Confraria dos Crônicos

De crônica, não basta a vida!



Comments: Sexta-feira, Setembro 29, 2006

O decreto do dia

É bastante natural que qualquer pessoa defensa a sua atividade profissional. Trata-se de um praxe. Mas falar mal do seu ofício também tem o seu charme fundamental.Fazendo um paralelo bastante safado, posso dizer que o jornalismo político se assemelha à medicina no sentido da ineficácia. Assim como a medicina não evita a morte, o jornalismo político não torna ninguém mais cidadão. Tenho até que tanto a medicina como o jornalismo político prestam grandes desserviços às suas causas. Mas deixem essas divações pra lá, pois não tenho paciência de me aprofundar em nada, muito menos nesse tema.
O dia de ontem foi uma aula de como o jornalismo se presta a determinados papéis pequenos. A imprensa noticiou durante todo o dia que o presidente Lula compareceria ao debate promovido à noite pela Rede Globo. Diversos foram o jornalistas que afirmaravam com todas as letras que Lula compareceria ao debate. Chegaram até a dizer que Lula queriair ao encontro dos seus adversários, que estava se coçando para ir ao confronto direto.
Até que a assessoria de Lula acertou em alguma coisa e aconselhou o presidente a não ir. Ora, Lula teria que ser muito burro para ir a esse debate. Afinal, o presidente passou a campanha inteira afirmando que não iria a qualquer debate. Depois, as pesquisas indicam uma vitória de Lula no próximo domingo. E, por último, e mais importante: Lula seria atacado por três candidatos. Por mais que ele tenha jogo de cintura, não há como escapar sem arranhões de uma briga dessas.
Lula prefiriu ir a São Bernardo (SP) e falar aos seus. Nada mais justo para um presidente em sua situação. Ao menos a autoridade dos supostos formadores de opinião foi abalada, o que é um ganho para toda a sociedade. Quando um jornalista quebra a cara, a sociedade sempre melhora. Incrível...
Só com muita inocência e, o que é mais grave, com bastante segurança (sem falar de um provável troco) é que alguém pode afirmar que um presidente atolado em escândalos vai a um debate na maior emissora de TV do país. Mas eu ainda prefiro achar que os jornalistas são burros a dizer que eles são desonestos. Antes a burrice, antes a burrice.
Não me recordo de uma única voz contra a idéia de Lula ir a esse debate. Aliás, com olhos de editor, vejo que esse era um assunto muito besta. Perdemos um dia nessa possibilidade, enquanto a vida teimava em arder lá fora das redações. A questão era apenas dar um pequenina nota e aguardar o bendito debate. Enquanto isso, poderíamos fazer um levantamento sobre quanto as pessoas que carregam faixas e bandeiras de candidatos nos sinais de trânsito ganham. Ou se, com a Lei Seca, os bares e distribuidoras de bebidas lucram mais ou menos em dia de eleição.
Enfim, tínhamos o dia. E o perdemos em notícias plantadas sem o menor pudor. No entanto, algumas lições ficam. A lição de que a rapidez dos blogs políticos em se adiantar aos fatos devem ser vistas com bastante cuidado. Que o domingo pode ser um dia festivo, mas que a segunda-feira posterior às eleições será de cinzas. E que o dia que sempre arde jamais poderá ficar a espera de uma confirmação presidencial.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 1:13 AM


Comments: Quinta-feira, Setembro 28, 2006

A digestão do escândalo

Há menos de duas semanas, a eleição presidencial estava mais do que monótona. Estava insuportável. O tédio reinava absoluto na disputa ao Planalto. O presidente Lula apresentava uma vantagem irredutível e, para agravar o quadro, a lei eleitoral resolveu proibir a campanha nas ruas, responsável pela alegria dissumulada do período e por uma distribuição de renda mais eficiente em nosso país.
De repente, dois petistas foram presos num hotel em São Paulo com R$ 1,7 milhão. O dinheiro seria utilizado para a compra de um dossiê contra os candidatos do PSDB ao governo de São Paulo, José Serra, e à Presidência da República, Geraldo Alckmin. Fotografias, uma agenda e uma fita de vídeo comprovariam a ligação dos tucanos com parlamentares sanguessugas. Com a prisão dos petistas Gedimar Passos e Valdebran Padilha, o cenário eleitoral sofreu uma mudança que promete ser significativa.
O caso da compra do dossiê provocou a queda do coordenador da campanha do presidente Lula à reeleição, Ricardo Berzoini; do assessor especial da Presidência da República, Freud Godoy; do diretor de Gestão e Risco do Banco do Brasil, Expedito Veloso; do analista de risco e mídia da campanha de Lula, também conhecido como o churrasqueiro favorito do presidente, Jorge Lorenzetti; do responsável pelo capítulo de Trabalho e Emprego do programa de governo de Lula, Oswaldo Bargas; do coordenador da campanha do petista Aloizio Mercadante ao governo de São Paulo, Hamilton Lacerda; etc.
Ora, se tanta gente ligada ao presidente da República cai de uma hora para outra numa reta final de campanha eleitoral, é bastante razoável que se espere que o episódio em questão traga alterações no panorama das eleições. Apesar de nebuloso, e de não ter ainda sido completamente compreendido, o caso da compra do dossiê contra candidatos tucanos pode levar a disputa para o segundo turno das eleições.
Quem diz isso é o professor de ciências políticas da Universidade de Brasília, Paulo Kramer. Contrariando um conselho que lhe foi dado pelo ex-vice presidente Marco Maciel, no qual a previsão política deveria ser apenas sobre o passado, Paulo Kramer afirma que teremos segundo turno nessa eleição que está polarizada, de uma maneira simplificada, entre a indignação ética e o Bolsa Família.
De acordo com Kramer, dos 123 milhões de eleitores brasileiros, 7 milhões ganham acima de dez salários mínimos, 15 milhões ganham entre cinco e dez salários mínimos e 101 milhões ganham abaixo de cinco salários mínimos. Esse diagnóstico revela, entre outras coisas, que a imensa maioria do eleitorado brasileiro tem dificuldade de acesso à informação.
Nesse contexto, ganha especial importância a figura do vizinho, do parente, do amigo ou do colega de trabalho que por um motivo ou outro é tido como conhecedor de política. A opinião do eleitorado brasileiro depende, e muito, desse sujeito que traduz o noticiário político para os que não entendem muito bem o que um deputado federal faz num tal de Congresso Nacional.
O cientista político Lúcio Rennó, ex-aluno de Paulo Krammer, atualmente é professor da Universidade do Arizona e realizou uma pesquisa sobre o papel da conversa na decisão do eleitorado brasileiro. Rennó acompanhou o mesmo grupo de eleitores durante as eleições de 2002 e pôde verificar, por exemplo, como se deu a queda da chamada "Onda Ciro Gomes". O então candidato do PSDB ao Planalto, José Serra, iniciou uma série de investidas contra a candidatura de Ciro Gomes, que na ocasião encontrava-se no segundo lugar nas pesquisas de intenção de voto.
Serra afirmava em sua propaganda que o temperamento de Ciro Gomes era explosivo, conduta que não condiz com a figura de um presidente da República. Resultado: o tucano passou para a vice-liderança das pesquisas. A mudança de opinião do eleitorado foi registrada na pesquisa de Rennó. E as conversas informais a respeito de política foram mais do que decisivas no abandono da candidatura de Ciro Gomes na ocasião.
Em relação ao caso da compra do dossiê contra os tucanos, muda coisa ainda precisa ser esclarecida. A digestão de mais esse escândalo ainda não foi feita. No entanto, é certo que as baixas na campanha do presidente Lula refletirão nas conversas de mesa de bar, de corredor de repartição, de sala de aula, entre amantes, credores, desafetos e terreiros. O tucano Geraldo Alckmin, confiante de que o escândalo faça com que a eleição seja decidida no segundo turno, já agendou um debate na TV Bandeirantes para o dia 8 de outubro, uma semana depois do primeiro turno das eleições.
O segundo turno nessas eleições já não é mais um cenário improvável. Até o próprio presidente Lula já admite em público essa possibilidade. O certo é que aquela conversa despretensiosa e supostamente inocente a respeito de política ajuda a imensa maioria do eleitorado brasileiro a tomar a sua decisão e tem um impacto muito maior do que imaginávamos.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 12:42 AM


