Confraria dos Crônicos

De crônica, não basta a vida!



Comments: Quinta-feira, Junho 30, 2005

Uma platéia sem o "grande final"

A madrugada de Brasília corta os ossos e resseca a pele. Alguns mendigos que transitam pelas noites da capital pedem agasalhos, lençóis velhos ou alguma peça de roupa surrada. Pois já sabem que o dinheiro por aqui é adquirido de outras formas. Não é difícil de encontrar esses homens andando com várias camadas de tecidos sobre o corpo, numa penumbra medonha. Procuram alguma árvore e por lá ficam até que o calor faça com que eles possam se despir dos frangalhos adquiridos na escuridão.
Essa madrugada foi diferente das outras. De repente, um barulho rompe a tranqüilidade e um poste cai. Vou à varanda do apartamento que estava e vejo um carro capotado, um poste caído e muito concreto espalhado pelo asfalto. De repente, surgem os observadores de acidentes de trânsito. Simplesmente aparecem como se brotassem das profundezas. A prioridade naquele instante era observar se havia alguma vítima fatal dentro do automóvel destroçado. O monte de ferro retorcido na dianteira do carro começa a pegar fogo. Achei que fosse explodir. Em menos de um minuto, uma viatura policial chega ao local e os dois homens começam a jogar areia na pequena chama que se formava perto do motor do carro. Uma moça é retirada e está bem. Apenas um pouco tonta. O sistema de proteção dos carros importados havia funcionado e poupado a vida daquela jovem que ouvia uma música raivosa. O som do carro não foi desligado e toda a vizinhança foi obrigada a escutar aquele latido frenético.
Em menos de quinze minutos, pelo menos trinta pessoas estavam a observar à cena. E os bombeiros não haviam chegado ao local. A rua foi interditada com muitos cones e notei uma certa frustração dos observadores. Não havia morte, nem sequer um pouco de sangue escorrendo no asfalto. Os curiosos faziam as suas análises de curiosos, explicavam o que tinham visto aos recém-chegados e todos faziam aquela cara de espanto e de surpresa.
Os mais empolgados eram os vigias noturnos. Relatavam com fervor ao seu pequeno público como tudo havia acontecido, em riqueza de detalhes. Seu relato bem feito faria com que a solidão não fosse tão longa naquela madrugada.
A motorista entrou num carro dos bombeiros e foi a um hospital. Apenas o carro retorcido em cima do canteiro esperou o amanhecer, junto aos homens da polícia de trânsito. Os presentes saíram um pouco tristes. Não havia uma morte para ser contada. A boa tragédia necessita de corpos irreconhecíveis, depende do cheiro de sangue com borracha queimada, pede gritos de dor diante de fraturas inimagináveis.
A madrugada de Brasília, que tanto corta ossos, não fez com que uma bela moça perdesse a vida. E os espectadores de tragédias, que brotam como mato em terreno baldio, foram dormir frustrados. Talvez não entenderam como é possível um carro ficar destruído, derrubando um poste, e uma frágil moça sair ilesa dessa colisão.
A platéia agiu como se fosse pagar o reparo do veículo. E exigia sangue, ou ao menos alguns gritos de uma dor extrema. E nem isso houve.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 5:58 PM


Comments: Quarta-feira, Junho 29, 2005

Feliz, pero no mucho

Bem, possivelmente a nação está com a alma lava depois da surra que a seleção brasileira aplicou na seleção argentina, na final da Copa das Confederações na Alemanha. O evento foi único, afinal nunca houve uma competição em solo europeu com uma final entre essas duas seleções da América do Sul. Os argentinos já declaravam que o Brasil seria um adversário fácil, e que difícil mesmo foi a partida contra a seleção mexicana, pelas semi-finais do torneio.
Muita conversa de bastidores e os nossos vizinhos engoliram quatro belos gols de uma seleção aplicada e inspirada. A Argentina estava atravessada na garganta da torcida brasileira, depois da derrota sofrida pelos canarinhos em Buenos Aires, na última partida do Brasil pelas eliminatórias da Copa do Mundo de 2006. Os argentinos se prontificaram a declarar que eram superiores ao time brasileiro, entre outras atitudes típicas deles.
E muito melhor do que a vitória do Brasil é poder ver o time argentino cabisbaixo. Seus jogadores calados, desolados, apenas a observar a alegria dos jovens jogadores do Brasil. Uma vitória incontestável foi a que assistimos nessa tarde iluminada (pelo menos em Brasília).
Porém, digo que falhamos. Não deveríamos nem ter dado aos argentinos o prazer do gol único. E também desperdiçamos chances concretas. Imaginem o deleite que seria uma vitória contra a Argentina por um placar de cinco ou seis gols? Não merecíamos aquele gol de Aimar. E Robinho poderia ter convertido. Assim como Cicinho e Renato. Cicinho, aliás, é a surpresa agradável desse torneio. Eu, como nunca gostei de Cafu, torço muito mais por ele do que qualquer outro patrício.
Perdemos ontem no sub-20 para os argentinos. Para justificar a derrota, direi que essa é uma competição menor. O que importa é o time principal. E esse, apesar de ter cedido um gol, marcou as redes adversárias quatro vezes. Não estou de alma lavada, porém ela nessa noite ficará menos encardida.
Para completar a seqüência de confrontos entre brasileiros e argentinos, daqui a pouco o time do São Paulo enfrentará o River Plate, na Argentina. Tive a oportunidade de assistir a um confronto entre esses dois times no Morumbi. Na ocasião, o São Paulo venceu no tempo normal por dois a zero e levou a disputa para os pênaltis. Perdeu nos pênaltis, mas teve pancadaria no final do jogo e ao menos Luís Fabiano acertou uns socos nos rapazes do time adversário (observação:sou contra a violência - pouca - contra os argentinos).
Em alguns instantes o São Paulo Futebol Clube será o Brasil contra um time argentino. Eu, alecrinense por destino e vocação, renderei meus desejos de vitória a esse time que considero simpático. Apesar de paulista.
Ganhar dos argentinos é mais do que uma alegria. Talvez até seja um motivo de existência...

PS: Ao olhar o jornal argentino Clarin, descobri essa estatística levantada pelos hermanos.

Máximas goleadas de la historia entre argentinos y brasileños:

13/12/1925 - Argentina 4 - Brasil 1 - Copa América, en Buenos Aires
15/01/1939 - Brasil 1 - Argentina 5 - Copa Roca, en Río de Janeiro
05/03/1940 - Argentina 6 - Brasil 1 - Copa Roca, en Buenos Aires
13/03/1940 - Argentina 5 - Brasil 1 - Copa Roca, en Buenos Aires
20/12/1945 - Brasil 6 - Argentina 2 - Copa Roca, en Río de Janeiro
22/12/1959 - Argentina 4 - Brasil 1 - Copa América en Guayaquil, Ecuador
29/05/1960 - Argentina 1 - Brasil 4 - Copa Roca
12/07/1960 - Brasil 5 - Argentina 1 - Copa Atlántica en Río de Janeiro
16/04/1963 - Brasil 5 - Argentina 2 - Copa Roca en Río de Janeiro
07/08/1968 - Brasil 4 - Argentina 1 - Amistoso en Río de Janeiro


confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 9:11 PM


Comments: ESTRELA CADENTE

A poesia definha. Num mundo rápido, globalizado e material não há mais espaço para coisas etéreas e às vezes eternas como a poesia. Tudo tem que ser descartável e ter um objetivo. O máximo que se vê de poesia hoje em dia é o que aparece em comerciais de televisão, principalmente de margarina, considerado extremamente piegas por mostrar a vida como ela deveria ser: simples e feliz. Os poemas são vistos como peças de museu. A produção diminui na medida em que não há público para ler nem editoras para arriscar. E se o poema for rimado, está fadado ao fracasso. Ninguém lerá. Com exceção daqueles que têm a sorte de virar música. Mesmo assim a maioria fica no esquecimento. A poesia matuta nos seus sextetos, sonetos, motes e glosas, com forte influência regional e muitas vezes com gramática, pronúncia e grafia próprias, tornou-se objeto de decoração de barraquinhas para turista europeu ver. A rima praticamente não existe mais. Isso num país que fala português, provavelmente a língua mais fácil de rimar da humanidade. As terminações das palavras são muito semelhantes. Diferente da língua mundial dominante, o inglês, que torna a maioria das rimas um jogo horrível de palavras. Quase todas as rimas são pobres. Provavelmente, o fato de o inglês dominar o mundo há pelo menos dois séculos explica a derrocada da poesia em relação à prosa. Quando os catedráticos franceses e antes deles os romanos com seu latim maravilhoso e rimado dominavam o mundo, a poesia era artigo de luxo e praticamente a única forma de escrever. As rimas eram ricas e seus autores também, pois havia público ávido por poesia. Românticos, satíricos, protestantes, líricos, históricos, proféticos, sem sentido, os poemas levavam a grande massa a pensar, sonhar e rir. No Brasil não foi diferente. A influência externa também diminuiu o interesse pela poesia. O brasileiro, sofisticado como só ele, prefere a rima pobre do love com blood do que rimar sinhá com fubá Mas aqui talvez tenha havido um fato desencadeante dessa involução da poesia: o modernismo. O grito da semana moderna de 1922 acabou por sepultar a rima e torná-la obsoleta e ultrapassada. Posso estar errado, mas o modernismo matou e depois o concretismo enterrou a poesia. Poucos poetas sobreviveram após, e eram gênios. Existem pouquíssimas palavras sem rima na língua portuguesa. Eu não aposto com certeza em nenhuma, mas arrisco uma: estrela. Não conheço nenhuma palavra que faça uma rima rica com tal vernáculo. Esse fato torna essa palavra tal qual seu significado: um brilho longíquo e inalcançável, assumindo um posto de ¿estrela¿ da rima. A prosa veio para misturar e destronar essa palavra maravilhosa. A estrela perdeu seu reinado na anarquia utópica e igualitária da prosa, que não aceita rei.

O agudo

Bruno magalhães

24/6/5

postado por: RODOLFO TORRES 3:21 PM


Comments: Terça-feira, Junho 28, 2005

O vôo do "camburão"

O menino colava a figurinha no seu álbum do campeonato brasileiro de futebol e eu me lembrei dos álbuns de figurinhas que tive. Um era de Skate, outro de um herói dos desenhos infantis da década de oitenta, e o outro era sobre bichos e plantas da Amazônia. Nesse último, as figurinhas vinham nos chicletes Ploc. Mas não senti saudades dos meus álbuns de infância. O álbum de figurinhas do garoto tinha o patrocínio de uma empresa de telefonia, em todas as páginas. Já se foi a época do patrocínio discreto, sutil, até um pouco envergonhado de sê-lo. Hoje, marcas de empresas jorram em qualquer espaço mínimo, sem nenhuma vergonha.
Veio então uma idéia que julguei interessante de realizar. Criar um álbum de figurinhas para os adultos. Apesar do conteúdo ser imoral, os marmanjos não veriam mulheres despidas. Um álbum de figurinhas dos parlamentares faria o maior sucesso. Nome, idade, profissão, quantidade de mandatos, quantidade de projetos, processos a que responde, patrimônio declarado, patrimônio estimado, pedidos de cassações, nome dos laranjas, empresas fantasmas, etc.
Um gaúcho até deu uma sugestão para a empreitada: "Mensalão Cards". O problema é que a renda obtida nas vendas das figurinhas e dos álbuns iria para a contratação de advogados, diante da enxurrada de processos que eu receberia. Além da questão dos direitos de imagem e outras pendengas. O mesmo gaúcho ficou a imaginar como seria o jogo de "bafo" com essas figurinhas. Como desvirar uma figurinha de Roberto Jefferson? Ou de José Dirceu?
Bem, a idéia morreu rapidamente, mas até que não foi perda de tempo pensar como seria se esse álbum de figurinhas saísse de verdade. O nível de descontentamento com a classe política está atingindo níveis catastróficos. Exemplo disso ocorreu no senado, quando um grupo de crianças foi visitar a casa e encontraram o senador Cristóvão Buarque (PT/DF). Após autógrafos e fotos, um garoto de treze anos pergunta ao ex-ministro da Educação quanto ele está ganhando do mensalão.
Parlamentares estão sendo xingados em aeroportos. Basta saber que existe algum político, não interessa de qual partido, que os passageiros começam o linchamento verbal. É de ladrão para baixo.
Além do singelo nome que colocaram nos vôos que saem de Brasília nas quintas-feiras, levando os parlamentares aos seus respectivos Estados. O "camburão" voa levando uma classe desacreditada, corrompida até o último suspiro e para lá da morte, e que precisa de maneira urgente justificar a sua existência para o país. Roubalheira sempre existirá. Mas no limite do tolerável.
Fico admirado com o não apedrejamento do Congresso Nacional. Uma casa falida, uma choupana fétida, uma tapera em putrefação, uma maloca podre, uma palafita fecal.
A torcida para que o camburão caia não é pequena. E não são apenas os suplentes dos parlamentares que rezam para essas mortes.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 3:52 PM


