Confraria dos Crônicos

De crônica, não basta a vida!



Comments: Sexta-feira, Abril 28, 2006

Tão iguais

Não sei se na verdade estou a enxergar o que não deveria. Tenho lá essa tendência da vista e muitas vezes construo cenários áridos para jardins em plena primavera. Daqueles jardins com pássaros tenores, flores no atacado e virgens que cantarolam e suspiram de amores quando passam a mão numa fonte d'água cristalina. Hoje mesmo perguntei a um amigo como estava a sua vida. Ele me responde sem titubear: -"Não tenho vida, tenho desgosto".
Em relação à primeira frase, posso dizer que vejo um roteiro absurdo para essa eleição presidencial. Mais do que as outras eleições. Muito mais do que qualquer outra eleição presidencial, até mesmo porque não tivemos muitas em décadas. Sem desmerecer a tradicional descrição e cautela que todo ator político deve ter, e sem muito menos desconsiderar as peculiaridades da política brasileira, afirmo que esse ano eleitoral está exponencialmente subjetivo.
O presidente, candidato natural, não se declara candidato. Usa o que por direito deve usar, ocupa noticiários diariamente e conta com programas de rádio, televisão e material de propaganda impresso a seu dispor. Nas estatísticas eleitorais brasileiras, nenhum presidente candidato à reeleição perdeu.
Garotinho, que está mal depois do dinheiro injetado em sua pré-campanha, e que venceu as prévias do PMDB para ter seu nome como a opção de pré-candidato do partido, depara-se com a intenção recente de Itamar Franco de voltar à presidência da República. Dessa vez, não como o vice que assume o comando após a deposição do principal. Na verdade, o PMDB nem sabe se lançará candidato. Mas ocupa uma estratégica posição nesse cenário eleitoral. Se o PMDB entrar com candidato, haverá segundo turno. Mas até agora, não há quem possa dizer se esse colosso partidário entrará com nome próprio nessa briga de foice.
Alckmin não está empolgando nem mesmo o eterno aliado do PSDB, o PFL. Em recente declaração, o presidente nacional do Partido da Frente Liberal, senador Jorge Bornhausen, disse que o importante não era indicar o vice na chapa de Alckmin. Importava mesmo era tirar Lula da presidência. Um monte de gente anda dizendo por aí que José Serra será o verdadeiro candidato tucano à presidência. O PSDB está "enganando" os adversários... E eu, que adoro teorias conspiratórias e jogos de poder, creio nessa lenda eleitoral contemporânea.
Os outros candidatos são apenas ornamentos para esse teatro eleitoral, que envolve tanto dinheiro que nem eu quero saber. E não quero saber porque ficaria mais depressivo ainda se não pudesse revelar o que sabia. Prefiro ficar nas trevas e no achismo a ter que me deparar com essas cifras reais e letais. Principalmente a jornalistas...
Se a coisa for pelo caminho que imagino, o PMDB não lançará candidato, ficará como de costume rachado entre os dois nomes que podem chegar ao Planalto e Serra sairá como candidato do PSDB. E para se conseguir o trono presidencial, vale de tudo. Até forjar uma rivalidade entre esses dois partidos tão iguais.
A campanha deve ao menos ser sangrenta, cheia de denúncias e muitas explicações fantasiosas. Uma boa diversão para um povo sem lazer.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 1:39 AM


Comments: Quinta-feira, Abril 27, 2006

Jornaleco ao poviléu

Devo confessar que tenho uma vontade antiga de fundar um jornal. Mesmo na era da informação instantânea e digital, com pequenos textos enviados aos telefones celulares despontando como a tendência para o futuro dessa atividade, tenho lá minhas ilusões de fundar um jornal impresso, mal feito, atrevido até o ponto da prudência; mas um jornal impresso.
Sendo a vida uma senhora sábia, não me permitiu criar um planfleto esquerdista na época da faculdade de comunicação. O desejo de ser pai de algumas folhas surgiu quando a esquerda me era tenebrosa e a direita não tão medonha. No meu jornaleco, a imparcialidade nem passaria pela porta. Afinal, nem mesmo o já esquecido "bom dia" é imparcial. Porém, o amontoado de papel mal diagramado seria crítico consigo mesmo.
A reportagem policial teria espaço privilegiado, com muito "molho" para os consumidores diários de mazelas urbanas. O futebol e a fofoca sobre os artistas da televisão também seriam áreas privilegiadas. Com bastante anúncio público e um monte de matérias pagas, esse jornaleco teria vida longa e pacata.
Não procuraria agredir ninguém, até porque atualmente as indenizações contra os veículos de comunicação teimam em ser cada vez mais exorbitantes. Não poderia deixar de lado o colunismo social, berço tardio para empresários abastados com obsessões políticas e madames entediadas com o conforto de seus palácios.
Esse nome "Jornaleco ao poviléu" mais parece o nome de um prato de um restaurante qualquer especializado em frutos do mar. Apenas uma ilusão linguística. A intenção é oposta à impresão que esse nome causa. O desejo de criar um jornaleco, um panfleto desavergonhado de si mesmo, já nasce como um desejo condenado a não deixar de ser apenas mais um infrutífero desejo.
Bem que poderia planejar minhas ações no compasso desse mundo. Gostaria bastante de me empolgar com as novas tecnologias, de me enxergar demarcando fronteiras virtuais. Mas o desgraçado do papel me persegue. Numa certa aula na faculdade, o professor declarou que o periódico impresso só acabará quando o computador acompanhar o sujeito até o vaso sanitário. Enquanto isso não se tornar um costume disseminado, o jornal de papel ainda pode respirar.
E aqui finda a trajetória do "Jornaleco ao poviléu", um jornal sincero e popular. Mal feito, mas simpático ao pobres olhos de um pobre povo. Tinha nos classificados a sua única fonte de renda. Não eram lá transações nobres, mas que garantiram rodadas de café numa padaria escondida que precisa urgentemente de uma pintura.
Suas charges, de tão primárias, eram incompreendidas. Não existia nem mesmo editorial. Porém, serviu para se enrolar peixe na feira de sábado, anotar endereço de moça bonita na praça do bairro e acender churrasqueira de roda de carro em campos de várzea. Cumpriu de forma honrada o seu papel.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 2:07 AM


