Confraria dos Crônicos

De crônica, não basta a vida!



Comments: Terça-feira, Fevereiro 28, 2006

O purgatório de Godard

Não sei dizer se existe falta de ética em publicar uma resenha a respeito de um filme que não foi visto até o fim por quem deseja criticá-lo. Creio que não. E não estou baseado em críticos que não vêem o filme que criticam. Baseio-me no simples fato de que não é necessário chegar ao fim de qualquer coisa para achá-la viável de apreciação ou não.
"Nossa Música", filme de Godard que trata da questão das guerras no mundo, e que é divido em três partes (inferno, purgatório e céu - assim como na Divina Comédia de Dante) é um desses filmes, como poderia dizer... Talvez capazes de provocar espasmos de reflexão. Ou ao menos causar desconforto por nossa condição. O certo é que "Nossa Música" é um filme que merece ser visto com um silêncio respeitoso. E não com um baile de carnaval no bar ao lado do seu apartamento.
Desisti de assistir até ao final do filme antes de escrever o que agora escrevo. E com um truque maroto, capaz de driblar dias sem assunto, resolvi colocar algumas frases, de diversos personagens, citadas no purgatório de Godard. Apropriadas para uma quarta-feira de cinzas que se anuncia mais cruel do que as anteriores. E eu não sei muito bem o por que de toda essa crueldade. Aliás, sei. E já que a paciência para redigir está escassa, aliada ao fato da "alegria" desse período me chatear profundamente, eis os trechos que me chamaram a atenção entre os minutos trinta e cinquenta e nove.

- Os ventos recitarão nosso início e nosso fim, embora nossa prisão sangre e nossos dias estejam enterrados nas cinzas da lenda.

- Tróia não contou a sua história. Um povo ou um país que tem grandes poetas terá o direito de vencer um povo que não tem poetas? Pode um povo ser forte sem escrever poesia?

- Há muito mais inspiração e riqueza humana na derrota do que na vitória.

- Se o comunismo algum dia existiu? Sim. O comunismo existiu uma vez, por dois tempos de 45 minutos, quando o Honved, de Budapeste, derrotou a Inglaterra por 6 a 3. Os ingleses jogaram individualmente, e os húngaros, em equipe.

- Em 1948, os israelitas entram na água rumo à Terra Prometida. Os palestinos entram na água rumo ao afogamento. Campo e contracampo... O povo judeu se torna ficção. O povo palestino, documentário.

- O estado de nossa pobreza é preciso. Já que esta ruína não poupou a própria noção de cultura, é preciso ter coragem de dispensá-la. É preciso se virar com pouco. Quando a casa já está em chamas, é absurdo querer salvar os móveis. Se há uma chance a ser agarrada, é a dos derrotados.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 8:45 PM


Comments: Sábado, Fevereiro 25, 2006

Triste aliança

Nas primeiras horas daquele baile de carnaval, o silêncio nos uniu. Nenhuma palavra foi evocada. Olhávamos um para o outro como se não quiséssemos fazê-lo. Mas queríamos! Precisávamos daquelas horas de silêncio no início, assim como eu precisava de toda aquela vodca, assim como ela precisa daqueles cigarros todos. E precisávamos um do outro naquela noite entorpecida. Ah, a vodca opera milagres em personalidades recatadas como é o caso da minha. Apresentei-me. Seu nome é: não recordo.
Ah, as morenas de olhos azuis... São letais como a vida. No caso específico dela, que tinha os olhos azuis de fim de tarde, e trazia consigo uma tristeza milenar, além de algumas sardas maravilhosamente distribuídas naquela face de anjo fumante; a coisa era mais grave. Uma cumplicidade súbita se estabeleceu entre nós, e logo falei-lhe de minha tristeza, e ela, da dela. Éramos dois tristes unidos naquele ambiente de alegrias obrigatórias.
Ela, que trabalha no Banco do Brasil, e que deixou a faculdade de engenharia florestal, disse que gosta do nordeste do país. Sente saudades de lá, e gostaria muito de viver em uma cidade que tem praia. Confessei que me sentia atraído de alguma forma pela melancolia e pela solidão que Brasília desperta. O tédio, que nesse período carnavalesco é o guia maior dos brasilienses, me é simpático. Seu lindo sorisso de mulher em flor parecia me dizer que aquilo era impossível. Ganhei alguns sorissos dela, que guardo na memória.
Também perguntou se eu iria ao bar com o pessoal, logo após a pequena festa que já anunciara o seu término. Não, não poderia ir a qualquer bar. Não com aquele anjo querendo que eu fosse. Não com aquele anjo solicitando a minha presença. Uma senhora, numa brutal deselegância, interrompe a nossa conversa e pergunta se aquilo era namoro ou amizade. Justifiquei ser amizade. E nossas tristezas se aprofundaram.
Só não seria tão trágico o nosso final se esquecesse daquele par de olhos, daquele cabelo preto um pouco ondulado e daquele rosto sereno. Uma fina elegância, um olhar nobre, uma postura calma e firme. Se o fim de tarde dos teus olhos me guiarem até o túmulo, e uma pouca lembrança da tua face me acompanhar pelas horas, já serei menos só.
Afinal, o desencontro dos nossos lábios se traduz em destino. Quantas carícias que não te fiz ainda me causarão dores horrendas. Os nossos filhos seriam lindos por tua causa, e antes do sessenta teríamos a nossa casa própria. Os manuais da vida não citam a forma correta de se despedir dos grandes amores. Um simples aperto de mãos marcou a minha partida, e como dói a vida agora...

