Confraria dos Crônicos

De crônica, não basta a vida!



Comments: Segunda-feira, Outubro 31, 2005

Um sinal de partida

Um pequeno sinal localizado no meu bíceps esquerdo virou, de repente, uma casca de ferida e caiu. Aquela pequena mancha escura, que me acompanhou por vinte e cinco anos, foi expulsa de minha pele por alguma reação do meu estranho organismo. Mas como a minha pele é burra...
Logo esse sinal, do qual eu tanto gostava, e que serviu de consolo visual durante tantas aulas enfadonhas da minha infância. Foi-se pra sempre, e deixou uma marca clara e rósea de ferida cicatrizada. A nova mancha em minha pele é triste e um pouco mais larga do que o antigo sinal. Na minha vaidade para com os meus músculos, o sinal era uma espécie de tatuagem de nascença que exaltava esse braço que tanto gosto, e que não me obedece em algumas diversas situações.
Não fiz nenhuma pesquisa sobre o assunto, aliás, não sou de pesquisar nada. Mas sei que para uma grande parte das pessoas, a perda de um sinal na pele é um fato que mereceria uma certa tristeza, e também alguns momentos de melancolia.
Discordo dos que poderiam dizer que essa ausência em nada influi em minha vida. Não posso admitir um mundo prático que exclui uma dor inútil, como é a dor da perda de um pequeno sinal no braço esquerdo.
A minha pele já foi túmulo de tantas coisas. Já enterrei nela um monte de saudade de tantos e privei-a de ser irrigada pela enxurrada de minhas lágrimas. Quantos abraços que ela ainda guarda intactos e quantas carícias das quais ela ainda é reclamante.
Um resto de vida a se cumprir sem aquele sinal é certamente um resto de vida ainda mais incompleto. Uma cicatriz a mais condenará essa pele fina e feia a uma necessária cremação.
Esse pequeno caminho que percorremos, e que costumamos denominar de vida, talvez possa ser definido como um acúmulo contínuo de cicatrizes e marcas. No corpo, na pele; no resto, na alma.
Algo me diz que eu não era boa hospedaria para aquele sinal. E ele também se foi, também se desgrudou e partiu para morrer longe de mim. E eu também fiquei desolado por mais essa perda. E, como toda despedida, também me deixou uma marca. Na pele e na alma.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 7:25 PM


Comments: Sábado, Outubro 29, 2005

Eu quero melão

Estive uma vez no Rio Grande Norte. Fiz os passeios óbvios: bugre para o norte, bugre para o sul rumo à Pipa, e van para Maracajaú e Punaú. De Natal mesmo, conheci pouca coisa, já que fiquei apenas quatro noites. Apesar de ter visitado alguns dos locais mais paradisíacos daquela parte do nosso litoral, e não ter adentrado no interior do Estado potiguar, é exatamente sobre uma particularidade desse interior que me atreverei a falar. (não sem uma ponta de receio pelos olhos atentos dos que freqüentam essa página).
Gostei das praias e dunas por onde passei. Mas elas passaram e estão apenas numa pasta empoeirada do meu cérebro desfragmentado, que nomeei de férias. Mas é daquele Estado distante, e curiosamente de sua parte mais árida, que vem parte da minha dose semanal de alegria. Mais precisamente de Mossoró. Pesa cerca de 1kg, tem forma esférica e pode ser encontrado nos melhores supermercados da cidade. É claro que falo sobre o melão de Mossoró, ou melhor, os melões de Mossoró, já que existe uma diversidade de tipos.
Foi em Sampa, capital mundial da gastronomia, que tive o primeiro contato com essas preciosidades. Mais exatamente na feirinha do final da Oscar Freire. Experimentei por insistência do feirante, já que o preço não animava muito. Na época, meu orçamento estava mais para bananas e laranjas. Mas não custava (mesmo) provar. Foi amor à primeira mordida. Na banca do feirante, havia uns quatro tipos diferentes. Querendo garantir minha primeira impressão, que é a que fica, o esperto comerciante me serviu um pedaço generoso de um autêntico cantaloupe. Hum! De lamber os beiços. Levei dois e virei freguês assíduo.
Não confundam esses melões nobres, com denominação de origem controlada e garantida, com o melão amarelo (ou melão vulgar), figura onipresente em todo café de hotel, por mais chinfrim que seja. Os melões a que me refiro são o cantaloupe, de casca verde e desenhada, o gália e o orange. Custam mais caro, mas não têm o gosto de água do melão vulgar.
Do ponto-de-vista alimentar, sou uma pessoa bastante comedida. Se ganho uma caixa de bombons com 30 unidades e não sou vítima de furtos domésticos (o que é raro e coincide com os períodos de dieta da minha esposa), a caixa dura 1 mês: como um por dia. Sobremesa, nunca repito. Num rodízio de pizza, não avanço além da sexta fatia. Conclusão: não é qualquer guloseima que me faz perder o sono. Mas esses melões... Doces, suculentos, leves. Caem bem a qualquer hora do dia, embora os prefira no café-da-manhã, para começar bem o dia.
Não faz mal que os melhores espécimes sejam invariavelmente exportados. Os malditos europeus, além de levarem nossos craques do futebol, carregam nossos melhores melões. É o peso do euro. Esses melões de primeira classe, viajam protegidos em tonéis climatizados dentro de grandes navios rumo ao Velho Continente. O segundo escalão vai para os caminhões, ficando à mercê das nossas BRs esburacadas e dos caminhoneiros que para chegarem logo ao Ceasa, em São Paulo, se entopem de rebite. De lá, os melões são redistribuídos para outras capitais, até estarem ao alcance dos felizardos que podem pagar 5 a 10 reais pela unidade.
Fossem vinhos, chegariam sofridos. Mas são melões do agreste, cultivados por gente calejada, sob um sol inclemente. O ar do sertão dá resistência a essas frutas e faz do melão de Mossoró, um bravo. Por fora, a casca enrugada simulando o solo rachado pela seca. Por dentro, a polpa macia e protegida. Um tesouro insuspeito que vem de longe, vale cada centavo, e ocupa, hoje, rodeado por cajus e carambolas, um lugar de destaque no Olimpo das frutas.

Luís Gustavo Ferreira

postado por: RODOLFO TORRES 2:38 PM


Comments: Sexta-feira, Outubro 28, 2005

O porteiro e as atletas

Enquanto lia uma entrevista do jornalista e escritor peruano Mario Vargas Lhosa, na qual ele exalta o exercício do jornalismo enquanto atividade fundamental para a sua labuta de escritor, o interfone tocou ao meu lado. A voz era tímida e desconfiada. Dizia que havia uma encomenda para mim na recepção.
Só para que seja feito um pequeno parênteses, gostaria de, mais uma vez, expressar a minha mais profunda falta de respeito para com o jornalismo atual. Principalmente, o jornalismo da capital federal. Impressiona-me que em Brasília não exista uma publicação voltada para o achincalhamento das instituições, para o deboche generalizado. Não há espaço para a revolta!
Ao me deslocar até o térreo, percebo no espelho do elevador que estou com a minha bermuda curta e florida, própria ao sono. Não estava com disposição para voltar e trocar de roupa. Fui desse jeito, mas não sem uma pitada de constrangimento.
Os três andares que desci foram suficientes para que fossem tecidas inúmeras possibilidades de remetentes. Em primeiro lugar, estava o meu amigo Édipo, que prometeu me enviar uma cópia em DVD do clássico do cinema nacional, O ébrio. Algumas outras possibilidades foram consideradas, não sem um pouco de receio, é bem verdade; mas as fiz assim mesmo. Barriga fria ao chegar ao meu destino. A encomenda era para a moça que anteriormente ocupava esse espaço.
Uma leve decepção acompanha agora a minha profunda melancolia. E só quem já desceu aos porões de uma agonia insensata sabe o que estou a falar.
O porteiro pediu desculpas pelo transtorno. Perguntou se eu estava dormindo. Disse-lhe que não. Barba por fazer e preguiça por vencer, eis o meu retrato nesse tarde nublada em Brasília.
Para descontrair, perguntei-lhe sobre as moças que fazem ginástica numa academia exclusiva para mulheres, localizada nesse mesmo prédio. Sorriu desconfiado. Disse que elas ainda não chegaram, mas que não vai tardar para que o desfile redentor se inicie. Reclamou que elas não olham para ele. Mesmo quando ele em seus caminhos, na frente das moças, elas não concedem um mísero olhar de beira de vista. E isso lhe dói tanto que o seu sorriso fácil desapareceu em seu rosto fino. As belas atletas, com as suas garrafas térmicas e as suas toalhas de rosto posicionadas em seus ombros, não olham para o meu amigo porteiro.
Notei que a minha estratégia não foi muito feliz. E cada qual seguiu o seu rumo, cada qual carregando o seu fardo. O de ter sido esquecido, o de não ser notado.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 5:09 PM


