Confraria dos Crônicos

De crônica, não basta a vida!



Comments: Quarta-feira, Agosto 31, 2005

A crise que cansa

Confesso que estou perdendo as forças e o estímulo para acompanhar essa crise política. E não se trata de nenhuma falta de interesse da minha parte. Muito pelo contrário. Como cidadão e jornalista, tenho mais do que o dever de ler o calhamaço de jornais que leio diariamente para me interar dos fatos. Porém, aprendi a me controlar diante dos escândalos. Não sou mais um estudante de comunicação social portador de resposta simples para todos os problemas dessa nação.
Não uso mais chinelos, meus cabelos não são mais longos e até a barba foi raspada. Não morro de amores por nenhuma espécie de governo, principalmente pelo governo do meu país. Seja qual for, seja qual for a época.
Sinto-me abatido diante das notícias, que apenas servem para revoltar os espíritos menos preparados para a realidade dos fatos. Outro dia, uma cortesã me falou da podridão de Brasília. Porém, Brasília é apenas o reflexo de todo um país.
Estou fugindo de debates, discussões e toda a sorte de análises da política nacional. Para mim, o que está ocorrendo por aqui mais se parece com a atmosfera de sonhos dos filmes de Fellini. Aliás, não consigo mais discernir o que fantasioso e o que não é, quando o assunto é política.
Se tivesse uma mísera câmera filmadora, até que poderia fazer uns documentários curtos e sugar a proposta do mestre italiano para retratar o que se passa na capital federal. Todos estão tristes, parados e sem reação. O homem que viria para salvar essa pátria está envolvido num escândalo que está se tornando morno, seja lá por quais forças.
Os patrícios não têm disposição para expurgar esse homem que se protege das acusações utilizando a sua origem humilde e a sua pseudo-bondade.
As conveniências para manter esse senhor em seu trono são poderosas demais. E a "inteligência" de esquerda brasileira, que tanto defendeu Lula no passado, está tímida e discreta. Os intelectuais desse país estão ajoelhados. Sempre me disseram que todos eles são canalhas. Sempre me disseram...
E para finalizar esse texto que está com um leve sabor de fel, vou citar ninguém menos do que Nelson Rodrigiues. Que foi taxado de tudo o que se pode imaginar. Tanto pela direita quanto pela esquerda. Principalmente pela esquerda que, para Nelson Rodrigues, é a pior forma de direita possível.

Perguntaram, outro dia, a um amigo meu: - "Você é de direita ou de esquerda?". Ele calcou a brasa do cigarro no cinzeiro e respondeu: - "Não sou canalha". Ninguém entendeu. Houve aquele suspense irrespirável. Nova pergunta: -"Como assim?". E o meu amigo: -"O canalha joga em qualquer posição". E não disse nem mais uma palavra. Mas, se bem o entendi, ele insinuou o seguinte: - só o canalha precisa de uma ideologia, que o justifique e absolva.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 6:24 PM


Comments: Terça-feira, Agosto 30, 2005

O sono, a justiça

Subir uma ladeira ao meio-dia, após um almoço não tão leve, é a prova maior de que a vida não vale muito à pena. A cada passo dado, o corpo pede uma respiração mais profunda e o ar não chega aos pulmões. Parar seria pior, pois ao menos a inércia garantia um movimento qualquer. A garrafa de guaraná na mão esquerda começa a esquentar rapidamente. Já não há como sair daquela situação. O jeito é acelerar o passo e torcer para não desmaiar naquela calçada escaldante.
Enquanto morria, olho para um campo de futebol improvisado, com uma grama bonita e dezenas de homens com seus macacões azuis a correr pelo gramado. De início achei que se tratava de alguma brincadeira infantil, como aquela que consiste em tocar o outro, que deve ficar imediatamente paralisado. Mas existia uma bola. Alguns homens sem camisa, e outros com o já citado macacão pesado e azul.
E todos corriam, todos sorriam e gritavam. Não havia lateral, o que tornava a partida mais insana. O terreno era irregular e aqueles homens sumiam do meu campo de visão algumas vezes. Como o meu fôlego era pouco, só acompanhei a partida enquanto por lá passava. O que mais me interessava no momento era alguma sombra. A poeira que estava respirando também não ajudava em minha permanência no local.
Deixo os gladiadores para trás e já estou quase chegando ao meu lar. Debaixo de uma pequena árvore, três outros trabalhadores, também com os seus macacões azuis, descansavam na sombra pequena por sobre o gramado. Um deles disse que estava ficando velho demais para essas partidas de futebol em pleno meio-dia de Brasília. Foi recriminado.
Esses homens trabalham numa construção que é a minha paisagem. Agora mesmo, consigo vê-los. Estão de pé, em volta de uma mesa improvisada com uma tábua de uns vinte metros de comprimento. É possível enxergar uma garrafa. Creio que seja de café. A conversa deles está preguiçosa. Um deles, o único que está sem capacete, parece ser o líder. Provavelmente está contando os seus feitos nas partidas de futebol, ou nos campos do amor. À sombra plena, eles decidem que o momento é de voltar ao trabalho. Mais alguns instantes de indecisão misturados com preguiça, e agora um por um caminha devagar, para erguer o prédio que ainda está pequenino.
Alguns deles, ao final da jornada, que se inicia às sete da manhã, vão beber uma ou duas doses de cachaça e depois tomar a condução para os seus lares. Para que amanhã, sem falta, possam começar mais um dia com aqueles barulhos que tanto caracterizam uma construção.
Vão em paz meus caros. Bebam ao seu dia, e que durmam o sono dos justos. Se possível, até um pouco mais tarde. Para que também o meu sono injusto seja mantido por mais algum mísero tempo.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 3:47 PM


Comments: Sábado, Agosto 27, 2005

Conexões

Quando a falta de assunto a ser tratado é evidente, ou melhor, a falta de disposição para tratar de alguns assuntos referentes à alma me consome, a escapatória mais honrosa e prática na atual situação é discorrer sobre a crise política. Assunto por demais comentado, e que causa em grande parte das pessoas uma náusea imediata.
Um exemplo é o nosso amigo petista. Ele, que é um beato do partido dos trabalhadores, anda cabisbaixo e procura desconversar quando o assunto é a roubalheira generalizada e eterna nesse país. Mas com o PT não seria diferente? Seria...
O sujeito que é devoto, por vocação e destino, a esse governo propõe um raciocínio curioso e doentio. Está claro que a corrupção é escandalosa. Isso não tem mesmo como negar. Mas a corrupção petista é, na visão dos partidários do governo, menos inaceitável do que as outras corrupções. E por que razão os indivíduos conseguem elaborar idéias dessa natureza? A razão mais provável é a defesa do seu objeto de fé. Imaginemos milhões de brasileiros andando por aí sem carregar uma mísera fé, como se fossem apenas sacos plásticos vazios que se deslocam ao sabor das correntes mais vagabundas de ar.
Talvez, por esse motivo, a corrupção no governo Lula é menos horripilante do que as corrupções passadas e futuras. Lula é, para milhões de brasileiros, uma espécie de messias com a faixa presidencial. Se fôssemos tecer algumas palavras para as futuras gerações sobre o que representa Lula para o brasileiro humilde, algo parecido com isso sairia: indivíduo de grande carisma entre os milhões de famintos e analfabetos da nação, que consegue projetar nos patrícios desgraçados uma espécie de piedade e comoção generalizada.
Mas, como sugere o título dessa croniqueta, quero propor uma questionamento que até agora não foi (ou foi pouco) levantado. Qual seria a relação entre uma das primeiras medidas tomadas por Lula em 2003, a criminosa e imoral reforma da previdência, com os desvios de milhares de dólares para paraísos fiscais dos fundos de pensão de algumas empresas estatais?
Será que, diante de fatos tão escabrosos, existe argumento legal para invalidar uma das maiores covardias feitas contra o trabalhador brasileiro? Covardia implementada por um governo de um partido que se diz dos trabalhadores.
Reforma da previdência e desvios dos fundos de pensão de diversas empresas estatais. Quais serão as conexões que os une?

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 4:26 PM


Comments: Sexta-feira, Agosto 26, 2005

Quero, de novo, cantar...

E que a tristeza chegue, que seja capaz de entrar nesse pequeno cômodo e que por aqui permaneça no seu silêncio costumeiro. Não serei eu a fechar-lhe a porta. A tristeza é o meu cão fiel, e o seu latido mudo é música. Que traga também a solidão, essa senhora tão digna e distinta. Mulher com a qual sempre sou feliz, e que sempre solicito quando as vozes são muitas e o apego é nulo. Sejam bem vindas. Vamos brindar essa noite de sexta-feira como só nós sabemos fazer. Sem os compromissos dos sorrisos, nem muito menos as atenções cordiais.
A porta estará aberta, você bem sabe. Não é necessário bater. Aliás, como sou bobo. Nunca tivemos esse tipo de formalidade entre nós. Mesmo diante de vários, tu chegas sem avisar e me toma de abraço. Permaneço contigo por tanto tempo, e os outros, que são cegos a ti, nem se dão conto que bailo a maioria dos meus dias ao som do teu sussurro lento e grave.
Mas tu és mulher. E como tal, sempre me abandonas. Mas retornas. E a recebo apenas com o alívio dos incapazes de seguir numa trajetória incerta sem o teu amparo.
Qual é a razão da tua ausência nesses meus dias? Por acaso duvidas que não me sufoco sem ti? Ou és tão tola ao ponto de acreditar nas minhas risadas, num sábado desses qualquer?
O telefone acaba de tocar ao meu lado. É um grande amigo que vai brindar à distância o aniversário da mãe. Ele está só por aqui e precisa de mais um copo na sua mesa, para que essa data não fique tão desprestigiada. É um bom amigo. Apesar de recente, é um bom e velho amigo.
Iremos beber no estacionamento de algum supermercado. Levantaremos as garrafas ao céu e ele provavelmente dirá que a mãe dele é uma pessoa extraordinária. E vou acreditar nele... Mesmo sem conhecer a sua mãe, serei capaz de jurar que as suas palavras correspondem à realidade.
Porém, deixarei a porta aberta para ti, tristeza. Bem sei, é verdade, que tens todas as chaves das minhas habitações. Mas faço questão de conceder-lhe mais essa prova de lealdade.
Quando retornar, e perceber que estás deitada em minha cama, tentarei não fazer barulho. Se acordares, pedirei milhares de desculpas e a farei dormir novamente.
Peço que me acorde amanhã, bem cedo. Para ver através da janela os trabalhadores de um canteiro de obras e ter a certeza de que não mais me abandonarás. Ao menos aos sábados.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 10:30 PM