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 8:07 PM


Comments: Sexta-feira, Fevereiro 24, 2006

A palavra do fiador

A brilhante jornalista Vera Lúcia, que carinhosamente chamo de Verinha, acaba de publicar em seu blog um trecho de um dos ensaios do pensador francês Montaigne. O trecho em questão fala da benção que é ter pouca memória. Ora, isso dito aos brasileiros é um tanto quanto delicado. Pois o que não falta para nós é a amnésia celebrada, festejada, incentivada e desinibida. Afinal, precisamos dessa falta de memória para ser o que somos, para pensar o que pensamos, para viver o que vivemos. Sem essa condição, seríamos outros, menos brasileiros.
O fato de Verinha ter colocado esse trecho sobre a amnésia de Montaigne me inspirou para puxar pela memória um fato que, creio, está esquecido. Antes do fato em questão, gostaria apenas de declarar que sou absolutamente favorável à Montaigne. Ingrid Bergman, uma das atrizes mais lindas e extraordinárias do mundo do cinema, disse certa vez que a felicidade consistia em boa saúde e péssima memória. Se o sistema de saúde brasileiro fosse equivalente ao sistema de saúde da Suécia, país de Ingrid, certamente seríamos a nação mais feliz que a humanidade já conheceu. Exportaríamos a tal da felicidade, ela poderia até mesmo ser desprezada como certas frutas de estação que caem podres nas calçadas.
Mas vamos aos fatos. O ano, 2002. Lula acabara de ganhar as eleições e o seu ministério estava sendo formado. O então prefeito de Ribeirão Preto, Antônio Palocci Filho, se destacara na campanha eleitoral e na transição de governo. Seria inevitavelmente um ministro. Até aí, não existe nenhum problema. A questão crucial, e atual, disso tudo é que Palocci assinou um documento em cartório se comprometendo a administrar a cidade de Ribeirão Preto até o último dia do seu mandato. Assumindo a economia do governo Lula, Palocci se transformou numa figura indispensável para dar credibilidade às sandices do presidente e aliados. O mercado só admite Palocci.
Até mesmo a oposição, que agora se arrepende profundamente por não ter considerado a amnésia do povo brasileiro, blindou o ministro. Era inegociável atacar o ex-prefeito de Ribeirão. Todos poderiam cair como moscas secas, menos Palocci. O fiador do governo Lula procedeu como se não fosse com ele e seguiu em frente rezando a cartilha única. Se existe uma coisa que não pode mudar é a condução da política econômica! E de tanto repetirem essa bobagem, acabamos nos convencendo de que é isso mesmo...
O prefeito de São Paulo, José Serra, sofre atualmente com um certo compromisso também oficializado em cartório. Seus adversários dentro do seu próprio partido utilizam-se disso para justificar a não candidatura de Serra à presidência. Um pouco de calma, meus senhores. Promessas sempre serão subjetivas. Mesmo que documentadas. E em se tratando de promessas políticas, essas é que devem ser vistas com um certo olhar de ternura por parte da população. Tenhamos aquele espírito do homem traído que sempre perdoa a infiel, quando se trata de promessas políticas. Não há razão para levarmos determinados documentos às últimas consequências.
Se Palocci tivesse cumprido a sua palavra, não teríamos uma economia que orgulha os mais exigentes e desumanos mercados de finanças. Viva o descompromisso para com a palavra. E que o PSDB resolva logo quem será o candidato do partido à presidência da República, porque essa demora está enchendo a paciência. Até mesmo a paciência dos sem-memória, ou seja, dos brasileiros.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 4:37 PM


Comments: Quarta-feira, Fevereiro 22, 2006

Outro achismo

O que seria das análises políticas sem o tradicional e bem conhecido chute. Aquele palpite emitido pura e simplesmente por "achismo", aquele "pitaco" deslavado que tende a influenciar muito mais do que qualquer análise mais cuidadosa e estudada. Em toda corte, em todos os tempos, vários personagens se especializaram em divulgar idéias e tendências próprias, sem que isso necessariamente representasse algo digno de credo. Em Brasília então, as coisas vão um pouquinho além do que a nossa vã imaginação possa conceber. Ah, por aqui existe uma verdadeira indústria de achismos, indústria essa tão importante e tão próspera que pauta a maioria das grandes discussões nacionais: as discussões de mesa de bar.
Triste do sujeito que jamais resolveu todos os problemas do mundo diversas vezes. Às vezes sentia que a humanidade deveria me pagar uma aposentadoria por tempo de genialidade. Era implacável nas soluções para conflitos milenares, para catástrofes humanas irremediáveis, enfim, para a própria convivência dos homens na Terra. Com poucos goles, a facilidade vinha a galope e guiava as minhas idéias para a límpida região do simples. Com tudo solucionado, restava algumas horas para beber e conversar sobre artes, em geral, rasteiras.
E no universo do "eu acho", há tanta sabedoria. Sim, tenho lá as minhas devoções ordinárias. E uma das minhas maiores devoções é ofertada aos sujeitos que conseguem desmanchar algum tipo centenário de nó. Com uma imodéstia carcterística dos homens essenciais, o indivíduo balbucia poucas palavras e em questões de segundos ocorre o mais completo desprezo por gerações e mais gerações. Exemplos não me faltam. Como o daquele sujeito que esbravejava a solução para a infidelidade feminina. Ou outro que discutia a questão da fome, após o almoço de domingo, com um mendigo.
Considero a "modéstia" um presente à alma. Principalmente a modéstia dos políticos. Principalmente a modéstia dos políticos em ano eleitoral. Posso até dizer que as minhas lágrimas são tímidas, caseiras. Que o ambiente externo não lhes agrada. Apesar de não faltar estímulos para que elas conheçam o mundo lá fora, como boas moças elas permanecem guardadas. Mas é difícil suportar tanta demosntração de merecimento e de dignidade. Pena é que apenas um possa ganhar.
Queria fazer uma pergunta de criança aos homens. Por que razão um palácio, que abriga o sonho de tanta gente digna, não pode acomodar mais pessoas? Por que não tirar os braços e reforçar as pernas da cadeira presidencial, possibilitando que mais gente sente-se nela ao mesmo tempo e deixe de providenciar o que deve ser providenciado? Por que, ao invés de mirar o motorista, não apreciamos a paisagem? O piloto automático está ligado há tanto tempo e o abismo é a próxima parada.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 5:55 PM


