Confraria dos Crônicos

De crônica, não basta a vida!



Comments: Terça-feira, Maio 30, 2006

O advogado Ary César Rodrigues empresta o seu conhecimento e a sua indignação para a Confraria dos Crônicos. Eis uma crônica com toda a autoridade de um jurista.

As provas da Falência do Estado Brasileiro (Ary César Rodrigues)

Apesar daquele sabor amargo de todos os dias quando me deparo com uma nova denúncia de corrupção envolvendo alguma autoridade pública, continuo sendo brasileiro e não posso desistir... Tenho que comer a comida amarga deixada por aqueles que saboreiam os pratos de caviar e os vinhos romanée conti (aqueles saboreados após uma eleição ganha), e mesmo assim vou sobrevivendo em um mar de lama, no qual luto para não me afogar.
Da minha responsabilidade lembrei de uma frase dita por um outro amigo dia desses: ¿se verificarmos bem, nos últimos tempos toda e qualquer situação que emperra o nosso País, que atrapalha a nossa busca pelo ¿milagre do crescimento¿, sonho tão prometido e almejado por todos, teve participação decisiva do Estado... daqueles que nós elegemos, direta ou indiretamente para geri-lo¿. Vamos a estas situações (e não irei muito longe no tempo !).
A mais recente é a grave crise que chegou a ser comparada pela imprensa, numa escala um pouco menor, é verdade, àquela resultante do 11 de setembro para os EUA. Falou-se no sentimento de torpor em que mergulhamos após as rebeliões e ataques aos policiais em São Paulo.
Hoje somos vítimas de uma falência do sistema prisional brasileiro. Entenda-se que esta falência não eclodiu agora, mas sim apenas mostrou mais uma de suas mazelas.
Tivemos a convicção da certeza (com pleonasmo mesmo) que as cadeias públicas são controladas pelas facções do crime organizado. Mas veja-se que já se fala em crime organizado desde a década de 70 (A Falange Vermelha). Não se trata de uma figura nova no tabuleiro, ou seja, em 30 anos o crime organizou-se mais ainda e o Estado até contribuiu para isso, já que hoje se fala até em eleição de representantes legislativos pelo crime organizado. Mas vamos lá que esse é apenas o começo do levantamento probatório.
Temos a crise envolvendo a Bolívia. Aqueles que se disseram ¿amigos¿ do Brasil, e que foram apoiados pelo nosso governo, no primeiro momento em que havia um conflito de interesses mostraram a sua organização: montou-se o eixo ¿Venezuela, Bolívia e Argentina¿, atacando os nossos interesses em várias frentes. Chegamos até a assistir um claro ¿ataque¿ a patrício, com a expulsão de terras bolivianas da EBX, isto depois de investimentos da ordem de milhões de dólares.
Não se deixe de falar também da Petrobrás. O Estado boliviano encampou a refinaria onde foram realizados investimentos de centenas de milhões de dólares, ameaçando até de expropriação. Fala agora, ao arrepio de contratos firmados anteriormente, em unilateralmente aumentar o preço do gás exportado para o Brasil.
Nestas situações envolvendo a crise boliviana, assistimos estupefatos o posicionamento adotado pela Venezuela, atacando o Brasil, e do lado do governo brasileiro até manifestações de apoio. Ou seja, o patrimônio nacional do exterior está sendo dilapidado, e apenas para por mais coisas no ventilador, na semana passada presenciamos a próxima jogada de mestre da Venezuela, ao anunciar investimentos na Bolívia da ordem de 1 bilhão de dólares na exploração de gás natural e petróleo. Ou seja, se o Evo Morales acusava o Brasil de ¿tomar as riquezas naturais bolivianas¿, o que será que o querido Hugo Chavéz tem em mente ? A dúvida paira sobre nossas cabeças (só se nas suas, pois na minha só tenho certezas quanto a isso).
Também recentemente assistimos ao ressurgimento da febre aftosa em nossos rebanhos bovinos, situação que vem combalindo a economia de alguns Estados, a exemplo do Mato Grosso do Sul. Em conversa com um amigo residente em Campo Grande tive a nítida visão das mazelas resultantes, uma vez que a pecuária é um dos motores da economia local, e se este elo como esse é quebrado naturalmente gera-se um ¿efeito cascata¿, já que há uma drástica redução na injeção de recursos na economia local. Ninguém vende mais nada, e quem já vendeu não recebe.
Note-se neste caso que não se trata uma situação que resultou de fatores externos, a exemplo de uma queda do dólar, e sim de uma péssima gerência de recursos públicos. Falou-se que existiam recursos para a prevenção e combate da Febre Aftosa, mas que foram mal aplicados. Outrora se disse também que os recursos existiam sim, mas não foram liberados. Para mim, na qualidade de cidadão, só tenho uma conclusão: ¿Falência!¿, e vendo de camarote centenas de cabeças de gado sendo sacrificadas.
Observem meus caros que listei apenas 03 provas, e todas acontecidas (ou eclodidas) neste ano de 2006. Posso apenas mencionar outras tantas, para não ficar mais cansativo ainda: situação das estradas brasileiras, casos de corrupção envolvendo diretamente órgãos e funcionários públicos (saúde, ambulâncias, banestado, correios, mensalão, etc.), programas públicos sendo sucateados, dentre tantos outros.
Em todos os exemplos que citei há um fator preponderante: a participação decisiva do Estado para o sucesso da nossa falência, ora ativamente, ora por omissão.
Apenas para concluir não posso deixar de registrar que nos últimos dias, colocando de lado todas as situações acima, o que vem me incomodando de sobremaneira é uma situação de indignação a partir do momento em que o Estado passou a transferir a culpa para as operadoras prestadoras de telefonia móvel. Ou seja, depositam a ¿solução¿ do problema da organização dos criminosos tão somente no fato de estarem eles se comunicando com o mundo externo. Será que eu sou tão idiota ao ponto de não enxergar que esta é realmente a solução para todos os problemas ?
Enquanto me debruço sobre esta dúvida cruel vejo no O Globo de ontem (29/05/06) a foto de um detento utilizando um rádio amador. É mais fácil para o Estado brasileiro exigir que as Empresas parem de prestar o serviço em detrimento de milhares de usuários do que impedir a entrada de aparelhos de comunicação nas unidades prisionais.
Ser ou não ser, eis a questão... já foi dito. Mas eu continuo sendo brasileiro... ô sanha !

postado por: RODOLFO TORRES 1:00 AM


Comments: Segunda-feira, Maio 29, 2006

É do meu grande e talentoso amigo João Paulo, vulgo Baia Boy, essa crônica sublime. João, um escritor já feito, mora em Salvador e prova que a boa crônica, assim como o bom samba, é filha da dor.

