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Confraria dos Crônicos
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De crônica, não basta a vida! Comments: Quarta-feira, Novembro 30, 2005 Pobres e deseqüilibrados Estou à procura de um mais um livro. E se é para ser bastante honesto, devo estar à procura, nesse exato momento, de no mínimo uns cinco livros. Refazendo as contas, vejo que o número de livros pode facilmente passar de dez publicações. E não há nada a ser feito. Volto ao mais recente livro que está na minha lista de futuras aquisições, para com ele, e através dele, justificar o meu horror por festivais de cinema. Todos hão de concordar que trata-se de um argumento de autoridade violentíssimo, capaz de me absolver de mais essa característica de minha personalidade. Ingmar Bergman, em seu livro ¿A lanterna mágica¿ (creio que esse seja o título de sua biografia) diz que não gosta de festivais de cinema, que acha que os festivais de cinema são insuportáveis. Creio até que Bergman desenvolveu uma fobia aos festivais de cinema e às premiações desses festivais. Ontem, aos quarenta e quatro do segundo tempo, consegui um convite para a festa de encerramento do 38º Festival de Cinema de Brasília. Achei que haveria muita música, bebida e diversão. No mínimo uma apresentação musical ímpar, daquelas de desconcertar platéia e organização do evento. Mas ao invés disso, assistimos a um documentário paulista (que não me recordo o nome, mas que foi se tornando mais interessante à medida que o tempo passava) e fomos direto e sem rodeios à premiação. Várias figuras conhecidas do meio cinematográfico e artístico estavam presentes à entrega do Candango (destaque para a cabeleira em chamas de Cid Guerreiro), que esse ano premiou o cinema nordestino, em especial o baiano e o pernambucano. Um paraibano também ganhou alguma estatueta (eu não recordo o filme e a estatueta), mas foi graças à lei estadual Augusto dos Anjos. Mas não vou falar da minha repulsa à inteligência cinematográfica brasileira. Não vou porque admiro demais o cinema, aprecio demais essa arte tão contemporânea e ainda tão inacabada, no sentido de possibilidades e análises. Entendo que a nossa estética e a nossa produção cinematográfica está umbilicalmente ligada à falta de verba, ao improviso, à camaradagem entre os que se dispõem a fazer cinema no Brasil. A reclamação era unânime, o pedido era comum: mais verbas ao cinema brasileiro, melhores condições financeiras para produzir a nossa identidade áudio-visual, - que ainda está em gestação, e a cada filme é parida para um pequeno público, infelizmente. Cinema é miséria, é como qualquer outra atividade artística no Brasil, é uma meta de franciscanos. Ou o sujeito está conformado com a escassez material, ou então ele debanda para os holofotes mais cretinos, aqueles com o retorno garantido. Mas a premiação do Candango reservou momentos inesquecíveis. Para não me estender muito, vou citar apenas dois, ambos do grande ganhador da noite, o baiano ¿Eu me lembro¿. O primeiro se refere à premiação do ator Fernando Neves (melhor ator coadjuvante). Fernando vai receber o prêmio, agradece à equipe, ao diretor, ao produtor, e a mais quem for necessário agradecer. Logo após, confessa, com seus cabelos e barba grisalhos, e com uma cara de criança: ¿Eu estou completando 50 anos de carreira e eu nunca ganhei um prêmio¿. A sala Villa-Lobos, no Teatro Nacional em Brasília, aplaude de pé. Após a confissão, para quebrar o gelo, ele diz que esperava entrar para o livro dos recordes como o ator que jamais ganhou algum prêmio em sua carreira. Agora, infelizmente, o júri havia lhe pregado uma peça, e ele vai ter que mudar a encenação de sua peça de teatro em Salvador. Peça na qual ele brinca com essa situação. Outro momento inesquecível, e que certamente ficará marcado na premiação do festival de Brasília, foi o tombo que o diretor Edgard Navarro levou, ao descer um degrau. O sujeito foi receber o quarto, quinto ou sexto troféu na noite; iniciou uma sequência interminável (quatro ou cinco) de palavrões, pegou o cheque e a estatueta e levou um tombo horroroso. Daqueles capazes de deixar uma multidão envergonhada. Envergonhada por ele. Eu mesmo sinto vergonha pelos outros. Além de trazer as minhas célebres vergonhas, ainda tenho disposição para me envergonhar pelos outros. Estou envergonhado por Edgard. Talvez nem ele mesmo esteja. Mas eu não consigo deixar de pensar na última frase que ele disparou, antes de ir ao encontro do carpete daquele teatro. "Como somos pobres", e foi beijar o chão. E ainda tenho vergonha por ele. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 2:34 PM Comments: Segunda-feira, Novembro 28, 2005 Síndrome de cão maior "No futuro, terríveis inundações devastarão a Terra. Uma teoria de um astrônomo argentino responsabiliza a influência que a Lua exerce sobre o nosso planeta destes cataclismos. Com o objetivo de se colocar na vanguarda do mundo, o governo argentino, sem consultar as grandes potências, decide enviar uma missão ao espaço para eliminar a Lua: a missão 'Adeus, querida lua' ". Essa é a sinopse do filme argentino Adios Querida Luna, que foi exibido hoje no Ministério da Cultura, e faz parte de uma série de filmes argentinos que serão exibidos em comemoração ao Dia da Amizade Brasil-Argentina (30/11). Como sempre, não foi possível que para lá eu fosse. Além da chuva que não pára de cair em Brasília, outro fator complica o meu deslocamento: não tenho carro. O clima da capital federal é ainda mais inóspito aos pedestres. Além da baixíssima umidade relativa do ar, quando não é uma seca desgraçada, a chuva não dá trégua e o frio chega a cortar. Por aqui se diz que o brasiliense é dividido em três partes: cabeça, tronco e rodas. Com essas características climáticas, realmente não há a mínima condição de se praticar a caminhada por esses lados. Justificada a minha ausência nesse filme que fiz tanta questão de ir assistir, devo admitir que ao ler essa sinopse fiquei mais encantado com o posicionamento dos argentinos perante à vida. Sim, admiro os argentinos pelo modo como encaram o resto do planeta em geral, e o Brasil em particular. Pode parecer uma coisa menor, mas uma simples sinopse de um filme argentino pode revelar muito mais sobre os nossos vizinhos do que várias páginas ou palavras. Não conhecemos devidamente os argentinos para conseguir admirá-los. Nosso conhecimento sobre os argentinos não passa da rivalidade no futebol, coisa importantíssima é bem verdade, mas