Comments: Quarta-feira, Setembro 27, 2006

A democracia dos culpados

Os candidatos ao governo dos Estados, e do Distrito Federal, entraram numa série de debates pelo país afora. A conversa mole entrou pela madrugada de hoje e, por força da minha profissão, e também por uma mórbida admiração a esse tipo de coisa, eu me presto a acompanhar o que os políticos conversam até essas horas.
Acompanhei o debate aos candidatos ao governo do Distrito Federal e confesso que a eleição por aqui está mais do que chata. O candidato do PFL, José Roberto Arruda, aquele que enquanto era senador violou junto com ACM o painel do Senado, é o franco favorito a comandar o orçamento colossal desse pedaço de terra no centro do país.
Brasília tem lá os seus encantos. O maior deles, na minha opinião, é o tédio. Mas para a grande maioria das outras pessoas, o que faz de Brasília um local interessante é a oportunidade de trabalho. Sempre procuro me convencer de que a política é uma espécie de teatro, de arte cénica, de modelo de interpretação. Somente assim consigo encarar a minha profissão, que é a de falar sobre o esgoto patrício.
Bom, ao debate. Debate entre candidatos deve ter ataques de ordem pessoal, apresentação de dossiês, testemunhas de atos ilícitos, choro, puxões de cabelo e dinheiro. Bastante dinheiro para as câmeras. Esse tipo de debate civilizado, e chato, faz com que somente os que não têm que acordar cedo permaneçam diante do aparelho de TV.
O meu caso é um pouco mais triste, um pouco mais melancólico até. Sou uma espécie de jornalista político, que mora em Brasília, que cobre esse tipo de informação tão boba. A política é a área desnecessária... Fico até tarde, para cobrir um debate sem sal, engessado, artificial. E tenho que acordar daqui a pouco. Um bom debate entre candidatos a qualquer cargo público deve ter penas voando. É disso que o povo gosta.
É isso que o povo entende.
Mas ao menos existe a vantagem de que agora todos são culpados e todos declaram a inocência. A subida do PT ao governo fez com que o último virgem deixasse de existir no cenário político nacional. Agora, todos são rodados. E todos são completamente inocentes. Eis uma verdadeira democracia que verificamos na atualidade: a democracia dos culpados. Todos têm a horrível culpa de aspirar ao poder.
Debate interessante aconteceu em Minas Gerais. Somente um candidato compareceu: Nilmário Miranda. Se não me engano, ele era ex-secretário de Direitos Humanos do governo Lula. Os telespectadores mineiros adormeceram de maneira mais calma do que em outros Estados.
Se o debate é bom, qualquer esforço vale à pena. Se o debate é cheio de regras e auxiliado por um matemático, a coisa adquire ares de chatice. E o sono é a melhor das opções, sem a menor das dúvidas, para os sem opções .

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 2:54 AM


Comments: Terça-feira, Setembro 26, 2006

Os demônios

Lula, num comício no último domingo, se comparou a Jesus Cristo. De acordo com o nosso presidente, ele, assim como o filho de Javé, foi traído. Diferente de Cristo, que foi beijado por Judas, Lula foi traído por Berzoini, que segundo o próprio presidente arquitetou a história da compra do dossiê contra candidatos do PSDB. O ex-presidente Fernando Henrique disse que Lula é o, abre aspas, demônio, fecha aspas.
Convém aqui esclarecer que as eleições no Brasil têm a grande função de promover o lazer à uma população economicamente massacrada e impotente. Já que não existe qualquer investimento decente na área de geração de emprego e no próprio lazer do nosso povo, a troca de farpas entre políticos já serve para nos distrair.
Essa história de Cristo, Judas, demônio, etc, serve para trazer à tona uma das obras do escritor russo Fiódor Dostoiévski. Nelson Rodrigues, que aos 13 anos já tinha lido toda a obra de Dostoiévski, afirmava que esse era o autor a ser lido, a ser devorado, a ser vivido em forma de leitura.
Em seu romance que dá nome a esse texto ínfimo, o escritor faz a anatomia ficcional do fanatismo ideológico, segundo um texto que se encontra no site da revista Veja. O fanatismo ideológico que sempre foi capaz de nos deixar tão burros quanto conseguimos ser. Se ao menos ainda existisse alguma ideologia a ser seguida, talvez o fanatismo fosse merecedor de sonhos. Mas não há mais qualquer coisa palpável no campo das idéias. Nenhum pensamento pesa mais nada...
Se ainda precisássemos de idéias, quem sabe o inferno seria o agora; esse tempo que não mais exige a análise, a profundidade, a decência. Mas não é privilégio desse nosso tempo viver num mundo onde as idéias morreram. Vários foram os grandes homens que caminharam a maior parte de suas vidas por entre escombros de ideologiais e de certezas. Quem sabe, o que nos diferencia desse passado é que hoje o patrimônio intelectual de séculos não é mais bem vindo.
Confesso que ainda tenho que evoluir muito para ler alguns livros. Um deles está na minha frente agora. Também de Dostoiévski. Sempre ensaio a possibilidade de ler as memórias do subsolo desse escritor essencial. Mas sempre existe algo que não me deixa prosseguir. Talvez eu não mereça, por ser um representante caricato desse tempo, saber o que as páginas desse livro me reservam.
O que me assusta, quando falo a respeito de demônios, do nosso tempo, da nossa política e da nossa condição, é que tudo está intimamente relacionado. Puxei um pouco de fôlego e iria escrever a respeito da covardia intelectual na nossa imprensa a respeito da obrigatoriedade do voto. Também iria defender o voto nulo com o ar que sobrasse dessa ira.
Mas penso nas pessoas que se vestem com a melhor roupa que possuem, e com o corpo encharcado de lavanda se dirigem às urnas com a esperança de melhores períodos para suas vidas. É uma verdadeira pena que tanta esperança sincera seja desperdiçada com a política partidária do Brasil.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 2:03 AM


Comments: Segunda-feira, Setembro 25, 2006

Misericórdia eleitoral

O discurso da campanha do presidente Lula mudou. Aliás, muita coisa mudou na campanha do presidente Lula. Saiu o coordenador da campanha, saiu o analista de risco e mídia e saiu até um sujeito que ajudou a escrever o programa de governo do nosso presidente para um novo mandato. Se antes o PT estava cheio de si, com a mais cristalina certeza de que Lula venceria no primeiro turno; agora o cenário é outro.
Quem condena a mudança de discurso, principalmente a mudança repentina de discurso, deve ser visto com muito cuidado. Há perigo na coerência e na ausência de dúvidas. Dizem os mais sábios que o pior dos infernos é o da coerência infinita e o da sabedoria absoluta. Somente quem já se desviou dos caminhos bem traçados é capaz de entender a alegria da retomada das rotas seguras.
A propaganda do PT agora pede, com todo o carinho que é possível a um governo pedir algo ao seu povo, que no dia da eleição o sujeito se desloque à urna e digite os números da sorte de Zagallo. Com diversos rostos sofridos, rostos brasileiros legítimos, a propaganda mostra eleitores convictos do voto em Lula como garantia de uma amanhã sorridente para essa pátria. Ah, a propaganda... Se antes a certeza jorrava dos olhos dos petistas, se antes existia até um certo tédio na campanha, hoje todos trabalham com a possibilidade de um segundo turno. Geraldo Alckmin já agendou, inclusive, debate para o segundo turno em uma emissora de TV.
No entanto, uma disputa entre PT e PSDB não significa uma disputa polarizada em termos de conduta governamental. A polarização de uma disputa entre PT e PSDB está apenas no seguinte ponto: qual grupo paulista irá assumir o Planalto. Nada mais do que isso. PT e PSDB são partidos irmãos, com uma conduta de governo muito parecida, e que praticam a ortodoxia econômica de uma forma bastante semelhante.
Mas esse clima de disputa é, inegavelmente, emocionante. Uma disputa que ganha cobertura na imprensa, qualquer que seja, é envolvente. Se a briga for pelo controle do Estado, tudo adquire ares de instante histórico. No entanto, é necessário minimizar o nosso papel de agente tranformador da sociedade. Com a nossa história, com os nossos dados de crescimento econômico, educação, segurança e desemprego; constatamos que o voto não serve para muita coisa além de legitimizar o que vemos atualmente.
A campanha eleitoral desse ano foi bastante enfadonha pelo excesso de favoritismo do presidente Lula durante grande parte do período e, principalmente, porque não era possível fazer a poluição visual e sonora - responsável diretamente por milhares de empregos no período - que tanto encanta a grande maioria do nosso povo.
Na verdade, é sempre bom assistir a um governo implorar a seu povo que lhe dê um voto de confiança. No caso do governo Lula, a súplica pelo voto é especialmente interessante por dois aspectos. O primeiro é que, diferente de pouco tempo atrás, existe o pedido escancarado de voto. O segundo é que o governo Lula, apesar dos pesares, ainda é governo.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 2:01 AM


