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Confraria dos Crônicos
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De crônica, não basta a vida! Comments: Segunda-feira, Julho 31, 2006 O aconchego do lugar-comum O eleitor brasileiro é um coitado. Pior seria se fosse um coitado desiludido, um descrente absoluto. Ao menos existe uma campanha permanente para lembrar que o voto é um instrumento muito importante para a cidadania, mesmo que a cidadania seja a brasileira, e que deve ser utilizado com bastante cuidado. Alguns até vão mais além. Falam que o voto, antes de ser uma obrigação, é um direito do povo. Ou seja, somos obrigados a ter esse direito. Pena que somos obrigados a somente ter esse direito. O eleitor brasileiro está sufocado de denúncias para as próximas eleições. Para saber em quem realmente não deve votar, é preciso um estudo detalhado, uma dedicação exclusiva ao tema corrupção na política. Quase dizia que o eleitor deve cursar uma Pós-graduação em criminologia para estar apto a votar com algum conhecimento de causa. A política no Brasil está ganhando uma nova função nesses tempos de sanguessugas e mensaleiros, algo que precisa ser analisado com maior cuidado pelos cientistas sociais. A política brasileira aos poucos está substituindo o futebol no papel de divã popular. O sujeito guarda todas as suas insatisfações com a vida e descarrega em cima do noticiário político. A madrugada em Brasília traz alguns relatos interessantes. Um deles, que merece ser aqui destacado, é o de um senhor que mora numa das cidades satélites de Brasília. Aposentado, com vários problemas de sáude e pouquíssimo dinheiro para comprar os medicamentos, ele resolveu voltar a fumar depois de mais de quarenta anos de abstinência. Argumentou que dessa forma vai morrer mais rápido e, ainda por cima, tem mais catarro para cuspir na hora do noticiário político. O intelectual italiano Domenico De Masi, sociólogo e escritor, autor do premiado "O ócio criativo", fez lá a sua análise fundamental e indispensável no programa Roda Viva da TV Cultura (não sei a data desse programa) sobre a relação entre as Bolsas de valores e os eleitores. De Masi apenas observou que o poder de pressão e de atuação das Bolsas é diário (ou quase isso), enquanto que o poder de atuação dos eleitores, no caso brasileiro, é de quatro em quatro anos para os cargos mais importantes. Sem considerar as falhas em nosso sistema político. Ou seja, por mais que uma eleição represente o desejo da maioria de um povo, ela ainda sim é um instrumento infinitamente mais fraco do que os grandes investidores internacionais dos mercados emergentes. Seria digno por parte da sociedade brasileira tentar diminuir essa desproporção. Sejamos realistas: apenas diminuir... O escritor português José Saramago, prêmio Nobel de Literatura, desempenha de forma bastante satisfatória para o nosso tempo o papel do intelectual que procura causar o debate nas sociedades. Se bem que as atuais sociedades não estão muito interessadas em debater. Contudo, Saramago é incansável em denunciar a mediocridade do pensamento vingente. Uma das mediocridades do pensar atual, segundo o português, e eu concordo, é aceitar o atual modelo da democracia eleitoral como sendo algo que não mereça aprimoramento, que não mereça questionamento, que não mereça alterações. E eu, que já passei da fase nacionalista, e que sou produto do meu tempo e do meio em que vivo, apenas busco algum conforto material para o resto de vida que ainda tenho. Conto com um mínimo de leitura para saber que a política não passa de um reflexo da natureza íntima dos homens: o esgoto. Ontem, quase 40 crianças libanesas foram mortas com os ataques do exército israelense no sul do Líbano. O eleitor brasileiro, os intelectuais e os jornalistas vivem de jargões: Somente com o voto é possível mudar a situação; o voto é a nossa única arma, cada povo tem o governo que merece. Então, aí vai mais um pensamento-jargão: Quantas crianças brasileiras morrem diariamente por cauda da corrupção na política? Não sei. Só sei que apenas com o nosso voto podemos mudar essa situação. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 1:54 AM Comments: Sexta-feira, Julho 28, 2006 Picadeiro-Brasil As eleições são irrelevantes para o nosso futuro! O melhor programa de governo, o candidato mais preparado, o ser humano mais bondoso que já existiu; seja quem for o próximo presidente, nada será alterado para melhor. E por falar nisso, é bom que os brasileiros se preparem para depois das eleições. É claro que se o presidente Lula for reeleito, ele não terá o índice de aprovação que contava logo no início do seu primeiro mandato. Apenas para clarear a memória: quem não se lembra da tietagem em torno do presidente eleito nos primeiros meses de governo? As pessoas acampavam em frente à Granja do Torto para tirar fotos com o presidente, apertar a mão do presidente e dizer que confiavam seus destinos àquele homem. Não duvido que tenham levado crianças doentes, homens cegos e mulheres sem honra para a bênção presidencial. Aproveitando essa louvação em torno de Lula, o governo taxou os aposentados. Os beatos do PT, até mesmo os aposentados, diziam publicamente que eram favoráveis a essa medida. Afinal, é preciso ter espírito cívico para que a previdência social não quebre... Se Lula for reeleito, ele certamente tomará outras medidas impopulares e desnecessárias logo após as eleições. É nesse período que o presidente, contando com o lastro dos votos que recebeu, se sente mais confortável para fazer o que num outro momento seria impossível. Vamos esperar que mais direitos sejam perdidos e que a vida se torne ainda mais difícil. Lembro com uma nitidez incômoda de quando Lula se elegeu. Falar mal do governo era quase um crime. Questionar a capacidade intelectual do presidente era um ato de traição e frustração. Petistas ou tucanos, o certo é que são paulistas. Lendo o livro "Jornalismo Político", do jornalista Franklin Martins, achei uma frase em tom de brincadeira de Tancredo Neves (página 66) que ilustra com precisão os políticos do Estado mais rico da nação. Dizia o presidente eleito indiretamente que jamais chegou a tomar posse: - "Em política ninguém é paulista impunimente". Segundo o autor, Tacredo disse isso porque os políticos paulistas trombam mais do que o necessário e brigam mais do que é preciso. Diferente dos mineiros, discretos por natureza (Itamar Franco é a exceção que confirma a regra). Sempre que posso, digo que o sistema político do Brasil está falido. Trata-se de um tique, um gaguejo. E não custa nada dizer também que a mudança na política não virá através dos políticos pelo simples fato de que eles se nutrem desse sistema que já morreu há tempos. Os políticos são as bactérias saprófitas do sistema eleitoral em decomposição. E não pensem que eles vão alterar algo, pois se alimentam da falência generalizada do Estado, que se reflete nitidamente no processo eleitoral fracassado, mas que conta com a apuração de votos mais eficiente do planeta. Num dia desses, ouvi de um estudioso do comportamento humano que estamos na Era das aparências. Não valia mais nada ser ou ter. O que importa hoje é parecer. Se você convence os outros de algo, isso é o mais importante. Por exemplo, um sujeito que é político profissional e que está em sua quinta campanha eleitoral consecutiva para presidente da República, mas que só tem estudo suficiente para não ser analfabeto, parece para a grande maioria do povo brasileiro a melhor opção para governar o país. Se bem que esse mesmo povo possui milhões de analfabetos e miseráveis. As eleições no Brasil representam uma bendita esmola para os que são miseráveis de DNA. Mesmo que nada mude, ou que só piore, as eleições obrigatórias obrigam também os políticos a soltar o dinheiro que lhes enchem as contas bancárias no estrangeiro. Parece um bom negócio. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 4:04 AM Comments: Quinta-feira, Julho 27, 2006 Dunga Não pensei em escrever tão cedo sobre futebol. Apesar de estar certo da nossa derrota, não foi fácil ver o Brasil ser eliminado daquela maneira na copa do mundo. Tive o compromisso de me abster de comentar sobre a seleção brasileira, voltando as minhas atenções futebolísticas para o meu glorioso América, o Mecão. Porém veio a surpresa do nome do novo técnico da nossa tão antes estimada seleção. Dunga, ele mesmo, sem nenhuma experiência no cargo de técnico, será o responsável por reerguer a moral da nossa camisa amarela. Será que com o Dunga um dia iremos vencer a França? Será que alguém ainda vestirá a camisa amarela no auge de sua forma física? ... ou a vestirá com amor e respeito, respeito à milhões de torcedores, respeito a uma nação inteira, que tem no futebol o seu maior ópio! Isto são cenas dos próximos capítulos. Aí vale o tão surrado: só o tempo irá nos dizer ... Ouvi nesta semana vários comentários sobre a escolha de Dunga para o maior cargo do nosso futebol, quase todas superficiais e medíocres. Não sei se ele vai ter sucesso, mas uma coisa é certa, Dunga tem o perfil certo para o cargo. Sobre a experiência como treinador, vale semanas de discussão e um monte de argumentos. Experiência por experiência, Parreira é técnico desde os oito anos de idade. Estava na África desde mil oitocentos e alguma coisa, nunca fez nada na vida além de dirigir times, e não conseguiu comandar um grupo de ¿Pseudo-mercenários¿ que não sabem que uma equipe é muito mais forte que onze craques de bola. Sobre a copa de 94, ninguém em sã consciência acredita que Parreira fez algo além do que fez neste mundial. Os heróis daquele título foram Romário, o baixinho genial, impecável ... e Dunga, isso mesmo, Dunga. Como disse Juca Kfouri: - Dunga domesticou Romário! Responsável direto por colocá-lo nos eixos, companheiro de quarto de Romário e seu fiel adestrador. Em 94 tínhamos um técnico em campo, alguém que fazia o time jogar, que esbravejava, um Felipão (que jogava junto com o time), dentro das quatro linhas. Por falar nisso, quem foi o líder do Brasil nesta Copa? Quem chegava juntos dos jogadores para cobrar empenho e respeito pela Seleção? Quem era capaz de se indignar com as más atuações ao longo do torneio? Parreira? Cafu? ... não me façam rir!!! Não me venham falar de experiência, que perco a compostura. É graças a apostar na experiência que estamos neste mar de lama nacional há décadas. É por confiar que experiência é a saída que elegemos sempre os mesmos candidatos, os mesmos técnicos , os mesmos jogadores. Viva a inexperiência. Viva a aposta naqueles que tem o potencial para fazer algo. Viva a ousadia em privilegiar os que têm garra a sede de vitória. Viva aos passionais, emotivos, aos que se irritam com a derrota, aos que não se contentam com o empate, aos que encaram a seleção Brasileira do jeito que a torcida encara. Se Dunga é o homem eu não sei, mas o nosso técnico tem de agir como ele, como sempre fez dentro das quatro linhas. Ao Dunga boa sorte, e obrigado pela Copa de 94. Do Aditor GustavoGT Natal 27/07/06 postado por: RODOLFO TORRES 9:36 AM Comments: A explicação razoável Para quem não sabe, Brasília tem a forma de um avião. Cidade planejada tem dessas coisas... Não é como uma vila que cresce sem nenhuma ordem e acaba por ser tornar um figura sem forma definida, sendo apenas um amontoado de gente que vai ocupando áreas até então desertas, expandindo por expandir os limites dos municípios. Brasília, que já nasceu capital federal, não tem o formato de avião à toa. Segundo a jornalista brasiliense Solange Pereira Pinto, Brasília tem a forma de um avião porque a saída para o Brasil é o aeroporto. Geograficamente, Brasília não passa de um mero interior de Goiás. E já que não é possível se livrar absolutamente da geografia, Brasília carrega consigo as dádivas e as mazelas de um outro interior qualquer de Goiás. Dentre os aspectos negativos, posso citar sem menores dúvidas o clima. Os programas locais de TV não cansam de entrevistar autoridades na área da saúde, explicando que os habitantes de Brasília não devem tomar muitos banhos, nem banhos longos, nem banhos de água quente. E ainda aconselham apenas a molhar a região genital, axilas e cabeça. Tudo por conta da baixa umidade relativa do ar, que anda abaixo dos 20% nesses dias. Dentre os aspectos positivos, poderia citar o céu do Planalto Central. Dizem que van Gogh adorava a cor amarela... Se van Gogh estivesse em Brasília num pôr do sol qualquer, nem precisava ser um especial, tenham a mais absoluta certeza de que teríamos um quadro desse pintor holandês como bandeira do Brasil. A morte do sol em Brasília deve ser vista, ao menos, uma vez na semana. Essa cidade foi construida em pouquíssimo tempo. JK não economizou para erguer prédios no meio do nada. Trouxe milhares de trabalhadores, em sua ampla maioria nordestinos, para levantar a nova capital do Brasil num tempo em que Ipanema era só felicidade. Naquela época, final da década de 50, as condições de trabalho para os operários da construção civil não eram lá as melhores. Baixo salários, péssimas condições de trabalho, carga horária excessiva. Muitos trabalhadores morreram em acidentes nas obras. Outros, segundo relatos seguros, foram mortos, assassinados à bala, e enterrados em valas coletivas. Exigiam melhores ordenados e estrutura digna para o ofício, e foram fuzilados. Há quem garanta que debaixo da Esplanada dos Ministérios, existe uma infinidade de ossos de candangos da época da construção dessa cidade. Todos assassinados. Há quem garanta, inclusive, que esses espíritos atormentam a vida pública nacional, fazendo com que o nosso Brasil seja o que é: uma zona. Quem caminha na Esplanada à noite, e tem um certo nível de mediunidade, é capaz de ver vultos e ouvir lamúrias dos antigos trabalhadores. E, é claro, há quem diga que isso é um absurdo. Absurdo por absurdo, prefiro acreditar nas almas atormentadas dos trabalhadores braçais que foram mortos a tiro durante a construção da capital da República do que num sistema que não tem a mínima disposição e competência para punir políticos mensaleiros e sanguessugas, além de empresários que fraudam licitações do governo federal com a preciosa ajuda de funcionários públicos. Temam os vivos. Os muito vivos. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 2:45 AM Comments: Quarta-feira, Julho 26, 2006 Índio quer novembro Vamos imaginar apenas por um pequeno instante que a coisa mais importante para todas as vidas é o dinheiro. Há quem diga que o dinheiro não só é a coisa mais importante da vida, mas é a única coisa importante na vida. Verdades à parte, o fato é que construi um cenário hipotético para iniciar uma explanação e pretendo segui nessa linha até que o número de parágrafos seja satisfatório para a plena realização do meu dever. O Congresso Nacional é hoje, além de várias outras coisas, um local onde mora uma certa modalidade de saudade. Saudade do ex-presidente da Câmara, o ilustríssimo ex-deputado Severino Cavalcanti. É certo que para a esmagadora maioria do país, Severino Cavalcanti não deixou nenhuma saudade. A grande imprensa não cansava de chamá-lo de antiquado, representante emblemático do velho modo de se fazer a política dos coronéis nordestinos, etc. Entretanto, para os funcionários do Congresso Nacional, Severino era mais do que o terceiro na hierarquia da República. Severino era um pai. Severino estava próximo da santidade . Na abertura da Copa do Mundo, exatamente no jogo Alemanha e Costa Rica (o jogo era esse mesmo?), eu estava perambulando por entre os corredores de um dos anexos da Câmara dos Deputados. O clima eufórico do mundial de futebol já se apossara também daquele prédio e em todos os rostos a vitória da seleção brasileira era certa. Um funcionário do local, que exalava a mais completa frustração com o rigor do atual presidente Aldo Rebelo (PC do B/SP), declarava seu mais completo banzo por Severino: - "Severino era um bom presidente. Depois de alguns jogos do Brasil nessa Copa do Mundo, teremos que voltar para continuar o expediente. Se fosse na época do doutor Severino, ele decretaria logo um feriado. E ainda colocaria uma gratificação, que é pra comprar a cervejinha e a carne do churrasco.". Mas os tempos são outros... Não saberia dizer se a teoria do atual governo sobre o índice de corrupção é certa. Para o atual governo, a corrupção atualmente está aparecendo mais do que aparecia em outras épocas, o que demonstra um aparelho de investigação que atua hoje muito mais eficiente do que o do passado. Contudo, nem todos são partidários dessa teoria. Há que diga que antigamente existia uma certa ética na corrupção, um pudor na roubalheira. O exemplo mais taxativo é o do parlamentar corrupto que ainda pensava no leite da merenda das crianças famintas ou nos doentes sem leito dos hospitais da periferia e do interior e perdia alguns minutos de sono. Mas depois de uma dose uísque importado, qualquer sono é embalado por anjos nórdicos. A paranóia que reina entre os candidatos à presidência da República nesse período é a da supervalorização da honestidade. A candidata à presidência e senadora da República Heloísa Helena (PSOL/AL), por exemplo, acaba de demitir o seu assessor de imprensa, Airton Jacinto Filho, porque Airton estava utilizando o gabinete da senadora para enviar a agenda de Heloísa Helena, via e-mail, aos jornalista. Ou seja, Airton Jacinto Filho estava utilizando a estrutura pública do Senado Federal para fazer campanha para a senadora. Resultado: foi demitido. Suponho que Airton Jacinto Filho, mais conhecido como Índio, seja jornalista. Mesmo que não o seja, desempenha a função de um jornalista. E como o corporativismo entre os jornalistas não é o forte dessa categoria, vou tratar de defender esse suposto colega. Ora, existem crimes e crimes. Ele bem que poderia apenas ter sofrido uma advertência formal, como a deputada dançarina da pizza, ou ser condenado a transcrever os dircursos do senador José Jorge (PFL/PE) sem bocejar. Poderia ficar sem receber o salário do mês e doá-lo para o próprio Senado, numa sincera demonstração de arrependimento. Afinal, basta o arrependimento para se chegar perto do Pai. O grande consolo do Índio é que ele mesmo sabe que essa paranóia da correção a todo custo, da necessidade de dar o exemplo irretocável da ética, tem data de validade. Quando outubro passar, tudo volta ao que era antes. Volta, inclusive, o deputado que foi o mais querido dos presidentes da Câmara: Severino Cavalcanti. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 3:54 AM Comments: Terça-feira, Julho 25, 2006 A má educação Os debates acéfalos sempre me encantaram. Bom, esses debates sem fundamento e a má qualidade dos representantes públicos são a razão maior do meu amor pela política partidária do Brasil. Eu sinceramente gostaria de encontrar um povo que seja representado de forma tão ruim como nós somos. Esse título é nosso, ao menos. Confesso que tive uma educação cara e de péssima qualidade, que excluiu disciplinas indispensáveis como a sociologia e o latim em momentos preciosos na formação de um indivíduo. A educação que recebi apenas me desgastou em horas improdutivas para realizar cálculos sem sentido. Quando, por fim, deixei o colégio para prestar o exame vestibular, sabia a diferença exata entre as ligações das moléculas de carbono. Mas não sabia a diferença entre um deputado federal e um senador. A educação no Brasil é burra, assim como a saúde é doente e a virtude é depravada. Eis um teste bastante simples para ser aplicado no cotidiano: pergunte ao sujeito mais culto que você conhece qual é a diferença entre um senador e um deputado federal. É quase certo que o sujeito vai enrolar, e muito, para responder. Se é que vai responder... O tema educação não é, nem de longe, uma apologia ao candidato Cristovam Buarque. Entre ele e o presidente Lula, prefiro o Lula. O Lula ao menos é divertido, sempre fala bobagem, é capaz de envergonhar o povo brasileiro sempre que possível. Cristovam fica só naquela conversinha de educação, com aquele olhar morto, aquela apatia... A ignorância, assim como a figura do político corrupto, é patrimônio nacional. E não será esse ou aquele sujeitinho quem vai alterar uma realidade erguida com muitas mortes e com o desespero historicamente institucionalizado. Já que tocamos no nome do presidente Lula, ele acaba de inaugurar hoje com um comício o seu comitê de campanha no Setor Comercial Sul de Brasília, que terá uma manutenção mensal avaliada em 500 mil reais, segundo a própria direção do PT. Como sempre, o presidente tocou naquela velha tecla do nordestino, sem estudo, que conseguiu fazer o que nenhum outro presidente da República fez em toda a história do Brasil. Realmente, Lula fez com que a corrupção se tornasse enfadonha em nosso país, além de dar lucros astronômicos aos bancos. Somente o Bradesco lucrou 1,5 bilhões de reais nos três primeiros meses desse ano, segundo a Gazeta Mercantil. Daí, temos a figura do presidente que se diz representante do povo, mas que favore como ninguém os banqueiros através de uma política econômica cruel e extremamente conservadora. Sem contar que a corrupção jorra nesse governo com uma força impressionante. Temos o chato que só fala em educação. Também achamos a senadora que só saiu do PT à força, e que repete o mesmo discurso falido do antigo PT da oposição. Contamos ainda com o candidato do PSDB, que é um partido irmão do PT e extremamente perigoso para as empresas públicas, afinal o PSDB não pode ver uma estatal que quer privatizá-la. Ainda temos três candidatos sem expressão: Luciano Bivar, Eymael e Rui Pimenta. Contudo, é necessário esclarecer o eleitor. Seja quem for o próximo presidente, não há muito o que mudar nesse país. É preciso votar consciente de que a mudança jamais virá através do voto. Quem sabe, a mudança venha com uma educação que ensine a diferença entre deputados federais e senadores. Quem sabe... confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 2:13 AM Comments: Segunda-feira, Julho 24, 2006 Filosofia do remédio Um dos ditados populares que mais se aplica à atual situação em que se encontra o nosso sistema político é aquele que diz: Aquilo que não tem remédio, remediado está. É com esse espírito, que também tem a sua infinita sabedoria, que vivemos boa parte de nossas vidas. Quem se dedica a estudar temas como diplomacia comercial, geopolítica, transações financeiras internacionais, globalização, e outros assuntos espinhosos há de reconhecer que o brasileiro que adota essa filosofia do remédio é um sábio em potencial. O mundo cospe no Brasil. O Brasil cospe no Brasil. O jeito é aceitar esse triste cenário. E não adianta bufar de raiva diante da fábrica de escândalos que é o Congresso Nacional brasileiro. O mais aconselhável é manter a calma ou deixar o país. A pregüiça de fazer as revoluções urgentes é conseqüência dessa sabedoria que carregamos. Essa mesma sabedoria também guia uma estranha unanimidade na imprensa em relação ao caso dos políticos (e ex-políticos) do legislativo e do executivo envolvidos no esquema das sanguessugas. A voz única é essa: não existe tempo antes das eleições para que o crescente número de políticos seja julgado. Isso é a mais pura verdade, até porque um julgamento é um processo lento, dolorido e que se serve frio. Contudo, não existe nem ao menos a intenção de impedir a candidatura de sujeitos que comprovadamente estão envolvidos em mais esse escândalo que só demonstra o quanto o Estado brasileiro pode ser um verdadeiro tesouro. Nesse estágio da vida política em que nos encontramos, o mais honesto é admitir que não existem mais saídas para a nossa triste condição de cidadãos de um país condenado a ser medíocre. É preciso ter a consiciência de que o nosso sistema político está falido, e que o ato obrigatório de votar nada mais é do que um mecanismo que transforma milhões de famintos em cúmplices do que está sendo apresentado. Eu bem sei que o papel do intelectual nesses dias de hoje está mais do que deturpado. Ninguém mais respeita o intelectual, nem mesmo os intelectuais se respeitam. Mas uma coisa que não muda no intelectual é a pose. A degradação do pensamento pode ser a maior que já se teve notícia, mas a pose permanece intacta. E nesse cenário de desrespeito, e de corrupção generalizada, surge a figura do intelectual que ainda sobe em palanques de candidatos à presidência da República para declarar o seu apoio a esse ou aquele nome... Liberdade de expressão é algo que deve ser incentivado, mesmo que sob certas condições. O sujeito escreveu as suas poesias, as suas peças de teatro, os seus ensaios e romances... Mas de uma hora para outra, sente um desejo incontrolável de subir num palanque eleitoral, uma incontinência ideológica, apesar do dantesco contexto político. Alguém pode dizer que é justamente por causa desse contexto dantesco que o intelectual subiu no palanque. Mas não é bem assim... A ditadura da lógica diz que esse modelo político que estamos presenciando apenas nutre o que somos obrigados a observar diariamente: o mais profundo desrespeito à condição humana do povo brasileiro. Nessas eleições, os palanques serão invadidos pelos mais variados intelectuais. Trata-se da eterna ligação entre o poder e a produção artística em países como o Brasil. Alguns justificam a ligação com a política através da filosofia do remédio. Outros fazem questão de morrer doentes. Não me perguntem quem é o pior, pois nem eu sei. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 2:24 AM Comments: Sexta-feira, Julho 21, 2006 O troco do pão O assunto do dia foi a cifra bilhonária que os 18 mil candidatos que vão concorrer às próximas eleições apresentaram ao Tribunal Superior Eleitoral: 16, 6 bilhões de reais. A quantia é duas vezes supeiror ao dinheiro destinado à educação para esse ano, segundo matéria publicada no jornal O Globo. O valor, na verdade, se aproxima dos 20 bilhões de reais, mas analistas consideram que existem equívocos por parte de alguns candidatos na declaração de custos de campanha. Para se ter uma idéia de quanto as eleições custam, somente os candidatos à presidência da República vão gastar oficialmente 279 milhões de reais (sem o caixa 2). As campanhas do presidente Lula e do seu principal adversário, Geraldo Alckmin, somadas vão gastar 174 milhões de reais (sem o caixa 2). Lula apresentou a quantia de 89 milhões de reais e Alckmin, 85 milhões de reais. Há uma movimento que envolve gente de todos os partidos e planetas que pede a aprovação do financiamento público das campanhas políticas. O argumento é que somente através dessa medida, o caixa 2 (financiamento não declarado) seria extinto. Ou seja, trata-se ao mesmo tempo de uma chantagem e de um atestado de continuidade de práticas ilegais. Num país que não investe decentente em áreas essencias, como as esquecidas saúde e segurança (apenas para ficar nessas duas), o financiamento público das campanhas chega a ser uma idéia obscena. Mas não existe nada mais chato do que o brasileiro que espera que o Brasil se transforme numa Suíça. O povo brasileiro nunca terá a qualidade de vida do povo suíço. Devemos ver a política como um teatro, jamais como um caminho para que os nossos problemas sejam resolvidos. A política serve para resolver os problemas dos próprios políticos. Para isso, ela é infalível... Voltemos ao números. O brasileiro é um bom pagador de impostos. Sempre foi. E para piorar, o brasileiro em grupo não tem inteligência suficiente para reclamar da quantidade de impostos. A grande maioria, inclusive, nem sabe quanto paga de tributos. Quem se arrisca a abrir uma empresa no Brasil é condenado a pagar impostos como se estivesse pagando por um crime hediondo. A equação-Brasil é mais ou menos essa: desemprego colossal + impostos exagerados + miséria genética = hoje. Se alguém acha que a quantia de 16, 6 bilhões de reais, apresentada pelos 18 mil candidatos ao TSE, é exagerada, certamente desconhece um site bastante simpático criado pela Associação Comercial de São Paulo. O Impostômetro (www.impostometro.org.br) calcula o valor dos impostos pagos pelos brasileiros por ano, mês, dia, hora, minuto e segundo. Se alguém tiver a curiosidade de saber quanto os cidadãos do Acre pagam de impostos por minuto, essa curiosidade será saciada. Na cidade de São Paulo existe até um painel eletrônico que mostra o valor que pagamos ao governo. É bastante educativo ver quanto o governo arrecada, principalmente se você é um devedor, como a grande maioria dos brasileiros. 16 ou 20 bilhões de reais, o fato é que esses valores astronômicos não representam nem a metade do que o governo arrecadou nesse atual mês (julho de 2006). Há quem comemore a declaração desses valores ao TSE, baseado nas cifras oficiais de outras eleições. Afinal, nas eleições passadas, menos de 150 milhões de reais foram declarados como estimativa dos gastos dos candidatos. A campanha anterior era obrigatoriamente mais cara do que essa atual. Tinha os brindes, as apresentações dos artistas, o caixa 2. Essa, ainda sem o caixa 2, está duas vezes mais cara. Deu pra entender o tamanho do caixa 2 da última campanha? confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 2:45 AM Comments: Quinta-feira, Julho 20, 2006 Deus é do judiciário? Uma estatística perdida por aí revela que 1 em cada 5 parlamentares está envolvido em alguma esquema de corrupção. Ou seja, por essa análise numérica, 20% dos parlamentares são corruptos. Ah, a bondade dos números... Daí, quando alguém esboça um simples questionamento sobre a razão da existência do Congresso Nacional diante de tantos episódios de roubalheira, há sempre alguém que levante a voz para dizer que é melhor um Congresso desse jeito do que a não existência do Congresso. E falam como se essa situação fosse a única possível. Ou esse Congresso que aí se apresenta ou a ditadura. Eis um panorama infernal. Bom, admiro o maniqueísmo. Não existe forma mais simples para se construir uma argumentação do que essa. Ou é isso, ou é aquilo. O diabo é que o infinito mora entre o preto e o branco... Mas vamos admitir, num exercício de boa vontade, que o maniqueísmo facilita demais a nossa vida. Torna tudo mais ágil; porém também torna tudo mais burro. Os argumentos que são divulgados por aí para tentar justificar os absurdos que por aqui acontecem são encantadores. Lembro perfeitamente quando vários governistas disseram que apenas as urnas tinham a autoridade para julgar os episódios de corrupção que sangravam o governo petista naquele instante. À época, agosto de 2005, muita gente acreditava que o governo Lula não chegaria até o ano de 2006. Contudo, quando se diz que as urnas vão julgar, também se diz que o candidato é réu. E há nesse paralelo uma verdade irretocável, de uma justiça celestial, de uma precisão divina. Contudo, as eleições jamais serão os melhores tribunais para os políticos. Se bem que tribunal para político no Brasil é algo tão inusitado quanto justiça social ou educação gratuita e de boa qualidade. E nós, otimistas vocacionais, nutrimos a certeza de que algum dia a coisa vai melhorar. Afinal, Deus há de ver que somos merecedores de algo melhor, de algo mais digno. Dizem por aí que o número de deputados evangélicos envolvidos com as sanguessugas do Congresso pode aumentar consideravelmente. Também dizem que somente o saudoso ex-deputado Bispo Rodrigues liderava uma bancada de mais ou menos uns vinte e tantos deputados. Falam, falam, falam e não dizem o essencial. Sábio é aquele que entrega a solução dos problemas nacionais para um outro plano, melhor do que esse em que estamos. Uma análise detalhada não é necessária para chegar à conclusão de que as nossas leis têm uma forte influência de organizações criminosas instaladas no Congresso Nacional. Sem puritanismo ingênuo: se criminosos são responsáveis pela elaboração das nossas leis, o que podemos esperar do Estado? Essa é uma constatação sem mágoa e sem partidarismo. Apenas uma reflexão produzida pelo cansanço de quem não agüenta mais a vergonha de pertencer a uma nação falida. Há um câncer no Congresso Nacional. Na verdade, trata-se de uma metástase (quando o câncer se espalha e leva à morte em pouco tempo). Eu diria que já estamos mortos enquanto país. Não sei se vocês sentem um cheiro de bicho podre toda vez que mais um escândalo de corrupção explode em Brasília... Sábio é quem entrega tudo nas mãos de Deus. Principalmente a política dos homens. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 2:25 AM Comments: Quarta-feira, Julho 19, 2006 Mais um escândalo que dá sono 57 parlamentares estão sendo investigados pela Procuradoria-Geral da República por envolvimento em mais um criminoso esquema dentro do Congresso Nacional. E há quem afirme que falta dinheiro para investimentos em áreas essenciais...A vergonha da vez é a compra de ambulâncias superfaturadas e políticos do Brasil inteiro estão representados nesse caso. Mas a vida teima em seguir sem maiores atropelos além dos que já existem. A lista com o nome dos políticos está disponível em um monte de sites na internet e já foi apresentada pela televisão. E o que é mais grave: já foi apresentada até pelo Jornal Nacional. O que significa dizer que a lista foi vista. É válido ressaltar que a simples presença do nome de um parlamentar não significa dizer que ele necessariamente está envolvido com a mamata. Alguns acabaram de sair de outros escândalos e já se encontram nessa situação chata. Chata para o político, que de uns tempos para cá não é deixado em paz; chata para as instituições, que ficam um pouco desacreditadas; e chata para a sociedade, que é feita de boba mais um vez. Os editoriais dos jornais têm a baba espumante dos cães raivosos por conta da impunidade que existe por aqui, por conta da falta de mobilização da sociedade civil, e por aí vai. Mas são esses mesmos editoriais que defendem a obrigatoriedade do voto e que pregam que o voto é o único caminho válido para as mudanças que o Brasil precisa. Nada mais estranho do que defender uma democracia que é fabricada por um modelo fracassado. Num país onde a fome é uma instituição nacional, onde a miséria baila todas as horas nas ruas, onde a esperança é cultivada de forma errada e covarde, onde o desemprego espanca há anos a medíocre classe média; num país como esse é sábio ter a reação que a maioria dos brasileiros têm diante dos casos de corrupção na política: indiferença. Para o povo, o povão mesmo, o caso das sanguessugas não passa de um estranho noticiário na TV. O que o povo quer ver mesmo é o resultado do