Comments: Quarta-feira, Outubro 26, 2005

A greve dos Narcisos

Já ouvi falar que em França o sujeito que pretende ser jornalista deve cursar, no mínimo, dois anos de História, Literatura ou Ciências Sociais. Não sei se isso corresponde à realidade, mas, em todo caso, seria uma boa maneira de começar a formar esses profissionais que, como todos (generalizo mesmo) os outros no Brasil, são tão mal formados nos bancos universitários.
No caso dos jornalistas, a questão é muito mais peculiar. Uma classe desunida, desprestigiada e, por que não logo confessar, ridícula mesmo. Eu, apesar de ter formação universitária em comunicação, defendo a não obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo. Escrevo isso com sinceridade. No passado, quando ainda nem existia curso de jornalismo, a imprensa era um berço de literatos. Não havia, por exemplo, essa imbecilidade descomunal que é o lide. Uma técnica que castra, arranca qualquer possibilidade de um texto melhor trabalhado, mais saboroso de ser lido.
Sem falar nas pautas cretinas, nos profissionais moldados em cartilhas analfabetas, na invasão despudorada da publicidade no conteúdo editorial dos veículos, e na própria falta de conteúdo da nossa imprensa. Não quero aqui exumar tempos mortos, mas imagino a atual angústia de um sujeito que teve a oportunidade de ler os principais jornais do país até a década de 70, e que hoje se depara com um verdadeiro celeiro de egos e com uma mais verdadeira latrina de conteúdos.
Li há pouco que o diploma de jornalismo voltou a ser obrigatório para o exercício da profissão. Com diploma ou sem diploma o nível continuará estratosfericamente rasteiro. Pior: Tendo a considerar que quem não possui o diploma de jornalismo escreve muito melhor do que quem o possui. Afinal, luto até hoje contra essa idiotice do lide. Outro ponto é: O que seria dos cursos de comunicação sem a técnica da pirâmide invertida?
Sinto-me bastante confortável para dizer o que digo, na condição de jornalista profissional diplomado. É o que está escrito na minha carteira profissional, que por sinal está virgem. Assim como está virgem a capacidade de questionar determinadas práticas da imprensa brasileira pelos próprios profissionais que a forma.
Gostaria de ver uma greve de jornalistas. Seria como uma greve de Narcisos. Ninguém poderia mais morrer afogado no rio devido ao reflexo de sua própria imagem, por, pelo menos, alguns dias. Seria extremamente difícil, mas com esforço não seria impraticável. Não morrer de admiração por si mesmo. Não morrer pela mesquinhez de sua condição.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 7:28 PM


Comments: Segunda-feira, Outubro 24, 2005

Poemóide

Lá do cais de onde eu venho, tem uma moça amaldiçoada/ é pequena, magricela e tem a bunda arrebitada/ sofre tanto que já tem a própria alma calejada/ o seu nome é bem comum, como a grama esturricada/ no nordeste brasileiro, é paisagem bem manjada.

Seu trabalho sempre rende alguma boa bofetada/ sua face ainda é bonita, mas um pouco estragada/ de batom, de maquiagem e de tanta cacetada/ o cabelo bem loirinho de água oxigenada/ e o bico do peito deformado de levar dentada.

À noite ela não dorme, pois é muito ocupada/ deitando com tantos homens de alma enlameada/ que surram, queimam e cospem nessa pobre enjeitada/ que sussurra pelos cantos de forma desolada/ "que glória existe em maltratar uma desgraçada?".

O seu rosto apodrece sempre a cada alvorada/ no espelho do banheiro, sua cara é quebrada/ chora tanto por saber o destino de sua estrada/ reza baixo a soluçar, pra não ser escutada/ procurando alcançar seu desejo de ser amparada.

Novo dia já começa, anuncia a passarada/ parte o vento, fica a brisa, do crepúsculo à madrugada/ e com sono compra o pão, com sua blusa decotada/ volta ao quarto de olhar no chão, se sentindo desprezada/ sonha tanto, sem pretensão, em apenas ser amada.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 6:02 PM


Comments: Sexta-feira, Outubro 21, 2005

A fragilidade do infinitivo em ser e estar

Vez por outra, quando me permito pensar em coisas fundamentais, reflito sobre os verbos. Não somente sobre os verbos, mas principalmente a respeito deles. E no que diz respeito aos seus tempos e variações. Sempre achei que uma imperfeição da nossa língua é o infinitivo do verbo ser para a primeira pessoa do singular: Eu sou.
O "sou" sempre me pareceu frágil, e com cara de passado. Algo que pode ser perdido repentinamente, como as chamas de uma vela que iluminam a sala de uma casa simples numa festa de aniversário infantil.
Sábio foi um ministro qualquer, de um governo qualquer, que disse que não era ministro. Ele estava ministro. Não tenho certeza, mas acho que são os judeus que afirmam que apenas o Deus deles é. As outras coisas são transitórias. Apenas Javé é.
O "estou" também não se diferencia do "ser", no tocante à delicadeza de sua condição, mediante à sucessão de fatos e horas. Eu posso estar por aqui, com esse ou aquele sentimento instalado em meu peito, e por conta disso, ser mais ou menos satisfeito com o que porventura pode mudar rapidamente.
O infinitivo desses verbos rima com o passado dos outros. Malandragem de língua latina, que reconhece a fragilidade de qualquer condição humana e não admite que os seus falantes sejam mais pedantes do que a própria vida.
Eu já desejei ser um verbo. Diversas pessoas alcançaram a condição de adjetivo, mas a minha ambição é me tornar um verbo. Um que possa exprimir talvez uma profunda falta de compreensão diante de tudo. Uma ignorância mórbida. Para os mais drásticos, um enorme desejo pelo fim.
Meu infinitivo não teria cara de pretérito, ou de algo frágil. Teria de ser definitivo, assim como é definitiva a minha incompreensão. E eu serviria para exprimir as relações amorosas e quiçá a própria vida.
Javé não ficaria com raiva de mim pelo fato de eu me fazer verbo. Pois eu me faria em termos de incompreensão, num futuro longínquo. E não estaria ao seu lado.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 2:47 PM