Comments: Terça-feira, Abril 25, 2006

Que venham os documentários

O dinheiro sempre vencendo a moralidade e a dissimulação generalizada, no cinema, sempre me encantaram. Não é à toa que diariamente repito a frase incial do "O Poderoso Chefão": I believe in America. Porém, o mais novo filme de Nelson Pereira dos Santos (o mais novo imortal da Academia Brasileira de Letras) que trata dessas minhas paixões cinematográficas, é um horror. "Brasília 18%", título que oficialmente faz menção à baixa umidade relativa do ar na capital federal (há quem diga que o 18% é o percentual de alguma propina corriqueira...), dá um sono gostoso, principalmente se o cinema estiver com pouca gente, como foi o caso de quando vi a preciosidade. Geralmente costumo dar, em média, 20 minutos para que um filme mostre ao que veio. Mas no caso de "Brasília 18%", em menos de 10 minutos eu já sentia que aquilo seria mais um exercício de tolerância com um roteiro ruim e atuações que beiram o amadorismo.
Um filme que conta com Carlos Alberto Ricelli no papel principal já é suspeito. Mas tenho que confessar que os atores de expressão única me encantam de certa forma. Além de Ricelli, citaria como exemplo de interpretação una, independente da personagem, os seus colegas Tarcísio Meira e Francisco Cuoco. Mas em se tratando de Ricelli, diria que a sua capacidade de atuar se assemelha a de uma porta. Uma porta que mora em Los Angeles, mas uma porta.
Com muita mulher pelada, cenas picantes, diálogos fracos, palavrões, e toda a tradição dos piores filmes nacionais das décadas de 70 e 80, "Brasília 18%" me desapontou. Um elenco grandioso (com honrosas, e numerosas, exceções), um diretor imortal e um péssimo resultado em forma de filme. Daí me vem uma simples questão. Se Nelson Pereira dos Santos não consegue escrever e dirigir um bom filme sobre a atual desilusão política dos brasileiros, quem será capaz de fazê-lo? Se um povo não consegue passar, de forma satisfatória, a sua descrença na classe política para a dramaturgia em tela grande, será que esse mesmo povo é merecedor de tal descrença? Godard, em seu recente filme "Nossa Música", mede a capacidade de um povo através da produção poética...
Atualmente somos uma terra de documentários. Hoje, com a popularização dos processos de filmagem, edição e distribuição; qualquer orçamento nanico é capaz de produzir excelentes resultados. Oxalá se dessa monstruosa crise política e moral pela qual passa o Brasil, qualquer coisa parecida com o fabuloso documentário brasileiro "Janela da Alma" fosse feita. Não foi necessário mais do que entrevistar diversas pessoas (entre elas o cineasta alemão Win Wenders e o escritor português José Saramago), algumas imagens colhidas ao acaso - devidamente contextualizadas - e, se não me engano, imagens de arquivo pessoal dos entrevistados. Fez-se a magia da beleza em forma de cinema.
O momento político atual do Brasil pede documentários, muitos, vários. Alguns sairão no formato de longas e monótonas reportagens para televisão. Aliás, é o que se ensina em faculdades de jornalismo: adormecer o público com matérias para TV. Outros, menos comprometido com a seqüência lógica e castradora dos fatos, serão mais leves, mais belos e com forte tendência à eternidade. De um jeito ou de outro, o importante é fazer documentários, e nunca ficção, sobre o esgoto político e ético em Brasília.
Mas não pensem que me agrada falar mal do trabalho de um diretor de cinema como Nelson Pereira dos Santos. É com muito penar que escrevo que o seu mais novo filme me desagradou. Contudo, Nelson Pereira dos Santos não tem mais nada o que provar a ninguém. Já está na galeria de cineastas indispensáveis para se entender o Brasil, assim como Gláuber Rocha. Talvez filmou "Brasília 18%" apenas para efeito de registro de sua indignação enquanto cidadão e intelectual. Mas que "Brasília 18%" desagradou, desagradou.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 3:31 PM