jogo de seu time, a nova namorada do jogador milhonário que defende um clube na Europa, uma apresentação de uma grupo musical qualquer com dançarinas provocantes, o resultado da loteria, a nova capa de uma revista masculina de mulher pelada, o julgamento da menina rica que matou os pais para poder namorar livremente... Contudo, o povo gosta de eleição. Afinal, eleição é (ou era) sinônimo de festa, de empolgação, de uma estranha torcida para que alguém ocupe um cargo não sei onde, não sei pra quê. A eleição é, e continuará sendo, o fenômeno responsável pela maior distribuição de renda que conhecemos. É quando o pobre recebe um trocado para tomar a sua honrada cachaça, para fazer aquele quartinho nos fundos da casa, para levantar um muro. Nos bons tempos, até ganhava lá a sua camiseta ou o seu boné. Porém, o povo torce para o candidato com a sincera empolgação dos verdadeiros torcedores. Ambulâncias superfaturadas, sansessugas, lista com 57 deputados. Nada disso é importante para milhões e milhões de brasileiros, que quando ouvem a notícia de que mais uma CPI está trabalhando no Congresso, um sábio cansaço lhes toma por completo. Além de uma certeza ancestral de que nada pode ser solucionado nesse Brasil com a ira dos mais pobres (de finanças ou espírito). confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 2:59 AM Comments: Terça-feira, Julho 18, 2006 Reflexões de um bispo É preciso admitir que essa campanha presidencial até agora está muito chata. Alguém pode até dizer que estamos apenas no começo de uma seqüência de dias que prometem litros e mais litros de sangue desonrado. E que esse mesmíssimo sangue inundará os lares mais sacros do país, horrorizando famílias. Porém devo discordar. Nenhuma baixaria é pouca quando está em jogo o controle de um orçamento colossal como é o orçamento de um país com a carga tributária do Brasil. O governo federal arrecada, por segundo (1/60 de um minuto) algo em torno de 23 mil reais. Sei da existência de várias pessoas que matariam a própria mãe para ganhar o faturamento de um mísero segundo da União. Não sei se é necessário dizer que a coisa mais importante na vida, em todas as vidas e na maioria das épocas, é o dinheiro. Por dinheiro, o homem faz o impensável. Por dinheiro, o homem se torna sublime. E na política então, não é necessário afirmar que o maior argumento nas rodas palacianas é o dinheiro. Houve um tempo em que as pessoas que vendiam a alma eram condenadas por esse ato. Hoje, quem não tiver um comprador para a sua alma é um perdedor. Um miserável. Alguém que deve ser mantido vivo apenas pela caridade de instituições distantes e que de preferência não ligam para as nossas casas pedindo dinheiro. Já que o dinheiro é o alimento maior da alma, não existe necessidade de espanto para a declaração do empresário Luiz Antônio Trevisan Vedoin à Justiça Federal na semana passada. Trevisan Vedoin é ligado visceralmente ao esquema das ambulâncias superfaturadas vendidas ao governo com a ajuda de nada mais, nada menos (segundo ele) do que 90 parlamentares e 10 ex-parlamentares. A maioria é do Rio de Janeiro, do Mato Grosso e da bancada evangélica. Política, especialmente no Brasi, é uma pescaria de cifras. Só e somente só. Até gostaria de dizer que não é tanto assim, mas é. Tenho uma especial obsessão pela figura do Bispo Rodrigues. Às vezes, e nas mais variadas situações, penso no Bispo Rodrigues e principalmente no seu cabelo. Inclusive, acho que é o cabelo do Bispo que me deixa tão intrigado. O Bispo Rodrigues nasceu no Rio de Janeiro em 1958 é um dos fundadores da Igreja Universal do Reino de Deus ao lado de ninguém menos do que ele, o também Bispo Edir Macedo. O Bispo Rodrigues também é meu colega de profissão e quando a compra de voto de parlamentares pelo governo do PT se espalhou no ventilador, ele renunciou. O Bispo viu vários de seus ex-colegas sendo absolvidos numa das mais deslavadas demonstrações de corporativismo maligno que o Congresso Nacional já presenciou. Era pizza voando no Plenário da Câmara dos Deputados... Uma deputada petista até dançou, numa comemoração vil, comemorando a absolvição de um colega mensaleiro. Mas o Bispo foi apressado e renunciou muito cedo às maravilhas da vida legislativa. O Bispo Rodrigues foi preso nesses dias, pois estava sem mandato parlamentar, por envolvimento com o esquema de compra de ambulâncias superfaturadas. Parece que o Bispo era uma das sanguessugas do Congresso. Parece... Nem sei mais se ele está livre ou se continua preso. Mas deixo um pensamento do Bispo sobre o esquecimento de alguns políticos quando são eleitos. Pensamento registrado no livro "Histórias do Poder", Volume 2: Ecos do Parlamento, editora 34, página 380. "Você se esquece que foi eleito pela favela, pela casa de taipa. Quando você entra naquele restaurante de luxo de Brasília, esquece que atrás de você ficou um povo na miséria, desempregado, desesperado, seus filhos e filhas se vendendo ou virando traficantes por uma miséria". confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 2:05 AM Comments: Segunda-feira, Julho 17, 2006 Vazio No auge da crise do Mensalão, os vôos que saiam de Brasília e levavam políticos aos seus mais variados Estados eram chamados carinhosamente de "camburão" por alguns brasilienses mais irritados com o caso. E já que não é segredo para ninguém que a semana parlamentar na capital federal tem apenas três dias úteis, o camburão deixava Brasília às sextas e retornava às segundas. Esse roteiro faz com que apenas as terças, quartas e quintas tenham lá uma quantidade razoável de "eleitos" para a fabricação das leis. Contudo, está engando quem pensa que três dias não é um período exaustivo para legislar. Somente quem acompanha o processo de perto é capaz de entender com a profundeza necessária a beleza do processo político nacional. É o meu caso. Gosto de ir ao Congresso Nacional para entender, em última análise, a razão de eu ser como sou. O Congresso Nacional funciona como uma representação funcional da consciência patrícia. É um límpido reflexo de nós mesmos. E isso não tem nenhuma relação com a questão das eleições, da responsabilidade do eleitor com o quadro político. Não se trata disso! Nosso processo eleitoral é mais do que falido. Os partidos políticos nada representam ideologicamente, o que não é de todo mal, é válido salientar. Existe apenas uma transferência de responsabilidade, via voto obrigatório, para um eleitorado que não tem emprego, não tem saúde, não tem educação, não tem segurança; mas tem que votar em candidatos previamente escolhidos pelos partidos. Nessas dezenas de visitas vadias que fiz ao Congresso (o sub-emprego tem lá as suas magias, e uma delas é fazer andarilhos), ouvi muita coisa. Ouvi gente ligada à segurança dizer que o Congresso Nacional não tem um efetivo capaz de impedir que novas invasões como a do MLST ocorram; ouvi sugestões de funcionários humildes para que eu entrasse na política, pois segundo eles a política era o melhor dos empregos; escutei reclamações de assessores de políticos que lamentavam a existência de eleitores fora do período eleitoral. Existe até casos de assombrações no Congresso. Os funcionários que trabalham até mais tarde sempre têm alguma história para contar a esse respeito. Há, por exemplo, o caso dos ruídos no gabinete do falecido deputado Ulysses Guimarães. O pessoal da limpeza do Congresso Nacional sabe muito bem que aquele gabinete era estranho por demais logo após o desaparacimento do ilustre parlamentar nas águas do litoral brasileiro. Barulhos de cadeiras sendo arrastadas, papéis mexidos e portas que rangiam mesmo com as janelas fechadas. Alguns afirmam que aquilo era apenas produto da imaginação, outros mostram os pêlos do braço arrepiados quando tocam nesse assunto. A partir de hoje o Congresso entra no chamado "recesso branco" devido às eleições. O que quer dizer que: mesmo que os parlamentares não compareçam, seus salários estarão assegurados. E como o povo brasileiro não é nenhum exemplo de fiscalização e nem de cobrança, algumas tradições serão mantidas apesar das novas regras eleitorias. Uma delas é testemunhar o Congresso vazio e o salário dos parlamentares rigorosamente em dia. E eu, que sou fã incondicional dos discursos sem essência e da gentileza forçada em Plenário, ficarei órfão por alguns meses dessa gente que representa o Brasil através da falância do próprio Brasil. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 12:49 AM Comments: Quarta-feira, Julho 12, 2006 Leve Nada pior para a nossa saúde de espírito do que levar a política nacional a sério. Somos impotentes diante dessa catástrofe explícita que é a política brasileira e, o que é mais drástico, ainda somos obrigados a votar. Dirão alguns que esse é o exercício fundamental e irretocável da democracia. Mas quais são as razões para se votar quando o próprio sistema eleitoral é falido? Há no voto obrigatório uma crueldade discreta que torna todos cúmplices, que faz com que o analfabeto, o desempregado, o miserável se tornem co-autores de roubos bilhonários. Um paradoxo cruel. Mas hoje não é dia para falar de deputados envolvidos em escândalos de ambulâncias, nem da classe política que sai dos esgostos para se apresentar mais uma vez à população. Chega, chega e chega. Hoje é dia de falar de qualquer menina bonita que caminha ouvindo música em direção a uma padaria num final de tarde. Hoje é dia de lembrar de uma viagem de carro qualquer com a turma da faculdade, é dia de comer bolo de milho. Pode também ser bolo de cenoura com cobertura de chocolate. Hoje é dia de um leve lamento por não saber tocar violão naquela noite na qual o pessoal se reuniu em volta de uma fogueira e um idiota qualquer chamou a atenção da menina mais bonita da praia. Você bem que tentou falar de alguns poetas russos, mas numa hora dessas qualquer um é menor do que Tim Maia. Hoje é dia de ler uma boa crônica miúda, levinha, que faça bem ao coração. Que faça recordar do ambiente da sala da casa de nossos avós durante a nossa infância, da panela que chia e de uma saudosa solidão de criança. Uma crônica que nos faça rir, e que também faça com que nós a mostremos a outras pessoas que também vão rir por conta dela. Hoje é dia de fazer cócegas na irmã mais nova e de ser chamado de bobalhão pela mãe. Dia de saber que a nossa vida está dessa forma não apenas por nossa causa. É dia de deitar na rede e fazer carinho num cachorro velho que está deitado no chão. Mas cuidado que ele está gagá e às vezes morde sem mais nem menos. É dia de beber água na boca da garrafa e depois colocá-la na geladeira. É dia de jogar Genius e de esquecer as teorias literárias e econômicas. É dia de dar bom dia. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 3:02 AM Comments: Terça-feira, Julho 11, 2006 O de sempre O caso não é a falta de assunto. Isso há, isso há. A questão talvez seja a de não ter nenhuma paciência no momento para traçar análises e cenários com um mínimo compromisso. Se houvesse real disposição em querer falar algo mais sério, diria que a nossa pobre vida tende a melhorar nos próximos meses. E falo isso com uma honestidade rara. A vida no Brasil vai melhorar em breve. O prazo dessa melhora pode ser curto, mas essa já é uma outra questão... Já que o jeito é falar sobre a eleição, aí vão algumas considerações sobre esse processo. Até o presente momento, a campanha eleitoral no Brasil está chata. Alguns poderiam argumentar, com o dedo em riste: - "Mas acabamos de sair de uma Copa do Mundo!". Entendo, e sinto, o que uma Copa é capaz de produzir num planeta com essa humanidade que aí se apresenta. Mas mesmo assim sustento que a campanha eleitoral está chata, triste, sem sal e sem ânimo. A corrupção generalizada foi digerida por grande parte do eleitorado. A grande massa, com uma histórica falta de assistência do Estado, é sábia e está mais preocupada com o trocado que recebe mensalmente através de programas de esmola de governo. Nada mais sábio do que aceitar a bandalheira na política e rezar para que algumas moedas possam pingar na conta bancária em determinado dia do mês. O que já garante um leitinho, um pãozinho e - já que somos humanos - uma branquinha num boteco amigável, com as legítimas mesas de sinuca em falso. Os escândalos de corrupção já não mais assombram o PT e isso é muito perigoso. É trágico. O governo se sente confortável diante de um oceano de denúncias graves. O mesmo governo que cultiva a ignorância como um bem "conquistado", o governo que faz apologia ao corporatismo mais canalha e ao banditismo mais primário. Não que o Brasil seja um exemplo a ser seguido em matéria de governantes e em matéria de políticos. Somos justamente o anti-exemplo disso. Mas não quero imaginar o que virá num futuro breve. Não temos o direito à esperança, e sabemos disso. Nâo temos direito à esperança através do processo político. Seja qual for esse processo. Estamos mergulhados, como brasileiros, num contexto que só pode ter como resultado o fracasso. É miséria demais, é doença demais, é analfabetismo demais, é perversidade demais: são brasileiros demais. Porém, quem quiser cultivar a certeza em dias melhores que o faça sem constrangimentos. Um bebidinha até ajuda. Pensando bem, falar mal do próprio país soa deselegante e antipático. Além de tornar a vida mais amarga e, por ironia, mais longa. Esse é um sério problema para a atual previdência patrícia que serviu para construir Brasília e enriquecer centenas de políticos de todos os grupos de risco. Agora a previdência social brasileira (e a mundial também) reza para que a população morra mais cedo, mas jamais antes da última contribuição. Após esse depósito derradeiro, o contribuinte vira estorvo e sua morte é mais do que desejada para a boa saúde das finanças nacionais. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 2:58 AM Comments: Sexta-feira, Julho 07, 2006 Meu amigo João Paulo Araújo retrata de forma brilhante a sua impressão sobre um legítimo boteco da capital baiana. E Lima Barreto que se cuide... Rogai por nós pecadores, agora. Toda mudança é boa, alguém um dia me disse - embora eu ainda não saiba ao certo se devo concordar. Concordando ou não, o início de uma nova vida em uma rua, bairro, cidade ou país diferente é sempre delicado, confuso. Solitário. Para solver estes inconvenientes existem os bares. O bar, esta expressão sublime de interação social, reduto último dos excluídos, marginalizados e indigentes sociais que o procuram ao fim de uma jornada repleta de mazelas, buscando um alívio - breve que seja - da dor de cada dia, no fundo do quinto ou sexto copo de qualquer coisa repleta de alcóol. Desconfio sempre daqueles recantos limpos, bonitos e bem frequentados, que pelo simples fato de venderem bebida - cara, geralmente - travestem-se do manto sagrado do boteco. A verdadeira mercadoria do bar, sua raison d'etre, é a miséria. É o cigarro barato que se implora ao vizinho desconhecido. A cachaça ordinária, bebida jubilosamente após a busca desesperada pela quantidade certa de moedas à pagá-la. É a melodia dessaranjada da tosse. A onomatopéia do escarro. As cascas de amendoim amontoadas em qualquer canto, os sacos plásticos a flutuar desajeitados, as mesas e cadeiras molhadas, distribuídas a esmo, de onde pinga a água que irá facilmente misturar-se aos restos de terra que caem dos poucos calçados que ali transitam para formar a lama perene do local. Todos adereços essenciais àquela paisagem - tão repleta de tristeza e imundície - que fazem do bar aquilo que ele realmente é: o trágico retrato familiar dos filhos do descaso e da pobreza. Todos irmãos em miséria, em cujas veias corre o mesmo sangue ralo de aguardente; em cujos pulmões corrói a mesma fumaça; em cujos ombros repousam as mesmas mazelas. Foi em um desses caerns de mendicância que, após um dia repleto de decepções, eu o vi. Recém-chegado naquele bairro, carregando minha própria - e leve - sacola de angústias, sentei em uma das mesas úmidas do recinto e pedi uma cerveja, enquanto observava aquela caricatura do desespero que estava a apenas alguns passos. Um senhor idoso, o rosto outrora branco maltratado pelas intempéries da vida; as rugas como uma máscara cobrindo-lhe a face desgastada por anos de provação. O parco cabelo que lhe restava cobria-lhe as têmporas de um branco leitoso, quase amarelo. O lábio inferior tremia num ritmo compassado, fazendo mexer a rala barba que cobria-lhe o resto da face. Seus olhos, porém, eram o que o diferenciava dos tantos outros miseráveis do lugar: não possuíam cor alguma. Sem brilho, duas esferas opacas afundadas numa imensidão branca que demonstrava a mais veemente expressão do nada. Sua calça jeans suja e maltrapilha servia bem ao propósito de proteger as pernas frágeis, já tão gastas que necessitavam da ajuda de uma bengala - um cabo de vassoura grosseiramente adaptado à nova e digna função. Uma camiseta rota e desbotada, coberta por uma jaqueta cuidadosamente abotoada, quase tão velha quanto seu dono, escondiam-no do frio. Nos pés, uma única e corroída sandália. No peito, um antigo crucifixo toscamente talhado em madeira guardava-o da dor. Com a mão trêmula ele levava o pequeno copo de cachaça a boca, bebendo parcimoniosamente o seu anestésico da vida. Bebia sozinho, como eu. Ia levantar mais uma vez