Comments: Segunda-feira, Junho 27, 2005

O HOMEM QUE VEIO PARA MUDAR O MUNDO

Falar sobre política, religião e futebol é muito fácil na medida em que tudo que você falar, estará provavelmente certo ou pelo menos uma minoria concordará. Arrisco um tema mais difícil: filosofia. Eu, como superficial conhecedor do assunto, me atrevo a declarar abertamente meu amor apaixonado aos grandes antepassados que moldaram o futuro da época, conhecido sob a alcunha de hoje. Considero principalmente três maiores entre os grandes e talvez (provavelmente) vocês não concordem. O primeiro é Demócrito. Esse gênio propôs uns duzentos anos antes de Cristo que o mundo e todas as coisas eram feitas de matéria divisível e reciclável. A matéria era a mesma, a diferença era a conformação. Perfeito. O segundo, mais moderno, chama-se Higel. O cara simplesmente definiu a dialética e organizou civilizada e definitivamente todas as discussões. Incomparável. O terceiro e com certeza o mais famoso e brilhante de todos, uma unanimidade entre intelectuais e avoados, entre plebe e corte, secos e molhados, gregos e baianos, FHC e Lula, entrou para história por este e outros feitos incomparáveis. Em livros de sua autoria, constam mais citações e verbetes que qualquer enciclopédia. Discorria com facilidade sobre qualquer tema da época. Debatia com parlamentares de igual para igual e com homens do povo na mesma altura. Nunca deixou uma palavra escrita de próprio punho; seus discípulos elevaram seus ensinamentos à categoria de religião e difundiram suas idéias, muito avançadas para a época, para todo o mundo. Idéias essas que levaram-no a um destino cruel. Depois desse fato, ficou ainda mais famoso através de seus seguidores. O mundo todo terminou por concordar com ele e aceitar, elevar e louvar suas idéias messiânicas. Fez milagres como se fosse fácil, combateu mais doenças que o SUS, ajudou mais pobres que o fome-zero, acusou perseguidores como Clodovil e conseguiu mais inimigos que Kajuru. Um exemplo para a juventude de todos os tempos. Um alento para todos os infortúnios. Uma meia quente para qualquer pé xelelento. Um ungüento fedido e melado para reumatismos da alma. Enfim, como diria qualquer loura burra ou jogador de futebol: é tudo para mim. Estou falando de ninguém menos que Brunico de Magal, o messias. Até hoje acumula mais e mais seguidores e até imitadores. Tem até quem diga que é da sua família. Cito dois que, com uma mania de grandeza descabida, incorporaram até o nome: Antônio Carlos, que também posa de todo-poderoso, e outro que em alguns meios é considerado e idolatrado como tal; chama-se Sidney. Eu como fiel seguidor de carteirinha do Mestre preciso me retirar agora para preparar a homilia de amanhã, exorcizar alguns demônios e corromper e seduzir algumas freiras. Glória a vós, Senhor. Que todos digam amém.
O agudo (papa da Igreja Magálica Messiânica dos Alentos dos nossos dias = aceita-se depósito em conta ou carnê = Torne-se você também mais um associado e seja feliz no reino dos Ceús)
Bruno Magalhães
27/6/5

postado por: RODOLFO TORRES 8:56 PM


Comments: A praia

No imaginário coletivo das pessoas, a imagem mais recorrente de local paradisíaco é uma praia. Em geral, não se trata de uma praia qualquer, é óbvio. Talvez pessoas nascidas em regiões interioranas, afastadas do litoral, sejam menos exigentes e se contentem com qualquer braço de mar, mesmo aquele tingido pela foz de um rio. Para mim, que tive a sorte grande de crescer no mais litorâneo dos Estados brasileiros, que é o Espírito Santo, a coisa é um pouco diferente.
Imaginar a praia ideal, um conceito vago e passional, sempre foi uma obsessão. Existem diversas listas, que variam de acordo com o gosto pessoal e, claro, das possibilidades de acesso. Não é fácil checar in loco se Bora-Bora é mais paradisíaca do que Fernando de Noronha ou se o Caribe é superior à Costa do Dendê, na Bahia. As fotos de revista ou mesmo as imagens mostradas na TV podem deturpar bastante: para isso, servem as campanhas publicitárias e os polarizadores das máquinas fotográficas profissionais.
O fato é que para nossa sorte, vivemos num país abraçado por um litoral vasto, capaz de fornecer infinitas locações paradisíacas. Mainardistas refutariam, bradando que nossos mares não têm o azul intenso das águas gregas ou a transparência ímpar do Taiti. Balela. Com o que temos, não precisamos buscar a utopia da praia perfeita, como a do filme do Leonardo DiCaprio. Aquela praia, artificialmente lapidada, plantando-se um coqueiro aqui e acolá, maqueando-se cada pedra ou arbusto, tem valor cenográfico. Vale para a fotografia do filme, mas não deve ser tratada com uma imagem idílica ideal: se algo não existe, não justifica a busca. Por capricho do destino, com a tsunami, aquela praia fantasiosa foi literalmente por água abaixo.
Eu estive numa praia perfeita. Faz dois anos. Como toda praia perfeita, essa não permitia livre acesso de carro. Nada mais vulgar do que você estacionar o carro em frente à praia, jornal embaixo do braço, cumprimentar o flanelinha e fincar a barraca na areia. Para alcançá-la, caminhei por uma trilha em meio à mata atlântica, acrescida de alguns coqueiros, até se atingir uma pequena ladeira em curva. Ao descê-la, encontrei a pequena e mágica enseada. Foi apenas por um dia, mas lembro dos detalhes. Algumas nuvens brancas dançavam no céu azul, dividindo o espaço com aves que passavam ligeiras. O mar verde, de água tépida, trazia calmas marolas. Em frente ao mar, uma porção de areia em forma de semi-círculo terminava onde começava a mata. Nessa mata, com algum esforço e imaginação, araras e micos podiam ser avistados de forma fugaz.
Não havia ninguém lá nesse dia. Melhor assim. Não tinha quiosques ou vendedores. Sem a presença dos infames ambulantes, a areia branca mantinha-se intacta, sem ser maculada por bagaços de milho ou garrafas plásticas. Essa areia branca, fofa e macia era de suma importância na composição do cenário. A ausência de crianças barulhentas garantia o sossego. Como não havia futebol ou frescobol, não se temia que uma bolada imprevista estragasse o dia. Em síntese, era apenas a natureza, no seu esplendor: céu, mar, areia e vegetação arrumados numa proporção clássica, como num quadro renascentista.
Sei que a curiosidade deve ser muita, mas não vou revelar onde fica essa praia perfeita. No máximo, posso mostrar a foto que tirei do lugar, para não passar por mentiroso. Agora, revelar o ponto exato desse tesouro incrustado num lugar ermo do nosso litoral, não vou. Farei como os surfistas que escondem os melhores picos. Esses fatos correm, com a Internet então, nem se fala. Em vez disso, conclamo que cada um descubra o seu paraíso pessoal e o proteja dos turistas intrusos, essa praga de alto poder de destruição.
Não sei se voltarei a esse local de nirvana algum dia. Tenho receio de que a impressão deixada se esvaia e, no lugar, fique a sensação de que era apenas mais uma praia bonita, e não a praia perfeita. Ou talvez volte quando estiver bem velho, para conferir o poder da natureza de resistir incólume à ação do tempo, mantendo seu viço, em perfeito contraste com as rugas que hei de carregar. Até lá, o paraíso ficará guardado em algum canto da minha memória.

Luís Gustavo Ferreira

postado por: RODOLFO TORRES 4:51 PM


Comments: Uma bóia chamada PMDB

Um dos mais premiados jornalistas brasileiros é o paulista Fernando Rodrigues. Sua área de trabalho é a política e ele escreve para a Folha de S.Paulo e para o UOL, além de livros. Todos os dias, visito a sua página na internet, em busca de uma análise diferenciada e sem a pressa dos fechamentos das redações, tendo em vista que Fernando Rodrigues não atualiza o seu site diariamente. E seu último texto foi irretocável. Diz Fernando Rodrigues que o procurador-geral da República, Cláudio Fonteles, investiga as denúncias do deputado federal Roberto Jefferson sobre o pagamento de mesada a parlamentares da base aliada do governo, mas não investiga o presidente Lula porque Jefferson o inocentou. Ora, se quem é acusado por Roberto Jefferson desqualifica a suas acusações, por que razão o procurador-geral da República aceita a absolvição de Jefferson?
Lula, como guardião das instituições públicas deve ser investigado sim. O que está havendo é uma verdadeira blindagem da figura presidencial. Todos o inocentam antes mesmo que ele seja investigado. Em outras palavras, Roberto Jefferson, advogado criminalista e político profissional, só serve para absolver. Nunca para acusar, pois essa é a função dos promotores.
A coisa não estaria indo tão mal se Lula soubesse como articular as suas alianças. Antes mesmo de receber uma resposta afirmativa do PMDB, partido fundamental para a tão famosa "governabilidade", em relação aos dois ministérios que o planalto deseja ceder aos peemedebistas na próxima reforma ministerial, Lula fez um espetáculo pirotécnico.Ao invés de fazer a proposta de forma discreta, chamou o presidente nacional do PMDB para uma sessão de fotos, como se o deputado Michel Temer (PMDB-SP) não estivesse constrangido naquela ocasião. O PMDB é uma muleta incerta para o moribundo PT. Caso o PMDB não aceite o convite de Lula, pois existe uma forte tendência no partido a não aceitar esse agrado do planalto, o governo ficará numa péssima situação.
Afinal, partidos políticos não fazem caridade. Principalmente quando essa caridade destina-se ao salvamento de um governo desestruturado de forma ética, política e eleitoral.
Quando o PMDB reclamava por mais lugares no governo, num passado não tão distante, o próprio presidente Lula não concedia espaço para esse partido que é o maior do país, principalmente no interior, com filiados ocupando cargos legislativos e executivos por todo o Brasil.
A saída de Michel Temer é convocar uma executiva nacional do partido para aprovar ou não a proposta do governo federal. Caso o PMDB diga não a Lula, a coisa desanda de vez. Se o não dos peemedebistas vencer, Lula poderia ao menos levar esse fora na intimidade. Não um fora em rede nacional. Aliás, mais um.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 3:37 PM


Comments: Domingo, Junho 26, 2005

O MEDO

Por que ter medo? Será por que nós mesmos criamos essa fragilidade no nosso cérebro? Ou então, antes mesmo dos acontecimentos, fantasiamos nossa derrota? Li em um livro que: "O aspecto mais forte do pensamento, como uma causa de doença, é o medo, porque a ansiedade enfraquece o sistema imunológico". É por medo que perdemos muitas coisas, deixamos de realizar outras, que até seriam de grande valia para nós. Lembro- me da primeira vez que falei em público; acho que falei o que não era para falar e omiti o que deveria ser dito, mas isso acontece com quase todas as pessoas quando vão ser avaliadas . Uma adolescente contou-me que, quando foi apresentar um trabalho na escola, quase não dormiu na noite anterior e, na hora da apresentação, tremia tanto que teve dificuldade de falar. Mas por que ter medo? Temos até medo de amar. Embora amar seja o sentimento mais nobre que exista, tantas pessoas vivem na solidão porque tiveram medo de amar e, conseqüentemente, serem amadas. Ouvi um desabafo de uma colega que disse "quando eu era jovem, os rapazes tinham medo de se aproximar de mim porque eu era bonita e importante; e agora não sou mais bonita, e não tenho ninguém. Se eu soubesse, teria agido de outro jeito". É... gostaria que não tivéssemos medo, pois certamente agiríamos de outra maneira com mais raciocínio e clareza, tomando atitudes, talvez corretas, para o nosso bem.