Comments: Quinta-feira, Outubro 20, 2005

Soberanos

Tenho recebido, já há algum tempo, a mesma mensagem em meu correio eletrônico. Trata-se de um texto indignado. O motivo é a instalação de uma base militar dos Estados Unidos no Paraguai. Base militar essa que contará com 400 soldados. O texto também faz menção sobre o referendo do desarmamento. Segundo tal mensagem, diversas empresas estrangeiras de segurança estão de olho no mercado brasileiro. Também, ainda segundo a mensagem, existe a intenção de sufocar a indústria de armamento nacional.
Um apelo pela nossa soberania é o pilar de sustentação dessa mensagem, repassada repetidas vezes à minha caixa virtual de correspondência, por pessoas extremamente queridas. Além da saúde, estradas, educação, e de mais alguns outros direitos garantidos em nossa constituição; agora também querem entregar à iniciativa privada - nesse caso a estrangeira, como no caso das tele-comunicações - o direito de proteger os brasileiros. É a teoria do Estado mínimo. As garras neoliberais são incontroláveis, e um mercado em potencial de milhões de pessoas não pode ser desprezado, nem deixado para um Estado incapaz, como é o caso do nosso.
Porém, não consigo sentir revolta com essa situação. Meu tempo de revolta já se foi. Está morto assim como diversos momentos felizes de meu passado. E eu não consigo ser mais forte do que os enterros desses instantes.
Soberania. Estranho usarmos essa palavra com tanto despudor. Um país que recebe técnicos do FMI para que sejam averiguados os rumos de sua política macro-econômica tem alguma condição de gritar por soberania? Um país no qual seus analistas econômicos comemoram com sorrisos marotos a queda de um índice chamado "Risco Brasil", criado por investidores estrangeiros para que o governo brasileiro seja pressionado a atender exigências cruéis de um mercado desumano, pode reclamar soberania?
Aprendi que o ceticismo é um bom casulo. Aliás, o único casulo que nos resta. Não há como se desiludir brutalmente quando se pratica o ceticismo.
Já não tenho mais ilusões de soberania nacional. A nossa cidadania se resume a protestar contra a privatização dos nossos direitos. Não tenho mais ânimo para me indignar.
Que venham os outros países para cá, e que retirem de nossa terra a maior quantidade de riqueza que possam. Sempre foi assim.
Contudo, quando bebo um pouco mais de vinho na madrugada, e estou de carona com alguma alma amiga, sempre vou ao Congresso Nacional, e ao passar pela Praça dos Três Poderes, cantarolo o nosso hino. E seguro as lágrimas por todos nós.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 8:47 PM


Comments: "Um dia com a Banda"

A confraria dos crônicos, em mais uma de suas vertentes utilitárias e promocionais, lança com exclusividade, para todo o Brasil, quiçá sul-américa, a promoção "Um dia com a banda".
Trata-se na verdade, nobres confrades e agregados, de um serviço de utilidade pública e sanitária, senão vejamos.
Existe muito próximo de nós, uma banda que ansiosamente aguarda por um nome. De estilo meio Rock, meio Pop, sofre influências de diversas vertentes musicais, ligadas a MPB, passando pelo Jazz, Funk, Balão Mágico, etc. Vem sendo chamada, no meio musical e mais familiar, de "Tarja Preta", tipo aquelas tarjas de remédios controlados. Os mais espirituosos até dizem que é a banda que só toca sob prescrição médica, em virtude do elevado número de médicos em seu corpo musical (quatro dos seis integrantes), e da imensa quantidade de fãs da banda dentro do meio, verdade esta verificada no último show da banda, com demonstrações histéricas de tietagem de diversos profissionais da área de saúde. Mas existe certo clima de inquietude entre os seus componentes, como se "Tarja Preta" fosse só um apelido, como por exemplo, "Corujito" ou "Bombs". Reservo-me ao direito, enquanto idealizador da promoção, de não citar os nomes dos componentes da banda.
Vamos às regras.
Serão permitidas sugestões através dos comentários do nosso site até o dia 20 de novembro de 2005, devidamente identificados e com e-mail para contato. Cada pessoa poderá sugerir até 74 nomes diferentes, com no máximo 150 caracteres cada. Ficam de antemão censurados os nomes pejorativos e que porventura agridam os defeitos físicos de qualquer um dos componentes. Quanto ao prêmio do concurso, o autor da sugestão terá o privilégio de passar o dia com a Banda. Nesse ínterim, será permitido qualquer tipo de tietagem, das mais discretas até as mais explicitas. O dia será longo e proveitoso, incluindo, por conta da banda, três refeições (no kilo) e um passeio pelo centro da cidade, para as tradicionais compras que todo fã tem direito. Os traslados, de lotação ou ônibus, também serão por conta da banda. No dia da promoção a banda realizará três shows, cada um durando cerca de três horas, para os quais o fã terá livre acesso, com meia entrada para um acompanhante e direito a duas, isso mesmo, duas latas de refrigerante. Para tanto privilégio poderá ser solicitada à colaboração do fã para eventual necessidade de montagem do som ou segurança dos eventos. Vale foto agarrando o vocalista, vale beijinho no baixista, vale fazer o "lobby" para ser tecladista da banda, vale puxar a orelha do guitarrista, vale até sentar no colo do baterista. Tudo por um nome para a banda.
Em tempo: Próxima promoção cultural da confraria, em novembro: "Loucos pela Banda", aguardem!

Do aditor
GustavoGT
Natal 20/10/05

postado por: RODOLFO TORRES 12:02 PM


Comments: Quarta-feira, Outubro 19, 2005

Definições estéreis

Justiça é uma modalidade de vingança. Amparada por livros, teses, casos, tradições e egocentrismo. Justiça é a possibilidade de punir alguém que merece (ou não) ser punido sem que os que punem também o sejam. Justiça é a sentença final. Aquela que cessa o círculo viçoso dos ódios. Cessa em termos, até de legalidade.
Vingança é um tipo de mola. Sempre impulsionou os homens, para os mais diversos fins. Geralmente, o sentimento de vingança é o resquício do amor. Alguns engolem as sobras desse sentimento com uma elegância invejável. Outros, no entanto, não suportam digerir os resquícios amargos de um doce sentimento que partiu. É quando a vingança se torna uma justiça muito particular e subjetiva. Aos egocêntricos.
Política é uma espécie de flagelação do espírito. Público e pessoal. Quando o indivíduo se sente capacitado para representar os seus, numa estância ilusória da fantasiosa República, o diabo contabiliza mais uma alma. Política é a arte de amar a si, buscando ao máximo o maior amor dos outros. Política é se saber maior por sua mesquinhez. Política e egocentrismo: sinônimos.
Imprensa é uma forma de servir ao público sem ser chamado. Um voluntariado às avessas. Algo que se assemelhe a uma tentativa infrutífera de prestar um trabalho bem intencionado aos outros para maquiar uma total incapacidade de ser solidário. Um hábeas corpus preventivo da própria impotência humana. Um reduto de frustrados. E egocêntricos.
Utopia é uma maneira de se defender. Defesa contra as próprias imperfeições da nossa natureza. Se porventura fossem retiradas dos nossos sonhos as utopias, seríamos até, de certa forma, mais genuinamente humanos. Com certeza. No que se refere a nos tornar o que sempre desejamos algum dia ser, a utopia encontra sentido. A utopia serve ao nosso egocentrismo.
Opinião é como se fosse um certificado. De seu emissor. Varia de tempos em tempos, e de remuneração em remuneração. É volúvel e causa conflitos. É momentânea e provoca separações. É mutante e gera gemidos. É transitória e transtorna tantos corações.
Egocentrismo sou eu, é você. Ridículos humanos perdidos diante de significados tão vagos, que fazem tanto sentido por nunca terem sido devidamente questionados.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 6:11 PM