Comments: Segunda-feira, Fevereiro 20, 2006

Banquete aos mortos

No último jantar entre os caciques tucanos e o provável candidato do PSDB à presidência da República, José Serra, o que não faltou foi elegância. Elegância no porte, na postura, nos pedidos, etc. Contudo, o ex-presidente FHC, Tasso Jereissati (presidente nacional do partido) e Aécio Neves (governandor de Minas Gerais) não se utilizaram muito da elegância tucana ao deixarem de convidar o "tucano de segundo escalão" e governandor de São Paulo, Geraldo Alckmin. Se bem que qualquer coisa na frente dos petistas tem mais elegância do que eles, mas isso não vem ao caso.
Alckmim é um caso peculiar na política. Vice-governador do Estado mais rico da federação, assumiu o exucutivo paulista devido a morte de Mário Covas e conseguiu se firmar como uma das lideranças peesedebistas quando se reelegeu ao Palácio dos Bandeirantes. Digamos que Alckmin tinha a vocação para o segundo escalão e o destino fez com que ele assumisse rédeas mais possantes, tendo a possibilidade de bater de frente com o queridinho do cacique-mor tucano. Creio que é bastante claro para todos que se Alckmin estivesse na prefeitura e Serra no governo do Estado, essa disputa para a indicação do partido nem aconteceria
Enquanto isso, Brasília passou por um final de semana incomum. No último sábado quem esteve por aqui jogando uma espécie de futebol sem lateral foi Maradona. Dessa vez o argentino não causou nenhum transtorno, apesar do confronto entre Argentina e Brasil ter acabado em goleada para os hermanos. Se não me engano, 8 X 4. Ontem, o presidente Lula recebeu na Granja do Torto o vocalista do U2, Bono Vox. Estranho almoço entre dois ídolos mortos. Ao menos para mim, que empunhei bandeiras vermelhas e que cantei hinos contra a violência em Belfast.
Bem, em relação ao presidente, acho que é desnecessária qualquer explicação a respeito das desilusões. Já em relação ao cantor irlandês, o que realmente tá pegando é que ele tá enchendo a paciência com essa história de querer salvar o mundo. Ora, se ele quer tanto salvar o mundo, por que ficou caladinho quando os Estados Unidos massacraram o Iraque? Pedir para que os países ricos perdoem a dívida dos países pobres africanos é bastante simpático para os olhos do mundo. Bem que ele também poderia pedir para esses mesmos países perdoassem ao menos parte de nossa dívida, assim evitaríamos o pagamento de 15,5 bilhões de dólares, como foi feito e festejado por essas bandas no final do ano passado. Mas eu até que o compreendo. Só não o aceito.
Musicalmente falando, acho que o U2 está mediocre. Sem análises mais profundas. A banda vale pelo passado, aliás um belo passado. E só.
Mas falava eu da elegância tucana. Ou da perda dela? As principais lideranças do partido estão convergindo num discurso único. Depois de FHC, Jereissati também declarou em solenidade no Ceará que a ética do PT é roubar. Costumo dizer que o ambiente de Brasília é felliniano. Aquele no qual é permitida a ausência de maiores explicações. Tudo transcorre num ritmo próprio e autoral. A subjetividade é intensa... Para entender o que se passa por esses lados, sábio é procurar o conhecimento que vem do povo. Só mesmo as constatações das ruas é que podem explicar o que por aqui ocorre.
Tenho apenas uma ligeira modificação para fazer em um provérbio. Não é que os políticos são farinha do mesmo saco. A farinha é a mesma, o saco é que muda. E haja saco!

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 6:35 PM


Comments: Sexta-feira, Fevereiro 17, 2006

Serra ou Lula?

Gosto de perceber que um clima de disputa se instala desavergonhadamente no país, e faz com que as pessoas de repente comecem a torcer por determiando trajeto. E daí se os trajetos serão iguais? E daí que o condutor não poderá fazer nada de diferente do que até agora foi feito? Se as pessoas se contorcem para assistir às rinhas de galos, às brigas de cães raivosos e até às brigas de peixes orientais, por que não espernear diante de uma briga entre paulistas? Um carioca e um gaúcho disputam a vaga pelo terceiro lugar. Dois pernambucanos e uma alagoana terminarão nas últimas posições. E o circo está feito.
Defendo as coisas desnecessárias. Passei grande parte da vida tentando negar a mim mesmo o prazer do fútil, do sem sentido. Martirizava-me sempre que uma pitada de prazer aflorava em meu eu quando alguma coisa desnecessária era apreciada. Mas a idade em alguns casos traz a aceitação e a leveza das coisas. Hoje embarco em qualquer cretinice sem o menor peso na consciência.
O que seria do nosso juízo sem o bendito maniqueísmo? Confesso que estou a pensar em demasia sobre a tal maniqueísmo, o danado do maniqueísmo que sempre foi guia do homem em qualquer período histórico. E essa eterna luta entre o bem e o mal, o absolutamente bom e o extramamente ruim, esse desprezo que temos pela parte que não é a escolhida, a total incapacidade de se considerar aspectos positivos e aspectos negativos em cada um dos únicos lados existentes é o que mais me encanta.
Encanta-me como encanta um garoto qualquer que está diante da primeira nudez adulta e feminina que seus olhos enxergam. Não tendo ninguém que lhe diga que o fim é sempre o mesmo, e o que importa no trajeto é o próprio trajeto, o coitado passará a vida escavando os nus delas a procura do mesmo. E morrerá impotente e só.
O sociológo italiano Domenico De Masi é sempre uma garantia de conteúdo. Sempre que o vejo na TV, páro no canal em que ele oferece a sua análise ao mundo. O autor do livro "O ócio criativo" citou numa dessas entrevistas à televisão brasileira o maniqueísmo pelo qual o mundo passa na atualidade. Até 1991, o maniqueísmo era entre comunismo e capitalismo. Agora o maniqueísmo é entre o fundamentalismo islâmico e o fundamentalismo dos Estados Unidos.
De Masi também alerta para o paradoxo (mais um) do atual sistema de trabalho no mundo. Enquanto os pais trabalham mais de dez horas por dia, os filhos encontram-se desempregados e sem perspectiva de conseguir uma ocupação. Falou das grandes corporações de mídia no mundo e disse que todo país deve ter obrigatoriamente uma televisão pública forte, como a RAI na Itália.
Para o simpático sociólogo (coisa rara de se encontrar), o modo de viver do brasileiro pode se constituir uma terceira via ao atual maniqueísmo pelo qual passa a nossa era. Cordialidade, sensualidade, carisma, oralidade... São apenas alguns dos exemplos citados por De Masi para exemplicar a razão do nosso jeitinho ser considerado uma terceira via para essa loucura toda pela qual estamos a passar.
Antigamente o Brasil era o país do futuro apenas para os brasileiros. Lembro de um professor que tive no colégio. Disse quase aos prantos que desde garoto já escutara que o Brasil era o país do futuro. E esse futuro não chegava, não era palpável, nem mesmo visível de longe. Agora me vem um italiano a dizer que diante da mediocridade atual pela qual passa a humanidade, somos a terceira via disso.
Daí me vem a certeza de que o trajeto é a base de toda a alegria, e que o mínimo vislumbre do objetivo causa tédio e aborrecimento. E vergonha também.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 9:19 PM