Teresinha J Gomes

postado por: RODOLFO TORRES 7:24 PM


Comments: Segura Peão

Procurava por uma boa festa de São João, já que estamos nos mês de festejos juninos, mas em Natal é cada vez mais difícil se encontrar tal evento. Fogueiras isoladas em algumas casas, propagandas na televisão com matutos sem um dos incisivos, e alguns vendedores ambulantes de fogos de artifício, nada mais.
Natal nunca foi uma cidade apegada às tradições nordestinas, é tanto que umas das coisas que orgulham alguns natalenses é a influência americana que se iniciou na segunda grande guerra. Em Natal nem o período natalino é digno da mobilização da cidade, o que deveria ser uma época de intensos festejos é das mais apáticas que se tem notícia. Aliado a isso estamos em uma terra de gente estranha, vinda de lugares distantes, gente com poder monetário, que transforma hábito e bairros inteiros. Talvez seja mais fácil achar um festival de Fado em Natal do que uma boa festa de São João. O mesmo, graças a Deus, não se pode dizer do nosso interior, com festas organizadas, como em Mossoró, por exemplo.
Mas o real fato é que procurava por uma festa de São João, e a encontrei. O local e os nomes dos envolvidos não vem ao caso, mas o ocorrido sim.
Como em toda festa de São João que se preze, houve uma tentativa de organização de uma quadrilha improvisada. E como em toda boa festa, esta tal quadrilha foi uma verdadeira bagunça, o que por si só já é fato digno de louvor. Mas algo estranho ocorreu. Entre gritos e uivos enfáticos, por vezes desesperados, o puxador (nome dado ao indivíduo fantasiado de matuto que teima em tentar organizar a tal quadrilha) incitava os componentes a dançar e pular. Entre os "Viva São João", "Vamos lá pessoal" e "Alavantú e Anarriê" (com certeza escritos de maneira errada, me perdoem os puristas), o puxador enche o peito, levanta as mãos ao céu e grita: seguuura peão ...
Fato este despercebido de quase todos os presentes, me fez parar. Estático. Emudecido. Estupefato. Dor nos ouvidos e na alma. Já não basta a minha tristeza pelo desprezo as tradições nossas, me vêm um puxador gritando "segura peão". Devia ele estar preocupado por perder o capítulo da novela naquela noite, com seu inconsciente suplicando por um rodeio.
Tristeza. Segura São João, senão ...
Do aditor
GustavoGT
Natal 26/06/05

postado por: RODOLFO TORRES 4:50 PM


Comments: Sexta-feira, Junho 24, 2005

Junho é mês de salivação no sertão

Esse é o terceiro ano consecutivo que não passo o São João com os meus parentes. Se me perguntarem se sofro por conta disso, direi que sim, sofro e muito. Afinal, quem passou boa parte das festas juninas comendo os melhores pratos à base de milho, feitos por minha tia Yolanda, há de sentir uma falta imensa das pamonhas com café e do melhor milho cozido desse planeta. Se bem que, segundos relatos maternos, o São João desse ano foi devagar. Várias ausências consideráveis e pouca animação. Apenas as meninas correndo e gritando pela casa e ao redor da fogueira, que é acesa na rua de barro da casa dos meus tios.
Esse ano a minha ausência está menos doída porque sinto o cheiro da pamonha por todo o canto. Apenas a vista daqueles panelões, cheios de milhos, acalma a alma. O aroma dos pratos de milho, servidos com café, num final de tarde, é capaz de acalentar o espírito desse que vos escreve. Descobri há pouco que não gosto de canjica por causa da canela que sempre colocam em cima dela. Alguns temperos são desnecessários e maldosos. Um deles é a canela, que é uma pimenta adocicada e irritante. Também não entendo como alguém consegue comer pamonha salgada. A pamonha é prato obrigatoriamente doce.
Não poderia me esquecer de falar do bolo de milho, um pouco queimado, também servido com café. Bolo de milho com café lembra uma reunião de tias ao redor da mesa da sala, falando sobre jovens com sucesso profissional, ou então das mulheres da televisão. Num quadro, Jesus apenas olha para essas senhoras faladeiras, com um olhar de paz e compreensão.
Café com pratos à base de milho, no crepúsculo, é sinônimo de sossego e família, de falatório e risadas, de cochilos na rede e início de noite. O mundo inteiro pode exigir eficiência, competitividade e máxima produtividade. Mas algumas ordens do mundo não são cumpridas em alguns lares da minha família. Ainda é tempo de preguiça, de sossego. Possível e essencial é cultivar a preguiça nessa época junina.
Lugar onde vendedores passam pela rua gritando os seus artigos. Local onde ainda se suja os pés de barro. Os vendedores de leite ainda entregam os sacos brancos no portão.
O vapor da comida junina embaça o vidro do quadro do Nosso Senhor Jesus Cristo. Alguém passa um pano engordurado para que a face do salvador permaneça nítida. E tenho para mim que já notei a sua salivação numa dessas tardes de junho.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 5:03 PM


Comments: Quinta-feira, Junho 23, 2005

A Itaipú de lágrimas de cada petista

Existe um poeta, sim. Existe um aqui pertinho. Mora em Campo Grande (MS) e a sua leitura deveria ser obrigatória, sob uma pena crudelíssima, que nem mesmo quem fosse executá-la teria coragem de fazê-lo. A pena, portanto, não seria aplicada, mas a própria lembrança da sentença deixaria o culpado transtornado, que nem aquelas vergonhas íntimas que nos atacam quando estamos quase dormindo.
E castigo, na verdade, é não ler Manoel de Barros. Não existe uma punição maior do que passar por essa vida no Brasil sem entrar em contato com suas linhas. E milhões de brasileiros são punidos, diariamente, eternamente. Uns porque não sabem como se lê. Outros, não sabem o que ler. E daí esses patrícios vão à eternidade sem a poesia das coisas simples de Manoel de Barros. Eis uma pergunta que faço para mim mesmo, sem encontrar resposta? Existe algum poeta das causas grandes? Deve existir algum alemão, francês, inglês e até um português. Agora mesmo lembrei de Camões, e Os Lusíadas. Refazendo a pergunta: Existe, em nosso tempo, causas grandes para a poesia? Ou a poesia contemporânea só encontra ressonância nos detalhes do cotidiano?
Mas, além de poeta; ou melhor, por ser poeta, Manoel de Barros é também um visionário. Quando jovem, Manoel era comunista. Ao ponto de pichar muros dando vivas ao comunismo. Mas era a pichação da época da tinta e do pincel. Não a do spray. Quase foi preso por essa dupla burrice. Depredar o patrimônio alheio e exaltar o comunismo.
Manoel de Barros era admirador de Luiz Carlos Prestes. Quando Prestes saiu da prisão, após dez anos de cárcere, Manoel foi vê-lo discursar no Largo do Machado, Rio de Janeiro. O jovem porta queria ver o seu ídolo político esbravejar contra o governo de Getúlio. Quanto mais coices e patadas que Prestes desse em Getúlio, mais o jovem poeta se sentiria reconfortado ideologicamente. Mas o que houve? Prestes, ao lado de Getúlio, apoiava-o. Lembrando que o mesmo Getúlio deportou a mulher de Luiz Carlos Prestes, a judia Olga Benário, para morrer na Alemanha de Hitler.
Portanto, Prestes era na mais amena hipótese, um canalha desumano. O jovem poeta sentou-se no meio-fio e chorou. Chorou porque idolatrava monstros. Chorou porque defendia atrocidades. Após o comício, trocou o Rio de Janeiro e a sua militância política, pelo pantanal. Fez versos e brindou um povo com poesia.
O petista que tiver a menor sensibilidade, deve sentar no meio-fio e chorar torrencialmente. Hoje mesmo li um artigo de um petista que dizia que o governo era de coalizão, e que as coisas só ficariam do jeito que deveriam ser quando o PT tiver um governo "puro sangue". Deus nos livre de tão colossal desgraça. Além de pregar o partido único das ditaduras soviéticas, o artigo absolutista trata o pluripartidarismo como um defeito. E, se não estou enganado, essa era uma das reivindicações da esquerda na época da ditadura militar.
Pedir que todos os petistas manifestem a sensibilidade poética e visionária de Manoel de Barros é, no mínimo, loucura. Mas rogo ao petista que, na intimidade do seu sossego, não se furte de prender as lágrimas por esse governo tão igual ao outros.

PS: Já ouvi uma regra que diz que nomes indígenas terminados em u não são acentuados. Mas eu coloco em Assú, Graçandú, Muriú, e agora Itaipú. Portanto, se estiver errado, permitam que eu assim escreva.
PS2: E por falar em Assú, Bruno estou esperando a sua crônica da interjato. Vê se não vacila!

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 7:32 PM


Comments: Quarta-feira, Junho 22, 2005

A grande chance do vice

Para completar o inferno astral pelo qual passa o governo, o Supremo Tribunal Federal aprovou a instalação da CPI dos Bingos. Mas não basta apenas a simples aprovação. O STF vai intimar o presidente do Senado Federal, senador Renan Calheiros (PMDB-AL) a indicar os integrantes da comissão que investigará a atuação de Waldomiro Diniz (ex-assessor da Casa Civil da presidência da República, flagrado por uma câmera de vídeo praticando extorsão), já que o ex-presidente do Senado, senador José Sarney (PMDB-AP) negou-se a realizar tal tarefa, quando presidia e casa.
Portanto, além de enfrentar uma comissão parlamentar mista de inquérito, que investigará a corrupção nos Correios e o pagamento de mesada, por parte do PT, a deputados aliados do governo, Lula ainda verá mais esse fantasma que certamente vai incomodar e muito o presidente.
A oposição, pelo que se comenta, está um tanto quanto acuada, principalmente o PSDB. Não é da vontade dos tucanos que Lula não termine esse mandato, mas que chegue ao seu final sem fôlego eleitoral que lhe assegure a reeleição. O PSDB quer ver Lula terminar esse mandato de joelhos, apático e com o moral destruído.
A campanha eleitoral já começou. O governador de São Paulo já está na TV como um bom administrador. Sereno, tranqüilo e até temente a Deus. Geraldo Alckmin usurá toda a força do governo do Estado mais poderoso da federação para conseguir a indicação do PSDB para enfrentar Lula em outubro de 2006.
Mas do jeito que a coisa anda, com o escândalo cada vez mais se aproximando do gabinete da presidência da República, o candidato Tucano poderá enfrentar José Alencar nas próximas eleições. E essa não é a vontade da oposição
Feroz crítico da política econômica do governo, com seus juros estratosféricos e com um conservadorismo digno de Delfin Neto, José Alencar poderia tomar medidas que caíssem no gosto popular, como a diminuição da taxa de juros e o corte de impostos. Medidas que certamente agradariam a população e o tornaria um adversário poderoso para uma disputa eleitoral.
Se o PSDB exagerou na dose ou não, apenas as próximas semanas dirão. Mas o escândalo caminha com muita desenvoltura, isso é consenso. Os tucanos farão de tudo para preservar Lula na presidência, até o próximo ano. Querem como adversário em 2006 um político com o seu patrimônio eleitoral esfacelado, um candidato em estado terminal. Só que a dose de denúncias plantada pelos tucanos pode fazer com que o PSDB enfrente um empresário mineiro que assim que tiver com a caneta da República nas mãos, tomará medidas que dificultarão o sonho dos paulistas bicudos de comandar mais uma vez o planalto.
Existe um esforço evidente em blindar o presidente Lula. Governo e oposição não querem de maneira nenhuma vê-lo sair do seu cargo. José Alencar pode ter a sua grande chance se souber convencer alguns empresários e parte da imprensa de que será um bom governante. Caso a imprensa investigue livremente esse episódio, Lula cai. E logo.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 6:40 PM