Comments: Terça-feira, Outubro 18, 2005

Pernas curtas e mais interessantes

Tão ou até mais fascinante do que os seus filmes foi a própria vida de Fellini. O diretor italiano está na minha santíssima trindade de cineastas, juntamente com Bergman e Kurosawa. Outro dia mesmo, vi uma entrevista na qual Bergman e Fellini trocavam elogios. Ambos muito jovens, com um respeito mútuo difícil de se encontrar nos dias de hoje. Aliás, Bergman ainda vive. Está com noventa e poucos anos, porém conseguiu ser mais forte do que a sua melancolia e a sua própria condição de sueco.
Aprendi, e ainda continuo aprendendo com Fellini. Lembro muito bem que deixei de ter vergonha da minha atração pelas mulheres mais rechonchudinhas com um filme de Fellini, na qual uma obesa mórbida senta-se no colo de um garoto franzino. Confesso que gostaria de ser aquele garoto que se afogou naquela obesidade de mulher.
Outra cena que me marcou é a dança de uma prostituta velha e gorda, numa praia, para um grupo de garotos, entre os quais o próprio cineasta. Fellini foi gênio porque dirigiu cenas do seu próprio passado, com um despudor tão intenso e peculiar que me atrevo a dizer que a sua obra extrapolou os próprios limites da arte. Fellini dirigiu a sua própria vida. E foi mestre nisso.
Mas minha admiração por esse admirador do circo, das mulheres, da Itália, da boa comida, das ruas de Roma, das reuniões íntimas, e de mais um punhado de delícias; não se restringe aos filmes. Eu tinha que ler Fellini. E fui atingido mais ainda pelo seu modo de encarar o mundo.
Fellini se declara um mentiroso. Sem nenhum remorso ou vergonha. É mentiroso e, o melhor, gosta da mentira. Para ele, o que não é mentira é desinteressante, é menor.
Alguns procuram um eufemismo desnecessário, do tipo: licença poética. Confesso que acho o nome bonitinho até, mas prefiro mesmo a boa e velha mentira. E por preferir a mentira, consigo explicar de uma forma mais ou menos satisfatória a minha vinda para Brasília, o meu interesse pelo jogo de azar que é a política brasileira e a minha relação devassa com o jornalismo.
A verdade é que a mentira é muito mais interessante para os olhos e para a alma. Só não consigo entender o compromisso de tantos jovens com a verdade. Ela é estéril. Castra, de uma maneira crudelíssima, o lirismo e a poesia que todos carregamos até certo estágio da vida.
O que importa se essa quantidade ínfima de deputados seja cassada? O que importa se a classe política está numa decadência tão profunda que já não existe mais pudor por parte dos homens públicos? Zé Dirceu vai ser cassado? Não vai? E daí?
Assusta-me a devoção e a reverência que os jovens têm para com a tediosa verdade dos fatos. Também fico assustado com a incapacidade de Brasília não produzir humor ácido e corrosivo diante dessa orgia de demônios, que é o Congresso Nacional.
Prefiro a mentira e as gordas de Fellini. Pois a verdade é que a nossa impotência diante desses fatos é tão grande (e a nossa incapacidade de mobilização é tão intensa) que já não restam terrenos saudáveis para plantar a nossa imaginação e a nossa esperança. Cultivemos a mentira. E apreciemos as mais rechonchudinhas.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 7:10 PM


Comments: Segunda-feira, Outubro 17, 2005

Imparcial é a mãe!

Falta-me, mais uma vez, organização para enumerar e arrumar as idéias que teimam em borbulhar em meu juízo. Tantos assuntos a serem comentados, tantos comentários inúteis a serem tecidos. Mas vamos lá...
Vou resgatar um assunto por demais batido, por demais discutido, por demais citado. Trata-se da capa de Veja, sobre as sete razões para se votar NÃO no referendo sobre o desarmamento. Diversos colunistas, populares, especialistas, e o que mais vocês queiram citar, falaram sobre a tal capa da maior revista de circulação nacional, a revista que só não conseguiu ser mais forte ainda do que a popularidade de um presidente autista que menospreza uma crise monstruosa em seu país, quando o próprio se encontra no estrangeiro. Esse mesmo presidente, é valido lembrar, pediu desculpas à nação há dois meses, alegando que se sentia traído, enganado e blá blá blá.
Ora, é extremamente valioso que um veículo do alcance de Veja se posicione diante de questões desse porte. Eu tenho a certeza de que esse referendo é inoportuno e maniqueísta. Seja quem ganhe, a insegurança e a mortalidade no Brasil continuarão drásticas: uma mortalidade equivalente às mortalidades das áreas de guerras. Mas Veja tomou partido nessa questão. Oxalá ela fizesse o mesmo em outras ocasiões.
Como é costume citar os Estados Unidos em comparações com os nossos hábitos, lá é tradição o veículo de comunicação se posicionar diante de uma eleição ou do que quer que seja. Trazendo o tema para cá, lembro de um editorial da Folha aconselhando os leitores a não votarem em Maluf. E ao contrário do que dizem os comunicólogos, cobrar a imparcialidade dos meios de comunicação é a mesma coisa que exigir a castidade em um prostíbulo.
Imparcial deve ser um tribunal, um juiz (não o de futebol, afinal o juiz ladrão é parte fundamental da magia desse esporte), uma sentença. E eles não são! Por que um veículo, que defende tais e tais interesses, devido ao esquema nefasto de anunciantes (públicos ou privados) deve querer se mostrar imparcial? Será que a inteligência do leitor brasileiro é tão desprezada assim, para que uma revista ou jornal se declare imparcial diante de um fato que mexe diretamente com o cotidiano de milhões de pessoas?
Ora (novamente), o leitor deve ter o direito de saber qual é a linha dessa ou daquela publicação. É muito mais honesto do que montar um matéria com 85% do espaço ocupado por um ponto de vista, 10% com argumentos contrários à primeira opinião, e os 5% restantes sobram para desqualificar os 10%.
Imparcialidade na imprensa é um mito que deve ser combatido a todo custo. Se o leitor não está maduro o suficiente para entender que o jornalismo não é, nem nunca foi, e nem nunca será imparcial; que entenda o mais rápido possível. Jornalismo é tendencioso, é passional. A linha editorial dos grandes veículos é tão imparcial quanto uma viúva italiana num almoço de domingo.
Veja acertou em se posicionar nesse quesito. Quem não quiser ler, que não leia. Mas mesmo o leitor que vai votar sim no referendo, já leu a matéria, até para adquirir os seus contra-argumentos. Espero que Veja se posicione assim na campanha eleitoral do próximo ano, dizendo num belo editorial as razões pelas quais apóia o candidato do PSDB à presidência da República. Isso sim é evolução! A sociedade entender que o jornalismo não é um reduto de querubins, que expõem de forma igualitária os dois lados do fato, dando à população o direito de formular a sua própria opinião. Bobagem! Devaneio de calouro de curso de comunicação!

