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Confraria dos Crônicos
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De crônica, não basta a vida! Comments: Quinta-feira, Agosto 31, 2006 K7s perdidos O pior dos infernos é o inferno da informação. Nada é tão árido quanto a informação que recebemos nesse inferno cotidiano. A morte vem com muita informação e, para piorar o quadro, é uma morte fria, lenta e dolorosa. Não precisamos de mais informação, e falo isso sem nenhum receio quanto à concorrência. O que realmente é urgente em nossas vidas é a música que se faz através do sopro. Os instrumentos de sopro, esses sim, podem fazer a diferença. Um clarinete, tocado nas ruas, eleva consideravelmente a qualidade de vida de uma cidade. Falo isso porque observei hoje um homem e seu instrumento, a inundar uma pequeno ponto por onde passam algumas pessoas num dos setores hoteleiros da capital federal. E a música se utiliza do clarinete para dar força aos homens que porventura pensam que seria mais honesto com o criador falar-lhe pessoalmente que a existência traduzida em si foi apenas um erro prazeroso. A vida em Brasília, principalmente nessa época, parece ser ainda mais difícil. O clima é tão seco que não existe suor. A boca está sempre sedenta e os lábios se rasgam num simples sorriso. Em alguns momentos, a sensação é a de respirar terra. A pele mais parece plástico e o cansaço chega a ser desumano. Mas ao menos existem homens com clarinetes, e isso é um motivo plausível para se pensar em resistir por mais algumas décadas. E já que nada acontece por acaso quando um clarienete está envolvido, o homens em questão tocava a melodia de Don't sit under the apple tree, de Glenn Miller. Pois bem. A vida pode estar como for. O emprego pode ser horrível, a esposa pode ser detestável, o saldo bancário pode ser uma vergonha. Você mesmo pode ter se transformado naquilo que jamais desejou ser. Tudo isso pode estar acontecendo, e ao mesmo tempo. Mas quando se ouve determinada melodia, ao ar livre, numa cidade como Brasília, escapa da carcaça frustrada uma satisfação que não foi convidada. Resta puxar do bolso raso um troco qualquer e aguardar que a música acabe. E que se exploda o resto... Pena que não existia nenhum estabelecimento comercial por perto que vendesse uma cervejinha. Nem ao menos água há. Só o sol de depois do almoço, a secura, o trânsito e a música. Se fosse procurar alguma sombra, não conseguiria mais ouvir a melodia do clarinete. Tinha que aguardar o final daquela música, pois durante a música eu poderia estra satisfeito com algo. Mas havia o sol, a sede, a pele seca, a língua áspera e a baba grossa. O clarinetista, empolgado com o único sujeito que parou para lhe ouvir, prolongou a música ao máximo. A moedas no chapéu refletiam a luz do dia e a sensação piorava a cada momento. Mas não poderia sair de lá antes que o meu aplauso concluisse aquela execução. Sorrimos. Aplaudi o bom o homem, apertei-lhe a mão e perguntei quanto ele cobraria para tocar todos os dias a mesma música de Glenn Miller naquele horário. Ele lamentou, e disse que aquela era a sua primeira e única apresentação naquele local. Perguntou se eu tinha algum aparelho k7. Disse-lhe que não. E ele, após beber água, mostrou uma fita k7 do maestro americano e outra de Charlie Parker. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 12:52 AM Comments: Quarta-feira, Agosto 30, 2006 Amor que não se repete A aliança entre o PSDB e o PFL não se limita a uma simples união partidária. Diria que essa união entre esses dois partidos diz muito mais sobre os matrimônios no Brasil do que podemos imaginar apenas com um olhar desatento. O PSDB poderia representar nessa minha metáfora o marido polido e que busca ser educado. Apesar de ter um passado sombrio, existe a necessidade da postura impecável. O PFL, no entanto, não é muito de fazer cerimônia. Nesse meu pobre paralelo que busco erguer, o PFL seria a esposa espontânea demais, deselegante e que fala pelos cotovelos. Nada pode ser mais providencial do que um casal com temperamentos opostos. Partindo desse raciocínio, a união PSDB e PFL é mais do que acertada. Cada qual com o seu estilo... E no fundo um partido complementa o outro com o que é possível complementar numa sociedade partidária. Quem assistiu a TV Senado ontem à tarde sabe do que eu estou falando. O senador Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA) disse, entre outras delicadezas, que o lugar do presidente Lula é na cadeia. Além de ter dito que o povo brasileiro não respeita mais a liderança do petista. Ora, ACM (vulgo Painho) pode falar o que bem entender por vários motivos. Um deles é a idade. Outro, a imunidade. Mas cabe ao bom velhinho não esquecer de uns grampos telefônicos na Bahia logo no primeiro ano de mandato do presidente Lula. Queriam até que ACM renunciasse ao mandato novamente, para escapar de um processo de cassação. Mas o governo federal logo demonstrou quem manda e assegou o sossego do parlamentar baiano. Bom, mas eu falava da relação entre PSDB e PFL. Que o PSDB é o educadinho e o PFL é o desbocado. Segundo o blog do jornalista Ricardo Noblat, aconteceu um episódio bastante ilustrativo no cafezinho do Congresso Nacional ontem à tarde. O senador Tasso Jereissati (PSDB-CE), presidente nacional do PSDB, procurava explicar aos jornalistas, que se amontoavam na ocasião, as razões pelas quais a candidatura de Geraldo Alckmin não havia decolado. Ora, com tanto munição e tanto telhado de vidro na administração petista, qual seria o motivo do PSDB não bater forte em Lula? Jereissati afirmou que a estratégia tucana era fazer com que o povo brasileiro primeiro tomasse contato com as realizações de Alckmin à frente do governo de São Paulo para, logo depois, numa segunda fase que estava para ser iniciada, bater com muita, mas muita força, no presidente. E depois das pesquisas CNT/Sensus e Datafolha, divulgadas ontem, que indicam a vitória de Lula no primeiro turno, é bom para o casamento do PSDB com o PFL que a imagem do presidente seja arranhada com urgência. Enquanto o senador tucano cearense falava aos jornalistas, surge o senador pefelista baiano e começa a esbravejar contra os métodos que a campanha de Alckmin utilizou. ACM interrompeu o papo e disse que a corrupção no governo Lula deveria ser explorada, ao máximo, por Alckmin. Jereissati pediu com todo o carinho que esse aparte não fosse publicado, mas todo mundo sabe como jornalista aprecia esse tipo de diálogo. ACM só não bateu mais na campanha tucana porque até ele sabe que tudo tem limite. E Painho sabe do que o povo gosta... Não é à toa que os três senadores baiano são do PFL. E ai de quem não for. Todo esse episódio pode sugerir que ACM é ingrato com o PT, que o livrou daquela história dos grampos. Também pode sugerir que essa eleição é um grande teatro e que na verdade não existe nem ao menos a intenção de se disputar alguma coisa, já que com tanta artilharia contra o governo à disposição os tucanos ficam nessa conversinha de não atacar. E, por fim, sugere que a aliança entre PSDB e PFL é uma relação de complemento mútuo. Apesar de não existir extremos nesse caso. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 1:22 AM Comments: Terça-feira, Agosto 29, 2006 Pensamentos sem cola Quem pensa que a ternura e a delicadeza estão mortas na política, pode tratar de fazer algo para aceitar essas palavras no vocabulário do poder. As boas ações estão mais vivas do que nunca, até porque esse período é eleitoral e existe por aí uma regra segundo a qual tem que existir eleição. É bastante difícil não se comover quando um candidato a um cargo qualquer declara, numa sinceridade infantil, que no Brasil as pessoas votam nas pessoas. Não existe ideologia e nem fidelidade partidária no voto do eleitor brasileiro. Alguns candidatos até se utilizam dessa nossa carcaterística para dizer que a fidelidade partidária não encontra razão de ser, já que quem escolhe os representantes não está obrigado a votar necessariamente em candidatos do mesmo partido. De vez em quando, a saudade dos tempos do partidarismo rígido bate e a lembrança de pouco mais de uma década passada me assalta a memória. Os saudosos tempos em que um eleitor de esquerda jamais pensaria em cogitar a possibilidade de votar em alguém do PMDB. Bons tempos aqueles em que o PC do B só frenqüentava festas universitárias, e não a presidência da Câmara dos Deputados. Velhos tempos aqueles em que o PT monopolizava a ira e a indignação contra os costumes políticos. Hoje está tudo misturado, não só na política, mas em todo o resto. Já chegaram até a dizer que a política, assim como a imaginavamos, não existe mais. Todas as possibilidades que o exercício político poderia ofertar morreram de uma forma tão triste, tão sem brilho. Quem sabe se a política nesses dias nossos não possa ser considerada como uma prática obrigatória de ingenuidade... Como toda ingenuidade, merecedora de perdão. Afinal, precisamos usar o perdão com o nosso semelhante, assim como ocorre no Congresso. Como a alma feminina; o Estado brasileiro e o Sistema Financeiro Nacional não forma feitos para serem compreendidos. Os três são caprichos de uma criação minuciosa e irônica. Os três foram criados para provocar a loucura, em suas mais variadas possibilidades. Assim como alguém se perde de amores por uma mulher, milhares de outros se perdem na tentativa infrutífera de buscar compreender o Estado brasileiro e o SNF. As incoerências da alma feminina garantem o seu charme e a sua absolvição perante esse mundo bárbaro e horrendo de meu Deus. Já que não entendemos mesmo porque temos esse carma em forma de nacionalidade, resta-nos aproveitar a bebedeira justa que sempre há nesses períodos de explosão democrática. Fuçando os textos de Joelmir Beting, descobri que o crescimento do Brasil no primeiro trimestre desse ano ficará abaixo de 3%, metade da média mundial. Daí vem aquele debate de crescer pouco e distribuir e crescer muito e concentrar. Conversa fiada existe para todos os gostos, e para todos os governos. E já que a vida anuncia aos berros que só vai piorar, ao menos para nós brasileiros, por que razão a Justiça Eleitoral não permite os artistas em comícios? É preciso muita maldade no coração para acabar com essa alegria popular. É preciso muita maldade no coração para induzir alguém a levar a sério esse Brasil. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 1:21 AM Comments: Segunda-feira, Agosto 28, 2006 VEREADORIZAÇÃO Sempre fui um entusiasta das campanhas eleitorais na televisão. Um grandioso palco de retóricas irretocáveis. Uma utópica demonstração de apego aos anseios do nosso sofrido povo. Uma vitrine imensa para se expressar às qualidades por demais inexistentes daqueles que almejam representar o nosso povo das diferentes esferas dos poderes executivo e legislativo. Como fã das mentiras e da falatória dos programas eleitorais, consciente que as falas nunca improvisadas são tão mal interpretadas, que chegam a ser cômicas. Dois tipos de comédia se sobresaemem se tratando do gênero cômico eleitoral. A primeira é a comédia tradicional, aquela do tipo me engana que eu gosto. Uma comédia disfarçada de serenidade e ética. Um bom tipo de divertimento, porém já meio batido. Sempre acontece. O segundo tipo me empolga. A comédia explícita. Sou fã do escracho, do estorvo, do chute na consciência do telespectador. Sou ainda mais fã daqueles que deixam a máscara e vão para a luta armada, para o baixo nível. Este tipo ocorre, ou ocorria, quase que exclusivamente nas campanhas para cargos de menor esfera. Entre estas, a que mais se destaca, ou se destacava, eram as campanhas para o cargo de Vereador, esta a grande vedete. Se queríamos ver baixaria.Se queríamos rir de algo, era só ouvir alguns candidatos a vereador. Com os últimos acontecimentos do cenário político nacional, ocorre este ano um fenômeno interessante. A vereadorização das campanhas. Desde candidatos a deputado federal com chicote, tirando ratos da roupa, ex-prostitutas de mais honra e respeito que os nossos políticos tradicionais, até aqueles que abertamente dizem que estão na disputa para enriquecer, compra uma caminhonete e uma casa de praia. A descrença nos leva até a pensar em votar no Doutorzinho, ou quem sabe naquele que adora chaçaca e cabaré, o Canelinha. Se não votar neles, voto nulo. Do aditor GustavoGT Natal 28/08/06 postado por: RODOLFO TORRES 6:43 PM Comments: A exclamação proibida A imprensa brasileira precisa deixar de determinadas bobagens e adotar o analfabetismo funcional, a linguagem direta do povo, sob o risco de não formar nem opinião, nem receita. Outra ponto fundamental para uma imprensa que seja reflexo do Brasil é o achar. O jornal, a revista, o panfleto ou folhetim que tem medo de achar alguma coisa está condenado; simplesmente nasceu para aquecer mais um túmulo de idéias. Existe muita beleza, ao contrário do que acadêmicos e afins pregam, no simples ato de achar. O mestre Nelson Rodrigues já dizia, em mais uma de suas brilhantes análises, que todos nós, independente de qualquer coisa, já amou e já odiou errado. Ah, os arrependimentos tardios sempre existirão e seríamos menores sem esses guias constantes. Aliás, o mesmo Nelson dizia que o homem é mais fiel ao seu ódio do que ao seu amor. Raros são os ódios que esfriam... E seguimos, falo enquanto profissional da imprensa, nesse culto ingênuo da imparcialidade, nesse medo bobo de achar alguma coisa, numa necessidade vil de consultar outras pessoas apenas e tão somente para confirmar o que já sabemos. Somos mendigos de declarações, o que me deixa numa situação desconfortável. É que não gosto de falar ao telefone com pessoas que jamais vi. Isso me deixa um pouco desolado, e um tanto amargurado. Outro ponto que deve ser considerado no jornalismo praticado nos dias de hoje é a falta de exclamações nas manchetes. Por mim, toda manchete deveria ter uma exclamação. A exclamação deveria ser o oxigênio da imprensa, mas por conta de duas dúzias de pessoas essa maravilha da escrita foi proibida nas redações. Ora, a vida pede exclamações. Nada mais idiota do que fazer jornalismo sem exclamação. Contudo, em qualquer faculdade de comunicação de fundo de quintal, a exclamação no texto jornalístico sóbrio é um pecado. Onde estão as exclamações nas primeiras páginas de jornal desde que essa sucessão de escândalos na política começou a ser noticiada? Onde estão as exclamações nas chamadas de primeira página, em letras garrafais, com o número de candidaturas suspensas por todos os Tribunais Eleitorais Regionais do Brasil? Sem exclamação, a notícia não chega ao coração. Bom, eu sei que essa é uma rima pobre e sem nenhum estilo. Mas diz a verdade e se faz entender. Já que sou jornalista, e não tenho direito de achar nada sem que outros sustentem o meu achar, recorro a uma figura que deveria ser leitura dos políticos brasileiros. Mas falar de leitura no Brasil também é complicado... Refiro-me a Maquiavel, em seu célebre tratado sobre política e condução de governo: O Príncipe. Lá pelas tantas (editora Hemus, página 111, 12° edição, comentário de Napoleão Bonaparte), está escrito: quod nihil sit tam infirmum aut instabile quam fama potentiae non sua vi nixa. Traduzindo: que nada é mais frágil e mais instável que a fama de uma potência que não se funda sobre suas próprias forças. A única força na atualidade que o brasileiro possui é a força da desilusão para com o processo político. Somente o desencanto poderá nos levar a algo melhor do que vivenciamos. E, latinos que somos, precisamos, mais do que em qualquer outro momento, de exclamações. Precisamos, de forma urgente, de exclamações na imprensa. Algo do tipo: é o fim! confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 2:16 AM Comments: Sexta-feira, Agosto 25, 2006 Xadrez político O presidente Lula acha que o problema da corrupção na política brasileira se deve a uma "estrutura de organização partidária que está apodrecida". E por incrível que pareça, o presidente está coberto de razão. Analistas e ciestistas políticos são unânimes em dizer que uma reforma política é mais do que urgente. Ou essa reforma política é feita, ou então continuaremos a observar verdadeiras anomalias. Por exemplo: o Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo suspendeu mais de 400 candidaturas. Entres elas, estão as dos petistas João Paulo Cunha (ex-presidente da Câmara dos Deputados) e Ângela Guadgnin (a dançarina da pizza), além do ex-presidente do PL, Valdemar Costa Neto. Os motivos para a suspensão das candidaturas são os mais variados. Vão desde falta de documentação a prestação errada das contas da última campanha. O Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro suspendeu menos candidaturas do que o Tribunal paulista, mas mesmo assim os números são expressivos: mais de 200 candidaturas rejeitadas. Mesmo que os advogados dos políticos disponham de 72 horas para recorrer ao Tribunal Superior Eleitoral, podemos tirar algumas conclusões. A primeira delas é em relação a essa tão falada reforma no sistema político. Querem, entre outras medidas, adotar o tal "financiamento público das campanhas". Ora, um país que bate constantes recordes de arrecadação de tributos e que não disponibiliza aos seus cidadãos os serviços públicos essenciais, não pode contar com um financiamento público de campanha eleitoral. Os custos da corrupção no Brasil ultrapassam 10 bilhões de reais por ano. E não existe uma intenção mínima de tentar fazer com que essa cifra diminua por parte dos agentes da política. Também existe a fidelidade partidária, que obriga o parlamentar a se manter fiel ao partido pelo qual ele foi eleito. O que faria com que a promiscuidade partidária acabasse e que o mandato não mais pertencesse única e exclusivamente ao parlamentar em questão. Hoje, todo deputado sente-se dono do seu mandato. Há quem diga que isso não é muito bom para a saúde política de um país. A extinção do voto secreto, entre todas as propostas de reforma, parece ser a que mais agrada. Na verdade, o final do voto secreto na Câmara dos Deputados e no Senado Federal é praticamente uma unanimidade entre os brasileiros, que tiveram um péssimo exemplo de corporativismo no escândalo do mensalão, onde deputados que confessaram ter recebido dinheiro de um esquema de corrupção forma absolvidos através de um sistema de voto secreto. Existe até aqueles que propõem o fim de determinados privilégios históricos que os deputados gozam. Quem não sabe que o expediente parlamentar em Brasília começa na terça e acaba na quinta? Que, além dos salário exorbitante, existe ajuda de custo para combustível, água, luz, telefone, etc. A verdadeira reforma política que o Brasil precisa é a reforma que acabará com privilégios imorais e que levará políticos corruptos para a cadeia. Basta essa mudança radical e inédita para que as coisas mudem de fato no país. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 1:31 AM Comments: Quinta-feira, Agosto 24, 2006 Os inspetores estão chegando Infelizmente, o Brasil real não chega nem perto do Brasil apresentado na campanha do PT. Mas aqui cabe uma observação. É mais do que compreensível que um presidente que busca a reeleição trate de agir dessa forma, ou seja, mostrando uma maravilha em forma de nação. Se o país no caso for o Brasil, tudo justifica-se para que a presidência seja mantida. Basta ver a quantidade de impostos que é arrecadada e a reação da população diante do caos. Mas hoje, a coisa é um pouco diferente. Vou tratar de um tema que inicialmente me deixou bastante empolgado. Contudo, a empolgação se transformou rapidamente em vergonha e agora bateu um desespero concreto de pertencer ao Brasil. O negócio é o seguinte: pela primeira vez na história da humanidade, um país não africano receberá uma delegação da Organização das Nações Unidas (ONU) para uma investigação sobre a corrupção local. Christy Mbonu, relatora especial da ONU para o Combate à Corrupção, queria ter vindo ao Brasil em junho, mas explicaram para a honrada senhora que seria mais interessante que ela viesse para cá depois de outubro. Quando as eleições estivessem encerradas e a vida possível. Se tudo estiver nos conformes, no início de 2007 o Brasil receberá essa delegação. Teremos a honra de ser o primeiro país fora do continente africano a receber esse tipo de visita, com esse determiando fim... A inteligência não precisa jorrar entre nós para concluirmos que estamos falidos em essência. Sem glória nem humilhação, como diria o mestre Rubem Braga, falando a respeito do fim de um relacionamento amoroso. A relatora da ONU, para que a nossa humilhação não seja tão profunda e intensa assim, ainda disse o seguinte: - "O que estou fazendo é debatendo quais os mecanismos que cada governo e sociedade tem para combater a corrupção. Quero levantar por que o combate à corrupção funciona em alguns locais e não em outros". O próximo semestre será especialmente humilhante para nós. Vamos, definitivamente, colocar o pé na África. Mas na África que machuca os olhos de quem a vê, por conta da miséria, da flagelo humano e da incapacidade de ser gerenciada. O Estado brasileiro já não existe. O que talvez possa existir são algumas estranhas amarras a esse lugar tão amado, e que possui uma capacidade inigualável de maltratar os seus. Vamos das as boas-vindas à delegação da ONU, que virá investigar a nossa corrupção no início do próximo ano. Assim como demos boas-vindas aos emissários do FMI, ou de qualquer outra instituição com três letras. É fundamental, num momento como esses, manter uma compostura mínima. E daí que a falência existe e está conosco? Temos um ao outro para lamentar e para perguntar o que foi que não deu certo. Um relatório será feito após a visita da ONU e aí sim, em outras línguas, seremos alvo da piedade de pessoas que têm um dinheiro melhor do que o nosso. E por conseqüência, muito melhores do que nós. Procuro pensar em uma forma de desejar pêsames, mas não tenho mais paciência para remoer esse assunto. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 3:00 AM Comments: Quarta-feira, Agosto 23, 2006 Há argumentos As mais variadas pesquisas eleitorais divulgam que o presidente Lula será reeleito em primeiro turno, o que é realmente uma lástima. Lástima porque esse governo não deveria ter chegado a esse ano. Deveria ter sido abortado quando o clima político permitia que qualquer um entrasse no gabinete presidencial e acabasse com a brincadeira de ter esse presidente. Por que não confessamos publicamente que a nossa esperança, assim como todo a nossa história, foi um equívoco? Um torcedor de Lula me disse, já nesse ano, quando a crise estava controlada e não existia ambiente político para derrubar o presidente, que sempre soube que Lula seria reeleito. E ele ainda teve a paciência de explicar as razões de sua certeza. Segundo o petista, o eleitor é conservador. Se existe um presidente da República que dispute um novo mandato, a tendência de muita gente, até mesmo por inércia, é a de permanecer com quem eles já conhecem. E o petista, com seu ar de estadista, ainda sorriu com aquele insuportável ar de vitória que somente os petistas têm. Se bem que o ar de vitória dos tucanos também é intragável. Contudo vale esclarecer que tucanos ou petistas, o fato é que ambos são paulistas, com uma semelhança assombrosa. A briga entre PT e PSDB deve ser vista como uma briga entre familiares. Os argumentos utilizados no Brasil para explicar qualquer coisa são intrigantes. Essa conversa da falta de clima político, por exemplo, para justificar a permanência de Lula na presidência, mesmo após o que foi mostrado, é encantadora. A falta de clima político foi utilizada até por juristas. Mas não se falou uma única vez sobre a o clima jurídico. Enquanto o clima político não era favorável, o clima jurídico implorava, suplicava para uma deposição mais do que justa. Sem o clima político e com clima jurídico para a ação que não foi concretizada, o fato é que o homem está com tudo, segundo as pesquisas eleitorais, e vem aí com a onisciência de que o seu governo é a melhor resposta para os ataques difamatórios promovidos pelas elites. Não sei se as elites estão com raiva do governo, mas a classe média... A classe média sempre vê os seus rendimentos diminuirem de uma forma tão dramática e tão melancólica. A pobre classe média brasileira, que ao menos teve um suspiro de poder compra nos primeiros semestres do plano real. Depois desse acalanto, a tragédia de ser brasileiro falou mais alto e o que se vê é apenas o desespero morno de pessoas sem esperança. Quiçá se a perda da esperança da classe média brasileira fosse capaz de produzir qualquer coisa além das revoltas em reuniões familiares, nas mesas de bar, ou somente nas campanhas eleitorais. A classe média brasileira não é competente nem mesmo para formar a opinião nacional. A eterna vocação desse segmento é sofrer os arrochos. Os filhos já estão com filhos, e estão desempregados. O salário não dá nunca. E o cheque-especial é uma tatuagem. Mais do que isso, é o oxigênio de milhões de vidas. O brasileiro nunca pagou tanto imposto, sua vida nunca foi tão difícil, a corrupção nunca foi tão escandalosa e a violência nunca chegou ao atual ponto de terrorismo. Mas a vitória do presidente está garantida no primeiro turno, segundo as pesquisas eleitorais. Daí podemos chegar à conclusão de que o brasileiro é movido à esmola? Que o brasileiro gosta mesmo é de sofrer? Ou que o brasileiro é presa fácil do carisma? Segundo o petista com quem conversei, o brasileiro é conservador. E o conservadorismo do povo brasileiro só não é maior do que o do partido presidencial. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 3:28 AM Comments: Terça-feira, Agosto 22, 2006 Punição demais é veneno Ora, vejam vocês: apenas um deputado, Marcelino Fraga (PMDB - ES), renunciou ao mandato até à meia noite para escapar da cassação devido ao envolvimento com o esquema das ambulâncias superfaturadas. Bom, dizer que ele renunciou para escapar de uma cassação é praticar a modalidade mais intensa da ingenuidade. Todo mundo sente, e isso não é necessário explicar, que essa história das sanguessugas não vai dar em nada. Essa certeza de que absolutamente nada vai acontecer aos 67 parlamentares envolvidos (até agora) nesse colossal esquema de corrupção, nessa anomalia criminosa, não tira o sono do povo brasileiro. Até porque o povo tem a sua sabedoria, e que nem sempre esse conhecimento é devidamente respeitado. E nem falo da sabedoria popular científica. Afinal, a ciência necessita de rituais, décadas, egos e crenças. Falo da sabedoria filosófica do povo. Uma máxima popular brasileira diz que político é tudo igual. Daí um monte de gente se mobilza contra para tentar desqualificar essa afirmação tão pura e verdadeira. Contudo, não é bem assim... Além dos interesses pessoais e financeiros, deve-se dizer que nem todos os políticos são iguais porque a indústria dos processos judiciais está mais do que atenta a afirmações nesse sentido. Então, evita-se dizer essa verdade proveniente das entranhas do povo. O desprezo que o verdadeiro povo tem pela política é fruto de uma sabedoria centenária. O povo sabe, o povo sente que as eleições, assim como a Copa do Mundo, não resolvem a vida do país. A política e o futebol resolvem a vida de uma ínfima quantidade de pessoas. Mas é bem legal assistir a uma disputa qualquer. Gostamos de ver uma disputa. E não importa qual seja a disputa em questão. Por exemplo: um referendo sobre o desarmamento, o nome do mascote dos Jogos Panamericanos, o melhor dançarino do Faustão, a seleção que ganhará o mundial da Fifa ou o candidato que governará o Brasil. O que importa mesmo é torcer, é vibrar, é se emocionar e ter a esperança de um momento de alegria futura. Não creio que a valorização, no sentido de achar que esse é o sujeito que manda, de um presidente da República ou de um governador de Estado seja responsável. Devemos valorizar as empresas que exercem pressão sobre os políticos. Devemos valorizar os bancos, as multinacionais, e até mesmo as organizações paralelas às leis. Esses sim tem o poder das decisões nos bastidores. Os políticos são, na melhor das hipóteses, marionetes com status. Em alguns casos, as figuras se misturam e não se sabe onde começa o político e onde termina o chefe de organização. O Congresso Nacional brasileiro é uma vergonha, e isso apenas confirma a sabedoria de um povo historicamente humilhado por seus governantes. O povo brasileiro diz que todo político é ladrão, os números de parlamentares envolvidos nos mais variados esquemas de corrupção não pára de crescer, o corporativismo político é embaraçoso e não existe nem ao menos a esperança de uma punição maior do que a perda de mandato para os políticos comprovadamente corruptos. Justiça seja feita: perder um cargo como o de deputado federal é quase a mesma coisa de ser expulso do Reino de Deus. E isso, para o povo, já está de bom tamanho. Afinal, tudo demais é veneno. Até punição. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 3:46 AM Comments: Segunda-feira, Agosto 21, 2006 A estrela esquecida A amnésia, voluntária ou não, é mais do que saudável para a convivência em sociedade em geral e para o jornalismo em particular. E nesse campo do esquecimento, profissionais da imprensa são obrigados a deixar de lembrar de alguns detalhes fundamentais a respeito de acontecimentos decisivos. E o público também não faz muita força para recordar das passagens importantes. Daí ficamos naquela boa conversa mole a respeito da imparcialidade dos meios de comunicação. Mesmo que o sujeito seja um quadrúpede vocacional, daqueles que ruminam com a alma, ainda dessa forma ele não engole facilmente essa conversa da imparcialidade no jornalismo. Se existe uma atividade passional e absolutamente tendenciosa, essa atividade é o jornalismo. Essa história da imparcialidade na comunicação social serve apenas para teses universitárias. E cá pra nós, o verdadeiro jornalismo se aprende nas redações clássicas, com editores histéricos, pautas cretinas, salários ridículos e um congestionamento de sujeitos que garantem que são gênios. O Correio Braziliense do último sábado, 19 de agosto, é um exemplo extraordinário de amnésia, de esquecimento, de memória fraca. Com a manchete "Severino é rei na farra dos cargos", a matéria fala que 22 ex-deputados federais mantêm 48 afilhados nos chamados cargos de natureza especial (CNE). O custo desse apadrinhamento aos cofres públicos é de 84 mil reais por mês. E o ex-deputado Severino Cavalcanti, ex-presidente da Câmara dos Deputados, é o campeão de apadrinhamentos. São 12 os protegidos de Severino que trabalham na Camara. Devo aqui declarar que sou fã incondicional do ex-deputado Severino Cavalcanti. Por inúmeras e justíssimas razões. A primeira razão é que Severino, mais do que ninguém, representa com fidelidade o político de toda republiqueta tropical. E o nosso querido Brasil é uma republiqueta. Depois, devo admitir que me encanto pelos pequenos crimes. Um roubinho aqui, um suborninho acolá, uma extorsãozinha não sei onde... E por último, e não menos importante, nunca vi uma afinidade maior entre um presidente da República e um presidente da Câmara dos Deputados. Lula e Severino são, além de conterrâneos, siameses na elegância, na prática política e na feiura. Não é segredo para ninguém que Severino atualmente despacha, faz e acontece, no ministério das Cidades. Quem não se lembra da conversa de Severino e Lula pouco tempo antes da renúncia? Lula garantiu a Severino que os seus afilhados, entre eles um filho, continuariam em seus cargos. E assim a política brasileira se eleva aos céus do surrealismo. Mas vamos falar um pouco mais da matéria do Correio Braziliense... Além do espelho maior da política brasileira, Severino Cavalcanti, a reportagem cita os ex-deputados Paulo Rocha (PT - BA), que renunciou por causa do mensalão, com 6 afilhados; Roberto Jefferson (PTB - RJ), que no passado foi o maior pauteiro da imprensa brasileira, com 4 afilhados; José Borba (PMDB - PR), que caiu fora por conta do mensalão, com 3 afilhados; Pedro Corrêa (PP - PE), mensaleiro, com 3 afilhados; Benedito Domingos (PP -DF), com 2 afilhados; Ubiratan Aguiar (PSDB - CE), ministro do Tribunal de Contas da União (TCU), um emprego que mais parece um sonho, com 3 afilhados; e João Matos (PMDB - SC), com 2 afilhados. E o Zé, a personificação do poder nos dois primeiros anos do mandato de Lula, não mantém ninguém na Câmara dos Deputados. Estranhamente, não há ninguém recebendo dinheiro público na Câmara que foi indicado pelo ex-ministro chefe da Casa Civil, José Dirceu. Na verdade, não se fala mais em José Dirceu. Ele mora no esquecimento coletivo desse país, apesar de articular ativamente nos bastidores da campanha do presidente Lula. Dizem até que ele é da diretoria da Varig Log, empresa formada depois da falência da Varig. Os Três Poderes respondem, se não me engano, por mais de 50.000 cargos de confiança. Esse número de cargos diz muita coisa sobre nós mesmos. Mostra o que somos. Esses milhares de cargos de confiança movimentam, e muito, a economia da capital federal do Brasil. Esses milhares de cargos também deixam muita gente qualificada fora do serviço público. E, acreditem ou não, José Dirceu, ex-ministro, ex-deputado, não responde pela indicação de um único carguinho que seja, segundo reportagem do Correio Braziliense do último sábado. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 2:06 AM Comments: Sexta-feira, Agosto 18, 2006 Campanha anêmica O povo, essa entidade tantas vezes evocada nas mais diferentes ocasiões, gosta mesmo é de sangue. Em qualquer situação na qual existe o real risco de sangue, uma pequena multidão se aglomera. Quem já bateu o carro de madrugada sabe muito bem disso. Quem já saiu no tapa em uma viela escura e esquecida também. Não é a toa que o jornalismo policial é a melhor escola para se formar os verdadeiros profissionais da imprensa. O berço maior dos grandes no jornalismo é a editoria de polícia. Vivemos uma época única. Afinal, quem iria imaginar que o PT estaria tão calmo e tão paciente diante desse cenário que estamos vivenciando? Logo o PT, aquele partido que tinha como principal característica a fúria bestial contra as oligarquias e a total intolerância para com a histórica corrupção dos partidos de direita. O PT se escandalizava, urrava de dor, quando uma medida anti-popular estava para ser votada. Ou quando um roubinho era descoberto por acaso. O PT chorava lágrimas de sangue e berrava a plenos pulmões que a corrupção estava insuportável. Hoje o PT sabe mais do que ninguém que o radicalismo não leva a lugar nenhum. Não leva nem mesmo à presidência, que é o que realmente importa. Porém, o eleitor brasileiro se acostumou a ver a fúria da oposição nas eleições presidenciais. Existe uma necessidade de raiva, de cólera, de brutalidade partidária contra o governo que eventualmente esteja no exercício do poder. E nisso o PT era imbatível. Ninguém sabe, até hoje, como enxovalhar um governo como o antigo PT da oposição. Sim, os petistas sabem fazer algo mais do que eles apresentaram no governo... Numa análise rasteira, que é a favorita do nosso povo, podemos dizer que essa campanha eleitoral é a mais surreal das campanhas já realizadas. Primeiramente, o voto é obrigatório. Depois, existe uma campanha intensa por parte do Tribunal Superior Eleitoral explicando que o voto é muito importante. Daí, analistas confessam que o sistema político como está não resolve nada. Então, para não fugir dos velhos hábitos, os candidatos prometem mudanças verdadeiras e imploram para que os votos sejam válidos. E por último, os meios de comunicação pressionam os candidatos para que a campanha eleitoral seja mais animada, ou seja, com ataques, com gritos, com denúncias, com escândalos. Em suma, com bastante sangue. Se num cenário de extrema desilusão, a campanha eleitoral não chamar a atenção do eleitorado, se não empolgar definitivamente o eleitor, se não causar brigas nas almoços de domingo, teremos um verdadeiro destaque: o voto nulo. Logo o voto nulo... Nada, nem ninguém, é mais discriminado no Brasil do que o voto nulo. O voto nulo, que é um direito do eleitor e que é mais do que legítimo, é desaconselhado sem o menor pudor. Não existe uma ONG, uma mísera organização de defesa dos direitos democráticos dos brasileiros, que venha a público defender o voto nulo. Afinal, a mesma democracia que obriga o cidadão a votar, que faz chantagem para que o cidadão vote, ainda faz campanha aberta contra essa digna expressão que é a anulação do voto. A política é o exercício da sujeira, então nada mais injusto do que uma campanha eleitoral asséptica. E infinitamente pior do que uma campanha asséptica é uma campanha insossa. Já que o PT acostumou o eleitorado brasileiro dessa forma, então é natural pedir sangue. E artilharia para a oposição é o que não falta. Uma vitória de Lula no primeiro turno é bastante perigosa. Se um governo como o do PT, que teve um índice de corrupção tão elevado, vencer as eleições no primeiro turno, uma perigosa procuração estará sendo ofertada... O governo precisa apanhar nessa campanha, e apanhar muito, pois a lingüagem da pancada é a lingüagem que o povo entende, é a lingüagem que o povo aprecia. E é a lingüagem que levou o PT a chegar aonde chegou. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 2:24 AM Comments: Quinta-feira, Agosto 17, 2006 O descanso do eleitor Toda campanha eleitoral, gratuita e obrigatória, na televisão é uma ópera. Alguns podem dizer que se trata de uma ópera pela chatice e pela sonolência que causam. Mas isso não corresponde à realidade. Toda campanha eleitoral na TV é uma ópera pela sua carga de dramaticidade, pela combinação harmônica de música e teatro e pela representação fiel de um povo que esses programas realizam. E mais do que pelas outras razões reunidas: pela tragédia. Quer conhecer o povo brasileiro sem nem precisar saber ler? Assista às campanhas na TV. O brasileiro faz apologia diária ao grotesco, ao degradável. Mário de Andrade ainda tentou amenizar essa característica do nosso povo, com a célebre frase: - "O Brasil é feio, mas é gostoso". Mas não existe nenhuma relação de amizade entre o brasileiro nato e o que é esteticamente aceitável. Contudo, tenho que admitir que sou um admirador, um devoto do grotesco, do mal feito. E não existe amor possível a esse país sem o amor ao erro que humilha. Não ao erro nobre, mas ao erro degradante. Acabo de lembrar de uma imagem poética que carrego comigo há anos, e será essa imagem que me guiará até o fim desse texto, mesmo que ela não tenha nenhuma relação com o que é grotesco. Muito pelo contrário... Drummond, em um dos seus poemas, fala de um casal enlouquecido de amor. O amor era tão intenso e tão urgente que eles se amaram no chão mesmo, sem maiores necessidades de conforto. Conforto, para eles, era o encaixe maravilhoso dos corpos e a respiração ofegante e quente que um ofertava ao outro. Talvez uma mão marcando as costas do parceiro, ou uma mordida mais empolgada. Ao redor deles, roupas jogadas por todos os lados. Também há um ventilador de teto que não ventila nada e um calor maldoso de início de tarde de final de verão. Minutos depois, a certeza mais completa do amor cumprido, realizado ali mesmo: no chão. Os lençóis da cama nem mesmo foram tocados. O amor foi consumado em cima de tacos de madeira, que estalam de madrugada camulflando as assombrações mais descuidadas. O poeta mineiro convida os amantes a dencasar do amor na cama, que está com os lençóis impecáveis. Assim como Drummond sugere aos amantes que se utilizem do palco do amor para descansar do próprio, eu também tenho lá a minha sugestão, devidamente inspirada no mestre: descansem da política nas urnas. Nessas eleições, mais do que em qualquer outra eleição já realizada, temos o compromisso cívico de reprovar em absoluto o que nos é apresentado. O desencanto para com a política é mais do que legítimo. Do que adianta votar, se o próprio sistema político há tempos está falido? Por que votar, se todos os pensadores da política confessam em uníssono que somente uma profunda reforma, uma reforma de verdade, pode salvar esse sistema que nos é apresentado? E uma das maiores atrocidades do atual sistema político é a obrigatoriedade do voto. Então, já sabem... Descansem da política partidária nas urnas, esqueçam da política nas urnas. Que as urnas representem, para o bem do Brasil, um túmulo para os sonhos nunca realizados. Uma sepultura para as esperanças mais sinceras. Quem sabe se uma histórica contagem de votos nulos não pode fazer alguma diferença... Quem sabe, dessa vez, eles não entendem que o real direito ao voto é quando se tem também a possibilidade de não votar. O governo quer a consciência política dos cidadãos? Então, que forneça educação de qualidade a todos. Eleições 2006: que descansem em paz. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 2:11 AM Comments: Quarta-feira, Agosto 16, 2006 A vergonhosa elite intelectual A sociedade brasileira é, e sempre será, um mistério. Duvido sinceramente das intenções, que só agoram surgem de todos os lados, de diversos segmentos da sociedade civil que exigem decência no trato com a "coisa pública". As eleições no Brasil são capazes de operar verdadeiros milagres. Por exemplo, é nessa época que tomamos consciência de que isso (apesar de não parecer) é uma nação. É no período eleitoral que ocorre a verdadeira distribuição de renda nesse país, que em contrapartida apenas oferece uma cidadania minúscula. Um dos deputados acusados de participar do esquema das sanguessugas, Coriolano Sales (PFL - BA), renunciou ao mandato para que seus direitos políticos sejam preservados. Ele poderá disputar as próximas eleições sem maiores problemas. Ora, nada mais cômodo para parlamentares desonestos do que esse tipo de atitude. Fala-se em punição dos culpados, mas nem ao menos existe julgamento de políticos por aqui. Os mensaleiros foram absolvidos pelo nosso esquecimento. As sanguessugas também serão. Fala-se muito do julgamento das urnas, mas as urnas não colocam ninguém na cadeia. Na verdade, gostaria de falar a respeito de outro tipo de parasitismo que existe no Brasil. Não me refiro ao escancarado parasitismo na política. Refiro-me ao parasitismo acadêmico: os professores universitários. Como toda categoria, eles são heterogênios e existe muita gente boa nesse meio. Contudo, quero aqui falar dos que passaram anos e mais anos, décadas, pregando e defendendo o petismo nas instituições de ensino superior. Ah, como me lembro perfeitamente da minha época de universitário. Quem não era de esquerda, era, na melhor das hipóteses, um canalha de última categoria. Pouquíssimas pessoas tinham a coragem de dizer que o esquerdismo é infantil, fruto da mais profunda ignorância, e extremamente autoritário. Nada mais anti-democrático do que o esquerdismo na universidade. O esquerdismo dos universitários, e dos acadêmicos, beira o autismo. A base intelectual, que deu suporte a todas as candidaturas do atual presidente da República, é formada por professores universitários. Em sua grande maioria, paulistas. Por que será que não há quem questione a devoção e o beatismo dos professores universitários para com Lula? Por que será que ninguém fala a respeito da mordaça e da censura que correm livres na universidade pública brasileira, histórico reduto do PT? E o nosso Chico Buarque? O inatacável Chico Buarque, o perfeito e irretocável Chico Buarque? Por que ninguém questiona o seu apoio, apesar dos pesares, ao governo do PT? Um governo autoritário, corrupto e medíocre. Não existe nem arrependimento do Chico por ter apoiado Lula... A nossa elite intelectual, que nunca foi lá grande coisa, está muda diante de um cotidiano que exige, que implora pelo berro mais estrondoso. O caso é esse: somos ignorantes e grande parte da nossa elite intelectual é comprometida até a raiz com o atual governo. Grande parte do pensamento crítico brasileiro é refém de um partido político. E a direita, que poderia fazer o contrapeso, já não é mais capaz de produzir um Roberto Campos. Os pensadores brasileiros de direita na atualidade são cineastas fracassados. Os pensadores mundiais de esquerda da atualidade são Marx e Engels. E só uma coisa cresce à esquerda: a intolerância. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 2:23 AM Comments: Terça-feira, Agosto 15, 2006 A falta de tempero O primeiro debate televisivo entre os candidatos à presidência da República foi muito chato. Foi morno e enfadonho. Deu sono e fez a memória trabalhar para que cenas memoráveis de debates em eleições anteriores, mais humanos e animados, voltassem. Daqueles debates eleitorais em que o sujeito aponta o indicador para a face do outro e declara que o apontado não passa de um ladrão ordinário. Ah, os bons tempos em que a ditadura do politicamente correto não existia... Vale lembrar que dois candidatos à presidência não compareceram. O presidente Lula, que foi convidado, e Rui Pimenta, que não foi convidado. Sem trocadilhos medíocres, nem associações cretinas, a presença de Rui Pimenta, candidato do PCO, daria um tempero mais interessante ao debate da Rede Bandeirantes. O candidato da causa operária faria com que esse debate sem sal se tornasse mais saboroso para uma população que não suporta mais essa conversa besta de candidato. Com suas propostas edificantes, Rui Pimenta movimentaria o cenário. E aqui cabe uma questão: por que Rui Pimenta, que é um candidato legítimo à presidência da República, não foi convidado? Que espécie de democracia é essa? Mas a presença dos coadjuvantes declarados, Eymael e Luciano Bivar, garantiu uma certa movimentação ao falatório. A pergunta de Eymael a Alckmin, sobre o nascimento e desenvolvimento do PCC na gestão do tucano no governo de São Paulo, foi um dos momentos mais legais da conversa. É necessário entender que um debate presidencial é idêntico a uma conversa de estudantes universitários em uma mesa de bar: em poucas horas, todos os problemas do Brasil estão solucionados. Cristóvam Buarque, chato que só ele, já convenceu milhões de brasileiros de que a educação é necessária, é fundamental, é indispensável para o Brasil deixar de ser o que é. E também deve ter convencido milhões, com essa ladainha insuportável, de que ele é o candidato mais chorão dessa eleição. Reparem a sua cara de menino que quebrou o vaso da sala. Heloísa Helena, muito convicta de suas posição, não soube explicar como faria para reduzir as monstruosas taxas de juros que o Brasil tem. Daí, quando os argumentos faltam, resta apelar para a condição de mulher que pretende ser a primeira fêmea a governar a nação. Uma boa estratégia para um país no qual as mulheres representam a maioria do eleitorado. Geraldo Alckmin estava com um penteado intrigante. Eu não consegui me concentrar muito bem nas suas respostas, pois os poucos fios grudados ao couro cabeludo do tucano me tiraram a atenção. Do pouco que vi, Alckmin tentou explicar o inexplicável: a política de segurança pública em São Paulo. E não se saiu muito bem. Nesse jogo de empurra-empurra de responsabilidades entre governo federal (PT) e governo paulista (PSDB) a respeito da guerra civil em São Paulo, o único veredicto coerente é que ambos são culpados. A ausência de Lula é justificável. Ele não é louco de ser massacrado em rede nacional, sendo candidato à presidência com chances reais de vencer a eleição no primeiro turno. Além desse debate ser uma conversa entre os perdedores, Lula não tem condições de ir a um debate sem ser politicamente esfolado pelos sucessivos escândalos de corrupção em seu governo. Além de não ter apresentado nada de novo, o debate da Bandeirantes reafirmou uma certeza que sempre guardei. A certeza de que o clima eleitoral no Brasil é mágico a tal ponto de transformar um cenário de desilusão generalizada num ambiente de esperança fácil. Basta que cinco candidatos conversem duas horas sobre os eternos problemas desse país para que os fogos explodam e que a certeza de uma amanhã melhor apareça em nosso horizonte cinza. Não acredito no voto, nas eleições e nem na política. E ainda tenho a reclamar que essa campanha eleitoral está chata. Se não serve para mudar o país, a eleição nem ao menos diverte mais o cidadão. E essa é mais uma vergonha para o nosso currículo democrático. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 2:46 AM Comments: Segunda-feira, Agosto 14, 2006 Jó, um brasileiro Existe um equívoco brutal quando comentam por aí que a paciência é uma das virtudes orientais. Nada mais errado, nada mais falho. Os orientais têm pressa, são impacientes que só eles, e vão dominar o mundo qualquer dia desses porque souberam vender a imagem de que a pressa é mortal inimiga da perfeição e não conduz ninguém à sabedoria. De que forma explicar o crescimento de um país como o Japão, que foi devastado por duas bombas atômicas na década de 40 e que em pouquíssimo tempo já era uma das maiores economias do mundo, sem se utilizar da pressa? De que forma explicar o crescimento vertiginoso da China, média de 10% ao ano, sem falar da pressa? No caso chinês, também podemos falar do trabalho escravo e do total desrespeito ao ser humano quando falamos desse crescimento econômico. Nós, brasileiros, é que temos o dom da paciência. Deveríamos até registrar a paciência como característica de nosso povo, assim como empresas estrangeiras registram artigos da Floresta Amazônia sem a menor dificuldade. Sim, somos capazes de oferecer a nossa outra face tantas outras vezes que o nosso agressor se constrangirá e nos tomará por masoquistas. O Brasil pode, e merece, ser considerado como a terra do perdão incondicional. Um lugar no qual a punição não é necessária, nem incentivada. Uma declaração pública de culpa - também serve uma declaração na TV se dizendo traído - já resolve a sede de justiça de nossa sociedade. E tudo volta ao que era antes. E pacientemente continuamos devagarinho, sem pressa, que é como Deus quer... Porém, também temos os nossos pudores. E que isso fique devidamente registrado. Por mais que possa parecer, carregamos uma ou outra vergonha (não muitas) de prestar esse papel de total inoperância, de absoluta incompetência, de plena demência para com os nossos rumos. Quando a situação aperta e uma explicação se torna indispensável, apelamos para o "não sei". E o "não sei", assim como o "me desculpe" já salvou muita gente de punições merecidas. A corrupção é gritante? Não sei... A violência, pela primeira vez na história desse país (para utilizar uma expressão bastante comum do Executivo), adquiriu ares de terrorismo? Me desculpe... (duas vezes, até porque a forma correta nesse caso seria "desculpe-me"). Não há trabalho, os bancos lucram horrores através de juros absurdos, o nosso crescimento é ridículo em relação aos países vizinhos? Paciência... Estamos desorientados. Para dizer a verdade, nem mesmo as nossas maiores autoridades de pensamento conseguem explicar a nossa apatia diante do que nos é jogado diariamente na cara. A nossa apatia, que também pode entrar na categoria da paciência, chega a ser bela. Um membro do PT de um acanhado Estado brasileiro me disse, com todas as letras, que se esse país fosse um país sério, todo mundo estaria na cadeia. E não me refiro ao caso das sanguessugas. Refiro-me a Delúbio Soares, Sílvio Pereira, José Dirceu, Roberto Jefferson, José Genuíno, Marcos Valério, Luiz Gushiken e o outro, o Inácio Lula da Silva. Além do Mendonça, do Azeredo, etc. Num contexto tenebroso desses em que somos obrigados a vivenciar, cabe uma pergunta: a nossa paciência é fruto da nossa ignorância, da nossa pregüiça ou da nossa arrogância? Sim, porque o brasileiro é arrogante ao chamar o Brasil de melhor país do mundo, com o melhor futebol do mundo. Bom, pressa é o que não temos para responder a essa pergunta. Nem para arrumar esse país! confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 12:29 AM Comments: Sexta-feira, Agosto 11, 2006 Toda fortuna é suspeita Prestei o segundo vestibular da Universidade de Brasília do ano de 2006. Escolhi Ciências Econômicas, após pensar em cursar Filosofia, Letras, Ciências Políticas e História. Não passei, mas tenho uma desculpa pronta e real. No primeiro dia de prova, li durante duas horas as questões do vestibular da UnB tendo como pano de fundo um discurso de Lula. Justamente na UnB, no primeiro dia do seu vestibular do meio do ano, o PT resolve de fazer uma convenção. A culpa, é claro, é da UnB, que permite esse tipo de evento. Mas, se pensarmos um pouco, verificamos que é quase impossível encontrar uma universidade federal que não seja domínio dos petistas. É bastante esquisito definir o que se sente quando você se encontra numa situação dessas: fazer uma prova de vestibular ao mesmo tempo em que Lula está num palanque ao lado do seu local de prova. É uma mistura inusitada de sensações. Primeiro, o nojo. Depois, uma vontade de rir. Estranho é que mesmo com a vontade rir, o nojo não se dissipa. Permanece intacto e ganha ares de único sentimento quando o ser que discursa eleva o tom de voz. Não recomendo a ninguém passar por esse tipo de experiência. Talvez não tenha passado nesse vestibular porque o meu subconsciente me disse que o presidente da República era quem era, então não existia razões para fazer uma segunda faculdade. Nem mesmo uma primeira. Acho que essa é a explicação mais razoável para a minha reprovação nesse vestibular. Além de não ter estudado absolutamente nada, e de ter esperado por um milagre irresponsável. Segundo o sociólogo que trabalha como jornalista e que todos pensam que se trata de um economista, Joelmir Beting, a arrecadação de impostos no Brasil completou ontem (10/08) a marca de meio trilhão de reais. Segundo o mesmo Beting, a marca de meio trilhão de reais através de impostos foi alcançada no mês de setembro no ano de 2005, em outubro no ano de 2004 e em novembro no ano de 2003. O que significa dizer que o governo petista está se especializando em dimunir em um mês a cada ano o valor de meio trilhão de reais em impostos arrecadados. Se a coisa continuar nesse ritmo, numa eventual reeleição de Lula, o governo vai arrecadar meio trilhão de reais em abril do último ano de um segundo mandato do petista. E se a coisa se agravar mais ainda, e um terceiro mandato consecutivo for concedido, ao se abrir as cidras do Ano Novo do décimo segundo ano do governo Lula (e não pensem que ele não trabalha para isso), o governo já teria arrecado meio trilhão de reais. Ah, como Regina Duarte foi profética... A CPI das Sanguessugas pede a cassação do mandato de 72 parlamentares por envolvimento na máfia das ambulâncias superfaturadas. Eu sou adepto dos debates idiotas. Acho que eles são a essência do nosso povo. Quantos gols fez fulano, quantas partidas jogou cicrano, quantos laterias beltrano cobrou. Mas existe uma discursão bem mais legal e que ninguém ainda colocou em números: qual foi a quantia aproximada que mensaleiros e sanguessugas desviaram dos cofres públicos? O povo brasileiro, otário por vocação e inércia, sempre é tratado como tal. Qualquer projeto de aumento de salário, de benefício, de qualquer coisa, recebe logo um argumento contrário mostrando o quanto esse aumento vai pesar aos respeitáveis cofres públicos brasileiros. Aumentar a aposentadoria não pode porque isso vai custar mais tantos milhões aos cofres públicos... Investir em tal atividade é impensável porque isso vai custar mais tantos milhões aos cofres públicos. No entanto, os cofres são públicos (teoricamente). Alguém aí já parou para pensar o quanto a corrupção custa aos cofres públicos? Se a corrupção fosse minimizada, afinal não existe agrupamento humano sem corrupção, esse meio trilhão arrecadado tornaria menos pessoas milhonárias. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 3:31 AM Comments: Quarta-feira, Agosto 09, 2006 Que gracinha! É muito bonitinho o esforço de diversas Organizações não Governamentais para que o voto do eleitor brasileiro seja o mais lúcido possível. Milhares de pessoas envolvidas na conscientização do voto nesse país. Se eu já não estivesse com 3 fios de barba brancos, seria capaz de me unir a mais essa bela tentativa de mudar o Brasil através das eleições. Passaria dias e dias a fio, garimpando dados para fornecer a informação mais fiel ao eleitor patrício. Invejo aqueles que ainda têm esperança no Brasil. Invejo-os sinceramente.... Um projeto que é um gracinha da ONG Transparência Brasil chama-se sabiamente "Excelências" (http://perfil.transparencia.org.br/). Nele, o eleitor plugado na web pode fazer uma verdadeira investigação a respeito dos aspirantes à Câmara dos Deputados. Daí surge a primeira pergunta: E por que não ao Senado também? Com um par de cliques, o internauta descobre que ACM Neto (PFL - BA) tem 820.559,00 reais declarados à Justiça Eleitoral. Descobre-se também que o deputado Fernando Gabeira (PV - RJ) tem duas motocicletas Suzuki no valor de 10.950,00 reais cada. O franciscano Paulo Maluf só declarou à Justiça Eleitoral um patrimônio de 38.949.518,00 reais. Mas o meu favorito é o ex-ministro da Fazenda, Antônio Palocci, que declarou 292.481,00 reais à JE. Trata-se de um exercício bastante interessante verificar os bens dos candidatos à Câmara dos Deputados. Contudo, é preciso ter bastante cuidado para que a diversão não se transforme em frustração. Aqueles que são muito apegados aos bens materiais, que são ligados às coisas da terra e da carne, não devem espiar esses dados, sob pena de devaneios sobre uma provável candidatura ao legislativo no futuro. Geralmente, quem forma a opinião de um país é a sua classe média. A do Brasil está sem tempo para formar a opinião de quem quer que seja. A classe média brasileira está cada vez mais empobrecida, apertada, sufocada, espremida, soterrada. Já que o Estado brasileiro pune com impostos colossais os que se atrevem a abrir uma empresa, o jeito é rezar muito para passar num concurso público qualquer. Uma renda mínima garantirá, ao menos, uma vida de privações... A decadência da classe média brasileira é um tema muito atraente. Não há trabalho para todos e a vida insiste em ficar cada vez mais cara e sem sentido. O índice de depressão está elevadíssimo. Aliás, não sei a razão do suicídio não ter ainda sido considerado uma epidemia. O suicídio, que segundo o escritor Albert Camus, é o único assunto relevante, tem várias faces. Uma das modalidades de suicídio é a aceitação passiva de um cenário bizarro e escabroso. Nessas eleições, existe campanha para tudo. Desde a campanha dos candidatos propriamente ditos, até as campanhas pelo voto consciente e pela proibição de determinadas candidaturas. Porém, quando uma campanha sobre o voto nulo é apresentada, a primeira reação é a de desmerecer tal atitude. Sabemos que a democracia brasileira nunca foi lá essas coisas. Mas estamos vivendo um processo de falência generalizada das instituições nacionais. Tudo está fedendo. Somos obrigados a votar e ainda desmerecem a brutal desilusão de grande parcela da população que pensa em votar nulo. Ou se admite a legitimidade das campanhas que pregam o voto nulo, que é um direito irretocável do eleitor, ou vamos admitir que existe a descriminação, o preconceito contra essa opção saudável e lícita no processo eleitoral. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 11:54 PM Comments: O lucro manda dizer Nos primeiros seis meses desse ano, o banco Bradesco teve um lucro líquido de 3,132 bilhões de reais. Segundo a consultoria Economática, foi o melhor resultado para o período na história dos bancos no Brasil. Nos mesmos primeiros seis meses desse ano, o banco Itaú teve um lucro líquido de 2,958 bilhões de reais. Somando-se os lucros líquidos de apenas esses dois bancos citados, teremos a quantia de 6,090 bilhões de reais de lucro líquido. Esses números merecem ser analisados com um certo cuidado, até porque eles dizem muito mais do que se possa imaginar. Ora, existe um cenário bastante interessante para ser debatido. Se por um lado os banqueiros estão mais alegres e de esquerda do que nunca, por outro lado nunca tivemos uma desilusão tão profunda e generalizada. Insisto em afirmar que essa campanha oficial para que as pessoas votem, mesmo o voto sendo obrigatório, é uma súplica. Todos vêem claramente o que esse sistema político e eleitoral produziu. E que vai continuar a produzir. O povo brasileiro não tem organização e nem cultura para mobilizações capazes de produzir efeitos significativos. Alguém pode citar o caso da mobilização popular que ajudou a derrubar o presidente Collor. Isso não é argumento que se levante devido a alguns motivos. Primeiro, os bancos não lucravam o que estão lucrando nesse governo do PT. Segundo, o momento atual da economia é excelente para o crescimento dos países ditos emergentes, como é o caso do Brasil, que cresce numa média de 3,5% ao ano. Só que alguns países sabem aproveitar melhor o momento. A Argentina cresce 3 vezes mais do que o Brasil há 4 anos consecutivos. Em matéria de crescimento na América Latina, só ficamos acima do Haiti, um país devastado por uma guerra civil e que conta com tropas brasileiras para o seu processo de paz. Na época de Collor, além do confisco da poupança, a coisa não estava tão boa assim para a economia. E detalhe: a corrupção no governo Collor era fichinha perto do que estamos vendo agora. Ainda no primeiro parágrafo, disse que os bilhões de lucro líquido dos bancos dizem muita coisa. Eles dizem, por exemplo, que a violência pode chegar a um ponto inédito, capaz de fazer com a classe média empobrecida e desesperada sinta-se numa guerra real, daquelas que a CNN mostra. Os prédios públicos podem ser atacados, o terrorismo pode florescrer livremente em grandes cidades e os presídios podem continuar a ser centrais telefônicas. O caos pode cantar e correr em ruas famosas. É chegado o tempo da guerra despudorada. Casos comprovados de corrupção podem surgir até mesmo por geração espontânea. Não importa. Membros do Parlamento podem ofender diariamente a inteligência e a dignidade de uma nação. Isso também não tem nenhuma importância. Mesmo porque sempre haverão habeas corpus preventivos e toda espécie de mimos do Judiciário e do Executivo para com deputados e senadores numa situação mais delicada. A qualidade de vida do brasileiro, que já foi para o esgoto há muito tempo, pode se tornar referência para um anti-exemplo de IDH (Índice de Desenvolvimento Humano). O caos enfim pode sair do armário, sapatear cotidianamente sob o sol, e se mostrar a todos como realmente é. Diante de um lucro bancário desses, o impensável torna-se pequeno. A mesma consultoria Economática afirma que desde 2004 (segundo ano do governo Lula) o Bradesco vem quebrando anualmente os seus recordes de lucro. Já o Itaú vem desde 2003 (primeiro ano do governo Lula) se superando a cada ano. 6 bilhões de lucro líquido... Isso diz muita coisa. Algumas coisas são sussurradas. Outras, berradas. O maior dos berros é o que chama a todos nós de débeis. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 2:42 AM Comments: Terça-feira, Agosto 08, 2006 Nada além de uma ilusão É com bastante embaraço que sinto uma necessidade de confessar que fui expulso do gabinete do deputado Fernando Gabeira (PV/RJ) em meados de maio do ano passado. O mensalão nem existia no vocabulário nacional, José Dirceu e Antônio Palocci eram deuses dentro do governo (olha que eles continuam com força, apesar dos pesares) e a oposição se dizia responsável e fiscalizadora. Fui expulso - na verdade foi Gabeira quem me deixou só e saiu afetado - porque perguntei ao deputado sobre os bastidores do seqüestro do Embaixador americano Charles Elbrick em 1969. Mas não sinto nenhum embaraço em declarar que fiquei muito feliz quando soube que o presidente nacional do PSB, Roberto Amaral, chamou Fernando Gabeira de "cretino" e "mau-caráter". Tudo isso porque Gabeira acusou o PSB de ter usado o Ministério da Ciência e Tecnologia para a liberação de emendas para a compra de ônibus para o programa Inclusão Digital, num processo semelhante ao das ambulâncias superfaturadas das sanguessugas. E já que estou no ritmo de confissão, devo dizer que virei fã do saudoso deputado Severino Cavalcanti só por causa da briga dele com Gabeira. Existe um ditado, do qual não me recordo agora, que diz algo mais ou menos nesse sentido: se alguém vive de declarar o que já fez pela pátria, pode ter certeza de que ele vai cobrar a fatura. Seria esse o caso de Gabeira? Será que a biografia de Gabeira o transformou em um político profissional? Fala-se bastante da tal da reforma política nesses últimos meses. Mas o que seria essa reforma política? O que ela iria mudar em nossas vidas? Sou da opinião de que a política é um teatrinho escolar dos grandes interesses financeiros. Nada mais do que isso. A economia é quem manda. Se a política tiver juízo, obedece. A política não passa de um passatempo torpe e sem sentido. Para alguns, a política é a cachaça, o vício mais deslavado. Para outros, o caminho mais curto para se obter privilégios de todos os tipos. Seja de qual forma for, todos estão de acordo quando se fala em fazer a tal da reforma política. Seria interessante para o Brasil acabar com os privilégios colossais dos Três Poderes. Desde os salários absurdos do Judiciários, passando pela capacidade de fabricar medidas provisórias diárias do Executivo, até a eternidade de mandatos do Legislativo. A mais recente campanha do Tribunal Superior Eleitoral diz que o Brasil é tão bom quanto o voto do eleitor. O que a campanha não diz é que mais de 50% dos brasileiros que trabalham estão na informalidade, que temos oficialmente 14 milhões de brasileiros que passam fome, que o Estado brasileiro esmaga o poder de compra da