Bad.*

"Ainda pior que a convicção do não e a incerteza do talvez, é a desilusão de um quase. É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi".**

É quase como um choque, ou talvez seja mais do que isso. Você está com saudades, o ocaso lhe permitiu alguns minutos e você, num fugaz instante de improvável felicidade, descobre que a pessoa que você mais amou, aquela mesma pessoa pela qual você ainda suspira nas noites de solidão, está, agora, apaixonada por outro.
É assim, rápido e fatal. Você abre o orkut e percebe, talvez tarde demais, que você simplesmente não pode mais fazer parte da história dela; que seu papel ali acabou, que você, inevitavelmente, faz parte do mesmo passado impessoal de quem vocês, juntos, outrora tanto riram. E agora, você sabe que é a sua vez de ser motivo de pilhéria, e que outro rirá orgulhosa e desavergonhadamente das lembranças às quais você estará confinado: ele a possui.
Então você se pergunta, com lágrimas nos olhos e o coração à mão: o que fazer? Você não sabe. Mas sabe que não há palavras suficientes, em qualquer língua existente, que possam proporcionar-lhe algum conforto. Seus amigos estão longe, longe demais para ajudá-lo. E mais distantes ainda de entendê-lo. Então você volta a fumar, desesperado: mas o peso de sua tristeza não esvaece junto com a fumaça. Você fuma mesmo assim, com suas mãos tremulas acende um cigarro atrás do outro até que o cinzeiro tenha tantas bitucas quanto lembranças em sua cabeça. Se pudesse, você beberia até cair. Até você lembrar que está agora em uma cidade nova, grande e estranha. Sozinho, você recorda que aquele que costumava carregá-lo consigo e nunca deixava-o está longe. Todos juntos, na mesma cidade. Foi você quem partiu.
De início, você pensou que a distância iria ajudá-lo a esquecer. Você formulou algumas boas mentiras e acreditou piamente nas fantasias de vida nova que você mesmo se prometeu. De qualquer forma, até aquele momento, você não havia percebido o quão longe estava. Os telefonemas, os e-mails, scraps, mensagens faziam você acreditar - você acreditaria de qualquer forma - que tudo se remediaria: um dia, voltaria e reclamaria o que era seu por direito. Você sabe que não é simplesmente o fato de ela estar com alguém, mas o modo como aconteceu. Sentindo-se traído - mais por si mesmo - você se nega a acreditar que está acontecendo tão rápido, tão intensamente. Há alguns dias apenas você se despedira com um beijo recheado de promessas que não precisavam ser ditas. Há alguns dias você falava em trazê-la para onde você estava. E, de repente, ela já está apaixonada. E então você recorda de sua própria história, de como ela foi reservada em fazer com que todos soubessem; nas reservas em lhe apresentar como "namorado", apesar da paixão tão ardentemente declarada. E é aí que você percebe a verdade medíocre e conveniente, criada por si mesmo, da qual sua própria inteligência, complacente, o vinha poupando: ela ama o seu sucessor mais do que a você. Ele é melhor do que você.
E você ainda não sabe o que fazer. Quer ouvir música, quando lembra que suas músicas são as dela. Que a melodia que lhe faz bem, lhe fora apresentada por ela. Que você, pouco a pouco e sem perceber, como forma de aplacar sua incessante saudade, criou uma outra pessoa dentro de si, alguém mais bonito, mais inteligente, mais especial... mais pefeito: ela. Então você pensa em procurar outra mulher, e refrear toda sua frustração em alguns minutos de prazer fugaz, quando recorda de todas as outras que já estiveram em seus braços ou passaram por sua cama e, estarrecido, encara o fato de que você simplesmente não pode substituí-la. Ela marcou seu espírito de uma forma que você não consegue reconhecer-se antes de tê-la conhecido: sem identidade, sem passado, sua vida começara no instante em que se encontrou com ela pela primeira vez, com as mãos escondendo o rosto de vergonha por estar atrasada há quase uma hora. Poderia ter sido uma vida, e você simplesmente não conseguiria deixar de sorrir quando ela voltasse.
E você continua sem saber o que fazer. Não sabe mais quem é, ou por que, ou mesmo como chegara onde está agora. Como pôde deixar que sua vida, há apenas alguns meses tão completa e perfeita que você zombaria de Deus e suas promessas longínquas de vida eterna, se tornasse o cruel retrato de seu coração transbordante de tristeza e mágoa.
Sem saber, você continua a andar tropegamente sob a forte chuva. Irresoluto diante dos olhares dos transeuntes, o guarda-chuva fechado, esbarrando em postes, carros, e pessoas, você continua andando através da imunda paisagem da estação. Por poças d'água repletas de imundície, o lixo leptospirótico flutuando soberbamente ao redor, empesteado pelo cheiro de cinzas e o gosto acre da nicotina do esquecimento à boca, você caminha. A cabeça baixa, os ombros curvados, você segue resignado, reconhecendo o momento exato a partir do qual, viver, perdeu todo o significado.


* To let it go, and so fade away...
** Trecho de "Quase", de Sarah Westphal.

postado por: RODOLFO TORRES 5:00 PM


Comments: O nível dos escândalos

Se a minha opinião sobre o nosso país fosse requisitada, se alguém que está perdido no correr das horas se animasse a ouvir o que tenho a dizer sobre o Brasil; seria direto. Não faria rodeios para dizer o quanto me sinto desconfortável na condição de brasilerio. Se bem que essa mesma condição também serve de escudo e de desculpa para minhas infinitas frustrações, ignorâncias e impotências.
Por falar em ignorância, acabo de lembrar de uma historinha. Ouvi dizer que uma pesquisadora universitária, de meia idade e contra-cheque tímido, foi a uma aldeia de pescadores de uma praia distante e esquecida do Rio Grande do Norte. Um cenário que deixaria o próprio Deus vaidoso de sua obra. A pesquisadora, com a sua prancheta e seus óculos caídos, aborda um pescador que fazia reparos em sua rede, enquanto fumava pacientemente os bons cigarros de palha. Disse a acadêmica: - "Bom dia! Estou realizando uma pesquisa e gostaria de saber se o senhor poderia me responder algumas perguntas". O bom homem responde: - "Pois não, senhora". A mulher começa a perguntar: - "O senhor sabe o nome do governador do Estado?". O pescador, fazendo os reparos na rede, e olhando para baixo, responde: - "Sei não, senhora". A pesquisadora continua: - "E o nome dos senadores, deputados federais e estaduais?". Só ouviu como resposta às suas perguntas o repetido "Sei não, senhora".
A mulher, escandalizada, disse que aquilo era um absurdo. Uma verdadeira vergonha. Citou até mesmo aquele velho discurso malhado do "analfabeto político" de Bertold Brecht. Após a sua explanação, que durou algumas dezenas de minutos, ela foi convidada pelo pescador a olhar o cesto de peixes. Pergunta o pescador: - "A senhora sabe que peixe é esse?". A pesquisadora responde que não. "E esse?", pergunta o pescador. Mais um não da mulher. "E esse aqui?", questiona mais uma vez o homem do mar. Novamente um não é dito pela mulher da academia. O pescador, do alto de sua elegância, diz: - "Pra senhora ver... Cada qual com as suas ignorâncias...".
Voltando à questão do Brasil, que é sempre um tema complexo e visceral, estive numa tarde de reflexões enquanto galgava uma vaga no serviço público federal brasileiro, para fugir do desemprego e da fome feroz. Pela nossa história, e por nossas ações, por tudo aquilo que nós representamos um para o outro, o nível de escândalos pelo qual passa o Brasil deveria ser considerado apenas como um ponto de partida. Nunca, jamais, uma situação limite e extrema. Nunca uma anomalia.
O momento em que essas feridas são demonstradas não é exceção na galeria dos nossos momentos. É regra. Se fóssemos um pouco mais nobres de caráter, exigiríamos escândalos sempre que eles ameaçassem se diluir em nossas conversas informais. Conversas informais, regadas a café e cerveja, que influenciam devastadoramente o nosso destino. Quem influi nas conversinhas dos brasileiros controla o Brasil. Afinal, além daquele conversa de antropólogo sobre a nossa oralidade, é muito mais cômodo mesmo achar que acha alguma coisa apenas ouvindo, sem precisar ir atrás de livros, aulas e pesquisas.
O atual nível de escândalos pelo qual passa o Brasil é o que podemos chamar de cotidiano, se a consciência despertar e começar a doer em cada caixola patrícia. Ignorante caixola patrícia.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 12:35 AM