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 4:58 PM


Comments: Sexta-feira, Outubro 14, 2005

NADA A VER

Você conhece um pessoa num evento social e, após alguns minutos de conversa vazia sobre algum tema corrente ou universal, que vai desde o jogo do flamengo até o terremoto do paquistão, passando por qualquer CPI vigente, o sujeito faz aquela pergunta super manjada:
- De onde você é?
- Sou do Rio Grande do Norte. - Você responde.
Com essa resposta você demonstra estar tentando terminar a conversa, dada a tamanha falta de criatividade inquisitiva do seu novo amigo, ou quer testar os conhecimentos e a paciência do seu interlocutor.
Se o cara for safo, a resposta vai ser:
- Ah! Natal é uma cidade linda. Já fui lá três vezes e adorei.
Se o idiota não for dado a geografia, permanecerá com a mesma expressão facial, para ganhar tempo, ou exibirá uma notória cara de interrogação.
Mas antes que ele morra de angústia, você emenda:
- Natal, Cidade do Sol!
Num ambiente sadio e normal, o sujeito continuaria o papo se desmanchando em elogios. Seria uma reação típica da classe média informada e viajada de São Paulo.
Mas hoje, para minha surpresa, a resposta foi outra:
- Ah! Então... Eu fui para Fortaleza na páscoa e achei tudo lindo.
Com essa resposta inesperada ele virou o jogo. Ou é a vez dele de por a prova sua paciência ou não quer realmente manter o diálogo. De uma forma ou de outra, existem várias tréplicas a essa resposta, todas sem dúvida perniciosas para ambos.
Você pode dizer inocentemente, sorrindo amarelo e se fazendo de doido:
- É... Fortaleza é legal...
Você pode também retrucar sem um mínimo de emoção:
- Não conheço Fortaleza.
Ou ainda, revidar irado, sem medo da repercussão:
- Detesto Fortaleza, tenho ódio de cearense e neste momento quero matar todos os paulistas do mundo. E vá se lascar!
E sair dali o mais depressa possível.
Se você quiser evitar ser linchado pela torcida do Corinthians, é melhor usar apenas de frieza e ironia, tudo no sentido de informar o seu ouvinte, com a melhor das intenções:
- Fortaleza fica a mais de 600km de Natal. É em outro estado. Decididamente não é a mesma coisa.
Mas você ainda corre o risco de levar uns safanões.
Então existe a saída onde você responde na mesma moeda:
- Quando eu era menor, conheci o Cristo redentor...
Será a vez dele de não entender.
Ou ainda você pode apenas balançar a cabeça afirmativa e vagamente e mudar de assunto.
Mas talvez a forma menos danosa de escapar dali ileso foi a que eu usei. Fiz de conta que ouvi um número qualquer pelo sistema de som, puxei um papel inespecífico do bolso do paletó, agitei-o no alto e saí correndo para onde tinha uma aglomeração ruidosa, gritando: - ¿bingo¿. ¿bingo¿!.
E deixar o chato se perguntando porque só ele não tinha cartela.

O agudo
Bruno Magalhães
14/10/5

postado por: RODOLFO TORRES 5:49 PM


Comments: Quinta-feira, Outubro 13, 2005

O padrinho

Um dos grandes prazeres da atividade jornalística é a especulação. Diria que a especulação é mais do que apenas um mero prazer. É um privilégio. Chegaria até a declarar que se trata de uma graça, uma bênção, uma recompensa por algo que sinceramente desconheço.
E quem tem a labuta de formar opinião, de guiar pensamentos e alívios, fúrias e tormentos, lágrimas e indignações; tem o direito de se equivocar diariamente. Ao contrário do que dizem tantos profissionais do jornalismo que andam por aí a reclamar da profissão em palestras e cursos de especialização, eu defendo o direito do jornalista de se equivocar diariamente, constantemente, permanentemente.
A minha redação ideal seria um local no qual todos os profissionais fossem comprometidos com a mais profunda intimidade para com a falha jornalística. E se por acaso alguém cometesse o desplante de averiguar informações, checar datas e nomes; esse ser estaria condenado ao ostracismo profissional.
Para citar um exemplo, vou ao caso do legista que apareceu morto. Enquanto o profissional sério e honrado, que é comprometido até o último centavo do seu salário com a ética profissional e com a boa prática jornalística, deve se limitar a reproduzir versões de policiais e autoridades da medicina legal; eu faria diferente. Não esperaria nem um pouco para dizer isso se trata de uma queima de arquivo grosseira, de um trabalho de intimidação praticado por verdadeiros mafiosos, por uma quadrilha cruel e brutal que se apoderou de prefeituras paulistas e que agora está no governo federal.
Vale a pena citar que esse não é o primeiro caso de morte de pessoas que estão envolvidas de alguma forma no assassinato do prefeito de Santo André (SP), Celso Daniel. Nesse caso mais recente, o único legista que levantou a voz para dizer que a coisa não era bem como estava sendo apresentada, foi encontrado morto por seu filho.
Mas por que será que o PT teme tanto as investigações desse caso? Será que a elucidação dos fatos que levaram à morte de Celso Daniel faria tão mal assim ao partido do presidente? O que os petistas temem nesse caso específico? A comprovação de um monstruosos esquema de corrupção implementado na prefeitura da cidade paulista?
O partido dos trabalhadores é partidário de práticas criminosas? Será? Além de alguns dos seus mais ilustres membros terem sido treinados com táticas de guerrilha em Cuba, devo acreditar que um dos filmes prediletos da cúpula palaciana atual é um que trata de uma tal família Corleone, que fez alguns estragos em Nova Iorque e que eliminava os seus adversários e opositores de uma forma desprovida de cerimônia.
A queima de arquivo está aí! Além de Celso Daniel, outro prefeito petista, dessa Toninho do PT (Campinas/SP) também foi assassinado. Os dois casos não foram esclarecidos. Pessoas estão acuadas e sendo mortas por conta dessas execuções de políticos.
Vocês não vão querer que eu me detenha apenas às versões de quem quer que seja, sem dizer que isso tudo que estamos vivenciando é um roteiro batido de filme de máfia italiana...

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 8:27 PM


Comments: Terça-feira, Outubro 11, 2005

Esmaltes à mostra

Nada mais feio do que uma mulher que declara orgulho de sua independência. Nada torna um homem mais insignificante do que a vontade feminina. Com a expressão facial fechada e a boca de trompetista aposentado, a fêmea que esbraveja a sua independência a um macho qualquer não está, nem de longe, tão satisfeita com a sua vida e consigo mesma como declara. O seu abdômen forma um ângulo de mais ou menos sessenta graus com as suas pernas. Se ela unisse os seus antebraços aos respectivos bíceps, e fizesse movimento de encontro dos mesmos às costelas, a imitação de uma galinha estaria perfeita.
Se bem que não foi a minha intenção ridicularizar a independência das mulheres. Mas que elas, nesse caso, poderiam imitar uma galinha, poderiam... O que realmente importa é que as mulheres estão cada vez mais parecidas com os homens, no sentido da burrice. Com a independência da mulherada, que hoje em dia ganha rios de dinheiro, e que raramente gasta a maior parte do ordenado com bebidas e com outras mulheres, a economia deve ter se expandido de uma forma descomunal. Aliás, qual será o estudo que trata dessa relação: progresso econômico mundial com emancipação e independência feminina?
Será que os milênios não ensinaram às mulheres que elas detêm o controle? Precisa esfregar isso na cara dos homens? Antes costumava creditar uma sagacidade às mulheres que talvez não corresponda à realidade. É bem sabido que quem apanha, aprende. Seja dos pais ou da vida, da polícia ou da mulher. Por que as mulheres não unem a delicadeza que lhes garantiu a sobrevivência numa época na qual elas não eram consideradas seres humanos, a destreza de mandar sem se utilizar da força, com a dinheirama que elas ganham nos dias de hoje?
Nada mais insuportável do que uma mulher que faz absoluta e irrestrita questão de dividir a conta todas as vezes. E nada melhor, pelo menos para mim, do que elas pagarem a conta inteira.
A minha educação para enfrentar as mulheres foi um pouco defasada. Após a doideira que foi a década de 60, o mundo entrou numa onda de conservadorismo moral justamente na década do meu nascimento. Os refúgios para os infinitos problemas da alma passaram a ser sólidos e palpáveis demais. Nada que me interessasse muito.
Mas as mulheres eclodiram, e a cada semana a televisão reportava mais uma atividade que deixava de ser exclusiva dos homens. E elas estão cada vez mais embriagadas com a onipotência dos contra-cheques. Como esse é um caminho sem volta ( e eu realmente desejo que o seja, afinal de contas tenho toda a vocação para ficar em casa), um caso a se pensar é na educação dos futuros guerreiros dessa batalha cruel chamada mulher.
O futuro agora é mais triste para mim. Além da falta de água, das guerras biológicas e nucleares, da intolerância, da fome, e de todas as outras mazelas que fomos capazes de produzir em tão pouco tempo de trajetória; a que certamente mais me assusta é a de um futuro no qual a delicadeza da mulher seja substituída por essa macheza que hoje elas apresentam.
Quero distância das mulheres onipotentes. Quero as frágeis, aquelas que me recrutem para lhes oferecer alguma espécie de proteção. Nelas estarei salvo, seguro e aprisionado.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 6:12 PM


