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Confraria dos Crônicos
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De crônica, não basta a vida! Comments: Quarta-feira, Setembro 28, 2005 Análise sem fonte A minha fonte no Congresso Nacional acaba de me desprezar. Talvez tenha recebido alguma proposta mais interessante de algum outro jornalista, não sei... O fato é que o seu telefone celular está desligado, quando deveria estar funcionando mais do que nunca. Num momento ímpar para o cenário político nacional, a minha fonte resolve me desprezar. E como o meu acesso ao Congresso Nacional é como o de qualquer outro mortal, tendo que ser submetido a barricadas, barreiras, fiscalizações e inspeções; prefiro ficar por aqui mesmo. Aliás, não existe nada mais chato do que entrar no Congresso Nacional, notadamente na Câmara dos Deputados. Ainda não fui ao Senado, mas à Câmara sim. E várias vezes. Antes eu ficava injuriado quando assistia aos filmes dos Estados Unidos em que apareciam políticos latinos americanos obesos, corruptos, bufões, feios e sem alma. Mas o pior é que eles estão corretos. Basta uma pequena volta pela Câmara dos deputados para constatar a feiúra dos nossos parlamentares. Deus do céu... Mas eu também tenho que fazer uma análise sobre a eleição na Câmara, afinal, nesse país, qualquer um pode ser analista de qualquer coisa. Basta aparecer como tal e pronto. Virou um analista da melhor qualidade, e devidamente remunerado. Depois do fiasco da eleição de Severino Cavalcanti, episódio no qual a imprensa ficou com a cara no chão, por não ter detectado naquela ocasião a ascensão do candidato tosco, todos estão cautelosos até demais, chegando inclusive a citar o nome de todos os candidatos à presidência da casa. A ordem é apostar num segundo turno entre o candidato do governo e o candidato da oposição (que coisa difícil de se analisar, não?), mas com a possibilidade de existir uma surpresa, e um dos azarões chegar ao segundo turno. Análises meteorológicas, futebolísticas e políticas são parecidas até demais. O sujeito trata de não se arriscar, comentando obviedades baseadas em dados e históricos. Ou seja, em cima do muro mesmo. Contudo, eu vou fazer diferente. Provavelmente vou quebrar a cara, mas isso já é mesmo a minha rotina. Para não ficar em cima do muro, vou apontar um candidato que deve ser eleito presidente da Câmara dos Deputados e que representará muito bem a casa. Trata-se de Jair Bolsonaro (PP-RJ). Gente da melhor qualidade. Um homem capaz dos gestos mais humanitários, do tipo: levar um militar da reserva, que praticou tortura durante a ditadura militar, para o depoimento de José Genuíno, que foi um dos torturados pelo tal militar. Cheguei até a comentar que pela primeira vez na vida eu senti pena de Genuíno. Um sujeito que faz isso está pronto não só para presidir a Câmara. Está pronto para substituir o próprio Satanás na presidência do inferno, em caso de férias ou de doença do titular. Nem Aldo Rebelo (PCdoB-SP) e nem José Thomáz Nonô (PFL-AL). Quem deve sentar na cadeira de presidente da Câmara dos Deputados é Jair Bolsonaro. Para que a casa esteja devidamente espelhada e retratada. Para que o nosso nojo chegue a níveis jamais registrados. Porém, como somos brasileiros, toleráveis. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 2:51 PM Comments: Terça-feira, Setembro 27, 2005 Os ingredientes de uma revolução brasileira Existe sim uma intenção de se promover uma revolução no Brasil. Quem não consegue enxergar isso é porque certamente desconhece os fatores propulsores da ira nacional. O fato é que quiseram incendiar um povo com um escândalo colossal por parte da classe política. Nada que provoque mais tédio do que os escândalos envolvendo os políticos. Nada mais comum, mais cotidiano, mais corriqueiro. Insinuar, declarar e provar a corrupção dos políticos provoca bocejos nos patrícios. Não empolga, não comove, não aglutina, não desperta as paixões mais desenfreadas e desesperadas. Mas dizia eu que existe um desejo oculto de se promover uma revolução nunca dantes imaginada nessa pátria. Bem, o primeiro passo já foi dado. E como foi bem dado... Descobriram que existem juízes de futebol que recebem propina para interferir nos resultados. Quanta esperteza, meu Deus! De repente, não mais do que de repente, o assunto nacional virou esse. Torcedores dos mais variados times explodem de alegria ou de frustração ao verificarem que os resultados dos jogos nos quais seus times ganharam ou perderam podem ser cancelados. Um dos pilares que sustentam a nossa condição de cidadãos desse país foi atingido. Estrategicamente atingido, diria. Os mais variados programas esportivos cospem, com o despudor que lhes é característico, as mais variadas possibilidades e análises. A nação, por sua vez, acompanha estática o desenrolar dos acontecimentos. E a crise política, que já demonstra sinais evidentes de fadiga, que não consegue mais atrair os devidos holofotes que outrora conseguiu, fica em segundo plano. Nada mais justo, nada mais justo... Mas para que esse país realmente seja revirado pelos seus, dois outros acontecimentos devem acompanhar essa tragédia esportiva que por hora é primeira página até de comunicado interno de creche. Os ingredientes para uma revolução genuinamente brasileira, além da confirmação da compra de juízes de futebol e de bandeirinhas, são: * Provar, por A + B, e com direito à destaque na capa de Veja, que os resultados das escolas de samba do Rio de Janeiro de São Paulo foram comprados. Carnavalescos sendo acusados de receber propina de empresários ligados ao jogo do bicho para que prejudiquem ou favoreçam determinada escola de samba. "Improvável", diriam alguns. Tomara mesmo que seja improvável. Do contrário, esse país pára; * Provar, por A + B, que o cantor Zeca Pagodinho não é consumidor devota da cerveja Brahma. Bem, aí já seria crueldade demais para com o povo brasileiro. A decepção que o PT provocou no país não chega nem a 1% do que essa constatação provocaria no nosso já sofrido povinho; * Provar, por A + B, que a seleção brasileira perdeu a copa do mundo de 1998, na França por conta da bolada que a Nike pagou à CBF. Com essa constatação, não haveria forma de conter a ira da massa ensandecida. O grande problema das revoluções é sempre o depois. Nós nunca soubemos o que fazer desse país. Para aprender, precisamos de revoluções, ou de paciência. Ainda mais paciência. Inesgotável paciência. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 4:12 PM Comments: Segunda-feira, Setembro 26, 2005 Até no futebol Se existe uma coisa que sempre soubemos não ser séria é o nosso futebol. Inclusive, se futebol fosse um esporte muito sério e lógico, onde prevalece o tal do "que vença o melhor', séria no mínimo entediante. Para alguns mais radicais, inclusive, o juiz tem que errar. Em um tempo não muito distante fiz uma enquete curta e despretensiosa, com amigos, parentes e confrades, sobre o que achavam de se colocar no nosso futebol, como existe no futebol americano, aquelas câmeras, tipo lambe-lambe, ao lado da linha lateral, para auxiliar o árbitro em momentos de dúvida. Lance complicado, empurão dentro da área?: apito forte, pausa no jogo e correria (feias como só os árbitros sabem fazer, parecendo um avestruz...) para a linha lateral para rever o lance. Em poucos segundos o veredicto, sem erro. Sem margem de dúvidas. Durante a enquete sugeria até a opção de se colocar um árbitro para lances duvidosos. Alguém que ficaria com o sistema de som e uma câmera ao seu dispor. Empurrão não visto pelo árbitro dentro da área, após cobrança de escanteio. Apito pelo sistema de som e a sentença retumbante ecoaria pelas quatro bandeiras de escanteio: "Pênaltiii ". A proposta foi devidamente massacrada sempre que apresentada. Cheguei a temer pela minha integridade física em algumas entrevistas, tamanha era a revolta do entrevistado. Os mais românticos, como já disse, acham que a magia está no erro. Eu discordo. Acho que o segredo está no imprevisto do resultado. Está na melhor equipe geralmente perder quando deveria ganhar. No craque ser vaiado até os quarenta do segundo tempo, e sair ovacionado após jogada maravilhosa, que resultou em gol de placa. O erro, sinceramente, não sei se devia fazer parte do resultado. O imprevisto sim, a esse eu louvo e aplaudo entusiasticamente. Mas, como diria Rita Lee: "Mas nada disso