Comments: Quinta-feira, Maio 25, 2006

Eu Repilo

"Texto resposta a minha carta denúncia , em virtude dos trágicos episódios ocorridos na semana passada, quando o nosso site foi vítima dos ataques sangrentos de piratas inescrupulosos, subtraindo do mesmo uma simples e inocente crônica. Segue o resumo da carta resposta da comissão de ética e decoro da confraria:"


Repilo, repilo com indignação e veemência o fato ocorrido nesta imponente e impoluta página da rede mundial de computadores. A ocorrência que merece registro e asco se justifica pelo inexplicável desaparecimento do texto outrora publicado pelo confrade Gustavo, por volta do dia 18 de maio do corrente ano. O texto intitulado ¿por que o espanto?¿ deveria permanecer à vista de todos os confrades e agregados até a sua natural substituição por textos mais recentes, o que culminaria no seu automático envio para os arquivos da confraria, onde estaria arquivado, e não descartado e literalmente amputado dos anais da confraria, como ocorreu no episódio supracitado.
Pela natureza do escrito é de se aventar algumas hipóteses, prontamente pensadas pela comissão de ética e decoro da confraria, diretamente subordinada ao conselho geral. O desaparecimento do texto, e tendo em vista o seu conteúdo ¿pesado¿, não deve ser tida como uma ação isolada, e sim como fazendo parte de uma conspiração para calar e sepultar de vez a liberdade de expressão da nossa população. Certamente orquestrada por comparsas de estruturas muito maiores, quiçá internacionais, sintonizadas no desejo das elites de tomar o nosso país e toda a América latina para os braços do imperialismo predador.
Neste momento, em alguma sala escura e gélida, sob a nuvem negra da fumaça de cigarros muitos, (e não charutos, para não confundir com algum socialista nato) estão os maestros do seqüestro do nosso texto, orquestrando o próximo passo a tomar na direção do objetivo maior. Devem estar discutindo o que fazer com o manuscrito digital. Com certeza o chefe pondera, e algum subordinado mais afoito tentar convencer o grupo a tomar uma atitude mais enérgica, como sabotar todo o site, seqüestrar algum dos confrades, ou até cobrar a vida do autor do texto em troca da dignidade perdida pelas agressivas palavras proferidas na fatídica crônica.
A subcomissão jurídica da confraria, em conjunto com o setor de fraudes e a gerência de processos aos ¿hackers¿ já estão tomando as medidas cabíveis para, em primeiro lugar, preservar as vidas dos confrades, e também para reparar a comunidade do malefício causado pelos meliantes em questão.


Em tempo: adorei a palavra ¿Repilo¿, muito legal mesmo. Repilo... Repilo... Repilo... Gostei. Fará parte do meu vocabulário corriqueiro!
Do aditor
GustavoGT
Natal 25/05/06



postado por: RODOLFO TORRES 9:45 AM


Comments: Quarta-feira, Maio 24, 2006

A casca simples

Meu quase chará, o jornalista Rudolfo Lago, disse há pouco, num programa televisivo da Record de Brasília, o segredo do departamento de propaganda e estratégia de imagem (vulgo marketing) dos candidatos à presidência da República: a aparência franciscana. A campanha de 2006, segundo o célebre profissional da imprensa escrita da capital federal, terá uma fachada simples, diria até triste. Tudo para tentar mostrar que aqueles financiamentos escusos, por baixo do pano, que constituem crime segundo às leis brasileiras, continuem onde sempre estiveram, ou seja, na surdina.
Eu, que já tive experiências televisivas e com documentários, sei que é bastante difícil extrair sofisticação de um orçamento reduzido. E
por mais que a vida tenha a sua beleza e o seu encanto, sem uma verba mínima a coisa não anda. No vídeo então, é indispensável. Míseros segundos na tela de TV custam anos de palavras, extraídas a duras penas de mentes cansadas e mal remuneradas... Mas como ficará então as propagandas para televisão nessa campanha presidencial?
Diria que é infinitamente mais fácil produzir imagens franciscanas com orçamentos exorbitantes, como é o que dispõem os partidos políticos em campanhas presidenciais, do que fabricar luxo com um caixa de fome. Portanto, cabe aos portadores do complexo de Goebbels, os marketeiros em geral, serem franciscanos na forma. Se eu dissesse que eles já são no conteúdo, seria redundante. Eis aí a grande questão para uma eleição que será marcada, entre outras coisas, por uma brutal desilusão para com a classe política (o que já deveria ter vindo, no mínimo, há dezenas de gerações) e por comparações estéreis entre governos siameses.
Os redatores, por sua vez, terão que caprichar e garantir aquele leite diário e suado dos filhotes. Escrever para que os políticos possam ler nunca foi uma atividade fácil. Alguns nem alfabetizados são... Exige paciência, calma e muito tato. Alguns políticos são tão estúpidos na forma de tratar as pessoas que por vezes surge questionamentos nos que têm que suportar tamanha grosseria: "Será que vale à pena passar por isso?". Mas o dinheiro sempre vence mesmo e é isso o que importa.
Ora, a palavra escrita traz infinitas limitações. Talvez resida nessas limitações a personalidade frustrada e melancólica que todos aqueles que se propõem a escrever carregam consigo. Além de ser uma atividade solitária, enclausurada e desgastante. Quantas calorias da alma são consumidas para se concluir uma frase... Um breve parênteses: dizem que James Joyce, célebre escritor irlandês, passava dezenas de horas para escrever apenas uma frase.
Uma imagem, contudo, pode ser irretocável de maneira instantânea. E para as novas gerações, ser instantâneo é ser melhor. O que eu discordo completamente. Ainda carrego comigo as deliciosas demoras dos amores antigos e ingratos... Bom, escolhi uma imagem produzida pelo meu grande e querido amigo, o fotógrafo Édipo Melo, para simbolizar a aparência franciscana dessa campanha eleitoral. A forma, a casca, a embalagem franciscana que essa campanha eleitoral seguirá assemelha-se com a imagem desse feirante da cidade do Natal, capital do Rio Grande do Norte. Uma simplicidade bela que transmite paz e serenidade, sabedoria e respeito. Além do destaque do primeiro plano, é claro.
Só que nesse caso, os franciscanos em questão não atrairão pássaros amarelinhos que cantam a mando de Deus. Atrairão, como sempre atrairam, os costumeiros urubus, abutres e aves de rapina em geral... Ok, e um monte de tucanos também.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 5:05 PM


