Confraria dos Crônicos

De crônica, não basta a vida!



Comments: Sexta-feira, Junho 30, 2006

Ufanismo errado

No lugar do termo "errado", eu ia colocar "estrábico". Daí percebi que era uma idiotice sem tamanho essa demonstração de vocabulário e resolvi ser simples, fazer o básico, ser entendido por aqueles que além de saber ler conhecem o significado do termo "ufanismo". "Ufanismo estrábico" seria um título "metido a besta". E um jornalista não pode ser "metido à besta" por um simples motivo: ele é a própria.
As técnicas de enrolação num texto assinado são bastantes úteis quando a assunto é pouco. Para falar a verdade, não existe razão para se escrever mais do que um soneto sobre qualquer tema. Um soneto é a medida certa para se conhecer o que se deve ser conhecido. Tudo que extrapola os limites de um soneto clássico é inútil, ao menos para a minha sobrivivência até a próxima manhã.
Ao assistir ao jogo da Argentina contra a Alemanha, percebi claramente que o Brasil não ganhará a Copa do Mundo. Está certo que eu não sou um exemplo de torcedor padrão. Minha dentição não é das piores, leio mais do que dois livros por ano, entendo alguma coisa em alguns idiomas e minha vida não melhora com uma vitória do Brasil nessa fabulosa competição de tirar o fôlego. Diria mais. Sempre o Brasil vence uma partida na Copa, a minha primeira reação é a de sussurrar somente para mim os números da nossa economia. Reação que muita gente não entende...
Mas se eu sussurrasse qualquer número brasileiro, a respeito de qualquer atividade vital (saúde, educação, blá blá blá), eu também estaria sendo "do contra". Por quê? Porque a nossa única razão de vestir as cores do país é a Copa. Eu não vejo nenhum outro motivo para gritar: - "Eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor", além do futebol. E diga-se de passagem: não estamos tão bem assim para encarar a França.
Dizem os defensores incondicionais do Brasil que o time da França está velho. E o nosso Cafu? E o nosso Roberto Carlos? E o nosso Émerson? São burocratas em campo, com uma estranha estabilidade de funcionário público de carreira nessa seleção. E o que é pior: não merecem estar ocupando o lugar que ocupam!
Um dos jogadores franceses, Henry, disse que os brasileiros jogam tão bem porque não vão à escola quando crianças. Diferente dos franceses, que têm uma carga de estudo respeitável nos primeiros anos de vida, as crianças do Brasil não estudam. A imprensa brasileira tomou essa declaração óbvia, pláusivel, coerente, como se fosse a maior das inverdades da Terra. Ora, temos uma brutal e histórica dívida com a educação no Brasil. Só que, apesar dessa dívida impagável, temos o mau costume de querer minimizar esso verdadeiro culto à ignorância.
Assumir que temos falhas brutais na educação, no conhecimento, no saber, não é ser menor do que ninguém. Ao contrário. É buscar se elevar, é querer ser maior, é procurar dar o primeiro passo em direção a algo diferente do que nos é apresentado. Eu pago para ser brasileiro, pago por ser brasileiro, todos os dias. Pago muito caro. E jogo dinheiro fora!

postado por: RODOLFO TORRES 11:56 PM


Comments: Quinta-feira, Junho 29, 2006

Economia murcha

O amor pelo futebol é mais do que obrigatório por aqui. Eis uma ditadura oficial e cruel que habita no Brasil... E isso lá tem a sua justiça e a sua serventia. Temos a obrigação de ser o primeiro do mundo em alguma pelo menos. Então que seja no esporte mais popular do planeta, no jogo que atrai a atenção de cinco sextos dos habitantes da Terra. Eu bem que queria que o país não precisasse do futebol para ter uma dignidade volátil, mas felizmente as coisas não são como eu quero.
De uns tempos para cá tenho me dedicado a entender melhor a economia, pois ando buscando explicações mais práticas para a nossa miséria. Não que tenha me cansado da política partidária brasileira, pois sempre fui um admirador declarado do teatro grotesco e das representações cretinas. A política brasileira é uma das maiores paixões que carrego, afinal também consigo me enxergar nesse cenário despudorado, imoral e corrompido; o cenário político brasileiro. O curral dos porcos é digno e limpo diante dos bastidores da política...
Num olhar mais apurado (mas nem tanto assim), podemos verificar que o sistema eleitoral brasileiro está falido e que as coisas não vão melhorar para o nosso país só porque esse ou aquele candidato vai se eleger. A coisa é contraditória e, por ser contraditória, é simples. Ah, como admiro a simplificação e a generalização como demonstrações de inteligência suprema. Ah, que saudades do PT de antigamente, aquele que dizia que o Brasil só não era a maior economia da galáxia porque ele - o próprio PT - náo comandava o Brasil.
Enquanto a seleção do Brasil passa, sem convecer a ninguém, pelos seus mais variados adversários da Copa do Mundo, estamos levando surras diárias e incessantes no terreno que realmente importa em nossa vida diária: No campo da economia. Enquanto cortava meu cabelo numa barbearia de Brasília, ouvi um senhor proferir a sábia constatação: - "Duvido que a CBF me ajude, ao menos me ajude, a pagar o meu cartão de crédito". As paixões, principalmente as esportivas, não precisam de elementos racionais. Diria até que elas exigem que não existe a racionalidade. Mas nada pior do que a paixão obrigatória, a paixão de Estado...
Bom, vamos deixar de conversa mole e falar realmente o que importa para a nossa vida. Mais uma vez nosso crescimento econômico é ínfimo. Não estamos aproveitando a onda de crescimento da economia global e a projecão de crescimento dos países emergentes até o final do ano, traduzido em números, é mais ou menos essa, segundo relatório do BIS (que deve ser o Banco Central da Suiça): China - 10%, Índia - 8,4%, Rússia - 7,9%, Argentina - 7,7%, Brasil - 3,5%.
Eu bem que sei que é muito desistimulante torcer pelo Brasil em modalidades como baseboll, hóquei, golfe e mais recentemente Fórmula 1. Eu sei disso. Chega mesmo a ser humilhante para os torcedores patrícios dessa modalidade. Mas a economia também é um jogo. Torcer pela economia brasileira é ser um sofredor... Porém, na economia podemos ter uma participação maior, mais incisiva. Temos um poder de pressão que desconhecemos. A única desvantagem é que contamos nessa área com os comentários de Miriam Leitão. Com o perdão da rima sem intenção, prefiro os do Galvão.