insuficiente como um todo. O brasileiro tem o complexo de vira-lata, já dizia o profético Nelson Rodrigues. Aquele sujeito simpático, que não quer confusão, e que se contenta com uma carícia barata e ligeira. Eu mesmo já ouvi de diversos patrícios, palavras orgulhosas a respeito da imagem do Brasil no estrangeiro. O que esses mesmos compatriotas diriam se soubessem que somos vistos como uma nação de conformados, de ignorantes, de preguiçosos, de selvagens libertinos, de mulheres fáceis e de homens estúpidos? A sinopse de Adios Querida Luna reflete até mesmo a conduta da política externa argentina. Ou como é possível explicar uma redução de 70% da dívida argentina com o FMI? O mundo não acabou, a Argentina não acabou, o governo argentino não acabou. Enquanto aqui no Brasil, somos dóceis vira-latas, dóceis irracionais sob ordens financeiras externas. Mas esse meu discurso é inválido, na medida em que não acredito em meu país, nem muito menos em meu povo. O meu discurso é de um revoltado, que gostaria que o Brasil interferisse diretamente na ordem mundial. Que fosse capaz de até mesmo explodir a lua, se assim a situação se fizesse necessária. Não nesse país que assim foi e sempre o será: um país-piada. Adios Querida Luna (Adeus, querida lua) (2003) Direção: Fernando Spiner Roteiro: Fernando Spiner, Sergio Bizzio, Alejandro Urdapilleta, Alejandra Flechner e Javier Diment, ao respeito da obra 'Gravedad', de Sergio Bizzio confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 5:25 PM Comments: Domingo, Novembro 27, 2005 O equívoco da bondade Não gosto de filmes de faroeste. Aliás, nunca gostei. Mesmo sabendo que esses filmes foram até dirigidos por diretores italianos, os famosos "bang-bang italianos", que devem ter feito algo revolucionário ou bem próximo disso nesse estilo de filmagem; não gosto desses filmes. Sinto uma tristeza muito profunda ao ver aquela paisagem desolada, que muito me lembra o sertão nordestino que já vi tão de perto. Deve ser mesmo isso. Os faroestes me lembram a seca e a angústia do meu povo. Contudo, o cinema, essa fabulosa fábrica de sonhos, foi fundamental para a modernidade, em se tratando de período histórico, e para os Estados Unidos, em se tratando de potência hegemônica ou império propriamente dito. Não quero aqui, nem de longe, ser um Ismail Xavier ou um antropólogo da sétima arte. Mas o cinema ajudou a construir, formar e consolidar o imaginário do planeta através das produções dos Estados Unidos, e isso é fato. Quantos diretores não renderam as mais sinceras homenagens ao cinema dos EUA? Fellini foi um. Já era considerado mestre, já era adjetivo no mundo do cinema quando prestou uma homenagem aos musicas americanos, com o filme Ginger & Fred. Se numa primeira fase o cinema dos EUA, com seus faroestes e musicais, emocionaram tanta gente; numa segunda fase, mais recente, a coisa não é tão bela assim. Não quero aqui dizer que todos os filmes dos EUA são ruins. Isso seria burrice! A produção independente dos Estados Unidos, o seu lado B ou não comercial, é fortíssima e retrata muito bem a desesperança e a angústia de diversos grupos humanos dentro dessa superpotência militar e econômica. Além dos clássicos mais recentes, muitos filmados lá mesmo. Afinal, Kubrick nasceu em Nova York. Apesar de ter se mudado para a Inglaterra... Contudo, a indústria da baboseira cinematográfica do Tio Sam rende cifras estratosféricas. E eu, que não consigo mais conceber um mundo no qual o dinheiro não seja o sustento de tudo, entendo a produção em larga escala de filmes e seriados medonhos. Pois bem. Ontem mesmo tive a oportunidade e o prazer de assistir ao segundo filme da trilogia "EUA- Terra das oportunidades". Trata-se do filme Manderlay, continuação de Dogville, ambos dirigidos pelo cineasta dinamarquês Lars Von Trier. O que há para ser dito sobre o filme? Bem, a marcação dos atores e dos cenários é a de teatro, a câmera tremula, a edição é peculiar, a fotografia é mais peculiar ainda. Heranças do movimento "Dogma 95". Quem gostou de Dogville, certamente vai gostar, apesar da atriz principal ser outra (e eu não sei se isso é intenção ou não). O que merece destaque, ao meu ver, nesses filmes de Von Trier é a ruína da ingenuidade, é a derrota do ponto de vista do personagem bom, que sempre deseja ser justo e almeja o bem de todos. O cinema ergueu-se através do maniqueísmo extremo de seus personagens. Ou eram extremamente bons, ou diabolicamente perversos. Os dois filmes dessa trilogia de Von Trier chamam a atenção pela falência da bondade humana, e, mais ainda, pelo sempre errôneo e equivocado posicionamento da personagem idealista e, na medida do possível, pura. Vale à pena assistir a esses filmes e tentar perceber que ingenuidade sempre foi uma das piores formas possíveis de burrice e cegueira. Ou até mesmo um escudo contra os próprios desejos e incapacidades. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 3:18 PM Comments: Sexta-feira, Novembro 25, 2005 Densidade Eu, que apenas naveguei em jangadas, que não enfrentei ondas ariscas e nem me perdi na vastidão das noites em alto-mar; sempre soube que algum destino reservado para mim está ligado diretamente aos oceanos. Por desprezar faróis, bóias sinalizadoras e cartas náuticas; fui me afastando de portos e rotas seguras de navegação. Encontro-me à deriva e, se Netuno e Iemanjá permitirem, vou ancorar o meu casco algumas vezes mais e lançar âncora ao mar, dessa vez com calma e com certeza. Mas o meu casco, apesar de pouco tempo de mar, anda cansado e ameaça partir-se, sem motivos maiores. Foi-se o tempo em que as águas eram apenas um límpido desafio. Temo que os baldes que possuo não sejam suficientes para retirar toda a água que teima em entrar nessa embarcação já condenada. O porto ou a praia estão muito longe das minhas mãos. Tudo é noite.Chove muito, e o vento é forte. Minhas velas estão rasgadas e o meu motor há muito só é uma carcaça de metal, sem utilidade. Não há mecânicos nem costureiros no meu barco. Não há linha, não há ferramentas. Por um momento observo os baldes dançando sobre a água gelada e salgada. Vez por outra eles batem e o som metálico desses encontros é até motivo de nostalgia. Lembram badaladas de sinos antigos, em terra firme. Lembram roupas secas e noites quentes. Acho por bem não ascender um lampião, e vou afundar no escuro, até que a minha embarcação encontre o solo de um oceano qualquer. Já penso em meus ossos cobertos de corais, e em pequenos caranguejos que farão do buracos dos meus olhos a porta para uma espécie de lar. Se o meu crânio não abrigou bons pensamentos durante todos esses anos, que abrigue peixes e cavalos marinhos. Quem sabe uma baleia possa dormir dentro dele. Ou até mesmo tubarões. Minha cintura já está molhada e eu não me animo a qualquer tipo de reação, no sentido de expulsar a água invasora. O naufrágio é lento demais e eu me recuso a ser um náufrago. Nada mais só do que um homem ao mar numa noite chuvosa. Adormeço e acordo com mais frio ainda. A água continua na minha cintura, sem esboçar qualquer tentativa de se elevar. Fico de pé, e ela agora está um pouco abaixo da metade da minha canela. Pulo uma vez. Duas vezes. O barco não ameaça afundar. Está firme. E entendo que o oceano não quer servir de túmulo para uma embarcação que já é o túmulo de um navegador que esqueceu o sol. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 6:23 PM Comments: Quinta-feira, Novembro 24, 2005 A armadura feita de erros Eu não gosto de ter opção. Fico irritado toda vez que tenho que decidir o que devo comer ou vestir, mesmo sabendo que estou cometendo um sacrilégio ao dizer isso no Brasil. Mas é verdade. Ter opção é irritante, é enfadonho. Cansa demais ter o trabalho de escolher, seja o que for. Aprecio por demais os restaurantes que não possui cardápio. As escassas opções estão grafadas na parede, com giz ou carvão. Grafadas com o vocabulário das ruas, do povo. Não naquele linguajar que só pouco mais de 30% de nossa população consegue entender. Aliás, deve existir alguma relação entre as palavras e a culinária, no sentido de não existir uma receita absolutamente rígida para os famintos de letras ou pratos. Desviei-me do assunto, como de costume. Trata-se de estilo de escrita e de enchimento de lingüiça. Só para abrir um parêntese, acabo de chegar de uma livraria muito especial nesse país: A Livraria Cultura. Quase que me descontrolo, e por um triz não comprei a obra completa de Lima Barreto. Quase eu consigo, mas uma estranha sensação de responsabilidade me tomou por completo e eu repeli àquele ímpeto consumista e literário. Talvez seja a figura de Palocci, impregnada no meu subconsciente, que me fez responsável naquele instante. Como todo humanista, sou obrigado a reconhecer que a pluralidade partidária é uma piada, o Estado democrático de direito é uma farsa, as instituições da República são podres, e tudo mais que fira com os brios de uma empresa travestida de país chamado Brasil. A briga PT x PSDB, de tão ridícula, e de tão paulista, chega a dar nos nervos. O que ocorre, na verdade, é o Estado de São Paulo, com dois partidos milionários, fazendo-se valer da sua condição de Estado mais rico da nação para dominar a política desse país. Os erros do governo FHC, que foram imensos e catastróficos, não devem servir - e não servem - para justificar os também imensos e catastróficos erros petistas. Desde quando vale a ideologia "já que ele errou, eu também posso errar". E principalmente para o PT. FHC, um carioca que se fez paulista. Lula, um pernambucano que se fez paulista. A ideologia é São Paulo. Brasília é a filial de São Paulo no centro-oeste. Tudo isso por uma questão bastante simples, e objetiva. Não é necessário encher livros, nem passar anos a fio estudando para apresentar teses de doutorado, para se perceber que quem é mais rico, domina. Eu não queria que fosse assim. Juro que não. Por mim, viveríamos ainda em árvores, comendo frutos e carne crua, sem sal. Mas quando dei por mim, já estava vivo e falando. Que os entusiastas do debate cívico se matem, tentando encontrar diferenças entre FHC e Lula. Ambos paulistas de alma. Ambos sem poder de decisão diante das nossas questões fundamentais. E, é claro, ambos coniventes com a corrupção. Isso é política. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 8:40 PM Comments: Quarta-feira, Novembro 23, 2005 O profeta pateta Ano passado, quando estava visitando Brasília, aproveitei para entrevistar o jornalista Ricardo Noblat. Noblat, experiente jornalista político, chefe de redação do Correio Brasiliense durante 8 anos, trilhava um caminho até então pouquíssimo explorado pelos profissionais da imprensa brasileira: o blog. Tido como "coisa de adolescente", e já despontando nos Estados Unidos como uma poderosa fonte de informação, o blog por essas bandas ainda era visto com desdém. Era sumariamente menosprezado pelos homens sérios. Era! Hoje, o blog é uma ferramenta tão presente na vida dos profissionais da imprensa que é raro o jornalista que não o possui. Democratização da comunicação? Sei lá! Pode até ser. E diante de tanta variedade, fica até difícil para o leitor escolher qual dessas páginas pessoais deve ser acessada para obter a tão deseja informação rápida e confiável. Além do Noblat (atualmente hospedado no site do Estado de São Paulo), só para citar mais dois, temos o blog de Fernando Rodrigues e Josias de Souza, ambos jornalistas da Folha de S. Paulo. Acho estranho como num espaço de apenas um ano, tanto coisa se modificou. Naquela época, para dar um ar de passado distante, Lula era imbatível. Não existia nenhum nome da oposição que fosse capaz de derrotá-lo nas eleições de 2006. Hoje, a coisa não está tão fácil para o atual presidente. Na última pesquisa de intenção de votos, Lula seria derrotado pelo tucano José Serra no segundo turno. Bem, eu ainda acho que se existir realmente uma vontade verdadeira, Lula não conclui o mandato. Mas o que é a minha opinião? Contudo, a minha opinião não é lá tão errônea assim. Tudo bem, não sou nenhum profeta ou profundo analista do quadro político nacional. Mas creio que existe algum "quê" de "Mãe Diná" em algumas das minhas colocações. Ao menos foi o que sugeriu um primo meu. Devo admitir que ele provavelmente estava querendo me animar, mostrando que uma simples pergunta minha tinha características de presságio. Resolvi acatar a sugestão dele e transcrevo agora uma pergunta que fiz ao Jornalista Ricardo Noblat, numa entrevista realizada no Lago Sul em Brasília, na qual Noblat discorda da minha análise rasa. Rodolfo Torres - Não sei se concorda com o meu ponto de vista, mas acredito que existe uma diferença muito grande entre o governo e a figura do Lula. Parece que para o grande público, os principais assessores do Lula, José Dirceu, Antônio Palocci atraem a antipatia e isolam a figura do presidente de qualquer responsabilidade. Você concorda? Não concordo. Acho que o Lula é melhor avaliado do que o seu governo, mas isso não é um fenômeno típico do Lula. Vi isso em Angola. Quando