Comments: Terça-feira, Maio 23, 2006

O terrorismo monótono

Delúbio Soares depõe nesse instante na CPI dos Bingos. Já pediu respeito e foi advertido pelo presidente da Comissão. Bom, até agora nenhuma novidade e pouca memória por parte do tesoureiro da quadrilha que tomou de assalto o Estado. Por falar em quadrilha, o presidente da Câmara dos Deputados, terceiro homem na hierarquia da República, Aldo Rebelo (PC do B - SP) não quer que o líder maior do PCC vá à Câmara depor em outra comissão, a CPI das Armas. E de CPI em CPI, de depoimento em depoimento, tudo vai ficando vazio, perdendo o sentido. A indignação vai ficando mais mansa, vencida pelo cansaço e pela demora excessiva de qualquer atitude punitiva. Aliás, punição é o que não se encontra nessa verdadeira "casa dos perdões" que é o Congresso, a Justiça e o Executivo.
Podemos escavar os registros a procura de alguma punição. Não encontraremos a punição. E não é por causa da falta de rancor e do desejo de violência. Não punimos, entre outros fatores, porque somos um povo de um país diminuto. Apesar de ser um país continental, com aquelas belezas proclamadas em verso e prosa, com mulheres e pratos sem comparações, somos um povinho.
Seria demais, por exemplo, dizer que se Marcola (líder do PCC) fosse ao Congresso, ele estaria entre colegas de índole? Seria exagero, por exemplo, dizer que Marcola é igual em essência aos mensaleiros, aos "sangue-sugas" que compram ambulâncas superfaturadas, ao corrupto de toda a espécie que ao desviar dinheiro público mata de fome e de falta de oportunidades milhões de brasileiros, décadas a fio? Seria prudente, por exemplo, determinar que a falta de percepção do presidente da República, o mandatário-mor do país, que nunca sabe de nada do que acontece ao seu redor em relação aos gravíssimos fatos que acomentem seu governo, é criminosa?
A segurança nos principais acessos do Congresso Nacional e dos principais prédios públicos de Brasília foi reforçada devido ao clima de insegurança que eclodiu no Brasil. Enquanto o terror proporcionado pela miséria e pela falta de assistência dos governos estava restrita aos cidadãos, tudo estava sob controle no discurso oficial. Agora, que o crime organizado consegue ameaçar símbolos do Estado, a coisa mudou de perspectiva.
A reação dos moradores da capital federal em relação às ameaças de bombas no Congresso é idêntica à da maioria dos brasileiros: indiferença. Até parece que quando o Parlamento de um país deve solicitar uma inspeção anti-bombas antes de qualquer reunião ou o que quer que seja, o clima ainda não chegou ao de uma guerra instalada... Bom, essa conclusão é a que sugere qualquer análise mal feita.
O terrorismo no Brasil é chato, enfadonho, fatigante para a população. Não há quem perca o sono por essa bobagem, muito pelo contrário... Enquanto nenhum explosivo for detonado no Parlamento, e ficarmos apenas na ameaça de sangue espirrado e corpos aos ares, não seremos convencidos de que estamos em uma guerra. Uma guerra antiga, gagá. Um guerra milhonária entre Estado brasileiro e crime organizado, instituições irmãs e extremamente lucrativas, instituições que sobrevivem exclusivamente da miséria, da ignorância e da falta de horizonte da gritante maioria desse povo menor: o povo brasileiro.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 3:21 PM


Comments: Morre o cemitério dos nossos próprios versos íntimos

Dizem que num corredor escuro, bem escuro, e longo; daqueles com várias portas que rangem apenas de madrugada e com quadros altos de senhores sérios que olham para quem os observa, existe uma pobre alma solitária que chora toda segunda sexta-feira de cada mês. Sabendo disso, os vigias aumentam o volume do radinho e fingem que não ouvem esse choro do espírito infeliz. É sempre dessa forma e pelo que dizem, a coisa não vai mudar.
Questionado sobre medos e motivos, os insones não elaboram nenhuma resposta razoável para esse choro. Sabe-se que a mulher morta chora toda segunda sexta-feira naquele corredor, e isso é fato. Mas o motivo real desse pranto espectral não é conhecido. Resgantando velhos recortes de revistas sem importância, um poema mal feito, assinado por quem agora chora nesses corredores escuros, emergiu.
E o poema era bobo, e bobo será até o momento da sepultura dos versos. Nada mais trágico, nada pior do que um cemitério de poesias. E sem muita paciência, chegam a perguntar: - "Você já viveu em campos repletos de beleza? Você surgiu ao mundo embalado por palavras certas, por rimas cálidas? Você soube relatar ao tempo que o gosto das palavras deve ser esquecido ainda na infância?".
Fui a um corredor escuro, com várias portas que rangem e quadros que olham, jarros gigantes e um carpete grosso e avermelhado . E lá encontrei, ainda num domingo, um espírito que chorava. De saudade, chorava o morto. De saudade, chorava. Negou o meu abraço e irritou-se com a minha piedade. "Outro dia volto para ser teu companheiro de lágrimas", disse. E se diluiu no ar como os amores mais sólidos.
Então fica combinado assim: toda segunda sexta-feira de cada mês, num corredor escuro, longo, com portas que rangem apenas de madrugada e quadros no alto de senhores sérios que olham para quem os observa; sem esquecer dos jarros grandes e dos tapetes avermelhados, haverá um encontro de gente que pode morrer, que pode estar morta, e que não consegue escrever poesia. Nem ao menos a poesia pequena, nem ao mais um verso de vida.
Nessa hora, em que não se chora mais pela poesia, nessa hora em que o cemitério dos nossos próprios versos íntimos também morreu - pois já não há mais mortos a apodrecer ou a perder a vida - me candidato a morrer. Mas nunca fui verso, nem ao menos esboço de rima eu fui algum dia. Queria dar utilidade ao cemitério, mas o pedido foi negado. Com absoluta justiça.
Resta, como consolo, chorar com as mulheres mortas, no já tão citado corredor, os momentos que caíram na gaveta das tragédias e que se tornaram poemas ruins, por pura falta de competência dos que sefreram o processo ideal para se fazer a poesia maior.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 3:02 AM


Comments: Sexta-feira, Maio 19, 2006

Falimos!