Comments: Sexta-feira, Setembro 22, 2006

Garcia e Mello

A imprensa também serve para a comunicação. Quando isso é dito assim, logo na primeira frase de um texto, pode parecer uma pose estilística. Não deixa de ser, é bem verdade, mas nesse caso em particular existe uma verdade mais do que escandalosa. Tudo porque o processo de comunicação exige que emissor e receptor consigam interagir. No caso da imprensa, a emissão é exponencialmente maior do que a recepção. Não sei se me faço entender. Pro diabo...
Teorias da comunicação à parte, o fato é que o episódio mais interessante dessa quinta-feira foi a conversa que o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Marco Aurélio Mello, manteve com o mais novo coordenador da campanha do presidente Lula à reeleição, Marco Aurélio Garcia.
Marco Aurélio Garcia, até a quarta-feira, era apenas o assessor especial da presidência da República para assuntos internacionais. O presidente nacional do PT, e agora ex-coordenador da campanha de Lula ao Planalto, Ricardo Berzoini, se envolveu no que não devia (compra de um dossiê que envolvia candidatos do PSDB com parlamentares sanguessugas) e sobrou para o discreto Garcia tocar esse bonde até o primeiro de outubro.
Na manhã de ontem, Marco Aurélio Mello afirmou que o caso da compra de dossiês era muito mais grave do o caso Watergate, responsável pela queda do presidente americano Richard Nixon em 1974. Não sei em qual contexto essa declaração foi feita, mas estou de acordo com o ministro do TSE. Não só a compra de dossiês, mas o mensalão, os sanguessugas, o Waldomiro, os 4 milhões de reais que o filho de Lula recebeu da Telemar, etc, etc, etc.
Quando Marco Aurélio Garcia soube dessa declaração do presidente do TSE, afirmou que não cabia ao presidente de um tribunal fazer esse tipo de comparação. Pode-se dizer que Garcia ficou irritado com a comparação. Oportuna comparação... Para que o filme do tribunal não ficasse queimado nessa conversa, lá vai o presidente do TSE falar mais uma vez, já na parte da tarde, a respeito de sua declaração.
Marco Aurélio Mello disse, entre outras coisas, que foi mal compreendido, que não pediria desculpas mas que estaria disposto a receber o agora coordenador da campanha do presidente Lula para uma conversa. E tudo isso feito através da imprensa, essa senhora maltrada, que geralmente é cuspida por onde passa, e que carrega consigo o vício de existir, apesar de ser o que é.
Marco Aurélio Garcia e Marco Aurélio Mello protagonizaram o episódio mais emblemático de uma quinta-feira, de uma semana devastadora para qualquer presidente. Uma semana na qual o coordenador da campanha do presidente da República à reeleição caiu. Uma semana na qual um assessor especial da Presidência da República caiu. Um semana na qual o diretor de Risco e Gestão do Banco do Brasil caiu. Além de mais uns dois ou três que também caíram.
Todos podem cair. Não interessa... O que importa é que a platéia não verá a queda de quem mais merece chegar ao chão. E já que a queda não chegará, ao menos existe esse atrito entre os Marcos para que uma quinta-feira, que insiste em permanecer com o mesmo presidente, se torne mais animada.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 2:04 AM


Comments: Quinta-feira, Setembro 21, 2006

Menos o PT

A história do dossiê contra Serra e Alckmin derrubou, até agora, o coordenador da campanha do presidente Lula, o diretor de Gestão e Risco do Banco do Brasil, o coordenador de comunicação da campanha do PT ao governo de São Paulo, um assessor especial da Presidência da República e o analista de informação da campanha de Lula. Acho que só...
O tema de hoje deveria ser a queda de Berzoini. Mas não vou falar sobre esse homem marcado pela fatalidade em suas ações. Quando ministro do Trabalho, Berzoini colocou idosos em filas intermináveis. Agora, coordenador da campanha de Lula, se envolve num procedimento pouco responsável. Não sei de quem foi a idéia de colocá-lo nesse posto. Mas esse alguém também deveria ser afastado.
A queda de Berzoini chega a ser irritante, chega a ser humilhante para quem apenas observa a queda de todas as pessoas envolvidas diretamente com o presidente da República, enquanto que o portador da faixa presidencial se esconde atrás de um argumento ignorante. Ou melhor, a ignorância é o seu argumento.
Lula fica visivelmente transtornado quando sugerem que um torneiro mecânico não deveria comandar um país. Lula sabe usar melhor do que ninguém a sua condição de torneiro mecânico para dizer que não sabia de nada do que se passa ao seu redor. Esse governo, mais do que qualquer outro, é capaz de produzir escândalos colossais, escândalos capazes de abalar estruturas seculares. Contudo, como uma fábrica frenética, a produção de escândalos é contínua e uma história que surge hoje, morre amanhã, sufocada por outra ainda pior.
Acabo de assistir ao Jornal do SBT com Carlos Nascimento. Uma reportagem do telejornal me assustou, ao ponto de pensar que finalmente o fundo do poço havia sido tocado. Mas o fundo do nosso poço não existe. Sempre seremos capazes de piorar, e em relação a isso não pode existir dúvida. O Jornal do SBT mostrou uma reportagem que denuncia uma conversa entre presos de São Paulo. Os presos de lá pretendem organizar ataques durante as eleições. Vão caçar, além de agentes penitenciários, membros de todos os partidos políticos. Com exceção do PT. Essa era a ordem.
Cláudio Lembo, político do PFL, governador de São Paulo, disse que não poderia afirmar com todas as letras que São Paulo estaria livre de ataques criminosos durante as eleições. Cláudio Lembo é um grande homem. Se a executiva nacional do PFl tiver visão de futuro, indicará Lembo como candidato do partido ao Planalto em 2010.
Voltemos aos ataques criminosos, combinados por telefone celular dentro de presídios. O que pode ser dito diante de uma situação dessas? Raro é o dia em que mais personagens dessa trama criminosa não são apresentados ao público, que perdeu as esperanças de assistir a um desfecho. E eu, que admiro a tragédia e a desilusão, que cultivo com todo o carinho um pouco do fel da vida, estou mais do que convencido de que acabou. O Brasil já era. Resta apenas enterrar. E depressa, porque o cheiro está insuportável.
Morremos, diariamente, enquanto país.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 1:27 AM