Comments: Quarta-feira, Fevereiro 15, 2006

Filme de Fellini

A elegância não me procurou quando meu leito era berço. E sofro até hoje com as marcas dessa ausência. Falta-me postura para a respiração, o que me impede de ser cantor. Falta-me capacidade pulmonar para compor uma banda de metais. E, principalmente, falta-me profundidade de inspiração. Falta-me tanta coisa... Só não me é escassa a vocação do suspiro, da melancolia, da certeza do tudo perdido.
Mas, para a minha fortuna, consigo ser elevado a uma outra dimensão através da obra de alguns produtores de magia. Passo de um cotidiano de massacres íntimos a jardins belos e sofisticados, calmos e claros, numa velocidade de poucas horas. Basta-me o simples contato com a obra de alguns para que a vida melhore por muito tempo. Essa melhora pode ser traduzida em barreiras mais resistentes contra a mediocridade das horas.
Digo isso porque acabo de assistir a mais um Fellini. "Ensaio de Orquestra", uma homenagem do gênio do cinema à música. Um filme que agrega consequências profundas a quem o vê. As tradições apodrecidas, o caos desnecessário e ostentado, a mais completa desilusão perante a vida. Uma homenagem, um pedido de socorro por tudo. Eis o que extraí da obra.
O que mais me encanta em Fellini é o seu descompromisso com a explicação. Não é necessário se explicar tudo em um filme, em um livro, em um artigo ou em um compromisso. A vida não se explica. E jamais teria a audácia de fazê-lo. Alguns componentes no cinema de Fellini são a própria atuação da vida, inexplicáveis; ou com uma explicação absolutamente pessoal e intransferível. Os filmes desse italiano, nascido em 1920, que consegue ser mais revolucionário do que gerações mundiais "on line", serão o meu roteiro de carnaval. Posso até dizer que a vida adquire mais possibilidades quando vejo os filmes dirigidos por Fellini.
Gosto do caos e da violência de sua narrativa. Aliás, preciso deles. Pois no fim, a tendência humana é caminhar por entre destroços, é fazer da poeira a brisa, e das metralas a grama. Do suor, o aroma. Da desgraça, a vida.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 5:23 PM


Comments: Terça-feira, Fevereiro 14, 2006

Buarque e a percepção dos dias

Confesso que tudo está estranho. O sentido das coisas é um luxo que sinceramente não estou mais disposto a ter. Só o simples fato de acompanhar as coisas passivamente já me dá uma certa satisfação. Não tenho lá nem a metade das pretensões que outrota carreguei, portanto vejo tudo da platéia e sem a intenção dos holofotes. Vejo todo esse desenrolar de fatos que acometem o noticiário político nacional e penso que certamente outras áreas são mais interessantes.
Contudo o Brasil carrega lá os seus diferenciais. Creio que por aqui não podemos chamar a política de "arte do possível". Isso não se encaixa aos nossos padrões. A política em território brasileiro é a arte do inusitado, do improviso e do absurdo. Admito e admiro o absurdo criativo. E a política brasileira faz parte dessa categoria de absurdo não rotineiro, que massacra os nossos sonhos numa espantosa velocidade de desejo.
Exemplo que cito é o do Senador Cristóvão Buarque, atualmente no PDT do DF. Ministro da Educação demitido por telefone, o professor Buarque é um desses exemplos interessantes da política brasileira. Não sei se vocês se lembram do início da CPI dos Correios. O governo fez de tudo para bloquear a instalação da CPI, o presidente Lula mandou olharem para a cara dele de preocupado com essa comissão que tentava se instalar e o Senador Suplicy (PT-SP) chorou na tribuna ao dizer que assinaria o requerimento de instalação dessa comissão, mesmo tendo a recomendação do líder do seu partido para que não o fizesse.
Buarque, no momento em que Suplicy estava aos prantos na tribuna, pediu um aparte. Disse, em outras palavras, que seria até mesmo capaz de abandonar as suas convicções em prol da decisão da bancada de seu partido. E com o olhar dos corporativistas, reprovou a atitude de Suplicy. Estamos antes das declarações de Roberto Jefferson à Folha de S. Paulo...
A bomba explodiu no colo do partido. Os seus membros, desnorteados, atenderam à primeira tentação de um infrator: a negação. Provas, testemunhas, depoimentos, coincidências obrigaram os petistas a baixarem o facho e a admitirem que o partido era essencialmente igual a tudo o que era condenado pelo PT em sua trajetória.
Buarque debandou quando a água estava entrando no navio. Deixando mulheres e crianças para trás, Buarque saiu do PT quando o sangramento era brutal e existia uma certeza não-oficial de que Lula não terminaria o mandato de presidente da República. Saiu do Partido dos Trabalhadores com a ambição de ser tornar presidente da República por outro partido. Enquanto o PT era governo, e imbatível, Buarque o admitia. Após o mensalão, e a exposição pública das vísceras governamentais, o PT não servia mais ao propósito dele.
Em entrevista a um programa da TV Bandeirantes de Brasília, no último domingo à noite, o Senador Buarque confessou estar desiludido com o presidente Lula. Disse, também com uma cara sofrida, que Lula servia a dois propósitos ao mesmo tempo: ao capital internacional e à população mais pobre. Mantendo-se a política econômica conservadora e adotando condutas populistas, Lula se apresenta como um fortíssimo candidato a mais quatro anos a frente do executivo nacional.
Das contradições que a política pode apresentar, está certamente é uma das maiores: Serra é hoje em dia visto com cautela pelo mercado financeiro. Um homem imprevisível, capaz de adotar medidas mais independentes. Mesmo porque José Serra é um economista. Quem diria que apenas quatro anos seriam capazes de transformar biografias... Por isso que digo que não entendo muita coisa do que se passa por essas bandas da nação.
Festa de 26 anos do PT ontem em Brasília. Cúpula palaciana animada com os resultados das pesquisas de intenção de voto. Deputados esperançosos, sedentos por absolvição. A magia que insiste em se mostrar e que nós, céticos das belezas do improvável, teimamos em não reverenciá-las.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 5:18 PM