importa ..." se por detrás do apito, ou de câmeras, estão pessoas como as recentemente presas, envolvidas em uma máfia, já apelidada de "máfia do apito". O mais interessante é que, diante de toda a podridão nas várias esferas do poder, onde nada de imprevisto ou de erro de juiz pode ser considerado "parte do espetáculo", o assunto da máfia de resultados no futebol chega a ser chocante. É como se nós achássemos aceitável tudo o que acontece na política, mas no futebol não. O futebol nos parecia ser coisa de brasileiros autênticos, de gente como a gente, coisa do povo. Nesse sempre acreditamos haver justiça dentro dos limites humanos. O nosso grito de "juiz ladrão" sempre foi da boca pra fora. Nunca acreditamos realmente nisso. Político ladrão todo mundo cansava de dizer, já até como resignação, mas nosso grito de "juiz ladrão" era coisa de apaixonado, briguinha de faz de conta. Na outra semana estávamos lá, para xingá-lo de novo. O que esquecemos de ver, ou não queremos ver, é que assim como na política, no futebol quem manda e desmanda, na sua maioria, são brasileiros assim "como a gente", autênticos. Nós é que estamos lá, adulterando resultados, espionando votações, desviando verbas públicas, pagando e recebendo propina. Como futebol e carnaval: coisa de brasileiro. Do aditor GustavoGT Natal 26/09/05 postado por: RODOLFO TORRES 8:25 PM Comments: Sábado, Setembro 24, 2005 APITO AMIGO Sabe aquele gol de mão aos 44 do segundo tempo? Ou aquele penalty inventado contra o seu time? Ou ainda aquela expulsão injusta do maior jogador do time do seu coração? Lembra que você passava horas discutindo acaloradamente no boteco da esquina, usando este fato como desculpa para tomar uma e outra. Se você sempre achou que aquilo era tudo arranjado e que o juiz foi comprado para unicamente levar o seu time para o buraco, você tinha razão. A veja publicou essa semana um esquema de corrupção de árbitros e compra de resultado de jogos que todo publicitário antenado e plugado gostaria de ter pensado. O árbitro em questão é Edilson Pereira de Carvalho (o mais famoso ¿ quadro da FIFA ¿ mas tem mais 9 árbitros envolvidos). Funcionava assim. Logo que Edilson era sorteado para um determinado jogo, ele ligava para um tal de Fayed (olha o nome do terrorista!), de Piracicaba, que pagava 15.000 (no barato) para o árbitro favorecer o favorito (redundante? mas é fato. Para não dar na vista). Daí o Bin Laden dos gramados tupiniquins apostava 200.000, mais ou menos, em sites brasileiros clandestinos de aposta e o árbitro inventava penalties, anulava gols válidos e validava gols nulos. Mas o favorecimento do favorito não serviu para encobrir por muito tempo as falcatruas. A polícia federal descobriu tudo e está providenciando prisões. O site de apostas, que não é besta nem nada, percebeu bem antes da polícia e nas últimas rodadas parou de aceitar apostas nos jogos presididos pelo árbitro vendido. A reportagem fala inclusive que a tabela do atual campeonato brasileiro estaria bastante modificada se anulassem os jogos que este árbitro apitou. Tem uma tabela corrigida para comparar com a oficial. Infelizmente o meu time, o Flamengo, não subiria nenhuma posição com a correção. Pelo contrário, perderia um ponto. Mas times como Ponte preta, Vasco e Cruzeiro despencariam na tabela. Agora, imagine se os jogos não fossem anulados e os pontos fossem para a equipe perdedora, a tabela viraria de cabeça para baixo. Mas pelo que consta na investigação, não há favorecimento de nenhum clube em particular, quer dizer os clubes não estariam envolvidos. Eu acho que a investigação está equivocada. Alguma irregularidade, com certeza, Eurico deve ter cometido. Futebol só é o esporte mais assistido, adorado e comentado do mundo porque não há cristão (ou muçulmano) que tenha certeza de um resultado antes do jogo. Times mais fracos conseguem derrubar gigantes e é nisso que está a graça. Se tirarem o acaso do futebol e se tivermos certeza que o erro do juiz foi de propósito, o esporte de garrincha perderá o rumo e cairá em desgraça popular. E dizem que no Brasil não tem terrorismo. Só não tem bomba, terrorista tem de ruma! Vade retro Satanás. O agudo Bruno Magalhães 24/9/5 postado por: RODOLFO TORRES 8:30 AM Comments: Sexta-feira, Setembro 23, 2005 A ação que vai de encontro ao espírito da nação O ato da punição é contrário à nossa natureza. O brasileiro não puniria nem o próprio Judas, jamais apedrejaria a mulher infiel e até na hora de votar em alguém para a crucificação, se absteria. Não, Deus não é brasileiro. Ao menos o Deus vingativo e ciumento do Antigo Testamento. O Deus do Novo Testamento adquiriu dupla cidadania e, só então, tornou-se um patrício. A vida pode ser o palco das maiores misérias imagináveis. O sujeito pode fazer o que bem entender, afinal, a liberdade é a maior das conquistas. Essa mesma liberdade, segundo a poetisa, não tem como explicar e não tem quem não entenda. E depois de uma vida, ou de um mandato (ou até depois de vários mandatos), o sujeito que se arrepender profunda e sinceramente, merece ser absolvido. Pois não existem mais motivos cabíveis para qualquer punição. Nada mais justo. Para que punir um pecador arrependido? O próprio Dostoievski nos ensina que a maior punição é a própria consciência. Ela sim, é o nosso juiz mais severo e implacável. E o arrependimento, geralmente seguido de choro e pedidos de desculpas, é a prova cabal da maior punição que pode algum dia ser aplicada a alguém. Portanto, chega de CPIs, de investigações, de acareações, etc. Se os parlamentares não possuem vocação nem para legislar, por que eles agora têm de arcar com a labuta de investigadores? Esse espetáculo da corrupção despida de maneira obscena teria de tudo para ser um dos maiores espetáculos que o nosso país presenciaria. Mas o Brasil é essencialmente um país cristão. A constituição até pode dizer que o Estado brasileiro é laico. Mas quem é que dá ouvidos à constituição brasileira? Vamos praticar o perdão. De nada adianta carregar tanto ódio e desilusão por uma pátria que condenada é, e sempre o será, ao fracasso. Os profissionais da área da saúde advertem que o perdão é uma dos melhores remédios para vários males que nos acometem. Entre eles, pressão alta e depressão. Os profissionais da área da antropologia já nos classificaram de homens cordiais. Os profissionais das mais variadas religiões também aconselham o perdão. Um carinha lá que já escreveu alguns hits, diz que não existe pecado abaixo da linha do Equador. Diante da nossa incapacidade de punir, e diante dos benefícios físicos e espirituais que é perdoar, vamos esquecer a roubalheira endêmica que sempre assolou o Brasil. Esquecer é a melhor maneira de conviver, e de sobreviver. Mas, se por algum acaso, surgir uma inexplicável sede de justiça no coração do nosso povo, é necessária a tomada de algumas providências. Entre elas, proceder como um Estado laico, admitir que a apropriação indevida de dinheiro público é crime, e o mais importante: transferir a capital federal para algum ponto acima da linha do Equador. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 5:37 PM Comments: Quinta-feira, Setembro 22, 2005 Brigas "Eu leio o JB". Só precisei dizer isso para que fosse fuzilado com olhares e palavras. Estávamos no apartamento de uma amiga em São Paulo e eu, na mais completa inocência, confessei que diariamente lia o periódico carioca. Bastou para que fosse execrado por colegas de todas as partes da federação. Argumentei que a minha profissão exigia que eu assim procedesse. Afinal, não lia apenas o JB diariamente, mas uma dezena de outros jornais. Uns maiores, mais famosos; outros nem tanto. E assim, colocando a culpa na profissão, e não no meu gosto, consegui sair vivo. Um pouco arranhado, é bem verdade. Mas respirando. E hoje, mais uma vez, li a coluna do jornalista Augusto Nunes, do JB. Bem, o texto do rapaz é uma das coisas mais coerentes da imprensa nacional. Na verdade, não leio o JB. Leio Augusto Nunes. Em sua coluna de hoje, ele publica uma frase do presidente interino do PT, o ex-ministro da educação, Tarso Genro. Eis o que Genro declarou à Folha de S. Paulo: - "Hoje, não vejo motivos para que alguém vote no PT". Sinceridade tardia essa a de Tarso Genro. Mas ao menos ela veio. Dessa vez, não vou falar do chiqueiro que é a política nacional. Vou falar de um tio, que defendia ardentemente FHC. Nas reuniões de família, ainda