é muito chato. Legal mesmo é falar sobre a eleição parao Tribunal de Contas da União... O que se pode ser dito sobre um ministro do TCU? Eis um cargo que é o sonho de todo brasileiro, da classe média para baixo. Só não quer esse cargo quem tem um banco, ou quem joga bola muito bem. De resto, todos sonham com um emprego desses. Basta dizer que o salário é de vinte e três mil reais por mês, para o resto da vida. Com as devidas, e justíssimas, correção. É necessário deixar claro. Ser ministro do TCU é melhor do que passar a eternidade ao lado do Pai. Ser ministro do TCU é conhecer o paraíso em vida. A existência desse cargo é a prova cabal de que a felicidade é possível. A felicidade, aliás, existe. E existe no TCU. Só é preciso ser indicado para o cargo, e ter entre 35 e 65 anos. O resto é resto. Mas vamos tratar da política de bastidor, que é o que realmente faz algum sentido. Para essa eleição do TCU, inicialmente, teríamos oito candidatos. Mas, numa conversinha antes da votação, dizem as más línguas, o PT falou que o candidato do governo, o deputado Paulo Delgado (PT-MG), era o nome. Coisas do PT... Tudo na vida pode me desapontar, menos a arrogância pontual dos petistas. O partido e o governo bateram o pé, e fizeram com que quatro candidatos desistissem de concorrer ao cargo. Estava tudo certo na cabeça dos petistas: Paulo Delgado seria o mais novo ministro do TCU. Porém, existia entre o desejo e a concretização, um plenário doido para votar em qualquer um que fosse contrário à indicação do Planalto. O deputado Aroldo Cedraz (PFL-BA) foi eleito para o TCU. Ou seja, ele conseguiu chegar ao Paraíso respirando. Que Deus o conserve nesse estágio pré-eternidade por muitos anos. Outro ponto que merece ser destacado é absolvição do último parlamentar acusado pelo Conselho de Ética da Câmara de envolvimento com o já esquecido e cadudo escândalo do mensalão. José Janene (PP-PR), sujeito debilitado do coração, com apenas 30% da atividade desse músculo que tanto mata gente pelo mundo, foi absolvido pelos seus colegas de Congresso. Dizem que ele está quase no Paraíso, mas já pelo outro lado, diferente do pessoal do TCU. O detalhe não é a absolvição de Janene. Além dele, mais onze deputados também receberam o perdão corporativo. O destaque dessa votação de Janene é que ela foi a última que se realizou no papelzinho. As próximas do mesmo estilo, serão votações eletrônicas. Secretas, mas eletrônicas. A eleição do TCU e a absolvição de Janene mostram que sempre há o céu para os deputados. Não interessa quem seja. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 2:07 AM Comments: Quarta-feira, Dezembro 06, 2006 Governo amador Quem trabalha com a cobertura da política brasileira sabe muito bem que um dos seus maiores temperos é o inesperado. Não que as outras políticas não tenham a sua pitada do imprevisível, mas é que por aqui o gostinho da surpresa é maior. Tendo em vista que ela sempre ocorre, por mais que a história teime em nos ensinar, a surpresa sempre ocorre. O PT certamente é um partido que não está muito preocupado com os ensinamentos da história. Aliás, o PT não tem muitas preocupações nessa época. Mesmo que o PIB (Produto Interno Bruto) no terceiro trimestre tenha crescido apenas 0,5% em relação ao mesmo período do ano passado; mesmo que o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada ¿ órgão vinculado ao Ministério do Planejamento) tenha reduzido o crescimento do mesmo PIB para este ano de 3,3% para 2,8%; mesmo assim o governo não está nem um pouco preocupado em ¿destravar¿ a economia do país. E por que será que o governo não tem a preocupação em impulsionar o crescimento da economia? Bom, primeiro porque o brasileiro já está acostumado com a recessão econômica. Se o arrocho acabar, o povo brasileiro se sentirá meio que órfão de uma condição que serve, principalmente, para fazer piadas. Além do mais, o PT sabe que tem apoio popular. Se alguém reclamar do crescimento pífio da economia brasileira, se compararmos o nosso crescimento ao crescimento dos países vizinhos (ou até mesmo com o dos países emergentes em escala global), temos sérios motivos para a desilusão. Mas daí basta dizer que existe um programa do governo federal que dá dinheiro à parcela mais pobre da população que está tudo