cheguei lá, em 1991, o país estava em guerra desde o início da década de 60, quando os angolanos se rebelaram contra o poder colonial português. No final de 1975, os portugueses foram embora e Angola ficou independente mas os angolanos ficaram brigando entre eles mesmos para ver quem chegava ao poder. Em 1991, a gente aplicou a primeira pesquisa de opinião pública que tem registro na história de Angola e mostrava que, embora o presidente da República fosse o responsável pelo governo e o presidente do partido único, o MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), as pessoas distinguiam entre o presidente, o governo e o partido. Na verdade, era a "santíssima trindade", uma pessoa em três. É natural que o capital político do Lula seja maior do que o capital político do PT. O Lula é um líder carismático que tentou chegar à presidência da República três vezes e chegou na quarta. As pessoas são muito mais condescendentes na avaliação dele do que na avaliação do governo deleou de figuras específicas do governo. Acho que o Lula é tão culpado quanto o PT, e os seus principais nomes, em relação a tudo o que está acontecendo. Não tem nada de ingênuo nisso, ele não está isento, pelo menos na minha avaliação. Entrevista realizada em Brasília, no dia 17/11/2004 Para ler a entrevista na íntegra: http://carosamigos.terra.com.br/do_site/sonosite/entrev_dez04_ricardonoblat.asp confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 6:09 PM Comments: Terça-feira, Novembro 22, 2005 Ma misère Je ne contrôle pas le vent. Pour dire la vérité, je contrôle seulement la stupide euphorie de son corps. La recette du contrôle du corps féminam est trés simple. Premièrement, le mépris pour sa beauté. La beauté sous les vêtements et le rouge. C'est important oublier le goût des baisers et le plaiser des carêsses. Couvrir le coeur avec glace. Empêcher le cours des sentiments. Et touffer toutes les possibilites de croissance de l'amour. Je ne contrôle pas las nuages. Por dire la vérité, je contrôle sa grotesque soif de l'attouchement . Mais, je ne contrôle pas ma tristesse. C'est ma misère, pour dire la vérité. postado por: RODOLFO TORRES 6:48 PM Comments: Brasileiro sábio é apático Se existe uma função comum para qualquer governo, ei-la: ganhar tempo. Ora, nada mais interessa a um governo do que ganhar tempo. Com o tempo em mãos, ganha-se o resto. Arrecada-se mais, especula-se mais, sobrevive-se mais. Qualquer governante sabe que a ganhada do tempo é essencial para a sobrevivência na política. E assim, sempre ganhando tempo, já que as urgências do Estado não são lá tão urgentes assim para quem o governa; governa-se. E se ganhar tempo é tão fundamental assim, o que dizer de uma situação na qual não existe a pressão devida para o esclarecimento de fatos estarrecedores? Ganha-se tempo por ganhar, para adiar o que na verdade não será devidamente explicado, nem rigorosamente exigido por quem quer que seja. Estamos vivenciando uma situação que certamente entrará para a história, no sentido de não existir uma cobrança, mínima que seja, por parte da sociedade civil - principal interessada no esclarecimento dos casos de corrupção que explodem aos nossos olhos. O espetáculo dos holofotes em políticos do atual governo causa tanto tédio aos populares que consigo até imaginar a frustração dos senhores da notícia nas reuniões de pauta dos grandes veículos de comunicação. O que deve ser feito para despertar o espírito de indignação nessas pessoas, que enxergam no presidente da República um dos seus? Não há nada a ser feito, senhores. Nada! A imprensa gerou o mito Lula, e agora não consegue mais desvencilhar a imagem de homem lutador que elegeu o atual presidente. Palocci depõe agora na Câmara. Ele é a prova cabal que nesse governo, e nesse país, preparo para o cargo é o que menos importa. Médico sanitarista comanda os rumos da economia de um país doente, com as maiores taxas de juros do planeta. Gostaria de dizer que pela primeira vez na história desse país, frase tão utilizada pelo presidente Lula, o governo asfixia uma crise colossal com as duas mãos, sem fazer força para conter revoltas e manifestações. Sábio povo brasileiro. Reconhece sua impotência, e ainda é feliz aos domingos. Jamais lutará pelo perdido, pela política, por si. E ainda ostenta um sorriso que intriga a tantos abastados mundo afora. Não prego aqui rebeliões cívicas. Longe de mim tal disparate. Prego a comodidade, a conformidade. Em última análise, a apatia. Afinal, a praia da nossa condição de brasileiros está aí para ser nadada. E eu é que não vou morrer nela. Por isso me afastei do litoral e vim ao cerrado. Para acompanhar de perto esse teatro de péssima qualidade que é a nossa política. E tento dizer aos outros que devemos nos resignar, como bons filhos da inércia. Numa sub-cidadania voluntária. Somos isso, e muito menos. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 12:46 PM Comments: Quinta-feira, Novembro 17, 2005 Racionais Fato interessante, e por que não dizer "trágico, se não cômico", foi o jogo de futebol de ontem: São Caetano x Corinthians. Jogo este entre o atual líder do campeonato, como visitante, e o dono do campo lutando para fugir do rebaixamento. Em qualquer probabilidade futebolística, de dez entre dez torcedores tradicionais, existiria a concordância dos simpatizantes do time dono da casa de lotar o estádio com as cores do time do coração e vê-lo fazer o improvável: triunfar sobre o melhor time do Brasil da atualidade. O resultado era, ao contrário do que muitos podem argumentar, essencial às pretensões do São Caetano de permanência na elite do nosso futebol. Mas, pasmem, não foi isso que aconteceu. Os torcedores do São Caetano simplesmente não apareceram. Minto. Existia um grupo de quinze deles, espremidos dentro de seu próprio estádio. Até pela proximidade entre as duas cidades (quem conhece sabe que na verdade não existe mais limite, é uma cidade só), os torcedores da equipe visitante lotaram as arquibancadas. Esgotaram os milhares de ingressos que lhes eram destinados, e passaram a comprar os ingressos da torcida adversária. Não vou me deter à análise futebolística, em respeito ao público feminino da confraria. Permitam-me apenas comentar o resultado: O azarão azulão ganhou: São Caetano 1 a 0. Tudo improvável neste jogo. Desde o resultado até o desenho das torcidas. Em um país onde o futebol é mania, qualquer outro tem teria o estádio tomado pelos seus torcedores, como por exemplo, o Paysandu, de Belém, que será rebaixado com