população com uma quantidade de imposto que além de ridícula e desumana. Os políticos, que afirmam querer fazer a reforma política, sobrevivem dessa estrutura morta que é o sistema eleitoral e político do Brasil. Acreditar na política brasileira é o único conto de fadas que perdura até o último dia de vida da grande maioria das pessoas. Enquanto os monstros e os duendes não chegam até a adolecência como certezas, existe um estranho mecanismo de promoção da política como caminho único para as mudanças de vida. A política é ilusão, assim como a bondade dos homens. Um dos pontos fundamentais dessa reforma política, e que provavelmente não vão nem tocar no assunto, é a extinção da figura do político profissional. Aquele sujeito que não sabe fazer outra coisa na vida além de ficar nas conversas de bastidores do Congresso, tramando estratégias há décadas, sendo uma espécie de "enxadrista das trevas". Além da obrigatoriedade do voto, que é uma coisa muita chata e anti-democrática, diga-se de passagem. Que bom que a OAB vetou o projeto de Lula de convocar uma constituinte para a tal reforma política. Que bom que a OAB concorda que o sistema política não funciona mais, que está falido, que apodreceu. Mas o voto é obrigatório! Vai entender... confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 3:15 AM Comments: Segunda-feira, Agosto 07, 2006 Dominó constituinte Não sei como anda o ensino universitário público nesses tempos de governo Lula, mas creio que não mudou muito desde a época em que eu resolvia todos os problemas da humanidade em uma dúzia de minutos e depois a maior preocupação era a de encontrar qualquer estabelecimento que vendesse cerveja a uma temperatura e a um preço razoáveis para alguns estudantes de comunicação. Queria ver a cara dos professores universitários das dezenas de instituições públicas de ensino superior, que em grande parte defendiam o PT como a única esperança para os brasileiros. Gostaria de assistir a alguma aula, em qualquer departamento das ciências humanas, da Universidade de São Paulo. Instituição que é a responsável direta pela aceitação da possibilidade de um torneiro mecânico se tornar presidente do Brasil. Lula enquanto presidente é mais um dos projetos de extensão da USP. Contudo, é importante dizer que esse "projeto Lula" só foi possível depois que um ex-professor da Universidade de São Paulo, o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, sentou na cadeira presidencial por oito anos. Existe um rígida hierarquia na academia. E essa mesma hierarquia foi respeitada na presidência da República. Primeiro, o acadêmico. Depois, o projeto de extensão. O que dizem os acadêmicos petistas a respeito do governo Lula? O PT permanece como a única solução para o Brasil? Os Estados Unidos ainda são o demônio horrendo pintado pela academia brasileira? Fidel Castro, um dos homens mais ricos do planeta, ainda é exemplo de comando para alguém? Antigamente, a universidade era uma espécie de "centro do pensamento". Quando um universitário passava numa calçada qualquer, e ele fazia questão de demostrar que era um universitário pois carregava uma infinidade de livros, toda a vizinha o admirava. Cada qual dizia para si mesmo, numa espécie de transe coletivo: - "Aí vai um sujeito que pensa". Hoje, os cursos universitários são mais comum do que capim em terreno baldio. A ambudância não é o problema. A falta de qualidade desses cursos é que representa o mal maior. Como será que o presidente Lula se sairia num vestibular desses? Bom, dois assuntos da atualidade merecem destaque nesse texto miúdo. O primeiro é em relação à Operação Dominó, realizada pela Polícia Federal em Rondônia. Eu não sou idiota o suficiente para falar mal da PF enquanto o país todo concorda que ela é um exemplo de prestação de bons serviço à nação. Na semana passada, a PF foi a Rondônia e só não prendeu o Bispo de lá. Na verdade, nem sei Rondônia tem Bispo. Deve ter, deve ter... 23 presos, entre eles o presidente do Tribunal de Justiça de Rondônia e o presidente da Assembléia Legislativa do Estado. O povo de Rondônia merece todo o respeito do mundo e mais uma parcela de respeito do universo. Contudo, Rondônia não é o Estado mais expressivo do Brasil. Na verdade, muitos brasileiros nem sabem que Rondônia é um Estado. A Operação Dominó da PF não deve ser aplaudida com o entusiasmo que está sendo. A Operação Dominó não fará cócegas em esquemas de corrupção muito mais expressivos, em Estados muito mais ricos (o juiz Lalau que o diga). A crise em Rondônia é anterior à crise do mensalão. Parece-me que a Operação Dominó foi feita para dizer que a corrupção ainda é punida no Brasil. Eu disse: ainda. O outro tema que merece destaque nessa análise de "fim de festa" é a idéia do presidente Lula sobre a convocação de uma Constituinte exclusiva para a reforma política. Lula disse, em um encontro com prefeito de diversos partidos na cidade de Campinas (SP) no último dia 5 de agosto, que o sistema político está "apodrecido" e que precisa mudar. Lula filosofou a respeito da diferença entre a durabilidade de um mandato de deputado federal e de senador, e em relação a possibilidades de membros de legislativo poderem se candidatar a cargos executivos sem a perda do mandato, e o contrário não ser possível. Disse também que a crise política brasileira vem desde Getúlio Vargas e deu uma aula de história política ao saber o nome de diversos ex-presidentes. Cristóvam Buarque, candidato ao Planalto pelo PDT, disse que existe um forte traço de autoritarismo nessa convocação que o presidente Lula quer fazer. Segundo Buarque, Lula pode mudar a legislação e tornar possível que o presidente possa se reeleger mais de uma vez. Seria uma espécie de "ditadura do torneiro mecânico". Não vou muito com a cara de Cristóvam Buarque (e nesses últimos anos, nem com a do Chico), mas concordo com o senador pedetista: "É preciso, para o bem do Brasil, levar as eleições para o segundo turno". Através disso existe a possibilidade de se adiar um mal. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 2:29 AM Comments: Sexta-feira, Agosto 04, 2006 A quinta categoria do mundo A eleição presidencial, ao contrário do que parece, é um momento frio. Une, é bem verdade, o país em torno de uma mesma atividade, de um mesmo grupo de candidatos, mas por outro lado padroniza aspirações e desejos de tantos tão diferentes. O brasileiro se enxerga e se sente realmente representado nas eleições para prefeito e vereador. Aliás, são essas eleições as mais espontâneas e as mais animadas. O dinheiro que corre nelas nem se compara ao que é investido para se eleger um governador de Estado ou senador. Perto de uma eleição presidencial, as eleições municipais (na maioria dos casos) são franciscanas. Contudo, são mais sinceras, tocam a alma do povo com o seu baixo orçamento e com a sua má qualidade. Até onde se sabe, uma das diferenças fundamentais entre o escândalo do mensalão e o escândalo das sanguessugas é a presença de senadores e governadores nesse último. No mensalão, o dinheiro foi distribuido (até onde se sabe) apenas entre os deputados federais. No caso das sanguessugas, além de 1/5 da Câmara dos Deputados envolvida, existe a denúncia contra 4 senadores e dois governadores (até onde se sabe). Por falar em sacanagem, acabo de lembrar do imperador romano Calígula. Existe até um filme, que leva o nome desse imperador, bastante popular entre adolescentes imberbes e amantes em geral. Ah, os bons tempos da Roma imperial. A Roma que nomeava cavalos para o senado e promovia as orgias de Estado (não é minha intenção fazer qualquer paralelo com a República de Ribeirão Preto nem com o atual Senado). Perdoem-me se estou equivocado, mas acho que o ex-deputado Roberto Jefferson (PTB/RJ) disse que o governo do PT transformou, com a prática do mensalão, a Câmara dos Deputados em uma Câmara Municipal de quinta categoria. Bem, a atualidade não é o momento predileto dos estadistas. Até porque não existe nenhum. E esse fato não ocorre apenas no Brasil. A ONU, a União Européia, Israel, Cazaquistão, qualquer Parlamento atual é uma Câmara Municipal de quinta categoria. Somos obrigados a suportar a desgraça de pertencer a esse momento da humanidade. Al Gore, vice-presidente dos Estados Unidos no governo Bill Clinton, candidato que venceu e não levou as eleições presidenciais no Estados Unidos em 2000, aquele que entregou a taça do Tetra a Dunga em 1994, lançou um documentário sobre o apocalipse através do aquecimento global. O detalhe é que os americanos fazem a maior parte da miséria e ainda lucram milhões de dólares com a exploração desse mesma miséria. Bons tempos em que a França era o ideal de país a ser imitado... O povo diz que quem procura acha. Pois bem... Se existisse uma disposição para se investigar os casos consideráveis de corrupção (não me refiro aos roubos pequenos) que ocorrem dentro dos nossos Poderes, a República perderia a razão de ser. Somente com bastante ingenuidade, com excessiva e abundante ingenuidade, é possível acreditar que o Brasil ainda tem jeito. A brincadeira de defender essa terra a todo custo deve acabar. Somente com a desilusão em massa, aliada às dezenas de revoluções que esperam por acontecer nessa pátria, poderemos pensar que as coisas terão um destino mais satisfatório para nós. Eis um segredinho da história: as revoluções fundamentais, aquelas que representaram uma mudança significativa na vida das pessoas, não vêm através de eleições. Elas precisam de condições adversas, muita raiva e um povo disposto a lutar por algo. Por enquanto, contamos apenas com as condições desfavoráveis. Eternamente desfavoráveis. E uma certeza marcada a ferro quente em nosso subconsciente de que é isso mesmo, e não há quem mude. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 2:25 AM Comments: Quinta-feira, Agosto 03, 2006 E como ainda dói O PSDB é um partido engraçado. Seria possível ser ao mesmo tempo desastrado e elegante? Diria até que o PSDB é o partido mais "inglês" dentre os partidos brasileiros. Ora, quando se é governo, algumas práticas são obrigatórias. Exemplo disso são as festas exuberantes, os ternos impecáveis, o oceano de uísque idoso que é consumido e a arrogância inata de quem governa o ingovernável. E ninguém mais do que o PSDB sabe ser "lord" em meio ao caos perpétuo que é a administração pública brasileira. Como todo e qualquer governo, os tucanos erraram, e erraram feio, quando governaram o Brasil. E o que é mais grave: a desilusão generalizada para com o governo do PSDB foi a responsável pela vitória do petismo nas eleições de 2002. Se não fosse o caos do segundo mandato tucano, o petismo seria apenas a mesma oposição utópica e selvagem que nunca deveria deixar de tê-lo sido. Mas a vaidade e o egocentrismo sempre terão lugar decisivo em qualquer cenário político... Dirão os defensores de Fernando Henrique que o cenário internacional no segundo mandato tucano não foi favorável. Várias crises, e em diferentes lugares e datas, obrigaram o governo a tomar medidas amargas, impopulares. Dirão os defensores dos mandatos de FHC que se Lula vier a pegar uma crise internacional como as recentes crises da Rússia ou do México, a coisa desanda a valer por esses lados de cá. O fato é que a nossa economia, como todas as outras, é refém de investimentos internacionais. E nós não temos armas nem exército para obrigar ninguém a investir aqui. A Bolívia sabe disso mais do que ninguém. Grande parte da nossa população não conta com um poder aquisitivo interessante. Não temos produção de ciência e tecnologia de destaque. Ainda dependemos da exportação de produtos primários para o bom desempenho de nossa balança comercial e exploramos de forma artesanal o turismo. Não temos educação de qualidade e a violência explode em todos os cantos. E ainda nos orgulhamos da miséria de espírito e da covardia intelectual que reina soberana por entre nossas fronteiras. PSDB e PT pertencem à mesma família, à mesma tradição política. Têm a mesma carga genética e são conterrâneos. Vamos deixar os escândalos de corrupção da adminstração petista um pouco de lado dessa vez e falar sobre o governo tucano, que como todo legítimo governo brasileiro teve também os seus escândalos de corrupção. Sob o governo do PSDB, o Brasil passou por diversas tragédias. A crise energética, a compra de votos para a aprovação da emenda da reeleição, a privatização de empresas públicas absolutamente rentáveis ao Estado, o sucateamente dos serviços públicos, a mercantilização sem freios da educação, etc. Ao menos, os tucanos reconhecem que erraram em relação à reeleição. O presidente nacional do PSDB, senador Tasso Jereissati (CE), apresentou emenda à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado propondo o fim da reeleição. E por unanimidade, a emenda foi aprovada ontem. Mas ao que tudo indica, o próximo presidente (se não for Lula) ainda contará com a possibilidade legal da reeleição. A farra da reeleição, ao que tudo indica, morrerá apenas nas próximas eleições presidenciais. E em relação às privatizações? Bom, muita gente diz que as privatizações foram a contrapartida do Brasil para a estabilização da nossa moeda via Plano Real. Quando o câmbio foi artificializado, e o real chegou a valer a mesma coisa que o dólar, a classe média entrou em êxtase. Muita gente que jamais saiu de sua região dentro do Brasil foi até Miami. A Flórida não suportava mais tantos brasileiros, ávidos por tênis e perfumes. Um ou outro estudioso que pensa a respeito da soberania nacional diz que não foi muito patriótico privatizar àreas consideradas estratégicas para o país. Telecomunicações, por exemplo. Sob o aspecto econômico, o custo das ligações baixaram. Sob o aspecto da soberania, estrangeiros controlam as ligações telefônicas brasileiras. Mas uma privatização em particular doeu mais do que qualquer outra em muitos cidadãos. O governo do PSDB teve a coragem de vender a empresa estatal, extramente lucrativa aos cofres públicos como empresa estatal, chamada Companhia Vale do Rio Doce, um dos poucos orgulhos em forma de empresa pública que o Brasil tinha. E agora, em mãos privadas, a Vale do Rio Doce registra um lucro líquido de 6,1 bilhões de reais no primeiro semestre desse ano. Companhia Vale do Rio Doce, a empresa privada que mais investe no Brasil... confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 3:09 AM Comments: Quarta-feira, Agosto 02, 2006 Os números mágicos Vez por outra, não é sempre, tenho lá os meus arroubos de objetividade. Geralmente, a necessidade de ir direto ao ponto demora a aparecer porque tenho lá as minhas obrigações diárias de traçar algumas linhas. Daí, se eu não me utilizar dos devaneios e das enrolações propriamente ditas, ficaria extremamente difícil escrever mais do que duas linhas sobre qualquer tema. Ainda na faculdade de comunicação, quando tentam convencer o estudante de que ele não pode ter opinião ao escrever uma matéria, e que deve a todo custo ser imparcial, entre outras bobagens; o sujeito abomina qualquer letra que não seja absolutamente necessária. Afinal, a lei maior é a da imparcialidade. Mas com o passar do tempo acabamos por sufocar esse impulso infantil e vai ficando mais fácil e prazeroso encher espaços com parágrafos longos, como esse clássico exemplo de anti-lead (o velho nariz-de-cera). Acho que o papel irretocável da imprensa é o de resolver os problemas mais complexos em poucos palavras e num curto espaço de tempo. Afinal, não temos o tempo dos acadêmicos e não contamos com a paciência da população. Tudo deve ser resolvido o mais rápido possível, e de preferência de uma vez por todas. Apenas o futebol conta com o privilégio de ser insolucionável. A política, ao contrário, é tão previsível que chega a ser enfadonha. Muitos por aí estão a escrever ou farão os seus pronunciamentos sobre as razões da permanência do governo Lula. Há exatamente um ano, se não estou enganado, o deputado Valdemar da Costa Neto (PL/SP) renunciou ao cargo de deputado federal por estar envolvido num esquema que ficou conhecido como mensalão. Àquela altura, eu telefona quase que diariamente para o Congresso Nacional e pedia um panorama dos ânimos às minhas fontes. O que escutava era que existia uma certeza absoluta de que o governo do PT não resistiria dois meses aos ataques do também ex-deputado Roberto Jefferson (PTB/RJ). Ledo engano. O governo Lula resistiu aos ataques e às provas a respeito do Mensalão. Até a revista Veja, o veículo de comunicação que faria qualquer intelectual de esquerda vender a mãe para poder escrever num mísero rodapé de página, com capas e mais capas agressivas, não conseguiu derrubar um governo que estava corroído em escândalos de corrupção disseminada. O empresário Luiz Antônio Vedoin, proprietária da Planan, e que está entregando à Polícia Federal o nome dos parlamentares que estão envolvidos juntos com ele no esquema de superfaturamento de ambulâncias, as famosas sanguessugas, pode declarar aos quatros ventos: - "Só não comprei até o último parlamentar porque não quis". Ou então, pode também dizer: - "Esse é o Congresso mais barateiro da história". Vedoin pode falar o que quiser. Não importa o que ela diga. Não há quem se mova para julgar os sanguessugas. E se houver julgamento, antes ou depois das eleições, haverá absolvição em massa, assim como houve a absolvição generalizada dos mensaleiros. O governo Lula, meus senhores, ainda existe devido a alguns números. Assim como o Congresso Nacional está aberto e "funcionando" devido a outros números. Os números que sustentam o governo Lula não são de nenhuma estatística de miseráveis que agora podem ter acesso a algo que antes não tinham. Os números que seguraram, e que segurarão, Lula nesse e em qualquer outro instante são esses: 2,958 bilhões de reais. Esse foi o histórico lucro do banco Itaú no primeiro semestre desse ano. Em comparação com o primeiro semestre do ano passado, o lucro do Itaú no primeiro semestre de 2006 foi 19,5% maior. De abril a junho desse ano, o Itaú lucrou 1,498 bilhões de reais. Esses números são capazes de qualquer coisa. O impossível é uma mera piada para esses números... Com os bancos quebrando recordes sucessivos de lucro, qualquer governo é possível. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 4:00 AM Comments: Terça-feira, Agosto 01, 2006 Piada portenha profética O Brasil é realmente um país inexplicável, único, sem qualquer comparação possível com um outro. Creio que somente por aqui é possível ter uma piada como religião. Sim, é possível que uma anedota - e parece que a piada foi feita por um argentino - se tranforme numa crença inabalável nesse país. Não sei se vocês sabem, mas quando Deus estava criando os países, lá pelo terceiro dia da Criação, ele simplesmente favoreceu a área territorial que futuramente seria o Brasil. Uma capacidade agrícolo invejável, uma beleza natural sem precedentes, um clima ótimo, cachoeiras, chapadas, florestas... Tudo tão lindo que os futuros habitantes dos outros países reclamaram, fizeram protestos e ameaçaram não nascer. Daí veio a resposta divina: - "Esperem para ver o povo que irei colocar lá...". Esse país é muito bem explicado nessa piada profética. E satisfaz àqueles que buscam respostas na religião ou na sociologia. Afinal, nada melhor para se explicar um país do que uma piada. Principalmente se essa piada for feita pelos vizinhos. Para se ter uma pequena dimensão do grau de surrealismo que é viver no Brasil, basta analisar com um certo senso crítico a mais nova campanha oficial sobre o voto. Estão quase implorando para que o eleitor brasileiro vote... O único porém é que o voto no Brasil é obrigatório, e a lei patrícia ainda pune os maiores de 18 e menores de 65 anos que não votam (o que não deixa de ser uma chantagem). A mendicância oficial pelo voto do pobre diabo tem a sua razão de ser. Além de ser uma praxe nesse país essa conversa de que o voto é o caminho para a melhoria da situação, estamos vivendo um período de extrema desilusão para com o processo político. O que talvez poucos não têm dito é que essa desilusão para com o processo político é absolutamente legítima, democrática e sábia. Arrisco até a proclamar que essa desilusão é o maior momento da consciência política de toda a história brasileira. Enfim, nossos dias de sapiência chegaram! Um discurso bem utilizado pelos políticos é o que fala do "julgamento das urnas". Esteticamente, o termo é forte, límpido e com uma enorme carga emotiva. Mas é um discurso falho quando atribui o julgamento de políticos corruptos a milhões de eleitores que são historicamente massacrados por condições de vida desfavoráveis. Eleitor não é juiz. Eleitor, ao menos é o que diz a lógica, é aquele que elege. O que não deixa de ser um julgamento. Porém, é uma julgamento coletivo e que quase sempre descamba para o subjetivo. Onde estão os nossos pintores nessas horas de desilusão? As nossas Guernicas explodem diariamente! Mesmo que a corrupção seja nossa companheira de sempre, chegamos a um período delicado de nossa estima e de nossa cidadania. E gasta-se milhões de reais para uma campanha que incentiva o voto, onde o próprio voto é uma obrigação. Está escrito em nossa lei, infelizmente, que o voto é obrigatório. Por outro lado, o Congresso Nacional está vazio. Parlamentares (quase uma centena deles comprovadamente envolvidos no mais recente escândalo de corrupção) continuam recebendo o salário rigoramente em dia, mesmo que suas atenções estejam voltadas exclusivamente para as eleições de outubro. A piada que atribuem a um argentino pode e deve ser a mais nova religião brasileira. E nada mais lucrativo do que uma religião em tempos de desesperança. Eu, pelo menos, creio que Deus, em sua infinita ironia e sarcasmo para com o homem (especialmente para com o brasileiro), fez exatamente o que diz a piada. E rio. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 2:02 AM
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