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Confraria dos Crônicos
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De crônica, não basta a vida! Comments: Terça-feira, Outubro 31, 2006 A República minúscula Na quarta-feira da semana passada, o Ministério Público de São Paulo na cidade de Ribeirão Preto entregou denúncia contra o ex-ministro da Fazenda Antônio Palocci à Justiça paulista. O petista e mais oito pessoas estão sendo acusados de fraude nos contratos de coleta de lixo na cidade de Ribeirão Preto à época em que Palocci era o prefeito. O Ministério Público também estuda entrar com uma ação contra Palocci por improbidade administrativa, também relacionada as fraudes do lixo, e analisa a possibilidade de pedir a suspensão dos direitos políticos do ex-todo poderoso ministro dos três primeiros anos do mandato do governo Lula. O detalhe dessa história, que é por demais técnica para não deixar de ser chata de ser contada, é que o Ministério Público pede uma pena de 225 anos para Palocci. Tem alguma relação com o fato da quadrilha ter falsificado documentos públicos 48 vezes. E como não foi noticiado pela grande imprensa, até porque um período eleitoral estava em andamento, temos a sensação de que Palocci pode não ser punido. Até porque estamos no Brasil, ele é amigo do presidente da República e foi eleito deputado federal nas últimas eleições. Outra peça fundamental no governo Lula, e com forte atuação nos bastidores, é o ex-ministro José Dirceu. No dia da votação, Dirceu foi votar em algum lugar de São Paulo e foi reconhecido por eleitores. Os populares, uns 30 ou 40, gritavam palavras do tipo: ladrão, bandido, etc. Um senhora não se controlou e chutou o carro em que estava o petista. Em uma conversa reservada que tive com um cidadão que tem um bom trânsito nas entranhas do poder, soube que a campanha de Lula recebeu o auxílio, as dicas, os direcionamentos mágicos do publicitário Duda Mendonça. Aquele mesmo que confessou numa CPI que recebeu dinheiro de caixa 2. Dizem até que se Duda Mendonça estivesse no comando da publicidade da campanha de Lula, o presidente teria comparecido ao debate da TV Globo. Ao menos ao debate da TV Globo, que é o que realmente interessa. A essência do atual governo Lula não é muito diferente daquela de 2003. Algumas peças estão estrategicamente afastadas. O próprio ministro da Justiça é quem diz ao presidente se esse ou aquele pode ou não pode, deve ou não deve, ser afastado. Hoje mesmo ouvi um jornalista que trabalha há vários anos em Brasília dizer que não entendia a comemoração dos petistas. Para ele, a vitória de Lula deveria ser recebida com vergonha, com pudor. E o presidente Lula, que é o puro reflexo da demência institucionalizada pela qual passa o Brasil, e da covardia intelectual de grande parte da população instruída, ainda declara que nesse próximo mandato comandará pessoalmente as articulações políticos do Planalto com o Congresso Nacional. Um presidente da República diz que agora a articulação política é com ele. Eu bem imagino que os uísques presidenciais sejam uma tentação divina, um convite à habitação permanente em um mundo delicioso. Mas as agressões à inteligência deveriam ter limites. Nem todo o pano preto desse país poderia simbolizar o tamanho de um luto como este. No Brasil, nem todo pano preto aquece o corpo de quem vai ao sol... confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 1:31 AM Comments: Segunda-feira, Outubro 30, 2006 Para aonde foi a alegria? Lula está reeleito. E com uma votação inédita na história do país: 57 milhões de votos. Os intitutos de pesquisa, que davam uma vantagem de mais de 20 milhões de voto ao presidente, acertaram. Por incrível que pareça, os institutos acertaram dessa vez. Em Brasília, um ou outro carro arriscou uma buzinada mais prolongada, numa tentaiva de empolgar alguém. Mas as buzinas dos carros estavam solitárias. Estavam separadas por uma diferença de dezenas de minutos, uma da outra. O fato é que mesmo com essa vitória esmagadora sobre o seu adversário nas eleições, o presidente Lula não conseguiu empolgar nem mesmo a militância paga. Primeiro porque uma reeleição nunca terá o gosto de uma primeira vez ao poder. Isso é bastante claro. Mas creio que o principal fator pelo qual a vitória histórica de Lula se transformou numa conquista triste, se deve ao fato do presidente ser um réu confesso. Seus defensores podem argumentar que "nunca na história deste país" um presidente fez o que Lula fez. Isso é uma verdade. Se também levada para outras direções. Nunca na história deste país um presidente atropelou a paciência a e dignidade dos brasileiros como fez o senhor Lula. Vários de seus ex-ministros estão sendo investigados pela Justiça, pela polícia, pelo Ministério Público. O filho do presidente acumulou notadamente uma fortuna em pouquíssimos meses. A compra de apoio parlamentar pelo governo do PT foi comprovada. O procurador geral da República só não pediu a detenção do presidente por timidez hierárquica... Tenho medo da tal da carta branca que essa vitória histórica e sem sal possa ter conferido ao presidente da República. Assim como a atriz Regina Duarte declarou na propaganda eleitoral de 2002, eu tenho medo. Eu continuo com medo do PT no poder. Também tenho medo de uma eventual volta do PSDB ao Planalto. O que não falta ao brasileiro é medo. Antigamente, as eleições poderiam trazer esperanças de renovação. No entanto, a reeleição histórica de Lula só trouxe consigo a sensação de tabela cumprida. Como é triste saber que dos dois projetos, que mais se assemelham do que divergem entre si, o pior deles foi o escolhido. Eu ainda cultivo a mania de me decepcionar com o povo brasileiro. Mesmo que a história e a sociologia nos revele que o povo brasileiro não merece crédito para que alguém posteriormente se decepcione com ele; mesmo assim eu procuro me decepcionar com esse povo. Sem a decepção, sem a possibilidade da existência da decepção, o que nos restaria além do dia-a-dia que merece ser mudado a toda hora? Se bem que eu não acredito em mudanças positivas, principalmente quando se trata de mudanças por meio do voto popular. Lula está reeleito. Foi com uma grande dor que recebi a notícia de que o presidente Lula terá mais quatro anos na Presidência desse país. Porém nem tudo está perdido, nem tudo é desilusão. Os 57 milhões de votos (4 milhões a mais do que na eleição de 2002) não garantiram dessa vez uma alegria generalizada nas ruas e nos rostos, não garantiram a certeza plena de que as coisas tomarão o seu devido rumo. A eleição histórica de Lula está sendo comemorada nesse exato momento por todo o Brasil, é verdade. A votação que o presidente recebeu é histórica, é verdade. Mas a apatia dos eleitores do presidente é embaraçosa a qualquer triunfo, a qualquer glória nas urnas. Eis mais uma verdade. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 1:40 AM Comments: Sexta-feira, Outubro 27, 2006 Alguma coisa apertadinha Com a chegada das eleições, uma agonia acabará no domingo. Outras terão início na segunda-feira seguinte. E assim, de agonia em agonia, vamos construindo a nossa rotina. Não creio que a presente eleição seja merecedora de algo além de descrédito. Como bem frisou o jornalista Fábio Panunzio, da TV Bandeirantes, nenhuma das candidaturas que disputam a Presidência da República estavam preparadas para esse segundo turno. Enquanto todos os institutos de pesquisam praticamente empurravam guela abaixo da população brasileira a certeza de que o presidente Lula seria reeleito ainda no primeiro turno, uma reação que não foi registrada por nenhum levantamento publicado mostrou que o candidato Geraldo Alckmin atingiu mais de 40% dos votos válidos. Nenhum instituto revelou isso, nem ao menos chegou próximo desse número. O Ibope, o Vox Populi e a CNT/Sensus; com mais uma rodada de pesquisas de intenção de voto, mostram, sem exceção, que Lula está com uma vantagem de mais de 20 pontos. Lula pode ganhar a eleição, é bem verdade. Mas aqui cabe uma declaração minha, sem nenhum fundamento científico, pelo puro achismo, e com uma grande possibilidade de errar (como erraram as mais variadas pesquisas no primeiro turno). Antes de fazer a declaração, é necessário, e respeitoso, dizer que a análise política sem futurologia é a mesma coisa de futebol sem bola: não existe. Por mais que alguém apareça munido de documentos, estudos, ciência, livros, pastas, pesquisas, e o diabo a mais; mesmo assim a futurologia necessariamente faz parte do jogo. E engana-se quem acha que por conta da futurologia a análise política perde o seu valor. Ao contrário. Essa é a parte nobre do trabalho, essa é a parte que permite o sono sossegado dos analistas políticos. A diferença de votos entre os presidenciáveis paulistas (afinal, Lula é pernambucano de nascimento e paulista de alma) será apertadinha. Será uma diferença mínima, será por pouco que um ou outro ganhará. Sim, Geraldo Alckmin tem chances reais de ganhar a eleição. Afirmando isso, alguém poderá dizer que esse é um exemplo de análise política suicida. Mas não há nada demais em errar, e em errar feio nesse tipo de atividade. Seja na análise política, ou na própria política em si. Institutos e políticos erram, e erram feio. E nem por causa disso deixam de continuar a sua trajetória. Por esse motivo, não há razão para se temer o fato de fazer previsões sobre o futuro da política, dos políticos, ou de qualquer coisa relacionada ao tema. Viva o achismo, viva o chute, viva a futurolgia. Se o erro vier, paciência. Se não: a glória. E estaremos conversados até a necessidade de mais uma previsão subjetiva qualquer. E é sem medo que reafirmo: apesar dos institutos de pesquisa, que dão uma vantagem de mais de 20 pontos para Lula sobre Alckmin, digo que na hora da apuração dos votos válidos, a diferença entre os paulistas será pouca. Apertadinha, apertadinha... E nem por conta disso deixaremos de aceitar institutos e analistas políticos. Apesar dos pesares, apesar das pesquisas. E apesar da política também. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 1:46 AM Comments: Quinta-feira, Outubro 26, 2006 Não terminaria sem João do Rio Agora que estamos a poucos dias das eleições, os comícios já acabaram na noite de ontem, os candidatos e o povo estão exaustos dessa corrida pelo poder; talvez fosse a hora de sentar num meio fio qualquer e chorar pelo nosso país. Sim, seria um choro até certo ponto honesto, até certo ponto tardio. Se as nossas opções de governo são essas que se apresentam por aí, é melhor, é mais sincero chorar. E chorar. E chorar. Num país onde a TV manda e desmanda, onde a TV pode mais do que qualquer poder constituído, obrigar a população a ver um horário eleitoral enfadonho e sem graça é, na melhor das hipóteses, torturante. Não vou mais falar que a obrigatoriedade do voto no Brasil é um absurdo. Até porque estou mudando de idéia em relação a esse tema. Começo a achar que não é absurdo o brasileiro ser obrigado a votar. Acho que absurdo é ser brasileiro. É absurdo o Brasil ter esse governo, atolado diariamente em escândalos de corrupção (para falar o mínimo). É também absurdo o Brasil ter essa oposição inoperante e incompetente. Nunca na história desse país um governo deu tanto material para que a oposição fizesse a festa. Mas de uma coisa podemos ter certeza: somos o que somos pela soma do governo e da oposição. Cada qual representa uma colossal decepção em sua função. Quero que esse período eleitoral acabe o quanto antes, e que leve embora consigo as esperanças bobas de dias melhores. Se bem que eu não deveria desejar que esperanças bobas se fossem... Quero esquecer o TSE e outros locais apenas lembrados durante o momento grandioso da nossa democracia. Quero dormir e ter a certeza de que as eleições se foram, partiram para o seu lugar na história humorística mundial. Depois do caos, depois de toda sorte de desespero, será bom assistir à TV sem ouvir propostas de governo. Será melhor ainda notar que pouco a pouco o noticiário político vai ficando mais curto com a proximidade das festas de final de ano, e que vamos esquecendo da política, que ela vai morrendo, morrendo como um sonho nebuloso, que talvez merecesse ser sonhado apenas em um outro momento mais adequado. E se esse momento não chegar - e não vai chegar nunca - podemos atirar o nosso arsenal de culpas para todas as direções. Melhor que seja assim. Melhor distribuir culpas do que admitir que estamos perdidos, que não sabemos sair desse poço, que falhamos mais do que os outros porque poderíamos muito mais, porque as condições estavam por aqui. Acabo de abrir um livro de João do Rio para conseguir alguma inspiração para finalizar esse texto. O cronista fala de uma dolorosa moléstia do seu tempo: a pressa de acabar. E eu, que sempre tive essa pressa em relação a tantas coisas na vida, agora posso dizer que minha pressa é para que a indeferença vença o desespero. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 2:11 AM Comments: Quarta-feira, Outubro 25, 2006 O Brasil é taurino De acordo com a história oficial, se não estou enganado, o Brasil foi descoberto no dia 22 de abril de 1500. O que significa dizer que o Brasil nasceu sob o signo de Touro do horóscopo. Ora, de acordo com a astrologia de Oscar Quiroga, quem nasce sob esse signo precisa de "Segurança acima de todas as outras coisas. Rotinas, exercícios regulares, pequenos prazeres cotidianos, rodear-se de beleza e, se for possível, luxo. Tempo para desenvolver seus desejos no ritmo que acharem necessário. Sombra e água fresca". Não entendo muita coisa nessa vida. E uma das coisas que não entendo mais a cada dia é o preconceito que existe contra a astrologia. Não entendo também como não existe a astrologia de Estado, o Ministério da Astrologia e por aí vai. E também não entendo por que razão não chamam o conceituado astrólogo Oscar Quiroga para falar da astrologia do Brasil. Certa vez me perguntaram se eu acreditava em astrologia. Na hora falei que não, que aquilo era uma bobagem. Mas eu menti. Na verdade, eu só acredito nos astros, só acredito na relação dos signos com o destino. E vendo agora qual é o signo do Brasil, e que ele precisa de "segurança acima de todas as outras coisas", talvez tenha encontrado o motivo para torcer contra todo e qualquer tipo de privatização. Tenho estudo suficiente para saber dos males causados pelo Estado que abraça tudo, que está em tudo, que respira por todos. Sei, em teoria, e em teoria pouca, do que acontece em países onde o Estado é líder em tudo. Eu bem sei disso. No entanto, não deixo de tremer diante de números e estatísticas que revelam que as privatizações foram benéficas para o Brasil. Não consigo aceitar que a venda de uma Vale do Rio Doce, mesmo que ela tenha comprado ontem uma empresa canadense, e que tenha passado da sétima para a segunda colocação entre as mineradoras do mundo, tenha sido saudável para o país. Ainda prefiro acreditar que a pior das empresas estatais é mais interessante do que a melhor das empresas privadas. Para quem trabalha, é claro. O serviço público é responsável por diversos vícios. Nada mais notório. Contudo, a tal da estabilidade do serviço público ainda é a questão. Com a reforma nas leis de trabalho, que virá provavelmente no próximo ano, quem trabalha na iniciativa privada provavelmente vai conhecer uma época catastrófica. Garantias serão perdidas, benefícios serão esquecidos e toda a espécie de pesadelo será real. Como alternativa, resta o desemprego, o próprio negócio ou o serviço público. E me parece que os funcionários públicos também vão perder alguns privilégios nessa reforma que virá. Tempos problemáticos estes que se apresentam. O Estado morre diariamente, e cobra mais a cada dia para realizar privatizações e parcerias com a iniciativa privada; o desemprego espanca grande parte da população; as condições de trabalho são tenebrosas para quem está na inicativa privada; e o serviço público é um tédio. A "sombra e água fresca" que o taurino Brasil tanto precisa está distante. Mesmo que número, e cifras, e gráficos, demonstrem que as privatizações são boas, ainda fico com a empresa pública. Um tipo de empresa que não deveria ter a obsessão do lucro. E que ainda pode durar mais algum tempo. Até que todos sejam convecidos de que a segurança acima de todas as outras coisas é desnecessária. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 2:30 AM Comments: Terça-feira, Outubro 24, 2006 O debate "in" Em um elevador qualquer na cidade de São Paulo, uma senhorita viu a porta desse estranho meio de transporte se abrir. Era uma mãe com o seu lindo filho que estavam prestes a entrar. O menino, de tão belo, mais parecia uma agressão a qualquer modalidade de falta de beleza. Contudo, o menino puxava a perna da mãe e exigia que um capricho seu fosse atendido. A mãe permanecia num monólogo enquanto olhava as contas a pagar: - ''Não''. A mãe da criança negava algo ao seu filho como se aquilo fosse parte de sua rotina. Ela não negava com ódio. Aliás, ela negava sem nem mesmo prestar a devida atenção à criança. E de não em não, a mãe começou a dizer uma outra palavra: ''In''. Dizia a pobre senhora ao seu filho: - ''Não, in''. E tornava a repetir: ''Não, in''. Para os que não conhecem os paulistas, eles têm a mania de abreviar todos os nomes para as duas primeiras letras. Assim, Maria vira ''Má''; Paula vira ''Pá''; Sandra vira "Sá", e por aí vai. A senhorita, possuída de uma curiosidade brutal, pergunta por que a mulher chamava a linda criança de ''In'', já que ela não conseguiu encontrar um nome correspondente à abreviação. A mãe, com a paciência das mães, pede que o filho explique o seu caso à moça curiosa. E o garoto responde: - ''In de insuportável''. Nelson Rodrigues, do alto de sua sabedoria, dizia que a pior forma de solidão é a companhia de um paulista. E existe um tema obrigatório por aqui, que é a política. No caso de hoje, o debate entre Lula e Alckmin na Record. Se o brasileiro tiver que decidir