seu estádio praticamente lotado de torcedores seus em todos os seus jogos em casa. Da mesma cidade, o Remo, da terceira divisão tem a maior média de público do país, incluindo os times da primeira e segunda divisão. Em São Caetano é diferente, se o time está no topo: estádio tomado de azul. Se o time está mal das pernas no campeonato: estádio sem azul, liberado para a torcida adversária. Os torcedores, racionais e cientes da tensão que é ver seu time do coração perder (grande chance), solta a equipe aos leões. Abandono premeditado. Divórcio radical. A torcida deu um tempo na sua relação com o time, que por enquanto não merece o prestígio de sua presença. O time se comportou mal e a torcida ficou com raiva, ficou de mal. Existe, contudo, uma particularidade. O time é relativamente novo. É um time de uma cidade, onde existem muitos torcedores de times de São Paulo, até pela proximidade. É, com certeza, o segundo time do coração de muitos dos seus torcedores, ou então dividem espaço com outras equipes mais tradicionais. Que seja, mas achei super interressante. Existe lugar para o racional na maior paixão dos brasileiros. Já pensou se a moda pegasse, o que ia ter de time jogando com o seu estádio vazio ... Do aditor GustavoGT Natal 17/11/05 postado por: RODOLFO TORRES 9:51 AM Comments: Quarta-feira, Novembro 16, 2005 Os guardinhas A conduta de quem se presta a confrontar um outro alguém deve seguir algumas normas, digamos, bastante conhecidas e utilizadas por aqueles que passam a se dedicar a essa tal conduta humana. Vou citar um exemplo bastante rasteiro, bastante miúdo, mas que pode, sem dúvida alguma, ilustrar o caso. Imagine que você está dirigindo o seu automóvel, que porventura se encontra com o documento vencido. Um mero descuido e a data do vencimento passou, e você consequentemente está irregular. Uma fiscalização da polícia rodoviária lhe pára, pede os seus documentos e o guardinha constata que sua documentação encontra-se atrasada. Inicia-se nesse instante uma clássica interpretação, um jogo de cena, no qual a conduta de ambos os lados é fundamental para que ocorra o que todos desejam: o mínimo de problemas. O guardinha diz que infelizmente o proprietário do carro não pode seguir guiando o seu automóvel, devido à irregularidade em que o veículo se encontra. O condutor por sua vez se diz vítima da correria e do esquecimento, dessas vicissitudes da vida moderna que provocam amnésias embaraçosas (principalmente quando o assunto em questão é o pagamento de contas). Conversa vai, conversa vem... Dependendo da posse do condutor do veículo em estado irregular, é chamado mais um outro guardinha. Esse não será tão solícito e simpático para com o motorista quanto foi o primeiro. Ele será irritado, áspero, com um tom de voz nada amistoso. Dirá que o carro deve ser guinchado ou apreendido. O motorista entrará em desespero e vai propor alguma solução menos drástica para o caso. Será capaz de abrir a carteira e meter a mão em todas as cédulas que ali estejam, só para se ver livre daquela situação constrangedora; e da multa que também será desagradável. Feito o jogo de cena dos guardinhas para com os motoristas desatentos, todos saem satisfeitos. Mas esse princípio permanece imutável para quem deseja confrontar um outro alguém. Deve haver o lado simpático, compreensivo; e o lado agressivo, tirano, feroz. Desde pequenas extorsões de trânsito até altas negociações diplomáticas, esse princípio serve como um guia eterno. Para falar em política, mais especificamente sobre o depoimento do ministro Palocci no Senado, uma coisa é válida ressaltar. Qualquer governo, por melhor que seja (não é esse o caso de qualquer um dos governos brasileiros), é sempre o motorista irregular. A recente oposição brasileira, liderada pelo PT, até o governo passado sempre fez o papel do guardinha afetado e arisco (jogo de cena, tudo bem!). Pela primeira vez, temos o guardinha compreensivo na oposição brasileira, que é o tão sereno e angelical PSDB. Por sua vez, o PFL, partido de cavalões e coronéis, de gente que não está nem um pouco interessada em algumas convenções e cláusulas humanitárias, faz o papel daquele guardinha nervosinho e irritadiço. O eterno papel da oposição nacional. Pelo bem do equilíbrio, essa atual oposição tende a se dar melhor do que a antiga. Afinal, nesse jogo de cena público, e agora televisionado incessantemente, que não passa de negociações nefastas e imorais, sábio é aquele que consegue ampliar o seu leque de ataque com mais de um tipo de postura e discurso. Algo do tipo, bater e alisar. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 6:54 PM Comments: A ferramenta que dominou o mundo Toda criança tem sonhos difíceis de concretizar. Até uma certa idade, em que a fantasia serve de escudo contra o pragmatismo dos adultos, o limite dos nossos desejos é a imaginação. Lembro de forma clara como, durante algum tempo, sonhava em ser astronauta, sonho recorrente de muitos meninos nos idos da década de 80, antes da Challenger virar uma bola de fogo e derreter essa idéia. Outra das minhas idéias bizarras, um desejo cristalino embora não-declarado, era o seguinte: se de uma hora para outra, me encontrasse rico (meu pai participava de um bolão semanal da Loto, o que abria essa possibilidade, ainda que remota), uma das minhas prioridades seria a contratação de um serviçal de "uso pessoal". Não seria um serviçal comum, esqueçam os trabalhos domésticos. Eu não era uma criança preguiçosa. Na verdade, acho que serviçal nem é um termo adequado, pelo que a palavra sugere. A função desse empregado seria apenas uma: a qualquer dúvida que eu tivesse ¿ por que Hitler invadiu a Polônia? Como as pirâmides do Egito foram construídas? Por que o apelido de Zico é Zico? - qualquer dúvida, por mais exótica ou irrelevante que parecesse, deveria ser esclarecida. Ela teria que se virar: ir aos alfarrábios, consultar os almanaques, pesquisar, etc. É lógico que eu mesmo poderia fazer isso, mas as dúvidas eram muitas e o tempo escasso pois era preciso compatibilizar com outras atividades mais nobres, tais como: jogar bola, andar de bicicleta e, claro, passar todas as fases daquele cartucho novo do Atari. Os anos passaram, a Informática evoluiu num ritmo alucinante e aterrissamos no mundo dominado pelos PCs, pela Microsoft e finalmente, pela grande sacada do século XXI, o google (na verdade, ele existe há 7 anos). Atualmente, muita gente não concebe a vida sem Internet. Eu iria um pouco além, diria que a vida sem o google é