Comments: HORROR

Imagine-se acordando num ambiente estranho, futurista, com barulhinhos insuportáveis e freqüentes, onde todos vestem roupas sem cor e falam um dialeto que você reconhece, mas não compreende. A última coisa que se lembra é que foi dormir na sua cama, ao lado da sua bela esposa e que usava um pijama listrado. Percebe, segundos após acordar, que está pelado, com sondas enfiadas em vários orificios, sem conseguir falar uma palavra, sem mover todo o seu lado esquerdo e com uma dor danada na cabeça.
Parece uma nave espacial com seres extra-terrestres criados à nossa imagem e semelhança. Ou então um outro país muito distante. Você se pergunta o que está fazendo ali. Será que querem roubar o seu rim? Será que é uma experiência de abdução?
Não deve ser nada disso. É mais fácil ser um sonho. Nada mais real do que um sonho. Você fecha os olhos e tenta dormir. 10 segundos depois, vê que não vai conseguir. Abre os olhos de novo e tenta se beliscar para acordar do pesadelo. Mas sua mão esquerda não se mexe e sua mão direita - surpresa! - está amarrada com uma atadura. Em vão, você tenta gritar, mas não emite nenhum som.
Você começa a ficar preocupado; cadê sua família, sua mulher, seus filhos, sua mãe! O nervoso aumenta; você tenta se mexer para chamar alguém; agita o braço e perna direita, revira o pescoço e abre a boca. Parece que alguém viu; está vindo em sua direção. Ela tem cara de boazinha e está sorrindo para você. Você pensa que ela vai lhe soltar. Na passagem chama alguém. Esse parece que é o chefe; é mais sério, mas também tem cara de bonzinho. Você se contorce mais ainda para eles saberem que você quer se soltar. Mas eles não estão soltando, estão segurando. Desespero. O chefe manda apertar mais a correia do braço e colocar outra na perna. (Não, não!) você grita sem som. (Eu só quero me soltar. Me deêm um lápis que eu escrevo). Pânico. Eles agora são muitos. Estão todos te segurando. Alguém chega trazendo um objeto cilíndrico, mas não é um lápis, é uma seringa imensa, que logo é conectada a um dos muitos tubos que penetram em você.
Antes de dormir, você ouve o chefe comentar que essa agitação inconsciente é normal em quem sofreu um derrame cerebral. Já em sono leve, você ainda escuta uma voz feminina dizer: 'Será que ele vai ficar impotente? (AAAAHHHH!!!!).

O agudo
Bruno Magalhães
26/8/5

postado por: RODOLFO TORRES 2:42 PM


Comments: Quinta-feira, Agosto 25, 2005

A cidade dos enforcados

O pequeno pássaro perdido de beleza nesse céu que é mais baixo e maior do que todos os outros da federação, caiu ressacado e com sede no asfalto. Não demorou muito para que fosse destroçado por um automóvel que seguia na sua pressa justa. Pouco tempo depois, algumas bolhas vermelhas estouravam no meio daquele corpo composto de penas quebradas e da mesma cor do solo em que se encontrava. Nem as moscas apareceram para velar a tal ave.
Estamos num período crítica em Brasília. Um período difícil e extremamente desconfortável para todos os que aqui habitam. É num momento como esse, crucial por excelência, que os brasilienses sentem o desconforto de aqui viverem.
A umidade do ar está baixíssima. Não é raro um desmaio no meio da rua. Os vendedores de picolés estão faturando absurdos. Há aqueles que rastejam pelas sombras. A cena mais corriqueira após o meio-dia é a de algum homem sentado, debaixo de algum toldo, olhando de maneira preguiçosa o movimento dos outros.
Isso não é natural. Ninguém deveria ser obrigado a viver sob essas condições. Certas senhoras andam com lenços úmidos no nariz, para que consigam caminhar por mais alguns metros. Um jovem, em seu desespero de asfixiado, encheu os pulmões d'água ao respirar o precioso líquido.
Próximo ao pôr-do-sol, a poeira dança no ar. As vestes de qualquer um ficam vermelhas, os olhos ardem e a garganta não consegue gritar. A saliva em Brasília nessa época é feita de barro. Até as cusparadas são rubras.
Não há disposição para que muita coisa seja feita. Na verdade, não há nenhuma disposição. As pessoas que usam lentes de contato devem ter um cuidado redobrado. Não duvido que alguém já perdeu a visão por aqui nessa época, devido às lentes extremamente ressecadas.
Como disse, não há muita disposição nesse período. E até os amores ficam mais áridos. Transforma tudo o que sentimos num monte de farelos de barro, que entram facilmente pelo nariz. Contaminando o que encontram por dentro.
Brasília é irrespirável. Sem qualquer hipérbole. Não há solução visível para isso aqui. Cachorros de rua vêm em sua direção para lamber-lhe os sapatos, na tentativa de extrair algo parecido com água. Eu não tenho mais forças para escrever o quanto isso aqui dói. E como dói.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 11:22 PM


Comments: Quarta-feira, Agosto 24, 2005

Minha noite

O chiado da grama regada, que mesmo eu estando há três andares acima, e com o barulho de um animado grupo de amigos que bebem alegremente num bar próximo à minha janela; é gostoso. Parece mais com aquele barulhinho de frigideira à espera de um bife ou de algum queijo menos importante, e por isso mesmo, mais gostoso.
Um casal que passa no corredor, discutindo num tom de voz não tão amistoso. Eles moram no mesmo andar que eu, com todos os filhos devidamente criados Ela reclama de saudades da sua mãe. Ele por sua vez diz que não suporta mais esse assunto. As vozes vão se perdendo, até que desaparecem por completo.
Frango grelhado, salada e brócolis. A moça da lanchonete pergunta se quero talheres de plástico. Um sinal afirmativo meu, e ela carinhosamente acrescenta alguns guardanapos e um palito de dente.
Caminhada à noite. A maioria das lojas fechadas. Algumas pessoas correndo e um homem esbaforido passa ao meu lado. Ouve alguma música e certamente sonha que está fazendo a coisa certa para si. Deve estar mesmo...
A mocinha mal-humorada do elevador despreza o meu "Como vai?". O molho italiano da salada pinga na minha calça e isso certamente causou mais irritação na linda e irritada jovem. "Vê se não suja o elevador...", é o que me diz. "Vou me esforçar, mas não garanto", respondo sem jeito.
Jantar satisfatório e uma sensação boa de estar comendo alimentos saudáveis, pelo menos por hoje. Notícias lidas e uma sensação de saturação. Quero ler poesia. Quero ler Pessoa. E bate a saudade de um livro desassossegado.
O cumprimento desajeitado de uma menininha que encontro, também no corredor, quando vou jogar o meu lixo no latão. Ouço um "Boa noite senhor" encabulado. O olhar dela é para baixo e o seu passo, apressado. Antes de entrar em seu apartamento, a pequenina pula, como se estivesse alegre por não ter sido alcançada por aquele homem feio que acabara de encontrar.
Muitas saudades de todos. E uma saudadezinha em especial do cachorrinho lá de casa. O país em convulsão, e com tantos assuntos a serem abordados, falo da minha noite...

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 10:44 PM


Comments: Terça-feira, Agosto 23, 2005

A tênue linha divisória das duas ressacas catalogadas

Realmente, a minha palavra não anda lá essas coisas. Por mais que me esforce para transparecer alguma credibilidade, não consigo. E sei lá por que razões, não tenho esse dom de me tornar um indivíduo respeitável. Deve ser uma espécie torta de destino ou uma vocação com defeito de fábrica. Mas, se é assim que a vida se apresenta diante de mim, o jeito é prosseguir. Ir adiante, mesmo que o fardo seja tão intolerável quanto a ressaca que agora carrego no meu ventre.
Confesso que demorei um pouco para entender Deus. Era um daqueles seres que enxergavam na exatidão da ciência, todas as respostas possíveis. Até que me neguei a crer que o amor é uma reação química. E se for dessa forma mesmo, azar o do amor. Recuso-me a delegar os meus desesperos e alucinações a um mero par de reações cerebrais. O meu amor é diferente. Na verdade, ele nem passa no cérebro. Vai direto ao coração, ataca as pernas e me deixa de quatro. Também me faz babar e prejudica a visão.
Mas eu estava falando da ressaca que trago no meu útero. Hoje mesmo fui chamado de mentiroso no mínimo umas duas vezes. Tudo porque estou de ressaca a dois dias seguidos. O problema é que as ressacas gostam de mim. Talvez a despedida seja difícil para elas. Talvez seja isso. Ontem mesmo, acordei e procurei um chapéu de asno. Queria ter passado o dia inteiro com ele. E se as ferraduras o acompanhassem, não seriam rejeitadas. Sentia-me um asno por ter bebido daquela forma.
Ainda mais aqui. Explico! A ressaca em Brasília é potencializada, no mínimo, e sem exagero, por três vezes. A umidade relativa do ar é tão baixa que quando você acorda na manhã seguinte, parece que a sua boca é uma fogueira apagada. Os sonhos dos bêbados de Brasília são diferentes dos demais patrícios alcoolizados. Enquanto no resto do país, o sujeito sonha que está bebendo água, por aqui, o ébrio tem a certeza de queimar no inferno.
Outro fator que deve ser considerado nas ressacas federais é o tédio visual que é Brasília. Por onde se anda, a impressão é de que se está no mesmo lugar. Tudo é igual, padronizado. Não existe aquela sensação gostosa de se saber o local em que se está, apenas olhando para os prédios. Pois aqui, tudo é tão "o mesmo". De que adianta o corpo livre se os olhos estão presos às imagens repetidas, que é esse panorama. Prefiro, sinceramente, o contrário.
As ressacas de Brasília são mais cruéis do que as outras. Sem ar úmido, e com a vista saturada do mesmo, o pobre diabo se vê num livro de Huxley. Que foi o verdadeiro arquiteto dessa cidade.
Não tenho o costume de ler placas, e nem mesmo gosto de fazê-lo. Acho a leitura de placas um ritual sádico. É mais divertido ler paisagens. Andando por aqui, sinto que estou lendo um livro de no máximo cinco letras.
Em relação à ressaca moral, creio que essa não muda muito de um lugar para o outro. Ao menos, na ressaca do espírito, Brasília não é diferente das demais localidades.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 8:29 PM