Até mesmo antes do berço, da mamadeira e das fraudas borradas, até mesmo antes do nascimento, o Brasil já tinha a vocação do fracasso. Fracassar é o verdadeiro esporte e a verdadeira paixão nacional. O fracasso é o nosso oxigênio. Sem o gosto da derrota, que muito se assemelha ao da guariroba, o brasileiro sentiria-se mais desolado do que aquela clássica figura do cachorro que caiu do caminhão de mudança.
E não seria agora, nesse tempo em que vivemos, que a coisa seria diferente. A inscrição positivista da nossa bandeira nada mais é do que um mero afago, uma carícia num povo que só conhece (e deseja) a derrota. Somos pobres vocacionais e qualquer sinal de riqueza (seja de qual ordem for) é um soco em nosso estômago sempre vazio.
Por falar em estômago vazio, a última contagem oficial de famintos no Brasil chegou próxima aos 14 milhões de pessoas. Ou seja, os brasileiros que passam fome são numericamente eqüivalentes a população de países inteiros. Quantos brasileiros passam fome? Talvez uma Bélgica, uma Suécia, uma Finlândia... Talvez mais.
Pois bem. Fracassamos como povo, e isso é nítido. E também guarda lá a sua poesia e o seu encanto. Não temos, por exemplo, compromisso com a fartura e com a excelência. O sucesso é uma exceção e, quando detectado, deve ser combatido da forma mais severa, com direito a seguir a cartilha da punição rígida.
Não me espanta que o PCC (Primeiro Comando da Capital), grupo criminoso de São Paulo, esteja com planos para eleger deputados na Câmara Federal. Essas rebeliões dos bandidos no Estado mais rico da federação não devem ser tratadas com espanto. Para ser bastante simples, como todo brasileiro é, isso é apenas e tão somente reflexo da falência do Estado brasileiro. Só e somento só.
Um país que bate recordes de arrecadação de impostos, que é referência de gula governamental por tributos, não pode ser dar ao luxo de passar pelo que o Brasil está passando. Em todos os campos, em todas as áreas. O desemprego dá socos em nossas portas, e uma ladainha besta tenta nos tirar a atenção da visita insistente. Somos mais miseráveis do que algum dia poderíamos imaginar que chegaríamos a ser.
Devemos agora nos acostumar a essa nacionalidade morta. Aliás, uma nacionalidade que já está decomposta há mais de um século, e que só é recuperada com a Copa do Mundo. Copa do Mundo que esse ano já é nossa, sem sombra de dúvidas. E sem falsa modéstia. Diz a prudência que devemos respeitar os adversários, mas não tenho medo de nenhuma seleção se Adriano jogar com a alma.
Retomando, senti na pele a falência do Estado brasileiro quando o tema "telefones celulares em presídios" foi discutido seriamente no Congresso. Os parlamentares discutiam esse tema com uma urgência e com uma concentração que mais parecia que não se tratava de um cenário surreal, de um cenário de uma grotesca ironia para com todos os reais prisioneiros desse cotidiano de tristezas e frustrações: os que têm a cidadania brasileira. Discutir o bloqueio de celulares em presídios é uma agressão a qualquer um que tenha um mísero e escasso senso crítico.
Agora, as operadoras terão que se comprometer a realizar esse serviço. Um alto funcionário de uma delas aqui de Brasília me confessou o que ouviu de um juíz, numa audiência realizada em caráter de urgência para tentar solucionar essa verdadeira palhaçada que é o uso de telefones celulares pelos presos nos presídios. Disse o juíz, com a expressão sarcástica dos representantes de todo sistema falido, a esse interlocutor meu: -"Vocês criaram o problema, vocês arrumem a solução.". E sorriu o sorriso dos portadores da verdade.
Ora, uma afirmativa dessa é de uma infelicidade extrema. Se levarmos o que disse o juíz ao pé da letra, teríamos que condenar também todos os pais de todos os criminosos. Esse interlocutor disse não acreditar no que escutara daquela autoridade do judiciário patrício. Deu uma golada violenta e colocou o copo de bebida no balcão sujo. Com um gritou que abafou a música de má qualidade que tocava ao fundo, proferiu para todos os presentes: - "Falimos!".

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 8:45 PM


Comments: Quarta-feira, Maio 17, 2006

Pesquisa na Imprensa Nacional

Semana passada, em mais uma dessas trades vazias para o espírito, resolvi comprar um livro. Baratinho, simples e instrutivo. Comprei um João do Rio, da série "Nossos Clássicos", e lá me vem aquela nostalgia medonha da antiga imprensa da cidade do Rio de Janeiro. Se tivesse a necessária vergonha na cara, faria uma visita à Imprensa Nacional com um bloquinho e uma caneta bic, dessas de fazer jogo de loteria e anotar lista de compras.
Mas vejam só que coisa... A idéia da visita à Imprensa Nacional surgiu enquanto escrevia essas linhas! Acho que farei sim essa visita ao arquivo dessa instituição. Vou colher material suficiente para encher páginas e mais páginas, nessa atividade dolorosa e "de amargar", como diria Otto Lara Resende.
Bom, volto ao João do Rio. Que coisa mais fascinante é ler as crônicas dos jornais cariocas no início do século 20. O bom cronista, amante da cidade e da alma carioca, era também um frasista. E precisamos, em caráter de urgência, de mais e mais frasistas em nossa imprensa. Frasistas tristes, descontentes com a sua condição. Para que tenhamos um mínimo de eternidade, precisamos de frasistas.
Ainda não li o livro que comprei. Na verdade, apenas passei a vista em uma ou outra página. E exigo respeito daqueles que acham que somente os que lêem o livro por inteiro é que lêem o livro. De forma alguma. Uma alma gêmea me mandou o seguinte trecho, que aqui reproduzo, por conhecer essa minha característica de passar a vista numas páginas e construir meus cenários: - "Não se espante de ver meu olhar constantemente perdido. Este é o meu modo de ler, e só assim a leitura me é proveitosa. Se um livro me interessa de verdade, não consigo avançar além de umas poucas linhas sem que minha mente, tendo captado uma idéia que o texto propõe, um sentimento, uma dúvida, uma imagem, saia pela tangente e salte de pensamento em pensamento, de imagem em imagem, num itinerário de raciocínios e fantasias que sinto a necessidade de percorrer até o fim, afastando-me do livro até perdê-lo de vista. O estímulo da leitura me é indispensável, o de uma leitura substancial, embora eu não consiga ler de cada livro mais que algumas páginas. Mas aquelas poucas páginas encerram para mim universos inteiros, que eu não consigo esgotar." (Ítalo Calvino).
Vejam que maravilha essa frase do João do Rio. Precisa, irretocável. "Só há uma coisa mais desagradável de ser vista do que a penúria: a mediocridade. A penúria causa medo. A mediocridade causa medo e raiva, porque a mediocridade é sempre feliz". E eu já posso dizer que o livro do João do Rio não pode me oferecer maiores reflexões. Será apenas um exercício de imaginar a imprensa carioca daqueles bons anos, com essa fantástica qualidade de texto que servia para enrolar peixe na feira e aparar tinta fresca no chão das casas em reforma da antiga capital federal.
Bom, acho que farei essa pesquisa na Imprensa Nacional. Sem normas acadêmicas e sem intenção de análise. Retalhos de crônicas antigas... Isso deve servir ao menos de roteiro para sonhos mais leves. Farei isso por gosto. E por sobra de tempo.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 1:15 AM


