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Confraria dos Crônicos
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De crônica, não basta a vida! Comments: Sexta-feira, Março 31, 2006 Palhaços em Brasília Analisar o cenário político atual mais parece um exercício de contorcionismo. São tantos os fatos, as nuâncias, os cenários, que temo não trazer nada de novo. Aquela velha história do "mais do mesmo". Brasília ferve com Paloccis, Francenildos, Okamottos, Guadagnins, Mantegas, Alckmins e um monte de outras coisas. Mais parece que se você dormir, estará cometendo um pecado gravíssimo e imperdoável. A notícia brota nessa capital como brotam, por exemplo, matinho entre os paralelepípedos das ruas antigas, das velhas cidades. Ser jornalista por esses lados, e nessa época, é ter sempre o que dizer. Sondei a respeito dos bastidores da demissão do ex-ministro da Fazenda. Disseram-me que o clima nos corredores do poder era de extrema de decepção e indisfarçavel tristeza. O símbolo da credibilidade econômica nacional havia caído. O único ministro de sustenção do governo Lula havia desmoronado. Como bem disse Jabor, os "Revolucionários Trapalhões", um por um, estavam caindo. Palocci é uma paixão do presidente Lula. Na troca de cargos, no Ministério da Fazenda, elogios rasgados do presidente a um homem que agora precisa declarar-se doente para poder faltar a um depoimento na Polícia Federal. Palocci deixa um ministério. Palocci deve explicações à justiça e à polícia. O que eu na verdade quero dizer é outra coisa. Não quero aqui falar sobre essas miudezas, essas notícias tacanhas. Há algo de mais nobre ocorrendo no Distrito Federal, e a imprensa inisiste em explorar apenas o lado feio e cruel das jogatinas políticas. Muito oportunamente acontece em Brasília a 4ª edição do Festival Internacional de Palhaços, no SESC/DF. Que contará com a participação de palhaços de todos cantos: Espanha, Itália, França, Argentina e, claro, do nosso querido Brasil. O público de Brasília assistirá à muita palhaçada até o primeiro de abril, data de encerramento do Festival. Diante do que acontece no Brasil, mais precisamente em Brasília, há quem possa considerar essa informação uma brincadeira. Mas eu jamais brincaria com tal fato. Tenho o mais profundo respeito pela arte circense e creio que a maioria da população também. Não seria capaz de dizer uma coisa dessas apenas para fazer um trocadilho sem vergonha com a palhaçada de mau gosto que somos obrigados a presenciar através dos noticiários políticos. Se bem que enxergo paralelos entre palhaços e políticos. Um deles, e certamente o mais forte, é o extremo horror que nutro por ambos. Quando vejo um político de perto, procuro instintivamente o meu pai, que era uma espécie de escudo contra os palhaços das festas infantis que era obrigado a encarar na minha tenra infância. Outra semelhança pode ser a melancolia que essas duas figuras do imaginário popular carregam consigo. Seus mundos são cinzentos, mesmo com o carisma e o aplauso. E, quem sabe, erro nosso seja considerá-los distintos, antagônicos. São tão próximos em essência, tão intimamente ligados por qualquer coisa que possa ser chamada de vida, que suspeito de algo. Suspeito que temos que aprender a rir dos políticos. É isso! Rir da política. Eis a nossa única defesa contra as palhaçadas que são feitas em nome de um hipotético bem comum. PS: Para quem duvida da existência do festival, eis o endereço - http://www.sescdf.com.br/news_details.php?sNewsDetailsID=4601 postado por: RODOLFO TORRES 1:36 AM Comments: Quarta-feira, Março 29, 2006 Carta ao amigo Gonzalo A mistura de vinho e churrasco, ambos argentinos, é certamente uma das melhores combinações para enfrentar a própria vida. Vida na qual os bons momentos merecem ser celebrados devidamente. Com vinho e churasco, ambos argentinos, por exemplo. E foi num momento em que celebrava a vida como os nossos vizinhos argentinos que conheci pessoalmente Gonzalo. Sujeito de uma diplomacia exemplar, de uma polidez rara, de uma simpatia congênita. Como todo bom patriota, Gonzalo é profundo conhecedor de seu país, a Argentina. Certamente se diverte com essa rivalidade infantil e futebolística que os brasileiros e argentinos nutrem através dos tempos. Se é necessário irritar o vizinho, então que seja feito, mas de uma maneira cordial. Até consigo imaginar a sua satisfação quando o jogador argentino Carlos Tevez foi eleito o melhor do campeonato brasileiro de futebol de 2005. Creio que ele não confessaria, mas acho que jamais um jogador brasileiro ganharia tal título na Argentina. Milagres poderiam brotar de seus pés, mas esse título um brasileiro jamais ganharia na Argentina. Mas não é sobre isso que eu gostaria de falar. Venho aqui para tratar de assuntos mais enfadonhos, mais nebulosos, menos encantadores. Tenho enormes curiosidades em relação ao país vizinho. Como a maioria dos brasileiros, a Argentina me parece um país distante e pouco familiar. Quando assisto a alguns filmes argentinos, a sensação que tenho é a de que aquele não é um país próximo ao meu. Essa mesma impressão se aplica à música, literatura, e outras expressões de um povo. Porém, eu já disse que venho tratar de temas mais ásperos. Uma das minhas maiores curiosidades é em relação à política econômica adotada pelos argentinos. Se o meu colega Gonzalo pudesse me ajudar nisso, seria de um grande valor. Pela primeira vez na história desse país (como diria o presidente Lula) argentinos explicariam a situação de seu país para os brasileiros. Um historiador, um cientista político, um economista e um jornalista, todos argentinos, falariam para brasileiros. Uma das minhas perguntas seria: "O povo argentino suportaria de bom grado um ministro da Economia como o ex-ministro Antônio Palocci, defensor de uma cartilha que prega juros exorbitantes e excessivo apetite fiscal?". Evitaria as perguntas mais polêmicas, de caráter mais pessoal, como as relacionadas ao futebol. É válido lembrar que estamos a três dias da data oficial do início do Regime Militar no Brasil. Será que nos lembraremos, ao menos, disso? Será que faremos vigília e discursos, será que nos reuniremos e cantaremos em homenagem aos nossos mortos, numa celebração triste, porém justa; como fizeram os argentinos há poucos dias? Ou teremos mais uma vez que provar a nossa apatia diante das nossas datas? Caro Gonzalo, se possível for, gostaria que alguns argentinos explicassem a alguns brasileiros o que é a Argentina. Se nós dependermos da imprensa brasileira para entender o seu povo, vamos apenas repetir o que eles dizem. Que não é responsável imitá-los na política econômica e que devemos nos contorcer de paixão pelo Brasil quando as bandeiras de nossos países se encontrarem em um gramado de futebol. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 12:04 AM Comments: Segunda-feira, Março 27, 2006 A necessidade das tradições Deveríamos ter mais cuidado na manutenção das tradições. Costumamos tratá-las com um certo desprezo, com um cuidado escasso. São as tradições que permitem que a nossa vida tenha algum sentido, são elas que orientam o recheio de nossas horas. Agora mesmo vejo que a nova tendência da Moda Praia são os biquinis antigos, aqueles que escondiam mais o corpo da mulher. Seria esse um sinal de redenção? Serei obrigado a citar Nelson Rodrigues, mais uma vez. Eis o que dizia o mestre da dramaturgia brasileira sobre a nudez: "No tempo em que a nudez tinha mistério, tinha suspense, era um dos mais altos bens da mulher. Mesmo a mulher mais destituída de encantos tinha essa nudez latente debaixo do seu vestido. E isso era fascinante. Uma pobre-diaba vestida era salva, não pelo gongo, mas por uma possibilidade de nudez"; "A nudez feminina perdeu todo o suspense e todo o mistério. Vivemos a mais despida das épocas"; "Como é triste o nu que ninguém pediu, que ninguém quer ver, que não espanta ninguém". A volta do biquini mais largo, mais comportado, mais reacionário, pode ser um sintoma do nosso tédio. O tédio de não possuir tradições, de não saber a razão dos dias e nem ao menos se sentir parte de algo maior e mais expressivo. Há poucos instantes, ouvi numa papelaria uma jovem se queixar para uma amiga. Dizia, com certa mágoa, que os rapazes não a queriam. Seu amor era tanto e tão intenso que amara dezenas deles, apenas em seu colégio. E o leito no qual muitos deitam pode ofertar, além do prazer da variedade, uma feroz solidão. As coisas pedem cerimônia, e tudo carece de certo ritual. Quisera eu conhecer uma rígida tradição, uma violenta norma. Nada disso me foi ofertado. Os antigos ainda guardam certos ritos que certamente morrerão em poucos anos. O cada vez mais incisivo culto à juventude, como bem observou e escreveu Huxley, é de uma tristeza sem tamanho. Rituais são necessários, cada vez mais necessários. Já que os rituais são necessários, vou tecer algumas considerações, pequenas e pouco importantes considerações, a respeito da política nacional. Falei dos biquinis, das tradições e agora me ponho a divagar sobre a política. Muito se falou sobre a dança da deputada petista Ângela Guadagnin na Câmara dos Deputados, após um colega de partido escapar da cassação e muito se disse sobre a violação do sigilo bancário do caseiro Francenildo, etc. Seguindo as tradições da política nacional, podemos facilmente constatar que a compra de apoio do Legislativo não é uma prática inovadora. Diria até que é tão comum quanto o desvio de dinheiro público, que sempre existiu e que garantirá a bonança para diversas gerações de políticos profissionais do Brasil. A compra de apoio é gagá. A roubalheira é caduca. A corrupção, senil. Do mesmo modo, a intimidação dos fracos pelos fortes é muito velhinha também. Nada mais comum do que um forte ameaçar e acabar com a raça de um mais fraco. Isso é Darwin! Entretanto, contudo e porém, existe meios para se fazer isso. Comprar voto de parlamentares não se dá apenas com dinheiro. Pode ser um favor aqui, um agrado acolá. Um ministério, uma secretaria especial, um cargo de confiança. Não com a deselegância de malas abarrotadas de dinheiro. Depreciar o depoimento de um sujeito simples também não pode ser feito da forma abusiva e descarada, como a que o governo fez com Fracenildo Costa, para salvar um ministro da Fazenda moribundo. Ficar feliz com a salvação do mandato do colega de partido é comum. Mesmo que ele esteja envolvido num monstruoso esquema de corrupção. Mas a dança da deputa petista é o exemplo mais emblamático da morte das tradições, dos velhos modos. Compra de votos, intimidação, roubalheira, acordões, esquemas de corrupção, sempre estarão presentes em qualquer vocabulário político mundial. Afinal, como diria Nelson Rodrigues, "Eu me nego a acreditar que um político, mesmo o mais doce político, tenha senso moral". Mas até na política os rituais são necessários. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 3:08 PM Comments: Sábado, Março 25, 2006 Um bom emprego Sei que a magia é pouca quando o roteiro já é conhecido. O ator tem lá a sua importância, mas nada que fizer será capaz de trazer grandes e irreparáveis surpresas quando todos já conhecem o desfecho de um ato. Sua conduta e o seu destino no palco estão traçados por linhas anteriormente escritas, sem nenhuma possibilidade de improvisação. O enredo não perde o encanto quando já sei o seu final. Ele adquire novas possibilidades, novas inquietudes. Ora, se o que importa é o trajeto e não o desfecho, não há razão de querer desconhecer o final das histórias, que teima em ser sempre o mesmo. Falo, nesse instante, de um ministro moribundo. Aliás, o governo Lula se caracteriza, entre outras coisas, pelo paradoxo da força dos seus principais ministros. José Dirceu era o Estado brasileiro. Palocci era a economia brasileira. Antônio Palocci Filho, ministro da Economia que está para se despedir do governo, é uma dessas figuras que conseguem provocar sentimentos exponencialmente opostos. Não sei quanto a vocês, mas aquela língua presa de Palocci me dá nos nervos. Não só em mim. Conheço gente que sai da sala toda vez que a figura do ministro aparece na televisão. Um ministro da Fazenda não é a figura mais simpática de um governo. Especialmente se esse governo é no Brasil. Contudo, é certamente a maior vitrine para planos futuros de maior projeção. Nunca é demais relembrar que FHC era ministro da Economia de Itamar Franco. Contudo a saída de Palocci do governo Lula soa triste e melancólica como uma melodia perdida de violino numa tarde chuvosa de outono. Todo ministro demitido adquire um aspecto de pobre coitado. Palocci não é diferente. Toda aquela segurança e toda a credibilidade que conseguiu com a materna oposição, não servem mais para mantê-lo no cargo. Herdeiro aplicado de Pedro Malan, Palocci certamente será um promissor conselheiro de instituições financeiras, ou assumirá a diretoria de algum grande banco privado. Seja quem for o próximo ministro, a política econômica continuará a mesma. Seja quem for o próximo presidente, a política econômica continuará a mesma. Até mesmo eu, um sujeito que considera o lucro um dos maiores pecados que o homem pode cometer, conseguiria ser um excelente ministro da Fazenda. Basta não ter o menor apreço pela dignidade da esmagadora maioria do povo brasileiro. Se bem que o brasileiro é um povo bom de se comandar. Sempre existe espaço para o arrocho, para o aperto, para o imprensado. Nunca haverá sob a face do planeta um povo mais malabarista com as finanças, mais paciente com os governos, mais tolerante com a ignorância. Eis um povo perfeito para se extrair a alma rala. As diretrizes da nossa economia vêm de fora. E qualquer um pode ser ministro da Fazenda. Até eu. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 6:08 PM Comments: Sexta-feira, Março 24, 2006 Infinita capacidade de se indignar Achei que tinha perdido a capacidade de me revoltar, mas pasmem, ainda consigo. Ao ver a dança da pizza, em pleno congresso nacional, não resisti. Ruborizei, calei, taquicardias e pico hipertensivos a parte, quase desfaleço. Após a quinto absolvido, mais um nobre parlamentar, réu confesso em crime contra o fisco e recebimento de dinheiro ilícito, uma deputada petista de São Paulo iniciou uma cena memorável em pleno plenário. Uma dança festiva, algo como uma dança da chuva misturada com reggae. Nada muito contido, pelo contrário. Euforia à vista. Sorriso estampado, escancarado. Escárnio, zomba, deboche. Falta adjetivos e sobram argumentos para a nossa revolta. No início das absolvições, um jornalista disse que a sentença favorável àquele que cometera ato ilegal fora um chute no estômago do povo. Outro disse que o chute tinha sido mais embaixo. Pois bem, se chutaram lá embaixo, agora estão pisando. Deram os chutes e agora estão com a bota em cima, esmagando, como se esmaga uma barata. E o pior é que dói mesmo. Como já sou hipertenso, notei que a revolta contra isso irá me levar embora mais cedo. Cada raiva me tira preciosos minutos de vida, e quero todos eles. Decidi então não me revoltar mais. Compactuei comigo mesmo, a dança da pizza terá sido o último episódio de convulsão moral que irei sofrer. Após reflexão exaustiva decidi isso hoje cedo , antes de sair de casa. Agora vou encarar tudo isso como se estivesse assistindo um grande filme. Assim posso até me divertir com tudo isso, já que é só isso que nos resta. Vou vestir a ¿capa da ignorância¿, o melhor remédio para evitar infarto e derrame. Ciente de minha nova postura entrei no carro em direção ao trabalho. Novo homem. Em plano astral superior, livre das intempéries da política e dos absurdos do dia-a-dia. Como de costume ligo o som (nada mais relaxante). Para o meu desespero, estava sintonizado na CBN, e o tapa na cara me veio logo na primeira notícia. Saibam que está aprovado um novo plano de carreira para os funcionários do povo, já em tramitação no congresso desde a era Severino, que irá incrementar em cerca de 200 milhões de reais os gastos com o congresso. Aí é demais. Ainda na garagem de casa surtei, ruborizei, me debati, asfixiado e tenso, sai do carro imediatamente. Fui beber um copo de água gelada. Aproveitei para deixar sobre a poltrona da sala a capa que vestira minutos antes, pois infelizmente esta não me serviu ... Do aditor GustavoGT Natal 24/03/06 postado por: RODOLFO TORRES 11:37 AM Comments: Quinta-feira, Março 23, 2006 Idéias que choram Há exatas três semanas, compareço todas as quartas ao Congresso Nacional. Se falasse que tal rotina tem sido exaustiva, estaria faltando com a verdade. Nacionalismos à parte, sinto que sou feito do mesmo material com o qual é feita aquela estrutura. Encontro uma certa paz naqueles corredores frios de tudo. Cheguei a uma espécie de encontro íntimo comigo nessas três semanas de estranha perigrinação voluntária. Dos seis deputados que foram submetidos à degola durante esse período, apenas um foi cassado. Pedro Corrêa (PP/PE). Os outros cinco conseguiram alcançar o perdão dos seus colegas de Câmara. Muita gente fala em pizza e eu venho aqui defender a atitude dos parlamentares. Nenhuma atitude humana é mais tacanha do que a falta de proteção dos seus. Quem não fornece proteção aos seus, é um ser menor, é um minísculo, é um ser ínfimo. Aquele cuja capacidade de proteção dos seus é barrada em cláusulas éticas e/ou morais é um ser diminuto. Há quem possa me considerar uma espécie de "Pé frio" da cidadania, afinal a minha presença talvez contribua para a absolvição dos deputados mensaleiros pois sinceramente torço para que todos mantenham os seus mandatos. Vou mais além: queria que os deputados cassados tornassem à vida parlamentar através do judiciário. Esse ensaio de limpeza política, sinceramente, deve ser exercitado por outros povos. Jamais o brasileiro terá talento para assepsia na vida pública. Há os que esbravejam, exigindo um comportamento ético e civilizado dos nossos homens públicos. Tão mais fácil viver de outra maneira, aceitando o que a vida nos deu de bom grado. Se as idéias chorassem, concordaria com todas elas. Quando os homens choram, absolvo-os. Foi o caso de Wanderval Santos (PL/SP), deputado evangélico, e que sabe chorar. Quando ele evocou o seu passado de lutas, a memória do seu falecido pai e o fato de ser perseguido por sua religião, quase que me derramo em prantos de piedade. Era como se a idade das injúrias retornasse aquele Plenário. E se existe uma coisa que sempre ocorreu na Terra, foi a perseguição aos homens de boa fé. Wanderval chorava, e uma certeza cristalina brotava em meu eu. O mais emocionante de seu discurso não foram as palavras, mas o silêncio que precedia as lágrimas da certeza. Certeza numa inocência anterior a si mesma. E isso me bastava. Apenas sinto penar na manutenção da verticalização. Somente um débil mental de babar na gravata, como Nelson Rodrigues dizia - e eu não me canso de repetir - é capaz de querer coerência e moralização num processo tão visceral e apaixonante quanto é uma eleição. Em se tratando de eleição no Brasil, as dimensões desse acontecimento beiram o folclore (o bom folclore, o folclore como identidade de um povo). A verticalização é uma péssima idéia, uma idéia que os diminui, que tira o caráter lúdico do processo de alianças e acordos entre os estandartes ideológicos da nação, ou seja, os partidos políticos. Ou seja, nossos estandartes ideológicos são idéias que, com essa verticalização idiota, choram. E que farão um povo inteiro chorar no mais eficiente processo de distribuição de renda que conhecemos. Moralizar eleição é, entre outras coisas, concentrar renda. Além de ser exceção à regra do choro e das idéias. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 4:44 PM Comments: Terça-feira, Março 21, 2006 A risada do delegado A figura de um delegado de polícia por si só já é caricata. Sujeito acostumado com o lado mais cruel da existência, qualquer delegado de polícia pode se converter num fabuloso escritor. Exemplos nacionais não faltam. A magia de seus relatos está numa escrita cruel e direta, sem maiores rodeios estilísticos. Não que falte erudição a esses profissionais... É que a parte crua da vida sempre encontra grande público, e, mais do que isso, grandes admiradores. Quem não pára diante da TV quando um crime horrendo é anunciado, e depois vai procurar lê com mais atenção e aprofundamento a notícia publicado num jornal? Os nossos pântanos íntimos são também alimentados por esse tipo de acontecimento. E convém nutrí-los vez por outra, porque sem os mesmos, simplesmente não existimos. Numa noite dessas perdidas na memória, estava eu num carro com alguns bons amigos. Um deles era simplesmente massacrado por outros dois, enquanto eu olhava as calçadas vazias e banhadas por uma madrugada úmida e salgada. Seu argumento contra os que o ofendiam me pareceu infalível. Disse, sem maiores remorsos, e se defendendo de não sei qual acusação: "Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa". Parecia que uma nova dimensão estava se apresentando para o resto dos meus dias. Já tinha escutado milhares de vezes aquela frase, mas não através da voz desse meu amigo. E desde então, considero esse um dos maiores argumentos que conheço. Ora, uma coisa é o sujeito ser delegado de um tipo de polícia. Outra coisa é o sujeito ser delegado de outro tipo de polícia. Como no Brasil, a Polícia Militar é a que trata dos civis, nada mais pode ser considerado contraditório em termos de segurança pública. A existência ou não da segurança pública no Brasil é mais outra coisa. Admiro, e muito, um delegado da Polícia Federal. Não sei nem o seu nome, e confesso que estou com preguiça de procurar. Também não sei por que ele apareceu em todos os telejornais de ontem à noite. Também não faço a menor questão de saber o por que. Só sei que ele disse a seguinte frase: "Você queria o quê, minha filha? Você está na Brasil!". E deu um sorriso, digamos, obsceno. Ah, aquela risada é capaz de humilhar gerações inteiras da jornalista que fez alguma pergunta com caráter irreal para a nossa situação. A risada do delegado simplesmente nos coloca em nossa mais explícita condição enquanto povo. Se um delegado da Polícia Federal é capaz de dar esse tipo de resposta, e depois soltar aquela risadinha, mesmo tendo a ciência de que estava sendo filmado por diversas câmeras de TV; digo-lhes uma coisa. Afirmo que esse homem é um sábio, e que a carapuça de país civilizado nunca nos caiu bem, e que deveríamos ter orgulho de um homem que, mesmo sabendo o que sabe, é capaz de sorrir. Viva o delegado Fulano de Tal. Ele sim, sabe o que é ser desse país. Ele sim, não desiste nunca. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 4:50 PM Comments: Segunda-feira, Março 20, 2006 Disputa É um privilégio poder começar um texto sem ter a menor idéia do que pode acontecer. Claro que uma breve fagulha ilumina os meus pensamentos, mas nada que possa considerar definitivo. Poderia falar sobre as generalizações, uma das minhas paixões enquanto candidato a analista do país. A última pesquisa de opinião, que revelou a estagnação de Lula e o crescimento de seis pontos de Alckmin, pode ser considerado um banho de água fria na certeza dos petistas numa reeleição sossegada? A julgar pelos e-mails que já recebi, exaltando a responsabilidade e a experiência do "Picolé de Chuchu", posso considerar que a reeleição de Lula não será tão calma assim quanto pensavam os governistas. Florbela Espanca, em seu maravilhoso soneto "Fanatismo" já dizia que "tudo no mundo é frágil, tudo passa". Marcelo Nova, numa música em parceria com Raul Seixas, dizia que "debaixo do sol não há nada novo, não seja bobo meu rapaz". Principalmente em política. Ainda me dou o direito de me espantar com a capacidade das estatísticas. Qualquer discurso, embasado em qualquer estatística, ganha lá o seu peso de verdade inquestionável. Sim, os números, tão frios e tão secos, conseguem cada vez mais o que seus produtores e anunciantes desejam. Mas como é possível que um argumento numérico seja a marca mais emblemática do nosso tempo? Procuro, sem sucesso, imaginar qual seria a reação de alguns gregos célebres sobre esse vício moderno de tentar dar voz a todos, quando as opções partem de poucos. Mas os tempos gregos se forma, estão tão mortos como talvez a necessidade de estudá-los. Fundamental hoje é dançar a dança. Mas uma bela biblioteca, ainda, é composta por livros pensados. Os petistas começam a esboçar um leve desespero. Seu guru não estaria tão seguro em seu atual posto para os próximos quatro anos. O conservadorismo de Alckmin encanta e vai ao encontro da tradicional figura de presidente da República. Contudo não convém desprezar o carisma do atual presidente, e o apelo de sua biografia perante os mais de 40 milhões de miseráveis que esse país insiste em chamar de cidadãos. Univitelinos, PT e PSDB entrarão numa disputa insana. É bom nos preparamos para o festival de depoimentos, declarações, direito de resposta e tudo o mais que possa ser utilizado para ferir os brios do irmão gêmeo. Vale de tudo para conseguir o executivo nacional. O leilão de almas já começou há bastante tempo. A mais despudorada das eleições que o Brasil conhecerá, está por começar. Nela, não haverá polaridade de planos de governo, nem de ideologias políticas. Apenas uma disputa feroz pelo controle do país. E isso já é um briga boa. Aliás, a melhor da brigas. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 7:08 PM Comments: Sexta-feira, Março 17, 2006 Conversa de galeria Não venho falar da justiça que cala marqueteiros e caseiros. Nem mesmo venho falar dos silêncios por ela provocados. Procuro exercitar, com paciência, um auto-ensinamento que diz que a surpresa e o espanto não encontram moradia em Brasília. Eles simplesmente passam, se é que passam, e portas são fechados, e leitos estão ocupados. Eles não ficam por aqui. Eles não ficam! Chego às galerias do Plenário da Câmara dos Deputados após olhar a exposição de quadros da pintora baiana Edíria Carneiro Amazonas no corredor de acesso ao Plenário. Quadros que retratam cenas de sofrimento da mulher brasileira. Uma homenagem da Casa ao 8 de março. A votação que definiria o destino de Pedro Henry (PP/MT) já havia se encerrado. Iniciava-se o tedioso processo de contagem dos votos. Enquanto os votos eram contados, dezenas de pensamentos diferentes guiavam os meus olhos. Ora olhava para rostos célebres da cobertura política televisiva, que estavam aguardando entediados o momento de aparecerem na maioria dos lares da nação. Outras vezes observava o trabalho mecânico do sujeito que entregava envelopes lacrados e recebia os abertos do presidente da Câmara, Aldo Rebelo (PC do B/SP). Com certa dificuldade, fiz uma conta: 513 dividido por 2. Cheguei, sem muita certeza, a 256 e meio. Ou seja, a maioria era 257. Quanto mais o "Sim" se aproximava desse número, mais uma alegria estranha se instalava em mim. Era como se o tempo de uma partida de futebol estivesse se esgotando, e o meu time fosse vencer uma espécie de campeonato crucial para o meu sorriso. Os votos se esgotaram quando o "sim" contava com 255. Não conseguia acreditar naquilo. Já imaginava as manchetes que inundiaram as primeiras páginas das edições dos jornais. Por míseros dois votos, Pedro Henry tinha se livrado da cassação. Ledo engano. O "Sim", no caso de Henry, era pelo arquivamento do caso. Quem votava sim, votava a favor da manutenção do mandato de Henry. E o mandato manteve-se. Demorei alguns minutos para entender isso. Após alguns telefones pedindo confirmação da minha teoria, minha idéia de primeira página estava morta. Outro deputado alcançara o perdão. Sem conseguir segurar o meu entusiasmo, falei com um homem que estava sentando perto de mim. E notei que ele era um espectador privilegiado daquilo tudo. Assistia à contagem de votos como quem vê uma cerimônia religiosa. Seus olhos, respeitosos, transmitiam uma satisfação incontida de poder estar naquele lugar, e fitar aqueles homens, e ser testemunha de um processo que faz de nós o que somos. Definitivamente, sentia-se orgulhoso de ser platéia daquilo. E nós conversamos. Trabalha na manutenção da higiene do Congresso Nacional há 16 anos. Queixou-se da sua falta de estudo, o que segundo ele o impede de estar lá entre os deputados, e me deu um conselho. Disse-me que a política é a melhor das carreiras. Quando questionei-lhe sobre desilusões políticas e sentimento de ética e compromisso público, ele tratou, com um olhar amigo, de me explicar que essas coisas não existem. E não é que não existam mais. Elas não existem. Nunca existiram. "Isso é um teatro", dizia-me. Pedro Corrêa (PP/PE) assume a palavra e inicia seu discurso. Assistimos ao parlamentar por alguns minutos. Depois desistimos de escutá-lo. Esse homem confessa-me, ouvindo um deputado que recebeu 700 mil Reais do Valerioduto, que o seu salário é de 400 Reais. Peguntei-lhe a respeito do povo brasileiro. Já que ele estava num dos pilares que sustentam a condição de Brasil, o que ele achava do povo brasileiro? "Covarde", proferiu. Segundo esse homem, o Congresso deveria ter sido invadido depois de sucessivos escândalos. Parece-lhe que o povo brasileiro até gosta do que vê acontecer na política. Admitiu já ter visto muita coisa que não podia me contar. A felicidade de parlamentares e assessores, conversas de corredor entre autoridades, e tudo o mais que possamos imaginar sobre um processo irreal de obtenção de vantagens por parte de homens influentes. Mas com 16 anos de trabalho, jamais vira algo semelhante ao que estamos vivenciando. É favorável ao voto secreto dos deputados nos precessos de cassação. Sabe o que muitos deles são capazes de fazer para que seus mandatos sejam mantidos. "Hildebrando Pascoal não é nada", disse. Olhou para Corrêa, que discursava e falava sobre ética, biografia e serviços prestados à nação. Suspirou. E sorriu. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 12:02 AM Comments: Quarta-feira, Março 15, 2006 Sobre o roubo feliz Aquele que rouba com alegria não pode ser condenado! Foi o que me veio hoje durante a madrugada. Antes de chegar ao estágio do sono, pensei que qualquer um que roube com alegria não pode, e nem deve, ser condenado. E, como sempre, coloquei mais esse pensamento num pedaço de papel. Pela manhã, ainda achava a mesma coisa de quando me encontrava quase que desacordado pelo sono das madrugadas frias. O sujeito que rouba com alegria jamais poderia ser submetido à tristeza das leis e dos tribunais. O roubo feliz é a categoria mais praticada, mais exercitada, mais estimulada. Se bem que também gosto das cegueiras por conveniência. Ah, o que seria da história do homem sem a cegueira cômoda? Basta dizer que sem esse tipo de artifício, a vida humana se tornaria impraticável e tudo mais cairia por terra. Talvez seja por isso que não suporto Hip Hop, Rap, e outros grunidos que se dizem mensageiros da verdade. A verdade não precisa de mensageiros, pois eles não suportam o seu peso. Não há quem suporte a verdade: essa é a verdade. Contudo, dizia eu que o furto festivo me encanta. Constato que ao dizer apenas isso, não consigo transmitir o real valor do meu apreço a essa tradição nacional. Tendo a me encantar pelo rasteiro, pelo desprezível, pelo vil. Diria até que não me interessa outra modalidade de polítca que não seja a política do Brasil. Pelas suas contradições e por seu caráter cínico, sou tragado por esse processo encantador que é a política partidária brasileira. Aos meus olhos, qualquer atividade política que não seja patrícia me parece tediosa e massacrante. Conheço pessoas que simplesmente são encantadas pela Segunda Guerra mundial. É compreensível esse encanto. Eu mesmo sou um fascinado por esse conflito. Mas também sou fascinado pelo estado de guerra civil pelo qual passa o país. Exército nas ruas é guerra. E ponto! O desespero que atinge milhares de pessoas nos concursos públicos também é objeto do meu fascínio. A ansiedade dos candidatos, a exaustão dos olhares, a desesperança diante de qualquer possibilidade de ocupação. Eis um cenário riquíssimo para qualquer tipo de tragédia. No nosso caso, a tragédia de ser Brasil. E lá vou eu mais uma vez para o Congresso Nacional. Tentar captar alguma coisa de panorâmica na votação que definirá se os "Pedros" perderão ou não seus mandatos, devido ao envolvimento no escândalo do mensalão. A existência de um Congresso Nacional dessa qualidade já é uma incontestável derrota para o país. Contudo, sinceramente torço pela absolvição dos parlamentares. Creio que o roubo feliz não deve ser punido. A punição é a total ausência de humor perante a exacerbação da individualidade. Posso ser triste - e cultivo a tristeza - mas detesto o mau humor de mau gosto. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 5:31 PM Comments: Segunda-feira, Março 13, 2006 Domingo Definitivamente, não gosto do domingo. Durante muito tempo tentei me enganar dizendo a mim mesmo que o domingo era um dia maravilhoso, mas era tudo mentira. É sem dúvida alguma o dia mais chato da semana. Beira o insuportável. Mesmo porque todos os domingos são rigorosamente iguais. O sujeito acorda tarde, o mais tarde possível - e tem gente, como eu, que é muito bom nisso - exatamente para matar parte do dia. Obviamente, acorda com extremo mau-humor e resmunga uma série de palavras incompreensíveis. Lembra vagamente dos tempos em que acordava cedo aos domingos para assistir à Formula 1, quando ainda prestava. Este momento é particularmente assustador, quando o sujeito se dá conta de que não terá absolutamente nada de interessante pra ver na TV. E não adiante ter quinhentos canais na TV a cabo, pois todos eles, os quinhentos, estarão exibindo a programação mais idiota possível. É como se fosse uma regra sagrada das televisões aos domingos. A única coisa que ainda acalanta um pouco é o futebol. Mas mesmo assim, sua mulher sempre dá um jeito de arrumar um "programa família" bem na hora do jogo. No meu caso, especificamente, nem mais o futebol tem sido um acalanto. Muito ao contrário. Ultimamente tem sido mais um tormento de domingo... (no momento, é melhor nem falar sobre futebol). O fato é que o domingo é um dia tão sacal que o sujeito não tem sequer vontade de beber. Sobretudo porque já tomou todas no sábado e não consegue repetir a dose no domingo, o fígado já não agüenta e a lembrança incessante de que tem que trabalhar na segunda-feira reprime qualquer ato heróico. Aliás, somente por isso é que a segunda-feira é injustamente desprezada. Um grave equívoco. A segunda-feira não é um dia horrível como dizem alguns incautos. A segunda-feira só é cansativa porque o sujeito vem de uma desgastante batalha consigo mesmo para sobreviver ao domingo. O tédio absoluto do domingo é que dá a errônea sensação de que a segunda é chata e sem graça. O domingo é que é o vilão, não a segunda. Por isso mesmo é que há muitos anos faço campanha para que a segunda-feira seja decretada como dia internacional do happy hour. Tomar um chopinho gelado ou, no meu caso, umas dosesinhas de uísque ou vodca na segunda-feira, após um dia cansativo de trabalho - cansativo apenas, repito, devido à batalha travada no domingo - é indiscutivelmente um dos maiores prazeres da vida. Quando o sujeito, no domingo à tarde, reclama que tem que trabalhar na segunda-feira, na verdade ele está querendo dizer que apesar de todo o esforço que ele tem que fazer para atravessar o domingo ainda terá que acordar cedo para trabalhar na segunda, sem um descansozinho sequer. Bom! Só há duas coisas realmente prazerosas para se fazer aos domingos. A primeira é muito particular a cada pessoa e é bom em qualquer dia da semana. A segunda, é deitar-se numa rede na varanda (no sertão dir-se-ia no alpendre), ou no quarto fechado com o ar-condicionado ligado no máximo, para os que sucumbiram à vida moderna e vivem em apartamentos minúsculos, com um bom livro e um copo enorme de coca-cola com bastante gelo. Também não pode ser qualquer livro, pois uma história mais densa e complexa poderia levar o sujeito ao desespero e até mesmo ao suicídio, posto que a depressão profunda é inerente ao domingo. Recomendo um bom romance policial, daqueles que não se consegue largar antes do final. E, o mais importante, tentar esquecer de que ainda é domingo. Rafael Loiola postado