Comments: Segunda-feira, Abril 24, 2006

Sonhar para a humanidade

Estou de saída para assitir ao mais novo filme do agora imortal Nelson Pereira dos Santos. Brasília 18%, título que sugere a baixa umidade relativa do ar na capital federal (ou algum percentual de propina...), deve retratar a corrupção por esses lados obscuros da nação. Digo "deve" porque realmente não tem como fugir do tema ao se fazer um filme em Brasília. E enquanto não chego com as impressões sobre a projeção nacional, volto mais uma vez a falar de Fellini.
Proclamar repetidas vezes a admiração por um grande direitor de cinema chega a ser patético. Principalmente sobre um diretor que começou a filmar em preto e branco, italiano, com uma pitada latina de perversão e machismo. Esse era o homem Fellini, capaz de criar atmosferas de sonhos, capaz de dirigir e escrever cenas do subconsciente, e passá-las maravilhosamente para o mundo.
Já ouvi falar que a beleza é triste. Pois bem, a admiração também o é. Como não se sentir impotente diante de uma brutal admiração? Como não se sentir diminuído ao se deparar com um artista que levou para a grande tela um cinema onírico, de percepções absolutamente pessoais, de improviso mágico, de uma completa sensibilidade que por vezes chega a nos confundir no sentido de que aquele era o nosso próprio sonho? A admiração é triste, mas é uma tristeza boa.
Em "A Cidade das Mulheres", Fellini observa o universo feminino, que tanto medo causa aos homens latinos, principalmente após essas revoluções de comportamento do século passado. O alter-ego de Fellini, sempre na figura de Mastroianni, perde-se num desejo primário por uma bela mulher numa viagem de trem. A partir daí, Fellini inverte a ordem dos séculos e coloca um homem maduro no início da década de 80 para ser julgado por mulheres de todos os estilos. Das feministas, passando pelas carentes e chegando até às mais maigas.
Contudo, não se trata de um julgamento kafkaniano, onde o sujeito não sabe o motivo de estar sendo julgado. Fellini sabe muito bem as razões do julgamento. Porém, deixa entrever que essa modalidade de condenação dos homens pelas mulheres na atualidade é infrutífera. "A Cidade das Mulheres" pode ser entendida como uma carta de rendição às mulheres, de um italiano que nasceu em 1920 e que observa um mundo de mulheres agressivas e de homens encurralados.
Vou sair para assistirb a Nelson Pereira dos Santos, o mais novo imortal da ABL. Que provavelmente mostrará a corrupção na capital federal, com baixa umidade relativa do ar. Mas sem a atmosfera onírica, sem os ambientes mágicos e a edição que acompanha aquela sucessão aleatória de imagens que produzimos em nossos próprios sonhos.
Fellini, em sua fase final, era o subconsciente da última das artes num mundo que não mais lhe pertencia. Ele sim produzia sonhos, com toda a liberdade de um sonhador, com as imprudências e deselegâncias do ato de sonhar. Mas era tão perfeito, tão absolutamente perfeito, que não temo em dizer que Fellini é o homem que sonha para o cinema, para o mundo.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 2:23 PM


Comments: Quinta-feira, Abril 20, 2006

Novos Xenofóbicos

Na verdade nem sei, por pura ignorância, se os chamo de xenofóbicos ou xenófobos. Apesar de achar este último mais imponente, vamos manter o título...
Verifica-se, em Natal, o que estava escrito nas estrelas há tempos, ou melhor, estava carimbado nos passaportes dos estrangeiros que desembarcam em Natal, aos milhares, e cada vez mais, a cada novo dia.
Há poucos dias houve um espancamento de um estrangeiro em uma praia do nosso belo e afável litoral. Os amigos do espanhol afirmam que houve agressão gratuita, e os nativos contestam, dizendo que o mesmo chegou ao local da ocorrência tumultuando o ambiente e fazendo arruaça.
Sem entrar no mérito da questão exposta, gostaria de devanear sobre algo além do ocorrido. Sem dúvida nenhuma, se a bagunça fosse nativa, made in brazil, uma expulsada light resolveria o problema, ou até a famosa ignorada a qual estamos acostumados diante de tanta falta de respeito com os olhos e ouvidos do próximo, principalmente em ambientes praianos, onde o pudor e o respeito ao demais frequentemente fogem da maresia de mãos dadas.
O sentimento que há meses me assolou e até hoje e me incomoda agora parece que se ampliou e alastrou pela cidade. Há um ano, de volta terra Natal, vi e não gostei nada de ver a ¿invasão¿ estrangeira na nossa cidade. Falo do avanço daqueles que vêm à nossa cidade não como turistas, mas como verdadeiros bárbaros, incentivados pelas facilidades sexuais e legais existentes por estas bandas, e teimo em dizer que (infelizmente) isto corresponde à maioria dos casos.
Desde a especulação imobiliária até o incentivo ao turismo sexual, passando por um agradável esconderijo para aqueles que tentar burlar a lei de seus países de origem (o que por lá não é tão fácil), somos invadidos por todo o tipo de más intenções, e é contra isto que temos que lutar. Não sou contra o turista, sou contra ao marginal que chega travestido de turista, e em nada contribui para a nossa cidade.
Em que pese o novo sonho de consumo de algumas natalenses, semelhante ao que ocorreu com a invasão americana na segunda grande guerra, sou obrigado a ver e não me agrada em nada que, cada vez mais, somos impedidos de transistar por certos locais, sob o risco de ver algum ¿turista¿ abordar nossas mulheres ou filhas.
Se fosse exagero ou inverdade o que exponho, não teríamos visto um estrangeiro ser expulso ainda no aeroporto, após tentar agarrar uma ¿nativa¿. Esse estava sem a mínima paciência, e não conseguiu esperar até chegar em Ponta Negra. Na nossa praia-cartão-postal isso até deve ser comum. Falo que deve ser porque há tempos não a visito. Só vejo em foto ou na televisão. Não vou por medo, ou de me exigirem passaporte para entrar, ou por medo de lá não se falar mais português.