Comments: Quarta-feira, Setembro 20, 2006

O mais triste dos domingos

É estranho ficar íntimo de um tribunal. Pois esse é o meu caso. Estou íntimo do TSE. Para quem ainda não sabe, o TSE é o Tribunal Supeiror Eleitoral, que fica em Brasília, capital do nosso país. Nessa época eleitoral, ocorre um monte de coisas por lá. Por exemplo, as coligações vivem protocolando um monte de papéis para que as coligações adversárias percam tempo no horário do rádio e da TV.
O TSE também julga se um sujeito pode ou não ser candidato a algum cargo público. De vez em quando o TSE não deixa que alguém possa se candidatar, daí dizemos que a candidatura foi impugnada. Quando a candidatura já existe, e por alguma razão ela possa deixar de existir, dizemos que a candidatura será cassada. Há por aí em algumas redações perdidas desse Brasil de meu Deus, um ou outro sujeito preocupado com o real significado das palavras.
Não é esse o meu caso. Na verdade, nem sei bem se precisamos dessa quantidade de informação que recebemos. Mas já que a coisa assim está, que permaneça dessa forma. Contudo, ainda guardo a nostalgia das vilas escaldantes com suas gazetas de sábado. A pequena cidade aguarda esse dia para saber os verdadeiros e reais fatos marcantes na vida de todos por ali. Antigamente, o editor de toda gazeta de cidade afastada era o padre, ou ao menos deveria ser.
Voltemos ao TSE. O tribunal vai investigar a participação do presidente Lula no caso do dossiê que seria utilizado contra políticos do PSDB. A coisa promete esquentar, mas é bom que tenhamos a noção de que não existe fato ou acontecimento capaz de tirar essa eleição do presidente Lula. Infelizmente, Lula vai levar o segundo mandato no primeiro turno. Diante de tudo o que já foi dito e escrito, analisado e discutido a respeito dos crimes cometidos por dezenas de pessoa ligadas a partidos políticos; fica a mágoa maior de ter que votar num domingo.
O domingo é um dia reservado a muitas tristezas. O primeiro de outubro vindouro o será ainda mais porque estamos incentivando um sistema político que mostra há no mínimo 17 anos que é falho. Daí alguns vem com a conversa de aprimoramento da democracia a cada eleição. Aprimorar a democracia a cada eleição, nesse sistema em que estamos, é a mesma coisa que aprimorar a virgindade em casas de reputação duvidosa.
Bom, o TSE vai investigar Lula, o ministro da Justiça, o presidente do PT, e outras pessoas que por estão nesse mar nebuloso que é a política no Brasil. Ao menos fica uma pontinha de esperança, pequenina que seja, que alguém dessa vez será punido. É que estamos esquecidos do Waldomiro Diniz, do Marcos Valério, e de tantos e tantos outros que bailam nos salões da mais pura liberdade sem nenhum incômodo que seja.
Íntimo que estou do tribunal, posso até arriscar a fazer uma previsão. Depois de muito raciocínio e de muita pesquisa, posso afirmar que nada vai acontecer a seu ninguém. E o que é pior: votaremos num dia de domingo. Um dia que deveria ser reservado a outras coisas mais nobres, como ouvir um canto de cigarra que se alonga pelas tardes desse dia, e que foram imortalizados nas linhas de Rubem Braga.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 1:55 AM


Comments: Terça-feira, Setembro 19, 2006

A glória torta

A segunda-feira dessa semana foi mais cruel do que a maioria das segundas que encontramos por aí. Foi agitada, trouxe atropelos brutais aos que, assim como eu, apenas desejavam ver esse dia morrer o quanto antes, para chegar de maneira veloz ao reino das cobertas e sonhar depressa. Com sorte, sonhar que tudo isso não está acontecendo.
O Tribunal Supeiror Eleitoral está com seus telefones grampeados, um assessor especial da Presidência da República é acusado de tentar comprar um dossiê contra candidatos de um partido da oposição, o presidente da República se diz triste por não ter o voto dos mais ricos, quando as empresas brasileiras lucraram mais do que os bancos (na visão do presidente).
Em um jantar com empresários na residência do ministro do Desenvolvimento, jantar esse que ocorreu na semana passada, o presidente Lula afirmou que o Brasil não crescia a uma taxa de 10% ao ano, índice chinês de crescimento, porque aqui existia um Congresso Nacional. Na China, na visão de Lula, a coisa é mais fácil porque não há as centenas de parlamentares que encontramos por aqui.
Depois de afimar isso, Lula também citou o célebre Ulysses Guimarães e mandou aquele velho remendo: ruim com os políticos, pior sem eles. Cristovam Buarque, candidato ao Planalto pelo PDT, vive dizendo que se Lula for eleito, o Executivo passará por cima do Congresso e convocará um plebiscito sobre a possibilidade de um terceiro mandato. Alguns vão dizer que esse é um golpe velado. É possível, é possível...
Contudo, cabe aqui um registro que merece ser analisado. O pai de um grande e recente amigo chegou a dizer que só votaria no presidente Lula se ele chegasse ao povo e prometesse que fecharia o Congresso Nacional. Se Lula garantisse que o Congresso não funcionaria mais em um segundo mandato, o pai desse meu amigo garante que consegue, por dia, mais dois votos para o presidente.
Com a quantidade de Medidas Provisórias que inundam o Parlamento, é razoável pensar na existência de um Congresso. O Legislativo não cria leis. Sua verdadeira função é um dos grandes mistérios dessa pátria. Ah, a beleza de se passar a vida inteira sem ter a preocupação de entender a trindade do fracasso.
Quando vi que o deputado Fernando Gabeira (PV-RJ) foi capa da revista Veja no último domingo, fiquei abismado. Gabeira, tido como exemplo maior de ética, num parlamento corroído, devastado, destruído e desmoralizado por sucessivos escândalos de corrupção. Nesse cenário dantesco que é o Congresso Nacional de hoje, não é nenhuma honra se destacar como exemplo de ética. Queria ver nos bons tempos de Pinheiro Machado...
Saramago já deu a dica e cabe fazer uma reflexão: será que chegamos ao ideal que podemos chegar enquanto sociedade organizada? O sistema que conhecemos produziu esses escândalos que cansam. Afinal, todo dia é dia de escândalo, e o sistema que conhecemos produziu grampos, dossiês, Vedoins, Inácios, etc...
O sistema que conhecemos elegeu Gabeira um exemplo.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 1:40 AM


Comments: Segunda-feira, Setembro 18, 2006

Escadas

Em relação ao noticiário político brasileiro, podemos dizer que o noticiário não é político. Ou que o noticiário é político até demais. Não sei bem. O fato é que o noticiário é político e policial ao mesmo tempo. E não há como saber quando a política entra e quando a polícia sai. Na atualidade patrícia, as editorias de política e polícia deveriam ser unir. E assim, definitivamente unidas, poderiam fazer com que a boa população brasileira fosse capaz de entender o que se passa quando o tema é política.
O candidato à Presidência da República pelo PDT, Cristovam Buarque, sujeito que considero enfadonho, é capaz de produzir dezenas de raciocínios intrigantes. Certa vez, Cristovam, durante uma palestra promovida pelo Estadão, perguntou por que quando alguém que rouba uma carteira é logo chamado de ladrão; e quando alguém desvia milhões dos recursos públicos é taxado de corrupto. Qual seria o critério para se escolher entre ladrão e corrupto? A resposta, apesar de simples, é árdua para ser dita.
Não serei eu quem vai responder a esse tipo de questionamento, até porque tenho lá as minhas dúvidas que teimam em apenas crescer. Mas o crescimento das dúvidas não é devido à sapiência. Antes fosse... O caso é de completa falta de estrutura emcional para entender as razões pelas quais teimamos em exigir determinadas coisas para o nosso Brasil.
Nada pode ser mais chato, mais enfadonho, mais deprimente para o eleitor do que uma eleição sem ataques pessoais e sem dossiês fabricados para prejuízo de quem quer que seja. O povo, nessa hora eleitor, exige determinados atrativos para que a disputa política se torne mais interessante. E essa eleição em especial, que está mais chata do que uma vasta e secular coleção de selos, precisa desse tipo de tempero.
A família Vedoin, que é dona de uma empresa chamada Planam, e que vendeu algumas ambulâncias a governos desse Brasil de meu Deus, acusa o ex-ministro da Saúde do governo Fernando Henrique Cardoso de participar de uma esquema de corrupção gigantesco. Serra é tido como o provável vencedor da eleição para o governo do Estado de São Paulo. Serra é do PSDB.
Falam por aí que as fotos onde Serra e Alckmin aparecem com sanguessugas, perto de ambulâncias ou sei lá o quê, seriam compradas pelos petistas paulistas. Falam, falam, falam... Só não falam que essa pseudo-rivalidade entre PT e PSDB, rivalidade na qual um elabora dossiês contra o outro, não representa um conflito real no sentido de haver inimigos em campo. PT e PSDB não são inimgos. São, no máximo, namoradinhos que brigam com mais freqüência.
Essa polarização entre os paulistas não deve ser entendida pelo restante do país como um conflito. Petistas e tucanos não podem viver um ser o outro. Um é a escada do outro para o alcance dos holofotes.
Escada, em teatro, é aquele sujeito que um ator se utiliza para se destacar. Geralmente, ataca-o com violência, humilha-o de forma implacável, para que dessa forma consiga a atenção do público. A política partidária, que funciona da mesma forma que o teatro, é desse jeito. Quem não é escada agora, será amanhã. E todos serão escadas. Só não pode deixar de existir as escadas. Assim, sem ataques, o público vai embora. E o palco da política perderia o sentido.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 12:52 AM