Comments: MOVIMENTO ANTIFICIAL

Pegando carona no manifesto anti-garrafinhas de água de côco, conclamo os demais confrades a realizarem um protesto mais amplo e genérico. Não sou do departamento jurídico da Confraria, mas sugiro, desde já, o estatuto do manifesto, qual seja:
MOVIMENTO ANTIFICIAL
Esse movimento protestante, mas não necessariamente crente, destina-se a ser contrário a tudo que for artificial, inventado, modificado, oportunista e fora de contexto. Ou seja: tudo que não for natural.
Artigo 1 ¿ De simulação de decorações
Parágrafo 1º - Como quando a gente vai naquele restaurante podre de chique, com o garçom supereducado e por dentro da etiqueta e com o preço nas alturas, mas decorado com palha de coqueiro, coberto com flane e zinco, com chão de cimento queimado ou areia de praia e com o nome pomposo: Favela¿s bar. Não aceito. Até porque conheço alguns botecos de verdade e não existe preço absurdo nem garçom afeminado.
Parágrafo 2º - Nos botequins legítimos, o dono do bar, suado e gordo, serve e limpa as mesas com o mesmo pano seboso que enxuga a testa. Sua patroa faz a gororoba e ai de quem reclamar. Críticas e sugestões não são aceitas, lidas ou analisadas e, dependendo do teor, podem terminar em inquérito policial. Tudo na mais perfeita organização.
Parágrafo 3º - Se não gostou, vá embora.
Artigo 2 ¿ De vestuário
Parágrafo 1º ¿ Uso de roupas envelhecidas, desbotadas e rasgadas de forma proposital, já compradas assim e totalmente submissas a ditadura da moda. Quando esta mesma roupa rasga ou desbota em um local outro que não o proposital, são deixadas impiedosamente de lado, assim como quando saem de moda.
Parágrafo 2º - O verdadeiro esfarrapado é um sujeito totalmente incapaz de causar qualquer dano proposital à sua velha calça, geralmente filha única de pai solteiro. É tudo ação do tempo.
Parágrafo 3º - Lembre-se roupa nova nunca vai ser velha no ato da compra e vice-versa.
Artigo 3 ¿ De comportamento social
Parágrafo 1º - Fingir comportamento social totalmente divergente com sua real condição social. Como quando alguém se finge de rico para entrar de penetra em uma festa ou quando alguém simula conhecimento de arte só para comer os salgadinhos da vernisage.
Parágrafo 2º - Impróprio também tomar para si comportamento de tribos de outros mundos, como quando um interiorano, nascido em mulungu, resolve, sozinho, tornar-se punk só porque viu na televisão. Nada mais ridículo
Parágrafo 3º - Não há relato de nenhum jovem considerado normal que tenha adquiridos hábitos Ianomamis após assistir a Discovery.
Artigo 4º - Das exceções
Parágrafo 1º ¿ Salvaguardemos nesse artigo todas as coisas artificiais que, devido a avanços da civilização, são completamente aceitos no mundo em que vivemos e que não podemos, de maneira alguma, discordar.
Parágrafo 2º - Incluem-se objetos e situações singulares e praticamente sem substitutos, como por exemplo adoçantes artificiais para diabéticos, não para modelos anoréticas, estas, sim, estereótipos do artificial. E todas as outras coisas que por hora não lembro.
Parágrafo 3º - Ah! lembrei de mais uma: as loiras falsas com lipoaspiração e silicone nos seios. Apesar de artificiais são totalmente necessárias à vida moderna e insubstituíveis. Claro que dentro de um contexto cabível, como em sites pornô e paredes de borracharia. Nunca defendendo uma tese de doutorado em Harvard.
Parágrafo 4º - Nada mais natural que uma loira burra, siliconada e torneada.
O Agudo
Bruno Magalhães
22/6/5

postado por: RODOLFO TORRES 3:50 PM


Comments: Terça-feira, Junho 21, 2005

Filete de água potável na fossa

O deputado federal Roberto Jefferson definitivamente é um astro. E ontem, no programa Roda Viva, da TV Cultura, provou mais uma vez isso. Só para frisar, não é nada fácil sentar naquela cadeira e ser sabatinado por mais de uma dezena de jornalistas. E Jefferson, muito tranqüilo, passeou pelas perguntas. Claro que em alguns momentos, ele desandou um pouco, mas o balanço foi positivo. Ele mesmo se intitula porta-voz de um sentimento da nação contra a corrupção. Belíssimo!
Sempre escutei que a surpresa nos dias de hoje é raridade. Se nomearem um eqüino como senador, nenhum problema nisso. Tudo absolutamente normal. Sempre repito uma frase do filme O Poderoso Chefão II. Al Pacino, já chefiando a organização crimosa da família Corleone, diz a um senador que política e crime são sinônimos. Então eu também não tenho o direito de ensaiar qualquer surpresa, já que tenho essa frase como uma espécie de mantra.
Pois me surpreendi com uma metáfora empregada por Roberto Jefferson. Nos dia de hoje, o intelectual no máximo produz uma metáfora cretina. Foi-se o tempo dos sonetos, dos romances, dos ensaios, dos contos. Os intelectuais atuais elaboram metáforas cretinas e ordinárias. Alguns até escrevem croniquetas, poemóides e versos vazios. Mas a metáfora cretina é a ordem da atualidade. Que o diga um Arnaldo Jabor e outros paraquedistas da imprensa.
Mas volto à metáfora do parlamentar. Em certa hora Jefferson, para justificar a corrupção no PT, e para mostrar a necessidade urgente de uma reforma política, diz que "Não corre um filete de água limpa num cano de esgoto!". O esgoto, claro, é o parlamento. E o filete de água limpa é o PT, o partido guardião da ética e da moralidade. E observem que muita gente pensa dessa forma. Muita gente acha que o filete de água limpa realmente corre no esgoto da política brasileira.
Segundo um professor da UnB, que tem sotaque espanhol, um presidente tem que ter três características essenciais. O poder de análise, o poder de decisão e o poder da comunicação. Para o tal professor, FHC só sabia analisar com maestria o cenário político e as relações com o congresso. Não mandava e nem se comunicava com o povo. Já o atual presidente só sabe se comunicar. E quem não se lembra das declarações de improviso de Lula? Mandar ele não manda. Analisar o cenário político também não é com ele. É só ver quem é o atual presidente da câmara dos deputados para compreender que Lula não é um estrategista de mão cheia.
A melhor opção para Lula, a partir do primeiro dia de janeiro de 2007, é se candidatar à vaga de Chanceler do Brasil. O presidente não gosta de tratar da política doméstica e adora viajar, discursar em solos internacionais e cumprimentar chefes de Estado. Se é que ele chega até o último dia de dezembro do próximo ano como presidente da República...

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 6:13 PM


Comments: Segunda-feira, Junho 20, 2005

Futebol, religião e até um pouco de política

Serei bombardeado, sei disso. Mas não consigo deixar de admirar o técnico da seleção brasileira. Em 94, a história era outra. Não ia com a cara dele. Mas Parreira, após retornar ao comando da seleção, adquiriu uma feição mais aceitável para mim. Agora torço por ele, e muito mais ainda, quando ele não convocou Ronaldo para os dois últimos jogos das eliminatórias para a copa do mundo da Alemanha. Para a seleção ficar perfeita, alguns jogadores tem que sair. A começar pelo goleiro Dida, pelos zagueiros Lúcio e Roque Júnior, e pelo meia Émerson. De resto, está tudo bem.
Para tudo ficar realmente perfeito, Romário teria que ser convocado novamente. Após ser cortado injustamente da copa de 98 e descartado na copa de 2002, Romário ainda é mortal na área. E assim o será. Sempre.
O motivo dessa análise de vanguarda sobre a seleção me veio à mente após uma discussão num bar, ontem, antes do confronto contra o México. Alguém disse que preferia ver à corrida ao jogo de futebol. Mas como é possível, se a seleção brasileira é um dos maiores (se não o maior) elementos da nacionalidade brasileira. Deixar de ver o jogo da seleção é o mesmo que rasgar a bandeira. O telespectador de corridas de fórmula 1 gritava e seus dentes não eram devidamente higienizados. O telespectador de F1 argumentou que os jogos da seleção não tinham a menor importância para ele. Sua concepção de nacionalidade ia além de uma simples partida de futebol. Mas confessou que nutria um ódio por Parreira que lhe fugia ao controle. Toda vez que o técnico da seleção brasileira de futebol aparecia em seu televisor, ele não resistia, e cuspia na tela. Sempre se arrependia depois, pois tinha preguiça de limpar o televisor, quando limpava.
Ao mesmo tempo, o telespectador de F1 e inimigo mortal de Parreira declarou-se fã de Lula. E a discussão adquiriu ares de comédia e tragédia. Sempre digo que sou politeísta. E uma das minhas religiões é o futebol. A outra é o jornalismo. Outra, ainda, é a minha família. Até o cinema é para mim uma religião. Mas a mais perigosa das religiões, com todos os elementos fundamentalistas das religiões dos homens bomba, é o PT.
O PT é uma religião, com seus seguidores fundamentalistas prontos para detonar argumentos cretinos que protejam o presidente Lula e o partido dos trabalhadores. E quem ousar levantar alguma suspeita ao ídolos deles, será apedrejado como uma adultera do velho testamento.
Não duvido que um religioso petista adentre numa comissão parlamentar com diversos explosivos ao corpo e os detone durante um depoimento mais revelador. Diz um ditado que política, religião e futebol não se discute. O PT une elementos fundamentalistas da religião, e elementos do fanatismo do futebol, para exercer a política teocrática que exerce. No dia em que o PT perder seus fiéis, o Brasil perderá mais uma religião, das tantas que possui.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 10:11 PM


Comments: Sábado, Junho 18, 2005

MANIFESTO CONTRA A ÁGUA DE COCO EM COPINHO, GARRAFINHA OU COISA DO GÊNERO

Hoje fui caminhar no calçadão da praia. Tudo correu razoavelmente bem. A noite estava bela e a praia não estava insuportavelmente agitada, como fica nas noites de verão. Mesmo assim, não pude deixar de observar que definitivamente a praia não nos pertence mais. Está totalmente entregue a algumas garotas de hábitos não muito recomendáveis e algumas espécies de alienígenas que contrastam com a paisagem tropical. Mas, se o sujeito não se incomodar em atrapalhar um pouco a diversão desses senhores - que afinal merecem ser bem tratados, pois gastam em dólar ou euro - e o trabalho dessas meninas, até que dá para aproveitar uma boa caminhada. Pode ser até relaxante. Também não pude deixar de observar uma certa deficiência na iluminação pública - paga por nós em reais e talvez por isso mesmo não merecedora da atenção do poder público.
Mas não é contra nada disso que eu me insurjo nesse momento. Quero aqui fazer um protesto veemente contra um problema ainda maior. Ao final da minha caminhada, resolvi tomar água de coco:

- Por favor, amigo, um coco verde!
- Não tem, não senhor. Só tenho água de coco em copinho.
- Tudo bem, deixa pra lá. Obrigado!