por: RODOLFO TORRES 6:54 PM Comments: Sexta-feira, Março 10, 2006 A paz: danação Um falso caos se instala nos corredores do Congresso. Ao menos é mais um espetáculo para milhões de brasileiros. Com todos os elementos de uma trama mal costurada, mas que mesmo assim consegue prender a audiência, as cassações de mandatos de deputados estão chegando à impunidade anunciada sem maiores atropelos. Um ou outro membro do parlamento briga, grita, sapateia de suposta indignação, mas não existem mais razões para o aborrecimento. Prego aqui a paz de espírito da nação, mediante o conformismo. Encanta-me a inutilidade das palavras diante da fatalidade e dos vícios da vida. Não há mais ação possível. Somente a inércia será ministra de nossa redenção. A apatia, que tudo consome, servirá de guia para os nossos eternos passos diante da nossa estática e miserável condição de brasileiros. Teremos que enxergar beleza nesses dias. Tudo conspira para tal! Eu, que não me lembro mais do momento em que encarava a falta de esperança no escuro, posso conter oceanos atrás dos olhos. E o sol no olhar. Se pudesse, escreveria entre vozes reais. Entre vozes que não apenas conseguem sussurar seus lamentos. A felicidade é mais forte do que as grades que construo para aprisioná-la. Moleca como é, sempre volta e nunca me abraça. Permaneço entre fantasmas dos tempos. Os do passado são tristes. Os do futuro, à sombra. Contudo toda absolvição carrega consigo algum tipo de felicidade. E é carregado da felicidade dos absolvidos, dos que conseguiram, dos que alcançaram a clemência, é com esse espírito leve dos julgados inocentes que vos digo que eu não tenho vida. Ela é que me aluga seus instantes. E cobra todos os dias a certeza do fim. Porém me vingo. Vingo-me do fim tornando-o sempre. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 6:51 PM Comments: Quinta-feira, Março 09, 2006 A Volta Embarco daqui a poucas horas para São Paulo. A imensa capital paulista me verá novamente. Aos fracos de espírito não se empolguem, a viagem é curta, só quatro dias. Desde que regressei para Natal não havia voltado à São Paulo. Por lá até passei (no aeroporto) em outras viagens, mas ainda não voltara lá após a minha mudança. Tendo como cúmplice a minha esposa, juntamos vários motivos para esta viagem, cerca de oito ou dez. Todos os motivos de uma futilidade impressionante, juntos então mais ainda. Reservo-me, portanto, ao direito de não citá-los. A falta de justificativa aumentava exponencialmente enquanto eu tentava explicar, a quem quer que fosse, porque estava indo à São Paulo. A primeira coisa que vem à cabeça è um compromisso. Congresso, aula, curso. Algo obrigatório e inadiável. Se você vai para o inferno ou está louco ou vai forçado. De uma coisa estou certo: não estou indo forçado. A verdade é que tínhamos esta vontade. Vontade de voltar à São Paulo, não para morar, mas para rever, visitar. Algo atípico: Turismo em Sampa. Sou uma exceção. Dos colegas que foram, sou dos poucos que não teve aversão à cidade. Algo comum entre jovens aventureiros, com cargas de estudo violentas, aliadas à necessidade de trabalhar (muito) para sobreviver. Este motivo, além da grandiosidade e impessoalidade do lugar cria a atmosfera de aversão. Uma coisa quase unânime, quase alérgico, se me entendem. Falar apenas sobre este período causa calafrios em alguns. Eriçam os pelos e iniciam os pruridos, seguidos por violentas manifestações de descontentamento, associadas por vezes a palavras de baixo calão. Síndrome da aversão típica. Para esta eu sou imune. Foram cinco anos duros, mas necessários e que me deixaram marcas, na sua grande maioria lembranças boas. Das amizades, do crescimento pessoal e profissional, da abertura de horizontes novos, do primeiro emprego fixo, dos churrascos com a comunidade natalense, do mexidão no bar da vila, do sebosão do travusca, dos almoços no comeu-morreu, das opções de restaurantes e teatros, do filé a parmegiana no ¿duas rosas¿, do futebol de salão das segundas, da visão da avenida paulista, dos passeios aos domingos no ibirapuera. De quase tudo na vida podemos extrair algo bom, e é isso que sempre tentei fazer. Acho que consegui. Tenho certeza que estar ao lado de minha amada, e de amigos me fez mais forte, inclusive para conquistar novas e boas amizades. É a tudo isto que eu volto. Volto para rever o que deixamos, e para cultivar algo mais. Até breve! (Em tempo: como estarei em trânsito na segunda à noite, gravem o seriado LOST no AXN para mim! Tem um sobrevivente que é a cara de Rodolfo!) Do aditor GustavoGT Natal 09/03/06 postado por: RODOLFO TORRES 11:27 AM Comments: Quarta-feira, Março 08, 2006 Antes da ida Um homem de obsessões voláteis é, antes de tudo, um homem triste. Sua infelicidade reside na incapacidade de aprisionar sonhos, e mais do que isso, de não comparecer a seus enterros. Aquele que sonha frouxo, que sonho fraco, está condenado. Hoje então, é quase um crime não ter idéias sólidas e pensamentos constantes. O meu caso é bem esse. Vou variando os ideais, os sonhos e desejos com uma facilidade obscena. Alguns dizem que falta firmeza de caráter, outros que se trata de um clássico exemplo de baixeza moral. Não diria isso. Apenas me canso rápido de tudo: sejam imagens ou sonhos sinceros. Pouca coisa me acompanha por longo tempo. Pouquíssima coisa! Uma delas certamente é um relato. Sim, sou daqueles que carregam relatos como quem carrega jóias ou segredos abomináveis. E um desses relatos que carrego comigo diz respeito a um militar obeso e patrício e uma cortesã. Ele, que tinha o peito pesado de remorços e medalhas, implora à bela moça que lhe diga, num momento de delícia, a sua verdade mais valiosa: que ele é a reserva moral da nação. Ao acordar cedo para enfrentar compromissos enfadonhos, sinto-me fraco. É como se a gravidade da minha cama fosse mais forte do que o meu senso de responsabilidade. Daí repito baixinho para mim mesmo essa pérola e tudo fica mais fácil, mais possível. Agora mesmo estou de partida, mais uma vez, para o Congresso Nacional. Acompanharei de perto a votação no Plenário da Câmara que decidirá se os deputados Roberto Brant (PFL/MG) e Professor Luizinho (PT/SP) perderão ou não o mandato. Como tudo na vida, o resultado de determinado processo é o que menos importa. O importante é como se desenvolverá tal votação. As conversas de bastidores, os afagos entre partidos, a testa suada dos parlamentares, os sorrisos de nervosismo, as mãos que pingam de ansiedade... Isso é o importante, isso é o fundamental. Acordões sempre existirão, manobras e corporativismo também. E se algum tipo de redenção é possível nesse caso, trata-se de uma redenção reveladora de detalhes corriqueiros e pouco importantes. São nesses detalhes esquecidos e desprezados que residem toda a dimensão humana e trágica desse processo teatral. Vou ao Congreso Nacional e será difícil não sorrir, e não me divertir. Meu circo agora é esse. E o garoto que antes se emocionava com o trapézio, agora olha com a mesma emoção para o painel de votação da Câmara dos Deputados. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 12:51 PM Comments: Terça-feira, Março 07, 2006 Coerências Devo admitir que sou contra a verticalização nas alianças políticas. Por verticalização, entende-se a obrigatoriedade dos partidos políticos repetirem nos Estados a mesmíssima aliança traçada no plano federal. Ora, apenas e tão somente um débil mental de babar na gravata (como diria o eterno Nelson Rodrigues) é capaz de encher o peito para falar em coerência na política nacional. Somente um ingênuo, um amador, pode querer algo dessa natureza, pelo mais profundo desconhecimento de como se desenvolve um processo político. Em primeiro lugar, nada mais monótono, nada mais entediante do que um cenário político coerente. Deveríamos ao menos confessar ao próprio espelho de todas as manhãs que nós necessitamos desse caos, dessa verdadeira e deliciosa desordem que é a política brasileira. Com os seus atores mais despudorados e deselegantes, sem nenhum talento para o exercício da política ou da administração pública (que não são sinônimos, é bom que se fique claro), a política no País é sem dúvida uma espécie de mórbida diversão. Amanhã, PFL e PT vão se unir para evitar a cassação dos deputados Roberto Brant (PFL/MG) e Professor Luizinho (PT/SP). Vão votar juntos para que esses dois parlamentares não percam seus mandatos devido ao envolvimento com Marcos Valério, aquele que operava fortunas no Congresso em nome do Partido dos Trabalhadores. Creio que a democracia e que a imprensa nacional serão fortalecidas no momento que começarem a tratar essas alianças como normais e corriqueiras. Muito mais comuns do que a nossa própria e escassa imaginação possa conceber. O puritanismo deveria ter sido abolido da política brasileira há, no mínimo, 50 anos. Não temos mais o direito de nos espantar com a política. Dizem por aí que algumas figuras jamais se espantam. Geralmente, humanistas que tentam provar alguma teoria de algum acadêmico estrangeiro. Se uma menina de nove anos andar com camisinhas em sua mochila escolar, tudo normal. Afinal de contas, qualquer movimento contrário pode inibir a sua sexualidade que está num período de desenvolvimento. Não posso mais falar do garoto sensível demais, pois hoje é politicamente incorreto... Da mesma forma que em relação aos comportamentos da atualidade os "humanistas" não se espantam, devemos fazer o mesmo em relação à política. Ela deve ser apenas e tão somente um instrumento de mórbida diversão, e de sincero descaso. De riso estranho, e de vasto embaraço. Se precisarmos algum dia perder a razão, seja por qual for o motivo, que a política seja vista com seriedade. Caso contrário, se desejarmos levar a vida sem maiores atropelos, deixemos Brasília se contorcer em suas articulações secretas e danosas. Esse organismo tem vida própria, e não cabe a nós querer entendê-lo, nem ao menos julgá-lo. Basta-nos o deboche. E estaremos quites com tudo isso. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 3:42 PM Comments: Domingo, Março 05, 2006 Priscilla Macedo, poetisa paraense, radicada em Natal, é a autora desses versos. Outras de suas linhas podem ser encontradas aqui Suor, Saliva e Lágrima... Suor, Saliva e Lágrima Uma gota no chão... Não é chuva não. Vem de mim essa água. Sou eu suando de paixão, Chorando de aflição, Salivando de raiva. Mas se é meu suor em tua boca, Tua saliva no lugar da minha roupa, Não há mais lágrimas, Seca a mágoa. Meu suor, Tua saliva, E eu...louca. (Priscilla Macedo) postado por: RODOLFO TORRES 3:52 PM Comments: Sábado, Março 04, 2006 Caveirinha e o barbeiro Num carnaval, na década de 1920, uma senhorita dos seus 20 anos incompletos estava acamada. Sofria de uma violenta pneumonia e a família toda já sabia que a pobre coitada não resistiria por muito tempo àquele mal. Era tão franzina, tão delicada. Tocava piano com maestria, falava frânces com perfeição e tricotava como ninguém. A típica moça da época. Vestia-se apenas de branco ou de tonalidades claras para realçar a sua pureza, que teimava em explodir diante dos olhos de toda a cidade. Por seu porte físico debilitado, ganhou o apelido de Caveirinha. Caveirnha, ainda nesse carnaval de 20, anunciou à familía que sairia para um baile. Colocaria uma máscara e realizaria o seu sonho: ser beijada. A família protestou, argumentando que aquilo seria uma irresponsabilidade. Afinal, a moça estava muito debilitada. Caveirinha então rebate: "Esse é o meu último carnaval.". A família silencia, e permite que a moça saia para perder o pouco fôlego em um beijo de carnaval. No outro dia a jovem é encontrada morta em uma calçada, com um sorriso de conquista e um olhar de alívio. Poucos anos mais tarde, um sujeito larga a faculdade de medicina para ser barbeador de funerária. A família quase entra em colapso. O rapaz, jovem promissor, não dá uma mísera explicação para a família e para a noiva. Morreria como barbeiro de defunto. Não queria salvar vidas, apenas embelezar corpos para o encontro comum a todos. A mãe, num misto de desespero e transe, exige uma explicação do rapaz para aquele verdadeiro disparate. O barbeiro de defunto diz que abraçou a atividade por penitência. Não existia nada na vida que mais o desagradasse do que mexer com defuntos. A conversa parecia irreal. O que teria feito o moço para abraçar o que mais detesta na vida? Ele batera no pai, o único que permanceu calado desde a sua saída da Faculdade de Ciências Médicas da antiga Universidade do Brasil até as mesas do mais fétido necrotério da cidade do Rio de Janeiro. Tanto Caveirnha quanto o barbeiro são exemplos de conduta antiga. Em suas vidas e em suas atitudes ainda existia a percepção do trágico e do luto, da resignação e da entrega. Morrer por um beijo ou abraçar aquilo que se execra por penitênca são reflexos de uma época já morta. Um dos fatores da nossa condição de humanos é que não conseguimos nos livrar da tragédia. Sempre teremos que conviver com o seu peso. Fingir que ela não existe não é lá uma das melhores alternativas. Somos prisioneiros de tragédias consentidas ou não. Aliás, só somos o que somos por conta da tragédia. Então, para quê excluí-la? O relatório da Polícia Federal excluiu o presidente Lula de participação no mensalão. Na Veja, além de mais Marcos Valério, outra revelação: O PT, por meio de Delúbio Soares (quando esse ainda era o tesoureiro do partido), pagou "cinco pau" (supostos cinco milhões de reais) para que o apresentador Ratinho falasse bem do governo Lula. Caixa 2 de Furnas para o PSDB. ACM Neto capa da Carta Capital como agente de mais um dos escândalos finaceiros patrocinados pela família Magalhães na Bahia. Ah, a tragédia. O que seria de nós sem ela? O que seria do jornalismo político sem o trágico... O que seria da nossa congênita impotência diante das tragédias que brotam incessantemente, e que servem de espelho para um dos povos mais débeis... confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 4:52 PM Comments: A Confraria tem o prazer de publicar alguns versos do poeta, jornalista e publicitário Fernando Amaral. Profundo estudiodo do futebol, amigo e mestre, que tanto me ensinou. Para conhecer mais das letras de Fernando, clique aqui Assim passo meus dias... (Em memória de Vítor, que aos 09 anos partiu). Sempre que a tarde cai... Vou a buscar do mar... Levo iscas, vara e anzol... Mas nunca pretendo pescar... Todas às vezes, meus olhos te vêem no horizonte... Meu peito se comprime de saudade... E minha