Comments: Segunda-feira, Agosto 22, 2005

Bossa Nova, hino carioca

Na última segunda-feira, tive o privilégio de assistir à pré-estréia nacional de "Coisa mais linda", documentário sobre a Bossa Nova, mostrando como foi o início desse movimento que foi marco da cultura brasileira e ganhou projeção mundial, (numa era pré-globalização e pré-Internet!). Foi uma agradável sessão nostálgica para os mais velhos, e um belo passaporte para os mais novos que, como eu, têm apenas uma vaga idéia a respeito do tema. Estiveram presentes o diretor do filme Paulo Thiago e o músico Roberto Menescal, que abrilhantaram a noite e falaram um pouco sobre o projeto, antes do apagar das luzes.
É um filme interessante mesmo para quem não morre de amores pelo estilo musical em questão. Alguns podem estranhar o ritmo do filme, um pouco lento, mas é um ritmo que segue os acordes da música. Traz depoimentos de Roberto Menescal e Carlinhos Lyra, os principais ¿atores¿ do filme, mas também imagens de arquivos, como Tom Jobim, no auge, tocando piano nos EUA, os shows improvisados feitos em Copacabana, no início do movimento, a musa Nara Leão e muito mais. De se lamentar, a ausência de João Gilberto, provavelmente relacionada à sua folclórica reclusão. O grande mito do movimento só aparece em imagens da época e nas histórias contadas pelos outros, revelando algumas de suas manias.
Enfim, é uma bela homenagem àquele grupo de jovens ousados e talentosos, que com a benção do poeta Vinícius de Moraes e regidos pelo maestro Tom Jobim, conseguiu desbancar com criatividade e usando apenas a voz, um violão e o indefectível banquinho, os artistas consagrados da época que, diga-se de passagem, esnobavam e ironizavam aquele novo gênero musical, mas quando perceberam a magnitude (e as vendagens) que o movimento atingiu, mudaram de lado e tentaram também colar o rótulo de Bossa Nova.
Além do aspecto meramente musical, um ponto fundamental e tocante no filme é o cenário. Ambientado quase que exclusivamente na cidade do Rio de Janeiro, mostrando imagens da sua época áurea, dá para invejar os felizardos que viveram naquela cidade maravilhosa, aquele verdadeiro paraíso, e é impossível não fazer um paralelo com os dias atuais, da transformação da cidade maravilhosa na "cidade de Deus". Saem de cena a atmosfera de entusiasmo, a democratização do lazer na praia, uma cidade repleta de mirantes e de um mirabolante pôr-do-sol. São substituídos pelos traficantes, pelos morros dominados e pelo asfalto amedrontado, a cidade partida de Zuenir Ventura. Também entram em cena os brizolas, as beneditas e os garotinhos que ajudaram a enterrar a nossa mais bela cidade ao lado de tantos outros jazigos de inocentes chacinados na guerra civil que veio no esteio do tráfico de drogas.
Mais do que Olinda, Salvador, as cidades históricas de Minas e mesmo Brasília, com seu modernismo arquitetônico, o Rio de Janeiro de quarenta anos atrás é que mereceria ter sido alvo de tombamento pela Unesco. O Rio foi o nosso maior patrimônio histórico. A cidade deveria ter sido congelada no tempo, como se fez com o centro histórico de Parati, por exemplo. Não propriamente pela arquitetura, pois o Rio nunca dependeu de seu casario ou de seus prédios e pontes. Mas um tombamento do charme e da atitude de seus moradores. Um povo que sempre soube aproveitar os prazeres da vida e empurrados por uma paisagem encantadora, difundiu mundo afora um estilo próprio. Que essa cidade, hoje infelizmente morta, descanse em paz. É improvável, mas quem sabe um dia a nossa bela cidade adormecida não possa recobrar os sentidos. Por ora, nos restam as imagens de arquivo, de quando ela era viva e pulsava em cada botequim de esquina, animada por um violão e enfeitiçada pela garota de Ipanema.

Luís Gustavo Ferreira

postado por: RODOLFO TORRES 4:42 PM


Comments: Sábado, Agosto 20, 2005

Homens: esses petistas

Após a terceira garrafa de vinho, todo assunto adquire uma áurea de alucinação, de tema indispensável. Foi o que ocorreu comigo e com um amigo. Bebíamos vinho em sua casa, até que a quarta garrafa foi aberta e o assunto passou a ser Beethoven. Eu tinha lá as minhas certezas em relação à música clássica. Assim como ele também tinha as certezas dele. E nesse confronto de certezas, surgiu um impasse. O que seria o "Tan tan tan tannnn", da 9° Sinfonia de Beethoven?
Eu tinha a certeza de que eram as batidas da morte na porta do compositor. Já o meu amigo tinha a certeza de que eram os credores do músico alemão. A conversa esquentou, o tom de voz subiu e eu fui embora injuriado. Como é que uma pessoa não sabe que na 9º Sinfonia, é a morte quem bate à porta de Beethoven?
Porém, para humilhá-lo definitivamente, decidi contar com a opinião de um especialista. Na época, o senador Arthur da Távola (PSDB/RJ), que até hoje apresenta na TV Senado o programa "Quem tem medo de música clássica?". Escrevi-lhe, contei a situação, e já estava com a impressora ligada para esfregar na cara do ignorante a minha certeza. A resposta não chegou de imediato. A amizade se reatou, sem maiores problemas, porém a resposta não chegava. Até que, alguns meses depois, a resposta finalmente foi dada. O especialista diz que não é nem a morte, nem os credores. Ele falou o que era, mas sinceramente não me recordo. Só sei que a minha certeza e a do meu amigo estavam erradas. E brigamos por causa da nossa ignorância.
Falando em memória, realmente a minha tem falhado comigo. De vez em quando ela funciona que é uma beleza. Mas em algumas situações, nem espremendo o cérebro. Numa palestra para estudantes de jornalismo, o apresentador Marcelo Resende contou uma piada. Não sei qual era o propósito de tal anedota. Na verdade, sei sim. Era atingir o PT. Mas não me lembro do começo da piada, só do final. Portanto, aí vai uma piada mais ou menos semelhante à contada por Marcelo Resende, em 2000, num congresso de jornalismo no Recife , que vem bem a calhar com o atual cenário político. E fim de semana é para se relaxar mesmo...

Um homem encontra uma mulher, digamos, num bar. Conversa vai, conversa vem e eles acabam numa cama. Até aí, tudo normal. Fizeram o que deveria ser feito. Início de mais um dia e após algumas carícias preguiçosas e beijinhos leves na face, o homem diz para a mulher:

- Eu sei o que você é.

Assustada, e sem entender muita coisa, ela diz:

-Como assim?

Ele então esclarece os fatos:

- Você é bailarina. Pelos seus pés deformados, você só pode ser uma bailarina. E não é bailarina de final de semana não. É bailarina profissional.

Os dois ensaiam mais algumas carícias e beijos. A mulher, então, toma a palavra:

- Eu também sei o que você é.

O homem sorri, com um certo desprezo, e pergunta o que ele é.

- Você é PT.

Pergunta, de forma carinhosa, para a mulher:

- Como assim meu amor? Eu sou PT? Por que?

A resposta vem fulminante:

- Você é PT porque quando está embaixo, só sabe gritar. E quando está em cima, não sabe o que fazer.


confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 6:31 PM


Comments: Sexta-feira, Agosto 19, 2005

PneumoTórax

Com o envolvimento do ministro da Fazenda, Antônio Palocci, na pocilga dos fatos atuais, a crise política adquire ares de tango. A tragédia se anuncia. O único e escasso pilar de sustentação do governo Lula foi atingido. E o mercado, que é histérico, já se escandalizou. Resultado: queda da bolsa e subida do dólar. Agora sim a crise vai para frente. Do que importa a moral, a ética, o sentimento republicano e a justiça? Quando a economia vai "bem", não existem razões razoáveis para a queda de um governo.
Contudo, não cabe contradizer as ordens dos senhores banqueiros. Eles, que possuem um instrumento diário de pressão, que se traduz nas bolsas de valores de todo o mundo, controlam as ações dos políticos. Desculpem proclamar obviedades, mas é assim que a coisa funciona. Enquanto nós, meros eleitores, contamos apenas com um instrumento ridículo que é o voto. A cada quatro anos, definimos o líder da nação. Diariamente, o mercado avalia os governos. A relação é diretamente proporcional. Quando há queda na bolsa, existe uma desaprovação. Quando a bolsa sobe, mercado e governo estão em sintonia.
O atual governo não tem fôlego para concluir esse mandato. Pode até concluí-lo de corpo presente, mas a sua capacidade de gerenciamento está em frangalhos. Não existe mais a mínima condição de governabilidade. O que virá de agora em diante serão as mais deslavadas tentativas de prosseguir nessa insanidade. Não os condeno.
Eu também já passei pelos meus períodos terminais. A morte era certa, mas eu resistia. Prosseguia como se já não mais estivesse morto um eu qualquer do passado. Sim, eu já morri muitas vezes. Sou um amontoado dos meus próprios cadáveres. E quando morro é sempre a mesma história. Morro para mim, sem choro e sem saudade do defunto.
O Lula eleito por mais de cinqüenta milhões de brasileiros está morto. Não quero causar nenhuma reação semelhante à causada por Nietzsche, quando afirmou que Deus está morto. Porém, é bem possível que alguns petistas se escandalizem da mesma forma que se escandalizaram os cristãos da época do filósofo alemão.
Esse governo sangra diariamente. Não há nada o que ser feito, a não ser tocar um tango argentino, como no poema Pneumotórax de Manoel Bandeira.

Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.
Mandou chamar o médico:
- Diga trinta e três.
- Trinta e três... trinta e três... trinta e três...
- Respire.
.....................................................................
- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 3:08 PM


Comments: Quinta-feira, Agosto 18, 2005

MAL-TE-VI

É engraçado. A polícia está chamando para depor jogadores de futebol que tiveram algum contato com um tal de Bem-te-vi, suposto chefão do tráfico de drogas de mais alguma favela carioca que não recordo o nome. Não estou aqui para defender ninguém, mas acho que os caras não fizeram nada errado do ponto-de-vista legal, considerando que eles não tem envolvimento real com o tráfico de drogas e foram fazer somente o que eles dizem. Se a atitude deles é reprovável moralmente é outra estória. Com certeza é, mas não é a polícia que deve ser nossa guardiã moral e zeladora dos bons costumes da sociedade. Deixe esse papel para a igreja, qualquer que seja ela, para os mais velhos, para as donas-de-casa, para os pais dos envolvidos, mas nunca para a polícia, que não é exemplo de boa conduta nem para o próprio Bem-te-vi. Ora, provavelmente os jogadores precisaram subir na favela por algum motivo justo, como jogos beneficentes em causa própria ou festas de cunho ético reprovável em um ambiente pouco familiar. Nada que não aconteça nas melhores famílias de Londres ou na Barra da Tijuca. Todo mundo sabe que para subir na favela tem que falar com o chefe e ai de quem chegar de surpresa. Pode ser atingido por alguma bala perdida endereçada para a cabeça do invasor descuidado. Até a própria polícia avisa quando vai subir. Assim, as gangues enviam seus piores homens para a polícia vencer e não ficar feio para o estado. Na volta, os policiais sempre atingem a perna de alguma criança desavisada soltando pipa para avisar da invasão ou torturam um pai-de-família desempregado com formação aeroportuária (trabalha como avião, levando e trazendo papelotes). Evidentemente, o chefe da gangue guarda seus melhores guerreiros para assaltos a bancos e carros-forte e para tomar alguma boca-de-fumo vizinha. Nesses casos, só age a nata da sociedade favelal. Mas eu aconselho esses jogadores a avisarem a polícia na próxima vez que forem jogar uma pelada ou se jogar em cima dela. Talvez assim o chefe da polícia resolva prender os traficantes em vez de deter os jogadores. É claro que isso é pedir muito. Estamos no Brasil, mais precisamente no Rio de Janeiro que continua lindo. Quer dizer, na Sociedade Internacional das Favelas Unidas (SIFU). E se a gente não cuidar eles vão tomar o Brasil de assalto. E SIFU pra gente. Fui! Nem-te-vi, Bem-te-vi. Deus Salve a Redinha, o último refúgio armado contra a invasão da SIFU. Quero ver eles entrarem na África.

O agudo
Bruno Magalhães
17/8/5

postado por: RODOLFO TORRES 3:40 PM


Comments: Caçador de bênçãos

Não se conhece uma cidade sem conversar com os taxistas, sujeitos atrelados, numa relação umbilical, ao cotidiano. Como disse certa vez Luís Fernando Veríssimo, não exatamente com essas palavras, "o sujeito só conhece a vidinha de uma cidade após algum tempo". É bem possível conhecer a vida de uma cidade, estando nela por algum período. Porém, é um conhecimento miúdo. Agora, os taxistas conhecem a vidinha de uma cidade bem melhor do que todos os outros.
Ontem mesmo andei de Táxi. O senhor que o guiava era um daqueles indivíduos que inspiram confiança no passageiro antes mesmo de engatar a terceira marcha. Voz suave, cabelos branquinhos e um olhar de garoto. Chegou a Brasília em 1958, dois anos antes da inauguração. No trajeto curto que percorremos, falou das diferenças entre a inauguração da capital e a Brasília de hoje.
Descreveu uma cena da seguinte forma: um caminhão carregado de pão e carne, com alguns homens a preparar sanduíches, e outros a atirá-los para a multidão de trabalhadores que estava do lado de fora do palácio presidencial, na inauguração da capital federal. Nada como hoje em dia. Tudo era mais simples, menos impossível. Fiz-lhe sorrir quando perguntei se o presidente Juscelino exagerava no gel. Falou do passado e até eu senti saudades.
Falou e suspirou. Nesse exato momento, passávamos de lado do Memorial JK. O senhor com olhar de garoto confessou ser um homem ingênuo. Declarou que após a queda de Collor, teve a certeza de que não haveria mais corrupção no país. Finalmente havia chegado a hora de uma profunda limpeza na vida política nacional. Ao meu lado estava um ser composto de esperança. De uma certeza burra de dias melhores para o Brasil. Mais um suspiro e a constatação de que a coisa está para lá de pior. Ele não foi eleitor do presidente, mas espera que o mandato de Lula seja concluído. Afinal, segundo ele, não é nada bom para o país passar por um período de convulsão social, como o que ocorreu em 1992.
Relatou também o trabalho do seu filho, que está nos Estados Unidos e é um perito da polícia daqui. Ainda o chama de garoto, apesar da idade do seu orgulho. E foi falando do seu querido filho que terminamos a nossa conversa. A corrida custou 12 reais, mas ele não tinha troco para vinte. Fez por dez mesmo. Ofereceu-me um cartão e desejou-me sorte, numa dessas raras bênçãos que os desconhecidos mais velhos fornecem aos mais jovens, com a ternura que toda bênção deve ter.
Sou um fascinado por bênção. Acho que é a maior demonstração de carinho que alguém pode dar a outra pessoa. No início, só pedia a bênção para os padres do colégio e para a minha avó, que já faleceu.
Mas hoje preciso retomar esse costume. Pedirei a bênção aos amigos, aos amores, inimigos e leitores. Se conseguir resgatar a serenidade dos olhos desse senhor taxista em algum pedido que fizer, estarei abençoado.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 1:13 AM


Comments: Quarta-feira, Agosto 17, 2005

DO OUTRO LADO

Estamos muito acostumados ao significado e a importância da relação médico-paciente. Nos ensinam na faculdade e residência que ela é muitíssimo necessária. Que não devemos exagerar em salamaleques e agrados para satisfazer o paciente, pois pareceria artificial e provavelmente anti-ético. Que devemos cuidar bem dos pacientes, sem, porém, ultrapassar a linha tênue do afeto. Como dizia um professor meu: ¿precisamos manter uma certa distância¿. Eu, como bom aluno, sempre levei essas lições para minha vida prática. Concordava com tudo que me disseram e passava as lições para os futuros colegas desde que me tornei professor. Até ontem.
Ontem foi o dia em que conheci o outro lado. Não como paciente, ainda bem, mas como acompanhante e familiar. Tentei passar um dia inteiro sem ¿ser médico¿. Tirei folga para cuidar do meu pai. Nada grave apenas exames de rotina, mas com certa invasão: exames de sangue, ultra-sonografias e, mais preocupante, biópsia de próstata.
Então deixei meu jaleco em casa, tentei diminuir aquela superioridade de médico em ambiente hospitalar, descansei a máscara de sabe-tudo que levava à tira-colo, tirei a velha ruga de suposta preocupação das sobrancelhas e coloquei uma sincera.
Não acelerei o procedimento usando a influência meu CRM, não pressionei a recepcionista, não tentei entrar na sala para assistir o exame, nem sequer informei ao colega que eu e meu pai éramos médicos, na verdade, nem falei com ele antes do evento. Só agi como médico para quem já sabia, como minha mãe. Precisava tranqüilizá-la em relação ao exame. Sabia, como médico, que era um procedimento de baixo risco, mas havia sempre perigo da anestesia e de sangramentos.
Como acompanhante que me tornara, aguardei ansioso o fim do exame. Não foi apenas uma hora de espera, foram sessenta minutos, todos contados. Quando fui buscar meu pai, eu era uma cópia fiel e verdadeira de alguém preocupado, inseguro e que nem ao menos conhecia os corredores do hospital. Encontrei meu pai em estado de semi-consciência, quase um torpor leve, emitindo sons guturais sem sentido. Levei-o ao repouso e em poucos minutos ele foi se recuperando, tornando-se mais vigil e consciente. Em 30 minutos ele já voltara ao normal completamente, era de novo a fortaleza de homem que me inspirou a ser médico, querendo saber precocemente o resultado do exame. Respondi-lhe que o resultado só sairia na semana seguinte e ele quis interferir para apressar o resultado. Expliquei-lhe que naquele dia eu não era médico e muito menos ele; éramos apenas paciente e acompanhante, iguais a todos com roupa colorida no recinto.
Durante pouco tempo, percebi toda a angústia que cerca aqueles que estão do outro lado da porta e não sabem o que está acontecendo. É verdade, só se pensa o pior. Por mais que se confie no profissional de jaleco, o medo e a insegurança são forças maiores, quase incontroláveis.
Entendi, finalmente, porque os acompanhantes são mais preocupados, ansiosos e até mais chatos que o próprio paciente. É por medo. Medo do que está acontecendo, do que pode acontecer e principalmente do que eles nem sabem que pode acontecer. Medo do desconhecido, da morte. Essa insegurança cria tanta expectativa que nos tornamos ansiosos mesmo sem antecedente e mais ainda quando isso existe.
Usarei essa experiência ruim ao meu favor quando voltar a incorporar o jaleco branco, tentando compreender mais as angústias de pacientes e principalmente acompanhantes. Quem for médico e corajoso que me acompanhe nessa aventura humana de ser médico sem ser doutor em um ambiente hospitalar com um parente próximo adoentado. Só haverá enriquecimento do espírito e do caráter.
Ah! Os exames do meu pai? Todos normais, obrigado.