Alguns metros depois:

- Amigo! Por favor, você tem água de coco?
- Tenho, chefia.
Aí o sujeito me tira da caixa uma garrafinha plástica.
- Não! Não! Eu quero água de coco no próprio coco.
- Ah, chefia! Muito antes do sol se esconder, o senhor não encontra mais coco verde por toda a praia.

Sem querer acreditar na sentença do vendedor, atravessei a rua e fui a um barzinho mais sofisticado. Aí confirmei o absurdo. Não se encontra mais água de coco no coco. Por onde você anda, só tem água de coco em copinho ou garrafinha.
Não me interpretem mal. Mas, talvez para aqueles senhores que pagam em dólar ou em euro, água de coco na garrafinha possa satisfazer. Para nós, que pagamos em real e conhecemos coco verde, água de coco tem que ser no próprio coco. Aliás, bom mesmo é tomar água de coco no próprio coco e depois mandar partir o coco para, com uma palheta improvisada da casca deste mesmo coco, comer aquela popa deliciosa que tem dentro dele. Somente quem nunca fez isso é que pode se agradar daquela aguazinha sem graça em embalagens plásticas deprimentes.
Água que não vem dentro do coco é qualquer coisa, menos água de coco. Pra mim, trata-se de soro fisiológico com bastante açúcar.
Portanto, registro aqui o meu protesto, ao mesmo tempo em que conclamo a todos os apreciadores da verdadeira água de coco a dizerem não à água de coco em copinho, garrafinha ou qualquer coisa do gênero. E tenho dito!

Natal, 18 de junho de 2005.
Rafael Loiola
(O Ausente)

postado por: RODOLFO TORRES 11:13 PM


Comments: Milagres num mundo iluminado pela ciência

O padre José de Anchieta ainda tem chance de ser canonizado. Em 1980, foi beatificado e, por ora, corre no Vaticano um processo que pode dar ao Brasil a chance de ter seu primeiro santo (ainda que Anchieta tenha nascido nas ilhas Canárias). Nesse ramo, existe muita burocracia e pouca pressa. Até o desfecho, há de se ter santa paciência. Uma das exigências mais conhecidas nesses casos, é a necessidade de um milagre comprovado, se possível, registrado em cartório.
Reza a lenda que na prestigiosa cidade de Cachoeiro de Itapemirim, enquanto Pelé dava seus primeiros socos no ar disputando a Copa do Mundo na Suécia, nascia uma criança com uma deformidade no calcanhar: um pequeno Aquiles capixaba. A mãe, pressurosa, cuidou de colocar uma relíquia do padre Anchieta no pé defeituoso e eis que em pouco mais de um mês, o pé estava curado, nem cicatriz restara. A história cresceu, atravessou o oceano e chegou aos ouvidos dos sábios de Roma. A documentação do fato é pouca, as evidências, pálidas, mas afinal para que serve a fé ?
Nessa semana, foi publicada na mais conceituada revista de medicina, um fato que pode ter passado despercebido por muitos e certamente pelos catedráticos da Igreja Católica. Desde a criação do Éden, ou para os céticos, desde que e espécie homo sapiens sapiens se espalhou pela face da Terra, todo indivíduo contaminado com o vírus da raiva, morreu em questão de dias. Nesses casos, não tem reza que chegue. A raiva é a mais letal das doenças infecciosas, transmitida através da saliva de um animal contaminado, em geral, um cão ou um morcego. Iniciados os sintomas, a família já podia encomendar o caixão. Agora não é mais assim.
Alguns meses atrás, uma jovem americana de quinze anos foi resgatar um morcego que se debatia contra o vidro na janela do seu quarto. Na hora de soltar o animal, a incauta sofreu um arranhão mínimo no dedo homônimo da mão esquerda. Seguiu sua vida normal, repleta de sucrilhos e ovos mexidos até que um mês depois, vieram os sintomas de forma avassaladora. Após alguns dias de indefinição diagnóstica, veio o veredicto sombrio. Seu quadro clínico piorou progressivamente até ser transferida para um hospital maior, um centro de referência. Os pais foram informados a respeito do prognóstico terrível da doença de sua filha. Foi então feita uma proposta de uma terapia inovadora, nunca antes testada. Diante da falta de opção, os sensatos pais assinaram um termo de compromisso e autorizaram a empreitada.
Setenta e seis dias depois, boa parte deles numa UTI, em coma induzido, consumou-se o milagre. Esse sim, digno de nota. A menina saiu viva do hospital. Saiu de muletas, com algumas seqüelas neurológicas, mas definitivamente viva. Quatro meses depois da alta, ela já conseguia fazer suas atividades de forma independente, inclusive retornando à escola.
Modestos, os médicos intensivistas que se revezaram nos cuidados da paciente se contentaram com o reconhecimento dos colegas de profissão, publicando a experiência numa revista do meio. O Vaticano ainda não se manifestou. Provavelmente, estão muito ocupados com os causos de antigamente, com as santas que derramam lágrimas de sangue ou as que aparecem para crianças de imaginação fértil...

Luís Gustavo Ferreira

postado por: RODOLFO TORRES 12:59 PM


Comments: Sexta-feira, Junho 17, 2005

Cervejas e cervejas

Conversei hoje à tarde com um cervejeiro profissional, que há 20 anos produz cerveja artesanal e hoje é o responsável por uma casa de cerveja que produz a bebida na frente dos clientes, com aqueles recipientes metálicos imensos. São panelas de pressão gigantes. Muitos botões e válvulas. De vez em quando ele vai lá e mexe em alguma coisa. Coisa técnica.
Ele se formou na Venezuela, numa universidade específica para formar esses profissionais que conhecem o que muita gente acha que conhece. Para se ter uma idéia, existe um regulamento alemão, uma espécie de receita, datado do ano de 1516, onde as regras para a fabricação da cerveja são estabelecidas. É algo do tipo: Padrão de pureza da cerveja. Apenas água e mais três ingredientes. O resto é dispensável. O que ocorre com as cervejas industrializadas é que alguns componentes extras são adicionados, para barateamento do custo e padronização do paladar do público leigo e dependente.
Desde que cheguei por aqui, era recriminado por um conhecido, que declarava publicamente que uma tal marca de cerveja era a melhor, em disparada. Eu era repreendido por consumir uma outra marca que, segundo esse especialista de quinta categoria, possuía um gosto menos refinado e agradável. Até que lhe contei de um teste. Bastante simples por sinal. As duas marcas seriam oferecidas a ele, sem rótulos. Em tulipas. E ele, respeitado regionalmente como conhecedor de bebidas, teria 50% de chance de acertar qual era a sua cerveja favorita, apenas pelo paladar.
Confesso que fui cruel para com esse ser. O paladar do brasileiro é um sentido adormecido, é um prazer pouco explorado. A nossa preferência é a quantidade. Enquanto o estômago não explodir, não estaremos satisfeitos. Há quem diga que essa valorização da quantidade de comida pelos brasileiros possa ser tema de um estudo antropológico.
A fome é parceira do Brasil. Existe no mais abastado patrício elementos culturais de povos famintos por essência. Até nas recepções do Itamaraty existe um banzo da fome histórica da nossa nação. Não nos ensinaram a apreciar a comida. Ensinaram-nos a comer o que for possível, pois não existe segurança no minuto seguinte nessa pátria. E o paladar adormeceu.
Com dois copos de cerveja, com 50% de chance de acertar (pois era chute mesmo) o indivíduo errou. Lógico que antes existiu todo um ritual de pseudo-degustação. O olhar era perdido e para o alto. Até bochechou a cerveja, mas errou. A cerveja que ele recriminava era a eleita por ele como a mais saborosa.
Questionei ao cervejeiro sobre a fama das cervejas alemãs. A resposta é bastante simples. Lá as cervejas são, na maioria, artesanais. E respeitam o padrão de pureza de 1516. E na Alemanha, a cerveja é motivo de degustação. O fulano bebe e reclama do malte, da cevada, etc. Aqui, por cinqüenta centavos a menos, bebe-se corantes e outros aditivos químicos com o maior prazer.
Em suma, comemos para sentir o estômago cheio. Bebemos, para cair de bêbados. O fim é a justificativa perfeita para qualquer meio que utilizemos. Afinal, o meio é o paladar. E esse, está morto em nós.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 8:03 PM


Comments: Quinta-feira, Junho 16, 2005

O fim das cores

Já dizia Nelson Rodrigues: "Não há ninguém mais vago, mais irrelevante, mais contínuo do que o ex-ministro". E sendo dessa forma, José Dirceu, que caducou no governo Lula, será apenas e tão somente um mísero deputadinho que barganhará o que for preciso para salvar o que ser humano perdeu há milênios, ou seja, a honra. Mas no caso dele, a honra poderá ser resgatada. Com uma boa oratória, resgata-se tudo, inclusive um passado melhorado e ideal.
A demissão de José Dirceu representa mais do que a queda de um dos alicerces do presidente. É um indício obsceno da crise que ainda não sabe andar com pernas próprias. Assim que a crise desmamar, a República será sacudida, para não dizer devastada.
Leio artigos que brotam de um lugar desconhecido e que suplicam pela moralidade na política, pela ideologia partidária, pelo sentimento público que é a base de qualquer agremiação política. Até entendo que a República e que as instituições brasileiras são o ganha pão de muita gente. Mas pregar um sentimento ingênuo em relação ao processo político é quase uma fábula. E meu sonho, na verdade, é viver de fábulas. Mas fábulas construtivas, fábulas que elevem um momento (ou um espírito). Não fábulas medíocres, como a fábula da democracia, das leis, da justiça, do Estado democrático de direito, da liberdade de imprensa no Brasil e na nossa igualdade perante à lei.
Minha fábula é mais voltada à poesia. Ao desnecessário, ao que não é útil, ao que não é prático. Ao que se faz por fazer, pois o imperativo era um desejo burro e não a necessidade real.
Parem de viver a fábula cruel da realidade diária, que é sustentada até por pensamentos convictos. A fábula é para ser vivida como tal, e não como realidade. Justiça, liberdade, democracia... Vivam-nas por fábulas. Não são reais. E nunca o serão. Há quem possa argumentar que isso seria o caos. Mas somos íntimos da falta de ordem. Habitamos um mundo impensável. Pois não pensa.
Mudando o foco do texto, quero aqui expressar a minha idéia para o especial de fim de ano dessa Confraria. O nosso vídeo contaria com a participação do nosso músico, o Dr. Bruno Magalhães, que cantaria a música "Que fim levaram todas as flores?", dos Secos e Molhados. Ele toca o seu violão sentado com diversas crianças ao seu redor. Mas as faces dos pequenos estariam embaçadas pela edição do vídeo, pois são crianças prostituídas de Natal. Pequenas natalenses que se entregam a turistas estrangeiros. Elas fariam o coral da música.
E o natalense, na época do aniversário de sua cidade, seria relembrado de que algumas de suas pequenas filhas são violadas por estrangeiros, em Natal. São crianças sem cores. A prostituição infantil do sudeste da Ásia, do continente africano, e de todos os locais miseráveis do planeta se faz presente, ou melhor, grita em Natal.
Ao menos, quero oferecer música e formar um coral com essas pequenas. O coral da face embaçada.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 9:50 PM