resolvido. Saindo da economia, que anda mal, passemos para a política, que também não está lá essas coisas. O PT indicou o deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP), líder do governo na Câmara, como candidato à presidência da Casa. O mesmo PT, que há menos de dois anos lançou dois candidatos para essa mesmo eleição: Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP) e Virgílio Guimarães (PT-MG). Os petistas perderam e quem ganhou foi o célebre Severino Cavalcanti (PP-PE). Chinaglia tem a imagem atrelada ao ex-ministro José Dirceu. Dirceu teve o mandato cassado no ano passado por ter sido acusado de envolvimento com aquele esquema já esquecido por todos nós: o mensalão. Pois bem. Mesmo que o atual presidente da Câmara, Aldo Rebelo (PCdoB-SP) tenha o apoio do Palácio do Planalto para buscar a reeleição, mesmo que o presidente Lula tenha pedido que o governo lance apenas um nome para a presidência da Câmara; o PT lançou o nome de Chinaglia. Em uma entrevista coletiva, o candidato petista declarou que colocará em pauta, caso seja eleito, a anistia de José Dirceu. Ainda não existem análises mais sólidas para traçar a influência de José Dirceu dentro do PT com a indicação de Chinaglia à presidência da Câmara. Mas sua influência é notória, é evidente. Mesmo depois de mais de uma ano ¿fora¿ do governo. Políticos e jornalistas alertam para a possibilidade de mais uma ¿zebra¿ na eleição da Câmara. De um novo ¿rei do baixo clero¿ se tornar o terceiro homem na hierarquia da República. O governo não aprendeu a lição e vai para a sua terceira eleição legislativa dividido. Apenas na eleição de João Paulo Cunha (PT-SP), no primeiro ano de Lula na Presidência, o governo não saiu dividido. O tal ¿governo de coalizão¿, que Lula quer fazer em seu segundo mandato, tende a não sair da vontade. Além dos petistas, temos também os peemedebistas, que vão para essa briga tendo a maior bancada na Câmara. Sem falar do poder devastador da oposição nessas horas em que o governo não sabe muito bem o que fazer para conter a sua própria base de sustentação no Congresso. No entanto, será divertido constatar que o sucesso eleitoral do governo nas eleições de outubro não é capaz de fazer com que ele tenha força política para se unir em torno de apenas um nome para presidir a Câmara dos Deputados. Coisas de governo amador. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 9:39 AM Comments: Terça-feira, Dezembro 05, 2006 Aumentos No mesmo dia em que o ministro da Fazenda admitiu que está muito difícil aumentar o salário mínimo em 25 reais, no mesmo dia em que o italiano Guido Mantega (ministro da Fazenda) diz que o que falta no país é investimento, e que os recursos para esse tal investimento virão do controle rígido dos gastos públicos; o Conselho Nacional do Ministério Público aprovou o aumento dos promotores dos Estados de R$ 22.111, 00 para R$ 24.500,00 (mesmo salário dos ministros do Supremo Tribunal Federal). Alguém há de questionar que essa é uma medida injusta. Afinal, quem já ganha vinte e poucos mil reais pode se segurar muito bem como está, diferente de quem ganha os atuais R$ 350, 00 do mínimo nacional. Contudo, o governo brasileiro sabe muito bem não existe nada mais resistente do que os nossos que ganham o mínimo. Aliás, o governo brasileiro, apesar do que Lula argumenta por aí, sabe de muita coisa. Sabe, por exemplo, que a nossa classe média ainda é amadora, no sentido de não fazer escândalo, de não gritar como uma desesperada quando se encontra em franco processo de declínio econômico. Qualquer classe média profissional, de qualquer país profissional, choraria como um bezerro sem mãe ao menor sinal de que o orçamento familiar seria menor com o passar do tempo. Mas a classe média brasileira, de tão amadora, faz piada sobre o caso apenas e tão somente no sentido hilário do contexto, como se o humor servisse apenas para fazer rir. Como se o humor não fosse a mais eficaz forma de denúncia, de externar um desejo profundo de mudanças. Pobre do país que não entende o poder transformador e ácido do riso diante do ridículo institucionalizado. Os recursos para ¿destravar¿ a economia nacional, tão evocados pelo ministro da Fazenda, existem. E existem de sobra. São abundantes. Os recursos são tantos que