O AGUDO

Nota: este texto foi enviado para um concurso nacional de crônicas sobre o cotidiano médico, somente para reumatologistas. Por isso o formato e o tamanho diferentes, regras da peleja. Torçam por mim.
Bruno magalhães
17/8/5

postado por: RODOLFO TORRES 3:21 PM


Comments: A morte canhota

Se eu já pensei em uma enorme variedade de títulos e temas para discorrer sobre? Mas é claro! Sim, tenho na gaveta da memória uma infinidade de assuntos, e um punhado de adjetivos desgastados. Nunca escrevi sobre nenhum deles. E o mais provável é que isso nunca venha a ocorrer. Egoísmo? É bem possível. Já andei vivendo alguma coisa por aí, e descobri que nem sempre se pode dizer o que se pensa sobre determinado tema. O homem inteligente é aquele que guarda para si as suas reflexões.
Mas nunca fui exemplo de inteligência para seu ninguém. Alguns até querem me provar que eu não sou por completo estúpido, mas não caio na armadilha deles. O lago no qual vejo o meu reflexo é sujo e escuro. Por ele correm detritos ancestrais. E, na verdade, não estou a apreciar o meu reflexo em suas água. Já estou submerso, há tempos, em uma correnteza vil. Nem consigo mais localizar o ponto que me atirei nesse rio. E ele fica mais feio. Sempre fica mais feio. Da minha parte, sempre faço um maior esforço para embelezá-lo. Até que consigo de certa forma. Entretanto, para tornar esse rio cada vez mais belo, preciso me perder. Nego-me para enfeitar essas águas. E, por Deus, não estou mais conseguindo.
Olho agora para o meu braço. Ele está vermelho. Passei algumas horas exposto ao sol, na esplanada dos ministérios. Acompanhava uma procissão de jovens, em defesa do mandato do presidente Lula. Se estou velho? Ah, sempre o fui. Até mesmo antes de sentir o peso da idade, já me considerava um senil de espírito. Já me falaram que eu tenho nome de velho. Deve ser isso. Não é fácil carregar um nome tão pesado.
Certa vez disse o meu nome para uma garotinha que estava comigo numa sala de dentista. Ela interrompeu a minha leitura, colocando a sua pequena mão sobre a revista que eu folheava. Perguntou o meu nome. Respondi. Ela disse que o meu nome era estranho e saiu, alegando que tinha outras atividades naquele instante.
Estou com a pele ardendo. Já fui ao sol por motivos idiotas. Certa vez, queria ascender uma churrasqueira na beira da praia, com um vento capaz de desentortar a Torre de Pisa. Já joguei futebol na praia, sem camisa, com um sol de rachar. Já fiz diversas reportagens imbecis ao meio dia (aliás, qual é a reportagem que não é imbecil? Além do mais ao meio dia?). Quando garoto, cheguei ao ponto de ficar ao sol porque uma colega de classe disse que os meus olhos ficavam mais bonitos quando eu saía da sombra.
Só nunca fiquei sob o sol para presenciar o que presenciei há pouco. Uma massa de estudantes que defendiam um governo moribundo. Isso, nunca vi. Talvez até seja um fato histórico. Tive uma irresistível vontade de me colocar de quatro naquela passeata, ou procissão, ou cortejo; e começar a rinchar. Porém consegui resistir. Porém, permaneci bípede.
Olhei para o gramado da esplanada, e me deu fome. Estava somente com o café da manhã na barriga. Ensaiei pastar, mas a grama estava seca demais. E senti inveja do gado humano que desfilava na esplanada. Com tanta comida ao seu redor. Enquanto eu permanecia com fome, e com a pele ardendo ao sol.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 12:44 AM


Comments: Segunda-feira, Agosto 15, 2005

Batman, Batman !!!


Na vida podemos até não saber exatamente do que nos gostamos, ou preferimos, mas temos obrigação de saber do que não gostamos. Já devo ter ouvido isso em algum canto. Se ninguém nunca disse isso, já deveria ter dito. Eu, por exemplo, não sei se gosto de muita coisa. Pelo contrário, acho até que não gosto de pouca coisa. Mas do que não gosto ou suporto sei muito bem.
Quanto a filme, por exemplo, não sei bem do que gosto. Faço apenas uma ligeira idéia. Já, ao me deparar com a outra ponta da escala, aquela dos filmes que não suporto, a coisa fica muito fácil.
É tão nítido que deixa de ser mera opinião minha, para ser uma verdade absoluta. Os filmes do Batman estão entre as piores coisas do cinema de todos os tempos. É completamente irritante saber que a cada dois anos se lança um filme (inútil para a história da humanidade e do cinema) daquele morcego e seu amigo. Não há cristão no mundo, ou judeu, ou muçulmano, ou ateu e agnóstico que agente ver novamente outro filme desta dupla de super-heróis sem graça.
Batman é tão sem graça que dá raiva, e tenho como provar. Por exemplo, nunca vi ninguém vestido de Batman por aí, nestas festas a fantasia ou algo do gênero. De vez em quando aparece um maluco vestido de Super-homem, por exemplo, mas de Batman, nunca. Até o Chapolin é figura fácil entre os psicóticos e neuróticos soltos por aí. Nem nos programas de auditório do domingo, nos quais para aparecer é só ir vestido de super-herói, nem nestes existiu algum Batman. Até o seu Robin já deu o ar da graça, mas Batman: nunca.
Batman tem chifre. Que nojento, chifre. E aquela relação estranha com seu colega de profissão. É muito esquisito. Nenhum outro super-herói tem uma mulher com tanta evidência. Mulher Gato tem mais moral que Mulher Maravilha. Dos quatrocentos e setenta e oito filmes sobre o Batman, nenhum ficou marcado como o filme. Talvez por isso eles continuam tentando, e tentando, e tentando. Não existe um Christofer Reeve dos Batman. Sei lá quantos já fizeram o papel na televisão. Existe um Super-homem, um indiana Jones, três James Bond, e nenhum Batman. Tomara que apareça, aí talvez parem de ocupar as salas de cinema com o Homem Morcego.

Do aditor
GustavoGT
Natal 15/08/05

postado por: RODOLFO TORRES 6:42 PM


Comments: Queres conhecer o Inácio? Coloca-o num palácio.

A frase acima não é minha. Antes fosse... Mas se eu a tivesse dito, ou escrito, ou publicado, não teria a mínima importância. Um ou outro poderia achá-la engraçadinha, e não passaria disso. Mas como não fui eu quem a criou, ela então serve de argumento de autoridade. Aliás, serve de argumento de profecia. Essa não é nem de longe uma frase simplória, com rima fácil. Ela é mais uma das profecias do nosso querido Barão de Itararé.
As gerações atuais desconhecem quem foi esse homem. E eu admito que só fui conhecê-lo quando assisti a um documentário sobre o próprio numa TV de pouquíssima audiência. Naqueles canais que são tão instrutivos que todos se perguntam qual é a razão da sua existência.
O rapaz simplesmente é o responsável pela criação do humor brasileiro contemporâneo. Até a macacada do Pasquim considerava-o como avô. Aliás, o Pasquim é filho de Sérgio Porto e neto do Barão de Itararé.
Pois bem. A vida continua no seu ritmo corriqueiro. Uns nascem, outros morrem, e por aí a seqüência é mantida. Porém, parece que o pessoal desses dias esqueceu-se de que o humor, além de ser um indicativo de inteligência, é a única arma que o sujeito dispõe para enfrentar os engravatados. Não existe solução tão eficiente, ou arma de vingança tão eficaz, quanto uma boa risada, um deboche diante de uma situação escabrosa.
Na verdade verdadeira, a frase original do Barão é: Queres conhecer o Inácio, coloca-o num palácio. Porém, o Barão está morto e eu não tenho nenhum editor para dizer o que devo ou não digitar. Eu sou o meu próprio editor, o que certamente provoca um déficit no texto, e um superávit na minha paciência.
Eu até poderia ensaiar alguma análise mais pretensiosa sobre a situação do presidente da República, mas não farei isso. Acho que o título é muito maior do que qualquer análise que eu faça, ou que eu venha a fazer. Até porque o autor da frase que dá nome a essa crônica morreu em 1971. Ano no qual Lula ainda nem pensava em ser político. Pelo menos é o que conta em sua biografia oficial. Entretanto, para que o sujeito consiga galgar uma trilha até a presidência da República, no mínimo devem existir algumas décadas de conluios, e não somente vinte e cinco anos. Essa é a minha idade, e o máximo que consegui foi a presidência de um centro acadêmico. Éramos chapa única e quase que não fui eleito devido à baixa participação dos estudantes na eleição.
E para dizer a verdade mais uma vez, fico impressionado como é que essa frase ainda não foi usada pela oposição. Dizem por aí que o melhor emprego na atualidade é ser líder da oposição em qualquer instância. Afinal, o governo faz o favor à nação de cometer atos que qualquer agremiação de jardim de infância não cometeria.
Tomara que o espírito do Barão reencarne logo. O Brasil precisa mais de humoristas capazes do que de profissionais de imprensa competentes e plastificados. E não dá nem para pedir que o nível dos programas humorísticos de TV fique melhor. É sonhar demais. Basta uma meia dúzia de penas ácidas e irônicas, com elegância, que o nível sobe. Só precisamos disso! E já que falei em televisão, aqui vai mais um pensamento do Barão: "A televisão é a maior maravilha da ciência a serviço da imbecilidade humana".

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 2:19 PM


Comments: Sexta-feira, Agosto 12, 2005

Acabou!

Eu também estou a aguardar o pronunciamento do presidente Lula. O Congresso, para variar, está parado, e também aguarda as palavras de Lula. Na verdade, a nação está sedenta por esse pronunciamento, que estava marcado para as nove horas da manhã de hoje. Contudo, Duda Mendonça não está mais coordenando as palavras do nosso líder. E deve ser muito difícil escrever duas linhas para o discurso presidencial diante dessa situação calamitosa.
O senador e profeta baiano Antônio Carlos Magalhães, o Toinho Malvadeza, declarou ontem que se a crise ainda não subiu a rampa do Palácio do Planalto, certamente vai subir. E só não ver quem não quer. Fala-se em impeachment no congresso por todos os lados. Não há mais escapatória. E eu reafirmo uma certeza muito particular: Lula vai cair.
Falo isso como um eleitor de Lula em duas eleições presidenciais. Também me deixei seduzir pelo discurso do operário. E confesso isso com uma certa vergonha. Quem diria que éramos tão ingênuos?
E como ficará agora a cara dos milhares de professores universitários do país, que dedicaram a maior parte (ou até a totalidade) de suas carreiras acadêmicas para defender o projeto de Lula presidente? Pelo o que eu sei da vida, ela nos ensina que a maior conquista da sabedoria é o privilégio da dúvida. E quando se trata das ciências humanas então, esse privilégio da dúvida deve ser ampliado indiscriminadamente. Porém, o que se via nas universidades eram certezas. Apenas certezas. Os petistas nunca concederam a si o benefício da dúvida. A bola de cristal dos partidários do PT era tão nítida que os cegou. Parlamentares petistas choravam ontem no plenário da Câmara. Deveriam iniciar as lágrimas há alguns anos. Logo no primeiro ano de mandato do atual governo.
Agora, o que se observa é a queda lenta e triste do presidente brasileiro, operário e retirante, que queria ser líder mundial. Mas, como toda queda, essa trará alguns aprendizados. Encerra-se definitivamente a era messiânica da política brasileira. O eleitor patrício mais parece um judeu, que ainda aguarda a vinda do salvador. Não temos mais o direito de delegar as nossas responsabilidades enquanto pátria a um só homem ou partido político. Essa é a maior lição da queda de Lula.
Não sou médico. Porém, como filho e irmão de médicos (além da minha irmã, que será uma futura médica e da minha mãe, que é enfermeira mas é a minha médica particular) conheço alguma coisa da rotina desses profissionais. E uma das angústias que eles certamente carregam é observar um paciente morrer lentamente diante deles, sem que nada possa ser feito.
Os jornalista em Brasília, nesse momento, são como médicos do governo Lula. Observam impotentes a morte de um governo que trouxe consigo tantas esperanças e um profundo desejo de mudança do povo brasileiro.
No meu caso, diferentes dos médicos, que ao menos sentem compaixão pelo paciente terminal; não tenho a menor piedade em ver o presidente Lula cair com os fatos e depoimentos. Esse governo acabou. E quem tiver o que chorar por ele, é melhor começar o estoque de lenços.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 1:06 PM