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postado por: RODOLFO TORRES 4:43 PM


Comments: Quarta-feira, Junho 21, 2006

Nunca foi tão fácil ser gênio

Com a pouca experiência que tenho nos assuntos realmente vitais, não sou louco o suficiente para deixar de defender a demência institucionalizada que reina entre nós. A boa e velha demência, parceira e amiga querida, que já viajou tantas canções comigo e ainda há tantas a viajar... Outro mais corajosos e com espírito mais evoluído que o façam. Se dependesse da minha vontade, passaria os dias a apaludir de bom grado tudo que é apresentado, tudo que é parido pela mente incapaz dos meus iguais.
Mas por uma estranha razão que consegue fugir ao meu controle, não consigo deixar me levar pela boa correnteza. Ah, como pulei sem nenhuma alegria em diversos bailes antigos, como vibrei por vitórias que nada representavam para mim. Não perco a esperança de me encontrar num grupo, de me sentir parte de algo maior do que eu, num sentimento em comum e sincero. Todo dia é dia de tentar sentir o mesmo, e lá vou eu procurar me achar.
A Copa do Mundo é um ótimo momento para se sentir parte de um país. Sem dúvida, é o melhor momento para isso no Brasil. Pela conquista da Copa, o brasileiro é capaz até de exigir melhorias, de se indignar com projetos que tendem nitidamente ao fracasso. Eu mesmo me descontrolo num jogo de Copa do Mundo. Sou capaz de discutir, de levantar a voz contra metade desse time que está aí. No mínimo, metade desse time deveria ser trocado.
Daí penso como é o mundo do futebol e procuro me acalmar. Sei que esse é um território de bandidos, para se dizer o mínimo. Mas não há nada pior do que o preconceito contra a criminalidade, ou seja, o preconceito contra o mundo. Certo dia, um sociólogo aposentado chegou a uma conclusão. Fechou um livro pesado e antigo, tirou os óculos para limpá-los e proferiu: - "O povo é débil mental". Frustrado que só ele, com o peso de sua análise, olhou para a rua através de uma larga janela de vidro e desejou ter a alegria sincera de um torcedor de futebol.
Quantos são os jogadores da seleção brasileira de futebol que falsificaram documentos para adquirir cidadania européia? Quais são as relações entre o narcotráfico, o futebol e o Estado brasileiro? Por que criminosos internacionais investem no futebol do Brasil? E a caixa-preta da CBF? O futebol alimenta a cultura da mediocridade, da demência institucionalizada e do banditismo. A cultura da celebração da ignorância (vide Lula), do pagode cretino e da ditadura da paixão por esse esporte que é controlado por criminosos.
Bussunda está morto. Até mesmo o presidente da República, que só é referência de demência, soltou lá a sua nota oficial lamentando a perda desse "humorista". Não sou de comemorar a morte de seu ninguém. Penso que isso é de um extremo mau gosto. Mas não posso aceitar calado, mesmo sabendo da condição de demência institucionalizada que estamos mergulhados, que Bussunda era gênio. Seu "humor" era bem representativo. Representa o quanto somos pequenos diante de artes tão nobres como a ironia e o sarcasmo. O humor merece mais respeito...
O dia que Bussunda virou gênio chegou. O grotesco é genial, o rasteiro é genial, o ofensivo é genial, o chulo é genial. E para fechar esse texto com um digno argumento de autoridade, cito Nelson Rodrigues, numa crônica intitulada "Humoristas rancorosos", datada de 31/10/1969.
"Há muitos anos que não acho graça nos humoristas brasileiros. Mas sempre achei que o defeito era meu. Só agora é que, acidentalmente, lendo O Pasquim, vejo que as coisas mudaram muito. Deixando de lado duas ou três exceções, faz-se, no Brasil, o humorismo do ressentimento".