no primeiro mandato de FHC, ele fazia questão de frisar a veia de estadista do presidente naquele instante. Pelo outro lado, estava a esmagadora maioria da família. Éramos dezenas, e sempre fiéis ao partido dos trabalhadores. Tínhamos a certeza de que o Brasil não era um país justo porque o PT não governava. Hoje, é bem provável que todos neguem essa fé no PT. Mas eu me lembro... Se existe uma coisa que funciona em mim, para a minha própria desgraça, é a tal da memória. Brigávamos com esse tio tucano, e perdemos algumas vezes o contato com ele por causa de divergências políticas. Perdemos o contato com ele por conta de uma quadrilha. Aliás, éramos partidários de quadrilhas distintas. Esse é o mal dos petistas: não aceitam opiniões divergentes às suas. Hoje, a imensa maioria da família está com a cara no chão. Alguns ainda defendem o governo, afinal não conseguem abdicar de uma fé estúpida. Ou talvez seja por burrice mesmo. Não sei. O que importa é que o PT roubou muito mais do que simplesmente o dinheiro do Estado brasileiro. O PT roubou alguns momentos preciosos. Roubou sonhos, roubou anos, roubou energia e motivação de uma massa de ignorantes com alguma bondade no coração. Por mais que o PT devolva a dinheirama aos cofres públicos, alguns momentos estão perdidos para sempre. E lembro que meu tio tucano era uma voz isolada naqueles encontros. Mas, mesmo sendo uma voz isolada, contraditoriamente era o único que sorria quando discutia política com os familiares petistas. Muito provavelmente sorria da nossa estupidez de petistas sinceros. Afinal, nada mais patético do que um petista convicto. E a vida segue. Mas não brigávamos por ideologias. Brigávamos porque simpatizávamos com esse ou aquele político. Nada além de uma mera questão de "ir com a cara de fulano". A condução nos mandatos provam a simetria das condutas. Brigávamos pelo mesmo. Burrice, assim como pobreza, deveria ter limite... confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 5:05 PM Comments: Quarta-feira, Setembro 21, 2005 É PODA! Natal é uma cidade linda. Mas é uma cidade que ainda não se decidiu se é grande ou pequena. Em alguns quesitos, como população, violência, custo de vida, entre outros, há uma nítida tendência em querer ser grande. É verdade que na maioria dos casos ela parece crescer de forma desordenada, sem controle e sem medida. Uma das coisas mais visíveis é infelizmente o aumento da temperatura na cidade que reflete uma maior quantidade de concreto e asfalto e uma verticalização que não existia até bem pouco tempo. Assisti uma palestra muito interessante de um arquiteto e paisagista que infelizmente me foge o nome, onde o mesmo concordava com o que eu digo. Ele analisava o progresso desorganizado da cidade a partir das árvores das ruas de Natal. Mais ainda: da forma como eram feitas as podas dessas árvores. Segundo ele, que tem total autoridade sobre o assunto, as podas das plantas das ruas de Natal eram horripilantes. Ele classificava inclusive as podas, de forma bem didática, com nomes interessantes que talvez estejam errados ou trocados, mas que eram basicamente quatro: a) geométricas: podas em forma de figuras geométricas (cubos, triângulos...), b) surreais: podas sem formas geométricas identificáveis, c) grotesca: podas sem forma alguma, e d) dolorosas: podas em caule, onde só restava o tronco das árvores. Interessante é que ele chamava a atenção de todos para a necessidade das árvores, para termos mais vento e, por conseguinte, temperatura mais amena. Pasmem: Natal está mais quente que Assu, uma das cidade mais quentes do estado. Digo com conhecimento de causa. Já, já pega Mossoró. Então vamos todos sucumbir a calores quase infernais. E não suar, mas, derreter, igual picolé na praia. Mas em muitos outros detalhes, Natal ainda é provinciana. Nota-se carros, roupas e adereços alheios como medida de caráter e principalmente de sucesso. Fala-se muito da vida do vizinho. Faz-se questão de aparecer, ter dinheiro e principalmente poder. Por outro lado, faz-se questão de agradar visitantes, conversa-se nas ruas e no elevador, tem-se paciência com os estresses diários, evita-se discussões e constrangimentos públicos, entre outras coisas. Essa suposta ingenuidade natalense em relação a outras capitais é de fato benéfica. Alguns podem discordar mas revela uma alma mais pura, mais brasileira, menos globalizada, menos egoísta, mais disposta a discutir questões locais em detrimento de nacionais e internacionais, desde que não seja a novela das oito ou o filme de hollywood. Percebo ainda há um último bastião de inocência em Natal. Quando este se for, talvez, todos nós percamos a benevolência e entremos de vez no século 21 pela porta dos fundos. Trata-se da falta de concorrência proposital entre os vendedores de jornais das nossas esquinas em dias de Domingo. Não importa o colete que os garotos vistam ou a fonte que os paguem; todos, absolutamente, irão oferecer o Poti e a Tribuna, sem sequer enfatizar aquele que foi determinado vender, de forma igualitária. Quando a concorrência atingir os vendedores de jornal, Natal definitivamente perderá a virgindade e daí é só ladeira a baixo. Trepadeira quando quer se perder, só pensa na poda. O agudo Bruno Magalhães 21/9/5 postado por: RODOLFO TORRES 7:58 PM Comments: Terça-feira, Setembro 20, 2005 Destros e sinistros Eu também já fui um possuído pelas certezas da esquerda. Já levantei o dedo em riste e lati contra os que não compartilhavam da minha ignorância. Cheguei ao ponto de ter certeza de que a esquerda era o caminho mais aconselhável para o Brasil. Enquanto que o mundo já estava num outro dilema, eu continuava no campo de batalha de uma luta perdida. Mas creio que seja compreensível essa minha adesão ao partidão. Além do charme de ser um esquerdista, ainda contava com pouca leitura e uma educação que privilegiou os números, as fórmulas e as reações interiores do organismo humano. Alguém poderá dizer que estou desiludido devido ao escândalo político pelo qual o país passa. Ledo engano. Há tempos que não esboço mais o sorriso que sorri quando Lula ganhou a eleição. A rua na qual eu estava mais parecia com um carnaval da minha infância. As pessoas alegres se abraçavam e cantavam. Bebiam com uma sede descomunal a vitória daquele homem que seria o responsável por transformar o nosso país no que ele sempre mereceu ser. Ainda acreditávamos em líderes, ainda existia espaço para alguém que conseguia carregar os sonhos de uma nação chamada Brasil. Dois meses de uma ressaca histórica marcaram o período de transição dos governos, que tantos acreditavam que fossem administrações antagônicas. Apenas mais sessenta dias e a transformação viria tão certa quanto a fome que me dá na madrugada. Hoje, tudo é tristeza. Na verdade, o grande erro do PT foi ter vencido a última eleição presidencial. Pois tirou a última esperança que restava do povo brasileiro em dias melhores. O PT deveria ser o eterno vice, o sempre segundo colocado, o constante "medalha de prata". Assim como os amores mais profundos são os inalcançáveis. Foi muita crueldade desse partido plantar esperança num povo sem estudo e faminto. Isso não se faz. Lula deveria ser o eterno amor dos brasileiros. Aquele homem humilde que não conseguiu vencer a eleição presidencial porque nasceu num país injusto e fadado a excluir os seus melhores filhos. O povo o amaria, pois ele se tornaria mártir da sua própria condição de retirante. Ele seria um Garrincha da política, sem jamais ter jogado uma única partida no executivo. Pela primeira vez na história, um homem seria considerado um gênio apenas por dizer sê-lo. Diferente da gritante maioria de todos nós, que precisa provar nosso valor diariamente, Lula já havia provado o seu. Já estava de bom tamanho. Mas ele cometeu a pior mentira, que é a auto mentira. Convenceu-se de que seria capaz de administrar o Brasil. E que espetáculo feio somos obrigados a presenciar! Ao menos entramos nas regras que dominam o planeta. Só existe direita. E quem se declara esquerda, pertence ao campo dos mais destros que se possa imaginar. Por ignorância ou crueldade. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 8:16 PM Comments: Segunda-feira, Setembro 19, 2005 Entendam como um roteiro Música alta. Bem alta. Uma salsa ou um mambo. Imagens de arquivo de parlamentares discursando, seja na tribuna ou em algum palanque. Dançarinos executam um bailado em frente ao Congresso Nacional, à noite. Mais imagens de parlamentares, dessa vez se cumprimentando, de preferência com um largo sorriso estampado na face. A música permanece alta por alguns instantes. Entra locução em off. A música baixa. - Por que razão esses homens se brigam há tanto tempo, utilizando-se das mesmas promessas para chegar ao poder? A música sobe. Os dançarinos que bailam no congresso reaparecem. Vários ângulos e tomadas distintas dão uma idéia da festa que é o Congresso Nacional. As imagens dos políticos retornam, numa velocidade um pouco mais acelerada. A música permanece alta. Entra locução em off. A música baixa. -Será que nós já tivemos alguma vez em nossa história alguém com um verdadeiro espírito público? Ou isso é apenas uma balela? A música sobe. Imagens de votações no plenário da câmara são exibidas, onde os parlamentares comemoram e até chegam a cantar o hino nacional. Em oposição as imagens de alegria, depoimentos em diversas CPIs são exibidos. Choro, lenços e brigas. A música permanece alta. Entra locução em off. A música baixa. - No país dos tributos estratosféricos e das desigualdades colossais, é difícil entender por que a política é o celeiro dos ladrões A música sobe. Os dançarinos bailam, dessa vez sob uma chuva de notas de Real. Eles sorriem e alguns deles chegam até a rasgar algumas dessas notas. Outro ascende um cigarro com uma nota de 100 Reais. A alegria é imensa. E a música continua alta. Mais imagens de arquivo, dessa vez das vitórias em eleições de diversos candidatos. Entra locução em off. A música baixa. - E por que será que nós, brasileiros, somos absolutamente impotentes diante dessa quadro tão cruel que se apresenta diariamente a nós? A música pára. Os dançarinos saem sorrateiramente do enquadramento que tem por fundo o Congresso Nacional à noite. Entra o apresentador do programa. - Boa noite! O homem é realmente um animal político? Você sabe o que é a política? Como ela influencia a sua vida? Por que razão no Brasil o voto é obrigatório? Qual a diferença entre o voto em branco e o voto nulo? Brasília, o símbolo do poder. Como funciona o dia-a-dia no Congresso Nacional? Quanto o governo federal arrecada por segundo com os impostos? Quanto custa ao povo brasileiro cada parlamentar? Sociólogos e cientistas políticos explicam por que razão o parlamento brasileiro é considerado um dos piores do planeta. Saiba por que o seu voto não tem a menor importância diante do processo eleitoral atual. Conheça alguns brasileiros que fazem questão de não votar. Como a arte e o humor podem ajudar a nos proteger da desilusão política? O apresentador olha para uma segunda câmera posicionada à sua esquerda e diz: - Tentaremos responder a essas e a outras perguntas nessa série de documentários sobre o Brasil e o seu povo. Filmada em película e com o apóio das principais universidades e centro de pesquisa do país, a série "O que eu faço? Sou brasileiro!", começa agora. Continua... confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 5:14 PM Comments: Sexta-feira, Setembro 16, 2005 Teimosia Teimo em defender o mandato do atual presidente da câmara dos deputados. Teimo porque ele foi devidamente eleito, e porque ele é o reflexo das práticas políticas no Brasil. Ninguém possui maior autoridade para dirigir aquela casa legislativa do que Severino Cavalcanti. A presidência caiu-lhe como uma luva. É o encaixe perfeito, a combinação irretocável. Diria mais. Inclusive, poderia escrever semanas a fio para defender a legitimidade do seu cargo. Porém, o que ocorre é uma inversão de valores e posturas por parte da imprensa que custo a compreender. Ora, o terceiro homem da República é destronado devido a um cheque de 7.500 reais. Seguindo a hierarquia e a lógica, uma quantia de 22.500 poderia, da mesma forma fulminante, impedir que o presidente da República continuasse em seu posto. Porém, não são meros vinte mil reais que conseguirão tirar Lula do poder. Nem os milhões de dólares do valerioduto foram capazes disso. Cabe a eu reconhecer a relatividade das punições, quando o assunto é conseguir dinheiro por parte dos homens públicos. Ainda adolescente, comei a ler sobre a Anarquia. Lembro, com uma nitidez absurda, de um ensaio de um dos seus teóricos. Dizia o moço, do qual não lembro o nome, que uma das primeiras providências para depreciar a anarquia foi associá-la ao caos. A ausência de um governo é sinônimo de caos. Diria que nem tanto. Caos, na verdade, é algo muito mais próximo a nós. É, por exemplo, saber que sobra dinheiro nos cofres públicos e que os responsáveis por sua administração declaram que não há condições de se investir em programas sociais básicos, projetos que não tornariam nenhum dos seus beneficiados ricos. Apenas os transformariam em seres humanos. Não em criaturas famintas, abandonadas, que vagam pelas ruas das cidades brasileiras a procura de comida e abrigo. Essas pessoas conseguem falar, são também influenciadas pela fúria consumista, mas são seres humanos menores, de uma qualidade inferior. São menos capazes, ou inteligentes, ou sensíveis? Nada disso! Simplesmente não conseguem adquirir produtos e serviços mediante pagamento. Em suma, são dispensáveis. Ao escrever o parágrafo acima, notei que posso ser taxado como um reles panfletário de diretório acadêmico. Aquele sujeito que desconsidera a maldade inata do ser humano na condução dos jogos políticos. Mas não é isso. Considero, e muito, a maldade humana para com o ser humano. Mas é que teimo em querer estabelecer um limite tolerável para tanta falta de consideração com a vida de um semelhante. Teimo em crer que todos somos iguais, tanto para os diversos deuses que certamente existem no coração das mais variadas culturas desse mundo, quanto para nós mesmos. É! Eu sei. Teimo em ser burro. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 5:12 PM Comments: Quinta-feira, Setembro 15, 2005 A praça blindada O tenor da crise política foi cassado. Roberto Jefferson perdeu o mandato num misto de drama e comédia. Além, é claro, de muito falatório oriundo de todos os lados. Foi uma despedida triste. Como toda despedida que se preze, essa trouxe consigo muitas lembranças. Recordações de uma época de inocência na qual se acreditava num governo que se revelou um monstro. A desfiguração do governo Lula, num espaço de tempo tão curto, só aumentou a desilusão de um povo. A cassação de Roberto Jefferson deixou o parlamento mais pobre em termos de oratória. Em termos de roubalheira também. Mas quero frisar os aspectos positivos de um político como Jefferson, no atual cenário do parlamento brasileiro. Em primeiro lugar, o deputado do PTB do Rio de Janeiro tem o dom da oratória. E isso, diria eu, é mais do que suficiente para alguém ser um membro do legislativo. Afinal, eles não fazem outra coisa que não seja jogar palavras ao vento. Numa República na qual o executivo é um inveterado emissor de medidas provisórias, nada mais resta aos nobres parlamentares se não o verbo. E notem que muitos deles ainda lêem os seus discursos, que deveriam ser inflamados ou contidos, e lêem mal. Não conseguem nem interpretar uma raiva, uma indignação, um constrangimento. Lêem como crianças, para a professora primária gorda, com papada e cheia de varizes (Nelson Rodrigues é demais). Não houve o benefício da delação premiada para Jefferson. Mas, se prestei bem atenção em seu discurso, o deputado fez questão de apontar uma das maiores hipocrisias dessa crise. Essa vergonha nacional não consegue atravessar a praça dos Três Poderes e chegar ao Palácio do Planalto. Mesmo com as movimentações bancárias exorbitantes em bancos urbanos e rurais, as reuniões há centímetros do gabinete presidencial, a doação de milhões de reais para uma empresa do filho do presidente, a participação de empresas portuguesas no esquema de Marcos Valério, a confissão de um esquema de caixa 2 em campanhas eleitorais, os já tão esquecidos fundos de pensão de estatais, etc... Porém, o agora cuspido Jefferson pode perder as estribeiras e revelar novas fontes e trilhas para que toda essa história desemboque num único e escasso ponto: o presidente Lula. Que, segundo o ex-deputado, se não pecou por atos, pecou por omissão. O presidente omisso, que agora se orgulha e defende a política economia que sempre condenou, e com essa condenação, alicerçou a sua trajetória política; é um malandro. Usa o seu carisma colossal como atenuante da sua irresponsabilidade e incompetência administrativa. O desfecho dessa crise só será algo próximo do sério se as investigações conseguirem atravessar a praça intransponível, arrombar as portas palacianas e despejar um indivíduo bastante simpático, mas que infelizmente não tem a mínima condição de continuar exercendo o cargo de chefe de Estado. Ou de estábulo. Tanto faz mesmo. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 5:40 PM Comments: Quarta-feira, Setembro 14, 2005 TV QUE SALVA Ontem aconteceu uma cena grotesca, na já para lá de grotesca televisão brasileira. Acredito e espero que vocês não tenham visto porque o programa em questão é o bobo, mas limpinho programa do Leão na Band. Na verdade, um oásis de médio nível na baixaria da programação aberta. Como não tenho TV por assinatura, sou obrigado a me contentar com atrações desse nível, mas que ainda é mil vezes melhor que Ratinho, menos chato que faustão e muito mais honesto que Gugu. Apenas fazendo um parêntesis, já que o tema permite, devo admitir que o fato de não ter TV à cabo faz com que cada vez mais eu leia livros (o que é muito bom) e descanse assistindo a TV Cultura, a única que escapa do lugar-comum da programação aberta. Faço menção honrosa a belíssimo Sr. Brasil, com o ótimo Rolando Boldrin, e o tradicional programa de Inesita Barroso. Palestras maravilhosas sobre filosofia também fazem parte da grade, através do Café Filosófico. Só para fechar o parêntesis, tem um que eu adoro que o Observatório da Imprensa, simplesmente porque os jornalistas detonam eles mesmos e eu fico bolando de rir. Mas engraçado que isso, só TV senado, mas está é por assinatura, uma aberração num Brasil de horário político gratuito. Mas voltando ao tema, passou no Leão um cúmulo da deturpação de valores da sociedade brasileira. Descrevo o ocorrido: quatro assaltantes invadiram uma casa de classe média em São Paulo com uma família dentro, um casal e duas crianças. Tudo ia bem até que algum vizinho fez a besteira de avisar a polícia, que chegou rapidamente; na verdade dois segundos a frente do furgão de reportagens da Band, num furo. Logo, logo, os assaltantes perceberam que a situação que eles estavam não tinha jeito. Na melhor das hipóteses eles iam ser linchados pela população ou pela polícia, isso se não morressem. Quando viu o furgão da Band, o Chefe do bando viu uma luz no fim do túnel, ligou a TV da casa e descobriu o programa feito ao vivo de Leão. Ligou para a produção e reverteu a situação. Entrou ao vivo em horário Nobre para conversar com Gilberto barros. Contou uma mini-história de sua vida repleta de desgraças, muito provavelmente verdadeiras e depois apelou para o bom-senso do público nacional através do apresentador, que rapidamente tomou as rédeas da negociação com competência, talvez melhor que a própria polícia. Num misto de tensão intensa vividos por todos e êxtase pelo aumento estratosférico na audiência, o locutor levou ao fim a quase-tragédia com os marginais se entregando, sem machucar ninguém e sem morrer ou apanhar. uma ocorrência que certamente não iria acabar bem se não fosse a televisão ao vivo. Em qual país os bandidos iriam recorrer a TV? Só aqui. Nesse caso, Comissão de Direitos Humanos, OAB, Igreja, nada iria salvar a pele dos bandidos. Salve a TV brasileira. Principalmente se for ao vivo e se mexendo. O agudo Bruno Magalhães 14/9/5 postado por: RODOLFO TORRES 12:31 PM Comments: Terça-feira, Setembro 13, 2005 Um pouco sobre economia, abafada pelo muito de política Os artigos de jornal sobre economia são enfadonhos. Escritos numa linguagem muito técnica, conseguem afastar o mais perseverante dos leitores. Eu sempre gostei de jornais, cresci lendo o JB. Lia sempre de trás para frente, já que a última página era a de esportes e trazia notícias do então glorioso time da Gávea. Também lia a parte de ciências e o caderno B com as notícias culturais. Até na política, às vezes beliscava alguma manchete. Já a economia, era a esfinge que eu teimava em não decifrar. Além daquelas tabelas confusas com cotações múltiplas, os textos eram como roseiras sem as flores, só espinhos. Daquela leitura dolorosa, eu fugia. Um erro que hoje percebo com absoluta nitidez. Sem adentrar muito no "economês", mesmo porque meus conhecimentos são ainda rasos no assunto, tentarei levantar algumas questões. Sempre me incomodou notar que a maioria das pessoas se preocupa bastante em como ganhar mais dinheiro (aqui em Brasília nem se fala!) normalmente visando uma vida confortável e cercada de bens materiais - uma boa casa, carro do ano, essas coisas de classe média. Até aí, tudo bem. Vivendo numa sociedade consumista como a nossa, é difícil escapar dessa neurose coletiva. O medo da pobreza é um dos grandes medos que acompanha a humanidade. Mas o que me espanta é o mau gerenciamento do que se ganha. Não tem cabimento office-boy comprar tênis importado, assim como é absurdo entrar no cheque especial no fim do mês e pagar os juros de agiota profissional dos bancos. Esses exemplos são óbvios, mas tem muito mais. Estou cansado de ouvir: tudo que eu economizo, coloco na caderneta de poupança, é mais seguro. Segurança tem limite. Há alguns anos, os fundos de renda fixa, um tipo de aplicação bastante segura vem nocauteando a poupança mês após mês. Aí o argumento muda: mas são só 0,2% a mais (já descontado os 20% de imposto). Falta o básico conceito matemático dos juros compostos, os famosos "juros sobre juros". Ao longo do tempo, o que se deixa de ganhar com a falácia da segurança da poupança pode ser uma montanha de dinheiro. Outra coisa que me angustia é a forma com que alguns entram intempestivamente no atraente mercado de ações. Acho que não precisa ser um leitor de Gazeta Mercantil para saber que quando as TVs noticiam que as bolsas estão dando um lucro incrível, estão em alta, o momento de comprar ações já passou. Ingenuamente, o cidadão desavisado compra, daí a pouco, a bolsa cai, já que os grandes investidores precisam "fazer" capital. E o desastre final, o nosso amigo incauto fica desiludido e vende na baixa, ficando com o prejuízo e jurando nunca mais comprar ações. Mercado de ações é coisa para longo prazo. Quando se diz longo prazo, é tempo superior a dez anos. Quem não tiver dinheiro que possa ficar preso por tanto tempo, deve manter distância do Ibovespa. Por fim, algumas palavras sobre previdência privada. As pessoas há algum tempo já perceberam que não podem depender da aposentadoria oficial, não mesmo. E de forma sensata, viram que a previdência privada é essencial. Outro medo essencial do ser humano é o medo da velhice. Por mais que alguns tentem, estão aí as clínicas de cirurgia plástica abarrotadas, a velhice é implacável. Então, o real caos a ser evitado é uma velhice vulnerável do ponto-de-vista econômico. Nesse contexto, a previdência privada é o caminho, já que força um mínimo de disciplina para a poupança mensal. Apenas cuidado com algumas armadilhas. Alguns bancos, aproveitando-se da imagem de segurança, de que nunca vão quebrar, vendem alguns planos com taxa de administração de até 9% ao ano. Aí não há juros compostos que resistam. O negócio é pesquisar e na dúvida, recorrer a alguém da área, que seja confiável. E não deixar de acompanhar. Esse ano, houve uma mudança da legislação sobre previdência que não foi muito divulgada na mídia, mas com grande repercussão no montante a que se tem direito no futuro, relacionado ao imposto de renda que se pagará na hora de receber o dinheiro. Cabia ao poupador fazer a alteração do contrato; muitos nem tomaram conhecimento e perderam o prazo. Alto lá, com dinheiro não se brinca! Luís Gustavo Ferreira postado por: RODOLFO TORRES 5:00 PM Comments: Dois anos de confraria Li ainda na semana passada o resultado de uma pesquisa que media a capacidade de leitura do brasileiro. O resultado foi para lá de trágico. Não tenho os números decorados, mas creio que mais de 70% dos brasileiros entre 15 e 64 anos não conseguem interpretar um texto que lêem. Acho que é mais ou menos isso. Com base nesses dados, não é de se espantar que nós estejamos nessa situação na qual nos encontramos atualmente. A nossa miséria, e falo em todas as categorias de miséria (e não somente na miséria financeira), vem da nossa profunda carência em educação. Cabe aqui frisar que a educação necessária para nos redimir não é a educação que recebemos nos colégios. Essa