|
Confraria dos Crônicos
|
![]() |
De crônica, não basta a vida! Comments: Terça-feira, Janeiro 31, 2006 Elevações de Machado A prudência, na maioria dos casos, chega com a idade. Se bem que a transição segura e definitiva de uma vida desregrada para um cotidiano saudável e louvável não se dá repentinamente. Precisa-se de tempo, de várias folhinhas caídas de calendários baratos, tubos de pasta de dente vazios, estranhos que já te reconhecem em ruas mais estranhas ainda. A prudência vem com o tempo, é bem certo isso. Mas não é lá de uma certeza tirânica, pois até as condutas despóticas da nossa cronologia tem lá a sua frouxidão e o seu caráter maleável. Machado disse em uma de suas crônicas que "Tudo pede certa elevação". Não consigo mais tirar essa frase do meu cotidiano, e sempre a repito nas mais diversas situações do dia-a-dia porque sempre achei que tudo realmente pedia uma certa elevação. Uma elevação urgente e eficaz. Sinto muita alegria em ler devagar. Apesar de comer rápido, andar rápido e amar mais rapidamente ainda, amar em caráter de urgência, com aquela típica violência desnecessária e brutal das paixões mais avassaladoras e irresponsáveis; leio sem a pressa que carrego para todo o resto de tudo. Ao me deparar com frases definitivas, fecho o livro e deito-me. Ou vou ao espelho e repito-a para mim mesmo. Milhares de conexões se erguem em meu imaginário nesse instante, e sofro. Sofro ao ler frases em estado de perfeição. Parece que tudo o mais da existência não traz mais o mesmo sentido de antes. Até porque "Tudo pede certa elevação". Não a elevação total e irrestrita, pregada exaustivamente nas capacitações empresariais. Não a elevação dos resultados, da excelência administrativa e dos cursos de reciclagem. A elevação exigida pelo tudo de Machado é uma elevação mais bela, mas suave e, diria até, mais urgente. É aquele olhar perdido em uma escada de repartição, é sentir frio na barriga ao se receber um telefone distante e inesperado, é sentir o cheiro da chuva a dois e mesmo assim ter uma repentina vontade de chorar porque nas próximas festividades aqueles corpos estarão separados e alheios à temperatura um do outro. Pode-se existir elevação mais desejada do que a elevação na qual os espíritos se enroscam? Pelo que sempre faço, carrego a tendência de chutar a prudência para o mais longe possível de meus olhos. Mas essa mesma prudência volta na forma de avisos sussurrados por aquela voz interna baixinha, que consegue nos deixar temerosos a respeito dos nossos procedimentos. Como a prudência tende a se instalar, direi que a elevação necessária ao seu alojamento é a elevação nostálgica dos dias chuvosos como o de hoje. Dias nos quais as lembranças imploram por se projetar, e tudo o mais adquire aquela áurea de dor pois você vai viajar e não nos vimos ontem por causa da chuva. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 3:40 PM Comments: Segunda-feira, Janeiro 30, 2006 Constatações Os últimos ventos de janeiro me trouxeram constatações brutais, tão pouco importantes quanto o que pensa um ex ¿big brother¿ sobre o cenário político nacional. Das várias visões constatatórias a que tive acesso, duas vou me deter a compartilhar com os demais confrades, não por serem mais geniais, prioritárias ou importantes, mas por serem as únicas que me lembro no momento. Memória fraca e capenga. Não sei se já lhes disse, mas minha memória anda de mal a pior. Sinto-me totalmente pronto para acreditar em qualquer promessa eleitoral este ano. A primeira delas. Na tradicional tabuada, não existe nada mais tenebroso e periculoso do que o fatídico sete vezes oito. Pior do que ele, talvez só o oito vezes sete. Na minha humilde opinião, não importa a ordem, na tabuada de sete ou de oito, esse encontro macabro entre o sete e o oito deveria ser proibido. É quase como o treze para os supersticiosos. Como nos prédios onde não há o décimo terceiro andar, deveria ser banidos dos bancos escolares o ensino do sete vezes oito. Se alguma criança desavisada perguntasse o porquê, seria brutalmente recriminada, com toda a veemência que a situação exige. Só seria permitida esta operação aos computadores mais avançados, desde que não fosse mencionada. Seria um recurso secreto e inatingível. Inclusive por um erro