Do aditor
GustavoGT
Natal 20/04/06

postado por: RODOLFO TORRES 10:51 AM


Comments: Segunda-feira, Abril 17, 2006

Nossas seguranças

Brasília não é Paris (que pena...). Em assim sendo, um monte de coisas não podem acontecer lá e cá. A passividade diante da roubalheira e da perda de privilégios não acontece em Paris. A mobilização e a tomada das ruas, durante semanas, por parte dos que perderão benefícios não ocorre em Brasília. E por aí é possível traçar, em grande parte, a razão de Paris ser Paris e a de Brasília ser Brasília.
A inversão de responsabilidades é fundamental para qualquer governo que por aqui se instale. Além da nossa histórica passividade, ainda contamos com uma ignorância louvável. O próprio presidente da República é o maior exemplo, e o maior defensor, de que a educação não é lá tão importante assim na vida do sujeito. Uma estatística não oficial garante que mais de setencentos mil jovens deixaram a escola no primeiro ano do atual governo. Vai saber...
Voltando à inversão de responsabilidades, notamos que a atitude dos estudantes franceses é desaprovada por todos os noticiários. O argumento é o de sempre: a economia. Com aquele monte de direitos que os cidadãos franceses têm, fica difícil contratar a juventude cara e sem experiência. Tantos encargos trabalhistas que dificultam a empregabilidade...
Ou os impostos e benefícios dos trabalhadores diminuem, ou o crescimento econômico fica comprometido. Num mundo de economia globalizada, pecado maior do que a seguridade social dos trabalhadores não existe. E para que a população fique convecida, não faltam empresas e governos que comprem "pensadores" para justificar que a era do emprego acabou, e que a era do trabalho está na nossa cara.
Enquanto não recebo o meu troco para dizer que as coisas são assim mesmo, que o que importa é o resultado final do processo econômico contemporâneo, que esse modelo de condução econômica abençoado por governo de direita e esquerda - e até pelos comunas chineses - é o que vai garantir a prosperidade e a distribuição justa de renda; fico com os banderneiros da França.
Ah, se o brasileiro soubesse o quanto é bom sair às ruas durante semanas, paralisar serviços públicos precários, deixar de trabalhar para ganhar a miséria mensal e exigir o inalcançavel, tenho a mais clara certeza de que o solado dos pés do nosso povo seria diferente. Basta de marchar por ideologias. Não existe nada mais cafona do que ter sua ideologia política. Como diria um amigo meu clubber, isso é "altamente out".
Já que não temos nem mais o direito de sonhar com alternativas políticas distintas, pois elas já morreram há décadas, fiquemos com as coisas práticas da vida. Não existirá trabalho para todos, a renda não será melhor distribuída e ainda teremos que suportar a perda constante dos direitos adquiridos. A economia do futuro não suportará o décimo terceiro salário, as férias remuneradas e outros mimos trabalhistas na visão dessa mais do que humana, humaníssima, engrenagem financeira.
A informalidade come no centro, os direitos trabalhistas agonizam em todo o mundo e a batalha por uma ocupação minimamente remunerada é medonha. Mais do que nunca, ter filhos hoje em dia é um exercício de fé na humanidade.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 5:04 PM