Comments: Segunda-feira, Outubro 10, 2005

Caiporismo

Uma das minhas profissões ideais era a de astrônomo. Quando pensei em ser astrônomo, já havia desistido de ser bombeiro, jogador de futebol e carregador de bujões de gás. Contava com mais de dezesseis anos e cheguei inclusive a entrar em grupos de discussão, procurar livros e revistas especializadas no assunto. Enfim, fucei um pouco sobre o universo e cheguei a uma conclusão: seria mais interessante trabalhar com algo palpável. Algo como liberdade, justiça e solidariedade.
Ainda nesse período, ensaiava declarações. Se alguém viesse me perguntar sobre Deus, eu sairia com algo do tipo: -"Deus? Você não quer dizer Deuses?". Ora, o universo é algo tão maravilhoso e tão gigantesco que não pode ter sido obra de apenas um Deus. Houve, no mínimo, uma cooperativa de Deuses para criá-lo.
E, politeísta que sou, não posso desprezar os poderes de outras dimensões em nossas vidas. Aquele clássico papel amarelado e amassado que a imensa maioria de nós carrega consigo é mais valioso do que grande parte dos nossos documentos. Para verificar o valor desse papel amarelo, basta perguntar se o indivíduo que o carrega seria capaz de vendê-lo. Certamente a resposta será não, se a resposta para a sua fé for sim.
Portanto, não dá para desprezar, principalmente no Brasil, o papel da religiosidade em nossos atos. E isso é válido até para o presidente da República. Ou melhor, isso é mais válido para o presidente da República. Um homem simples, do povo, nordestino, retirante, torneiro mecânico, corintiano, presidente do Brasil.
Em discurso realizado hoje em Niterói (RJ),Lula se queixa de "urucubaca" da oposição. Aquele negócio de gente torcendo contra, pedindo aos céus para que as coisas não dêem certo. Bem, eu estou convicto de que se o Brasil fosse realmente um país sério, nenhum político conseguiria concluir um mandato de 1 ano. Quanto mais um mandato de 4 anos, ou, no caso dos senadores, de 8 anos.
Urucubaca, no meu conceito, não é o que a oposição faz com o governo Lula. Urucubaca foi o que o PT fez com milhões de brasileiros. Pessoas que conseguem unir duas idéias, que sabem ler, que ganham bons salários, que conseguem fazer uma refeição com garfo e faca... Mas que defendem esse governo por pura afinidade com a face do presidente. Exclusivamente por isso.
Urucubaca é essa verdadeira apologia à ignorância pela qual passa esse país, em todos os setores. No chamado jogo democrático: aquela palhaçada de eleições, partidos políticos, debates, programa de governo, etc; todos dizem que as opiniões divergentes são saudáveis. Aliás, opinião divergente era o que caracteriza o PT no seu passado de oposição.
Hoje em dia, quem não compartilha das ações do governo está promovendo urucubaca. Mas a má sorte não é do presidente. A má sorte é nossa, por tê-lo como presidente. Ignorância e autoritarismo. Dois ingredientes explosivos na política de um país de contradições colossais. País esse no qual a fome e a miséria extrapolam qualquer limite tolerável, pais esse que elegeu Lula presidente.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 6:30 PM


Comments: Sexta-feira, Outubro 07, 2005

Ouvinte de Deus

O indivíduo que se diz convicto e guiado pela verdade, seja ela representada por Cristo ou Marx, é um homicida em potencial, alguém de uma periculosidade extrema e irracional. O homem tomado por essas certezas abandona as suas características humanas e promove atrocidades por onde quer que passe. Bem sei que as bóias de significado para a existência dos homens são fundamentais. Nesse turbilhão de falta de nexo que é a vida, ajuda e muito ter ideais e crenças.
Entretanto, alguns não se contentam em se apoiar nas bóias. Eles sobem nelas, e caminham sobre elas, e discursam aos afogados e náufragos da maré da vida. Muito cuidado com esses homens! A convicção é uma péssima conselheira, e a intolerância é sua irmã siamesa.
Contudo, acabo saber de uma notícia que não me surpreende nem um pouco: Deus fala com Bush. É possível, é possível... Consigo até visualizar a cara de indignação dos homens de pouca fé, exalando as suas fúrias contra o presidente dos Estados Unidos. Mas não sejamos intolerantes para com o presidente Bush. Se ele o é conosco e com o resto do mundo, nada poderemos fazer. E basta lembrar que, além de alcoólatra, Bush foi um voraz consumidor de cocaína há alguns anos. Seu cérebro pode estar confuso, afinal o poder também é uma droga. E no caso dele, me surpreende o fato dele ainda não ter morrido de uma overdose de poder.
Segundo o presidente Bush, Deus mandou-o dar um Estado aos Palestinos, promover a democracia no Iraque, proteger Israel e soltar algumas bombinhas no Afeganistão. Continuo dando crédito a Bush. Se eu fosse Deus, faria questão de manter diálogo sem intermediários com o presidente dos Estados Unidos. Principalmente se o presidente agisse em meu nome. É bem provável, é bem provável...
Ora, bater em Bush é uma das tarefas mais simples que existem na atualidade. Contudo, ele apenas é o representante de um grupo que ganha bilhões de dólares para promover as desventuras que o seu país promove ao redor do planeta. Responsabilizar Bush pelos atos dos Estados Unidos é desconhecer o processo político, é fechar os olhos para a influência das empresas e das instituições financeiras nos governos.
George Bush acredita que Deus fala diretamente com ele? Bem, se realmente acreditar, talvez ele devesse trocar esse Deus que fala com ele pelo Deus misericordioso do Novo Testamento. Mas duvido muito que Bush acredite mesmo no que ele próprio fala. Num tempo de graves desilusões e profundas crateras em nossos mais sagrados valores, Deus continua sendo um ótimo cúmplice para justificar atrocidades.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 8:55 PM


Comments: NOTA
Aviso a todos os confrades e leitores que o confrade agudo foi selecionado naquele concurso de crônicas para médicos, com a crônica 'Para que nascer?' que está no nosso primeiro livro. O laboratório publicará um livro com as 22 melhores crônicas de todo o Brasil. O agudo embarcará para São Paulo, na próxima segunda feira (com tudo pago - ehehehe) para receber as devidas congratulações e saber quem foi o 1º lugar. Se ele ganhar, vai para São Diego-USA, é mole? É a confraria se tornando nacionalmente conhecida e num futuro próximo, internacional, universal e intergaláctica.
Obrigado pela torcida.
o agudo
Bruno Magalhães