Comments: Quinta-feira, Fevereiro 09, 2006

Vendedores de Enciclopédias

Hoje acordei me sentindo mais velho. Motivos não nos faltam a cada novo dia. É a inexorável progressão da vida, o caminho de mão única em direção ao fim desta, nos confiando sempre no início de uma outra. É a insustentável leveza do ser, cada vez menos leve, até que o seu peso o leve a estar completamente submerso por sete palmos de chão.
Não sei bem ao certo o porquê desta sensação. No mais das vezes não sinto o fator tempo como algo progressivo e presente. Tenho ainda, não sei até quando, a doce ilusão dos mais jovens, meio inconseqüente, de que o hoje é o que importa, no máximo o amanhã, e talvez (raríssimas vezes), o depois de amanhã.
Sinto-me velho hoje. Não um velho no sentido físico e estrito da palavra. Não sinto fadiga, anorexia (pelo contrário) ou indisposição, apenas acordei me sentindo mais velho.
Algumas coisas com certeza contribuem para estes lampejos de lucidez e de convicção do quanto é escasso é tênue o nosso tempo. Minha esposa insistentemente me chama de velho, talvez pelas minhas opiniões fortes a respeito de certas coisas e atitudes. Sou contra a pseudo-evolução da sociedade e dos costumes na grande maioria das vezes, mas isso não vem ao caso. Não me tornarei aqueles velhos chatos a resmungar ética e decência.
Se Deus me permitir essa alegria, serei Pai em quatro meses. Isso subconscientemente pode também explicar a sensação que vos falo. Sobre isso me reservo ao direito de discorrer em textos e mais textos em separata.
Nos últimos dez dias amanheci e passei todo o dia mancando. Ando sôfrega e timidamente desde o acidente no qual quase destruo um dedo do pé. O caminhar lento e compassado pode também ter afetado a minha auto-estima. Quem sabe eu precise correr ou andar mais rápido para fugir da velocidade do tempo que nos cerca.
Por último, estava lendo há poucos minutos um livro de José Saramago, de quem sou fã incondicional e irrestrito, estando apto em qualquer hora e local a travar duelos filosóficos com quem quer que seja em defesa do mestre Saramago e de seu jeito peculiar de escrever. Neste livro, entre muitas palavras de pouco uso no nosso Português do Brasil, estava um personagem de mínima importância para o contexto do romance, mas que caiu como uma luva para me confirmar que estou velho: o vendedor de enciclopédias.
Eu não só já ouvi falar em vendedores de enciclopédias, mas posso afirmar aos caros confrades: eles existiram. Eu já os vi, pessoalmente, em sua labuta diária a procura de compradores para os seus grandes livros, cheios de informações inacessíveis à época para aqueles que não dispusessem da maravilhosa ferramenta em questão. Mais do que isso, pasmem, já fui vítima de suas ações. Não sei se vítima é a palavra mais correta, mas talvez consumidor em potencial seja o termo mais adequado. De qualquer sorte já fui abordado por estes antigos profissionais.
É verdade, estou velho. Quem arqueja ao invés de caminhar e já foi visitado por um vendedor de enciclopédias não pode ter outra alcunha. Só me restam dois consolos: o de aguardar o nascimento de Felipe e o de chegar diariamente em casa e cair aos braços de minha amada, para ser provavelmente chamado de um homem com idéias velhas, o famoso quadrado (confesso que com certa satisfação).
Do aditor
GustavoGT
Natal 09/02/06