educação também é deficiente. Até mesmos nas instituições particulares de ensino fundamental e médio, que são menos horrorosas do que as públicas, a forma utilizada não é a que deveria ser. De jeito nenhum! Mas hoje é um dia de alegria. Vamos falar de coisas alegres? Então tá. Quero aqui registrar o segundo ano da Confraria dos Crônicos, uma instituição cultural que chegou muito mais longe do que todos os envolvidos nela poderiam imaginar que ela um dia chegasse. Graças ao confrade Bruno Magalhães e a sua digníssima mãe, registramos alguns dos nossos textos em um livrinho muito simpático e honesto. Confesso que sinto falta de ler mais textos dele por aqui, mas vida de médico exige demais mesmo. Por falar em médico, além do confrade Gustavo Torres (o mais metalingüístico dessa confraria), que vem batendo sucessivamente recordes de comentários em suas crônicas; é necessário frisar a, digamos, aquisição de mais um confrade. O também médico Luís Gustavo, que só veio a acrescentar a essa Confraria, além de trazer uma leveza muito particular em suas crônicas. Não nos esqueçamos do confrade que, apesar de não escrever com tanta regularidade para esse espaço (depois da interjato então nem se fala), é o responsável pelo nome dessa confraria. O advogado Rafael Loiola, que atualmente está morando comigo, é de suma importância para esse projeto. Enfim, dois anos de vida. Muitas crônicas já foram escritas, muito tempo diante do monitor para que uma idéia fosse espremida, e, tenho certeza, muita satisfação de fazer o que estamos fazendo. Afinal, escrever num país de analfabetos, e numa língua sem a mínima representatividade, é uma prova definitiva de amor ao texto. Diante dessas circunstâncias, só me resta dizer algo do tipo: - "Muito obrigado doutores". confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 2:07 PM Comments: Segunda-feira, Setembro 12, 2005 Já deu em pizza! Eu não aprecio muito a matemática. Ela é cruel, maniqueísta, radical. Ou é, ou não é. Bem, ao menos a matemática que aprendi no colégio. Alguns amigos, que estudaram uma matemática mais avançada, me confessaram que a matemática pode sim ser abstrata. Não me perguntem como! Mas que ela pode, ela pode... E um exemplo prático de uma matemática abstrata se evidencia no número de deputados que irão a julgamento por causa do mensalão. Apenas 18 deputados. Alguns renunciaram, como é o caso do Bispo Rodrigues ou do Costa Neto. Outros eram do próprio PT. Outro, até ministro era. Mas mesmo assim, como é possível que o mensalão, instrumento criado pela cúpula palaciana para que os projetos do governo fossem aprovados na câmara, tenham apenas atingido a um número tão reduzido, num universo de mais de 500 parlamentares? Ora, o governo foi obrigado a fazer alianças com outros partidos políticos para que os seus projetos fossem aprovados. Isso é claro. E o mensalão foi o meio encontrado para tal fim. Agora, será que apenas menos de duas dezenas de parlamentares se beneficiaram do valerioduto? Será que menos de 10% dos deputados federais receberam propina? Será que todos os corruptos do congresso nacional cabem apenas em um simples ônibus? A matemática é cruel. Não é possível que um governo aprove um projeto de lei comprando uma quantidade tão ínfima de parlamentares. Isso é política e matematicamente impossível. Tudo bem que o presidente da República não é um homem estudado. E que nem todos têm a obrigação de demonstrar genialidade nos números. Mas diante da quantidade de dinheiro rastreada, exposta e diante desse esquema monstruoso de corrupção, é razoável pensar em apenas 18 deputados cassados? Condena-se demais o presidente da Câmara pelo fato de Severino Cavalcanti querer amenizar a punição dos envolvidos. Somos todos Severinos, como diria João Cabral de Melo Neto, se não exigirmos o fechamento do Congresso Nacional. Alguém pode dizer que algum parlamentar, porventura, não está envolvido em corrupção. Admito que eu possa contar em uma mão o número de políticos honestos. Mas quando tratamos um câncer, matamos as células doentes e as células sadias. O parlamento brasileiro não tem condições (e me pergunto se algum dia já teve) de prosseguir as suas atividades. Seria mais honesto com a nossa condição transformar o congresso num prostíbulo, e deixar que as cortesãs nos guiassem em nossos caminhos submissos e nas nossas noites incertas. Seria mais digno para conosco. Ah, seria. Vamos apagar as luzes e dizer que a festa acabou. E o pior disso tudo é que esse parlamento é o retrato da nossa pátria. Pátria miserável, parlamento miserável. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 6:01 PM Comments: Sexta-feira, Setembro 09, 2005 Onde estão os caras? As pessoas dizem: "as coisas já não são mais como antigamente". Vejo como isso é uma dura verdade... Pois era só antigamente que você via jovens estudantes queimando os pneus nas principais ruas para reivindicar por liberdade de expressão, pela dignidade humana. Jovens que lutavam por algum ideal que podia até lhes custar a vida. Não encontramos hoje mais aqueles que lutaram com dureza, mas sem perder a ternura (assim falou o grande Humberto Gessinger em uma de suas músicas, bem como naquela célebre frase do Che, que hoje é estampa em várias camisas de garotos que acham que ele é cubano... ). Somente encontramos aqueles que dizem que tudo está errado e ficam sentados num banco de parada de ônibus com cara mal humorada descontando as frustrações ao ver uma revista mostrando o último festival de cinema húngaro que contou com a presença de atores globais. Eu fico perguntando então: "onde estão os caras?". E não sou somente eu, são vários por aí que gostariam de encontrar alguém que lutasse pelo que poderia ser uma causa perdida. São vários que ainda acham que transgredir o padrão é apenas vestir roupas diferentes e dizer que o "sistema" não presta e ficar andando sem rumo dentro de shopping center...Esses que se dizem anarquistas e socialistas, mas que vivem isolados a caminhar dentro da Meca do consumo. Eu pergunto onde estão os caras que se vestem normalmente, que trabalham, que possuem suas vidas comuns, mas que por dentro não esqueceram a vontade de mudar o mundo, começando pela sua rua, depois pelo bairro e quem sabe por toda a cidade. Eu pergunto onde estão as boas novas, pergunto onde estão os heróis travestidos de cidadãos-comuns como a gente vê em quadrinhos o jornalista que de repente têm força para extinguir todo o mal das injustiças, o CDF motivo de gozação que nas horas vagas livra uma cidade do terrível vilão. Mas infelizmente deles não temos fatos, e sim expectativas. Que em nossa juventude ainda existam aqueles que se dispõem a sair da caverna e contar aos outros o que lá foram viram e o quanto estão perdendo. Que a esperança deixe de ser uma simples faixa de luz de sol que atravessa a fresta deixada por uma porta para se tornar toda a imensidão que ilumina nossos dias propiciando o amanhecer e o despertar que nos livrará desse coma. Felipe Magalhães Colaborador postado por: RODOLFO TORRES 2:56 PM Comments: Quinta-feira, Setembro 08, 2005 A hierarquia das implosões E mais uma vez, um peixe pequeno é punido. Aliás, julgado e condenado numa velocidade exemplar. Digna dos melhores sistemas desse planeta. Falo, claro, do deputado Severino Cavalcanti. Que, diga-se de passagem, foi eleito com a maioria dos votos de seus colegas deputados. Severino será cuspido e execrado como uma aberração, quando na verdade ele é apenas a caricatura fiel da classe política brasileira. Sempre ouvimos falar que apenas os ladrões de galinha é que são punidos no Brasil. Severino é a comprovação dessa certeza que transborda em nossa consciência. Quem recebia um mensalinho é prontamente punido. Os que arquitetaram, pagaram e receberam o mensalão... Aí já é outra história. Além de reduzirem para dezoito o números de deputados a serem cassados, e de restringirem o escândalo de pagamento de propina a parlamentares a um mero caixa 2; o governo que condecorou Severino Cavalcanti na semana passada com a maior ordem da República, agora pensa apenas em quem será o seu sucessor na presidência da Câmara. Ou seja, cuspiu o coitado do Severino. Quando digo coitado, não estou praticando exagero. O atual presidente da Câmara é um corrupto de quinta categoria, de periferia, de favela. Nada comparado ao monstruoso esquema da quadrilha do Planalto. O que são dez mil