o copo em direção à sua boca irrequieta quando, de súbito parou. Ao fundo, o pequeno e chiado rádio a pilha do bar anunciava as 18:00 com o início da "Ave, Maria" em latim. Calmo, ele recostou a mão do copo na mesa, segurando-o firme, enquanto a outra, aberta em palma com os dedos colados, atravessada horizontalmente sobre os olhos de modo a cobri-los, posicionava-se solene para a breve oração. Suas pálpebras fechadas, o corpo imóvel, absorvendo toda a litania recitada em um idioma que, como ele, havia morrido há muito tempo. E ali, naquele preciso instante, através daquele gesto sublime de resignação, foi que eu pude entender, enfim, aquele espírito atormentado que, cabisbaixo, balbuciava, embalado pela sacra melodia que ungia o recinto, as últimas palavras de uma oração que representava o anseio de todos os outros tantos que, ontem, hoje ou amanhã, irão procurar paz e alívio naquela catedral de lástimas. É este o santo espírito do boteco. Amém. postado por: RODOLFO TORRES 6:20 PM Comments: Começa a bandalheira A campanha eleitoral brasileira começou oficialmente hoje, o que significa dizer muitas coisas. Podemos dizer, por exemplo, que o processo mais eficiente de distribuição de renda que conhecemos vai ser iniciado. Numa eleição, o dinheiro enfim é liberado para os mais festivos e obscenos fins. O brasileiro consegue enfim enxergar algum trocado em suas mãos. Apesar de que para essas eleições, a justiça ditou algumas normas. Uma delas foi a proibição da confecção de todo tipo de material promocional : camisetas, bonés, canetas, em suma, tudo o que o povo gosta. Mas sempre há um modo de se burlar uma lei em território brasileiro. Ah, somente uma lei desrespeitada é capaz de proporcionar sensações variadas de onipotência... Ainda existe outra determinação legal para que os candidatos apresentem ao Tribunal Superior Eleitoral quanto eles pretendem gastar na campanha. O presidente Lula, filiado ao PT, vai gastar oficialmente 89 milhões de reais. Geraldo Alckmin, candidato à presidência da República pelo PSDB, gastará 85 milhões. Ou seja, 174 milhões de reais para apresentar dois políticos paulistas, essencialmente paulistas. Há mais outros cinco figurantes nessa campanha eleitoral, figurantes sem maior expressão. A conversa que corre na capital federal é a de que essa campanha promete ser bastante sangrenta, com várias demonstrações de casos de corrupção e mau uso da máquina administrativa por todos os lados. O PT vai acusar o PSDB. O PSDB vai acusar o PT. O PFL vai acusar o PT. O PT vai acusar o PFL. O PDT, PSOL, PCO e os Ps vão acusar PT e PSDB. Em suma: acusação não vai faltar no horário eleitoral. Mas qual é a diferença essencial entre essa campanha e as campanhas pós- Sarney? No meu ponto de vista miúdo, a maior diferença está na desilusão para com a classe política por grande parcela do eleitorado. O eleitor parece que compreendeu que não há santos na política. Principalmente na política brasileira. Após os inúmeros e cabeludos escândalos do Governo Lula, a apatia parece ter tomado conta principalmente da classe média, defensora histórica do petismo. A classe média composta de funcionários públicos empobrecidos devido à falta de reajuste nos salários e ao aumento da inflação no Brasil nos últimos 10 anos e profissionais liberais sufocados pela carga tributária maluca desse país. Lula foi eleito com a esperança e a inocência de milhões de beatos, de crédulos, de fiéis numa imagem de um operário e líder sindical quase divino, um sujeito predestinado a fazer do Brasil uma nação digna, próspera e que saberia acolher não apenas aos seus filhos, mas ao mundo por inteiro. O que se viu, entretanto, foi um dos maiores escândalos de corrupção generalizada da história do Brasil. Sob o comando do PT, o Brasil aprendeu finalmente que o seu destino não deve ser confiado à bondade de quem quer que seja. Uma campanha nacional pelo voto nulo circula nos meios eletrônicos e parece que teremos uma rejeição histórica ao modelo de candidato clássico. Também não contaremos com os chamados "showmícios", comício com apresentação de artistas. O resumo da ópera é mais ou menos esse: não teremos brindes, não teremos shows, está proibido (e dessa vez a justiça promete punir) o uso do caixa 2 nas campanhas políticas, os candidatos terão que apresentar suas contas na internet (inclusive o seu patrimônio pessoal - e se possível o dos laranjas), e as alianças que os partidos políticos fizerem em plano nacional terão que ser repetidas nos Estados (a chamada verticalização). Alguém aí ainda é bastante ingênuo para acreditar nisso? confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 2:00 AM Comments: Quinta-feira, Julho 06, 2006 Homenagem a Telê Os que me viram jogar futebol (o de salão, a grande escola desse esporte) sabem que eu não fui um dos piores jogadores. Além de ter um talento natural para o negócio, tenho uma vantagem sobre os demais: sou canhoto. Apenas os canhotos sabem a delícia que é entortar os destros no futebol, no tênis, no basquete... É quando o sujeito agradece baixinho ao criador pelo fato de atuar no mundo da forma torta. Mas o pior dos canhotos é o canhoto boxeador. Esse é capaz de estragos inenarráveis. A covardia é tanta que o fígado do oponente fica na medida certa de um soco com a "mão boa". E só quem levou um soco no fígado é capaz de saber qual é a textura das trevas eternas. Bom, quem se dedica a traçar linhas cotidianas tem que agradecer a determinados acontecimentos. O tema obrigatório se impõe ao pobre escriba que redige um amontoado de palavras apenas por redigir, sem nenhuma obrigação para com a eternidade. É o caso desse momento pelo qual o mundo passa. Devemos falar sobre futebol. O que não é de todo mal, porque proclamar às paredes que esse país não tem mais jeito é bastante cansativo e desanimador. Os resultados desse campeonato mundial de futebol são uma deslavada homenagem do destino ao ilustre Telê Santana. Os que o conheceram não se cansam de dizer que ele era um homem de bem, uma pessoa íntegra, rara, descente. Isso num ambiente como é o do futebol é quase um milagre. Adepto do futebol arte, do futebol como instrumento de magia a serviço do mundo, Telê também era contra a violência, à jogada desleal, à malandragem bandida. Telê exigia, simplesmente não abria mão de que se jogasse com poesia e ao mesmo tempo com lealdade ao adversário. Essa é a herança maior desse ícone do futebol nacional. Se não estou enganado, Zico declarou que Telê Santana foi o único treinador com quem o ex-técnico do Japão trabalhou que não admitia em nenhuma hipótese a "entrada criminosa" no adversário. Não me recordo da Copa de 1982. Sou apenas guiado pelos depoimentos nostálgicos dos que viram os bailarinos do Brasil encantarem um planeta perdido entre as infinitas galáxias. O Brasil não conquistou o título na ocasião, mas o time e o seu treinador ocupam um lugar real e cativo entre as cinco estrelas da amada camisa amarela. Eis um fracasso mimado, uma deliciosa frustração. Quando um time comandado por Parreira ("show é ganhar!") não conquista uma Copa do Mundo, os ensinamentos de Telê são fortalecidos e reafirmados. Mas não quero me prender unicamente a Parreira. O, até agora, técnico da seleção brasileira é o anti-Telê no que diz respeito à arte no futebol. E existe um outro técnico de futebol, celebrado e louvado pela mídia brasileira, que é o anti-Telê no que diz respeito à lealdade nesse esporte. Sim, me refiro a Luís Felipe Scolari. O atual queridinho de dois povos derrotados: brasileiros e portugueses. Felipão, como é mais conhecido, faz apologia à violência em campo (Quem não se lembra de uma conversa no vestiário do Palmeiras...?), prega a deslealdade sem pudores. É leitor confesso da "Arte da guerra" e deve ser fã de Maquiavel. Convence muita gente boa de que esse caminho deve ser seguido com o seu teatro bufão de beira de campo. E não é à toa que, sob seu comando, Portugal fez contra a Holanda o jogo mais violento da história das Copas do Mundo. Scolari exige sangue. O sangue errado. O sangue pela brutalidade. O futebol de resultados sem espetáculo perdeu com Carlos Alberto Parreira. O futebol da apologia à violência perdeu com Luís Felipe Scolari. Telê Santana (a personificação do bom futebol) foi verdadeiramente homenageado com essas duas derrotas. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 2:03 AM Comments: Quarta-feira, Julho 05, 2006 Meu prezado amigo João Paulo nos brinda com a sua arte universal produzida em Salvador. Eis mais uma mostra do seu talento nas letras: Mazelas... (João Paulo Araújo) Senha n.º 01 bate à porta. Cabisbaixo, magro, os ossos colando no rosto. 