postado por: RODOLFO TORRES 1:09 PM


Comments: Terça-feira, Fevereiro 07, 2006

A prudência irresponsável

A cúpula do PSDB finalmente percebeu, e já se arrependeu, que a serenidade que tanto foi pregado em prol de uma suposta governabilidade na época em estouraram as denúncias de corrupção no governo federal, transformou-se em um erro colossal. É evidente que nem todos os partidos políticos que têm o talento da pirotecnia como é o caso do PT enquanto oposição. Mas aquela conversa de "oposição responsável e fiscalizadora" foi um equívoco primário. Mesmo porque o governo Lula só não foi destituído por inoperância e demasiada hesitação de parte da oposição.
Quer dizer então que só a gora os tucanos perceberam que o presidente Lula tem um carisma impressionante? Não perceberam que se não acabassem logo com o trajeto de Lula pela presidência da República, ele chegaria fortalecido a uma eleição que ocorreria mais de um ano depois da crise? Quer dizer que eles não sabem que a memória do brasileiro é curta e que qualquer crise política prolongada demais é chata e enfadonha, principalmente no Brasil, país no qual a impunidade desfila livre e solta?
Agora vem o ex-presidente Fernando Henrique gritar as suas dores nas páginas da revista Istoé como se estivesse acordando de um coma profundo e só agora estivesse a par do que de fato ocorreu no atual governo.
Eis mais um porém que carrego com FHC: essa mania que ele tem de posar de estadista. Por que não desceu o verbo no calor daqueles dias de agosto de 2005? Por que será que a indignação de FHC soa tão falsa e tão desprestigiada para os que, como eu, aprenderam a odiar essa figura da boca mole?
O carisma que Lula tem é uma coisa que deveria ser estudada seriamente. O presidente é capaz de convencer e sensibilizar muita gente, gente até demais. Tudo isso pela sua própria história de vida. Entretanto, essa mesma história de vida que serve de estandarte e de hábeas corpus preventivo para Lula não o credencia a dirigir um país.
Tenho o maior respeito pela cidade de São Paulo, cidade na qual morei um ano e da qual tenho saudades e excelentes recordações. Gosto de lá, apesar das declarações que ouço de tantas pessoas. E é por gostar de São Paulo, por respeitar essa cidade, que digo que as farpas trocadas entre oposição e governo só dizem respeito a São Paulo. Em outras palavras, é briga de paulista.
Nada mais natural, afinal é o Estado mais rico da federação. E quem controla a economia, controla o restante. Até, e principalmente, as paixões nacionais.
Revolto-me quando alguém diz que falta debate de idéias numa eleição presidencial. Eleição presidencial nada mais é do que uma disputa simples. Os candidatos são apresentados, existe uma empatia e decide-se quem vai ganhar pelo bombardeio de informações e pela superexposição dos mesmos. Não existem idéias para serem expostas num país de famintos, analfabetos e desempregados.
A oportunidade de antecipar o calendário eleitoral e convocar novas eleições foi perdida por uma vaidade burra de políticos profissionais que procuravam uma imagem de serenidade e respeito aos anseios do povo. Foram burros, apenas e tão somente burros.
Em qual dos desastres o eleitor brasileiro depositará mais uma vez a sua eterna esperança?

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 5:57 PM


Comments: Segunda-feira, Fevereiro 06, 2006

Mais macartismo

Morar em Brasília traz algumas informações privilegiadas para aqueles que sabem dar os ouvidos certos às conversas sem importância. Uma sensação estranha se faz presente quando, por exemplo, alguém comenta algo que jamais seria publicado. Algo de alguém importante, algo de alguém que desempenha papel fundamental para a condução do país.
Por imprensa marrom entende-se aquela imprensa que noticia fatos irrelevantes, principalmente no tocante à vida pessoal de determinada personalidade. E não falo aqui das personalidades atuais, aquelas que querem ser personalidades apenas pelo simples fato de sê-lo, sem ter feito nada de relevante ou notório. Esse tipo de personalidade BBB implora pela exposição de sua vida particular nos grandes veículos de comunicação. Já que não existe nada mais a ser ofertado, que a vida privada delas seja exposta como as vísceras de um atropelado.
A imprensa marrom é assim chamada por dar espaço para relações extraconjugais de políticos, artistas e desportistas (entre outros célebres), além do consumo de drogas ilícitas, da prática de sexo grupal e de outras condutas tidas como atípicas ou socialmente escandalosas. Uma outra prática que chama sempre a atenção e que é considerada um trunfo para qualquer editor de tablóide sensacionalista é o homossexualismo.
Oscar Wilde foi preso na Inglaterra vitoriana por práticas homossexuais. Hoje em dia, na maioria dos países, não existe prisão para quem pratica o homossexualismo. Vivemos sim uma era na qual o homossexualismo é sinônimo de liberdade, de escolha, etc. Há quem considere que o mercado de produtos para os gays é um dos mais rentáveis e exigentes, desbancando velhas condutas que tratavam os homossexuais como indivíduos que não eram bem-vindos.
Mas então por que será que a notícia de um provável homossexualismo por parte de um ministro do atual governo Lula seja tão comentada nos círculos do poder? Por que será que fotos reveladoras são guardadas como trunfo para futuras eleições? Por que o comentário à boca miúda nos corredores e gabinetes não pára de crescer?
É desnecessário dizer que apenas ouvi falar desse assunto. E mais desnecessário ainda dizer que não revelarei as minhas fontes, sob hipótese alguma. O que aqui quero colocar em discussão é: Por que a imprensa marrom é tão mais interessante, tão mais gostosa de ser acompanhada?
O suposto homossexualismo do ministro deveria ou não deveria povoar as manchetes dos jornais e orientar a pauta das televisões comerciais? Haveria aumento na audiência? Claro que sim. Afinal, quem não quer saber se determinado sujeito público é ou não é homossexual?
Comercialmente falando, o "ministro alegre" deveria ser apresentado como tal. Eleitoralmente esse é um coringa para a oposição. Eticamente... Bem, está tão difícil falar em ética na atualidade, principalmente em ética jornalística atual, que prefiro me abster covardemente desse assunto.
Então, só para lembrar, existe um boato fortíssimo em Brasília que um ministro do governo Lula pratica o homossexualismo. E não falo de Gilberto Gil. Se isso é verdade ou não, nessa altura é o que menos importa. A semente da denúncia está plantada, e a curiosidade da população serve como guia aos trabalhos de uma parte da imprensa.
Se pensarmos o jornalismo como negócio, por que não imitar os Estados Unidos mais uma vez e fazer uma verdadeira operação para vasculhar a vida íntima dos membros do governo? A arrecadação das empresas de comunicação, ao menos, cresceria exponencialmente.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 6:14 PM