o seu voto tendo por base os debates, está condenado a uma solidão que corta, que queima, que fere. O eleitor brasileiro está, cada vez mais, ilhado, cada vez mais solitário para decidir entre dois políticos paulistas que não diferem em essência. Dois grupinhos de São Paulo, duas turminhas paulistas: PT e PSDB. O debate da Record, assim como o do SBT, foi chato. O único debate que realmente mexeu com as almas patrícias foi o debate da TV Bandeirantes. Qualquer confronto televisionado, seja ela qual for, precisa de elementos lúdicos, líricos, dantescos. Se a vida da grande maioria da população insiste em ser uma vida insuportável, que a televisão proporcione um debate sangrento. Isso é o mínimo que se pode pedir para que alguém fique até de madrugada suportando um roteiro batido e sem sal. A vida não foi generosa com o povo brasileiro em infintos aspectos. A política é apenas mais um deles. Mas ainda teremos um último debate entre Lula e Alckmin antes das eleições. Particulamente, não acredito em eleições como um instrumento democrático. Assim como não acredito na política, em especial na brasileira, e nem muito menos nos candidatos paulistas. Mas pedir um pouco de sangue nesse último confronto não é pedir demais. A imensa maioria dos seres humanos vive uma vida lastimável. E não apenas sob o ponto de vista econômico. Merecemos que a TV nos forneça diversão, nos forneça sangue eleitoral. Até para conseguir enfrentar melhor o próximo dia, que como todos os outros, se resume ao sonho de uma aposentadoria que chegue rapidamente, e que coloque fim a esse sofrimento constante que é viver essa vida morta de todo dia. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 3:34 AM Comments: Segunda-feira, Outubro 23, 2006 Não entendemos As noites de domingo sempre foram mortais. Essas noites trazem consigo as chaves que abrem portas indesejadas, e não é raro uma lágrima perdida cair no travesseiro e morrer iluminada apenas pela luz do aparelho de televisão. Existe uma distância feroz entre a felicidade e a noite do domingo. Não entendo por que a programação da TV insiste em tornar essa noite ainda mais dolorosa para todos. Mas hoje eu quero falar de esperança, de alegria, de paz interior. Quero aqui declarar para os que chegaram a esse segundo parágrafo, e que por ventura não entendem de políticia, que eles não estão solitários nessa ignorância. Na verdade, não existe ser humano que entenda a política brasileira. A nossa política foi feita para ser um mistério permanente. E quem se declara conhecedor nesse campo, ganha imediatamente ares de onisciência. Analistas políticos, acadêmicos, e outros tantos por aí apenas soltam seu achar e se os outros aceitarem, tudo estará bem. O que não existe, e é uma verdadeira pena que não exista, é a confissão. Ainda não temos alguém que venha a público e declare: minhas senhoras e meus senhores, discutimos e falamos sobre política durante anos e mais anos, mas não entendemos absolutamente nada desse assunto porque a nossa política não foi feita para ser entendida. O fato é que as idéias, que deveriam aparecer em algum momento do debate político, não existem, simplesmente não existem. A discussão política é exclusiva em torno de personagens, de atores desse cenário pobre, medíocre, pequeno e enfadonho da política brasileira. O jornalismo político até se esforça para torná-lo um pouco apetitoso. Conseguiria, se unisse a linguagem da política à linguagem policial. Portanto, não entender a política brasileira é comum a todo ser vivo. Basta nascer para não entender o que se passa na nossa política. Basta morrer para permanecer, em relação ao entedimento da política, como nasceu. E já que todos não entendemos o que diabos é a política do Brasil, vamos nos dedicar a algo mais importante e que dê mais prazer. Vamos falar da moça bonita que vai à padaria e que ganha um chocolate pelo belo sorriso, ou do bolo preparado no sábado pela manhã para o café do final da tarde. Podemos conversar a respeito da chuva fina que agora cai na capital federal e que aumenta a saudade de um abraço mais forte, ou da pregüiça companheira que não permite que um chá seja preparado. O assunto pode até ser o mato que cresce entre as pedras das ruas de cidades afastadas e cheias de vida. Qualquer tema, nesse início de semana, é necessário. Qualquer um. Só não aceito alguém dizer que entende de política nesse país. Admito que alguém possa entender de pesca, de mecânica, de confeitaria, de limpeza de pele e de futebol. De política, não existe. Até porque não existe explicação possível para a nossa política, e isso talvez tenha o seu lado positivo. É pena que esse tema abstrato, e lúdico, seja tratado com tantas amarras, e com uma linguagem tão distante. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 1:38 AM Comments: Sexta-feira, Outubro 20, 2006 Foi chato O segundo debate entre os candidatos à Presidência da República foi, sinceramente, chato. Foi chato porque o sangue que jorrou no primeiro encontro faltou agora. E quem tem o mínimo de conhecimento a respeito do gosto popular, sabe que a baixaria é o que realmente prende a atenção do público. Mas aqui cabe um questionamento: por que Alckmin se comportou de uma forma tão polida nesse segundo confronto na TV? Se o PSDB espera realmente ganhar as eleições, deve descer do salto e apelar para a pancadaria nos dois próximos confrontos que serão televisionados. Alckmin jamais ganhará, adotando um tom de voz civilizado, alguma coisa do presidente Lula. Ora, Lula comandou greves desde a primeira infância. O primeiro homem da República, que justamente por essa razão não deveria argumentar que não sabia do que se passava ao seu lado, coloca o ex-governador de São Paulo no bolso quando a conversa não parte para a agressão. O governo Lula é um prato cheio para quem quer atacá-lo no ponto de vista ético. Um governo onde a corrupção jorra sem parar. O PT no poder fez com que os escândalos se tornassem parte da paisagem. A cada dia, um novo caso mais tenebroso é registrado. Como alguém pode manter a calma, em relação ao governo petista, diante de um cenário de agressão constante à inteligência e à dignidade da cidadania? Alckmin foi condicionado a manter a calma por causa das pesquisas que revelavam que o eleitor não gosta de baixaria, não quer ver baixaria. Só mesmo o período eleitoral é capaz de fazer com que uma pesquisa popular registre que o brasileiro não quer ver o sangue explodir na tela diante dos seus olhos. Enquanto os programas de TV com maior audiência são justamente aqueles que mostram o lado mais desagradável, as pesquisas, de uma forma muita estranha, revelam que o brasileiro não quer ver baixaria no horário eleitoral. Subitamente, as pesquisas mostram que o eleitor brasileiro adquiriu um interesse nas propostas de governo. Gosto, e muito, das desculpas esfarrapadas. Acredito, inclusive, que a vida humana não seria possível sem esse tipo de artifício. Mas, acreditar que um diálogo respeitoso com o presidente é possível, é ser bastante ingênuo. Assim como Alckmin massacrou Lula no primeiro debate, Lula levou o seu adversário no bolso nesse segundo encontro. Cabe agora a Alckmin descer a pancada com toda a força nos infinitos escândalos de corrupção que o governo Lula oferece, e deixar o presidente sem explicação. Afinal, Lula não pode explicar os escândalos... Alckmin também tem a opção de acreditar numa estranha pesquisa que diz que o brasileiro, logo o brasileiro, não quer ver agressão na tela da TV. O presidenciável do PSDB caiu na conversa de que o debate deveria ser civilizado, que as propostas de governo deveriam reinar. E ele caiu... Quando a produção de escândalos do governo Lula é uma das atividades mais histéricas que a República já viu, a falta de serenidade e de compostura é uma obrigação. O sangue precisa voltar aos debates presidenciais. Sempre. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 2:11 AM Comments: Quinta-feira, Outubro 19, 2006 O enterro urgente A prudência e Otto Lara Resende recomendam que não é saudável mexer em determinados mitos populares. O jornalista mineiro garantia que o povo tem abismos que não devem ser remexidos, nem ao menos citados. O Brasil, como não poderia deixar de ser, é um dos lugares onde nós encontramos mitos aos montes. Na verdade, existe um congestionamento de mitos por aqui. Exemplo de um mito da atualidade é o presidente Lula. O governador de Minas Gerais, Aécio Neves, que tem um forte apelo entre o eleitorado feminino, declarou que Alckmin não concorria contra um candidato. O tucano enfrentaria um mito nas eleições para o Planalto. Mas, de onde surgiu o mito Lula? Será que temos a capacidade de explicar a gênese dessa lenda que concorre à reeleição? Na minha opinião, o mito Lula surgiu nos corredores da USP. Lula é um projeto de extensão da Universidade de São Paulo. Num dia nublado de junho, início da década de 80, alguém decidiu, simplesmente por decidir, que não seria impensável que um operário governasse o país. Se bem que a palavra governar é um pouco forte para o contexto atual, mas vamos seguir em frente. Alguém da USP falou que um operário, que um sujeito que frenquentou apenas a escola da vida, poderia ser o presidente da República. E o país, como sempre, se curvou à sapiência paulista. Num dos momentos mais críticos do escândalo do mensalão, eu ligava para o Congresso Nacional e perguntava a uma fonte quanto tempo o governo iria durar. A resposta era sempre a mesma: - "Não dura dois meses". O governo Lula não desabou como uma mosca morta por compaixão, por solidariedade. Esse foi um dos momentos mais cristãos da política nacional, pois a piedade reinou e bailou em Brasília naquele período. E eu, na minha inocência, achava que o eleitor brasileiro iria às urnas desprovido de paixões, de certezas suicidas e de convicções sólidas. Na minha visão, o eleitor brasileiro iria às urnas simplesmente para cumprir uma obrigação caduca. Eu achava que não era possível defender quem quer que fosse nessa eleição. E, para variar, eu estava errado. Lembro como se fosse ontem dos argumentos utilizados durante a crise do mensalão. Todos diziam que o país sairia daquele episódio mais maduro, mais experiente, mais vivido, mais consciente. A unanimidade era de que o messianismo na política nacional estava definitivamente sepultado com a queda do mito Lula. Nada mais equivocado. Ah, os equívocos... O que seria de tudo se os equívocos não existissem... Após um oceano de denúncias de corrupção, o segundo turno da eleição presidencial está chegando e nós ainda não aprendemos que na política os mitos devem morrer. Para a saúde de nossa inteligência e de nossa cidadania, os mitos políticos devem morrer, sempre que possível, de morte matada. Nunca fui contrário ao desespero das paixões. Mas quando encontramos beatos, ao invés de eleitores; torcedores, ao invés de eleitores; seguidores, ao invés de eleitores; nosso problema é muito mais complexo do que apenas saber que a nossa participação nesse processo, de tão ridícula, chega a ser divertida, chega a comover os melhores espíritos, nos maiores abismos. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 1:14 AM Comments: Quarta-feira, Outubro 18, 2006 A verdade do dia Um debate que eu, até a madrugada de hoje, considerava inútil, considerava encerrado, surge de repente com uma força avassaladora. O debate ao qual me refiro é o que trata da existência, ainda que remota, da inocência de um governante. Sempre considerei que a política é o palco para tudo nessa vida, menos para a falta de malícia. E, sem mais nem menos, vejo uma declaração do presidente Lula. Lula estava suado, como ele gosta de ficar nos mais variados comícios. O presidente confessou, durante evento de campanha no Rio de Janeiro, que o segundo turno da eleição para o Planalto foi bom para que a sua campanha deixasse o salto alto de lado. Lula até confessou que não foi aos debates no primeiro turno porque tinha a mais clara certeza de que iria ganhar já no primeiro turno. Lula disse exatamente isso. Não estou eu a colocar palavras em sua boca. Qualquer petista pode argumentar que esse é o trunfo maior do presidente, que a sinceridade de Lula toca todos os corações dessa pátria e que a verdade não consegue morrer em sua boca; e que as palavras adquirem vida própria nesse ser que nasceu com a missão divina de proporcionar três refeições para a maior parte dos brasileiros. Todo argumento é válido para tentar explicar as palavras de Lula nos mais distintos comícios. A minha explicação seria mais simples. Lula é mau assessorado e é indiciplinado. Acha que o presidente da República é o cargo mais importante do país e que qualquer coisa pode ser dita, desde que traga carga emotiva intensa. Se Geraldo Alckmin tiver algum desejo de se tornar presidente da República, é bom que comece a investir na emoção. É bem verdade que Alckmin é paulista demais para se derramar em emotividades do povão. Mas se não conseguir algo a mais do que as duas frentes até agora apresentadas: denúncias de corrupção do governo Lula e o papel de bom administrador que fará do Brasil uma continuação do governo de São Paulo; a coisa tende a terminar mal para o PSDB. Não sei a razão, mas a minha tendência é a de me decepcionar cada vez mais com a classe artística do Brasil. Está certo que os guardiões da arte daqui não inspiram uma devoção mais desesperada, mas sempre se espera uma postura de questionamento dos artistas. Lula, rodeado por artistas, confessou o salto alto da campanha e a certeza da vitória no primeiro turno. E os aplausos jorraram como o mel jorrou do chão na terra prometida. A figura de Lula na Presidência da República deveria ser repensada, também, sob o ponto de vista da liturgia do cargo. Um presidente da República não pode, jamais, dizer o que lhe vem à cabeça. Não pode, jamais, admitir erros de forma tão natural e em tom confessional. E o que é pior: fazer isso com ar de sinceridade. Quiça o mesmo Lula fosse sincero da mesma forma para explicar a nossa taxa de juros, os impostos galopantes e o lucro histórico dos bancos durante o governo do PT. Em relação às explicações sobre a corrupção no governo, esse não é um tema que preocupa. Sinceramente. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 2:04 AM Comments: Terça-feira, Outubro 17, 2006 A falta de apoio O PDT decidiu que não vai apoiar oficialmente nenhum dos candidatos à Presidência da República. Eis uma decisão justa. Bem que o eleitorado brasileiro poderia imitar a decisão do partido e também não apoiar nenhuma candidatura, deixando que apenas o sabor dos ventos possa decidir quem ocupará a cadeira presidencial. Em nenhuma outra situação o eleitor brasileiro está mais certo do que aquela em que ele diz que o seu voto não importa. Essa é uma verdade irrefutável porque o voto do eleitor brasileiro não serve de nada mesmo. É preciso acabar com essa supervalorização do voto enquanto instrumento de cidadania para que a ferida de ser Brasil possa seja vista de um ângulo mais desagradável e real. Apesar de não concordar, entendo a campanha pelo voto existente em todos os setores de pensamento da sociedade. É pelo voto que o desgraçado se iguala ao rico. Apenas no voto e na morte os homens se igualam... Há quem diga também que os homens se igualam, independente do que eles sejam, porque todos eles são enganados pelas mulheres. Há quem diga... Essa construção de pensamento é bastante válida para demonstrar o quanto a desigualdade entre os nossos é gritante. O voto, em uma sociedade democrática séria, não pode ser uma obrigação. Jamais poderia ser uma imposição. No Brasil, o voto é uma chantagem oficial, apenas e tão somente um mecanismo de controle obsceno de um Estado que já morreu em praticamente todas as áreas, e que ainda cobra muito caro pela sua existência. O Estado brasileiro, apesar de ser o que é, é amado. Consegue ser amado. Por quê? Nunca fomos muito bons em matéria de amor, de saber amar, de escolher o objeto ou o sujeito a ser amado. Essa certamente é uma das causas de se amar o Brasil com tanto empenho e de forma tão aberta. Amar o Brasil é perseguir o erro, é querer e se sentir satisfeito em defender bandeiras mortas, em lutar por causas perdidas, em amar o ato de amar errado. Se bem que o amor que não compensa, como dizia o poeta, é melhor do que a solidão. Ah, a solidão. Assim como contra o voto nulo, também existe um preconceito aberto contra a solidão. Se todos soubessem que é através da solidão que nos tornamos seres melhores, quem sabe alguém poderia defendê-la algum dia em via pública. A solidão é bênção, é dádiva. Não a solidão contínua, mas os preciosos momentos de solidão. Da mesma forma, o voto nulo faz bem. Faz bem porque anuncia que nenhuma candidatura é bem vinda, ou ao menos chega perto do aceitável. O PDT, apesar de anunciar que não apoiará ninguém no segundo turno, liberou seus membros para apoiar esse ou aquele candidato na disputa ao Palácio do Planalto. E o voto nulo, mais uma vez, perde um partido que o defenda com todas as letras. Contudo, já que o voto do eleitor não vale nada além de um mero algarismo numa contagem fria e impessoal, que votem em alguém. Depois, com a vida em frangalhos, procurem respostas no noticiário político. E encontre-as no noticiário econômico. Se souberem ler, ou tiverem dinheiro para o jornal, é claro. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 1:11 AM Comments: Segunda-feira, Outubro 16, 2006 A política do feriadão No último sábado, a Rede Globo fez uma justa homenagem ao programa da Xuxa. São 20 anos de parceria entre a emissora e a apresentadora. Uma marca notável em se tratando de TV em qualquer lugar do mundo. Um recorde atingido com toda a classe por essa gaúcha que também embalou os meus sonhos mais tenros. Era necessariamente aquela a minha nostalgia... E assim, vendo o especial em homenagem a Xuxa, a tarde de sábado ficou menos áspera. E se o especial da Xuxa trouxe algo para servir de comentário, o mesmo não pode ser aplicado à corrida presidencial. Sim, os candidatos falaram, viajaram, prometram, se reuniram; em suma, fizeram tudo que sempre fizeram. O grande ponto é que o Brasil passou por um fim de semana prolongado. Daí, num fim de semana prolongado, sabiamente, a política deixa de existir para milhões de brasileiros. A televisão ainda insiste em querer trazer o noticiário de Brasília para o restante do país, mas é em vão. Apenas por desencargo editorial é que a TV exibe algum assunto da capital durante um feriadão. Se por acaso não houvesse uma simples menção a Brasília, à política, num noticiário de fim de semana prolongado, quem sabe o nosso povo dormiria com mais paz de espírito ao menos por uma noite. Na verdade, o clima eleitoral esfriou desde a última quinta-feira. Mesmo com 3 pesquisas divulgadas no início da semana passada, mesmo com ataques cada vez mais incisivos dos dois lados, e com toda sorte de estratégia de campanha, o brasileiro já esperava o feriadão com a alma protegida das notícias de Brasília. Pelo pouco conheco do conteúdo da informação política nacional, posso dizer que uma sabedoria essencial do nosso povo está em desprezar o noticiário político em época de feriadão. Nada mais inútil do que as notícias sobre política brasileira. É bem verdade que todo país deve manter um ar de sobriedade e de urgência na sua cobertura política. Mas a política do Brasil, sempre que possível, merece ser esquecida pela população. Como ocorreu nesse fim de semana prolongado, onde o sujeito típico bebeu em demasia para comemorar a folga do serviço que massacra e paga mal. A origem do dinheiro do dossiê que seria comprado por petistas para atacar candidaturas do PSDB poderia ter sido revelada; Alckmin poderia ter virado o placar nas pesquisas eleitorais (apesar de que no meu achismo, Alckmin leva a faixa presidencial para casa), Lula poderia ter renunciado ao mandato ou Alckmin desistido da Presidência após beijar tantos eleitores. Tudo poderia ter ocorrido no feriadão. E o brasileiro não estaria, sabiamente, se importando com nada disso. Só hoje, durante o café forte preparado especilmente para diminuir o efeito da bebedeira do domingo, é que o brasileiro vai voltar as atenções para o que a política apresenta. Mesmo sendo época de campanha presidencial. Principalmente por ser época de campanha presidencial é que nos últimos dias o Brasil não ligou para o seu noticiário político. Sabiamente o Brasil esqueceu de sua política por alguns dias. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 3:32 AM Comments: Sexta-feira, Outubro 13, 2006 O futuro não cabe na pesquisa As pesquisas de intenção de voto dos institutos Datafolha e Ibope, divulgadas nessa semana, podem refletir a escolha do eleitor brasileiro para à Presidência da República, avaliar quem ganhou ou quem perdeu o debate entre os presidenciáveis da TV Bandeirantes, ou o que quer que seja. Ambos os institutos revelam que o presidente Lula será reeleito no próximo dia 29. No entanto, alguns detalhes devem ser considerados. O candidato do PSDB ao Planalto, Geraldo Alckmin, vai exigir de Lula, até o último instante, explicações em relação à origem do dinheiro que seria utilizado por petistas para comprar um dossiê contra a candidatura de José Serra ao governo de São Paulo, e contra a própria candidatura Alckmin. Apesar de que Serra seria o alvo preferencial dos petistas, afinal todos tinham a mais sólida certeza de que Lula venceria as eleições ainda no primeiro turno. A propaganda eleitoral no rádio e na TV começou ontem, e podemos notar que agora a expressão de Lula contrasta com a do primeiro turno. O presidente, durante o primeiro turno, tinha cara de presidente, tinha cara de governante. Não posso dizer que tinha cara de estadista, porque isso já é forçar demais o contexto. Em suma, Lula, até as eleições do primeiro turno, era a cara do governo. Com o segundo turno, o presidente ficou mais do que abatido. Lula está deprimido. Acho até que ele está desapontado com o povo brasileiro. Afinal, ele precisa, mais do que ninguém, acreditar no mito repetido por duas décadas de que ele seria a solução ideal para os problemas do Brasil. Por sua vez, Alckmin ganha a cada dia a cara de presidente. O tucano está com o ar presidencial e já fala como o próximo chefe de Estado. Essa questão de estima não pode ser medida por institutos de pesquisa. Ou até pode, não sei. O caso é que Lula está na frente das pesquisas, e abatido. Alckmin, mais do que motivado, ainda aparece atrás nos levantamentos. Acho que podemos questionar, mais do que fazemos, os intitutos. E mais do que questionar apenas os institutos, poderíamos questionar os entrevistados. Não existe, e deveria ser obrigatório existir, uma explicação, antes da divulgação desses resultados, no sentido de alertar o público que as respostas dos eleitores são sinceras. O pressuposto da sinceridade nas respostas deveria ser colocado em evidência. Eu, por exemplo, quando fui entrevistado a respeito de uma marca de creme dental, menti fervorosamente. Alguém pode falar que a tal da margem de erro existe para esses casos. Mas ninguém também fala que a margem de erro é muito generosa para com a falta de sinceridade. Creio que Alckmin ganhará a eleição. Apesar dos institutos, creio na vitória do tucano. É bom frisar que não torço pela vitória dele. Apenas creio. Os pecados do PSDB no governo FHC são escabrosos, e isso por si já é uma garantia de falta de tranquilidade. Não sei até que ponto seria melhor ter um governo do PT para negociar flexibilização de leis trabalhistas. Essas reformas serão feitas, independente de quem ganhe as eleições, porque falam por aí que elas terão que ser feitas. O negócio envolve crescimento econômico e aumento do número de empregos. No entanto, os indicadores da economia não sentem fome, não têm sono nem dor no corpo. Desde já tenho mais pena do trabalhador brasileiro. Seja Lula, que aprovou no primeiro ano de seu governo a reforma da previdência (que taxou em 11% os aposentados que ganhavam acima de mil e poucos reais por mês); seja Alckmin, o fato é que o próximo presidente terá que fazer o trabalhador brasileiro perder os seus direitos. Tudo isso para que tantos outros mais não possam ter os direitos trabalhistas inadequados para o crescimento da economia, que não sente dor, nem fome, nem saudade. Se serve de consolo, os institutos de pesquisa registram o crescimento econômico. Só não registram a desilusão de saber o que virá no futuro. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 2:01 AM Comments: Quinta-feira, Outubro 12, 2006 Rimas sobre o que dói Não sei se foi ontem ou antes de ontem. Nem mesmo sei se foi nessa semana. O mais provável é que tenha sido nessa semana. Sim, foi nessa semana. Nessa semana pensei em produzir versos sobre o nosso cotidiano político. Ao invés de retratar a política brasileira apenas em prosa, poderíamos também descrevê-la em verso. Quem sabe não chegaríamos a algum estágio de produção poética? Injustiças com a nossa produção poética à parte, o fato é que momento político nacional é mais do que justo para que alguém possa rimar sobre esse cenário. O cenário eleitoral é um deserto, um convite ao suicídio. Basta acompanhar a propaganda eleitoral que será retomada hoje para que um frio na alma se faça permanente. Não é nada fácil sobreviver sem determinadas certezas. Quem poderia sobreviver sem a política? Mesmo que a política seja absolutamente descartável para a organização social, há quem jure que não seja possível viver sem a política. Diria que a vida, como a decência e a honra, só existe sem a política. Não é à toa que a política é a mais humana das atividades; e que a decência e a honra só sirvam para encher dicionários. Se é para falar da política nacional, podemos falar dessa verdadeira orgia que são as alianças políticas no Brasil. O que, a princípio, poderia representar um claro sinal de falência, por outro lado demonstra a dinâmica das nossas conjunturas políticas. O PFL apóia o PT, que apóia o PMDB, que apóia o PSDB, que apóia o PPS, que apóia determinada ala do PMDB, que apóia o PT. Mas se o PSDB ganhar está tudo certo. A política brasileira, e essa é uma verdade irrefutável, não foi feita para ser entendida. Jamais. No dia que alguém declarar que entende a política nacional, podemos ter a certeza de que erramos em alguma coisa. Da mesma forma que Deus se sentiria humilhado se alguém decifrasse a natureza feminina, o nosso sistema política teria que ser refeito, se alguém afirmasse que entende de política. Política não foi feita para se entender. No máximo, para ter algo para se irritar. Já que a política brasileira segue o ritmo da nossa vida, na qual as relações são tão voláteis e de uma fragilidade tão intensa, de uma completa capacidade de fidelidade e de compromisso, cabe então uma única questão: por que se fala tanto em política se sabemos que ela nunca vai melhorar. Se sabemos que a política está condenada enquanto prática... A explicação para esse falatório sobre política é o mesmo que se dá ao falatório sobre a adúltera. Não exitiu época em que a mulher não fosse infiel. E não existiu época em que esse assunto não fosse tratado com paixão. De um tempos para cá, o tema acabou sendo tratado como uma fatalidade, uma consequência do ato de viver. Não que não seja, mas alguma verdades sempre deveriam permancer ocultas. Foi-se o tempo, que nunca existiu, em que na política e no amor tudo era digno, tudo era como uma grande e conhecida certeza. Tempo que nos abandona e sempre puxa uma cortina que nos revela aquilo que é doloroso demais para ser aceito. E que venha a propaganda eleitoral, para que ao menos a desgraça traga consigo uma dose de humor. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 2:42 AM Comments: Quarta-feira, Outubro 11, 2006 O inteiro Os argumentos dos candidatos à Presidência da República são válidos. Como não? O pior, e o mais trágico de tudo, é que ambos falam a verdade quando acusam um ao outro. O PT está certo quando fala das privatizações e do FMI. O PSDB está certo quando fala do aparelhamento e da corrupção. Mas qual é a pior certeza para essas eleições? O eleitor brasileiro terá que decidir entre dois projetos de governo que são muito parecidos, muito semelhantes. Dois projetos de governo produzidos e pensados por São Paulo. No meio desse clima de disputa, aconselho o voto nulo como a saída para essa situação em que estamos mergulhados. Se as duas opções são PT e PSDB, paciência. Melhor fazer outra coisa do que discutir sobre o tema. O tal do voto nulo, que sempre visto como um voto menor, uma anomalia da cidadania, não significa necessariamente lavar as mãos e dizer que o que vier está de bom tamanho. Longe disso. O voto nulo, ao menos o voto nulo consciente, significa que dentre as opções apresentadas, nenhuma interessa. E não adianta dizer que sempre existe um que é menos horrível do que o outro. Nesse caso não há possibilidade de amenização. Tudo é ruim. Tudo é muito ruim. Já ouvi gente conceituada falar que quem vota nulo não tem o direito de reclamar do governo. Outros vão mais além, e dizem que se o voto não fosse obrigatório, quem não votasse não teria moral para reclamar da política. Só não pode reclamar do governo, ou da política, ou de qualquer coisa relacionada a isso, quem não paga imposto. A partir do momento que eu não pago tributos, não tenho como reclamar. E mesmo quem não paga imposto, tem o direito à reclamação. Essa cultura que só quem paga é que tem o direito de reclamar surgiu com o código de defesa do consumidor. No entanto, muitos cidadãos não pagam impostos porque simplesmente lhes falta tudo. Mas essas pessoas continuam sendo cidadãs. Porém, só é ser humano quem tem dinheiro. Quem não tem, melhor arrumar outra denominação, ou, se possível, outro planeta. Nesse aqui, o jogo é bem claro e para falar a verdade, chega a ser chato. Até parece que a luta política não é pelo controle das verbas públicas. Até parece que existe outro motivo para servir ao próximo. Até o dia da eleição, a imprensa vai cobrir as ofensas que cada candidato fará ao outro como se até as agressões não fossem ocas. Essa é uma disputa sem sentido. Uma disputa que merece ser acompanhada com o mesmo interesse do naufrágio de um barco de papel em um balde posicionado debaixo de uma goteira. E com a vantagem de não haver irritação, nem decepção, mais do que certas no caso da disputa presidencial, quando se observa um barco de papel se desmanchar diante dos olhos. Afinal, o que já não desmanchou nessa vida diante dos nossos olhos? confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 1:31 AM Comments: Terça-feira, Outubro 10, 2006 Nada a declarar Vez por outra, roubo uma idéia. Na maioria das vezes, como grande parte dos que vivem para as palavras, não confesso que a roubei. É uma pena, mas é assim que a coisa funciona. No entanto, hoje não vou fazer uma pregação a favor da mentira. O primeiro passo para isso é confessar que a idéia que defenderei nesse modesto espaço é a de que o Senado Federal ganhou, e muito, com a eleição de Collor e com a saída de Heloísa Helena. A análise, por ser brilhante, não é minha. É do meu primo Rafael Loiola. Poucas vezes um Estado acertou tanto numa troca de senadores como Alagoas. A casa legislativa ganhará um homem que sabe falar como poucos, e que falará sem mágoas, e que entoará os cânticos da sapiência. Fernando Collor trará para o Senado a beleza dos discursos essenciais à nação. E uma nação sem discursos não é uma nação. É um amontoado de gente sem ter a quem ouvir. Já que me resta uma mínima dignidade, não vou falar mais sobre política hoje. Quero falar sobre uma vela de sete dias que comprei e que queima entre os ferros do fogão que servem para suspender e sustentar as panelas. Comprei essa vela no início de uma noite chuvosa. Faltava energia. Caminhei até o supermercado ao lado do outro eu e molhados, compramos velas para esperar uma luz. Não sei por que comprei essa vela. O fato é que ele agora queima e contém uma oração de Nossa Senhora de Fátima. Devo mesmo precisar de tal vela a queimar, pois tenho visto certas sombras que não me trazem boas sensações. Tudo está muito pesado nesses dias. Principalmente depois que os corpos do acidente aéreo chegaram ao setor policial de Brasília. A refrigeração dos restos mortais pedia energia. E o escuro chegou no início da noite de sábado. Soube pela TV que o movimento Punk fez 30 anos. O punk é balzaquiano. Pelo meu lado, trago tanta dor dentro de mim que não sei se os trinta anos serão alcançados pela minha carcaça. Já tinha dor demais antes de trabalhar com o jornalismo político. Já tinha dor demais. Agora preciso de velas sacras para dormir um pouco menos triste. A política ainda acabará comigo. Sei que esse é um caminho falido, um caminho que cheira a enxofre. Enquanto a vela queima e o sono tortura, ainda tenho forças para abraçar e defender idéias que não são minhas e afirmar que o Senado foi renovado para melhor com Fernando Collor no lugar de Heloísa Helena. Ainda posso imaginar o ex-presidente novamente com a faixa no peito, a gritar que o Brasil é a sua paixão. E não faltarão os milhões a seguí-lo até a eternidade. Estou cansado. A política idiota do Brasil ainda me apresentará ao meu fim. A vela queima e a uma oração de Nossa Senhora de Fátima brilha mais forte de vez em quando. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 12:22 AM Comments: Segunda-feira, Outubro 09, 2006 E o sangue surgiu... O debate entre Lula e Alckmin agradou. Não existe uma outra palavra para expressar o sentimento dos telespectadores da TV Bandeirantes da noite desse domingo. O debate agradou porque reuniu diversos elementos que são idolatrados por todos os homens: violência, ironia, deboche e dissimulação. O cardápio político nunca foi tão delicioso para a noite de um domingo. O programa Fantástico, da Rede Globo, talvez nunca tenha registrado uma audiência tão pequena. Vai saber... Geraldo Alckmin surpreendeu e partiu para a pancada logo de início. Sem muita conversa, Geraldo perguntou ao presidente da República qual era a origem do dinheiro que alguns petistas utilizariam para comprar um dossiê contra a candidatura dos tucanos José Serra, governador eleito de São Paulo, e do próprio Alckmin. Analistas de boteco garantem que a história do dossiê, que serviu para vender muito jornal, foi a responsável pela ida de Alckmin ao segundo turno. Por sua vez, o presidente Lula não decepcionou e mostrou novamente que consegue como ninguém falar ao brasileiro simples. Nunca, em tempo algum, um presidente da República em exercício compareceu a um debate político na TV. Nunca! Nunca, em tempo algum, um candidato citou a própria mãe num debate tantas vezes como Lula. Confesso que trabalhei durante o debate. Também confesso que enquanto trabalhava, no meio do ritmo frenético de acusações e aspas, cheguei a me questionar sobre a possibilidade de não ter sido professor de Ioga. Enquanto escrevo esse pequeno registro do debate entre os presidenciáveis, bebo café, para conseguir chegar ao final da página que insiste em permanecer branca. Bom, o sangue, que é sempre exigido pelo público, principalmente na televisão, foi ofertado ao nosso povo. Amanhã, milhões de brasileiros procurarão suportar mais um dia de privações e de procura de trabalho com a certeza de que o sangue foi ofertado no debate televisionado. Pena, em termos, que a pancadaria não foi maior por conta da falta de fôlego do candidato do PSDB. Outro motivo que não levou o debate às vias de fato foi a experiência do presidente da República. Lula, sabiamente, sabe como ninguém suportar artilharia pesada contra o seu governo. O duelo entre Alckmin e Lula também provocou risos. Vez por outra, uma gargalhada surgia. O responsável pelos risos, como não poderia deixar de ser, era Lula. Confesso que o nosso presidente tem essa função extra: divertir. Se por acaso Alckmin ganhar o pleito, coisa que também não seria boa para o Brasil, a administração tenderia a ficar mais séria no sentido de falta de simpatia. Lula, convenhamos, é carismático. Os presidenciáveis ainda se encontrarão publicamente em outras oportunidades. E o debate que virá promete ser ainda mais sangrento. O que está em jogo será a administração desse tesouro chamado Brasil. Lula pede uma oportunidade para continuar fazendo o Brasil que todos nós gostaríamos de ver. Alckmin diz que o PT já teve a sua chance e que agora a história é com ele. Seja qual for o paulista que irá conduzir o Brasil pelos próximos quatro anos, tenhamos apenas uma certza: estamos lascados. Ainda existe outra certeza: os próximos debates serão ainda mais agressivos. E o povo agradece. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 12:54 AM Comments: Sexta-feira, Outubro 06, 2006 Farpas paulistas de domingo O debate entre os candidatos à Presidência da República do próximo domingo dará continuidade à Copa do Mundo, no que se refere à euforia e à audiência, que nos foi tirada pelos nossos próprios jogadores. Mas deixemos o futebol de lado e vamos falar de outra forma de paixão. Eleição no Brasil torna tudo possível. E com o advento da reeleição, o possível é sempre pouco, é sempre pequeno. Engana-se quem pensa que, nesse debate promovido pela Rede Bandeirantes, existirá alguma cordialidade. A disputa pelo Executivo nacional faz com que partidos tão iguais, como é o caso do PT e do PSDB, tentem demonstrar alguma diferença. Os candidatos não estarão diante do país para apresentar algum tipo de proposta. O que existirá nesse confronto será apenas e tão somente o sangue reivindicado por todos. E o brasileiro, já na segunda-feira, irá ao trabalho, se é que há trabalho, um pouco mais vingado, um pouco mais aliviado. Assitirá de camarote ao presidente da República e ao ex-governador de São Paulo num duelo de foices. A foice nesse caso, e ainda bem que assim o seja, não tem nenhuma relação com o comunismo. Se é sangue que o povo quer ver, ao menos dessa vez o desejo popular será atendido. Mas qual será o Brasil que amadurecerá após essa pancadaria anunciada do domingo? Será que o Brasil irá continuar com a desgraça petista? Ou será que o Brasil retornará à catástrofe tucana? Meu Deus, como estamos sem opção... Nunca fomos bons para decidir a respeito dos caminhos futuros. Mas a bifurcação que representa a escolha a tomar, nesse caso leva ao mesmo ponto. Essa polarização paraguaia, que apenas representa dois segmentos muito próximos do Estado mais rico da federação, só reafirma o quanto estamos ruins em termos de opção para o que virá. Já que o futuro não nos sorriu mais uma vez, ao menos teremos dois grandes nomes da política nacional despejando denúncias e cobrando explicações a respeito de casos de corrupção cabeludos. Privatizações suspeitas, compra de votos para aprovar a reeleição, dossiês, ajuda a bancos falidos, submissão ao capital estrangeiro. Isso certamente virá de um lado. Do outro, podemos esperar esforços concentrados na explicação sobre o mensalão, os sanguessugas,mais dossiês, a queda de vários ministros e homens íntimos do presidente, a declaração do procurador geral da República que afirmou que uma quadrilha se instalou no Estado brasileiro, os lucros históricos dos bancos, o crescimento econômico tacanho. A grande maioria do povo nem entende o que isso significa. Na verdade, quase ninguém entende. Eu mesmo não consigo compreender a razão da existência das leis numa terra onde a preguiça de punir é a lei maior. Se existe um lugar onde o perdão ainda habita, esse lugar certamente é o nosso país. Apesar de sentir que a punição não alcança os merecedores do castigo legal, e de não entender os termos que serão utilizados no debate: improbidade, peculato, desvio de conduta ética, frouxidão moral, etc; o povo brasileiro, aquele sujeito que acorda e vai dormir sem emprego, que lê os classificados de jornal a procura de uma ocupação qualquer com um cigarro barato já nas primeira horas de luz do dia, sabe que existiu uma briga. E uma briga pública é a melhor coisa que a imprensa poderia ter inventado. O sangue jorrado na tela de TV torna a vida de todos mais leve. Se existir família, será um belo programa para a família no domingo. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 1:33 AM Comments: Quinta-feira, Outubro 05, 2006 Desobedecendo Machado Machado de Assis, sábio que era, dizia que não gostava do escritor que lhe dizia tudo. Para o maior escritor do Brasil, necessário e fundamental era manter uma espécie de névoa no texto, permitir que a meia luz sobreviva, fazer com que o leitor pense e crie a partir das palavras. As linhas não devem encerrar os sonhos de quem as lê. E disso, Machado não abria mão. Estou com alguns livros de Machado para ver se o meu texto fica um pouco mais feminino, mais misterioso. A prática do jornalismo, invitavelmente, faz com que o texto fique pobre, árido. Afirmo que o texto jornalístico é por excelência a celebração da miséria da escrita. Nada pior para as palavras do que o cárcere dos manuais de redação da imprensa. Há poucas horas, fui procurado por um amigo que se dizia ansioso para falar comigo. Segundo ele, eu sou especialista em política. Disse-lhe que não era bem assim, que enxerga na política brasileira um espetáculo como os últimos filmes de Fellini. Mas ele não acreditou e me pediu uma análise do cenário eleitoral do segundo turno. Vesti a fantasia de analista político. Afinal, um analista político, assim como um poeta na visão de Pessoa, é um fingidor. Disse-lhe que na minha opinião o vencedor do pleito seria o presidente Lula. O petista tem a máquina pública e vai explorar em demasia os escândalos de corrupção no governo anterior. Além do mais, ontem mesmo o governo liberou, de uma canetada, 1 bilhão e meio de reais. Ora, a vida é possível com um bilhão e meio de reais... Ele ficou visivelmente triste, mas eu lhe disse que Geraldo Alckmin já era o vencedor moral da disputa. Justifiquei que o tucano foi abandonado pelos seus no início da luta ao Planalto. E foi seguindo, seguindo. Até que surgiu a história do dossiê. Por outro lado, os petistas tinham a mais límpida certeza de que Lula ganharia no primeiro turno. Tanto é que até o deputado eleito pelo Ceará Ciro Gomes, ex-ministro de Lula e com o olho em 2010, admitiu que a campanha do presidente estava de salto alto. Assuta-me quando alguém vem me procurar para saber a minha opinião sobre os destinos do Brasil. Quando estou com paciência, coisa cada vez mais rara, falo que o país não tem jeito. As opções para a o Executivo são tenebrosas. E os candidatos que não foram ao segundo turno, são medonhos. Nosso sistema político, que o próprio Lula já disse que apodreceu, não nos levará para algo melhor. Pode, sem dúvida, nos levar cada mais ao vale das sombras da morte. Nunca esse sistema servirá para melhorar algo. Diante dessa análise, e o que é pior, diante da falta de projetos alternativos, como alguém pode ainda justificar que tal candidatura é melhor do que outra, quando nem mesmo são os políticos quem decidem os nossos destinos? A supervalorização do voto é muito bonitinha. Faz com que a esperança não morra, que ainda seja possível um sonho entre horas e mais horas de lágrimas. Outro dia já falei isso, e torno a repetir: esperança no Brasil é exclusiva para trabalhador braçal. Quem tem um mínimo de consciência, ou de estudo, deve também ter honestidade e decência intelectual para confessar que seja o que vier nesse segundo turno, será muito ruim. Não temos o direito à esperança. Que me perdoe Machado, mas dessa vez não dá para não dizer que a política potencializa a desgraça de pertencer a essa terra. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 1:39 AM Comments: Quarta-feira, Outubro 04, 2006 A notícia da vida Quando o mundo começa a querer me convencer de que tudo é apenas isso mesmo, corro para Rubem Braga. Até gostaria de colocar esse nome num filho que porventura eu venha ter algum dia, mas a mãe do ex-futuro Rubem não gostou do nome. Bom, quero aqui falar sobre as notícias, que chegam a nós numa velocidade tão grande que a sensação é a de atropelmento. O sujeito atualmente é atropelado por notícias, por informação. Definir o que é e o que não é notícia é uma questão que aflinge a todos os calouros dos cursos de comunicação. Incrível como essa questão morre do segundo ano em diante do curso. Vira notícia o que alguém influente disse ou fez. Ou o que envolve muito dinheiro. Ou, principalmente, aquilo que tem visibilidade. Está aí a razão do jornalismo policial ser a grande escola dos profissionais da imprensa. A redação de polícia é a menos chique, e a mais lida. Diferente da redação de política, que é nobre, e quase ninguém lê. Não vou entrar na questão da redação de política mais parecer a de polícia na atualidade. Vamos dar folga à desilusão. Num dia como o de ontem, escolher notícia não foi uma tarefa complexa. Parece que a notícia pede para existir. Difícil mesmo é quando a vida confessa que não depende dos jornais e daí entram as declarações dos que declaram qualquer coisa. Já que a grande reportagem morreu, basta colher duas ou três aspas, contextualizar num cenário favorável à linha editorial, e estamos conversados. Mas também não quero falar sobre a imprensa enfadonha. Quero aqui falar sobre uma notícia de jornal que Rubem Braga gostaria de ter dado em maio de 1951. Na crônica do mestre, já naquela época, ele critica os jornais que abusam das notícias trágicas. O velho Braga propõe uma notícia bastante simpática para que, ao menos de vez em quando, as pessoas pudessem tomar o seu cafezinho com uma leitura mais leve e uma promessa de um dia mais ameno. Rubem Braga critica os jornais dizendo que tudo neles é noticiado, menos a vida. Aí vai um recorte, em texto jornalístico, da vida no Rio de Janeiro na década de 50. Recorte da vida escrito por Rubem Braga. "Ontem, cerca de 10 horas da noite, o indivíduo Ananias Fonseca, de 28 anos, pedreiro, residente à rua Chiquinha, sem número, no Encantado, entrou no Bar "Flor Mineira", à rua Cruzeiro, 524, em comoanhia do seu colega Pedro Amâncio de Araújo, residente no mesmo endereço. Ambos entregaram-se a fartas libações alcoólicas e já se dispunham a deixar o botequim quando apareceu Joca de tal, de residência ignorada, antigo conhecido dos dois pedreiros, e que também estava visivelmente alcoolizado. Dirigindo-se aos dois amigos, Joca manifestou desejo de sentar-se à sua mesa, no qual foi atendido. Passou então a pedir rodadas de conhaque, sendo servido pelo empregado do botequim, Joaquim Nunes. Depois de vparias rodadas, Joca declarou que pagaria toda a despesa. Ananias e Pedro protestaram, alegando que eles já estavam na mesa antes. Joca, entretanto, insistiu, seguindo-se uma disputa entre os três homens, que terminou com a intervenção do referido empregado, que aceitou a nota, que Joca lhe estendia. No momento em que trouxe o troco, o garçon recebeu uma boa gorjeta, pelo que ficou contentíssimo, o mesmo acontecendo aos três amigos que se retiraram do bar alegremente, cantarolando sambas. Reina a maior paz no subúrbio do Encantado, e a noite foi bastante fresca, tendo dona Maria, sogra do comerciário Adalberto Ferreira, residente à rua Benedito, 14, senhora que sempre foi muito friorenta, chegado a puxar o cobertor, tendo depois sonhado que seu netinho lhe oferecia um pedaço de goiabada". confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 1:52 AM Comments: Terça-feira, Outubro 03, 2006 A pior das perdas Dois dos meus maiores pesadelos se realizaram nessas eleições: Severino Cavalcanti não foi eleito e Fernando Gabeira obteve votação recorde. Êta povo que não aprende a conservar as suas raízes. Nada poderia ser mais injusto do que deixar de fora do Congresso um político como Severino Cavalcanti. Tenho absoluta certeza de que utilizaram a figura do político nordestino atrasado para justificar os ataques a Severino. Não entendo por que não falam, por exemplo, da covardia intelectual e de postura de sujeitos que até hoje em dia se declaram de esquerda, ou socialistas, o que nome eles tenham. Como é possível alguém permanecer socialista depois dos 25 anos, tendo lido ao menos dois ou três livros na vida? Qual é a fórmula para essa atrocidade de pensamento permancer viva? Deve ser a idéia de igualdade. Realmente, a esquerda tende a padronizar tudo. Inclusive, e principalmente, a demência. Outro sujeito que deveriam falar a respeito, seria um tal libanês ou turco de São Paulo. Mas esse eu também admiro. O diabo é que os ladrões de direita são muito mais encantadores e fascinantes do que os de esquerda. Existe ao menos a sinceridade nos ladrões de direita. Os de esquerda ainda terão que evoluir muito para chegar ao ponto de carisma dos de direita. Eu, por exemplo, senti uma pena colossal quando vi Paulo Maluf na cadeia reclamando da alimentação que é servida ao preso. De acordo com Maluf, ele não daria aquela comida nem para o seu cachorro. Ora, se fosse um de esquerda, jogaria a comida fora ou, o que é pior, tentaria repartir o alimento com o seu semelhante. Sempre apoiado naquela idéia de igualdade. Não somos iguais. Nem nunca seremos iguais. As leis não terão a possibilidade de nos tornar iguais porque simplesmente isso jamais será possível. Outro aspecto que merece ser considerado é o sujeito que além de defender o socialismo, ainda é ecologista. Nada é mais humano, nada representa mais o homem, do que a auto-destruição. Diria até que se o homem não promovesse a auto-mutilação de si próprio e de tudo que está a sua volta, Deus seria um frustrado. Certo dia, ouvi o meu avô dizer que o homem já deveria ter se acostumado com a morte. Acrescentaria dizendo que o homem já deveria ter se acostumado com a sua própria miséria por excelência. Basta ter lido alguma coisa, não muita, durante a vida para saber que a passagem humana pela terra não foi uma das coisas mais agradáveis que esse planeta já presenciou. Se a honestidade intelectual ainda é permitida nessa etapa da história, posso dizer que o fim não será um castigo. Ao contrário. Adiar o fim é que me parece o nosso inferno. Mas enquanto o fim não se apresenta, teremos que viver suportando algumas bobagens. Nessa altura dos acontecimentos, ainda existem partidos políticos que se dizem de esquerda, socialistas, comunistas, ou seja lá que nome tenham. Não que o nome de um partido, ou as bandeiras que ele defende, tenham importância. Contudo, esperar o fim dos tempos, que na verdade é um prêmio que o homem busca com tanto ímpeto desde que o mundo é mundo, ouvindo aquela velha ladainha esquerdista, é um castigo adicional desnecessário. Severino foi injustiçado pelas urnas. Como se ele fosse uma atrocidade, uma anormalidade... confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 12:57 AM Comments: Segunda-feira, Outubro 02, 2006 Olhos do luto Sempre tive medo de aviões. Mesmo quando não entendia alguns dos meus medos, sabia que a altura não me agradava. Talvez fosse uma percepção precoce de que o chão é um imã para as almas atormentadas, quando as mesmas almas se encontram a dezenas de metros acima das plantas. Na última sexta-feira, um avião da empresa aérea Gol cai no norte do Mato Grosso e matou, se não me engano, 155 passageiros e seis tripulantes. O maior acidente da avião civil nacional. Jornais, às vesperas das eleições, relatavam a tragédia desse avião que se chocou com outro menor em pleno ar. Na verdade, foi uma batidinha de leve que provocou a queda do maior. O avião pequenino conseguiu se livrar de um final mais breve. O presidente Lula decretou luto oficial de três dias. E votamos para presidente da República sob luto oficial. Nada mais justo, nada mais certo. Atitude irretocável essa a do Planalto. E o brasileiro foi às urnas, sob luto oficial, para escolher o seu presidente da República. Há por aí quem possa dizer que a nossa eleição é um exemplo. Deve ser mesmo, porque tanta gente considerada fala que o nosso processo eleitoral é isso ou é aquilo; que deve ser mesmo. Bom, o presidente Lula vai ao segundo turno contra o candidato Geraldo Alckmin, do PSDB. Antes de tecer comentários sobre o PT, cabe aqui dizer que PT e PSDB são muito mais íntimos do que demonstram. São partidos paulistas até demais. E isso é grave. A polarização PT x PSDB não existe. Puro jogo de cena político. Lula conseguiu coisas impossíveis durante o seu governo. Resistiu como ninguém a ataques violentos, a provas contudentes, a fatos inquestionáveis. Qualquer político da atualidade sairia do trono com apenas 20% do que Lula resistiu. Se podemos definir o Lula político em uma única palavra, digamos que essa palavra seja: resistência. Como diria uma cunhada favorita, Lula mais parece um carrapato grudado ao poder. O presidente, que nos comícios declarava aos quatros ventos que venceria as eleições no primeiro turno, terá que enfrentar mais esses dias que virão. E os dias que virão serão bastante tristes para todos... Como será que Lula conseguiu não ser reeleito no primeiro turno? Por que a imprensa, tão acusada pelo próprio PT, já dava como certa a reeleição de Lula nesse primeiro turno? Por que os institutos de pesquisa existem? Sempre tive medo de eleições. Em especial, das eleições brasileiras. Nunca me dou muito bem num contexto de muita esperança. Seria bom que no segundo turno, o eleitor soubesse que os dois candidatos não são opostos, não são polarizados, não são nem sequer adversários. É a manutenção da hegemonia paulista no domínio do Planalto. Vamos, por motivo de honestidade, conservar o luto que acaba oficialmente amanhã, mas que deveria ser perpetuado pelo tempo que insiste em envelhecer tudo. Só não envelhece, e mata de vez, essa esperança idiota que trazemos em cada eleição. Nada contra as esperanças idiotas. Mas sempre tive medo das esperanças alheias. E sempre choro ao afogar as minhas próprias. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 12:40 AM
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