Comments: Quinta-feira, Agosto 11, 2005

Outros números do pronunciamento

Parece que vem por aí mais um pronunciamento em cadeia nacional de rádio e televisão do presidente Lula. O supremo mandatário da nação tentará explicar a nação a sua mais completa e absoluta inocência diante desse verdadeiro chiqueiro no qual se encontra a política nacional. Será que Duda Mendonça ainda coordena os pronunciamentos de Lula?
E para rebater a crise, na tentativa de jogar uma pá de cal imaginária na pior crise da história de seu governo, Lula apresentará números da economia, mostrando o crescimento das exportações, o crescimento do número de empregos formais, o crescimento de não sei mais o quê... Deveria mostrar também o crescimento da conta bancária do seu filho Fábio.
Ora, não é segredo para ninguém que o crescimento da economia brasileira depende do crescimento da economia mundial. Mas alguém pode dizer que isso acontece com todos os países. Nem tanto, nem tanto. Para economias emergentes e subservientes, como a nossa, a relação com o crescimento da economia mundial é mais íntima. Se a economia mundial cresce, acompanhamos. Se não, despencamos como frutas podres.
Não quero aqui, de maneira alguma, defender o governo de FHC. O governo dele foi um dos períodos mais trágicos da história do Brasil. Um mandato deplorável. Mas não dá para esconder que FHC presidiu o Brasil quando o cenário internacional estava mais complicado. Crise internacional por cima de crise internacional.
O governo Lula pegou um crescimento da economia mundial, desde o seu primeiro ano de mandato. Um dos fatores que contribuiram para estimular a economia dos EUA foi a guerra no Iraque. Não é a toa que os EUA vez por outra fazem uma guerra aqui, outra cola, para defender a "liberdade" e o crescimento de sua economia. Estou para ver uma invenção humana que traga uma movimentação econômica tão certa quanto uma guerra.
Voltando ao futuro pronunciamento de Lula, que vai usar os números da economia para tentar preservar o seu emprego, certamente alguns dados não contarão das palavras do excelentíssimo senhor presidente da República. Dados como os apresentados pelo jornalista Joelmir Beting, que diz: "Segundo o Cepal, órgão da ONU que estuda o desempenho da economia da América Latina, os 32 países do continente (sem Canadá e EUA) ensaiam fechar o ano com crescimento médio de 4,3%, igualando a média global projetada pelo Banco Mundial - também de 4,3%.
E o Brasil? Bem, nosso espetáculo de crescimento, de 4,9% no ano passado, vai ficar no resfriamento do espetáculo, nada além de 3%, na previsão da própria Cepal. Pior: o Brasil só vai ficar à frente, este ano, do Haiti - que, além de país miserável, está em estado de guerra civil permanente. Ou ainda; sem o Brasil a bordo, a América Latina terá expansão de 5,2%, já no vácuo dos emergentes asiáticos, com avanço esperado de 6,3%".
A assessoria do presidente Lula, que não é lá a das melhores, certamente não vai incluir esses números em seu pronunciamento. Por razões claras. Afinal, admitir que o Brasil é um fardo ao crescimento econômico da América Latina não é lá uma tarefa das mais inteligentes para uma assessoria. Contudo, só espero que não incluam no pronunciamento do presidente frases do tipo: "Não me deixem só!".

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 1:30 PM


Comments: Quarta-feira, Agosto 10, 2005

Entretombos

Ah, o cinema. O cinema... Coisa boa é assistir a um bom filme, e ser conduzido por ele a outros mundos e vidas. No princípio, desconfiava que quem gosta muito de cinema é porque não gosta da própria vida. Acho que é isso mesmo. Sei lá... Outro dia li alguém dizendo que a literatura não era uma arte visual. Apesar de ser comporta por palavras, as letras servem de ponte para a imaginação. Arrisco a dizer que o cinema também não é uma arte totalmente visual. Pode parecer loucura, mas o cinema não passa de um tipo de cimento para a imaginação.
Hoje em dia, qualquer um pode fazer um filme. Uma fortuna não é mais necessária para tal feito. Deve ser por isso que o documentário está sendo feito de maneira compulsiva. Nada contra esse gênero, afinal eu mesmo fiz um. Com propósitos acadêmicos, é bem verdade. Mas fiz. A questão é que o documentário é infinitamente mais simples de ser feito do que uma encenação propriamente dita. Basta que a câmera esteja ligada, alguns depoimentos e cenas captados, uma locução em off, imagens de arquivo e uma edição mediana. Está feito o documentário.
Lógico que há documentários e documentários. O documentário que mais me chamou a atenção não foi nenhum de Michael Moore. Foi um sobre Picasso, onde o gênio pintava na frente da tela e os desenhos surgiam como que por ordem da vida.
Outro documentário belíssimo é o brasileiro "Janela da Alma". E nessa febre de documentários impulsionada pelo cinema digital, duvido que alguém não esteja produzindo algum documentário sobre essa crise política. Diferente do filme "Entreatos", de João Moreira Salles, que mostra os bastidores da campanha eleitoral do candidato Lula à presidência da República; já deve ter alguém com a câmera ligada, caçando depoimentos, pesquisando imagens de arquivo, e se preparando para um trágico fim do presidente Lula. Estou supondo na realidade. Mas se não houver ninguém fazendo isso, é por pura ingenuidade.
Está certo que conseguir depoimentos dos envolvidos nesse escândalo não será fácil. Mas posso sugerir dois nomes que seguramente poderão contribuir com o "Entretombos": Fernanda Karina e Roberto Jefferson. Além da senadora Heloísa Helena, claro. Há também os jornalistas que poderão contribuir com esse documentário histórico. Pela primeira vez na história brasileira, um operário consegue se eleger presidente da República. Pela segunda vez na história brasileira, um presidente é demitido por corrupção.
Mas a situação não pede um documentário. Ideal seria fazer um filme, do gênero drama, com atores de cinema, e não de palanque. O momento é do cinema. Independente das novas tecnologias, o momento é do cinema. E que me desculpem os documentaristas, até porque eu também sou um. Mas o contexto de crise política urge por um cinema clássico.
E não interessa mais o que vai acontecer na realidade. Porque no imaginário, matéria-prima do cinema, esse governo já está morto.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 1:35 PM


Comments: Terça-feira, Agosto 09, 2005

Pocilga de cada alma

Que não pensem que eu deixo de ver essa crise política sem ser pela ótica do espetáculo. O Congresso é um grande palco, com seus atores. Como em cada espetáculo, há os que se destacam. Os outros, são apenas os demais. Não consigo mais dissociar a política das artes cênicas. Posso estar cometendo um erro (mesmo tendo a certeza absoluta de não estar), para os acadêmicos, que juram que a realidade algum dia vai se dobrar aos livros de ética e política. Coitados! Mas a política é um palco maldito, onde diversos homens enlouqueceram diante das fortunas exorbitantes que jorram sem cessar dos chamados cofres-públicos, mas que jamais se tornarão públicos. Em nenhuma hipótese a ser considerada, as riquezas da nação são do povo. Jamais...
De todos os pecados que o homem possa vir a cometer, Lúcifer prefere um: a vaidade. É através da vaidade que o sujeito adquire a real dimensão humana. É quando o homem se torna realmente homem, e a um ponto perigoso. Como aconteceu com José Dirceu, que na verdade era o homem que comandava o governo Lula. Não falo isso porque ouvi essa declaração recentemente. Falo porque ouço esse comentário desde que o governo Lula começou.
Lúcifer não gosta de ser chamado de diabo, ou demônio, ou que quer que seja. Na verdade, na verdade verdadeira, Lúcifer não passa de um espelho cristalino do ser humano. Um ser capaz das maiores atrocidades contra quem quer que seja, inclusive contra ele próprio. E o homem, que é capaz de ser racional para se livrar de suas culpas, jogou no pobre diabo as suas mais sórdidas e execráveis características.
Porém, quanto maior é o público, quanto maiores são os refletores, maior é a vaidade, que chega a transbordar pelos poros dos atores em cena. É nessa hora, em que todos estão a olhar para o ser vazado de luz, que o homem sente a onipotência, e agradece a quem preciso for agradecer por essa maravilhosa sensação.
As cortinas se fecham e o ator parece estar grávido da própria imagem que faz de si mesmo. Faltam-lhe estrias na pele para refletir o tamanho do ego que carrega na alma. Deita-se e vai dormir. Mas antes, um pouco antes de ceder lugar ao subconsciente no comando das imagens produzidas em seu cérebro, o Diabo (que é o pai do Rock), que não passa da voz da nossa consciência, abastece aquela alma que necessita dos olhares alheios.
Reduzir a política somente ao dinheiro é desconhecer o ser humano. Além disso, o homem precisa sentir algo mais. Sutilezas da natureza humana... Poder, respeito, admiração, notoriedade. Também é disso que é feita a política. Infelizmente, os atores hoje em dia não sabem mais convencer. Aliás, raro é o ator hoje em dia que trabalha bem. Que nos transporta literalmente ao seu universo.
A minha alma é uma pocilga, porque sou humano. Não há banho que a torne menos encardida.
E não preciso falar da alma dos políticos.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 1:26 PM