do destino a soma entre sete e oito não dá treze. Mas deixemos de falar de coisas tão objetivas, sem fugir muito das proporções. Se ninguém notou, tive a visão e vos digo. Não existe ninguém mais ou menos irritado. Diante do maior surto de raiva, sempre há alguém a dizer: - É... acho que ele está meio irritado! Meia raiva não existe. Funciona mais ou menos como o potencial de ação das células... sem detalhes chatos, apenas acreditem. A raiva mesmo, é raiva e pronto. Dispensa graduações. Não existe meia raiva. Se é raiva, saia de perto. É ebulição, altamente inflamável e tóxica. Adrenalina misturada com trinitrotolueno. É bomba, e já detonada. É como o amor. Ninguém esta mais ou menos apaixonado. Se bem que você até pode gostar de algo um pouco mais ou menos, mas para a raiva não. A gradação não tão sensível e extensa que inventaram para este lado parece funcionar menos para o lado da raiva. Pro lado da raiva é tudo ou nada, como no sistema de condução do coração (também esqueçam explicações. Se tem algo a ver estes dois postulados, não sei. Só sei que sempre tive raiva do sete vezes oito! Do aditor GustavoGT Natal 30/01/06 postado por: RODOLFO TORRES 7:17 PM Comments: Quarta-feira, Janeiro 25, 2006 Rito Anos eleitorais me atraem de uma forma brutal. Não consigo estabelecer freios para o meu interesse nesses períodos da vida nacional. Tudo é tão mais esperançoso nesses anos, e existe um sentimento de possibilidade de renovação que faz com que milhões de pessoas tenham alguma esperança naqueles que trazem as soluções para os problemas de sempre. Pois nossos problemas só poderão ser resolvidos com muito trabalho e dedicação, aliados à experiência e a alguma pitada de boa vontade que porventura exista na mais obscuras profundezas do governante que será eleito. O populismo é uma bênção para nosso povo e para os nossos políticos. Só entendemos essa linguagem que possuí lá a sua beleza e as suas qualidades. O populismo como forma de comunicação entre eleitorado e candidatos... De que outra forma nos relacionaríamos com as autoridades senão através de um paternalismo a contragosto, ou de esmolas sistemáticas que reafirmam essa miserável condição de pertencer ao país ao qual pertencemos? Enganam-se os que acreditam que o jogo político é conduzido apenas pelo dinheiro. Claro que sem a coisa mais importante da vida, não se faria política. Mas existe algo além, garantindo mais satisfação ainda do que apenas os milhões em contas bancárias não declaradas em paraísos fiscais. Existe o poder, a capacidade de influenciar, a satisfação interna e poderosa de ser aquele que manda, que é ouvido, que é respeitado. Quem pratica a política deve ter lá os seus problemas com o abandono na infância ou com o desprezo na puberdade. Alguns assumem os palanques e as tribunas; outros apenas se escondem atrás de parágrafos rapidamente digitados que chegam a cansar mais do que certas corridas ou práticas esportivas. O certo é que convencionou-se que esse jogo de interesses traduzidos em discursos e candidaturas é o mais correto e o mais desejado para as nossas vidas. Que assim seja... Estamos aqui nesse baile estranho. A música não é tão difícil de ser acompanhada em passos de dança. O começo é desajeitado, mas logo o sujeito consegue se soltar e perceber que se existir alguma boa-vontade por parte do dançarino, o conjunto faz algum sentido e não é tão insuportável assim como os apocalípticos garantem. A magia do populismo na política brasileira pode ser verificada no sorriso dos miseráveis desdentados, na expressão de alívio daqueles milhões que não são familiarizados com a alimentação diária. A alegria do povo mais pobre é o que me faz sentir uma brutal vontade de chorar, e de querer abraçar todos e dizer que essa vida que levamos é apenas uma brincadeira, que tudo o que foi feito até agora não irá mais ocorrer pois somos iguais perante leis e deuses... Como é bonito o rito das eleições. Já que somos viciados em nos sentir esperançosos, que venha a esperança em forma de voto, e a certeza em forma de candidato, e a rotina da ausência de assistência e do mais profundo desrespeito em forma de cidadania brasileira. Amo muito tudo isso. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 3:52 PM Comments: Sexta-feira, Janeiro 20, 2006 De volta ao teclado Nada como passar algum tempo sem fazer nada, apesar de ter um monte de coisas esperando uma atitude sua. Os ares da vadiagem sempre se fizeram presente em minha vida. Diria até mais... Posso garantir que a vadiagem é uma marca da minha alma, uma bússola para todas as minhas experiências, uma dádiva e um destino. Mas não é uma vadiagem irresponsável a que carrego em mim. Não, tenho as mais violentas e tumultuadas crises de consciência. Crises tão potentes que me fazem dormir para esquecer um pouco o que passo acordado. Mas daí vem o sonho, e me atormenta de uma forma que considero mais honesta. Os meus pesadelos imaginários fazem mais sentido do que as minhas angústias enquanto acordado. Daí vou vivendo e respirando, apenas a observar. Pois já me conformei em ser platéia mesmo, pois as minhas pretensões de atingir algo maior já escorreram por alguma parede úmida de minha história de vida e o que me aguarda não é lá muito animador; apesar de ser um tanto quanto divertido. Esse ano será divertidíssimo. Não só para os "analistas", mas para todo o povo brasileiro. Duas das maiores paixões nacionais ocorrerão em 2006: Copa do Mundo e Eleições presidenciais. Além de trazer o sexto caneco para casa, também teremos o maior processo de distribuição de renda que conhecemos. Sim, as eleições brasileiras são responsáveis por injetar uma quantidade inimaginável de dinheiro nas mãos dos patrícios menos favorecidos. Há quem fique indignado com essa situação. Eu não. Adoro eleição. Gosto tanto que se dependesse da minha vontade, teríamos eleição de seis em seis meses. Além de entreter o público, os políticos travestidos de homens sérios garantem uns míseros reais no bolso de uma população habituada com o nada. Se eu acho ruim isso? Acho ótimo. Nossas eleições deveriam ser estudadas por organismos internacionais interessados em programas eficazes de distribuição de dinheiro a populações miseráveis. Se nós só conseguimos garantir que o dinheiro assim chegue à maioria de nossa população, massacrada por uma história de exclusão de desespero; por que não aprimorar esse instrumento de cidadania? Que o Brasil tenha vários anos como esse de 2006 que está apenas em seu início. Descobrimos entre outras coisas que a pressão pelo fim de alguns privilégios dos parlamentares faz efeito. Quando existe realmente um sentimento de indignação generalizado, é possível fazer com algo mude. Não iremos resolver nossos problemas através dos políticos. Até porque os políticos estão onde estão para resolverem os seus próprios problemas. Mas podemos modificar algumas coisinhas com doses cavalares de raiva e rancor. Tudo bem que a atividade política ainda será um excelente negócio, mas que eles adquiram esses rendimentos através de outras vias. Vias ilegais, de preferência. Que as eleições tragam aumento aos funcionários públicos, emprego temporário aos jovens e desempregados, pão aos famintos e uma abstinência de distribuição de renda aos brasileiros nos próximos anos sem eleições presidenciais. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 3:41 PM Comments: Quarta-feira, Janeiro 18, 2006 A Praia das Virtudes e o Virtuose Num dia em que a preguiça falou mais baixo, resolvi deixar o carro na garagem e fui andando até a Praia das Virtudes, em Guarapari. Essa é uma pequena praia em forma de enseada, na verdade, uma estreita faixa de areia, cercada por pedras e pelas águas calmas e verdes do mar. Na rua em frente, prédios altos e de alto padrão quase dão a ela um aspecto de praia particular. Neste dia, um sábado, o céu azul com poucas nuvens lanosas garantia a lotação máxima dessa e de outras praias das redondezas. Tal qual numa praça de alimentação de shopping em busca de uma mesa, foi preciso esperar na calçada pela saída de uma família com sua barraca, para conseguirmos um lugar na areia, tão cheia estava a praia. Lembrei-me dos tempos do Guarujá. Fincada a barraca, passei aos procedimentos de praxe. Lambuzei-me com filtro solar exceto naquela parte das costas que nem a mão direita nem a esquerda conseguem alcançar. Saquei os óculos escuros, armamento imprescindível para manter uma fisionomia plácida e permitir alguns olhares furtivos. Recuperei as calorias gastas na caminhada, evitando