poderíamos aumentar o salário do Judiciário, o salário mínimo, o salário dos parlamentares, e até mesmo o salário do Executivo. Poderíamos até mesmo aumentar a renda do pessoal que recebe o Bolsa Família. Mas é que esbarramos numa questão histórica e fundamental para se entender a condução desse país desde o início. Por aqui, retira-se da escassez, da falta, de onde se tem pouco. Os desvios ocorrem nas áreas mais carentes, nas áreas que mais precisam de verbas. Nunca, no Brasil, se retirou de onde há muito. Sempre pelo contrário. E o governo Lula também não é diferente nesse ponto, como talvez alguns possam sugerir. Quando as decisões tomadas por esse governo promovem um crescimento de 0,5% do PIB no terceiro semestre, quando o Brasil cresce a uma média muito inferior à dos outros emergentes, quando o próprio presidente da República admite que o crescimento econômico está ¿medíocre¿; a manutenção da pobreza é incentivada. O Judiciário, principalmente o brasileiro, merece mais do que o céu. Eles merecem, algum dia, ser o que acham que são. Mas enquanto o dia do ser não chega, chegou o dia do ter. Pior para o restante que, incapaz de aprovar o aumento do próprio salário, nem ao menos tem. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 12:19 AM Comments: Domingo, Dezembro 03, 2006 Ligações óbvias Um dos mistérios oficiais do Brasil, que de mistério não tem muita coisa, diz respeito à origem do dinheiro para a compra de um dossiê contra políticos tucanos. A tentativa de compra de documentos e fotos, por parte de pessoas íntimas do presidente Lula, que envolveriam políticos do PSDB com a máfia das ambulâncias já foi perdoada pela população. Tanto a tentativa de compra do dossiê por parte de petistas, quanto a suposta ligação de tucanos com o esquema. Assim como o mensalão também foi aceito sem maiores problemas pela esmagadora maioria do povo brasileiro. Além do baixo crescimento do PIB (0,5% no terceiro trimestre), da constante investida do governo brasileiro contra vários meios de comunicação que não adotam o petismo como religião oficial e do súbito enriquecimento do filho do presidente da República, que de uma hora para outra recebeu milhões de reais para a sua empresa. Talvez a imprensa patrícia não entenda a infinita capacidade de amar, e de perdoar, e de tentar mais uma vez ser feliz, desse povo. Não somos um povo prático. Se há amor, o resto pode ser resolvido. Os casos de corrupção podem surgir como mato em terrenos baldios, ao ponto de tomar de conta o noticiário. E daí que as manchetes de política mais parecem matérias policiais? O povo perdoa, e isso é fato. Só não concordo com a apologia do perdão a todo custo. Há beleza no perdão, e isso é notório. Mas também existe magia no incapacidade de admitir determinadas coisas... Particularmente, cultivo meus rancores e as minhas mágoas com um cuidado fora do comum. Posso até dizer que coleciono dores. Mas vamos retornar a um caso que, apesar de já ter sido perdoado antes mesmo de qualquer julgamento, merece algumas considerações mais laicas. Refiro-me ao dossiê contra os tucanos. Essa história encanta por diversos motivos. Envolve porque quase um dúzia de pessoas ligadas ao presidente estão sendo acusadas de envolvimento no episódio, mais o presidente não caiu. E o que é mais interessante: recebeu tanto voto que chegou a desistimular a prática da justiça. Um ex-assessor do presidente é acusado de envolvimento, o (à época) coordenador da campanha do presidente à reeleição é acusado de envolvimento, companheiros de partidos lotados em várias localidades da administração pública são acusados de envolvimento. Até o churrasqueiro do presidente é acusado de envolvimento no episódio. No entanto, o presidente conseguiu o seu perdão. A imprensa, por meio dos maiores jornais paulistas, ainda buscam jogar gasolina nessa fogueira apagada chamado "escândalo do dossiê". Em recente reportagem, a Folha de S. Paulo diz que a Polícia Federal está investigando dois telefones celulares da Presidência da República do Brasil, que fizeram várias ligações a acusados de envolvimento nessa tentativa frustrada de compra de um dossiê. Ora, a polícia pode achar uma gravação do próprio Lula dizendo que o dossiê deve ser comprado. O fato é que não há a menor intenção de punir o presidente Lula, seja do Congresso, do Legislativo, ou da sociedade. Mesmo que essa seja a sua vontade, mesmo assim, ele não será punido. Lula chegou ao ponto de ser beatificado em pleno exercício do poder. No Brasil, política se confunde até mesmo com religião. Lula é o santo, é o enviado dos céus, que surgiu das entranhas do povo para distribuir dinheiro aos mais necessitados. E contra essa falta de vontade de se investigar, e de se punir, um presidente abençoado pelo perdão incondicional da população, não há arma eficiente. Não há nem ao menos armas. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 11:41 PM Comments: Sexta-feira, Dezembro 01, 2006 Meio por cento é muito Procurei explicar para um belga, sem muito sucesso, que o dinheiro era a coisa mais importante da vida. Rubem Braga dizia que falava francês como quem cospe pedras. Esse não é o meu caso. O meu francês é o que não sou: imponente. Aliás, certa vez ouvi dizer o parlamento belga é o pior local para discursos. Nunca vi uma mísera fotografia desse parlamento, mas a sua imagem é sólida em minha memória. O orador fica na parte mais baixa de um local amplo e limpo. A platéia observa quem fala olhando para baixo. A platéia fica lá em cima, e existem níveis de altura. Dizem que esse parlamento é feito para inibir quem não tem o que falar. O belga disse que não concordava comigo, entre outras coisas mais. Mas confesso que não entendi tudo o que ele me disse porque ele fala comigo como se estivesse num boteco belga. O bom belga é casado com uma mineira, mal fala o português, disse que gosta do jeito de falar do brasileiros, e virou torcedor do São Paulo recentemente. A conversa foi pela manhã, antes do almoço. Não tinha visto ainda o quanto o PIB brasileiro do terceiro trimestre tinha crescido em relação ao mesmo período do ano passado. O nosso Produto Interno Bruto cresceu 0,5% no terceiro trimestre. Contudo, não cabe espaço para o espanto, para o assombro. A combinação da economia brasileira não pode gerar outra coisa que não seja um crescimento econômico ridículo. Enquanto o mundo cresce a sei lá quantos por cento (dizem que está na casa dos 6, mas não tenho certeza dessa informação), a previsão para o crescimento do Brasil neste ano é de 2,8%. Esse país é exemplo em juro alto, imposto excessivo, política fiscal equivocada. Um país que não estimula o setor produtivo, que pune com rigor o micro, pequeno e médio empreendedor por meio de taxas infinitas, não pode achar que vai crescer. A sorte do PT é que o governo Lula pegou um bom momento da economia mundial. Só para citar um exemplo: a Argentina cresce três vezes mais do que o Brasil há quatro anos consecutivos. Todos crescem mais do que o Brasil. Há dois anos que esse país só cresce mais do que o Haiti, o país mais miserável das Américas. No entanto, se o governo do PT pegar uma maré braba da economia mundial, a coisa desanda de vez. O governo Lula está se especializando em nivelar economicamente a população por baixo. Eis a sociedade ideal para este governo. O sonho do PT é pagar o Bolsa Família para 190 milhões de brasileiros. Dessa forma, mais e mais beatos desse governo serão eternamente agradecidos por migalhas oficiais atiradas ao acaso. O próprio ministro da Fazenda classificou o crescimento do PIB de "decepcionante". O ministro do Planejamento, por sua vez, classificou o crescimento do PIB de "modesto". Eu diria que o simples fato do PIB crescer já é uma vitória. Com o contexto econômico em que estamos, deveríamos dar graças aos céus por esse resultado não ter sido negativo. Lula, para variar, saiu com mais uma desculpa de botequim. O presidente está na África, participando de alguma reunião, e disse que só pensa a partir de 2007. Nada mais saudável para ele próprio. Principalmente se levarmos a conversa para o lado criminal. Aí sim, Lula terá que dizer que o que importa realmente é o futuro. Porém, não é prudente esquecer da alma brasileira. Aquela alma que está contente com o pouco, que crê no pecado do muito. Aquela velha conversa, tão familiar e querida, do "tá bom desse jeito". Pensando melhor, deixa esse PIB como está. Porque trabalhar, o homem não vai. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 1:49 AM
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