Comments: Janela para a alma

Sábado à noite. Enquanto espero, nada melhor para fazer do que ouvir alguns "causos". É nessa hora que ouço um relato indignado que me chamou atenção. Em tom de profundo descontentamento, dizia aos ouvintes, que não eram muitos, o absurdo que presenciara em uma localidade afastada de nossa cidade.
Mais precisamente no bairro de Bom Pastor, um morador vizinho (muro com muro) ao cemitério construiu, ou já havia quando o mesmo foi morar lá, uma janela na parede sua em comum com o muro do cemitério. Em se tratando de uma casa simples, o muro do cemitério e a parede de seu quarto eram o objeto em comum. Absurdo, bradava o interlocutor, em tom de profundo receio e descontentamento.
O tempo limitado e a mente em estado de latência fizeram com que concordasse sem ser enfático no momento, ou pelo menos me resignasse. Mas agora sou totalmente contrário ao exposto. Radicalmente contra. Veementemente concordante com o projeto estrutural da casa em questão.
Vejam bem meus caros confrades se não é ilógico pensar desta forma. Lógico que o ideal é morar bem longe, mas se é inevitável, vamos aos argumentos. Desde que me entendo por gente, nunca vi uma alma respeitar parede, muro ou o quer que seja desta natureza. Cimento para eles é igual a vento, você ultrapassa sem maiores delongas. De nada adianta a presença física do muro, ou de portas, grades pior ainda. Transpô-los é fácil como roubar dinheiro público.
Isto posto como postulado, a presença da janela se justifica totalmente, pois pelo menos o pobre morador é capaz de ver a desagradável presença dos vizinhos. Concordo que nem todos se deixam ver, mas os realmente perigosos não se contentam em ficar urrando às escondidas. Em se visualizando o perigo, pode-se ganhar tempo em se tomar as providências cabíveis.
Informo, contudo, que a melhor providência não é correr ou entrar em desespero. Em vinte e poucos anos, nunca vi ninguém ganhar na corrida de uma alma. Elas são exímias corredoras de curta distância. Um arranque impressionante.
A única solução comprovadamente eficiente, é o "lençol". Quanto mais velho e apegado a você o lençol for melhor. Só não pode apresentar furos, que é por onde elas podem entrar. Outro conselho prático: nunca deixem os pés de fora. Alma é como cachorro vira-lata, adora atacar no mocotó. Portanto a janela nos dá uma chance de se esconder debaixo do lençol, que é na verdade um forte escudo protetor, nos livra momentaneamente do perigo, enquanto Gasparzinho, mamãe ou a polícia vem nos ajudar.
Do aditor
GustavoGT
Natal 16/06/05

postado por: RODOLFO TORRES 11:40 AM


Comments: Quarta-feira, Junho 15, 2005

Agostos brasileiros

Assim como o futebol é uma área do conhecimento nacional movida pela superstição, a política também é. E, no imaginário político nacional, o mês de agosto tem uma sina maldita. Além de ser o mês do desgosto, agosto é um período complicado para governantes em crise. Se não acreditam em mim, relembremos o que se passou nesse mês tão singular às desgraças presidenciais.
Getúlio Vargas saiu da vida e entrou na história em agosto de 54 com um tiro no coração. Após uma insuportável pressão, o presidente gaúcho cometeu o suicídio e reverteu uma situação completamente desfavorável. Possibilitou com essa atitude que o potiguar Café Filho assumisse a presidência da República.
Jânio Quadros, no dia 24 de agosto de 1961 renunciou à presidência, com apenas oito meses de mandato, após pressões colossais do jornalista Carlos Lacerda. O mesmo que pressionou Getúlio.
Estamos em junho, e ao que tudo indica, a crise não vai demorar a arrombar as portas do gabinete da presidência da República. Como a vida pública não se faz apenas de aspectos práticos (na verdade, aspecto prático é o que menos tem na vida pública), o governo deveria fazer o possível para ultrapassar esse vindouro mês de agosto com algum fôlego, por menor que fosse. Uma expressão bastante utilizada por aqui é: O governo está sangrando.
Essa hemorragia governamental teria que suportar o mês oito, por seu valor simbólico, cabalístico e histórico. A crise está tão profunda que nem mesmo as aparições da "ex-qualquer coisa" do jogador Ronaldo está dissipando a névoa escura que paira sobre Brasília.
Hoje mesmo, um mentiroso dizia que um exército da moralidade estava chegando a Brasília, com algumas carretas abarrotadas de pedras. Seu alvo é o Congresso Nacional. Que, ao contrário da mulher adúltera da bíblia, não será poupado de uma tempestade produzida por gente que pisa o chão. E que ninguém fosse exercer o cristianismo quando os parlamentares fossem avistados pelos que possuem as pedras. O mentiroso babava enquanto dizia isso. Sua baba seca, e contraditoriamente elástica, no canto da boca era a medida de seu ódio.
Sonhava em ver homens públicos deitados, mortos, sob centenas de pedras. O piso do legislativo deveria se tingir de vermelho, para que essa data fosse lembrada como a primeira violência justa desse país. Estacas de três metros seriam postas na frente da casa, com os mortos transformados em espeto.
Os escombros não seriam removidos. Fariam parte da nova decoração desse prédio emblemático. E os homens, com todo o seu ódio drenado para o cumprimento da uma justiça arcaica, retornariam aliviados.
Particularmente, penso que tudo é possível. Inclusive a profecia do mentiroso. Quando se trata de política então, o possível adquire a relativização convencional de todo homem. Principalmente se as pedras e o exército do mentiroso se materializarem em Brasília, em agosto.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 12:26 PM


Comments: Terça-feira, Junho 14, 2005

Linhas sobre o tema inevitável

Realmente, não existe um outro assunto a ser tratado no dia de hoje. O depoimento do deputado Roberto Jefferson (PTB/RJ) na comissão de ética da câmara dos deputados paralisou hoje não só o Brasil. Mobilizou investidores internacionais, analistas, chefes de governo de várias nações, entre milhões de outros. E Jefferson, advogado e político experiente, utilizou com maestria o espaço que teve para exibir o que sabe (mesmo dizendo que não tem provas). Com uma platéia silenciosa, seu rosto era iluminado por flashes incessantes.
Os repórteres que acompanham o seu depoimento enviam textos frenéticos às redações e a opinião é apenas uma: é apenas o início de uma longa batalha, com depoimentos, investigações e acusações. Depois do depoimento do presidente do PTB, sai para resolver alguns assuntos. Estava apenas a aguardá-lo, através da TV. Fui a um posto de gasolina colocar uma mísera quantia em dinheiro, para que o automóvel do meu primo saísse da reserva. E nesse posto de gasolina, não havia televisão. Apenas os rádios dos carros transmitiam as palavras da câmara. E todos caminhavam em círculos, com o olhar perdido, com as mãos sem função. Pareciam bonecos da tragédia que se anuncia a cada dia.
O mar de lama em que o governo está atolado é muito mais profundo que se podia imaginar. Jefferson fez mais acusações e não poupou ironia e ressentimento no seu depoimento. Entretanto, a capital federal está um pouco tranqüila até demais. Foi-se o tempo em que o PT era sinônimo de ética e compromisso com a moralidade.
Mas o PT tem uma coisa que nenhum outro partido tem. Na verdade, o Pt se assemelha mais a um clube de futebol do que a um partido político. O PT tem torcedores. Não são militantes, são torcedores fanáticos, que trazem em si a mesma conduta do marido traído infinitamente pela mulher. Toda a vizinhança, a família, os colegas de trabalho e até os credores sabem que o sujeito é traído pela esposa. Mas o traído ostenta um orgulho e faz olhos cegos ao adultério. Como bem disse o senador Cristóvão Buarque ontem, num programa partidário de TV, "a população precisa voltar a acreditar no PT, na honestidade do PT, no compromisso ético do partido".
Em se falando de política, o PT é um dos únicos partidos que precisa de idealismo para existir. Sem esse componente ideológico, sem essa convicção nas boas intenções dos seus parlamentares por parte da população, o partido assume o ridículo papel da falta de razão para ser.
Roberto Jefferson espalhou ao povo do país algumas supostas condutas desse partido, que para muitos é uma religião, uma seita, um sina. O que está por vir vai se assemelhar ao que houve com o Japão no final da segunda guerra. Além da devastação moral da nação, os EUA fizeram com que o imperador japonês fosse ao rádio declarar que não era o representante divino na Terra.
Seria bom Lula já começar a treinar uma declaração semelhante, apesar de ser tratado como um "homem honesto" pelo "homem-bomba" de um governo que mais parece governar numa teocracia.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 4:59 PM


Comments: Segunda-feira, Junho 13, 2005

Toronto foi uma festa

Meu bom amigo Rafael Bezerra sempre tentou fazer com que eu me tornasse um publicitário. De início, ele achava que eu tinha talento para ser o que é denominado "atendimento", que é o profissional da publicidade que vai apresentar campanhas publicitárias aos clientes e trazer para a agência os anseios e as recomendações dos anunciantes. Mas não deu muito certo, porque simplesmente não sei vender dessa forma. Minha vocação para vendas é mais inclina ao estilo camelô. No grito, no alarme, no meio do tumulto.
Porém Rafinha não desistiu de trabalhar comigo, ou melhor, de me fazer trabalhar com ele. Hoje ele é um dos mais respeitados diretores de arte de Natal. Ano passado, ele quase que se mudou para Florianópolis, pois estava dirigindo uma campanha de uma marca de Natal gravada na bela cidade catarinense. Quando eu ainda estava em Natal, prestes a partir para Brasília, mais uma vez a sua obsessão em me tornar um publicitário veio à tona. Dessa vez eu seria redator, o que é bastante agradável (ao menos para mim). Descobri cedo, muito cedo, que tenho a vocação da permanência nas redações. Detesto sair de uma redação. Por mim, aquele ambiente cheio de computadores e quadros de avisos poderia abrigar as minhas cinzas. É muito ruim sair de qualquer redação, seja para cobrir o que for. E no caso do redator publicitário, o mais distante que ele consegue chegar do seu computador é quando se dirige ao banheiro da agência.
Fiquei algum tempo escrevendo para meu bom amigo Rafael Bezerra, na sua nova agência de propaganda, e foi nessa mesma agência que tive a oportunidade de começar a ler um livro de Hemingway, com um singelo título: Paris é uma festa. Foi na agência de propaganda do meu amigo Rafael que soube de algo muito importante, em caráter particular, e nada prático em termos concretos. Só para esclarecer os fatos, eu não acredito em guias turísticos, ou em passeios de turistas. Acho que o melhor roteiro é o acaso e o melhor programa é o destino.
Quando estava em Toronto, andava absurdamente deslumbrado até com o lixo nas calçadas. Tudo era tão novo, mas eu já tinha visto aquela paisagem antes. Cheguei a pensar que estive lá em outras vidas, mas logo veio a realidade e me jogou na cara os fatos. A maioria dos filmes que supostamente são rodados na cidade de Nova York, na verdade são filmados em Toronto, devido aos preços mais baixos de locação. Táxis de Nova York invadem Toronto para essas filmagens. Caminhões e mais caminhões interditam ruas para que as cenas possam ser rodadas. E eu achando que era canadense em outra vida.
Mas andava por Toronto, até que me deparo com o prédio do maior jornal da cidade, "The Toronto Star". Jornal que teve como correspondente em Paris, creio que nos anos 20 ou 30, um jovem dos Estados Unidos chamado Ernest Hemingway. Entrei no imenso prédio, que tem uma exposição permanente do jornal no seu andar térreo, com aquelas velhas e imensas máquinas de se fazer jornal, fotografias, capas históricas, funcionários homenageados, o papel do jornal durante a "grande depressão americana e mundial" do final dos anos 20, a segunda grande guerra, as brigas do Canadá com os Estados Unidos, etc.
Olhava para aquilo tudo como se tentasse me estabelecer naquele turbilhão de fatos. Sabia que estava diante de algo único, principalmente porque sempre desejei trabalhar em redação de jornal (mas nunca consegui). O Toronto Star estava embaixo dos meus pés. Ainda vacilante, pensei em marcar uma hora com um funcionário do jornal, para que ele mostrasse o funcionamento de um periódico de língua inglesa a um colega de profissão do Brasil. Mas pensei na minha desastrosa passagem por um jornal do Rio Grande do Norte, e achei por bem não me aventurar em outro tão cedo.
O que mais sinto nisso tudo é que não sabia que Hemingway tinha sido correspondente desse jornal que visitei por acaso e sozinho, quando vagava por Toronto. Se soubesse desse fato, minha coragem poderia ter aumentado a ponto de eu requisitar uma visita pelo jornal. Mas creio que não. Se os jornais do RN, que nada mais são do que um curral de pavões depenados, provocam em mim um temor irreal, o que causaria um jornal no qual trabalhou o autor de "O velho e o mar"?