Comments: Quinta-feira, Abril 13, 2006

Redações

Ao analisar com certo "carinho" os mais variados estilos de redação numa enciclópedia eletrônica, acho que cheguei a uma conclusão meio inédita, meio óbvia. A conclusão de que a redação publicitária nada mais é do que a prima pobre do jornalismo econômico. Não dá para separar nada do dinheiro, principalmente nesses nossos dias, muito menos a atividade jornalística. Mas, uma coisa é uma coisa; outra coisa é outra coisa. Já diz a sabedoria popular.
Redação publicitária é uma modalidade de texto paradoxal. Às vezes, o sujeito deve saber convencer os outros a comprar aquilo que ele jamais chegará a consumir. E com direito a ouvir sugestões esdrúxulas de clientes que pensam entender alguma coisa de publicidade e de texto. O sujeito jamais redigiu uma nota informando um atropelamento de um cachorro, mas sente-se capaz de dizer como o texto deve ser feito.
Alguns chegam a pedir que o texto seja enviado a eles, para que depois de uma inspeção minuciosa, o amontoado de palavras seja aprovado. Redação publicitária é, antes de tudo, um exercício de paciência. Somente com muita paciência, humildade e elevação espiritual, o redator publicitário consegue chegar aos 50 anos com uma saúde razoável.
Mas se vocês pensam que a redação publicitária se restringe a anúncios declarados de publicidade, certamente vocês são leigos no quesito comunicação social. As pautas espontâneas estão cada vez mais raras. O que consideramos notícia é, quase sempre, informes publicitário travestidos de material jornalístico. O maior pauteiro sempre foi o anunciante. Eis uma lei no jogo da informação profissional.
Já que é pra ser bastante sincero, tudo hoje em dia é reação publicitária. Do declarado classificado ao cerimonioso editorial. Não há nada que escape dos tentáculos da censura dos anunciantes. Eles pagam, e é só.
Contudo, há o outro lado da moeda. Que também não é feliz, também é paradoxal, mas ao menos é mais interessante: o jornalismo econômico. Visto com certa desconfiança pela grande maioria da população, que não entende patavinas do que se é noticiado, essa variante do jornalismo é marcada pelo fato de estabelecer canais diretos com os donos do dinheiro. Em última análise, o jornalista de economia conversa diretamente com quem paga o seu salário tendo a vantagem de ser um conhecedor do assunto. Relação diferente existe entre o redator publicitário e anunciante, já que o anunciante teima em não permanecer no seu lugar.
Seja redação publicitária, seja jornalismo econômico, o fato é que o dinheiro está sempre lá, sendo um delicioso fim para toda atividade comunicativa. Seja ela vender produtos à grande massa consumidora, seja ela vender análises e informações para os que controlam o dinheiro. O norte é sempre o mesmo: dinheiro, dinheiro e dinheiro.
E para finalizar esse explanação miúda, deixo-lhes na companhia de um trecho da crônica "Elogio da morte", escrita em 1918 por Lima Barreto. Um escritor obrigatório, e diário, para o leitor responsável. "A covardia mental e moral do Brasil não permite movimentos de independência; ela só que acompanhadores de procissão, que só visam lucros ou salários nos pareceres. Não há, entre nós, campo para as grandes batalhas de espírito e inteligência. Tudo aqui é feito com o dinheiro e os títulos".

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 5:03 PM


Comments: Quarta-feira, Abril 12, 2006

Gestão da merreca

A partir do próximo ano, o ensino fundamental do Distrito Federal contará com mais uma disciplina no currículo da molecada. Trata-se de ensinar os pequenos a administrar e investir o pouco dinheiro que a maioria conseguirá acumular no decorrer da vida. E como tudo é uma mera questão de saber lhe dar com o trocado, poderemos até ensaiar uma fézinha maior na nova geração que está chegando.
A idéia surgiu como diversas outras. O sujeito viajou para os Estados Unidos, observou que lá as crianças são ensinadas a entender e a investir na bolsa de valores, e pensou em trazer o exemplo para cá. Escreveu com mais dois autores um livro infantil de economia. Não me recordo do título, mas é alguma coisa com encher a barriga do porquinho de moedas. Bom, o sentido é esse. E a capa tem lá um cofrinho risonho e gordo, cheio de moedas douradas. Afinal, até mesmo um porco fica feliz ao ver dinheiro.
Não sei se essa seria uma boa idéia. Creio que descaracterizaria o nosso povo, tão íntimo da miséria, confidente do aperto e do arrocho econômico. Não concebo a idéia de um povo brasileiro que consiga administrar seu dinheiro devidamente. Esse conceito vai de encontro aos símbolos da nação. Brasileiro tem por obrigação histórica ser carente do Estado e miserável por cidadania.
A economia é muito parecida com a natureza humana. De tão cruel, chega a enojar. Creio que seria catastrófica para a economia de um país a ausência de devedores, de maus pagadores; em suma, de brasileiros. A falta de endividamento é um mal que deve ser combatido diariamente por instituições de créditos. Aquelas que emprestam dinheiro aos populares. Sejam elas legalizadas ou não.
E já que tudo é negócio, existe mercado para um monte de coisas. O mercado da ignorância, do desespero, da doença, do desemprego, etc. Para ficar apenas numa pequena ilustração, basta citar a explosão de cursinhos preparatórios para concursos públicos. No filme canadense "O Declínio do Império Americano", antecessor do "As Invasões Bárbaras", a análise feita ao final é a de que essa procura desesperada pelo serviço público é sintoma de falência de um Estado que não consegue garantir que todos tenham uma devida fonte de renda.
Mas aí já entraremos naquela conversa do Estado se meter na economia, dos males que isso provoca... Eu apenas sei que não gostaria de viver numa sociedade na qual o Estado estivesse ausente das relações trabalhistas e da regulamentação da economia em si (será que já não estou?) . E estamos caminhando para isso, infelizmente. A educação já está quase que completamente privatizada. A saúde está privatizada. Segurança, privatizada. Estradas, só funcionam se estas estiverem privatizadas.
A molecada do DF vai crescer com mais noção do que fazer com a merreca que conseguir durante uma vida privatizada. Apesar da renda no Distrito Federal ser diferenciada do restante do país, com o setores da construção civil e serviços (além da administração pública federal), ainda estamos longe de não sermos também miseravelmente brasileiros.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 12:53 PM