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postado por: RODOLFO TORRES 2:04 AM


Comments: Terça-feira, Junho 20, 2006

O olhar dela

O jeito de olhar diz muito mais do que qualquer centenas de palavras ditas, proclamadas, esbravejadas. Porém, o sussurro, à meia luz, com uma trilha sonora de saxofone e duas taças de vinho frisante (vinho seco não faz o meu tipo, apesar do que dizem os enólogos) é o complemento ideal ao olhar. Mas existem olhares e olhares, e aqui quero fazer apologia a um determinado tipo, tão específico que só ele mesmo. Refiro-me ao olhar de qualquer funcionária num laboratórios de exames clínicos. E, mais especificamente, do olhar da funcionária que retira o sangue da paciente. Sendo mais preciso e chato, quando o exame é o de gravidez.
Há tipos e mais tipos de riso de casais numa sala de espera nesses laboratórios. Há o riso sereno, de paz incontida, que é reflexo de um planejamento mais responsável. Há o riso cerimonioso daqueles pares que, por uma noite mais animada, terão um vínculo oneroso para o resto de suas vidas. E há o riso de puro desespero. Esse geralmente é alternado por períodos de extrema compenetração. Após uns minutos, ocorre a explosão e os dois se abraçam, envolvidos acima de tudo pelo mais completo sentimento de desolação.
Um primo de um amigo meu passou por determinada experiência. Fazia parte do último grupo citado e enquanto esperava o momento da coleta de sangue da sua parceira, na vital atividade de reviramento de olho, teve conversas íntimas com santos e deuses. Em sua reflexão guiada pelo desespero mais sereno que vivenciou, tinha lá a sua certeza de que a sua vida mudara. Tantos planos mortos, tantos cenários possíveis, tanta vivência inexplorada, tanta vida virgem... Um trecho de um poema de Bandeira não lhe deixava em paz: "A vida inteira que poderia ter sido e que não foi".
O olhar da funcionária para esse moço, enquanto o sangue de sua companheira vital era retirado, foi cortante. Um olhar de malícia reprovatória, de sentença de culpa compulsória, um olhar que dizia sem meias palavras a seguinte frase: - "Agora a sua vida será outra. Apague os seus sonhos mais certos e veja como a vida pode mudar de forma tão veloz através do prazer mais fulgaz". Aquele olhar era uma condenação. Mas existia um riso contido naquele rosto. Apenas os olhos da mulher sorriam naquela fração de segundo que tendeu ao infinito.
Esperou calmo pelo resultado, numa serenidade incomum, a imaginar como seria linda a sua filha. Afinal, seria uma filha. Fazia questão de uma menina. Meninas são mais caras do que meninos e ele queria afundar por justa causa. No final da tarde ajoelhou-se num chão sujo qualquer e ergueu suas mãos atéias ao céu. Tudo foi felicidade naquele final de tarde. Porém, desobedeceu uma regra masculina e tradicional: Quando um exame de gravidez tem resultado negativo, e se isso for motivo de alegria, deve-se comemorar bebendo conhaque com limão.
Comprou uma garrafa de vinho, numa boa promoção de uma loja de bebidas importadas. Sua companheira preparou um jantar delicoso com uma boa carne vermelha selecionada, vinagre balsâmico, pão árabe e salada. Fez-se a ceia. Deitado, ele assistia a qualquer coisa na TV enquanto ela lavava as panelas, pois afirma que ele só atrapalha. Enquanto a aguardava, lembrou do olhar sacana da funcionária do laboratório de exames clínicos. O vinho acabara e ela chegou. Ao amor...

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postado por: RODOLFO TORRES 12:40 AM