Comments: Terça-feira, Maio 16, 2006

Lula: o "incaível"

As generalizações são, sem sombra dúvida, a base da minha sapiência. Pode ser pouca, beira o nulo, mas é a minha sapiência. Sem as preciosas e indispensáveis generalizações, teria que renegociar com Deus a minha existência. Dependo umbilicalmente de toda e qualquer generalização para continuar me declarando um ser humano. Para se ter uma idéia da minha idolatria, basta dizer que atinjo o meu objetivo em uma discusão se dizem que estou generalizando.
Podemos dizer, por exemplo, que a generalização ajuda aquele sujeito que pretende ser apontado na rua como alguém que produz pensamento. E nada é mais certeiro do que uma observação que generaliza. Basta proferir: - "É tudo assim mesmo". E a profecia está concretizada como uma verdade intocável.
É por esse motivo que afirmo: - "Nem Deus depõe Lula". E não é sem absoluta tristeza que afirmo isso. Os escândalos podem jorrar do Congresso, os ex-auxiliares do PT e do governo podem ir a público declarar que o presidente fazia isso ou aquilo, as ruas de São Paulo podem virar um pátio de guerra compulsivo, a revista Veja pode falar o que bem entender. O fato é que Lula não cai.
Cabe aqui um registro de admiração à Veja e a Lula. À Veja, pelo que a revista representa para a imprensa brasileira, sendo a publicação dos sonhos enrustidos dos seus críticos mais vorazes. A Lula pela sua resistência diante de mais de um ano de denúncias. Não é todo presidente que sustentaria seu cargo com 40% das denúncias que atingiram o governo Lula...
Bom, dizia que Lula não cai nem por ordem do divino Espírito Santo. E qual será a razão dele ser "incaível"? Por que um presidente asfixiado por tanta corrupção não é deposto do trono como um reles arruaceiuro de botequim? Por que continuar a insistir num sujeito visivelmente despreparado para administrar o país? Por quê? Por quê?
Na semana passada passei a vista na Gazeta Mercantil. Ah, o noticiário econômico... Nada me encanta mais no jornalismo do que a imponência e aristocracia do noticiário de economia. É como se dentro do Brasil, e em português, se falasse outra língua dificílima e seleta. E lá estava, estampado na primeira página da Gazeta Mercantil, o real e único motivo de Lula ser um presidente "incaível".
Um banco privado, após cálculos rigorosos, lucrara apenas nos três primeiros meses desse ano um montante de um bilhão e meio de reais. Sim, um bilhão e meio de reais de lucro para apenas e tão somente um banco. Um lucro histórico. Uma marca singular na história dessa instituição financeira. Até imagino os banqueiros embriagados de tanto amor e ternura para com o governo do PT, defendendo os petistas como quem defende a própria vida. Ora, o sujeito não precisa ser nada para saber de certas coisas. Uma delas é: quem manda é quem tem dinheiro. Simples! E qual seria o banqueiro, em sua sã consciência, que permitiria que essa mãe em forma de governo deixasse de "governar"?
Enquanto isso o Estado brasileiro padece diante dos criminosos dos inúmeros Poderes constituídos, ou se constituindo. E mais uma vez, a população observa apática o cenário de horrores que é a vida nessa pocilga institucional, nessa republiqueta cretina chamada Brasil. E cá entre nós: até que merecemos isso.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 1:33 AM


Comments: Sexta-feira, Maio 12, 2006

Dois pesos, duas medidas

O governo do presidente boliviano Evo Morales representa a postura do PT enquanto o partido-quadrilha era oposição: arrogância e onipotência. O fato é que o índio cumpriu o que prometeu aos seus eleitores, tão miseráveis quanto os nossos miseráveis. Só temos apenas alguns milhões a mais de miseráveis. Em todas as categorias de miséria... E em se falando de cumprir promessas, não se pode dizer o mesmo do governo Lula. Digamos que o governo Lula, numa análise rasteira, é uma tragédia.
Não vou me debruçar sobre a mais nova crise envolvendo parlamentares, com aquelas ambulâncias superfaturadas. Corrupção no Congresso é sinônimo de sono e desinteresse. O povo simplesmente boceja diante dessa crise política e não há um único nome que faça frente ao mais ridículo presidente da República depois de Fernando Henrique Cardoso.
Quero falar sobre a Bolívia. Não precisamente sobre a Bolívia, mas sobre a nossa reação diante de alguns fatos envolvendo estrangeiros. No início do governo Lula, o governo dos EUA resolveu fichar os brasileiros que desembarcavam em território dos USA. Um juíz daqui do Brasil resolveu aplicar uma tal de "reciprocidade diplomática". Daí um piloto bigodudo daquele país resolveu mostrar o dedo médio para nós, quando também era fichado. Foi preso. Por pouquíssimas horas, é bem verdade. Mas foi preso! E o povo adorou.
Com a prisão desse piloto americano, nos sentimos mais humanos. Era como se injustiças históricas tivessem se retratado com a detenção de poucas horas desse piloto. O brasileiro era mais digno. Diria até que o brasileiro se tornou imponente. Um colosso em matéria de auto-estima. Por algum tempo fomos aquilo que pensávamos que éramos.
Daí a coisa desandou e cá estamos nós, atolados em escândalos políticos, econômicos, culturais e de toda ordem. Se os escândalos fossem retirados do nosso cotidiano, suspiraríamos de tristeza. Um saudosismo profunda invadiria a nossa alma até o ponto de admitirmos que sem essa roubalheira e sem essa inoperância, não somos nós mesmos.
O caso da Bolívia é bastante ilustrativo. Demostra como um governo pode ser tão vira-lata, na pior concepção do termo, em matéria de política externa. Basta reduzir drasticamente os investimentos brasileiros nesse país e deixar o presidente Morales e os bolivianos serem soberanos. Não é muito difícil e segue a lógica simplista e direta que o PT pregava enquanto oposição. O PT era cartesiano com a sua lógica medíocre e que infelizmente contaminou tanta gente de bom coração.
O presidente da Bolívia fala o que bem entende e não há nem um ensaio de resposta enérgica, ou de ação governamental incisiva por parte do Planalto. Lula, para variar, está perdido. Não sabe se é presidente da República da lama ou militante decadente. Evo também estirou o dedo ao Brasil quando invadiu refinarias da Petrobras com tropas militares. A ação foi a mesma do piloto de avião preso. E Morales ainda recebeu o aval do nosso presidente.
Mas ainda existe quem se orgulhe pela prisão do piloto americano, e quem defenda Evo Morales no Brasil. Reações distintas para o mesmíssimo gesto. Êta vida besta...