Comments: Terça-feira, Abril 11, 2006

Memórias da cidade grande

Existe um período da vida enfrentado pela maioria das pessoas, e comigo não foi diferente, em que temos de abandonar o aconchego do lar e o apoio irrestrito e, às vezes, exagerado, da família, para enfrentarmos sozinhos os desafios da vida. Após a formatura na faculdade, deparei-me com esse momento único de deixar para trás um cômodo status quo em que vivia, rodeado pelos meus pais, amigos, namorada (a inseparável Milla) e embalado pela brisa amena da capital capixaba. Partia rumo à terra da garoa, onde encontraria invernos mais rigorosos e o frio mortal dos espaços infinitos.
É curioso como o tempo é capaz de tornar nossas memórias seletivas. Nos cinco anos em que morei em São Paulo, passei por momentos difíceis, é claro. Mas hoje, preciso fazer algum esforço recordativo para chegar a essa óbvia conclusão. As freqüentes e penosas viagens de quatorze horas encaradas nas folgas dos feriadões, em que reencontrava o paraíso perdido, são inócuas diante das muitas lembranças boas que agora carrego. Até o estranho mês em que passei trabalhando e tomando um coquetel de remédios cheios de efeitos colaterais, após um acidente com uma agulha contaminada, não me causa qualquer sensação ruim hoje.
O que sobrou daquele tempo foi o lado bom. Foram os melhores momentos, sabiamente editados pela memória, auxiliada pelas fotos guardadas em vários álbuns da época. Como aquelas manhãs de domingo passadas no parque do Ibirapuera, caminhando, ou na feirinha da Oscar Freire, selecionando melões e carambolas para a semana ou ainda numa super-padaria em Moema, me empanturrando num lauto café-da-manhã, após fazer plantão na noite anterior.
Por falar em noite, lembro com gosto das saídas com a turma do HC no bar mexicano em Pinheiros ou no tradicional pub irlandês próximo ao hospital. Com a turma do InCor, o ponto de encontro preferido era um simpático restaurante japonês na Vila Madalena. Até da mesa de pingue-pongue do meu prédio, usada à exaustão e com sparrings diversos ¿ jogando ¿em casa¿, não tinha adversários a altura ¿ tenho saudades. Saudade, essa palavra defendida por muitos como a mais bela da nossa língua, embora eu prefira a sonora ¿ungüento¿, cai como luva sobre aqueles anos vividos na metrópole paulista.
Não sou noveleiro. Faz muito tempo que não acompanho uma trama de perto, mas, às vezes, por inércia, assisto a fragmentos de histórias que a falta de assiduidade me impede de encaixar. Atualmente, tenho assistido com mais constância a esses fragmentos, na novela das oito (Belíssima). O que atraiu minha audiência foram as imagens mostradas entre uma cena e outra. Nessa novela, consigo enxergar a São Paulo das minhas memórias. Uma cidade com gente de todas as raças, religiões e costumes. Um lugar em que podemos respirar um ar cosmopolita. Uma terra repleta de encantos e diversidade, escondidos de forma explícita nos trajetos percorridos de metrô e de forma simbólica pela correria do dia-a-dia.
Assim como os dias cinzentos não passam pelo filtro das minhas lembranças, na novela não há espaço para o trânsito caótico, para as tempestades de março que inviabilizam qualquer programa ou ainda para o clima de medo e insegurança capaz de causar taquicardia ao se emparelhar com um motoqueiro num semáforo. O autor só mostra as imagens positivas: dos modernos arranha-céus aos tradicionais casarões, a avenida Paulista dos cartões-postais, as galerias de arte, as lojas glamourosas de estilistas renomados. Tudo isso ocorrendo sob um céu azul quase surreal para quem já morou em São Paulo. À noite, quando agora ligo a TV, pouco me importa saber se a Bia Falcão está viva ou morta, o que eu quero é reencontrar Sampa. Sou um saudosista.