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 3:31 PM


Comments: Jeito brasileiro de ser

Todo mundo sempre fala que o brasileiro é um ser único, diferente dos demais. É um comentário a que nos habituamos e que eu, do alto da minha experiência de "conhecer" apenas outros três países (uma semana em cada - viagem de turismo), não posso concordar ou refutar de forma veemente. Analisando de forma cética, é provável que cada povo, de cada país, se encaixe na afirmação acima, por suas óbvias especificidades culturais e geográficas.
Mas realmente tem situações que presenciamos, motivadoras do comentário acima, que justificam algumas linhas. Estava eu almoçando num restaurante tradicional aqui de Brasília, o Beirute. De dia, restaurante familiar com leves inclinações árabes; à noite, reduto GLS e de outras tribos menos convencionais. Freqüento o local apenas no almoço. É um restaurante informal, aberto, com boa parte das mesas espalhadas nas imediações. Durante os quarenta minutos desde que sentei à mesa até pedir a conta, uma série de vendedores ambulantes me assediou. Tive a possibilidade de ajudar a máfia russa comprando CDs e DVDs piratas (Cruzadas - 8 reais). No segmento dos feirantes, apareceram vendedores de carambola, morango, e pasmem, até alhos. Por pouco, não fiquei com as carambolas, mas estavam muito verdes. Por fim, não poderia faltar um clássico no tema: o surdo-mudo vendendo um kit com canetas, lápis e borracha por cinco reais. Achei caro. Vou sugerir ao dono do Beirute a idéia da placa de sinal verde e vermelho, como nos restaurantes a rodízio. Se você só está a fim de comer, coloca o sinal vermelho. Talvez dê resultado.
Esse episódio me lembrou outro, ocorrido quando ainda respirava o ar insalubre de São Paulo. Numa manhã infeliz, depois de duas baldeações no metrô, alcancei o terminal Barra Funda, de onde parti num trem urbano rumo à Carapicuíba, na paradisíaca periferia paulistana. A cada estação em que o trem parava, entrava uma tropa de ambulantes - de cortador de unha a refrigerante, passando por "chips", canetas, canivete, tudo era oferecido em alto brado e com riqueza de sotaques: "shopping trem, shopping trem, refrigerante é um, água também tem". Completando a turba ensandecida, uma multidão se comprimia no vagão...
Na saída do restaurante, fui pegar o carro e próximo dele, mais uma legítima peça autenticada com selo "made in brazil": um flanelinha moreno acenava, pedindo um trocado e assegurando que o carro estava inteiro. A vantagem nesse caso é que o lucrativo mercado de guardadores de carro (ainda) é pouco inflacionado em Brasília. Diferente dos exigentes colegas paulistas de profissão, os daqui se satisfazem com qualquer moeda. Em São Paulo, dia de jogo do Brasil no Morumbi, cheguei a presenciar vaga vendida por quinze reais, a serem pagos adiantado.
Voltando para casa, resolvi parar num posto de gasolina, a fim de calibrar os pneus e novamente me deparo com outra figurinha carimbada do nosso álbum brazuca: o matuto com cara de coitado que se oferece para fazer o serviço, em troca de qualquer "ajuda" para inteirar um leite. Depois disso tudo, fico com a nítida sensação de que eu, cidadão trabalhador, descontado 27,5% na fonte, sou a exceção. É, o Brasil é um país único. Será?

Luis Gustavo Ferreira

postado por: RODOLFO TORRES 11:39 AM


Comments: Sábado, Junho 11, 2005

A ÚLTIMA DO PORTUGUÊS

Que maravilha esses tempos modernos de globalização. Hoje em dia tudo corre solto pelo mundo. Não há mais nada exclusivo em nenhum local e nem em nenhum contexto. O Brasil é invadido por milhões de informações de todo o mundo diariamente, que basicamente ensinam como se deve viver. O american way of life domina o mundo e todos os seus quatro cantos. Se bem que hoje não existe mais tantos cantos assim. Na verdade, pode-se dizer que só existe um canto no mundo, no sentido de que onde você estiver você estará no mesmo lugar e até falando a mesma língua algumas vezes. Que diferença há entre Paris e Nova york? Entre Cidade do México e tóquio? São Paulo e Cidade do Cabo? Nenhuma. Talvez o sotaque do inglês falado incorretamente que é uma premissa para comunicação. Ou se fala globalmente, como todo mundo, ou não se comunica. Um sir inglês das antigas teria dificuldade de comunicação em Los Angeles com certeza, mas nunca um chileno que fez intercâmbio em Nova zelândia. Este estaria na onda da comunicação e seria cool, se é que já não mudaram a gíria da moda e eu estou, mais uma vez, atrasado.
A macarronice do língua global foi evidenciada por mim numa conversa informal entre uma professora paulista e um erudito peruano que se comunicavam em inglês em pleno Brasil porque, segundo eles, era mais fácil. Mais fácil? Tenho certeza que eu não passo fome em nenhum lugar da América Latina e Espanha por não falar inglês. Acho que nem na França eu passaria. Mas se passasse seria com admiração, pois talvez seja o único povo que não se curvou a tirania cultural americana. Os franceses não sabem falar inglês e se orgulham disso. Digo isso com conhecimento de causa pois conheci quatro deles no último final de semana. Nenhum falava inglês e como eu não falo nada de francês além de merci, oui e soutien, a conversa foi num franco-portunhol legítimo e totalmente inteligível.
Nem o Brasil, que antes era uma atração exótica para estrangeiros, principalmente em suas nuances sociais, pode-se considerar diferente num contexto globalizado. Após tanta informação, qualquer brasileiro mal intensionado sabe como explodir a Casa Branca e qualquer europeu atento sabe como usar o jeitinho ou a força para conseguir dinheiro. Essa semana houve o primeiro (que eu saiba) arrastão em solo europeu. Criação legítima das hordas faveladas do Rio, o Arrastão se tornou artigo de exportação do Brasil, e está sendo difundido nos lugares mais inusitados. Infelizmente não gera nenhum dividendo para o País, porque se foi patenteado não é do meu conhecimento. Em Portugal, houve um arrastão em uma praia tão bem planejado, organizado e executado que provavelmente foi obra do PCC, Fernandinho ou de alguma boca-de-fumo carioca; mais provável que ordem tenha vindo de dentro da cadeia, através de DDI. Só olhando as imagens, qualquer um jura que a praia em questão é Copacabana, tal a eficiência dos meliantes. E como o brasileiro é o povo mais empreendedor do mundo, segundo pesquisas recentes, também vou entrar nessa bocada. Vou patentear o arrastão como criação minha, fazer MBA em comércio exterior, criar uma firma fantasma, às custas de muitos laranjas, e levar o arrastão para o mundo, antes que alguém tenha a mesma idéia. Vai ser tipo uma franquia, totalmente legalizada e com todo o suporte necessário para meus fraqueados. Vou ter apoio do Sebrae e conseguir financiamento no Banco do Nordeste. Já tem até nome: International Arrastacion do Brasil S.A. e vou ganhar rios de dinheiro. Quem quiser que venha junto.
O agudo
Bruno magalhães
11/6/5

postado por: RODOLFO TORRES 5:52 PM


Comments: Sexta-feira, Junho 10, 2005

Trilhas para sonhos sem rédeas

Se dependesse de mim, toda letra de qualquer escrito seria grande, por obrigação e norma. Não existe coisa pior do que letra miúda. Quando nos deparamos com toda letra pequena, o interesse se esvai e o sujeito só permanece na leitura por obrigação ou obsessão. Letra tem que ser de uma fonte generosa, capaz de dispensar todo e qualquer óculos ou lupa. E me sinto desconfortável lendo os textos desse espaço, que tem uma letrinha tão miudinha, que nos obriga a fazer careta diante da tela. Já tentei de todo o jeito alterar o tamanho da fonte, mas não consegui.
Toda essa explicação sobre o tamanho das letras tem uma razão. E já que todos por aqui trabalham, alguém tem que ter tempo para poder pensar. Ontem (que na verdade é hoje, mas o dia só começa depois que acordamos), numa insônia brava, fiquei pensando em algum conto infantil que tivesse lido ou ouvido na escola ou em casa. Lembrei de uns poucos. Mas fico pensando na criançada de hoje, os que já nasceram com internet banda larga, telefone celular via satélite, e todas essas modernidades que só nos tornam mais isolados. Como os adultos de hoje tratam a imaginação da molecada? Fico imaginando o Brasil daqui a algumas décadas, absurdamente árido com as crianças, já que providenciamos o extermínio total e absoluto do lúdico infantil.
Portanto, numa prestação de contas para com o futuro da nossa nação (que são as crianças) venho propor um desafio aos confrades: Vamos fazer uma seleção de contos infantis da Confraria? Eu já estou pensando num, que tem o título prévio de "A nuvem sem mapa". Minha idéia básica é reunir alguns contos criados por nós mesmos, encartá-los e distribuir para a molecada carente na festa do Natal que a minha mãe faz todos os anos, no posto de saúde do Alecrim, em Natal.
Inclusive, pensei até na capa. Uma flor, aquelas que são desenhadas pelas crianças, com olhos e um sorriso desajeitado. As pétalas da flor seriam as impressões digitais dos cinco confrades. Em cima do livro - que será quadrado, com gravuras e com as letras bem grandes - o nome "Confraria dos Crônicos" em vermelho num fundo amarelo, com grafia infantil.
Bem, é apenas uma idéia. Ainda não pensei nos aspectos práticos da coisa, mas acho que escrever para o público mais exigente e sincero que existe é um bom desafio para qualquer um que se atreva a escrever. Fica aqui a sugestão de tentar fazer a garotada imaginar outros mundos mais agradáveis do que esse.
Até porque, escrever somente para adulto é limitar-se a uma realidade medíocre. Há tantos planos e existências possíveis, e nós aqui perdendo tempo com essa que já está fracassada desde o início.
Parafraseando Raul Seixas, numa música que ele fez para as crianças (Pluct Plact Zum), direi aos senhores: "Boa viagem meninos. Boa viagem.".