qualquer catabolismo, com dois picolés de abóbora-com-coco. Quanto ao líquido escolhido para a necessária hidratação, um coco generoso foi o suficiente. Aqui, cabe uma observação. Optaria pela cerveja, que por essas bandas, abunda como a rima infame, mas não sou homem de beber sozinho, tenho esse preconceito besta e a minha mulher teima em abster-se de tomar um líquido que desagrade ao paladar, ignorando os outros pressupostos dessa bebida, que as propagandas na TV não se cansam de apregoar . Mas, deixemos de ora pois e vamos ao fato a registrar. Estávamos, a praia inteira, embalados naquele alegre burburinho, um doce descompromisso em que pipocava uma gargalhada aqui, um comentário jocoso ali, quando de repente surge um som que conseguiu calar aqueles duzentos figurantes na areia. Num primeiro instante, o som pareceu vir do céu. Os pescoços se entortaram para o alto, e rapidamente, entendemos o que se passava. Da sacada do quinto andar do prédio em frente, um homem de meia-idade resolvera transformar a praia numa platéia improvisada, e soprava um trompete com vigor insuspeito. Tocava Emoções, do rei, o que agradou em cheio. Quando parou, a praia inteira aplaudiu, o pessoal na água balançava os braços, acenando para cima. Tudo isso num improviso que é marca registrada do nosso povo. Difícil imaginar tal cena em terras estrangeiras, quem discordar, que se manifeste. Animado pela calorosa receptividade da praia, o instrumentista gastou seu fôlego por cerca de trinta minutos num pour-pourri eclético, com direito a Alcione (não deixa o samba morrer...), canções populares (Oh Minas Gerais...) e outras músicas do Roberto Carlos. Agora, além da praia, as pessoas dos outros apartamentos, como formigas farejando açúcar, debruçavam-se em suas espaçosas varandas, verdadeiros camarotes, e também aproveitavam a canja musical. Se àquele ambiente alegre de praia e música, faltava uma pitada de futebol, nosso músico celestial tratou de preencher a lacuna. Dando mais uma mostra de seu bom gosto e talvez de algum senso de oportunismo, nos brindou com o hino do Flamengo. A maioria aplaudiu e fez coro, abafando algumas vaias tímidas, que sempre tem uns ranhetas infiltrados na massa. De uma janela vizinha, agora se agitava uma grande bandeira rubro-negra. Depois disso, o músico se retirou. A praia agitada aguardava pelo bis, que não tardou. Após alguns minutos, ele voltou em grande estilo, tocando Jorge Ben Jor. Não era a banda do Zé Pretinho, mas foi o suficiente para animar a festa em que se transformara a praia. Luís Gustavo Ferreira postado por: RODOLFO TORRES 10:49 PM Comments: Quinta-feira, Janeiro 12, 2006 Selos: melhor tê-los Nestas férias, aproveitei para rever minha coleção de selos. Nada muito requintado, inclusive com uma parte sendo de selos usados, isto é, com carimbo postal e, portanto, sem valor comercial. Acumulei esses selos, quando tinha entre dez e quinze anos e depois, com o início da vida universitária e de outros prazeres, releguei-os a uma prateleira interna de uma estante, na casa dos meus pais. Com o passar dos anos, uma espessa camada de poeira se acumulou na parte externa dos álbuns (ou classificadores, em linguagem técnica) e para minha surpresa, surgiram algumas manchas amareladas ao redor de alguns selos e blocos. Por coincidência, foi inaugurada há dois meses uma loja filatélica na galeria existente no térreo do prédio dos meus pais, em Guarapari. Resolvi ir até a loja com minha humilde coleção embaixo do braço para saber se aqueles selos doentes tinham salvação e se eles poderiam contaminar os demais. Na loja, apenas a presença de um senhor de seus setenta anos, aproximadamente. Ao me ver entrar, abriu um largo sorriso - a loja vive vazia, minha mãe me antecipara -, e me cumprimentou de forma efusiva. Chama-se Nicola, italiano que já rodou o Brasil, viveu por cinco anos em Belém e há três meses, trocou as mangueiras paraenses pelas castanheiras do balneário capixaba. Divide seu dia entre sua pequena loja, um claro passatempo, e as estreitas faixas de areia monazítica ainda existentes na praia da Areia Preta. O homem é um amante da filatelia, seus olhos brilhavam ao discorrer sobre o assunto e ao mostrar as muitas coleções temáticas que estavam expostas. Italiano típico, falou