postado por: RODOLFO TORRES 5:01 PM


Comments: Quinta-feira, Outubro 06, 2005

Referendo

Em muitas discussões não se consegue discutir o que de fato interessa. Isso se torna nítido quando analisamos o tal do referendo proposto pelo governo. Recuso-me a acreditar em tudo que está acontecendo. Mas, em terra em que até no futebol existe roubo, não podemos duvidar de nada.
Já acho estranho, na verdade acho descomunalmente estranho à ocorrência deste tal referendo. O referendo (não confundir com os reverendos que existem a torto e a direito) ou consulta popular em questão não tem, em minha opinião, o menor sentido. Não vejo lógica de se perguntar tal assunto em uma mobilização nacional de proporções eleitoreiras. Além de achar desnecessário, considero uma transferência de responsabilidades imoral. O que muitos intitulam de transferência de poder, eu chamo de transferência de responsabilidade.
Os brasileiros foram colocados com o fuzil na mão (sem trocadilhos ou insinuações, considerem apenas como uma metáfora despretensiosa), na linha de tiro de uma execução sumária, onde devem escolher quais dos dois assassinos sanguinarios condenados à pena de morte irão matar, e só temos uma bala. Ou seja, no final das contas, acabaremos agindo errado em qualquer das opções.
Considero que os dois lados nesta questão estão errados. Me reverso ao direito de não usar este espaço para fazer apologia ou desfazer de nenhum dos grupos, até por que sou contra os dois. Sou contra o romantismo de um dos lados, que vêem nesta atitude a salvação dos problemas, e também sou enfaticamente contra a onda de ¿terrorismo¿ do outro lado, que coloca os bandidos à espera do resultado para saírem em ¿ondas gigantes¿ de arrastão pelas residências do país. Sou contra, sou contra todos eles...
Votando Sim, Não ou Talvez, tudo continuará igual. Não sejamos ingênuos achando que isto vai mudar algo. A raiz do problema não é esta. Se quiserem a minha humildade e singela opinião sobre algo, em forma tão formal de referendo, que o governo faça sobre algo que realmente vale a pena.
Perguntem-nos, donos do poder, sobre a reforma política. Vejam a opinião do povo brasileiro sobre o percentual de recursos destinados ao exterior, para pagamentos de dívidas. Vamos ver se o povo concorda com a quantidade e qualidade dos recursos para a saúde e educação. Perguntem aos cidadãos sobre os empregos e cargos comissionados dos senhores. Permitam que as urnas mostrem o que o povo acha sobre a quantidade de recursos que cada um deputado e senador têm em mãos a cada mês. E sobre seus reajustes anuais? Questionem-nos sobre o que é mais importante, aumentar a tributação ou combater os desvios. Coloquem o dedo na minha cara e perguntem sobre a necessidade de se aumentar os recursos para a área de segurança, de priorizar o nosso e não as vontades do mundo globalizado. Questionem-me sobre os recursos da CPMF, e outros tantos. Perguntem-me se vocês devem ou não desarmar o bandido!
Se for para brincar de perguntar o que eu acho sobre o tal referendo em questão, esqueçam. Se vou votar Sim ou Não... não digo.

Do aditor
GustavoGT
Natal 06/10/05

postado por: RODOLFO TORRES 9:43 AM


Comments: Quarta-feira, Outubro 05, 2005

Todo dia

Tenho certeza de que já declarei a minha fascinação pela rotina. Enquanto algumas pessoas declaram ojeriza à repetição incessante dos mesmos acontecimentos, eu, se pudesse, trataria de providenciar a exaustiva sucessão dos mesmos fatos no meu dia. E explico. É pela rotina que aprendemos algumas coisas fundamentais para a nossa vida. Não vou citar nem a fala, nem mesmo a temida matemática. A rotina é o ingrediente que nos torna seres humanos e sem o qual, balbuciaríamos um vocabulário próprio e intransferível.
Contudo, mesmo que as pessoas de um determinado grupo falem um idioma comum, elas não se entendem. E jamais se entenderão. Os monólogos travestidos de diálogos são tão comuns quanto os nossos milhões de patrícios que passam fome. E que não sabem ler. E que vagam sem destino por entre os limites desse país.
Falava eu da rotina. E o quanto ela me fascina. Pois bem. Estava lendo em algum grande jornal que a "prioridade zero" do governo é fazer com que o bispo de Barra (BA), Luiz Flávio Cappio, acabe com a sua greve de fome que já dura nove dias. O motivo pelo qual Cappio faz greve de fome é ligado à transposição do rio São Francisco. Provavelmente ele é favorável à transposição. Digo "provavelmente" porque não sei realmente a razão da greve de fome do religioso.
Ora, uma greve de fome voluntária, praticada por um religioso, é certamente muito comovente. O sujeito que pode se alimentar de forma razoável todos os dias, e que não o faz por razões de protesto, é certamente uma exceção. Aquele que pode engordar e que não o faz por motivos ideológicos, ainda mais sendo um enviado de Deus, foge do comum. Quer dizer, algumas religiões pregam o jejum como uma forma de se estabelecer um contato mais íntimo com o divino. Mas esse não é o caso.
Vamos agora à rotina. A nossa rotina é ver uma multidão de famintos pelas ruas. São milhões de famílias que não comem, que acordam e que vão dormir sem nenhum alimento na barriga. Que desmaiam nas vias públicas e que morrem ao sabor da sorte. Se bem que no estado de absoluta miséria em que se encontram, a morte não é o pior dos acontecimentos. Ruim mesmo deve ser acordar e se sentir vivo. E sentir a barriga colando nas costelas. E respirar cheiro de comida e não ser gente que pode conseguir aquele prato.
Rotina no Brasil é miséria, é fome, é desespero, é despreparo. Rotina nesse país é a maldade para com os nossos, é a corrupção desenfreada, é a classe política em permanente estado de putrefação moral e ética. Rotina por aqui é ver a classe intelectual do país ser submissa e incapaz de se comunicar com o seu próprio povo.
Essa é a rotina da qual gosto, da qual sou apaixonado, da qual necessito para afirmar a minha mais profunda devoção à nossa condição de brasileiros. Amo demais a condição demasiadamente humana do Brasil que, sem a falta de caráter congênita e o colossal desprezo para com os seus, não sobrevive nem mais um minuto como nação.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 3:43 PM


Comments: Terça-feira, Outubro 04, 2005

Calores

Sempre me pergunto se algumas confissões são válidas. Nunca encontrei resposta para mais esse questionamento, mas o simples exercício de perguntar mais uma vez me concede alguma ilusão de que acharei uma resposta em breve. Provavelmente a confissão sincera não é um demonstrativo de sagacidade. Aliás, tenho quase certeza de que a confissão sincera é um atalho ao suicídio.
Mas não há como ser um bobo sem ser honesto. Procurei me concentrar mais uma vez no desenrolar dos fatos de Brasília. Juro que busquei esse estado de espírito com as forças que me restavam, antes de me entregar completamente à leitura de algumas poesias.
Sempre que caminho, fico tentando estabelecer conexões que sejam minimamente interessantes. O simples fato de olhar o chão passar ao sabor dos meus pés me dá uma tranqüilidade necessária para que as linhas possam fluir com alguma facilidade. Mas esse não é o caso. A poesia absorve qualquer tentativa de traçar novas linhas por parte do ser alvejado por aquelas palavras, só pelas palavras.
Ficaria, sem qualquer dificuldade, meses completos me debruçando sobre os versos daqueles que nada foram para o mundo além de poetas essenciais. Caí na besteira de ler Florbela Espanca ainda no final de semana. E fiquei ferido. E estou ferido. A poesia também é vício, é tóxica, é droga.
Para completar o meu disparate para com a crise política, comprei um livrinho de bolso de Henry Miller. Falava sobre Rimbaud. O meu desajuste foi completo e imediato. No pequeno estudo sobre o poeta francês, Miller, genial e senil escritor dos Estados Unidos, traça paralelos entre a sua vida e a do adolescente francês que revolucionou a poesia em escala mundial.
Também discorre sobre a função do poeta no mundo. E estamos tão áridos, tão incapazes de sentir o sangue ferver à simples leitura de versos fundamentais, que somos condenados. Condenados a vagar por essa vida sem sentir os calores que a poesia deve provocar, que tem o dever e a função de provocar em nós. Sem essa ebulição e angústia que a poesia provoca, não somos nem mais humanos. Tentei ler Rimbaud para um cheque cruzado de quinhentos reais, mas antes de terminar os versos, o meu peito doeu.
"A hora dos assassinos", título do pequeno estudo, é um título ímpar. Somente um escritor sagaz seria capaz de adornar a capa de um ensaio com essas palavras. Vivemos, mais do que nunca, e sempre mais, e cada vez mais, as horas dos assassinos. Assassinos da poesia. Assassinos da espécie humana.
O profeta Miller escreve ao final: "Estremecem os alicerces da política, da moral, da economia e da arte... Chegamos ao fundo? Ainda não. A crise moral do século 19 simplesmente cedeu lugar à falência espiritual do século 20. Chegou 'a hora dos assassinos', não há como se enganar. A política se transformou em negócio de gângsteres. Os povos marcham no céu, mas não cantam hosanas; os que ficaram aqui embaixo estão marchando rumo às filas de pão".
Precisamos de poesia. Urgente poesia que dê alguma esperança ao amor e à vida.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