Comments: Domingo, Junho 18, 2006

O do vizinho é muito melhor

Sempre me esqueço de que a elegância é um objetivo permanente para a melhoria do ser humano. O descanso eterno é certamente dos elegantes, dos refinados. E não é condição fundamental ter muito dinheiro para alcançar esse estágio de polimento das atitudes. Basta lembrar Cartola. Não existiu ninguém no Rio de Janeiro, mesmo na época em que o Rio era a capital do país e abrigava as embaixadas, mais elegante do que o mestre Cartola. Que morava numa favela e que fazia lá os seus bicos para sobreviver. Contam que após anos de ostracismo, Cartola foi redescoberto lavando carros num estacionamento do centro do Rio pelo fabuloso jornalista Sérgio Porto. Mas vamos adiante que o tema de hoje é indigesto e a vida está piorando.
O palpite é um exercício que procuro a todo custo preservar no meu cotidiano. Somente o palpite antecipado pode revelar o talento, a astúcia e o poder de análise de um sujeito que pretende tirar pequenas fatias da realidade. Eu, na minha calma corriqueira e na minha tentativa frustrada de elegância a todo custo, discuti a plenos pulmões num restaurante mais ou menos requintado a respeito dos argentinos. Estava com dois sujeitos que defendiam o Brasil. E eu dizia que os argentinos não eram o que nós pintávamos deles. Com mais educação, e mais firmeza diante de algumas ações da política externa, os argentinos mereciam o nosso respeito. Deveríamos até imitá-los em algumas coisas.
Com essa afirmação, ofendi os meus companheiros de mesa e o bate-boca começou. Futebol, política, Maradona, planos econômicos, diplomacia comercial, falência do Estado argentino, falência do Estado brasileiro, as portenhas, o vinho, a carne e até mesmo o peronismo foi evocado nessa conversa besta que tivemos. Sou amante das discussões infundadas, portanto continuei numa disputada fadada ao rancor gratuito.
Ora, uma das piores características de um povo e a de não saber admirar as qualidades dos desafetos. O que custa admitir que os nossos hermanos são muito melhores do que nós em diversos aspectos da vida prática? Nessa Copa, por exemplo, eles estão bailando. A mais recente partida da Argentina, que ganhou de 6 da Sérvia, foi mágica. Deveríamos nos espelhar na seleção argentina e exigir desse time um placar semelhante, em todos os jogos da Copa. E não ficar com essa conversa idiota de humildade.
Um dos problemas que temos é o de pensar como jogador de futebol. "Temos que respeitar o adverário; nosso pensamento está focado na próxima partida". Essa combinação de respeito em excesso e imediatismo burro ainda vai nos matar. Jogador de futebol deveria jogar futebol. Não deveria explicar o que acha, nem dizer o que pensa. É bastante constrangedor declarar uma obviedade, mas não há nada a ser feito. Ouvir o que os jogadores de futebol dizem é um retrocesso, é implorar por uma imbecilização.
Daqui a pouco o Brasil vai enfrentar a Austrália. Na minha opinião, vamos nos decepcionar. Mesmo vencendo, não teremos a sensação do dever cumprido. E se a nossa inferioridade ficasse apenas na Copa do Mundo, que é de uma futilidade importantíssima...
Vamos à economia. Recebo quase que diariamente por e-mail a anáilse do jornalista Joelmir Beting. Beting, o maior expoente da análise econômica da imprensa brasileira e um dos expoentes da elegância na TV, mandou no último dia 15 um pequeno texto sobre o nossos vizinhos argentinos. Texto esse intitulado "O céu do vizinho...", que transcrevo sem a menor vergonha. Apenas e tão somente para demostrar que, se fôssemos argentinos, estaríamos rindo na Copa e - principalmente - na economia. E diga-se de passagem, é muito melhor ser um desclassificado na Copa do Mundo do que ser de um país perdedor no dia-a-dia.

O CÉU DO VIZINHO...

Céu de brigadeiro na economia da Argentina. O governo Kirchner informou hoje que o PIB cresceu 8,6% no primeiro trimestre, contra 1,4% aqui no Brasil.
Nos últimos três anos, o crescimento foi de 9% ao ano. Aqui, 2,2%.
Sem mistério: na Argentina, a carga fiscal está abaixo de 20% do PIB. Aqui, perto de 40%.Lá, a taxa básica real de juros está negativa, abaixo de zero. Entre nós, acima de dez.
A Argentina segue o modelo vencedor da Ásia. De costas para que acontece em Wall Street.
Diferentemente do Brasil, sem políticas fiscais e monetárias de choque, em overdose, na categoria do mal desnecessário.
Não por acaso, a Argentina está pelo quarto ano consecutivo crescendo três vezes mais que o Brasil. (Joelmir Beting)


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postado por: RODOLFO TORRES 2:00 AM