Comments: Sábado, Fevereiro 04, 2006

Constatações - Parte II

Já disse várias vezes, ou melhor, acho que disse, mas minha memória anda fraca. Por sinal nem sei se comentei isso na crônica anterior. Se sim ou não, comentarei agora.
Seguindo a série ¿constatações¿ inúteis, lembrei-me de mais uma atroz e terrível constatação, dessas que possivelmente poderiam passar desapercebidas. Não sei se os confrades já notaram, mas não existe assombração de outro mundo para os ditos de baixo poder aquisitivo. Pobre não sofre dos males do além. Fantasmas e psicopatas gostam é de dinheiro e riqueza. Têm aversão às paupérrimas condições de vidas dos mais desafortunados.
Esse fato inconteste me veio como uma visão, uma assombração. Não existem filmes de terror em favelas, não há relato de almas atacando nas filas do INSS. Todas as aparições fantasmagóricas se dão em ambientes requintados, muitos destes sendo velhos e de mau gosto, mas nunca onde não haja condições financeiras abastadas.
Os fantasmas devem ter medo da pobreza, ou tem alguma alergia aos piolhos e a sujeira. Devem se coçar diante de esgotos. Náuseas se virem ratos ou baratas.
Os psicopatas de plantão seguem a mesma linha, estes talvez por pura falta de originalidade. Sem imaginação ou não, o fato é que estes meliantes do mundo real cinematográfico não se contentam em um assalto/crime sem classe. Já imaginaram uma chacina em uma quitinete. Crimes bárbaros no Cingapura. Perseguição em um Fiat 147. No cinema, nunca. Pode até haver um crimes isolados, assassinatos sem inter-relação, mas psicopata do bom mesmo, só na classe A.
Os seres do mal precisam de ambientes com várias portas, corredores largos e grandes. Conselho aos que como eu morrem de medo de alma, fantasmas e afins: Se quiserem se livrar por completo do mal, larguem seus bens materiais. Vendam seus apartamentos e casas e comprem um flat modesto. Troquem seus carros do ano por uma brasília ou um opala. Se quiserem ser menos radicais como eu, pelo menos entreguem 27,5% dos seus dividendos para o imposto de renda. Paguem todas as suas contas em dia. Comprem CD e DVD originais. Façam as revisões periódicas em seu carro conforme orientação da fabricante. Desta forma dificilmente algum fantasma ou psicopata irá se interessar por você.
Quanto aos mais radicais e seguidores da abnegação total ao material, estes estarão livres do perigo. E analisando friamente, era querer castigo demais para os mais pobres. Já não basta o terror da vida real. Os psicopatas e fantasmas que os afligem são bem mais reais. O perigo está no dia-a-dia. Os fantasmas estão nos boletos bancários, nos carnês de prestações e financiamentos.
Do jeito que a coisa vai, muitos irão aderir ao grupo mais radical em pouco tempo. Só vamos ver fantasmas mesmo é no cinema americano.

Do aditor
GustavoGT
Natal 04/02/06

postado por: RODOLFO TORRES 2:17 PM


Comments: Sexta-feira, Fevereiro 03, 2006

Princípio da vida

Certa vez, um sujeito chamado F. M. Cornford escreveu um livro satírico. O ano era 1908 e o lugar, a Inglaterra. Como a maioria dos autores satíricos ingleses da primeira década do século passado, não existe um registro fotográfico de Cornford. É um autor sem face e sem olhar.
Não gosto de imaginar a feição das pessoas apenas pelos nomes. Tenho uma tendência de embelezá-las ao extremo e o resultado sempre é uma decepção para mim. Se o sujeito então possuir um sobrenome longo e cheio de consoantes, penso logo, como todo membro de uma histórica sub-raça, que aquele ser é mais do que o belo. É a própria referência da beleza.
Mas esse não é o caso com o Cornford porque aprendi numa aula de literatura que o poeta satírico Gregório de Matos tinha o rosto longo e fino, e que ele não era lá um expoente da beleza. Daí concluo, generalizando faces, que todo indivíduo satírico é parecido com o Boca do Inferno.
Falo, falo e ainda não saiu o essencial desse texto! Cornford escreveu um princípio bastante interessante, diria até que ele escreveu um princípio universal. Queria o jovem inglês em 1908 ridicularizar as estruturas universitárias britâncias. Afinal, mesmo no início do século passado, os universitários ingleses enfrentavam o peso de sete séculos de tradição acadêmica. Para se mudar algo, em 1908, nas universidades inglesas, o sujeito escutava sermões do tipo: "Essa instituição tem 700 anos de tradição. O senhor acha que é maior do que esse tempo? Tempo que presenciou alunos como Isaac Newton, entre tantos outros brilhantes...".
O jovem revolucionário inglês do início do século 20 tinha que engolir as suas revoltas imberbes e se contentar com a tradição, com a imutável condição das estruturas, com a rotina incansável de tudo. Enfim, deveria se conformar com a impossibilidade de qualquer mudança.
Foi então que o jovem Cornford escreveu o "Princípio do momento imaturo", que em linhas gerais dizia que nada poderia ser mudado jamais e em momento algum, pois nunca chegava o momento certo de se fazer as mudanças, tendo em vista que as tradições por si só representavam um convite a inércia dos pensamentos e atitudes.
O tal princípio de Cornford representa algo maior, algo de mais abrangente. O princípio de Cornford é algo para a eternidade, para todos os povos e raças. Afinal de contas as mudanças que deveriam sempre ocorrer, com as melhorias que urgem, sempre serão adiadas. Nunca seremos contemporâneos das revoluções vitais, porque elas jamais existirão.
O momento é sempre imaturo para que possamos melhorar o que já nasceu pedindo melhorias. No Brasil esse princípio deveria se tornar um mantra porque, pelo menos, para a conformismo o momento é sempre oportuno.
Cornford, profeta maior, todos os momentos são imaturo.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 8:54 PM