Comments: Sexta-feira, Setembro 15, 2006

Um embargo branco seria pior

A briga entre o governo da Bolívia e a Petrobras apresenta muito mais do que uma simples disputa entre uma estatal de excelência e um governo recém eleito que promete o céu na terra a um povo massacrado pela história. Está bem claro que o presidente Lula não é o líder mundial que sempre desejou ser. Está bastante evidente que Lula, mesmo endurecendo o discurso agora, perdeu, muito, com mais esse episódio lamentável entre Evo Morales e Petrobras.
A nacionalização das refinarias de petróleo da Petrobras em território boliviano é entendida como suicídio econômico para os analistas mais imediatos. Isso porque existe uma verdadeira cartilha que reprova toda e qualquer rebeldia em relação ao cumprimento de contratos internacionais. Quando se imagina em questionar qualquer um desses contratos, o mercado e os governos tremem. Apenas tremem e torcem para que todos aceitem de boa fé esse dogma.
O fato é que o governo da Bolívia faz o que bem entende com os interesses brasileiros nesse país. Tomamos prejuízo, e muito, e a coisa fica por isso mesmo, sem maiores necessidades de explicações desgastantes. O presidente do Brasil trata essa questão de soberania dos interesses brasileiros como uma simples questão de sindicato.
O povo boliviano merece todo o respeito que a o universo consiga produzir, mas se o Brasil não consegue fazer a Bolícia respeitá-lo, não temos nenhuma chance com o verdadeiro mercado mundial. Se o Brasil não consegue se impor diante dessa questão, é melhor que alguns procedimentos sejam repensados.
A ALCA, o terror dos esquerdistas, poderia até ser uma boa idéia. Quem sabe? Ruim é ter que investir bilhões num país para que o governo local, de uma hora para outra, acabe com a brincadeira de explorar petróleo. A grande questão sobre a ALCA é apenas uma: se trouxer dinheiro à classe média, será boa. Até porque dizem que a classe média de um país carrega o fardo de ser a formadora de opinião.
Essa simplicidade de raciocício tem lá a sua razão. Além do dinheiro ser a coisa mais preciosa que o ser humano já conseguiu inventar, quando a classe média de país tem dinheiro, tudo muda. O contexto é absolutamente outro. O Plano Real, que foi a alegria da classe média, deve demorar a se repetir no Brasil. Até lá, o empobrecimento da classe média brasileira será constante.
Essa questão da Bolívia encheu a paciência. Não tenho fôlego para assistir a essa disputa menor, desses dois chefes de Estado. Prefiro ver a ALCA destruir o nosso último resquício de dignidade. Afinal de contas, dignidade sem dinheiro não é dignidade. Dinheiro sem dignidade continua a ser dinheiro.
Não sei dizer se existe algum estudo a respeito, mas suspeito que o impacto na economia seria muito maior se o governo boliviano fizesse o que está fazendo, em relação ao petróleo, com a cocaína. Daí a tensão seria insuportável. Muita gente se sentiria prejudicada com esse verdadeiro embargo.
Enquanto os bolivianos continuarem a fornecer o que sempre forneceram, dá-se um jeito por aqui. Só não é possível ficar sem esse verdadeiro combustível, que alimenta mundos. E mundos que têm dinheiro. Muito dinheiro. Ou seja, mundos dignos.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 2:35 AM


Comments: Quinta-feira, Setembro 14, 2006

O barulho, a alfafa

Acabo de chegar do Clube do Choro de Brasília. No placo, um dos filhos do inventor do trio elétrico. Casa vazia, o palco ao alcance das mãos, gente ilustre do meio musical. Bebida, muita bebida para que o cansaço fosse suportado. Cansaço de tudo, é bem verdade. Nada que alguns goles de qualquer cerveja vagabunda não resolva. Afinal, a vida insiste em ficar melhor, sempre, depois dos limites rompidos através da bebida.
Porém devo dizer que sou contra a música da Bahia. Sempre que uma música baiana é executado, meu pensamento alcança Villa-Lobos (nem sei se o maestro tinhas o duplo "L", mas que fique grafado dessa forma) ou o Nirvana. Ou um, ou outro. Sei que o problema é somente meu e de mais ninguém. Sei que o defeituoso sou eu, que o estranho sou eu, que o canhoto sou eu. Sei disso mais do que ninguém.
Contudo, detesto a música baiana. E se me é permitida outra declaração, acho que Raul Seixas sempre nos salvará. É engraçado falar mal da música baiana ordinária, sendo uma espécie de propagador da tristeza no ambiente, quando a Bahia forneceu um ou outro sujeito fundamental para esse país.
A música baiana é ruim de doer, e essa é uma opinião da qual não procuro convencer ninguém. Enquanto uma música feita em Salvador é executada em qualquer lugar, brigo com Deus. Pergunto para ele a razão de não ter nascido em um salão austríaco ou em uma praça francesa. Sei que quem é capaz de entender essa língua falida, que é a língua portuguesa, ficará um pouco triste comigo, mas procuro exercer a sinceridade.
Não gosto de ser brasileiro. Na verdade, tenho muita vergonha de sê-lo, até porque passei 3 meses no Canadá e pude verificar o que os desabrigados daquele país são. Se dependesse da minha vontade, trocaria a minha nacionalidade amanhã mesmo. Topava até ser boliviano, afinal eles são homens o suficiente para enfrentar esse governo que aí está. O que não é muita coisa, mas já é algo.
Contudo, o governo passado também foi vergonhoso. Aliás, qual foi o governo brasileiro, nos últimos trinta anos, que não foi um completo desastre?
Deveríamos abraçar a nossa eterna parceira, a vergonha de pertencer a esse país, e declararmos que sentimos muito pelo fato de pertencer à essa republiqueta. Um simples exercício de honestidade. Daí, seríamos poupados de ouvir música baiana em fevereiro. Em um país, um país, teríamos violinos, lareiras, vinhos, e principalmente, dinheiro.
Dinheiro significa dignidade. Seríamos dignos, na neve, sem maiores problemas com tumultos e barulhos. Teríamos saudade daqui, é bem verdade, mas depois de alguns milhares de euros na conta, tudo muda, tudo passa. Inclusive essa mania idiota de defender esse país que sempre esteve falido.
Vamos entregar as nossas mulheres e implorar pelo sorriso dos estrangeiros. E, se Deus permitir alguma dignidade, sem música baiana.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 2:27 AM


Comments: Quarta-feira, Setembro 13, 2006

Três anos de Confraria dos Crônicos e um mundo a ser escrito.