Comments: Quinta-feira, Junho 15, 2006

A esperança cínica

Como negar que um dos meus maiores prazeres é o de falar mal do brasileiro? Agora mesmo me questiono se realmente conseguiria sair desse país e viver no conforto monótono e na calmaria imutável das grandes nações do mundo... Há em mim, em alguma profundeza horrenda, algo que pede as miudezas de comportamento, que exige com veemência as atitudes tacanhas perante a esse bem menor; perante a vida de maneira geral.
Houve um caso estranho que aqui merece um relato breve. Uma viúva, solitária e distante da família, vendeu todos os bens que o marido lhe deixou, e fez uma viagem longa num cruzeiro que mais parecia ser a embarcação utilizada para levar os santos ao gabinete de Deus no céu. Um luxo irrestrito. Após a viagem, ela se convenceu de que nada nessa vida fazia sentido e que restava apenas esperar. Ainda tinha muito dinheiro para gastar, mas decidiu ver TV até à última enchida de pulmão.
Atrasava de propósito às contas para que os cobradores viessem ao seu encontro. Apenas os cobradores procuravam por aquela viúva desolada, convencida de que a vida nada tinha a lhe oferecer. Sua alegria era a ameaça dos cobradores. Quanto mais o tom das ameaças subia, mais essa senhora deixava de comprar tinta para seus cabelos. Sua roupas eram deploráveis e a sua higiene pessoal estava lastimável.
Descobriu a loucura como um caminho razoável para fugir do isolamento e foi feliz até a morte com as duas visitas diárias das camareiras e, uma vez na semana, a de um jovem médico que de vez em quando a molestava sexualmente. Encontrou uma paz torta e tinha um profundo carinho por esse homem que lhe ministrava medicamentos. Apesar do que sentia quando acordava, sempre depois dos remédios, foi feliz naqueles meses de repouso forçado do hospício para abastados.
Deixo o relato breve e volto de imediato ao primeiro parágrafo, que deveria ser mais respeitado por mim. Afinal já fiz o título e não estou com disposição para alterá-lo. Vamos lá então... Tenho para mim que só conhecemos um povo quando presenciamos a sua tristeza mais profunda. Sem conhecer as tristezas de um punhado de gente, não podemos entendê-las, nem ao menos destruí-las. Há por aí quem goste de maneira profunda de ver a tristeza alheia. Não diria que me incluo nesse grupo porque acabo tomando as tristezas impostas como minhas. Mas que é interessante ver a frustração, a desolação, isso é...
Copa do Mundo. O Brasil celebrado como a grande equipe do mundial. Um país paralisado para acompanhar a partida mais esperada do ano. E um fiasco da Seleção, uma tragédia em 90 minutos, um anúncio explícito de que não temos a mínima condição de levar o sexto campeonato mundial para casa. E isso, apesar de todos falaram o contrário, não é uma tragédia.
Disseram-me que eu tinha que ter esperança no futuro do país e na conquista da Copa. Ora, esperança no Brasil é para trabalhador braçal, para moto-boy, para autônomo e pra galera especializada nos concursos públicos. Esperança, no Brasil, é pra telespectador de TV aberta, pro sujeito que não tem dinheiro pra pagar universidade e que acabou o segundo grau e não sabe ler. Esperança, no Brasil, é pro indivíduo que faz do futebol a sua terapia, da arquibancada o seu divã, do gol o seu orgasmo e do time a sua amada. Esperança, no Brasil, é o oxigênio dos ingênuos, o trampolim dos ignorantes e o ganha-pão dos canalhas.
No Brasil, para quem se candidata a pensar, qualquer manifestação de esperança é somente cinismo.
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postado por: RODOLFO TORRES 1:59 AM


Comments: Segunda-feira, Junho 12, 2006

Banditismo

Associar futebol com criminalidade é tão primário quanto relacionar maldade com política. Somente quem tem estômago resistente é capaz de suportar a rotina fétida dos corredores do poder, assim como somente quem tem lá uma melancolia ancestral de merecimento de alguma cela de penitenciária é capaz de se envolver com esse esporte apaixonante.
E já que o assunto inevitável é a estréia da nossa Seleção, vamos a ele. Creio honestamente que o Brasil não será campeão. E tenho três razões muito sólidas para proferir esse palpite certeiro. Por ordem alfabética: Cafu, Dida e Lúcio. Cafu é o exemplo de jogador que serviria muito mais ao país se fosse corredor. Com a sua resistência física, seria um maratonista formidável, de causar inveja aos povos mais bem nutridos do planeta. Mas ao invés de correr, apenas e tão somente correr, ele decidiu jogar futebol. E o que é pior, foi aceito após quatro reprovações. Ora, o sujeito que é reprovado quatro vezes numa peneira de clube de futebol tem no mínimo algumas dezenas de limitações escandolasas. E não me venham falar de exemplo de persistência. Cafu foi esquecido na sua posição e quando deram conta, ele já tinha quase uma centena de jogos pela Seleção.
A lateral direita no Brasil pode muito bem passar gerações sem um grande representante. O nosso capitã nunca foi exemplo de bom jogador. Ele apenas corre muito. E só! O time que tem um Cicinho, jamais poderia deixá-lo de fora. Para outros reservas de luxo, temos correspondentes à altura. Não no caso da lateral direita. E não interessa se Cafu será o único jogador que participou de quatro finais consecutivas de Copa do Mundo. Isso não tem o menor valor. Ele é muito ruim, e Cicinho, ao contrário, tem o refinamento e a categoria dos grandes futebolistas, dos jogadores obrigatórios para uma equipe do Reino dos Céus.
O segundo é Dida. Alguém aí já viu um goleiro mais trapalhão do que esse rapaz? Dida não sabe sair do gol, simplesmente não sabe. Qualquer cruzamento na área que exija uma mínima saída do goleiro será o nosso desastre. Sim, seremos desclassificados pela bola alta, cruzada de forma repetitiva, exaustiva, pelos nossos adversários. Dida é um trapalhão na bola aérea..
O zagueiro Lúcio, terceiro citado na minha lista de responsáveis pelo nosso fracasso, é um sujeito descontrolado. Alto como Dida, porém não tão sereno quanto o nosso goleiro, é capaz de agredir o próprio companheiro de time. Ou alguém por aí se esqueceu que ele já procedeu dessa forma? Além disso, é metido a driblar. Os manuais sagrados do futebol são categóricos: Se o sujeito não tem habilidade, se ele não tem o mínimo talento para com a bola, ele vai para a zaga. Ao menos ele é um corpo presente que, se a sorte ajudar, atrapalha o adversário na escalada ao gol. Ou eterniza a jogada... Lembrem-se da última Copa, no jogo contra a Inglaterra. Lúcio tentou driblar, vejam bem, tentou driblar o inglês Michael Owen a pouquíssimos metros da área brasileira. Inglaterra 1 X 0 Brasil.
Acabo de saber que a justiça italiana que colocar Cafu na cadeia por uma suposta falsificação de documentos em prol da cidadania italiana, sonho de qualquer brasileiro que saiba o que é cidadania. Dida também passou por esse mesmo problema há alguns anos. A justiça querendo colocar os jogadores brasileiros na cadeia por falsificação de documentos. Nada mais injusto num mundo como é o mundo do futebol. Um ambiente de criminosos! Que o digam Eurico Miranda, Kia Joorabchian, Ricardo Teixeira e tantos e tantos outros. E o povo brasileiro, um apaixonado por essa deliciosa atividade criminosa.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 6:58 PM