e gesticulou bastante nos vintes minutos de contato que tivemos. Em Belém, cidade de 1 milhão e meio de habitantes, frustrara-se com o fato de só haver 15 colecionadores de selos (sic). Dizia que os mais velhos, no Brasil, não incentivam o hobby nas novas gerações. Por ciúmes dos seus selos, mantêm-nos trancados a sete chaves em vez de compartilharem suas relíquias com os outros. Na Europa, garantiu, o hábito permanece vivo e forte, com cidades de pequeno porte tendo três ou quatro filatélicas. Quando lhe disse que abandonara minha coleção havia muitos anos, me persuadiu a retomá-la. Como tenho predileção por selos nacionais, sugeriu-me que fizesse a coleção por anos e começasse pelo ano do meu nascimento. Quanto à minha demanda específica, que quase já tinha esquecido, depois de examinar cuidadosamente os selos danificados com uma lupa - faz parte do ritual -, vaticinou "é ferrugem, passa do álbum para as bordas do selo; para remover, basta colocá-los numa bacia com três dedos de água e 1 colher de água sanitária". E para resolver definitivamente o problema, comprar um álbum novo, italiano, que um irmão seu trazia regularmente para o Brasil, em bom tucanês, livre de taxas alfandegárias. Ainda assim, o álbum custava R$ 120 reais. Aceitei apenas a primeira parte de sua sugestão. Ao me despedir, disse-lhe que sabia algumas poucas palavras do seu idioma natal e que aquela conversa tinha me animado a retomar minha collezione di francobolli. Seu Nicola sorriu de orelha a orelha e devolveu "buona sera e auguri". Luís Gustavo Ferreira postado por: RODOLFO TORRES 3:33 AM Comments: Terça-feira, Janeiro 10, 2006 Praieiro Como outros confrades, sou praieiro. Acho até legal essa história de fazenda, casa de campo, mas sou da maresia. Sobre a cidade grande, ou não tão grande como a minha querida Natal, acho um mal necessário, por isso sou das ondas. Em recente visita a um grande amigo, e sua belíssima fazenda, pude comprovar isso. Tudo muito legal, muito arrumado. Os cavalos e bois então, bonitos. Dá até vontade, mas logo passa. Sou da areia, de praia, é claro. Neste primeiro ano do resto de minha vida, após léguas tiranas distante, me dei ao luxo de aproveitar um pouco a praia no mês de janeiro, mês dos veranistas. Não como antes, quando ficava praticamente um mês inteiro de calção de banho. Agora em doses mais homeopáticas, mas com a mesma empolgação de outrora, talvez até mais. De tudo porém, há algo que me deixa constrangido, se não consternado. Para mim praia é sinônimo de várias coisas, e uma delas é de fugir da rotina. Por isso sou contra quase tudo que me lembre o dia-a-dia. A televisão, por exemplo. Se vejo meia hora de TV por semana é muito. Estou na praia. Televisão eu vejo na minha rotina. Noticiário então, sai dessa. Praia combina com um bom livro, com conversas bestas, descontração, cervejinha gelada, rede na varanda. Televisão não. Definitivamente não. Qual não foi a minha surpresa neste ano, ao ver abismado a pilha de DVD que existiam na sala da casa de praia. Se televisão não, imagine DVD. DVD não. Onda sim, DVD não. Saio indignado para me refrescar na varanda, sentir o sal na cara, já que sou hipertenso e não posso tê-lo na língua. Olho displicentemente para o lado e vejo, mas não acredito. Um computador, tipo leptop, a ser deleitado, acariciado com os dedos, e mais, com acesso à internet pelo celular. A contragosto sou convidado a ver de perto que beleza é a tecnologia, acessar a rede mundial de computadores pela linha do celular, e sem fio algum. Ouço ao longe palavras como Blue tuff (nem sei como escrever essa heresia), que percorrem e rasgam meus delicados tímpanos como navalhas. Maresia sim, Computador não. Praia sim, internet não. Sem noção do que fazer, ou para onde correr, sou levado ao desespero. Corro para longe daquela cena. Quero fugir de tudo que me lembre computador, televisão ou eletricidade. Quero sentir a natureza ao meu redor, de forma plena. Corro em direção à praia. Após longo e relaxante banho (de mar), volto com a esperança de encontrar tudo diferente. Na varanda, deitado em minha rede e com o vento soprando forte, estou isolado e protegido de todos os perigos que me rondam. Com uma pipoca de microondas no colo e revendo as fotos do reveilon na minha máquina