postado por: RODOLFO TORRES 12:53 AM


Comments: Terça-feira, Setembro 12, 2006

A dança do nosso futuro

A análise de qualquer cenário político é, na melhor das hipóteses, e utilizando-se da honestidade, um exercício deslavado de futurologia. Não que eu considere a vidência como algo menor. Muito pelo contrário. Tenho que a previsão do futuro, sendo o cenário nebuloso, é a verdadeira vocação de diversos profissionais. O analista político é apenas mais um que ganha o seu pão com a sua frágil bola de cristal.
Há poucas horas, li num desses sites jurídicos que o sistema das urnas eletrônicas não é tão seguro assim como pregam por aí. Eu aconselho o povo brasileiro a confiar nesse lacre eleitoral. É mais sadio, principalmente em nossa cultura, imaginar que ninguém violou antes de nós algo tão precioso. Isso nos faz viver melhor e garante um alívio breve ao fim do dia.
Bom, em relação à análise política no Brasil é possível falar muita coisa. O cenário é animado, as personagens são encantadoras, o tédio praticamente inexiste. Tudo isso é verdade. Porém, na análise política no Brasil, apenas as idéias são deixadas de lado. Todo o resto é estudado, menos as idéias.
Exemplo disso é o programa de governo dos candidatos à Presidência da República. Entamos rumo ao terceiro mês de campanha presidencial, e os candidatos ainda prometem apresentar o programa de governo. Isso é de uma plasticidade rara. Mas está certo, está mais do que certo. Seria, inclusive, mais sincero se o dia da eleição chegasse e nenhum programa de governo fosse apresentado. Afinal, a política deixou de ser necessária há bastante tempo.
Quem tem a mínima noção de como as coisas funcionam sabe muito bem a força que a economia tem na condução de qualquer coisa, inclusive na condução de um país. Se a economia vai bem, o resto pode muito se explodir que não fará a mínima falta. Contudo, se a economia vai mal, melhor é mudar rapidamente de rumo, e se possível, de governo.
A questão não é a roubalheira. Longe disso. Corrupção existe até na Dinamarca. Onde existe ser humano, existe corrupção. A diferença está na tolerância, na cultura, na disposição de punir e no cumprimento das leis. A diferença está em muita coisa, menos na corrupção, que existe em todo lugar, mas em diferentes níveis.
Em suma: estamos num país que não é capaz de punir seus corruptos, que está num processo eleitoral sem apresentação de projetos de governo e que tem o mais eficiente sistema de votação eletrônica do planeta. Nem quero aqui falar das históricas misérias, da brutal concentração de renda, além da carga tributária e da taxa de juros.
Some-se a isso o analfabetismo e a falta de projeto de nação. Bom, idéias não temos. Mas somos bons em produzir ambientes que imitam a seriedade, como fazem muito bem os analistas políticos. Falar sobre a política brasileira é falar sobre qualquer coisa, quelquer uma, menos de algo realmente sério.
E com o nosso histórico de Brasil, qual é a razão para ser sério? Qualquer um sabe que, assim como escreveu Bandeira, a solução para o Brasil é tocar apenas e tão somente um tango argentino.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 2:30 AM


Comments: Segunda-feira, Setembro 11, 2006

A Praça da Coruja

Nada como ser alertado a respeito de determinados detalhes da existência pela mulher de sua vida. Isso faz toda a diferença em relação a olhar esse detalhe em questão e ainda carrega em si a delicadeza dos instantes que serão dedicados à composição da eternidade. Sim, o alerta da mulher amada é o cimento que constrói os catelos do infinito.
Há um mês, ou um pouco mais, fui alertado pela minha mulher ideal que tinha como vizinha uma coruja. Na verdade, um casal delas. Para que a informação fique mais completa, tenho que revelar que a paisagem que vejo da minha janela é uma construção imensa de três prédios que servirão para abrigar mais um pouco da solidão dessa capital federal. Antes da vista alcançar a construção, existe um descampado triste e seco.
Quando a panela do feijão grita no vizinho, e o sol está matando lá fora, esse descampado fica ainda mais triste. A poeira costuma dançar com o vento sem umidade quando os caminhões passam de lá para cá nesse terreno, e existe um tronco, também triste e seco, retorcido e velho, que é a casa dessa coruja em questão.
Vez em quando ela grita com alguém que passa mais perto do centro desse terreno, mas em geral ela permanece apenas a observar o movimento da localidade sem maiores preocupações. Seu marido (suponho que seja o seu marido, afinal ela é quem manda no relacionamento) está sempre abaixo dela, que se encontra permanentemente no ápice desse tronco perdido.
Nesse ano em Brasília choveu durante o mês de agosto. O que para muitos é um claro sinal de que o clima no planeta está dando sinais de um apocalipse maduro. Durante as chuvas de agosto de Brasília, a coruja permaneceu fiel ao seu posto. Era dia, chovia, a construção parou, a poeira caiu. Mas a coruja guardou o seu reino, levantando uma asa ou outra quando as penas úmidas assim a forçavam.
E nesse instante, enquanto traço umas poucas linhas dedicadas a esse tema que considero demasiadamente relevante, ou seja, muito importante, a protagonista desse texto está a caçar por entre a madrugada. Deve ir solitária, não sei bem. Provavelmente vai só, como toda criatura da noite. Vai a procura do seu alimento e, depois de encontrá-lo, deve também praticar o amor.
Agora, o tronco retorcido no meio de uma praça que ainda mais parece um terreno baldio está vazio. Os apartamentos dormem, e pouca gente se arrisca a olhar pela janela. Poucas vezes na vida tive tanta certeza das dores da segunda-feira quanto agora. E para ter uma alegria ainda hoje, como um pai aflito aguarda a filha chegar ao lar de um baile qualquer, espero ver a coruja em seu posto antes que o sono me vença.
Só vou dormir sossegado quando tiver a mais plena certeza de que a minha vizinha que grita para os trabalhadores da construção civil está novamente em seu canto. Antes de dormir, abraço o travesseiro com mais força e bato palmas para o alerta da mulher amada. Alerta providencial para que eu me sentisse com um bichinho de estimação. Mulher amada que da janela chama a coruja, que apenas olha sem muita vontade de querer ser amiga.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 1:38 AM


Comments: Sexta-feira, Setembro 08, 2006

Certezas

Toda e qualquer pesquisa de intenção de voto para presidente da República realizada no Brasil dá a vitória do presidente Lula ainda no primeiro turno. Pode ser a que for. Parece que teremos mais quatro anos de Lula pela frente, o que não é de todo mal, é bom que isso fique bastante claro.
Não é de todo mal porque teremos um mandato animado, com diversas investigações sobre corrupção, que continuarão a inundar os noticiários e as conversas de final de expediente, além de um governo que terá extrema dificuldade em compor a maioria no Congresso para que sejam aprovadas medidas de interesse do Planalto. Acrescente o fato de ter partidos como o PFL na oposição. E cá entre nós, o PFL na oposição é mais violento do que o PT quando ainda não estava no governo. A diferença é que o PT latia demais, fazia barulho demais...
Se existe uma certeza nessa eleição é que ela é uma das eleições mais tristes que já foram realizadas. Uma eleição apática, sem brilho, sem alternativas para um país que teima em achar que existe saída para a sua condição. Ora, não se é um Brasil, no mau sentido, por acaso. Para se chegar a esse ponto em que nos encontromos, milhares de barbaridades foram cometidas e estimuladas.
A arrecadação da campanha do presidente Lula cresceu, apenas no mês de agosto, quase que 300%. Passou de 5 milhões de reais no início do mês para 22 milhões de reais ao final da oitava folha do calendário. E se existe uma regra muito bem definida e muito bem regulamentada é a regra da trajetória do dinheiro numa campanha eleitoral.
Numa campanha presidencial, não existe ideologia, nem partido, nem legenda. Existe apenas o interesse. A máquina pública no Brasil é uma fábrica de privilégios e de - como não poderia deixar de ser com a nossa monstruosa carga tributária - dinheiro. A política no Brasil é uma profissão. Diria até mais: no Brasil a política é um carma.
Não é fácil, nem simples, ter dinheiro num país como o Brasil. Não é fácil conseguir, nem ao menos desfrutar de algum trocado nessa republiqueta que já foi o ideal de paraíso para a geração passada, e agora representa o inferno para a atual geração. Enquanto poucos podem desfrutar das maravilhas do dinheiro, que compra até amor verdadeiro na visão de Nelson Rodrigues; ao redor dezenas de pessoas não possuem condições financeiras de consumo.
Nos dias de hoje, e de forma explícita, o grau de humanidade de um indivíduo é medido pelo dinheiro. Se o dinheiro existe, a pessoa também existe. Caso contrário, é melhor apelar para as declarações constitucionais e rezar para que alguém caia nessa conversa besta. O dinheiro não erra de direção quase nunca. O dinheiro jamais, em momento algum, erra de direção numa eleição presidencial.
Se o dinheiro está brotando na campanha do atual presidente Lula, tenham a mais nítida certeza de que a eleição está definida. Contudo, a imprensa brasileira pouco falou do crescimento de 300% no mês de agosto na arrecadação da campanha de Lula. Assim como a imprensa pouco fala sobre os lucros dos bancos no país. E ninguém falou de forma direta sobre doações de bancos à campanha do presidente Lula.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 2:30 AM