Comments: Quinta-feira, Junho 08, 2006

Conselho ao governo: Banqueiro não é povo

O governo não pára de fazer bobagens. Eis na verdade a única função do governo brasileiro: servir de válvula de escape para a classe média decadente e medíocre. Nunca para o cidadão comum. Aquele sujeito que acorda cedo e ressacado, que come pouco e mal antes de ir ao trabalho num transporte precário para receber uma miséria de ordenado. A esperança do povo em dias melhores é inabalável. Resultado de uma miséria histórica com traços culturais favoráveis ao marasmo, a calmaria do nosso povo é uma dádiva a quem se atreve a conduzir o país.
Já pensei em tecer algumas linhas com o singelo título "O último grau do nojo". Mas do que eu falaria; se sou um amante da pocilga, se me esbaldo na desgraça do nosso cotidiano, se não sei ser outra coisa além de um eterno descontente? Daí surge a resposta inapelável: a política. Esse é o divã dos desempregados, dos mal remunerados, dos que perderam a mulher para alguém com melhor condição financeira, dos desamparados pelo tédio crescente que é continuar respirando num mundo cada vez mais idiota.
Num dos corredores da Câmara dos Deputados, enquanto procurava despistar a fome com um cafezinho horroroso, vi um cartaz afixado numa porta do gabinete de um deputado tucano com um levantamento dos lucros dos bancos em 2005. Só o Bradesco, que foi o campeão da lucratividade bancária no ano passado, lucrou 5,5 bilhões de reais. Agora vem a pergunta: Se os bancos lucram esse montante num ano, quem é o louco que vai mudar o presidente por escândalos de corrupção? Eu não tenho a menor dúvida quanto ao amor entre banqueiros e petistas... Afinal, como sempre dizem os parlamentares da oposição: - "Nunca os bancos lucraram tanto quanto no governo Lula".
Dito isso, passo para o enfoque central dessa crônica miúda de hoje. Acabo de saber que os bancos não terão uma legislação especial para tratar com os clientes. Resumindo: Os bancos terão que seguir o Código de Defesa do Consumidor. No Brasil, consumidor é uma palavra com uma força infinitamente maior do que a palavra cidadão. Vai ver que é por isso que existe um código de defesa do consumidor e não existe um código de defesa do cidadão.
Voltando ao enfoque, é bastante claro que o governo pisou na bola para com o seu maior sustentáculo. O PT pode, e deve, bater na própria mãe. Pode cuspir na cara materna, renegar as origens, etc. Isso já é rotina. Mas fazer com que os bancos rezem na cartilha do CDC é um acinte a quem garantiu a sobrevivência desse governo, apesar dos monstruosos casos de roubalheira generalizada.
É bastante salutar para o atual governo mimar as instituições financeiras. O lucro dessas entidades está satisfatório para que Lula continue no lugar que está. Mas caso o faturamento diminua, é melhor atender aos pedidos da classe. Caso contrário, o PT contará apenas com o lastro das classes mais miseráveis do país, e será enxotado da presidência como um cachorro sarnento é expulso de qualquer igrejinha de interior. E quem já provou o gostinho da presidência da República quer ver a eterna multiplicação dessas classes. Com muita paz, é claro.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 2:45 AM