Comments: Segunda-feira, Agosto 08, 2005

Aula de geografia

Eu tive um professor de geografia baiano no último ano do colégio chamado Aldo. Era um romântico. Depois soube que ele tinha sido o melhor aluno que o curso de Geografia da URFN havia tido em toda a sua história. Já estava um pouco careca e ficava falando compulsivamente, e andava de um lado para outro. Olhava para e chão e brigava com o chão. Analisava o cenário internacional com uma facilidade que me deixava intrigado. Até os que não conheciam termos como oriente ou ocidente ficavam olhando aquele homem moreno falar, no seu desespero contra as injustiças do sistema capitalista internacional.
Numa certa aula, o professor já não suportava mais a falta de interesse de grande parte dos alunos. Desabafou. Disse que não sabia o que os seus alunos pretendiam fazer da vida, e isso pouco o interessa. Mas, na qualidade de professor, para tentar amenizar a falta de interesse com o futuro dos pupilos, Aldo deu uma dica valiosa, que até hoje me recordo.
Dizia ele, esbaforido, com o olho esbugalhado e uma saliva ressecada no canto da boca: -"Vocês desejam ganhar muito dinheiro? Pois esqueçam as profissões formais e os concursos públicos. Abram um banco! Abram um banco!". Nessa hora, depois do desabafo, ele sentia-se cansado. Havia dito a verdade a um grupo de adolescentes e sabia que não tinha sido compreendido. Ainda arriscou mais uma vez: -"Abram um banco!".
Diante dos olhares de interrogação, achou melhor retornar ao assunto da aula. Deveria ser Guerra-fria, não lembro. Só lembro que tinha vergonha de gostar de geografia, uma disciplina considerada menor diante das outras. No colégio, o brilhantismo só é possível com fórmulas, números ou, no máximo, células. Nunca com países.
Eu ainda me concedo o direito a algumas coisas simples. Por exemplo, o direito à nostalgia, à saudade e ao espanto. Escrever sobre aula de geografia é uma das coisas de que mais gosto. Agora, concedo o direito de existência ao meu espanto.
Sabem de quanto foi o lucro do Bradesco (aquele banco que tem um rato como garoto propaganda) no primeiro semestre desse ano? Alguém aí tem uma vaga noção de quanto essa instituição lucrou nos primeiros seis meses desse ano? Lucro líquido de R$ 2,621 bilhões. Valor que corresponde a um desempenho 109,7% superior ao de igual período do ano passado (R$ 1,25 bilhão). Parabéns ao Bradesco, que mostra que com trabalho sério (não tem nada a ver com taxas abusivas de serviços bancários, e taxas abusivas de juros ditadas pelo Banco Central), a duplicação do lucro é possível em um ano.
E, como se dizia antigamente, o buraco é mais embaixo. Se alguém aí está se divertindo com esses números, ainda tenho mais alguns. O Banespa lucrou R$ 878,027 milhões nos primeiros seis meses de 2005 e o Itaú, R$ 2,475 bilhões no mesmo período.
Agora é possível entender por que razão os economistas da televisão entram em pânico cada vez que alguém fala em alterar a política econômica do governo. Governo (de esquerda) esse que se tornou o xodó dos banqueiros. Ao menos a televisão poderia contratar mulheres bonitas para falar de economia. Ao menos isso.
Agora entendo o conselho do professor Aldo, que continua, mais do que nunca, válido. Quer ganhar muito dinheiro? Abra um banco.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 12:44 PM


Comments: Domingo, Agosto 07, 2005

Eu repilo, tu repeles...

O verbo que está sob os holofotes é "repelir", especificamente, a sua curiosa e pouco sonora forma da primeira pessoa do presente do indicativo: eu repilo. Disseram que o Zé Dirceu parecia uma montanha de gelo (adaptação lusitana para "iceberg") diante do canastrão Bob Jeff (adaptação inglesa para "Roberto Jefferson"). Só mesmo um homem com tamanho sangue frio para proferir à exaustão o tal "repilo". É fato que não se trata de um verbo defectivo - confesso que confirmei no dicionário -, e portanto está correto o nosso ex-dono de butique do interior, que na época atendia pelo pomposo nome de Carlos Henrique Gouveia de Mello. O fato de estar correto não exime o Zé Dirceu, ainda mais com aquele sotaque, tenha dó! Já que está todo mundo aproveitando para atacar o homem, aproveito para tirar minha casquinha.
A língua portuguesa é extremamente sinuosa e complexa, a milhas de distância da retidão e praticidade dos anglo-saxões e exige tratamento especial. Nem tudo que está na gramática, deve ser, literalmente falando, seguido ao pé da letra. A língua é viva e evolui. Verbos como repelir, competir ou jazer não são defectivos, mas o indivíduo há de ter um mínimo de sensibilidade estética para não sair dizendo: "eu jazo" ou "eu compito". Nesses casos, o ideal é buscar um sinônimo, uma expressão equivalente e poupar os nossos ouvidos dessas cacofonias. Talvez por descuido, em séculos passados, quando as regras foram estabelecidas, o "eu demolo" foi sensatamente demolido - não passou no teste do som, enquanto o "eu repilo" escapou da peneira.
Além disso, o indivíduo que ouve esse tipo de palavra e hoje em dia a audiência da TV Senado alcança índices elevados, pode extrapolar e achar que é possível conjugar qualquer verbo a qualquer custo: daí a dizer "eu falo" referente a falir pode levar à falência a nossa língua.
A mensagem é simples: deixar para o papel as afetações, os maneirismos e as ousadias. Na hora de falar, tentar ser simples, claro e, num inquérito público, o mais objetivo possível. Ou seja, o contrário do que tem feito os nossos parlamentares, onde numa profusão de vossa excelência para cá, vossa excelência para lá, a memória parece se limitar aos requintes do idioma. Quando é hora de se lembrar daquela viagem no jatinho do fulano ou daquela reunião escusa com cicrano, aflora a demência: "eu não me recordo", "eu não estou certo disso"...

Luís Gustavo Ferreira

postado por: RODOLFO TORRES 3:40 PM


Comments: Sexta-feira, Agosto 05, 2005

O melhor do Brasil é a brasileira

É sempre assim. Basta eu sair de Natal para bater uma saudade absurda dos livros de Câmara Cascudo. Saudade essa sem sentido, diga-se de passagem. Só li Cascudo na faculdade, com fins escusos: conseguir uma nota suficiente para conseguir passar na disciplina, que nem lembro o nome. Mas é isso mesmo... Não há muito o que ser feito nesse sentido, a não ser entrar em contato com a obra do mestre.
Engraçado... Cascudo foi um homem que estudou os hábitos e costumes do povo, e é encarcerado na sua cidade Natal pelos rigores acadêmicos. Para se abrir a boca e falar de Cascudo em Natal, o sujeito deve estar seguro de suas referências bibliográficas. Quanta bobagem... Devemos brincar, no sentido mais infantil do termo, com o que Cascudo catalogou. Devemos conceder o mínimo de fantasia ao nosso adormecido universo mágico pessoal, e bailar, cheirar, brincar com a obra de Cascudo.
Antes eu era um pouco ressentido com os livros de Cascudo. São dicionários de costumes do povo. Registros históricos indispensáveis para que possamos compreender o brasileiro. Porém não eram romances. Eu queria uma história com personagens, diálogos, tragédias, etc. O que eu via era definições, apenas definições (e com um monte de citações em francês que Cascudo metia no meio só para reforçar o argumento de autoridade). Aquilo era chato, enfadonho para um recém universitário, que nasceu com uma televisão na sala e na década de oitenta.
Porém, o Itamaraty me mostrou uma nova visão. No último concurso do Instituto Rio Branco, uma das questões dissertativas era sobre as semelhanças entre o ficcionista e o historiador. Duas profissões que se utilizam do subjetivo para se constituírem. Ora, está claro que o ficcionista pode navegar por mares mais abstratos. Porém o historiador não fica atrás. Estou lendo a biografia de um sujeito que nasceu três mil anos antes de Cristo. E o livro tem todo o rigor e obedece a todas as normas para ser considerado um trabalho sério de historiador. Será que ele não imaginou situações, bebendo da mesma fonte dos ficcionistas, para produzir o calhamaço de quase quinhentas páginas? Não é uma leitura agradável. Na verdade, é uma questão de honra acabar esse livro.
Portanto, hoje vejo que Cascudo era também um ficcionista, um inventor de realidades, um homem capaz de se igualar às mulheres (no sentido de dar à luz), uma mente fabulosa. Ele, como historiador, criou universos, desvendou mistérios e produziu certezas. Se correspondem à realidade ou não, é o que menos importa. O fato é que estão aí. E por ai permanecerão.
Vamos ler Cascudo, e imaginar nossos costumes através da ótica de Cascudo. Dificilmente conseguiremos sair ilesos de sua obra. Sairemos feridos, e melhorados.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 6:37 PM


Comments: Quinta-feira, Agosto 04, 2005

"Brasília é podre!"

Há alguns meses, escrevi para a revista Playboy. Lembro até do exato dia em que isso ocorreu. Era um domingo e a seleção brasileira estava jogando contra a seleção do Paraguai em Porto Alegre. No início da partida teve aquela queima interminável de fogos. Quase 10 minutos ininterruptos de barulheira. Estava no apartamento de um primo e, enquanto esperava a partida começar, passei a vista numa Playboy. Vi o expediente e anotei o e-mail do diretor de redação.
Sugeri uma pauta para a revista. Que fosse feita uma matéria sobre o envolvimento de parlamentares com prostitutas em Brasília. Fiz porque já tinha ouvido falar no assunto. Fiz apenas a título de sugestão.
No outro dia, recebo um e-mail do diretor de redação pedindo o meu telefone. Tinha me identificado como um jornalista no e-mail que enviara para a revista. Respondo à mensagem e em duas horas o meu celular toca. Era ele. Perguntou se eu não queria tentar fazer essa matéria. Respondi que havia feito apenas uma sugestão de pauta, mas que poderia tentar. E lá fui eu conversar com algumas prostitutas.
Na verdade, foram apenas duas. Em duas semanas de contato quase diário com a redação da Playboy, ou por telefone ou por e-mail, escrevi dois relatórios sobre as minhas conversas com as garotas de programa. Duas histórias distintas, duas mulheres sofridas, dois destinos interligados por essa profissão que se destaca por ter sido a pioneira dentre as profissões.
Não revelarei nomes, pois seria contra o código de ética da minha profissão. A primeira coisa que fiz ao conversar com as duas (a conversa se deu em dias diferentes) foi me identificar como jornalista. E elas sabiam que estavam conversando com um jornalista. E sabiam também da minha pauta.
Os seus relatos se cruzaram em apenas um ponto, em apenas uma expressão: "Brasília é podre!". Não entrarei em detalhes porque eles não são agradáveis. Mas as orgias que agora foram citadas na CPMI foram confirmadas. Muito antes desse fato surgir na mídia, elas já haviam me dito que essa prática da Roma antiga também se faz presente em Brasília. Não falaram em hotel, nem muito menos em Marcos Valério. Falaram de drogas, promiscuidade e política.
Após as duas semanas de contato com a Playboy, uma das repórteres me liga e diz que infelizmente a pauta foi abortada. Segundo ela, por "ordens superiores". A matéria sairia na edição especial de trigésimo aniversário da revista, que é a desse mês de agosto.
Ainda não sei se a pauta realmente foi abortada, ou se eu fui excluído da história. Caso a primeira hipótese seja válida, a revista deixou de cobrir um fato explosivo. Se for a segunda hipótese a verdadeira, mais uma vez eu indico o caminho das pedras e não me dão o devido crédito.
Parafraseando as garotas de programa, diria que assim como Brasília, o jornalismo também é podre. Amém.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 12:32 PM