alma sofre... Jogo a linha o mais longe que posso... E espero... Espero a mais longa das esperas... Entrego-me a saudade... Saudade que nunca se vai... E quando a noite cai... Retorno para o vazio da tua ausência... Fernando Amaral postado por: RODOLFO TORRES 12:28 PM Comments: Quinta-feira, Março 02, 2006 Congresso e carnaval Minh'alma não é tão pequena para admitir que todos somos iguais. Não, não mais admito essa pretensa igualdade entre os homens, essa ladainha que tenta nos convencer do impossível. Alguns simplesmente nasceram para a mordomia, para o descanso pleno, para a paisagem de varanda eterna. Exemplo é a mulher bonita. Para a mulher bonita, tudo é possível, tudo é plausível. As barreiras intransponíveis para a grande maioria de nós caem como abutres obesos diante da beleza estonteante de uma mulher. E que esse privilégio permaneça, que essa diferença perdure até o final dos tempos. Continuemos a falar de diferenças. Hoje fui ao Congresso Nacional. Andei por lá despreocupado, observando aquelas pessoas que iam para todos os lados também despreocupadas. Afinal, a quarta-feira de cinzas deixou de herança um cansaço intenso e surdo na casa legislativa da nação. O clima, apesar do "feriado", era pesado. Afinal as negociatas e os acordos não deixam consequências visíveis e palpáveis, mas a atmosfera que abriga essas atitudes exala, há quem diga, até um discreto cheiro de enxofre. Um homem engravatado, no elavador, fala ao telefone móvel que alguém se parece muito com um eleitor ou com um filho de cigano: afinal, o sujeito só sabia pedir. Os deputados Osmar Serraglio (PMDB/PR), relator da CPI dos Correios, e o deputado Maurício Rands (PT/PE), caminhavam lentamente a conversar com assessores ou qualquer outra sorte de engravatados. Estavam serenos, confiantes, seja lá no que for... Por sua vez, e um pouco afastado dos primeiros, Onyx Lorenzoni (PFL/RS) dava as suas razões para não perder o mandato a duas rádios, entre elas a Tupi. A conversa de assessores no Plenário da Câmara vazio estava animada. Celebravam o fato de algum dinheiro extra sair até às 18 horas de hoje. Outros reclamavam do carnaval, bocejavam ou até mesmo davam conselhos aos colegas sobre o pagamento do Imposto de Renda. Sou convidado a sair do Plenário, com dois deputados sentados, num universo de 513, pois meus trajes não condiziam com o solene deserto de cadeiras. Se estivesse de terno, talvez até me jogassem no meio daquela solidão parlamentar para que eu fizesse uma mínima companhia aos idosos parlamentares. Ah, o carnaval no Congresso ainda não terminou. Diria até que não existe a possibilidade dessa festa acabar algum dia. São infinitas as possibilidades de divertimento num dos pilares da nossa condição de País. Sorrisos ainda são possíveis nos corredores, e tudo gira em torno de uma engrenagem de sonhos e respeito a algo que teimamos em considerar maior do que nós. Também teimo em querer imaginar como seria o Congresso na cidade do Rio de Janeiro. Além de uma brisa de mar que porventura chegasse às paredes do cenários das decisões políticas, existia, sem qualquer saudosismo idiota, uma áurea mais interessante e dourada. Brasília carrega consigo a vocação da aridez, do sufocamento incessante e da solidão que corta. Brasília é filha de uma eterna quarta-feira de cinzas. E o espírito do Congresso Nacional, que pulsa com uma estranha satisfação na ausência dos parlamentares, é o de um eterno fim de carnaval. Só que nesse caso específico, o nosso castigo é que essa modalidade de farra não acaba, não terá fim... Nunca. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 4:59 PM Comments: Quarta-feira, Março 01, 2006 Carnaval: não sofro desse mal Casar é fazer concessões. O homem casado vive mais, porém esses anos adicionais têm seu preço. Digo isso pelo seguinte: na calada da noite, nos primeiros minutos dessa quarta-feira de cinzas, minha esposa promete invadir o site que controla as vendas dos tais abadás do carnaval de Salvador e, cartão de crédito a postos, comprar as vestimentas para o carnaval 2007. Tão disputados quanto os ingressos da Copa, os abadás dos principais trios elétricos começam a ser vendidos agora e até o final da semana, estima-se, só serão encontrados nas mãos de cambistas. Tal qual o mais ardiloso dos advogados, procrastinei o quanto pude. Ano após ano arrumando desculpas para evitar as ladeiras de Salvador nessa época do ano: já fomos à Bahia há poucos meses; agora o dinheiro está curto; estamos de mudança para Brasília; ainda não tenho a escala de plantão do ano que vem; e por aí vai. Mas dessa vez, a viagem parece irreversível. Acho que apenas aviões terroristas destruindo o Pelourinho e o elevador Lacerda podem me salvar do martírio, mas esse improvável cenário não dá muita margem à esperança. Martírio, questionarão alguns? Pois sim, responderei enfático. Analiso a coisa da seguinte forma: um aglomerado de pessoas bêbadas, se acotovelando dentro de um cercadinho, cantando aqueles refrões de gosto duvidoso e se bobear, tendo que aturar as brincadeiras sem graça do Otávio Mesquita, que agora comanda o televisivo Bandfolia. Aliás, se as câmeras da Band me focalizarem no meio da multidão, rapidamente alguém na ilha de edição mandará cortar para outra imagem, pois meu semblante taciturno não combinará com o ambiente festivo que tanto agrada aos patrocinadores. Outro ponto forte da festa deve ser o momento em que a bexiga cheia clamar por um sanitário. A solução mais provável será aquelas ruelas escuras, com atmosfera acre e muros disputados por foliões embriagados. Nunca gostei de carnaval. Essa é uma de minhas excentricidades. A outra é não gostar de feijão. Li uma vez que o carnaval só é interessante porque traz a sensação de "angustioso imprevisto", o que quer que isso signifique. Da minha parte, vejo o carnaval apenas como um momento para descanso, feriadão para passar na praia ou aproveitar a calmaria da cidade. No máximo, apreciar pela TV a beleza calipígia das musas que surgem a cada ano. Até gostaria de ter histórias para contar de antigos carnavais, os excessos e extravagâncias, aquele saudosismo que muitos dizem sentir dos antigos bailes de máscara, das fantasias de pierrô e serpentinas, mas foi-se essa época e eu passei ao largo, paciência. Aqui em Brasília, o carnaval é agradável já que é inexistente. Não circulo pelas ruas da Ceilândia. O carnaval também era bom quando morava em São Paulo. A turba ensandecida descia para o litoral e podíamos aproveitar a calmaria na metrópole. É sempre uma época boa para colocar o cinema em dia, já que coincide com a enxurrada de filmes que disputam o Oscar. Pode ser que daqui a um ano, eu seja obrigado a mudar o discurso. Volte da Bahia enfeitiçado pelos dias paranóicos desta festa popular, que tantos anseiam durante meses. Pode ser que eu volte com histórias de aventura, hipnotizado pelo som incessante da festa e já com o abadá reservado para o ano seguinte. Mas também pode ser que eu volte com a minha fé ainda mais inabalável de que o carnaval de Salvador é pura ilusão bem vendida pelos baianos visando o lucro com o turismo. A resposta fica para o ano que vem. Luís Gustavo Ferreira postado por: RODOLFO TORRES 1:53 AM
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