Comments: Quarta-feira, Junho 07, 2006

O insulto ao espanto

A atividade jornalística, por excelência, é um chamado. Não creio no acaso para o exercício dessa profissão. Somente os escolhidos, e esse não é um chamado tão honroso quanto o de outras atividaes, conseguem suportar a mediocridade das pautas e o cotidiano ridículo da maioria dos veículos. Maioria nada. Essa é uma regra! O jornalismo praticado nessa republiqueta é tão cretino quanto o seu povo. Tão ridículo quanto os que fazem dessa infinidade de terras uma República no papel e um caos na prática.
Mas como tudo nessa vida, existe o outro lado. Parece que foi Kafka quem disse que um castigo só é absolutamente castigo se o ser castigado for convencido de que a penúria não terá fim. A certeza de uma punição eterna é o pior castigo. E é por aí que um monte de religiões se fundamentaram... Mas não é esse o assunto do dia da besta fera. Não, o assunto obrigatório desse dia em Brasília é a invasão do Congresso Nacional por parte de centenas de membros do MLST.
O que eu posso dizer desse ato? Primeiro que quando cheguei ao Salão Verde do Congresso Nacional, tudo já tinha acontecido e jornalistas e políticos vagavam de um lado para outro. Os políticos queriam falar as suas bobagem e os jornalistas queriam encher de bobagem o seu trabalho bobo. Uma união tão perfeita essa de jornalistas com políticos que não podemos conceber um sem o outro. Principalmente no Brasil, país no qual as famosas concessões de rádio e televisão ainda vigoram sem a menor discussão por parte de um povo pequeno de espírito.
O que posso ressaltar da minha ida ao Congresso foi uma conversa com dois personagens que se apresentaram fascinantes. O primeiro é funcionário da segurança do Congresso. Com vários e vários anos de labuta, nunca vira tamanha demonstração de desrespeito a um Parlamento já falido. "Não temos contingente para evitar outras invasões como essa", disse-me o homem que trabalha para manter a paz dentro de um pilares essenciais da República. "Eu tenho medo dessa gente, tenho medo desses miseráveis, dessa gente que não tem o que comer e que é inflamada pelo PT", afirmou. "Só acho que essa invasão veio tarde e ao menos provou que nesse país existe gente que não tem sangue de barata", dizia um funcionário da limpeza em seu momento do cafezinho a um colega entediado.
Destaco aqui um fotógrafo que há 28 anos cobre o Congresso. O repórter fotográfico é um sujeito que não pode ser tímido, uma característica quase obrigatória aos repórteres de texto. Quem trabalha com fotojornalismo tem que está no meio do tiroteio, da pancadaria, do tumulto. Se o flash disparar no momento em que o primeiro filete de sangue espirrar no ar, melhor. E o repórter fotográfico que aqui destaco estava revoltado. Exigia dos parlamentares, que andavam em grupos de no mínimo dez, acões mais enérgicas contra os manifestantes. Na sua visão:"vândalos". No auge da sua indignação, quando a sua análise foi solicitada por colegas que já conheciam o seu temperamento explosivo, ele foi direto. Sem nem ao menos respirar para puxar um fôlego esquecido, proferiu irritado: - "Somente um povo de terceira classe como é o brasileiro para votar num presidente fdp como esse aí".
O que posso destacar desse episódio é que a invasão do Congresso não é uma ação isolada. Há todo um contexto de desilusão, desrespeito à inteligência e à cidadania, miséria, caos institucionalizado e apatia. O país era um barril de pólvora. Hoje, a depredação do Congresso é reflexo de um país que está em guerra consigo mesmo. O Parlamento depredado é a conseqüência de um Brasil fracassado. Seria uma pena caso não soubéssemos que a coisa acabaria assim.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 1:55 AM