Comments: Quarta-feira, Agosto 03, 2005

Ares de agosto

No primeiro dia de agosto, houve a renúncia do presidente do PL. No segundo dia, o confronto entre os dois parlamentares mais comentados do momento. E ainda, uma nova acusação: Lula, dessa vez, foi explicitamente envolvido. Como ficará a blindagem presidencial de agora em diante?
O que me intriga nesse lamaçal todo são as declarações que ouço. Jornalistas, apresentadores de televisão, políticos, e mais um monte de gente fala que não será bom para o país se o presidente Lula não terminar esse mandato. Mas não será bom de que forma? Não será punir um governante que, ao que tudo indica, está envolvido num esquema de corrupção colossal? Não será bom extrair da vida pública um presidente que muito provavelmente utilizou do seu prestígio para socorrer o seu partido e alguns outros partidos políticos em dificuldades financeiras? Seria ruim para a nação demitir o supremo mandatário da República que admite em entrevista veiculado nacionalmente que o caixa 2 é uma prática generalizada, e por isso o seu partido o fez?
A futurologia é um exercício perigoso. Principalmente quando se trata dos destinos de um presidente. São milhares de interesses envolvidos, muito dinheiro no jogo, prestígio e mais uma centena de variáveis. Mas serei irresponsável. Mas uma vez serei irresponsável ao dizer que, na minha opinião, Lula não termina esse mandato. O presidente não será cassado se houver uma cumplicidade da opinião pública com os atos desse governo. Lula possui uma vantagem muito peculiar, que é o carisma. A sua história pessoal é realmente comovente. Já até li que o cinema americano pretende fazer um filme sobre a sua biografia. A oficial, diga-se de passagem. Porém, mesmo com todo o carisma, é muito difícil que Lula saia dessa. Ora, o encontro entre Marcos Valério e empresários e autoridades portuguesas, intermediados pelo próprio presidente, foi o golpe que faltava para abrir uma fresta na armadura enlameada que envolvia o presidente da República.
De agora em diante, a imprensa fará um papel importantíssimo. Investigará com uma agilidade que lhe é própria e vai pautar (mais uma vez) o andamento dos três poderes. Com a pele exposta, e com o aprofundamento das investigações, a tendência é que Lula sangre torrencialmente.
Já se sabe até o número, data e horário dos vôos entre Brasil e Portugal. Ontem mesmo, acho que no Estadão, li uma declaração do presidente a um grupo de jornalistas. Perguntado se as denúncias iriam atingi-lo, Lula responde: "depende de vocês". Na verdade, não depende dos jornalistas. O grande pauteiro (no jargão jornalístico, aquele indivíduo que sugere os assuntos para as reportagens) da mídia brasileira é o deputado Roberto Jefferson. O que seria da imprensa brasileira atual sem as suas contribuições?
Fico me perguntando o que a Associação Brasileira de Imprensa está fazendo que não outorga uma condecoração a Roberto Jefferson por relevantes serviços prestados à imprensa nacional. Fala-se muito do estilo teatral de Jefferson. Queria saber qual é o parlamentar, qual é o homem público, qual é o ser humano que não interpreta? Se o faz bem ou mal, é outra questão. Mas o homem nada mais é do que um ator frustrado, que atua para uma platéia mínima de parentes, amigos e vizinhos.
Ainda temos 28 dias de agosto. Mês do desgosto.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 10:36 AM


Comments: Terça-feira, Agosto 02, 2005

Audiência de final de copa do mundo

O depoimento do deputado José Dirceu, marcado para hoje às 15 horas, no Conselho de ética da Câmara dos deputados, terá uma audiência assombrosa. Tudo isso se deve por vários motivos. Um dos jornais de Brasília anuncia na primeira página que o episódio pode derrubar o governo do presidente Lula. Mas a principal razão pelo interesse geral é a presença do deputado Roberto Jefferson na primeira fila. Na história dessa crise política, será a primeira vez que José Dirceu e Roberto Jefferson ficarão cara a cara.
Existe ainda a expectativa da renúncia de José Dirceu ao mandato parlamentar. Se não o fizer, poderá ser cassado e perder os direitos políticos. Se o fizer, dará continuidade a uma série de renuncias que estão por vir. O mês de agosto, historicamente crucial para os presidentes brasileiros, começou com a renúncia do presidente do PL, deputado Valdemar Costa Neto. Na verdade, Costa Neto adiantou-se numa tendência entre os envolvidos no esquema do mensalão. Outro que está para renunciar é o ex-presidente da Câmara dos deputados, João Paulo Cunha.
E de renúncia em renúncia, preservam-se os direitos políticos para as próximas eleições, que terão um sabor todo especial. Pela primeira vez na história desse país (frase que o presidente Lula adora usar), uma campanha política será feita exclusivamente por partidos réus confessos. Não existirá mais os puritanos, os perfeitos. Apenas cortesãs da pior qualidade disputarão o voto do eleitor. E isso é uma evolução.
No meu caso específico, vou acompanhar o depoimento pelo rádio. A televisão é uma impossibilidade no momento, porém ainda guardo algumas nostalgias impróprias à minha pouca idade. Uma delas é acompanhar os acontecimentos cruciais da nação pelo rádio. Como os antigos brasileiros que acompanharam a conquista do primeiro mundial em 58, ficarei de ouvido grudado no rádio, tentando imaginar qual é a expressão facial dos envolvidos, e a cor de suas gravatas.
Estamos em agosto, meus caros. O que vier daqui pra frente é apenas reflexo desse mês peculiar. Em algumas localidades da federação, foi declarado ponto facultativo para os funcionários públicos. Em alguns bares de Brasília, as televisões foram para a calçada e o estoque de cerveja, reforçado.
Assim como no futebol, milhares de populares vão externar os seus profundos conhecimentos de analistas políticos carimbados. Posso até passar por um desses bares, mas prefiro me concentrar no depoimento. E não nas reflexões de torcedores de partidos políticos.
Para aqueles que estarão no trabalho a partir das 15 horas, fica uma dica. Esses depoimentos são absurdamente extensos. Coisa pra lá de 5 horas. Muito além disso. Sempre é possível acessar alguns sites e se informar sobre o que está acontecendo.
O depoimento de hoje a tarde pode iniciar o final do campeonato para o PT. Será uma partida decisiva para verificarmos se a blindagem do presidente suporta o que por vir está. Quem tiver seus ídolos políticos ou seu partido do coração, é melhor começar a se preparar para uma triste queda. Afinal, se esse fosse um país sério, sério seria.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 11:27 AM


Comments: Segunda-feira, Agosto 01, 2005

O castigo da nudez

Ainda não foi inventada melhor receita para a vendagem de revistas do que a nudez feminina. E realmente isso é um mistério. Apesar de se saber o que será encontrado, existe a expectativa do novo, do inusitado. Mesmo sendo único o corpo de cada mulher, no final dá na mesma. E o sentimento de procura por algo a mais é sempre arquivado para uma próxima edição.
Sinto uma falta danada dos livros de Nelson Rodrigues. Os que tenho já até reli. Preciso encontrar algo dele inédito para mim. Pois sem Nelson Rodrigues, tudo é tão comum, tão nivelado por baixo. Usando as palavras dele: "Estranho mundo idiota".
Mundo esse que causou o tédio da nudez. Sim, a nudez, que deveria ser um momento íntimo e sublime, está tão desgastada que não causa mais nem cinco minutos de expectativa. E, uma vez tornada banal, a nudez provoca o tédio. O sujeito folheia as páginas de uma revista imprópria para menores e boceja. Não porque aquilo não lhe interesse. Nada causa mais tédio, como diria NR, do que a nudez não requisitada, não solicitada, a nudez gratuita.
E assim, cansados visualmente de tantos corpos despidos, prosseguimos a existência. Mas, como se dizia antigamente, o buraco é mais embaixo. Às vezes, a reação à nudez descamba para o hilário, para a chacota.
O colunista José Simão, da Folha de S. Paulo, advertiu que se a ex-secretário de Marcos Valério saísse na revista Playboy, aconteceria um fato inédito. Além dos 2 milhões de Reais exigidos por Fernando Karina Somaggio para se despir diante das câmeras da revista, a publicação ainda gastaria mais 2 milhões em photoshop. De início, achei que fosse um exagero.
Porém, vendo o ensaio de Fernando Karina na revista da Folha, vi que o colunista não estava sendo tão hiperbólico. Acho que foi a primeira vez na vida em que achei engraçado um ensaio fotográfico que deveria ser sensual. Caras, bocas, poses variadas. E a feiúra dela não era camuflada.
Lembro nesse instante da declaração de algumas praticantes do naturismo, aqueles lugares em que todos andam sem roupa. As mulheres naturistas confessam que nesses ambientes, elas não rebolam. A mulher sem roupa não rebola. Mas é óbvio que não rebola!
Se sem roupa perdemos a máscara do corpo, como é possível o rebolado? Algumas mulheres não deveriam se despir nem diante do espelho. Apenas o escuro deveria ser o cúmplice de sua nudez.
A ex-secretária Fernando Karina deve possuir um ou dois amigos na vida. Pessoas que desejam o seu bem. Se os possuir, certamente eles a alertarão sobre os riscos desse projeto que ela pretende realizar.
A nudez de Fernanda Karina é trágica, em todos os sentidos. Como toda tragédia, traz elementos hilários. É uma tragédia para a própria, que será motivo de piada. E é uma tragédia para os que, mais uma vez, vão bocejar diante de mais um corpo despido, depois das gargalhadas.
Estranho mundo sem roupa. Estranho mundo idiota.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 9:20 AM



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