Comments: Quinta-feira, Setembro 07, 2006

Perdoe-me Nelson

Não sei se posso dizer que sinto uma ternura (ternura escondida, é válido ressaltar) em relação aos militares brasileiros. Sinto essa ternura porque vejo agora com absoluta clareza, depois de um mandato presidencial petista, o quanto os militares foram injustiçados no Brasil. Quem viveu a época braba da ditadura militar, uma época na qual a tortura matava sem maiores cerimônias, diz que algumas coisas funcionavam devidamente bem.
A educação, por exemplo, funcionava que era uma beleza na época dos militares. Assim como a saúde era muito melhor. Segurança então, nem se fala. É bastante óbvio que a liberdade de expressão era limitada nesse período, mas não pensem que hoje existe uma plena autonomia de pensamento. Basta verificar o apoio dos artistas e dos intelectuais ao governo Lula. Hoje a coisa não é tão severa, mas antigamente, quem imaginasse não votar no PT era taxado como o pior dos mortais.
Falo isso por experiência própria. Enquanto estava na universidade, o PT era oposição. Tudo no Brasil não funcionava porque o PT não estava no Planalto. Hoje, com o PT no governo, não sou capaz de imaginar a canalização da revolta juvenil. No que os garotos batem? O que é responsável hoje em dia pelo subdesenvolvimento do Brasil?
Com tanto patrocínio do Estado aos artistas, vivemos hoje a ditadura do financiamento público da arte. Para citar apenas dois casos recentes de produções cinematográficas, citarei os filmes Zuzu Angel e O Sol. Ambos financiados por empresas públicas, ambos financiados com o dinheiro público. Ambos falam do regime militar no Brasil. Ambos denunciam as mazelas do regime militar no país.
Numa espécie de crítica cinematográfica que fiz logo após assistir ao filme "Brasília 18%", do imortal Nelson Pereira dos Santos, disse que o filme era muito ruim. E na verdade o filme é ruim. Não que eu não goste do que é ruim. Mas esse filme de Nelson Pereira dos Santos é ruim. E qual seria a razão para falar a respeito desse filme tão ruim, apesar de ser um filme de Nelson Pereira dos Santos?
Nelson se antecipou anos, ao denunciar a corrupção no atual governo na forma de filme. O cineasta partiu, no mínimo, uma década na frente de diversos colegas para denunciar a corrupção monstruosa que paira no Congresso Nacional. Tenho absoluta certeza de que Nelson Pereira dos Santos sabe que fez um filme ruim. Ele sabe disso, não é possível que não saiba... Mas ele inaugurou uma nova escola da cinematografia nacional, ao colocar a roubalheira despudorada nas telas de cinema.
Sou bastante favorável ao filme nacional de péssima qualidade. Ele nos reflete melhor do que as produções com fotografia impecável e produção deslumbrante. Quiça se voltássemos à decada de 70 para filmar as nossas desgraças atuais. A qualidade de áudio e de imagem da década de 70, incluindo o figurino, seria ideal para retratar esse nosso momento.
Agora entendo melhor o último filme de Nelson Pereira dos Santos. O diretor não poderia deixar o atual momento escapar do seu registro. E, contraditoriamente, o filme foi financiado com o dinheiro público (se não estou enganado). Os esquerdistas se vangloriavam de enganar a ditadura com mensagens camufladas. Hoje, a coisa é mais direta. Não é necessário camuflar nada. A inteligência não é mais exigida em nenhum dos lados.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 1:12 AM


Comments: Quarta-feira, Setembro 06, 2006

O voto secreto ainda nos salvava

E eis que o Brasil ficou menos brasileiro ontem, com a aprovação, mesmo que ainda não definitiva, do voto aberto para todas as votações da Câmara dos Deputados. Do jeito que a insatisfação está, é bem capaz que o políticos saiam aprovando inúmeras medidas do gosto popular, sem uma análise mais racional e, por isso mesmo, menos brasileira também.
Tenho muito medo de um segundo mandato do PT. Como tenho medo de um terceiro mandato do PSDB. Aliás, medo é o que não me falta quando penso no futuro desse país. O principal fator do meu medo é que estamos deixando de ser o que sempre fomos, para nos tornar alguma outra coisa que nunca seremos, sem perder a parte ruim, e jogando fora a parte boa.
Exemplo: essa idiotice chamada eficiência. Esse ritmo de vida imbecil que estamos levando nunca foi uma vocação para o nosso povo. Temos o talento de ver a vida passar, de receber as coisas na mão, de conversar sobre o clima de amanhã, de ter insônia por dormir até à tarde. Esse é o nosso destino. Nunca a eficiência a todo custo.
Com a aprovação do voto aberto em todas as decisões da Câmara, um pouquinho do Brasil brasileiro morreu. Aquele Brasil no qual ainda era possível mascar fumo no meio da tarde e cuspir um líquido preto na calçada esburacada e rachada pelo sol. Um Brasil dos mercadinhos e das vendas de esquina, do café fiado e do vestido da mulher amada feito na costureira.
O fim do voto secreto não servirá nem ao menos como uma pá de cal, seja no que for. O fim desse procedimento vai apenas retirar uma cortina, elegantemente colocada, para que nós fôssemos poupados desse espetáculo mórbido que é a política brasileira. Agora veremos como os deputados votam e, cá entre nós, pouca vai mudar nas nossas vidas.
A partir do momento em que vários deputados têm emissoras de rádio e TV, participações em jornais e amizades na imprensa; a partir do instante em que centenas deles são anunciantes dos mais variados veículos de comunicação e que dispõem de artifícos eficientes para inibir qualquer descontentamento mais expressivo; então estamos diante de uma situação embaraçosa para todo mundo.
Os votos continuarão na linha que sempre estiveram, os deputados continuarão praticando o que sempre praticaram, a vida seguirá o seu rumo por essas bandas e nós ainda seremos obrigados a saber o que cada deputado fez na urna. Seria mais honroso permanecer com essa cortina dos pudores, para que ao menos a dúvida fosse capaz de habitar nos mais variados debates a respeito das votações na Câmara.
Em pouco tempo, as votações continuarão a absolver deputados, e ainda assim seremos obrigados a saber quem votou a favor de quem. Um desgaste desnecessário, para um sistema político desnecessário, de um povo desnecessário. O fim do voto secreto, o nascimento do voto aberto, só trará um certo nojo a mais para quem já não suporta saber que estamos no inferno dos sistemas democráticos. Onde a burrice de Estado é a pior forma de massacre que encontramos em 500 anos de Brasil.
Vamos ao voto aberto, para que ao menos assim o funeral desse país seja o mais rápido e, se possível for, o mais discreto. Se alguma tristeza for permitida, alguém poderá dizer que tínhamos um belo futuro que poderia ter sido, mas que não foi. E o que é pior, que jamais será.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 1:49 AM