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 2:57 AM


Comments: Segunda-feira, Maio 08, 2006

Reportagens, músicas e tanques antigos

Não creio que seja necessário catalogar os nossos dissabores para com o atual governo. Escândalos jorram continuamente e não somos mais capazes de dizer se conseguimos compreendê-los. Provavelmente não entendemos o que é noticiado como escândalo. E isso tem lá a sua importância... Sim, isso deve ser fundamental para a nossa condição de brasileiros.
Ora, do que adianta ficar indignado com o relatório do Procurador Geral da República; com a entrevista ao jornal "O Globo" do ex-secretário geral do PT, Sílvio Pereira; com a compra de ambulâncias superfaturadas, em mais um gigantesco esquema de corrupção envolvendo parlamentares; com a perda de investimentos brasileiros na Bolívia; e com milhares de outros temas que nem ao menos são capazes de envergonhar a quem quer que seja?
A imagem que tenho da imprensa brasileira é a de um tecladista de churrascaria. Aquele sujeito que trabalha enquanto os outros não prestam atenção no seu trabalho. Nem mesmo um mísero batuque em uma mesa distante acompanha o seu esforço de trazer melodia aos ouvidos dos que se empanturram de carne compulsivamente. O tecladista de churrascaria é a imagem irretocável do amor à profissão. O sujeito que toca teclado em uma churrascaria está a poucos passos de se tornar um santo, daqueles que estão perfurados de luz em janelas sacras.
Da mesma forma é o trabalho do jornalista político no Brasil. Horas e mais horas perdidas na frente de monitores, microfones e câmeras, para receber absolutamente nenhuma reação por parte das pessoas. O noticiário patrício ainda conta com uma pequena peculiaridade: aqui a investigação jornalística é exceção. O mais comum é o veículo receber a denúncia em forma de entrevista. E é só!
A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) rejeitou o relatório que pedia o impeachment do presidente Lula, apresentado pelo Procurador Federal Sérgio Ferraz (Acre). Segundo a Ordem, não há "clima político" no país. Quem sou eu para dizer o contrário do que diz a OAB. Tendo, na verdade, a dizer até mais. Não só não há clima político, como também não existe diversas outras coisas no Brasil de hoje. Não existe, por exemplo, uma liderança militar.
Numa churrascaria especializada em frango aqui em Brasília, ouço um trecho de conversa entre dois amigos, enquanto cantarolava um samba antigo tocado no teclado. Dizia um, mais sereno e analítico: - "Se o Brasil tivesse um líder militar, qualquer um, não precisava nem mesmo ser um líder extraordinário, a coisa seria diferente. Bastava um tanque velho, daqueles sem mira e cheio de ferrugem e uma dúzia de soldados desnutridos para a tomado do poder. Duvido que a população faria alguma coisa. Afinal, quem sairía às ruas para defender esse Congresso que está aí?". O outro, com a boca cheia, apenas fazia sinal de aprovação com a cabeça.
O dono da churrascaria, um senhor que há quase trinta anos reside na capital federal, é chamado para ser o avalista daquela idéia. Saudoso dos tempos em que, como diria Millôr Fernandes, os três poderes eram o Exército, a Marinha e a Aeronáutica; o velho gaúcho começou a defender um governo de milicos. "Naquele tempo as coisas funcionavam. Até a roubalheira tinha um código de ética", afirmava o empresário, como quem se prepara para cantar o hino nacional.
Perdi o rumo dessa conversa porque a minha imaginação deu asas a um velho general desdentado que colocaria seu tanque empoeirado na Praça dos Três Poderes, exigindo o poder em nome de uma moralidade que se perdeu. Com certa dificuldade, tentaria dar um tiro na porta do Palácio do Planalto, para que os dois Dragões da Independência pulassem daquela rampa imponente, mas as verbas destinadas às Forças Armadas não permitem tal feito. E o militar retorna sem atenção ao seu lar cheio de glórias nas paredes.
Tecladistas de churrascaria e velhos generais desdentados: eu entendo vocês.
confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 6:56 PM


Comments: Domingo, Maio 07, 2006

Ary César Rodrigues, amigo e parceiro querido, que já me deu guarita em tantas noites de Brasília. Uma pequena mostra do talento desse colosso do direito, da culinária e das letras...

Crônica de um Amor

Agora que comecei a escrever (estou me aventurando pela letras da gastronomia), fiquei tomado por uma satisfação enorme em expressar por meio dos textos aquilo que faz parte da minha vida. Portanto, me desculpem pelos excessos e incorreções, mas ressalto que estará aqui a expressão da minha alma (eita, que essa pesou).
Quando me propus a escrever sobre o tema acima não sabia nem o que seria direito uma "crônica". Um amigo me falou: escreve e pronto, porra !!! Delicadeza esta habitual em meus amigos.
Por que este tema ? Uma desilusão ? Uma descoberta ? Um prazer ? De tudo um pouco, mas mais especialmente uma "descoberta". Não "descoberta" do que é o amor (acho que nem sei direito ainda o que é, ou pelo menos não consigo defini-lo completamente com palavras), mas "descoberta" de mim mesmo. Tudo depois de um processo lento, longo e gradual. Me deparando com pessoas, sofrendo, fazendo-as sofrer, sorrido, fazendo-as sorrir, tendo prazer, dando-lhes prazer.
Depois desta "descoberta", "descobri" que tudo gira em torno do prazer que sentimos e proporcionamos, senão vejamos: de que adiantaria a riqueza sem o usufruto dela ? de que adiantaria falar alguma coisa boa para alguém se aquilo também não nos der um prazer ? de que adiantaria amar sem ser amado ?
A partir do momento em que temos apenas uma parte das coisas acima, teremos um "prazer" incompleto, um objeto indireto que pede um complemento.
Quando fiz a descoberta, a revelação, óbvio, se deu enquanto amava uma mulher (para este tipo de processo alguns requisitos são básicos e essenciais. Não dá para vivê-los em ambiente estéril, pois tem que ser na porrada mesmo). Tive um prazer imenso em amá-la, em demonstrar que a amava, em poder fazer alguma coisa para ela. Ora, fiz tudo de graça, sem passar recibo, sem cobrar retorno, até o último momento. Posso não ter sido perfeito (certamente não fui), mas fui "eu".
O que me restou disso, já que hoje não a tenho mais ? Pura e simplesmente com o prazer que senti naqueles momentos, com as lembranças (e que lembranças). E sem um pingo de arrependimento, disposto a fazer tudo de novo, de preferência com e por ela, mas essa última parte não depende de mim. E garanto-lhes: é muito bom !!!
A queda é a certeza de que podemos nos levantar. Amar e não ser correspondido... não conseguir aquilo que queremos... não significa derrota. Significa, sim, o momento de repensarmos e nos levantarmos. Se eu caí, é por que estava em cima, e se em algum momento estava lá, é porque posso voltar.
Ao passo que relato uma situação própria, pretendo transmitir (sim, isso também me dá prazer) a quem estiver lendo estas malfadadas palavras a importância em amar... não só a uma pessoa, mas também a tudo aquilo que fazemos e faremos. A racionalidade é um ingrediente importantíssimo para nos manter na linha, para nos guiar. Mas racionalidade sem emoção, sem transpiração, parece que é igual a dançar com a irmã, comer chuchu (sem qualquer trocadilho infame com o noticiário político).
Amar a si próprio, por exemplo, não significa esquecer dos outros, pois podemos nos amar ardorosamente por conta de estarmos amando alguém. Amar não é egoísmo, é compartilhar.
Depois destas "descobertas" (calma, pois não resolvi chutar o pau da barraca, morar em uma praia hippie...) também reformulei ou consolidei conceitos e premissas em minha vida, e aproveito para citar alguns:
- sem tesão não há solução
- não tenho nem terei tudo o que quero, mas devo buscar o quanto for possível
- porra, por que não posso ser feliz ?
- se eu não buscar, dificilmente alguém me trará
Por fim, já que ninguém tem mais saco em ler o quer estou escrevendo, deixo apenas uma mensagem, com uma idéia já batida, mas:
"estamos aqui de passagem, por um momento curto, então façamos valer a pena, seja pelas nossas realizações, seja também por aquilo que sentimos.".
Esta idéia acima não implica em deixarmos a racionalidade de lado. Temos vários momentos em nossas vidas, todos simultâneos, mas ao colocarmos uma pitada de "prazer" em cima deles certamente teremos melhores resultados.
Quanto à amar, vejo também que o amor é plural, ou seja, é imprescindível termos pelo menos duas pessoas. Alguns amam mais de uma pessoa, mas isso fica a critério de cada um.
O único problema desta "descoberta" é que agora tenho que me apaixonar, nem que seja por um segundo, um minuto, uma hora, um dia, uma semana, um mês, um ano, uma vida. Eterno enquanto dure !!!
Acho que fui meio "piegas" em alguns momentos (senão em todos), mas dane-se, pois tive prazer ao escrever. Será que é uma crônica ?
Abraços e prazer a todos. (Ary César Rodrigues)