inconcebível. Fosse minha imaginação realmente pródiga, quando eu tinha os 10 anos do parágrafo acima, em vez do serviçal que nunca virou realidade, teria sonhado com um programa de computador que pudesse esclarecer qualquer dúvida num átimo de segundo. E isso, o google faz com um pé nas costas. Está escrevendo uma crônica e bateu uma dúvida do nome do ônibus espacial que explodiu em 1986? É só digitar "ônibus espacial explodiu" e a resposta aparece límpida. Tenho dó dos vendedor de enciclopédia, se é que eles ainda existem. No Brasil, o google é acessado por 18 milhões de felizardos todos os meses. Não é a toa que ao abrir o capital em 2004, a empresa que controla o site já atinge cifras superiores a 100 bilhões de reais, superando, por exemplo, a Coca-cola. Com a tarefa de organizar a informação do mundo, tornando-a acessível a qualquer usuário da Internet, o google (e seus congêneres) conseguiu realizar um dos meus sonhos de infância. E hoje ajuda a tirar do limbo as dúvidas mais cruéis. A propósito, o apelido Zico foi dado ao galinho de Quintino pela sua prima Linda, que o chamava de Artuzico, pelo seu porte franzino. Com o tempo, ficou apenas Zico. Assim diz o google. Luís Gustavo Ferreira postado por: RODOLFO TORRES 1:16 PM Comments: Domingo, Novembro 13, 2005 Shakespeare, aquele que sabia de tudo Todo texto literário é um mosaico de citações e este não será diferente. Ontem assisti a uma montagem local de uma das mais famosas e também sombrias peças de Shakespeare ¿ Macbeth. Escrita no início do século XVII, retrata a atmosfera asfixiante da luta pelo poder e principalmente da sua manutenção a qualquer custo. É baseada em fatos verídicos e reforça a sensação de que a história é um eterno jogo que se repete a cada geração. Na peça, Lady Macbeth, uma das mais famosas vilãs da literatura mundial, convence seu marido a matar de forma torpe o rei Duncan, da Escócia e assim assumir sua posição. Essa luta pelo poder, que tem origem em tempos imemoriais, traz outra de suas cenas mais célebres também retratadas na dramaturgia impecável de Shakespeare, quando Julio César, chegando ao senado romano, recebe uma série de punhaladas de um grupo de conspiradores e nas vascas da agonia, consegue identificar um de seus algozes e crava o desgastado "até tu, Brutus?". Voando no tempo e no espaço, chegamos ao país onde um presidente pego com as calças nas mãos e seus asseclas descobertos com as mãos na cumbuca, agoniza de forma lenta numa morte política que se avizinha. Agora vivemos em tempos democráticos, assim dizem, e as regras do jogo são ligeiramente diferentes. Em lugar de punhais e espadas, são as palavras que podem derrubar o líder. Palavras escritas pela imprensa, mesmo que o interesse dessa seja apenas o de aumentar a tiragem e lucrar mais, palavras que reverberam na voz rouca do povo, felizmente um pouco mais esclarecido do que em tempos recentes, e finalmente, palavras que servem de alimento para o bico longo da oposição, sedenta em recuperar o poder e ocupar o lugar daquele que "não sabia de nada". Se o curso da história seguir seu rumo sinuoso, porém previsível, após a próxima eleição, teremos um personagem derrotado e amargurado, dizendo adeus a suas tão prezadas viagens ao redor do mundo, sempre amparadas por pressurosos tradutores. No auge da melancolia e do ostracismo, ele lembrará dos anos antes do poder, quando construíra uma biografia enaltecida por todos, lustrada pela origem humilde e por uma presumida pureza de valores. Tinha uma aura quase mística. Entre um gole e outro de sua bebida predileta, poderia franzir a testa e parafrasear Macbeth, brandindo sabiamente que "a vida é uma história narrada por um idiota, cheia de sons e de fúria, significando nada". Mas como sabemos, trata-se de personagem de cultura rasa, cujas metáforas se limitam ao mundo do futebol. O mais provável é que ele, já com a voz embaralhada pelo álcool, apenas insista na tese de que foi derrubado pelas elites, que ele governava para os pobres, que ninguém tem mais autoridade ética do que ele, e outras parvoíces. Luís Gustavo Ferreira postado por: RODOLFO TORRES 2:39 PM Comments: Quarta-feira, Novembro 09, 2005 Maniqueísmo pendular O tom da campanha eleitoral da oposição foi dado pela propaganda do PSDB. "Lula no governo, decepção no Brasil". Com esse slogan, a oposição vai martelar o juízo de um eleitorado confuso e que ainda aguarda (por mais fantasioso que pareça) a vinda de um salvador. Papel de oposição é mais fácil, como já declararam alguns membros do atual governo, num passado nem tão remoto assim. Quem está no poder deve ter, no mínimo, paciência e serenidade para escutar as críticas que sempre aparecem e que sempre aparecerão. Esse não é um dos pontos fortes do atual governo. Aliás, governo nenhum gosta de ouvir críticas. Mas o atual já é um pouco demais da conta. Por sua vez, o governo deve jogar com esse resquício de fé dos brasileiros (principalmente os mais humildes). O discurso a ser adotado em 2006 pelo PT deve ser algo do tipo "Nos dêem mais 4 anos de governo para que as mudanças possam ser realmente sentidas e aprofundadas". Que mudanças são essas? Bem, pergunte ao governo; não para mim. O fato é que, mais uma vez, a presidência da República ficará nas mãos dos paulistas. Estado mais rico da federação, é mais do que natural que assim seja. A briga PT X PSDB é vazia em diversos aspectos, e, diferente do que era no passado, esse esvaziamento ideológico e de conduta de governo está mais evidente hoje com o PT no governo. Contudo, o clássico maniqueísmo que sempre guiou as campanhas políticas no Brasil está enfraquecido. A sensação de que todos são "farinha do mesmo saco" é acentuada. Não há mais virgens na política brasileira e isso cobrará do eleitor uma postura mais racional para esse processo de sucessão presidencial. Que a política brasileira é um exercício de mesquinharia, disso todos nós já sabemos. E, mais uma vez, a mesquinharia da eleição brasileira fará com que Brasília pegue fogo. O ritmo da campanha eleitoral já foi dado. Resta saber com que paciência suportaremos essa discussão asquerosa entre corruptos declarados. Postura racional numa eleição entre políticos profissionais é anular o voto. O resto é conivência com essa nossa miserável condição de impotência generalizada. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 5:05 PM Comments: Terça-feira, Novembro 08, 2005 Lá vem o Lula, Lula, Lula... Todos atentos, chorando pra TV. Além das especulações sobre que tipo de bebida o presidente Lula ingeriu antes, e durante, a entrevista do programa Roda Viva da TV Cultura, outra questão me tomou alguns minutos de reflexão improdutiva: as olheiras de Heródoto Barbeiro. O jornalista foi, na minha opinião, o entrevistador responsável pelos melhores momentos da entrevista de ontem. Ao lado de Augusto Nunes, Heródoto peitou o presidente e colocou o dedo em algumas feridas inexplicáveis do governo e do Partido dos Trabalhadores. Não vi a entrevista toda, nem muito menos ouvi, porque estava em uma reunião no apartamento de um amigo. Ele estava preparando um risoto e de vem em quando enchia a minha taça de vinho. Outro fator que contribuiu para a minha dispersão era uma conversa de esposas ao lado da TV. Impraticável querer ouvir alguma coisa quando três mulheres se reúnem ao seu lado, e fazem questão de conversar e rir num volume estritamente feminino. Ao meu lado, dois amigos que de vez em quando se irritavam com algumas perguntas, digamos, brandas demais. Até pensei em fazer uma simples explanação sobre a estrutura de entrevistas coletivas com autoridades, mas desisti. Estava querendo ouvir o presidente, e confesso que algumas de suas respostas foram responsáveis por boas risadas. A minha fé na humanidade se perdeu um pouquinho mais. Dessa vez, entretanto, com alguma dose de humor. Dos mais baratos, é verdade. Mas se é para se desiludir ainda mais, ao menos que isso seja feito com risos. Numa entrevista na qual participam diversos entrevistadores, é fundamental que nem todos batam de frente com o entrevistado. Ainda mais quando o entrevistado é um presidente da República escorregadio e com um sorriso que derrete algumas iras inseguras de opositores novatos. Fez bem o Matinas Suzuki perguntar sobre o título do Corinthians. Fez bem o Rodolfo Konder levantar a bola para que Lula falasse da sua política externa e do papel do Brasil na intermediação de conflitos entre Estados Unidos e Venezuela. Todos os entrevistadores, de certa forma, se saíram bem. Cada qual em sua função dentro de uma entrevista histórica. Só não entendo como é que nenhum deles, ao menos que eu tenha visto, sorriu diante de respostas curiosas. Por exemplo, quando o presidente se declarou como um "homem de centro" durante toda a sua trajetória. Ou quando disse ter certeza de que o mensalão não existiu. Senso de humor sempre foi fundamental. Ironia também. Contudo, como a nossa ironia não é tão fina quanto a dos ingleses, por que não gargalhar diante de respostas dessas? Ou ao menos, colocar aquele áudio de uma platéia achando graça, como se utiliza em seriados de comédia. Seria mais fácil de engolir tais respostas. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 6:53 PM Comments: Segunda-feira, Novembro 07, 2005 Precisa-se de sujeito espirituoso. Salário a inventar! Já que todo mundo está falando sobre a entrevista, realizada hoje em Brasília, do presidente Lula ao programa Roda Viva da TV Cultura; eu me reservo ao direito de ficar de fora. Fico de fora, mas é claro que vou assistir às respostas presidenciais com uma intensa expectativa. Até porque Lula disse (ao menos foi o que eu li em alguns jornais) que não acredita no mensalão. Ah, homem de pouca de fé. Nem lembro mais o que aconteceu à pessoa que ouviu essas palavras do Cristo. Deve ter sido eleita para algum cargo público na Galiléia. E como o Brasil é um Estado que permite a liberdade de culto, e a de não-culto (afinal, cultura por aqui é um tema complexo por e para a excelência), há por aqui quem não acredite no mensalão. Até mesmo para que o seu seja retirado de uma reta pela qual deveria passar um rolo compressor exemplarmente punitivo. Fico remoendo e remoendo as idéias, buscando algum assunto mais urgente e de repente me surge a intenção de copiar um trecho das "Ilusões perdidas" de Balzac. Livro que fala só um pouquinho mal da atividade jornalística. Mas seria uma covardia colocar uma citação extensa (e bela) para conseguir preencher essa maldita folha em branco que, em dias de tédio, mais parece o inferno para aquele que se propõe a jogar por aqui as suas letrinhas sem valor. Não vou mais buscar outro assunto porque o de hoje é mesmo a entrevista do presidente da República. A Ordem dos Advogados do Brasil desistiu de querer retirar Lula do seu cargo. Por sua vez, o senador do PFL de São Paulo, Romeu Tuma, também disse que não existem elementos para que Lula caia fora da cadeira primeira do país. Até Fernando Collor se declarou eleitor de Lula e contra a demissão do barbudo. Não há mais o que ser dito. "Mensalão? Caixa 2? O que é isso? Nunca ouvi falar!". Brincadeira... Quando a nossa imprensa ainda produzia filósofos, e não essa demência padronizada e árida que vemos hoje em dia, as frases fluíam como penas de galinha sobre as águas turvas dos rios rasos. Aliás, nem frasistas mais somos capazes de produzir. Sérgio Porto, jornalista e cronista (eu sinceramente não vejo diferença entre as duas atividades, mas...), flamenguista, mais conhecido como Stanislaw Ponte Preta, teceu o seguinte comentário: "No Brasil, as coisas acontecem, mas depois, com um simples desmentido, deixam de acontecer". As redações de todo o país precisam de frasistas ( e não de facistas - Perdoem o trocadilho sem graça, mas não resisti). Quem sabe a nossa imprensa saia dessa latrina dos textos burocráticos na qual fez questão de se meter. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 5:32 PM Comments: Sem novidades Minha rotina não foi alterada em nada com a visita do presidente Bush a Brasília. Trafeguei pelos mesmos pontos, sem ser interrompido. Segui os meus trajetos da mesma forma. Apenas sabia que um visitante ilustre e indesejado por aqui estava. Até ouvi falar que o espaço aéreo de Brasília seria interditado. Mas ontem mesmo olhei para o céu, num fim de tarde nublado, e vi um teço-teco voando preguiçoso pelos ares da capital. Alguém poderia dizer que se tratava de um suicida, com um desejo de ser abatido por aviões de guerra, munidos de mísseis apocalípticos. Mas o seu vôo era tão sossegado que até me deu uma certa inveja daquele piloto vadio. Apesar do meu pânico de altura, fui um invejoso. Nada trago de relevante para quem quer que seja. Não vi absolutamente nada que possa acrescentar informações necessárias aos curiosos, pela visita de um dos homens mais odiados do planeta à capital brasileira. No plano pessoal, meu braço esquerdo dói como nunca. Principalmente quando acordo no meio da noite. Deve ser o coração, que não anda lá muito bem. Antes temia mais pela sorte