Comments: Terça-feira, Setembro 05, 2006

Amigo cansaço

A verdade é que estou cansado, muito cansado, de muita coisa, inclusive da política. Nesse exato instante, tenho a certeza absoluta de que a política é o exercício da demência. Nada tão idiota quanto a prática política num país como o Brasil. Mas hoje, além de cansado, tenho pregüiça de escrever sobre esse tema que causa tanto desgosto.
Não vou escrever sobre a votação das MPs para que a pauta no Congresso seja desobstruída. Que se exploda a pauta do Congresso. Além do cansaço e da pregüiça, esse computador no qual traço essas linhas desiludidas está em fase terminal. Por falar em fase terminal, em concluir um sofrimento, pensei em Kafka quando contei os dias até a sexta. Se o sofrimento tem data para acabar, então ele já não é tão ruim assim.
Bom: cansaço, pregüiça, computador em fase final, e nenhuma paciência para tentar dizer que já não adianta mais nada, que perdemos o nosso tempo, que tudo é fracasso e desespero. Precisamos, ao menos, para preservar o mínimo sopro de dignidade, vomitar a esperança que talvez ainda exista em nosso estranho sonho.
Esse país está condenado, está condenado a ser esse país. Eternamente, esse país será assim: desse jeito que está. Condenado. Deixo-lhes na companhia de um escritor brilhante, Albert Camus, na ocasião em que recebeu o prêmio Nobel de Literatura, no final da década de 50 (1957). Camus e sua estranha esperança num mundo reconstruído pelos frangalhos de preces e ideais, de certezas sólidas que se mostram frágeis em pouquíssimo tempo.
Tento escrever mais um pouco para que esse texto tenha um tamanho razoável, mas não consigo. Há cansaço demais, muito cansaço de tudo. E um computador prestes a morrer, também.
"Cada geração, sem dúvida, julga-se destinada a refazer o mundo. A minha, entretanto, sabe que não o reformará. Mas o seu papel talvez seja maior. Consiste em impedir que o mundo se desfaça. Herdeira de uma história corrompida onde se misturam as revoluções decaídas, as técnicas que enlouqueceram, os deuses mortos e as ideologias extenuadas, onde poderes medíocres podem, hoje, destruir tudo, mas não sabem mais convencer, onde a inteligência se abaixou ao ponto de se tornar a escrava do ódio e da opressão, esta geração foi obrigada a nela própria e em torno dela restaurar, a partir unicamente de suas negações, um pouco daquilo que faz a dignidade de viver e morrer".

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 1:08 AM


Comments: Segunda-feira, Setembro 04, 2006

Três a zero há quatro anos

Na verdade, nunca foi fácil ser gaúcho. Esse povo tem que ouvir um monte de piadinhas do resto do país, apesar de ter o churrasco como especialidade e de suportar os argentinos e uruguaios como vizinhos. Contudo, num dia como hoje, em que a nossa seleção aplicou três gols nos argentinos, ser gaúcho é poder andar poucos quilômetros e assistir à tristeza adversária sem necessidade da imprensa como intermediária do ver, e o que é pior, do achar. Ser gaúcho hoje é estar feliz e dobrar a esquina e testemunhas a tristeza adversária.
Conheci um gaúcho em Brasília que tinha o forró como primeira opção no som do seu veículo e o Internacional como seu time da alma. Enquanto eu tremia de frio num outubro qualquer em Brasília, o sujeito bebia cerveja sem camisa e dizia que faria o mesmo se a temperatura da bebida fosse a mesma numa temperatura mediana para os sulistas do Brasil. Eu falei que ele estava mentindo e ele apenas sorriu.
O fato é que ao menos ganhamos dos argentinos, por uma diferença três vezes maior, em alguma coisa. Ora, o futebol é mais do que importante em nossa cultura. Apesar do que dizem os sábios por um lado, e os acadêmicos pelo outro, o fato é que sem o futebol não haveria uma válvula eficiente para que a nossa maldita cidadina fosse vomitada. Além da pornografia, dos vícios ilícitos e da maldade congênita, precisamos todos os dias do futebol para que um mínimo sentido venha nos comunicar que continuar a vida é preciso.
Mas venho, num gesto cristão de oferecer o outro lado da face quantas vezes for preciso, defender os nossos vizinhos argentinos. Apesar do futebol ser necessário, ele não é essencial. O que importa mesmo é a economia, é o dinheiro, é a quantidade de renda que nos resta para que tenhamos uma mísera certeza de que somos humanos.
A política brasileira perdeu, há muito tempo, qualquer sentido que talvez alguém lhe atribuiu algum dia. Entra-se na política para se fazer dinheiro. Os políticos, para quem não sabe, controlam um orçamento, gerado através de impostos exagerados e taxas de juros imorais, que deixaria qualquer um de nós com uma incontrolável vontade de servir ao próximo.
Os argentinos, ao contrários dos brasileiros, não têm a necessidade idiota de querer a todo custo a simpatia do estrangeiro. E, apesar de não conhecer a imprensa argentina, não creio que lá os maiores jornalista de economia sejam como os daqui. Por aqui, quem comenta economia numa televisão, que é o grande veículo para se falar ao país, tem toda a formação possível para desaprovar qualquer questionamento em relação à reflexão sobre o pagamento de dívidas estranhas.
Esse tipo de pensamento gera algumas consequências. Exemplo é o pagamento de 15 billhões de dólares ao FMI, em dezembro do ano passado, pelo governo Lula. Pagamento que foi feito sem nenhuma interrogação por parte do nosso povo em relação à aplicação alternativa dessa quantia em benefício do brasileiro. Mas com tanta corrupção por aqui, talvez os estrangeiros utilizem melhor esse produto do nosso suor.
A Argentina cresce três vezes mais do que o Brasil, há quatro anos consecutivos. A Argentina conseguiu um perdão em torno de 70% de sua dívida com o FMI. A Argentina perdeu heje para a seleção do Brasil por três a zero em um amistoso. Qual é o povo que comemora?

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 1:55 AM


Comments: Sexta-feira, Setembro 01, 2006

A inteligência também foi humilhada

Dizer que a situação política no Brasil é lamentável é apenas dizer o óbvio, e também é dizer pouco. Afirmar que estamos pisando no fundo de um poço que afunda constantemente também não é falar demais. E o que é mais grave e mais trágico é que não iremos aprender com essa crise o que deveríamos. Para começar, poderíamos denvincular esperança e política. Esses termos são, amantes na fantasia e, antagônicos na prática.
Mas o que poderia ferir mais a consciência de uma nação do que o apoio da classe dita pensante a um governo como o atual? Artistas, professores universitários e toda a sorte de gente que pretende passar para a eternidade do seu bairro como alguém que merece respeito por suas idéias, apóiam deslavadamente um governo que humilhou a nação brasileira. Humilhou com monstruosos, e diários, casos de corrupção. Humilhou com um crescimento econômico ridículo, como o que foi anunciado ontem (0,5% no segundo trimestre).
Atualmente, o mundo passa por um bom momento para a economia. Ao menos é o que garante um monte de gente em suas mais diversas formas de declaração. O crescimento do Brasil, se comparado com o de outros 28 países emergentes que também divulgaram os seus índices, é o menor. Ficamos atrás de países como a Colômbia (que cresceu 3,7%) e da Hungria (que cresceu 3,6%). Como bem disse um deputado nordestino: - "Em matéria de crescimento na economia, estamos competindo com o Haiti".
Contudo, o pior não é ficar atrás de um monte de outros países na economia. Não! Nós até que estamos acostumados com isso. Não é essa a questão. O que é de doer é que enquanto a agricultura (sempre a salvadora agricultura) é esquecida, e é o setor que ainda dá algum tipo de fôlego para o crescimento econômico brasileiro, a produção de ciência e tecnologia nesse país é uma piada de mau gosto. Ou seja, desprezamos, de todas as formas possíveis, as nossas posibilidades de crescimento.
Sem falar que crescer, apenas crescer, não é o ponto. Não temos cidadania suficiente para que a produção das nossas riquezas seja melhor compartilhada. Sem comunismo, que é a pior forma de demência que o homem já chegou a produzir. Vide Camus e Orwell...
Os nossos artistas, que não são uma grande referência como forma de produção de conhecimento e arte, assinam manifestos a favor desse governo que aí está. Afinal, recebem patrocínio oficial de empresas estatais para que as suas peças rodem o país sem que a bilheteria seja lá uma preocupação vital. Nunca a política de pão e circo, em se tratando do circo, foi tão mal feita.
No início da semana, todos os jornais brasileiros falavam que num eventual segundo mandato de Lula, as concessões de rádio e TV seriam revisadas. Nada mais justo, diriam muitas pessoas. Eu também acho justíssimo que as concessões sejam analisadas. Afinal, qual é o político que não tem a sua rádio ou a sua televisão? Qual é a corrente de pensamento religioso que não tem a sua rádio ou televisão?
Mas a comunicação é antes de tudo a maior arma que poderíamos ter algum dia criado. E o pior de tudo é que as rádios, as televisões e os veículos de mídia impressa (haverá uma linha de crédito do governo no próximo mandato para financiar jornais e revistas "independentes") costumam servir para o que não deveria existir.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 12:56 AM



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