reais mensais na frente das quantias de Marcos Valério? Ora, o Brasil é um país que pune o furto pouco. Seja ele praticado por quem quer que seja. Partindo dessa conclusão, somos obrigados a nos convencer de que o atual presidente da República jamais será deposto. O povão idolatra os grandes ladrões. E o mesmo povo, que detesta a si próprio, detesta aqueles que não conseguem realizar grandes ações, como o próprio povo. Não vejo problemas na permanência de Severino Cavalcanti na presidência da Câmara, estando Lula na presidência da República. Mas como a corda sempre rompe no lado mais fraco, o pequeno ladrãozinho será impedido das suas atribuições, após ter sido devidamente eleito pelos votos dos seus colegas deputados. O presidente da República, por sua vez, tem que torcer para que o novo presidente da Câmara seja um aliado. Não duvido da burrice do PT. É bem capaz deles não emplacarem novamente um presidente da Câmara. Apenas faço votos para que o terceiro homem da República que assumir em breve, não seja apenas o terceiro. Seja o primeiro por trinta dias. Até que novas eleições sejam convocadas. E que essa palhaçada sirva para alguma coisa. Por exemplo, para que tomemos a mínima consciência de que a classe política, em geral, é, por excelência, asquerosa. E que esses homens, jamais, sirvam de depósito para a nossa esperança num país melhor. Até porque, nem bons atores eles conseguem ser. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 11:00 PM Comments: Orquídeas Ganhei há alguns dias uma orquídea. Após espanto inicial, ainda em meu consultório, comecei a conviver com tal ser. O que a princípio me causou espanto visual e uma boa sensação, afinal quem não gosta de ser lembrado, começou a me angustiar, de certa forma. Tudo o que sabia até então sobre orquídeas é que elas eram extramente belas (concordo) e que exigiam extremo cuidado em seu manejo, sob pena de virem a ficar carecas ou falecerem de desgosto. Logo procurei junto à planta, em vão, um manual de instruções ou algo parecido, diante de tamanha responsabilidade. Nada além do cartão de agradecimento de uma paciente muito simpática, nada. Nenhuma dica, por mais simples que fosse, nenhum conselho. Até a quantidade de água necessária me deixou em pânico. Coloco ou não coloco água agora? Será que ela resiste a tarde toda sem água? Será que se colocar água e ela já tiver ¿bebido¿ hoje ela morrerá de desgosto? Perguntas sem resposta, que se seguiram a outras várias perguntas tão ou mais intrigantes. Chega o tenso momento de deixar o consultório. Olho para a orquídea, como se querendo saber como ela se sentia, se estava preparada para o passeio, ou para o transporte. Como levar uma orquídea no nosso intenso mormaço e calor, sem lha causar sérios e irreversíveis danos físicos e psicológicos? Saí em disparada para o carro, entrei e liguei o ar condicionado no máximo, canalizando o vento em sua direção. Se fiz certo não sei, porém o confrade ausente, meu primeiro orientador informal a respeito das orquídeas, me disse que além de correta, a minha conduta foi crucial e decisiva para a sobrevivência da planta. Sem aquele ar refrigerado na sua cara, a estufa teria afetado psicologicamente a orquídea, que poderia vir a se suicidar minutos após. Agora já mais calmo, notando que após alguns dias ela ainda sobrevive, exuberante, chego até a relaxar. Às vezes acho que ela esta meio revoltada, mas paciência, se sobreviveu em minhas mãos por esse tempo já é lucro. A partir de agora é que virão os cuidados, e que cuidados. Segundo conselhos do ausente e de sua digníssima nubente Camila, água nem muito nem pouco, se de menos mata, se demais afoga. Quanto? Descobrirei, cada uma exige uma quantidade. Outro ponto importante: a raiz tem que respirar... já providenciei inclusive um cateter de oxigênio para colocar na terra. Mais interessante ainda... ela é uma planta que necessita de contato com outras,mas o contato com as outras pode transmitir doenças incuráveis, quiçá fatais. Ou seja, precisa de contato, mas o contato deixa ela morta de raiva. Por último e não menos importante... qualquer sinal de alteração no seu humor, ou qualquer coisinha que fuja dos padrões de normalidade, leve-a rapidamente ao médico de orquídeas. Isso mesmo, médico. Vou inclusive pensar em colocar um serviço de ambulância UTI 24 horas: SOS orquídeas, com todo o aparato necessário para a sua sobrevivência até a chegada no hospital das orquídeas. Se a orquídea gostar do atendimento, quem sabe ela não dá uma paciente de presente para o médico que cuidar dela Do aditor GustavoGT Natal 08/09/05 postado por: RODOLFO TORRES 10:52 AM Comments: Pétalas do jambeiro Meu querido amigo Édipo tem um costume de me mandar fotografias de pétalas de algum jambeiro qualquer. Pra ser bastante sincero, creio que não é do mesmo pé de jambo. Mas isso pode não se confirmar. O caso é que ele envia as fotos, sempre que estou morando em alguma outra cidade. Acredito que ele não tem nenhuma intenção de me maltratar com esse seu ato. Na verdade, tenho a mais límpida certeza das suas boas intenções, da sua demonstração de carinho para com esse amigo tão distante. Porém, não estaria mentindo se dissesse que dói um pouquinho quando vejo os cílios vermelhos no chão. Mas não pense, meu querido Édipo, que desaprovo ou desgosto das fotografias que você me envia. Ao contrário. Muito ao contrário! Tenho uma teoria muito particular em relação ao jambeiro. Para mim, o jambeiro é a árvore que mais encarna o espírito de Natal. Pois é uma planta que chora, é uma planta triste. Produz um fruto extremamente saboroso, e chora para anunciar a delícia que produzirá. Penso até que chora sangue. O fato é que o jambeiro chora. E se sou fascinado por lágrimas, se aprecio o correr do pranto em direção ao chão; nada mais justo do que meu amigo lembra-se de mim quando observa as ruas manchadas por essas pétalas de tristeza. Sempre que puder Édipo, envie esses registros para mim. Pois não produzo frutos deliciosos, nem choro e nem mancho a cidade anunciando o que sai de mim. Também a minha dor não traz a beleza, nem o ornamento para as calçadas. Quisera eu que o meu sangue escorrido fosse belo no início da manhã. Mas sou tão triste como um pé de jambo. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 12:02 AM Comments: Terça-feira, Setembro 06, 2005 Reapodrecer E quem não for capaz de rir do que está acontecendo com esse país é, no mínimo, na melhor das hipóteses, mais canalha do que os ladrões do congresso. Ah, tenho o costume de jogar todos numa vala comum. Não só eu, mas todo ser humano tende a generalizar. E nessa generalização toda, todos nós tendemos a considerar os políticos como uns gatunos desalmados, que é o que eles são. E a sátira? Por que não a utilizamos como uma espécie de escudo e de vingança contra os desvios colossais de verba pública? Será que a atual safra de patrícios não é capaz de elaborar algo que consiga, de maneira momentânea, dar um sossego à alma? Que espécie de país é capaz de sufocar a própria iniciativa privada com leis indecentes e impostos estratosféricos? Além de vender as suas maiores riquezas naturais e de adotar uma política econômica criminosa e imoral. Bilhões de dólares para o pagamento de dívidas no exterior e nossa gente morrendo de fome e doente. Morre-se no Brasil por quase nada. Enquanto isso, a Argentina, que possui uma economia menor do que a nossa, consegue mais de 70% de desconto no pagamento de sua dívida com o FMI. Chamamos os nossos vizinhos de caloteiros. A nossa imprensa especializada em economia tem ataques histéricos de reprovação toda vez que os argentinos batem de frente com os credores internacionais. O governo argentino diz com todas as letras: "A dignidade do povo argentino não está em negociação". E acabou! Enquanto por esses lados, a dignidade do nosso povo, que nunca existiu para o poder público, consegue se deteriorar ainda mais. É como apodrecer mais de uma vez. Reapodrecemos diariamente enquanto povo, enquanto país, pátria, nação e República. Só temos a vocação para o fracasso. Só existem elementos para um riso cético no Brasil. E como o nosso povo não é dado a revoluções e apedrejamentos, guilhotinas e incêndios; fiquemos a assistir à exposição obscena das práticas políticas do nosso país, que nunca conseguiu amar devidamente os seus. Amanhã tem festa e eu vou cantar o hino nacional. Talvez até chore por nós. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 12:47 PM Comments: Sábado, Setembro 03, 2005 Severino, o espelho do Brasil Ouvi dizer que as três maiores revistas semanais brasileiras vão bater forte no presidente da Câmara dos Deputados, Severino Cavalcanti. Vão bater forte por uma razão simples até demais: contraditoriamente é Severino quem está segurando o presidente e o vice em seus postos. Como? Explico. Quem diabos, em sua sã consciência, entregaria a presidência da República (mesmo que somente por 30 dias) a um cidadão como Severino Cavalcanti? Porém, e contudo, e entretanto, não quero aqui acusar o deputado Severino Cavalcanti de ser um quadrúpede, ou representante dos piores hábitos políticos brasileiros, ou símbolo de um modelo arcaico de política. Ao contrário. Quero aqui dizer que Severino representa muito bem, sim senhor, o parlamento do Brasil. Diria até que nunca na história republicana dessa nação, o parlamento jamais chegou a possuir um presidente da Câmara dos Deputados que fizesse tanta justiça aos que ele representa. Bater em Severino é muito fácil. Dizer que ele foi eleito pela maioria dos deputados com o intuito de ridicularizar um governo que, em si, é o estandarte do ridículo; chega a ser óbvio demais. Porém eu não consigo enxergar em Severino uma ilha de absurdos. Ele não está isolado, não é o único e nem mesmo uma exceção. Severino é regra. Severino é a vida real. Severino é o retrato do político do Brasil. Portanto, antes de começar a sentir raiva de Severino, tento fazer um exercício de sanidade e procuro me convencer de que ele está onde está por justiça e mérito. Foi eleito pela maioria dos seus colegas parlamentares e, como autoridade que é, merece todo o meu respeito e até uma pitadinha da minha admiração. E, cá para nós, perdemos mesmo a estribeira e o pudor. Antes, deveria existir alguma ilusão qualquer, em todas as áreas da vida. Antigamente, o sujeito se casava para ser feliz. Ou acreditava no poder do voto, na bondade das pessoas e por aí vai. O que se observa hoje é a explicitação da nossa condição de criaturas desonestas e desagradáveis. Tomara que Severino permaneça como o terceiro homem da hierarquia republicana nacional até o final do seu mandato. Se é para aturar cretinos no poder, por que não fazê-lo em doses cavalares, hiperbólicas? Por que razão extrair do cenário político brasileiro um sujeito que faz a nação se enxergar exatamente como ela é: ignorante, corrupta, mesquinha, atrasada, ridícula? confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 10:20 PM Comments: Sexta-feira, Setembro 02, 2005 Qual é o ódio correto? Era uma vez um pequenino país da América Latina. Numa dessas inexplicáveis reviravoltas da história, o povo desse país começou a se organizar enquanto nação. A reforma agrária foi feita, as contas estavam equilibradas, quase a totalidade da população sabia ler e a felicidade ensaiava tornar-se cidadã de lá. Quero crer que a poesia também se desenvolvia em suas terras, afinal esse país fala uma língua latina. Se bem que isso não é uma justificativa tão plausível, afinal o maior produtor de poesia do mundo é o Irã. Pois bem. Certo dia, a Inglaterra decreta que nós brasileiros deveríamos acabar com esse exemplo. Um exemplo que não poderia ser seguido justamente por ser tratar de um bom exemplo. E deslocamos nossos soldados para o Paraguai. O nosso exército levou a destruição e o desespero para as terras paraguaias. Queimamos casas, matamos crianças, estupramos mulheres, senhoras e jovens. Matamos pelo simples prazer de matar milhares de paraguaios. Envenenamos a água dos nossos vizinhos e suas lágrimas não foram consideradas lágrimas humanas. Famílias foram destruídas por nós. Um êxito militar completo. Alteramos o destino do Paraguai. E hoje em dia, tratamos esses honrados vizinhos como contrabandistas da pior espécie. É a sina do vencedor. Nomear o derrotado ao seu bel prazer. E eu, assim como todos os brasileiros, sou de alguma forma julgado pelos paraguaios. Com justiça ou não, também sou culpado pela destruição do Paraguai. Falo isso porque alguns brasileiros, que também são indiretamente responsáveis pela Guerra do Paraguai, estão felicíssimos com a catástrofe em Nova Orleans. Eles se sentem reconfortados com a tragédia que agora está instalada sobre os Estados Unidos. Utilizam a barbaria provocada pelos EUA no Iraque como argumento para a satisfação. Deve ter sido Einstein que disse uma célebre frase: "Há duas coisas infinitas: o universo e a tolice dos homens". Bem, só sendo realmente muito tolo para celebrar catástrofes naturais sobre qualquer povo. Eu não morro de amores pelos Estados Unidos, inclusive tenho lá algumas razões para não gostar muito desse país. Mas isso não é motivo para alegria, quando um furacão destrói casas, mata pessoas e torna a vida de milhares de seres humanos um completo caos. Os Estados Unidos não erraram apenas no Iraque. Os caras vêm promovendo muita desgraça pelos quatro cantos do planeta há décadas. Porém, se isso é justificativa para a nossa alegria diante das infelicidades que se instalam nos EUA, tenhamos também a mesma consciência de que as nossas desgraças (e que não são poucas) também devem servir para nutrir a felicidade de outros povos. Ainda falando em tolice, uma coisa é comum aos que vibram de alegria com as tragédias nos Estados Unidos. Eles defendem o governo de Fidel Castro. E nesse festival de incoerências e ódios desgovernados, tanta gente perde a beleza e o encanto de permanecer calado. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 7:57 PM Comments: Quinta-feira, Setembro 01, 2005 Só canto Altemar Apenas e tão somente ontem, me dei conta de que estava sentindo falta de uma certa música. Sentindo falta, na verdade, expressa muito pouco, quase nada, do significado da ausência dessa canção em meus dias. Eu estava, na verdade, órfão dessa melodia. Trata-se da música "Peito vazio", do mestre Cartola. Também é necessário frisar que, além de toda a poesia de Cartola, os instrumentos de sopro, notadamente o saxofone, tornam a música uma delícia. E lá vou eu ouvir apenas os trinta segundo dessa música numa rádio da internet. E essas rádios sabem maltratar. Elas funcionam como uma espécie de traficante da boa música. Apenas oferecem uma pequena dosagem de graça. Queres ouvir Cartola? Ouça os teus trinta segundo e depois compre o CD. Quanta injustiça, meu Deus! Quanta injustiça. Fiquei a tremer uma boa parte da noite passada, com os mesmos sintomas dos indivíduos em abstinência de alguma coisa muito poderosa. O meu caso era a falta da música de Cartola. Ou apenas os trinta primeiros segundos. O que, na minha situação, apenas servia para agravar o quadro. Contudo, a boa música é sempre reconhecida. Não tem jeito! Sempre inicio o meu dia cantando no chuveiro. Vou de Cartola à Pixinguinha, de Vinícius ao Trio Irakitan, de Chico Buarque a Gonzagão. No começo dessa minha mais nova mania, provavelmente influenciada pelo deputado Roberto Jefferson, cantava baixo e tímido. Porém, para espantar alguns males, comecei a interpretar para a pia e o sanitário. Perdi completamente a vergonha e dou meus berros quando necessário, atingindo notas altíssimas, apesar da minha voz grave. Quando tocava numa banda cover do U2, cheguei a alcançar uma nota mais alta do que o The Edge. Desculpem os sem voz, mas é a pura verdade. E hoje, no início da tarde, quando estava de volta ao meu pequeno reino, noto um pequeno bilhete no chão. Abro-o sem saber o que encontrar nele, pelo simples motivo de nunca ter visto aquele papel na minha vida. Estava escrito, de uma forma que considerei muito carinhosa, a seguinte mensagem: Canta Lulu Santos. Nessa hora, fui atingido por uma daquelas vergonhas que não necessitam mais do que uma pessoa para brotar. Pensei comigo e cheguei à conclusão que devo parar de cantar. É verdade... Para se ter uma idéia de como os cômodos desse prédio são unidos, quando o elevador pára no meu andar, a minha cama treme. Acordo de manhã com o beijo da vizinha no marido. Acompanho o sofrimento do pequeno estudante que está tendo contato pela primeira vez na vida com a matemática, e com a sua temida tabuada. Ficarei quietinho, juro. A não ser que peçam para que eu cante Altemar Dutra. Com esse, me descontrolo. E canto mesmo. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 8:11 PM
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