postado por: RODOLFO TORRES 9:31 PM


Comments: Terça-feira, Maio 02, 2006

Petrobras e Vale do Rio Doce

Como todo brasileiro legítimo, não tenho distanciamento genealógico da fome e da miséria. Elas rondam a minha carcaça e ao menor descuido, caio em suas redes. A fome é como uma tatuagem no espírito, uma marca de ferro quente na alma. Já ouvi dizer que um ex-magnata das comunicações no Brasil, judeu imigrante, que passou pelos maiores contratempos nessa vida, não segurava o choro em determinados banquetes. As lembranças de sua infância faminta rasgavam-lhe coração em certas ocasiões de fartura. E o milhonário se retirava do local para chorar num banheiro luxuoso qualquer.
A fome, esse componente irretocável da nacionalidade brasileira, é o cobertor de um leito chamado América Latina. E qualquer aspirante à carreira política nesse continente sabe que a exploração eleitoral da fome é um dos caminhos mais seguros para que os votos brotem. Tudo por conta desse medo ancestral, congênito, enraizado nas profundezas de todo latino-americano: a fome.
Quando falo sobre a fome, não quero fazer nenhuma menção à infeliz idéia de greve de fome por parte do pré-candidato do PMDB à presidência da República, Anthony Garotinho. Mas só para efeito de registro, imaginem o impacto no setor de alimentos do Brasil se todo sujeito denunciado por corrupção resolvesse fazer greve de fome. As prateleiras ficariam abarrotadas, indústrias de alimentos demitiriam em massa, preços cairiam... Seria trágico.
Contudo, a fome no nosso continente é inevitável. Teorias podem ser proferidas, acadêmicos podem sapatear de indignação diante de câmeras de TV ou platéias de estudantes universitários. O fato é: a fome no nosso continente aumentará. Não temos escolaridade, somos pobres e caímos facilmente em armadilhas pseudo-ideológicas.
Se eu fosse boliviano, aplaudiria de pé a atitude do presidente Evo Morales de estatizar os recursos naturais da Bolívia. A questão é que sou brasileiro (infelizmente não escolhemos nossa nacionalidade) e tendo a ficar chateado com o fato da Petrobras ter investido algo em torno de um bilhão e meio de dólares na Bolívia desde 1996. Tudo isso para trazer o gás boliviano ao país e abastacer as regiões mais desenvolvidas de nossa pátria amada. Alguns brasileiros mais indignados com essa questão já propõem que o Brasil deixe de consumir a cocaína boliviana, numa explícita represália à estatização do setor energético da Bolívia.
A grande imprensa brasileira, ao menos nesse caso, se mostrou imensamente nacionalista com a decisão de Evo Morales, que quando candidato foi apoiado publicamente por seu colega brasileiro, Luís Inácio Lula da Silva. E lá vai o Itamaraty tentar resolver essa pendenga. "Criamos um monstro!", é o que talvez se escute nos corredores do Ministério das Relações Exteriores.
Ainda estudante de jornalismo, assisti a uma palestra do agora Secretário Geral do Itamaraty, embaixador Samuel Pinheiro Guimarães. À época, Guimarães, que falava contra a Alca, chegou a demonstrar o quanto a economia boliviana é irrisória em relação à brasileira. Se não me falha a memória, a produção anual de cerveja na Bolívia é equivalente ao consumo dessa bebida durante um final de semana de verão na cidade do Rio de Janeiro.
Pois bem. Esse mesmo país, com sua economia modesta diante da nossa, deixou uma lição para nós que somos tão importantes nesse continente de miseráveis e famintos. A lição boliviana é a de que basta uma caneta e um presidente da República para que as coisas acontençam. E por mais que por aqui queiram dizer que as coisam não são assim, na verdade elas são.
O Brasil perderá muito dinheiro com essa decisão de Morales. O Brasil perdeu de ganhar muito dinheiro com a venda da Companhia Vale do Rio Doce, uma empresa que nenhum governo são seria capaz de privatizar. Será que o nosso presidente terá habilidade para contornar a questão da Petrobras? Será que o nosso presidente terá peito para trazer de volta ao Brasil uma empresa absurdamente estratégica e rentável quanto a Companhia Vale do Rio Doce?

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 5:03 PM


Comments: Segunda-feira, Maio 01, 2006

Recomeçar

Soltar as amarras, deixar o cais...

Desfraldar velas, sem olhar para trás...

Navegar mares nunca dantes navegados...

Aportar em terras estranhas, com o peito apertado...

Pois saudade é companheira, sempre está lado a lado...

Mas seguir é preciso, não há como retornar...

Afinal, amor é plural e não singular...

Fernando Amaral

postado por: RODOLFO TORRES 12:40 PM



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