digital, sei que ali dentro estou seguro das armadilhas da tecnologia ... Do aditor GustavoGT Pitangui 10/01/06 (Em tempo... envio esse texto direto da praia, e aproveito para agradecer ao nobre amigo que me cedeu seu computador, com acesso à internet!) postado por: RODOLFO TORRES 9:10 AM Comments: Segunda-feira, Janeiro 02, 2006 O cão e o avião Em geral, compro passagens de avião pela Internet. Aliás, ultimamente tenho comprado bastante coisa pela Internet. É cômodo, fácil de comparar preços e poupa o dinheiro do estacionamento do shopping. Mas desta vez, era diferente. Iria viajar e levar meu cão. Apesar de fêmea, evito o termo "cadela" pelo tom pejorativo. Liguei para o 0800 das empresas para me informar a respeito do transporte aéreo de animais. Para minha surpresa, não são todas as companhias aéreas que permitem que os bichos voem junto aos seus donos. Algumas tratam os animais de estimação como simples carga. Como, na ausência de um filho legítimo, minha esposa trata nosso cão como filho, fui obrigado a escolher uma companhia que permitisse o embarque do cão como um passageiro qualquer. Digo isso não sem uma ponta de tristeza, pois precisei abrir mão da minha prioridade de comprar sempre a passagem de menor tarifa. Feita a escolha da companhia, vieram as outras exigências. Tive que arrumar uma gaiola com as dimensões padronizadas. Em seguida, levar o cão ao veterinário para colocar em dia o cartão de vacinação e conseguir o GTA - guia de transporte animal. Apesar da saúde ostensiva do nosso cão, que nunca adoeceu, ele não escapou do exame físico minucioso que incluía uma desnecessária aferição de temperatura retal. Talvez pressentindo as regalias que o aguardavam na viagem aérea, o cão tolerou o termômetro de forma estóica. Dias antes da viagem, a companhia mandou um e-mail informando que o horário fora alterado e incluía agora uma demorada conexão no Rio, antes de pousar em Vitória. A dose do sedativo teve de ser recalculada. No dia do vôo, chegamos com bastante antecedência ao aeroporto. Hora de pesar o bicho na esteira e pagar por quilo. Aqui, uma vantagem: nosso cão é um esbelto poodle-toy. Pesa só três quilos, o que me poupou alguns trocados. Na hora de passar pelo detector de metais, o funcionário pediu que retirasse o cão e passasse a gaiola vazia pelo detector. Receio de um cão-terrorista? Aquilo me pareceu uma formalidade idiota. Para azar do cão, que não gosta de crianças, duas menininhas passavam ao lado e pararam para fazer aquelas gracinhas como puxar o pêlo ou balançar as orelhas, que só irritam os animais. Na sala de embarque, outro susto. Ao colocar a gaiola no chão, numa posição em que o cão não podia me ver, no instante seguinte veio o latido acusador. Aquele som agudo ecoou no recinto e todos ao redor se viraram para mim. Deve ser uma cena insólita: um marmanjo carregando um poodle no aeroporto. Tirei-o do chão e o coloquei de frente para mim. Ele ficou com o focinho na grade, me encarando. Um ar queixoso de prisioneiro, só faltava a colher batendo na grade. Quando entreguei o bilhete para embarcar, fui informado que o meu lugar havia sido trocado por outro, na primeira fileira - procedimento de praxe nesses casos. Quando entrei no avião, havia uma senhora idosa no meu assento. Disse-lhe, no tom mais baixo possível, que aquele era o meu lugar e o dela seria na décima-segunda fileira. Ela não facilitou as coisas. Perguntou "o quê?", com um ar hostil. Até se retirar, tive que argumentar e contar com o auxílio da aeromoça, para deleite dos outros passageiros e do cão, que assistiam a tudo e viram a senhora ceder irritada o lugar para aquele marmanjo-com-o-poodle. Constrangido com a situação, passei a viagem olhando para a janela. Recusei o lanche. Seria suicídio tentar comer qualquer coisa, o que fatalmente levaria o cão a latir de forma incessante e só pioraria a situação. Quando o avião aterrisou, esperei todos saírem a fim de evitar algum transtorno extra. O cão agora dormia na gaiola. O sedativo finalmente fizera o seu efeito. Quanto a mim, tomei um relaxante muscular e prometi a mim mesmo considerar, da próxima vez, o compartimento de cargas. Afinal, qual o sentido da expressão "vida de cão"? Luís Gustavo Ferreira postado por: RODOLFO TORRES 4:01 PM
|
![]() |