Comments: Quinta-feira, Fevereiro 02, 2006

Escombros de sonhos

Quem despreza o poder do "ir com a cara de alguém" é certamente um sujeito que não entende nada das relações humanas mais profundas. Sim, a nossa teia social, o nosso círculo de amizades e até mesmo o simples cumprimento ao desconhecido visto várias vezes depende quase que exclusivamente do fator "ir com a cara de".
Não é para menos. Eu, por exemplo, um defensor das coisas superficiais e sem importância da vida como instrumento da felicidade, não posso jamais desconsiderar que tudo é superficial, é ralo, é raso. Aqueles filósofos alemães que me perdoem, mas as doses cavalares de amenidades e de futilidades são a verdadeira vocação do homem enquanto bicho que acha que se comunica.
Não que desconsidere a importância das profundezas da sapiência e da erudição irrestrita. Às vezes, quando preciso um pouco mais da minha solidão, leio o que não deve ser lido, e penso o que não deve ser pensado e acho que tudo está tão errado que me vem aquele desânimo colossal acrescido de uma profunda desilusão para com tudo e, graças ao bom Deus, despenco na mais completa gargalhada.
Creio que mais do que nos outros, o riso tem para mim um efeito de auto-preservação. Se eu não conseguir gargalhar, de uma forma completamente desprovida de elegância (é válido ressaltar), a coisa realmente está séria e, por que não dizer, perdida. As oscilações do meu humor são tão vertiginosas que já procurei explicações na literatura especializada. E só encontrei péssimos diagnósticos para aqueles momentos tão prazerosos, momentos nos quais o riso vem do nada e é capaz de deixar intrigada qualquer pessoa que esteja ao meu lado.
Se me é permitido elaborar alguma teoria para explicar o que se passa em mim, afinal não tenho pretensões de redigir tratados universais sobre o humor, diria que a sabedoria da natureza é assustadora no que diz respeito à minha pessoa. Quando acho que não vou mais suportar as pressões que a maturidade impõem, impiedosas pressões, pressões que jamais suspeitei que teria algum dia; caio na mais completa gargalhada e sinto-me tão feliz por conseguir rir de tudo isso.
A sensação de que tudo está ao chão, a sensação de caminhar invariavelmente por entre escombros de sonhos e certezas só não é tão aterrorizante porque ainda carrego comigo um certo sarcasmo e uma capacidade de extrair riso da desgraça.
O que me resta agora é viver o resto de vida que ainda possuo com aquela ótica acinzentada de um refugiado de seu próprio mundo, de um soldado que em meio ao tiroteio deitou-se, retirou do bolso algum verso ou fotografia e chorou com medo de ser atingido por aqueles projéteis desordenados. Minha ótica é a de um cachorro perdido e desmamado, que busca refúgio em algum posto de combustível perdido no meio do nada, e que sabe que jamais sairá daquelas redondezas porque os carros não param, são sempre velozes demais, e não é possível afastar-se daquele cenário porque a morte seria mais cruel do que está sendo tudo.
E mesmo quando os carros param, ele olha e não sabe o que deve ser feito. Late sem jeito e não sem um vasto sorriso de derrota.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 5:56 PM


Comments: Quarta-feira, Fevereiro 01, 2006

A Confraria abre espaço para uma crônica de um torcedor do Alecrim Futebol Clube de Natal. O Advogado Tiago Aguiar, que expressa com uma autoridade singular o seu amor pela equipe esmeraldina.

O verdadeiro amor pelo futebol

Por ser pernambucano, aprendi uma coisa que sinto muita falta aqui no Rio Grande do Norte, que é valorizar o local aonde nasci. Recife é uma cidade
cheia de imensos problemas, os quais não vou enumerar, pois poderiam ser temas de longas linhas. Mas uma coisa o pernambucano sabe fazer: valorizar
as suas origens e tradições.Eu vivi mais aqui do que em qualquer outro local, e amo esta terra, com certeza
muito mais que a grande massa de norteriograndenses.Eu sempre me cansei de ver os potiguares torcerem por "Vascos", "Corinthians"
e "Flamengos", acho um absurdo, um grande mau gosto e um desrespeito com as equipes daqui. Sempre torci pelo Sport Recife, apesar de não morar em Recife
há 12 anos.E ao procurar uma equipe genuinamente potiguar para amá-la, acabei levado por frases de um grandioso amigo a torcer pela mais potiguar das equipes, o
Alecrim Futebol Clube, que leva em seu nome uma homenagem ao mais tradicional bairro de Natal.
O meu batismo foi em um jogo entre Alecrim e América, e a minha paixão veio no calor do amor dos 14 torcedores que junto a mim urravam para que a
Máquina Esmeraldina saísse de sua intermediária defensiva.Não, não sabem vocês a emoção de torcer pelo gladiador desarmado que luta
contra feras, leões, bestas. Não sabem a real emoção de um Tivuco que isola a bola, nem como se valorizar aquele amado beque grosso que desvia a bola
pela lateral, para afastar o perigo.Eu creio que não sabem o que é o futebol, o que é a emoção verdadeira de um
gol, sempre comemorado como um título, uma superação. Não sabem o que é o
fardo de torcer por uma equipe que definitivamente o juiz não teme garfar, afinal, não existem muitos torcedores para agredi-lo após o jogo.
Afinal, não sentiram nunca - e por isso tenho larga pena de vocês - a emoção completa de uma vitória, que quando ocorre vale mais do que qualquer
tri-mundial, tetra-brasileiro.Nesta primeira vez que amei a dama Alecrim, a linda dama de verde, coberta
de esmeraldas e com um lindo sorriso, me apaixonei. Como num amor entre um homem e uma mulher, sempre somos atraídos por mulheres ordinárias...
Não entendo por que não se entregam como eu no futebol, se despejando de peito aberto ao amor de um time, como ao ventre de uma linda ordinária, que
te amará, mas ao fim deixará apenas a dor. A dor me lembra neste caso o amor, o prazer. E como eu amo o Alecrim.
Este meu primeiro jogo terminou por três tentos a um a favor do América, a minha equipe foi muito roubada, e um de nossos nervosos atacantes perdeu um
pênalti, honrado o hímen americano. Mas o meu coração é teu, vadia dama de verde, e para sempre será...

postado por: RODOLFO TORRES 4:14 PM



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