Interjato

postado por: RODOLFO TORRES 7:11 PM


Comments: Domingo, Outubro 02, 2005

O cromossomo do funcionário público

Quando me mudei para Brasília, passei um mês num hotel e durante aquele tempo, quase todo dia, saia à caça de imóveis para alugar. Em geral, o termo caça é usado como força de expressão, mas nesta cidade a dificuldade da empreitada pode mesmo ser comparada a entrar no mato e encarar a onça que ronda a vizinhança. Os funcionários são preguiçosos e indiferentes a ponto de você achar que eles estão lá fazendo um favor. Você só pega a chave do imóvel até as 17h e tem no máximo 1 hora para devolvê-la. Corretor indo junto, para mostrar o apartamento, nem pensar. Se você mal conhece a cidade e tem dificuldade para se deslocar por ruas inóspitas, o problema é seu. Não tem tempo durante a semana? Você terá que arranjar, pois eles não abrem aos sábados. Seria uma heresia exigir tanto.
Meses depois, contratamos um marceneiro, conhecido pela alcunha de Baiano, para fazer uma estante. Ele tinha sido indicado por ser competente, acima da média. Minha esposa deixou com ele a revista em que havia o modelo a ser copiado. A promessa era de que em uma semana, ela estaria pronta. Dois meses mais tarde e, após muitos telefonemas e reclamações que progrediram do cordial ao expressamente ofensivo, a estante foi entregue. A revista foi devolvida em lamentável estado de conservação, fato que não gerou sequer um pedido de desculpas. Para encerrar, dias depois me liga um desconhecido para quem o tal Baiano repassara o cheque do pagamento (com o meu telefone) perguntando se eu não podia trocá-lo por dinheiro, pois ele estava precisando com urgência e não poderia esperar pela compensação.
Semana passada, uma amiga saiu do curso de inglês (Brasas) que ela freqüentava, voltado para conversação. Durante as aulas, não se abre o livro, a ênfase está em falar e ouvir. Segunda-feira faria uma prova. Perdeu algumas horas do fim-de-semana estudando para o teste. Acordou cedo (a prova era às 7h) e chegou pontualmente. A professora, no entanto, impediu que ela fizesse a prova, pois não tinha entregue uma redação na aula anterior - algo absolutamente dispensável. A promessa de que a redação seria feita até a aula seguinte não a sensibilizou. Durante a discussão, ainda saiu-se com essa pérola: "...você não vai entrar e antes que eu me esqueça, aqui está o seu boleto bancário para pagar a mensalidade". Resultado óbvio: minha amiga saiu do curso, e agora, com razão, faz o boca-a-boca detonando a escola. Do Brasas, ela saiu cuspindo fogo...
Tudo isso, estou relatando para chegar ao comentário que ouvi ontem, de uma enfermeira: "Nesta cidade, quase todo mundo tem o cromossomo do funcionário público". O que ela quis dizer é que diferente do resto do mundo, onde as células se contentam com 23 pares de cromossomo, aqui muita gente parece contar com essa mutação espúria: um cromossomo-extra. Nesse cromossomo de braços curtos e mãos-quebradas, estão os genes da lassidão, da morosidade e da burocracia.
O estereótipo do funcionário público, que vai para o trabalho, contando as horas para chegar o almoço parece ter contaminado os outros funcionários, que trabalham na iniciativa privada. O brasileiro está acostumado a se resignar diante de incompetência de um órgão público, como o Detran ou um hospital do SUS, verdadeiros ícones dos maus-tratos a que um cidadão se submete. Agora, ser destratado numa concessionária de automóveis, num restaurante ou num curso de inglês, não tem fleuma que resista. Salta aos olhos o descompromisso com o resultado, talvez pela falta de uma concorrência decente. Nesta cidade, muitos (talvez a maioria) anseiam não pelo propalado ócio criativo, que preconiza a união de trabalho, estudo e lazer. Essa turma vende a alma para passar num concurso público e atingir a sua meta de vida: o dolce far niente, até chegar a aposentadoria e a hora de voltar para o litoral.

Luís Gustavo Ferreira

postado por: RODOLFO TORRES 9:22 PM


Comments: Sábado, Outubro 01, 2005

Sete, e poucos, pecados capitais

Aliviado está o petista. Seu sorriso é mais largo do que o de costume e a sua felicidade extrapola qualquer limite tolerável. A transfiguração agora está completa: o PT é agora um partido como qualquer outro. Não há mais razões para crer no contrário.
"Que bom", diria alguém satisfeito com a queda da máscara dos petistas. Seria uma bela oportunidade de guiar os passos políticos do país pelas vias pragmáticas, e não pelas vielas messiânicas. Confesso, entretanto, que o caminho será mais triste e mais cansativo. Se as nossas esperanças foram depositadas em um partido político, isso só prova o quanto somos idiotas ao ponto de fazer de um partido político o depósito do nosso sonho numa pátria melhor.
Mas chega! Chega desse assunto desagradável que é a política nacional. Com tantos outros temas melhores, não sei por qual razão aderi a essa corrente. Minto! Sei sim. Aderi a essa vertente por enxergar um palco violento no cenário político de Brasília. Se cada um de nós carrega a frustração de ser um ator sem platéia e sem bilheteria; se nem mesmo a cada mísera atuação cotidiana e infalível nossa, recebemos o dinheiro para pagar uma cestinha de pastéis com uma cerveja barata... a atuação deve ter lá o seu valor em nossas vidas.
E é nesse palco cruel que é a capital federal, onde homens e mulheres exercem as mais diversas personagens, muitas vezes sem um roteiro (ou a idéia de um mesmo) que decidi aportar a minha vista e tecer uns comentários mínimos sobre a nossa miséria. Brasília fascina por vários motivos. A imensa maioria deles não são nobres. Mas nem por isso deixam de merecer um olhar até de certa forma carinhoso.
Um homem só, aposentado, que sofre de uma insônia pesada e fatal, passa as suas madrugadas olhando a esplanada dos ministérios e o Congresso Nacional. Ele se encarrega, sem que ninguém o tenha ordenado, de vigiar essa parte da cidade. Sente-se de alguma forma mais próximo das decisões. Basicamente sua função se restringe a espantar os gatos que procuram defecar nos gramados importantes da nação.
Com sua vara de madeira, ele espanta os felinos. O seu rádio de pilha fala sobre as notícias mais importantes e ele se vê em algumas informações propagadas. Vai dormir quando já é dia. É feliz e não sabe muito bem o motivo do seu bem estar. Nunca votou no PT, mas tem simpatia por Lula. É viúvo e tem duas filhas.
Seu neto não anda e sua vespa faz um barulho irritante. Consegue dormir em paz. Um bom homem...

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 7:47 PM



arquivo