40 e poucos anos retratados num semblante de 60 invernos repletos de privações. O corpo alto, esguio, as roupas ¿ claramente doadas por outro mais corpulento ¿ parecendo-lhe sacos folgados; na cabeça, um boné azul adquirido na última eleição: um preço pequeno demais pelo seu voto. Ele senta humilde e desconfiadamente na poltrona plastificada à sua frente, e estende a carteira de identidade acompanhada de um gemido baixinho, permeado de insegurança e vergonha: ¿meu nome é Osnildo¿. Seu calvário é o de muitos que vão ali: expulso da casa por atrasar duas semanas o aluguel de R$ 50,00, juntamente com seus quatro filhos, dois dos quais estão no Hospital com infecção intestinal, adquirida ao dividirem o único pão encontrado no lixo mais próximo, já tão corroído que fora poupado mesmo pelos ratos que habitam o local. O médico do Hospital ameaçara denunciá-lo por maus-tratos às crianças. Procurava esperança: veio ao lugar errado. Ele se levanta e prepara-sa para sair, tão calmamente quanto chegou. Na sua boca um sorriso complacente; em seus olhos, brilha o fogo fátuo do desespero que o aguarda embaixo de uma árvore, embalado pelo choro de quatro crianças famintas. *** Senha n.º 02 entra esbaforida e senta-se a minha mesa, indignada. Grande e corpulenta, a pele negra contrastando com o lilás dos hematomas no braço, pescoço e olho; os cabelos duros e negros espalhados no ar, o olhar fitando o meu num tom de desafio. Chamava-se Nilde e seu irmão deficiente mental havia agredido o seu pai de 86 anos e sua mãe deficiente física. Como se não bastasse, o ex-marido alcoolatra voltou à casa onde moram e a espanca diariamente. Não deseja café, ou água: quer uma solução agora, imediata! Teme pela vida dos pais e pela sua. Ofereço-lhe a melhor das perspectivas: seu caso iria ser encaminhado e dentro de alguns meses seria tomada alguma providência. Ela ri histéricamente, e consigo notar alguns dos remédios de uso controlado em sua bolsa. Lacrados. Pergunto se ela vem tomando a medicação prescrita. Ela responde, aos berros, que seu problema não tem a ver com remédio algum: seus pais estão morrendo e ela enlouquecendo. Seu celular toca e ela pára, alguns segundos. De súbito, sua pele torna-se branca e seus olhos arregalados e boca aberta alertam-me do pior: seu irmão ensandecido acabara de matar os pais. Calmamente, num triste e sombrio paradoxo, ela se ergue e, sem dizer palavra, caminha à saída, atônita. Devagar, o rumo descompassado e os olhos sem foco ela segue em direção ao inveitável. Procurava segurança: errou de endereço. *** Senha n.º 03 entra na sala. Um senhor de aparência serena: alto, de rosto brando, cujas maneiras denunciam um grau de instrução elevado. Senta-se e me cumprimenta, chama-se Nelson. É professor de Física na Universidade e faz tratamento em uma clínica particular da zona sul. Possui câncer terminal: a necrose na próstata espalhou-se e atingiu outros órgãos. Sua médica prescrevera-lhe um novo medicamento, milagroso segundo dizem. Seu milagre consiste em garantir, com 80% de certeza, uma sobrevida de um ano. Perplexo diante do suposto 'milagre', deixo escapar ¿ imprudente - uma exclamação: ¿tão pouco!¿ Ele ri, e com os olhos aguados assevera: __ Pouco, você diz? Pra quem pode morrer antes mesmo de completar esta frase; pra quem vive na iminência duvidosa de não viver o dia, a hora, ou mesmo minuto seguinte, a certeza ¿ mesmo que parcial ¿ de um ano de existência é um milagre tão grandioso quanto o nascimento. Ele continua sorrindo, mesmo enquanto as lágrimas correm no seu rosto. Eu não possuo a mesma liberdade e devo conter as minhas. O medicamento custa muito caro: mais do que ele pode pagar. Eu recito-lhe a litania burocrática que ele deverá cumprir para ver seu milagre realizado: procure o órgão ¿x¿, entre na fila ¿y¿ e, talvez, em alguns meses você obtenha seu medicamento. Ele ri mais uma vez, desta feita sem lágrimas. Levanta-se, me cumprimenta novamente e dirige-se à mesma saída pela qual passaram tantos outros, tão diferentes em posses e requintes, mas todos iguais em tristeza e decepção. Parado junto à porta, ele me olha, novamente sorrindo ¿ um sorriso pedagógico, de um professor prestes a dar a lição mais importante ao aluno querido, e diz: __ Milagres são coisas bem difíceis, hoje em dia. É preciso acreditar muito em Deus, e eu nunca fui um bom fiel. Principalmente em falsos deuses que devoram crentes e hereges durante 4 anos sem trégua. Não, não há milagres para mim. Cuide-se, você. Procurava vida: aqui, não havia nenhuma. *** São 18:00 horas. Recolho as senhas em minha mesa e me dirijo, também eu, à saída. Em minha cabeça, os ecos distorcidos de todos aquelas criaturas: todos igualmente condenados pela inércia histórica de uma minoria ¿ escolhida não se sabe por quais vicissitudes ¿ designada para liderá-los. Antes de sair, já defronte aquelas enormes portas envidraçadas, volto meus olhos ao balcão e a vejo sentada, ajeitando ainda os expedientes do dia, seus cachos castanho-claros em perfeita combinação com seus olhos. Olho-a de longe e entristeço com o fato de não tê-la perto de mim. Perturbado com o profundo egoísmo de minha consciência, ouço a razão mesquinha do pobre menino rico pronunciar-se cheia de si, dentro de mim: ¿cada um com suas mazelas¿. E atravesso a rua. postado por: RODOLFO TORRES 1:02 AM Comments: Terça-feira, Julho 04, 2006 Deixe-o As coisas boas que o Brasil oferece, ou ao menos oferecia, como a cordialidade do seu povo, a gentileza, a amabilidade de sua gente, não compensam o custo de viver por aqui. O Brasil não oferece as condições mínimas para que a sua gente tenha uma vida razoável, ou seja, uma geladeira com alguma coisa (não precisa estar cheia), um dinheiro pouco para gastar com bebida no fim de semana, um campeonato nacional de futebol com bastante corrupção, assistência médica comum e previdência social simples. E nenhum desses serviços precisam ser da qualidade dos serviços de países sérios. O povo brasileiro é bom de ser governado; é apático e é inculto. O desespero da nossa classe média empobrecida também deve ser analisado com os olhos da comédia. Concursos públicos são a garantia de que a nossa fome ancestral não nos alcance. Fugimos da miséria durante todas as horas do dia. É o cartão de crédito estourado, o orçamento que não é suficiente, as contas que se multiplicam. Esse é o lado íntimo de grande parte desse povo que talvez mereça passar pelo que passa. Por outro lado, a política econômica dos sucessivos governos brasileiros massacram um povo que insiste em dizer que é feliz. Sou contra a existência da felicidade em nosso solo. Ela é mais do que uma mentira. A felicidade no Brasil chega mesmo a ser uma ofensa. E de nada adianta denunciar os colossais escândalos de corrupção do atual governo. Como também não adiantou denunciar a compra de votos de deputados para a aprovação da emenda da reeleição ou as privatizações criminosas ocorridas durante o governo Fernando Henrique. O povo que habita o Brasil é miserável de finanças ou de espírito. Quiçá se reconhecêssemos o nosso talento para a miséria espiritual, apesar daquela baboseira de que o povo brasileiro é bom, é cordial, é isso, é aquilo; tivéssemos alguma chance de sair da miséria pela própria glorificação da miséria. Aliás, glorificamos a miséria de caráter, a miséria de conduta, a miséria de análise. Para falar a verdade, gostamos de ser miseráveis. Brasil fora da Copa do Mundo. Somos obrigados a suportar esse país sem nenhuma razão para vestir as suas cores. Bom, nunca fui reconhecido por ser um bom conselheiro. Ao contrário. Mas vou me arriscar e dar um conselho a quem quer que possa ler: deixe o Brasil. Esse país está condenado, e sempre esteve. Vamos ser mendigos em Paris, indigentes em Tóquio, desabrigados em Los Angeles, famintos em Sidney. Vamos inundar esse mundo ainda mais com a nacionalidade mendiga que temos, com a nossa sede de querer apenas um cantinho para viver. Um cantinho que ofereça uma dignidade pequena, mas uma dignidade. Brasileiro no exterior é tratado como uma espécie menor, um sujeito que vem de um país exótico e trágico. Mas podemos ser vampiros de condições de vida mais interessantes do que a nossa. Brasileiro no Brasil é tratado como uma espécie menor. Um ser que tem como funções básicas pagar impostos absurdos e exagerados, votar num sistema eleitoral falido em candidatos torpes e torcer pela seleção brasileira de futebol (reduto de falsificadores de documentos, entre outros crimes). Êta vida besta... confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 2:21 PM
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