Luís Gustavo Ferreira

postado por: RODOLFO TORRES 11:05 AM


Comments: Sábado, Abril 08, 2006

Geografia da Fome

Com uma friozinho na barriga, pedi emprestado um belo livro a uma bela mulher que estava sem falar por conta de uma cirurgia dentária. Ela acabara de arrancar um dos dentes lá de trás, e estava impossibilitada de discutir pormenores, do tipo, a data em que eu irei devolver o livro. E já de posse desse livro, vi que estava orgulhoso de tê-lo em mãos. Aquilo era um adorno para um ego que não anda lá dando exemplos de como um ego deve se portar para quem o possui.
Agora que estou com esse livro, que é uma referência para estudos humanísticos universais, posso até traçar planos mais audaciosos de análises. Se bem que não gosto de imaginar que dispensarei o palpite às cegas, que é a minha maior especialidade, devo admitir. Um sujeito que consegue elaborar panoramas do nada também deveria ser louvado. Até porque análises sem sustenção fazem parte da maioria do nosso tempo de vida.
Porém, não estou cá para falar de chatices. Ou melhor, para falar através de chatices. Vou ler o nobre Josué de Castro como uma missão toda especial. Relembrarei os deliciosos livros de geografia escritos por Melhen Adas, numa época em que a União Soviética ainda existia, e os computadores pessoais eram impensáveis. Aliás, devo admitir que Melhen Adas foi o meu Monteiro Lobato.
Época esquisita aquela da minha infância. Final da Guerra Fria; uma década perdida para a economia; redemocratização da maioria dos países da América Latina, que passaram por ditaduras militares sangrentas; a já incorporada alerta da AIDS ao cotidiano de milhões de amantes; New Kids on the Block...
Foi nesse cenário que eu lia Adas com um prazer incompatível ao ato de estudar para a escola. Agora, um pouquinho mais tarde, encaro a leitura de um livro indispensável para que nós tenhamos a plena certeza de que a fome é um processo social, político e econômico. Jamais um fenônemo natural. A mais antiga parceira da humanidade permanece entre nós ainda hoje como uma lembrança má do que somos capazes de fazer uns com os outros.
Especialistas em misérias, oriundos de economias mais sólidas, garantem que o grande problema da fome é devido ao número de pessoas no planeta. Como se o nível de consumo de todos os humanos fosse, ao menos, próximo. Enquanto a obesidade é uma epidemia nos países desenvolvidos; a fome continua, e continuará, matando milhões de pessoas em tantos cantos.
Farei de tudo para não tornar esse texto mais chato do que já está. Meu objetivo aqui não é informar, nem denunciar. O que digo é que temos uma histórica e patrícia fome. E que a nossa fome ainda é mais injusta do que outras fomes. Com nosso potencial agrícola, bem que poderíamos fazer uma chantagenzinha com o resto do mundo, criando índices que equiparassem o preço da banana ao dos computadores, para ver se com ainda mais dinheiro conseguiríamos, meu Deus, acabar com essa vergonha nacional.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 2:25 AM


Comments: Quinta-feira, Abril 06, 2006

Tudo é morte por aqui

Quando Timothy Leary, o papa do LSD, morreu, um sujeito barbudo e cabeludo saiu pelas ruas de Los Angeles tocando um violão antigo, exalava um luto congênito e proclamava por aquelas ruas incendiárias que Leary estava morto. Numa comunhão de transe e respeito, cantarolava anunciando a morte do sujeito que defendeu que estágios de consciência alternativos representavam mais um direito dos homens.
O ano era 1996 e, nessa época, eu não sabia que John Lennon confiscara uns escritos de Leary para concluir a letra de "Come Together", faixa de abertura do disco Abbey Road, aquela mesmo em que os Beatles atravessam a rua numa lendária faixa de pedestres, e que implicitamente representa o enterro de Paul McCartney.
E por falar em enterro, o palhaço Carequinha morreu. Dessa vez, creio, ninguém saiu pelas ruas a lamentar a morte do maior palhaço do Brasil. O Estado brasileiro deveria declarar luto oficial pela morte dessa homem. Aliás, a bandeira nacional jamais deveria sair, em hipótese alguma, do meio mastro.
Assim como Lima Barreto, "Desesperava-me o mau emprego dos meus dias, a minha passividade, o abandono dos grandes ideais que alimentara.". E foi nesse estado de espírito que recebi um telefonema de uma fonte. Ora, fonte pode ser entendida como aquelas pessoas que passam informações aos jornalistas. É mais ou menos isso. Algumas fontes não ficam só na conversa. Jantares, pouca luz e roupas ao chão... Mas esse não é o meu caso. Tenho por minhas fontes um zêlo quase paternal e não permitiria que essa condição fosse substituída. Recebi hoje diversos telefonemas de uma fonte. Dizia-me a voz do outro lado que eu perdera um episódio singular. Alguns "humoristas" do Casseta & Planeta foram barrados na entrada do Congresso Nacional porque estavam vestidos de pizza. Uma associação rasteira para um episódio que mereceria tratamento mais distinto.
Logo após a absolvição do deputado João Paulo Cunha (PT/SP), aquele que encomendou pesquisas de opinião sobre a sua imagem pessoal para uma agência de Marcos Valério quando o petista presidia a Câmara dos Deputados, explodiram notas indignadas por todos os lados. Até mesmo uma renúncia em série foi ensaiada por membros do Conselho de Ética, mas logo depois quase todos retornaram aos seus devidos postos, provando mais uma vez que a indignação em Brasília é relativa e se dilui como que por mágica.
Na semana passada, ocorreu um Encontro Internacional de Palhaços em Brasília. Destaque para uma família italiana que há seis gerações fazia palhaçadas. E de geração em geração, essa família vive um paralelo íntimo com a chamada "cidadania brasileira". Na ocasião, disse que Brasília oportunamente abrigava tal encontro. Agora, a capital federal só falta receber os encontros de agiotas e filhos de cortesãs em geral.
Noto que tratei de diversos defuntos nesses texto: Timothy Leary, John Lennon, Lima Barreto e Carequinha. Mas não só as personagens estão mortas nesse texto. Há também a morte do exemplo. O exemplo está mais morto do que nunca nessa país, cuja cidadania está morta e cuja bandeira jamais deveria sair do meio mastro.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 4:35 PM