dos meus batimentos. Hoje, já considero uma tal possibilidade com um certo carinho, e com uma certa ternura. Se esse coração parar, que pare aos poucos e definitivamente. Já bateu o quanto deveria. Soube de protestos e manifestações. São todos legítimos. É direito de qualquer um se revoltar contra qualquer coisa, e sair às ruas para externar a insatisfação. Foi feito. Agora passou, e ainda todos somos tristes. Não mais me encanta a indignação. Ao contrário, concedo-lhe o mesmo repúdio que antes concedi à apatia. Afinal, se a minha paz vem do desgaste e da fadiga - que se solidificam diariamente em mim - não posso condenar os ingredientes desse equilíbrio interior. Outros certamente condenarão. Mas o que são os outros senão um convite permanente à solidão? Quantos batimentos estúpidos e acelerados foram produzidos por minhas revoltas ingênuas. Nunca mais quero crer em indignações sensatas, mas apenas numa apatia necessária. Indispensável para o pulsar harmônico dessa bomba chantagista. Sei que preciso estar vivo para desacreditar no outro. Sim, é preciso estar vivo para sentir-se morto. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 1:11 AM Comments: Quinta-feira, Novembro 03, 2005 Imprensa em primeira pessoa Quando eu soube que Jaguar - jornalista, cartunista, cronista e apreciador notório dos bares e das bebidas - está morando em Brasília, pensei prontamente em entrevistá-lo. Sim, seria uma entrevista regada a vários chopinhos e tira-gostos tradicionais, como bolinhos de bacalhau e empadinhas gordurosas. Minha primeira providência já foi tomada: escalei um grupo de amigos, que também apreciam um boteco, para tal atividade árdua. Entretanto, ainda não consegui um mísero contato (telefone, endereço, correio eletrônico, etc) com o Jaguar, mas prometo que vou seguir em frente nessa empreitada. Além de questioná-lo sobre a sua consagrada atividade jornalística, e sobre as suas análises a respeito da imprensa brasileira atual, iria também tirar um monte de dúvidas profissionais com ele. Não seria apenas uma entrevista. Seria um curso de pós-graduação, principalmente em termos de linguagem jornalística. As faculdades de jornalismo ensinam que o texto deve ser impessoal. Na verdade, só ensinam isso. Eu mesmo tive um professor que dizia que repórter não pode ter opinião em hipótese alguma. E como sou veementemente contra essa teoria, gostaria de saber desse mestre do jornalismo brasileiro qual é o seu posicionamento sobre tal assunto. A primeira pessoa deve existir, ou não, nos textos jornalísticos? Eu sou partidário da seguinte teoria: se a vida é em primeira pessoa, por que o jornalismo não pode sê-lo? Eu já tirei, há muito tempo, a terceira pessoa do altar em que ela se encontra, intocável, nas grandes redações. Gosto de usar o "eu", gosto de conjugar verbos no infinitivo da primeira pessoa em meus textos. E espero que esses manuais de redação dos grandes jornais só sirvam de calço para estantes em falso. Uma coisa me assusta em Brasília. O fato de não existir por aqui uma publicação mais ácida, feita por jovens jornalistas subempregados ou desempregados mesmo, e que demonstrasse o verdadeiro processo de desilusão política pelo qual passa esse país. Não sei se o meu entrevistado teria uma resposta para tal questionamento. Provavelmente, ele diria que foi uma feliz coincidência a reunião de profissionais tão talentosos para formarem o Pasquim - semanário impresso fundado também por Jaguar e que nasceu numa época adversa em todos os sentidos. Talvez por ter vivido em primeira pessoa, o Pasquim revolucionou a forma de se fazer jornalismo nessa pátria. Talvez, por usar uma linguagem de "parede de mictório", como certa vez escreveu Nelson Rodrigues num bilhete público a Ferreira Gullar. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 5:12 PM Comments: Terça-feira, Novembro 01, 2005 O paralítico, o pecador A escola de francês permaneceu fechada durante toda a manhã de hoje. Um café sempre ajuda a se sentir desperto. Enquanto passo a vista num quadro com as estátuas de Paris, sopro naquele copo de plástico que fervia em minha mão, e o pessoal da limpeza faz o seu serviço rotineiro de deixar aquele chão um pouco menos encardido. Um aluno um pouco atarefado demais para comparecer freqüentemente às aulas, resolveu dar o ar de sua graça. E lá fomos para comprar um pouco mais de café. Havia uma pequena dúvida: teria a aula sido remarcada para a segunda-feira? Bem, quando o professor me ligou, eu estava numa festa de aniversário. Assava carne com queijos e batatas na cozinha do apartamento de um amigo do meu primo. Posso jurar que ele me disse que a aula seria mesmo na terça. Fiquei feliz por não ter que acordar tão cedo no próximo dia e bebi como se não existisse o amanhã. Conversei com o meu colega de turma durante quase uma hora. Falamos mal de muitas coisas, mas também elogiamos algumas outras. Falamos bem, por exemplo, da beleza da paisagem francesa e dos navios luxuosos que abrigam cassinos em seu interior. O colega até tentou me ensinar um jogo de cartas chamado 21. Fiz uma cara de compreensão e ele certamente achou que me ensinou algo. Mas sem problemas... Talvez o moço viaje nos próximos dias para o México e depois para Las Vegas. Recebeu um convite de um amigo e pretende permanecer nessas localidades por apenas 10 dias. Em fevereiro próximo, a sua viagem para os Alpes franceses está ameaçada. O amigo que iria acompanhar-lhe, subitamente desistiu da empreitada. Ele me falava de suas viagens com uma naturalidade tão grande que não tive outra escolha a não ser lhe desejar uma boa viagem na próxima partida. Mas a conversa não girou apenas em torno de assuntos agradáveis. O meu colega dizia que o povo brasileiro é muito manso, muito pacato. Que se essa corrupção deslavada fosse num outro lugar, a Esplanada dos Ministérios já estaria ocupada e o Congresso Nacional, quebrado. Tentei argumentar que na nossa idade, os espasmos de rebeldia ingênua já não eram mais permitidos. A idade condena a pureza de sentimentos. Só os adolescentes e os cínicos dizem que existe possibilidade de mudança pela mobilização popular. Em resumo, declarei-me um impotente conformado. E que também estava confortável com essa condição. Ele não desistiu e disse que se todos pensarem como eu, as coisas não vão para frente. Agora mesmo procuro uma penitência pelo fato do meu pensar ser o motivo da nossa paralisia. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 6:36 PM
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