Comments: Terça-feira, Junho 06, 2006

Duas confissões a vinte reais

Três são as profissões fundamentais para se entender com profundidade as entranhas, o funcionamento íntimo do poder. Com o depoimento dessas três categorias, cada qual com as suas peculiaridades, pode-se afirmar que a República é dissecada da forma mais crua possível, sem os retoques da prudência, sem os sofismas e sem o pudor dos termos respeitosos. Refiro-me às profissões de garçon, prostituta e taxista.
Quem trabalha em alguma dessas três atividades conhece muito mais da prática política do que qualquer cientista social ou jornalista metido a analista político. A intimidade com o topo, segundo a literatura especializada, só traz a desgraça, a solidão, a tragédia em estado de pureza. E não há quem não persiga esses infortúnios anunciados...
Já me disseram que um filósofo alemão, bastante citado por adolescentes raivosos, proferiu certa vez que o amor de uma prostituta é o mais puro de todos as categorias de amor. Pelo que pude abstrair da conclusão do moço, ele fez uma apologia à experiência. Experiência que segundo os mais velhos é o que mais importa nessa vida tão errada que levamos.
O sujeito que se dedica a uma atividade por vários anos, seja qual atividade for, merece um punhado de respeito. Em se tratando das três profissões citadas anteriormente, o respeito adquire dimensões irresponsáveis. Um taxista, por exemplo, que tem décadas de praça é um profundo conhecedor da natureza humana, da condição do bicho homem. E pelo profundo conhecimento, pela experiência demasiada, todo taxista com décadas de praça é um ser calado, triste e decepcionado. Isso também lhe rende uma expressão de estranha calma diante dos cenários de horror que já foi obrigado a testemunhar.
Conheci um sujeito desses em Brasília. Um senhor franzino, educado e de fala rápida. Em poucos minutos de conversa, e por conta do trânsito congestionado, o homem me fez duas confissões. Antes de abrir suas tragédias, pediu licença e suspirou. O taxista veterano tem uma filha, que ganha uma miséria como funcionária de uma empresa. Ele, com seu trabalho ao volante e sua aposentadoria escassa, pagou a faculdade dela, e não tem coragem de pedir que ela deixe o seu emprego para trabalhar de doméstica. "Ela ganharia muito mais sendo empregada doméstica e, quando soubessem que ela tem um diploma, poderiam ajudar a minha menina", dizia. Eu olhava para o taxímetro, fazendo cálculos íntimos, e chorava por dentro.
Passamos do problema do desemprego galopante para o da corrupção corrosiva. A segunda confissão foi mais distante. Recebi-a com uma certa alegria bizarra, por mais incompreensível que isso seja. O taxista com décadas de praça em Brasília admitiu com a cara amarrada que já conduziu os piores elementos da vida pública nacional. Em sua análise, os petistas são perigosos, o presidente conduz o país como se o Brasil fosse um sindicato, e um sindicato é um berço de mafiosos.
Ainda falta a segunda confissão... Quando passávamos em frente ao Buriti, o desabafo que me fez cócegas estranhas na alma: - "Já venderam o país diversas vezes dentro do meu carro". A corrida estava chegando ao fim e eu não podia perder o contato desse arquivo fundamental da história podre de Brasília. O bom homem me desejou felicidades e me deu o número do seu telefone. Mais conversas poderão vir, porém o lado B da história de Brasília não rende um seriado pomposo na TV.

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postado por: RODOLFO TORRES 9:56 AM


Comments: Quinta-feira, Junho 01, 2006

É tudo a mesma coisa

Em matéria de política, generalizar é preciso. E todo esforço para tornar distinto esse ou aquele agente político é um erro infantil, um erro primário. A generalização nos salvará, e quem disser o contrário, seja quem for, seja por qual motivo for, não merece crédito em nossas considerações. Bom, quando digo que generalizar é preciso, falo em geral da classe política e em particular do Legislativo.
Gostaria de achar honestamente que esse Congresso merece permanecer de portas abertas. A felicidade me acompanharia de forma tão íntima e até mesmo no chuveiro eu cantaria de alegria, pos ter essa certeza tatuada em meu espírito. Diria para mim mesmo, num espelho comprado em lojas ao ar livre: - "O Congresso merece permanecer aberto".
Mas o Congresso Nacional não merece estar aberto. Não sei se em outras épocas, esse pilar da democracia chegou a merecer a própria existência. O fato é que hoje o símbolo maior do Legislativo não merece funcionar. Seu quadro e seu histórico estão aí para provar a quem quer que seja que o Congresso Nacional existe apenas para causar vergonha e embaraço a duas dúzias de cidadãos.
Falei que generalizar é preciso... A generalização, que nada mais é do que uma simplificação, no caso da política nacional, permite enxergar as coisas como infelizmente elas são. Existe por aí quem declara que a genialidade é o sobrenome da simplicidade. Pois bem. O primeiro passo para ser gênio é ser simples. No caso da política, generalizar.
Passando do Legislativo ao Executivo, podemos também ser gênios e simplificar as questões. A disputa entre PT e PSDB nada mais é do que a briga de dois braços de um mesmo corpo. Se, de repente, a mão esquerda (que atualmente está mais para o PSDB) resolvesse bater na mão direita, mesmo assim não haveria briga. O cérebro de todo e qualquer partido que apresenta reais condições de chegar ao Planalto é obrigatoriamente o mesmo. Não existe nem ao menos uma conjuntura celestial a cada milênio que faça isso mudar.
Voltando ao Legislativo, diria, com a mão direita sobre qualquer livro sagrado, que todos os deputados, sem nenhuma honrosa exceção, são aspirantes à criminalidade. São passíveis de má conduta. São, em outros termos, membros do Legislativo brasileiro. E o povo, o feio e miserável povo, o desdentado e irrisório povo, cumpre fielmente o seu papel para a eternidade: o papel de povo brasileiro.
De uns tempos pra cá, tenho considerado o papel das mais variadas liturgias para o convívio harmônico entre os seres. E triste do povo que não segue as suas poucas e eternas liturgias. O bancário, por exemplo, não pode ser bem humorado. Assim como em todo serviço público deve existir o sujeito que empresta a juros e a mulher que trai o marido semanalmente com alguém da repartição. Isso é regra.
Da mesma forma é no teatro democrático. O Legislativo é necessário para esse cenário de horrores. Mas em se tratando de Brasil atual, a coisa fica diferente. Não é mais necessário o Legislativo em nossa pátria porque, sem nenhum exceção, ali são todos deputados brasileiros. E não há desgraça maior para qualquer modalidade de Parlamento!

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 8:54 PM



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