Comments: Segunda-feira, Abril 03, 2006

Jornalismo de jornal

Não é animador estar fora das redações. Mesmo contando com a juventude e alguma experiência, é bastante triste constatar que essa distância me enferruja e causa mutilações. E eu, que jamais freqüentei a redação de um jornal, posso dizer isso com uma incômoda autoridade. Para não dizer que jamais freqüentei uma redação de jornal, fiquei apenas um dia na redação de um jornaleco de minha cidade Natal. Mas essa não foi lá uma experiência feliz. Tenho um dia de jornal impresso, e sofro muito por conta disso.
Queria mesmo entrar na reportagem policial. Ficaria três meses cobrindo as histórias de crimes do Distrito Federal, uma região que simboliza muito bem as contradiões desse nosso país, e adquiriria uma "experiência de Balzac", como disse certa vez um jornalista e dramaturgo bastante famoso.
O jornalismo exige algumas coisas dos seus praticantes. Uma delas é uma redação. Prefiro as clássicas: barulhentas, esfumaçadas e calorosas. Mas hoje não posso exigir muito. Queria apenas uma redação de jornal para aprender o que é realmente ser jornalista. Nem sei se vou conseguir, e confesso que já estou até um pouco conformado com essa pouca sorte. Mas se a oportunidade viesse, seria bem vinda.
Há poucas semanas comprei um Rubem Braga. O livro trata de crônicas inéditas, em livro, do "velho Braga" na imprensa gaúcha. Entre julho e outubro do ano de 1939, Rubem Braga elaborou seus poemas em prosa nos jornais do Rio Grande do Sul, encontrou com Érico Veríssimo e fez maravilhosamente bem o que faria até a sua morte: escrever crônicas.
O jornalista capixaba fala de tantos assuntos, tão deliciosos, tão perfeitamente construídos e expostos nas páginas de jornal, que quando acabo de ler determinados textos a vida teima em ficar mais leve. O Braga, por exemplo, trata da bravura de um menino gaúcho chamado Bruno Lichtenstein que arrombou o prédio da Faculdade de Medicina de Porto Alegre para salvar o seu cachorrinho que havia sido capturado para experimentos científicos.
Mas o "velho Braga", mais do que em qualquer outro livro dele que li, faz homenagens explícitas à profissão de jornalista. E jornalista de jornal, sem pleonasmos. Em suas próprias palavras, afirma: "Sou jornalista, o que quer dizer: nem um literato, nem um homem de ação. Escolhi eu mesmo a minha profissão; não me queixo". Na crônica entitulada "Doutor Jornalista", datada de 27 de setembro de 1939, ele profere, a respeito da Escola Superior de Jornalismo no Rio de Janeiro: "Pode ser que médicos, engenheiros e bacharéis fiquem tristes com a má companhia. Jornalistas chamados de doutores!".
A grande formação de um jornalista é a redação diária, é a pressa cotidiana. Jornalismo não é sinônimo de tranqüilidade, de marasmo. A inquietude é uma virtude nessa atividade. Afinal, a profissão de jornalista vive de paradoxos. "Oh profissão malsinada e tão querida!", foi o que escreveu Rubem Braga sobre sua atividade, que iniciou-se quando ele contava com 16 anos.
Conto apenas com um dia de redação de jornal, mas ainda carrego esperanças de envelhecer como um bom soldado da imprensa, que merece ver chegar seus fios grisalhos numa redação de jornal. Na minha mesa, um "Versinho trivial" de Rubem Braga, que me guiará até meu último fechamento de edição:

Quando eu era rapazinho
Queria ser intelectual,
Mas hoje sou jornalista.
Que faço eu no jornal?
Sou cozinheiro do trivial!
Sou cozinheiro do trivial!

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 11:21 PM



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