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 1:50 PM


Comments: Quinta-feira, Junho 09, 2005

Cama e elevação

Até ontem, dormia como um soldado raso, que participava de uma guerra brutal e que não conseguia enxergar o fim desse confronto. Uma fina camada estofada separava o meu corpo do chão, que a cada noite fica mais frio e sujo. Além da poeira que é levantada pela manhã, quando homens vestidos de azul começam a trabalhar para erguer mais um prédio por aqui. Não há cortinas e todos os meus movimentos podem ser observados pela imensa quantidade de janelas que encontro ao olhar através da minha. As outras possuem cortinas. As daqui, não. Mas nunca me senti observado, apesar de agir como se sempre o fosse.
Os homens de azul chegam muito cedo ao buraco imenso que é a gênese dessa construção. Cumprimentam-se, tomam café calados e partem para mais uma exaustiva jornada de carregar pedaços de tábuas extensas e pesadas. Fazem isso com certo tédio e morosidade. De vez em quando, algum homem bem vestido (e que não veste azul) vai para o centro da base de concreto e lá abre uma planta. Aponta para o papel e para os lados, indica o que deverá ser feito e depois o fecha como se aquilo fosse o seu pergaminho. Os outros homens de azul não param para lhe ouvir, e para falar a verdade já o vi da minha janela dar ordens ao vento, apenas para exercitar a sua função.
Máquinas pesadas também fazem parte da minha vista. E com esse edifício em estado embrionário, por vezes uma brisa gelada invade o meu espaço. Um vento frio e seco, que se mistura em harmonia com o chão, fazendo com que eu me enrole cada vez mais e assuma uma posição fetal, de frio. Os raios de sol do meio da tarde são vorazes e por vezes chego a não deseja-los. É quando espero a noite que caminha lerda demais até se fazer realidade.
Mas o fato é que a partir de hoje, vou dormir numa cama. Na loja, via as molas desse móvel, numa amostra interna do material. Cheguei a duvidar que camas tivessem molas, mas fui convencido. Quando perguntaram se eu queria uma que fizesse bem à coluna, disse que não era necessário. Queria mesmo uma que maltratasse a minha coluna. E que acalentasse a alma. Agora vou dormir como um oficial superior de uma guerra que não terá fim e que continuará brutal, como sempre o foi.
Apesar do meu quarto não ter espaço para mais nada, além dessa cama com molas, poderei agora dormir mais perto da janela e mais distante do chão. E vou sentir brisas frias e secas ao sabor do meu controle. Posso barrá-las ou aceitá-las. Basta uma simples levantada de mão para que dedos vejam um abismo de três andares. E se eles caírem, ficaram no barro de um terreno descampado, em frente a uma obra. E apodrecerão com vento seco e frio.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 7:11 PM


Comments: Quarta-feira, Junho 08, 2005

Vestido vermelho do além

Quando abri os olhos, ainda com uma dificuldade imensa para enxergar as minhas próprias mãos, o vestido vermelho fez um rasante e passou muito próximo do meu rosto. Até quis me assustar, mas devido ao sono e a hora pouca, resolvi que era melhor voltar para o sono a querer me assombrar com tais atos do sobrenatural. Mas até que dessa vez os que residem do outro lado da existência demoraram para fazer um contato. Lembro muito bem, quando ainda morava na pensão da D. Lenita, em São Paulo. Tínhamos verdadeiras convenções, e eu era o único representante vivo. Sempre aconteceia dessa forma: eu acordava com um grito desesperado durante a madrugada, que geralmente era muito fria. Procurava a garrafa de água que sempre deixava ao alcançe da mão e lá estavam eles todos. Talvez fosse uma convenção de fantasmas fracassados, pois eu não me incomodava em tê-los ao meu lado. Eles que ficassem discutindo seus assuntos. Eu estava mais interessado em dormir, pois o outro dia sempre trazia consigo uma infinidade de tarefas. Até que eles boicotaram minha visão e passaram a se fazer presentes pela minha audição. Também não me interessei muito em esboçar medo com aqueles barulhos da madrugada. E eles foram... Até que sou surpreendido por esse vestido vermelho que quase bate em meu rosto. O que poderia dizer para esse fantasma com alma de carnaval? Que não me assuto mais com essas aparições? Não. Poderia ser deselegante de minha parte. E a pior coisa que existe para qualquer um que execute uma terefa é a sua total inutilidade. Portanto, que venha alma rubra. Mas que ela não se sinta frustrada pelo meu tédio, e por minha indiferença. Já enfrentei muitos deles, principalmente na primeira infância e posso garantir que a fragilidade deles é maior do que a nossa. São, na verdade, dependentes do nosso susto. E quando essa reação na chega, vão ao além numa frustração de dar pena. Penso, penso e encontro um outro fator para essa ineficiência das almas. Antigamente, as casas eram grandes, os corredores eram imensos e os cômodos, vastos. O teto era mais em cima e os tacos de madeira ajudam na tarefa do sobrenatural. Hoje, com apartamentos cada vez menores, muita coisa foi posta para fora da convivência dos homens, inclusive as assombrações. Qual o espírito que sobrevive a um quarto e sala? Portanto, que sejam bem-vindas essas aparições, mas que não esperem cordialidade. Há pouco espaço para uma só pessoa por aqui. E meus sustos hoje são outros.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 7:22 PM


Comments: Manhã de domingo

Às sete horas da manhã, ia dirigindo em uma rua de Natal, quando avistei um menino e uma menina com mais ou menos oito anos de idade. Estava chovendo muito, e eles vinham de uma padaria nas proximidades de onde traziam nas mãos um pacote de pão. Fiquei a refletir e por uns instantes lembrei-me de minha infância e tive saudade! Transportei-me para o passado e cheguei a reviver cena semelhante. A rua estava quase deserta, apenas as duas crianças andando cabisbaixas, procurando se protegerem da chuva... Essa cena era linda e ao mesmo tempo triste. Linda porque o cenário era digno de uma foto; triste porque elas estavam não muito bem vestidas e na chuva, como muita gente, talvez, naquele momento, também estivesse na chuva, andando rápido para não se molhar. Por alguns minutos ainda ficou gravado em minha mente as crianças andando na chuva, com um semblante de felicidade. Conversavam ao mesmo tempo em que sorriam, me deixando curiosa, querendo saber o que conversavam. Mas isso era impossível, tanto pela distância que nos separava como por não ter o direito de invadir suas privacidades. Agora estou lhes relatando o que vi e senti naquele momento mágico. Certamente aquelas crianças jamais irão imaginar que naquela manhã chuvosa de domingo elas foram para mim a razão de uma saudosa reflexão.

Teresinha de Jesus Gomes Torres

postado por: RODOLFO TORRES 12:50 PM


Comments: Terça-feira, Junho 07, 2005

Cidade possível

Recebo notícias das chuvas escandalosas em Natal. O caos que cai do céu, inunda essa cidade. Já ouvi muita gente de Natal dizer que gosta de chuva, e que o verdadeiro martírio é suportar o sol da hora do almoço sem a devida proteção, com o vento parado. Agora chove, chove, chove...
Por alguns instantes, sou acometido por certezas cristalinas. E por alguns segundos, tive a certeza de que Natal também chorava pela minha partida. Na verdade, Natal chora por muita coisa. Até pelos seus. Mas não sou guardião das desgraças alheias (ao menos tento não ser) e vou restringir o meu discurso à parte que me cabe nessa choradeira municipal.
Mas agora percebo o meu engano. Quisera eu que Natal despejasse uma mísera lágrima em minha memória (no formato de gota de chuva). A cidade poderia refletir dessa forma: "É mais um filho que eu expulso! É mais um filho que eu expulso!". E a tempestade viria violenta, com aqueles pingos grossos que chegam a machucar quando nos tocam. Ou aquelas chuvas que escancaram janelas e depenam árvores frondosas.
Examinando o que já foi escrito, desisto de falar de mim. Falarei do natalense, que por méritos, saiu de Natal. O natalense é um desgraçado em casa e um ridículo em terras alheias. Falo isso com um certo pudor, porém repito. O natalense transita entre a desgraça e o ridículo.
Alguém pode dizer que isso não é privilégio de Natal, que isso ocorre em todo o país. Ou até possa existir quem ache que estou exagerando, que não é e nunca foi bem dessa forma. Quem sabe?
Mas o natalense sai de Natal e logo descobre que sua cidade é uma utopia. Na galeria de desgraças que compõem a vida, uma delas certamente é ter sobrevivido a essa cidade. Ele vai agora vagar por entre praças e ruas, sem o menor gosto visual. A comida serve apenas para manter uma estrutura orgânica que nem ele mais sabe se vale a pena ser mantida ou não. Os pássaros nem existem mais para cantar ao sol e muitas pessoas passam na sua frente sem que ele seja capaz de olhar para qualquer uma delas.
Porém ele não perdoa a cidade natal. Sua chuva não o comove mais. E munido de uma certeza íntima, a qual sempre carregou consigo, fará apenas algumas visitas esporádicas, não mais do que isso. Abismado a cada retorno ao lugar que porventura habite, um pensamento o acompanhará e ele invocará o divino para essa questão: "Como essa cidade é possível?".

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 4:19 PM


Comments: Bem ou Mall

Escrevo estas palavras já confessando a minha falta de cultura e total ignorância sobre o tema, correndo certemente o risco de ter uma aula de semântica, mas vamos lá: algumas coisas chamam a minha atenção pela total falta de sentido. Uma delas diz respeito aos nomes chiques que se colocam hoje em dia em alguns estabelecimentos comerciais, para impressionar o público alvo, creio eu. Em minha defesa já se registre o fato de que estes nomes na sua imensa e avassaladora maioria não são de nossa língua.
Ao me deparar com uma propaganda de um que para mim parecia ser um restaurante, me deparo na verdade, para o meu espanto e resignação, com um "bistrô". Passando minutos depois por uma loja de conveniências, principalmente de frios e vinhos, sou interpelado pelo seu real nome: "delicatessen". Já de volta pra casa, prestes a iniciar meu tratamento antidepressivo, me deparo com um desses grandes centros comerciais, que por força do hábito chamamos de shopping center, mas sou esbofeteado visualmente pelo letreiro: "mall". E por aí vai ...
Ou estou ficando louco, ou nada se chama mais pelo seu nome. Será que para tudo alguém vai inventar um nomezinho francês ou seja lá de onde for para tornar o ambiente mais chique.
O vinho "made in a delicatessen" deve ser mais saboroso que um de uma mera loja de frios e vinhos, por exemplo. Se é melhor eu não sei, mas com certeza deve ser mais saboroso.
Não sou xenofóbico, pelo menos acho que não, mas poderíamos abusar um pouco menos de outras línguas para descriminar locais tão nossos quanto deles. Já não basta chamarmos os nossos centros comerciais de "shopping center". Não satisfeitos, avançamos ainda mais e já destituímos o título de centro comercial chique para o famoso e desconhecido (até então) "mall".
Não sei se por bem ou por "mall", não sei a diferença entre "mall" e "shopping". As pessoas que já se indignaram com a minha pirraça, e que bradaram aos sete ventos que são coisas distintas, ainda não conseguiram me explicar a diferença. Podem até me explicar, mas duvido que algo justique.
Do aditor
GustavoGT
Natal 07/06/05


postado por: RODOLFO TORRES 11:27 AM


Comments: Segunda-feira, Junho 06, 2005

Bandalheira

Creio que poucas vezes, nesses últimos tempos, uma edição de jornal foi tão esperada quanto a edição de hoje da Folha de S.Paulo. Tudo por causa de uma entrevista do deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ), declarando que o governo federal, através do seu tesoureiro, pagava a deputados aliados uma "mesada" de R$ 30 mil para que fossem aprovadas medidas da pauta do Planalto.
Desde a madrugada de hoje a expectativa era imensa, pois quem sabia do conteúdo da entrevista dizia que o seu conteúdo era bombástico. E não deu outra. Desde o início da manhã, formou-se um verdadeiro "gabinete da crise" no Palácio do Planalto, composto por ministros e assessores presidenciais. Seu objetivo é avaliar o estrago que a entrevista da Folha causou na imagem do governo. Uma reunião do presidente Lula com os ministros e principais assessores está marcada para o final da tarde de hoje, e ao que tudo indica, vem contra-ataque do governo por aí.
Roberto Jefferson, na mesma entrevista, diz que os deputados não recebem a mesada desde janeiro, por ordem do próprio presidente Lula. E que essa crise política que marca essas últimas semanas nada mais é do que a tentativa dos parlamentares de receber a mesada reajustada (passaria de R$ 30 mil para R$ 50 ou 60 mil).
Bem, a semana promete ser infernal para o governo e para o PT. Em contrapartida, o Partido dos Trabalhadores divulgou nota nessa manhã declarando que a entrevista não procede à realidade e que a relação do governo com os parlamentares é política, no sentido de garantir as reformas necessárias ao desenvolvimento do Brasil.
E eu poderei acompanhar de perto mais esse escândalo que promete ser de uma devastação sem precedentes no mandato do presidente Lula. Mas se querem um conselho ridículo, diria que não se estressem, que deixem os cabelos na cabeça, e não ensaiem nenhuma atitude de desespero.
Essa prática é antiga, cotidiana e irreversível. Não adianta querermos moralizar uma estrutura falida e viciada como é a relação entre os poderes no Brasil. O que isso pode render para nós, meros cidadãos, é alguma conversa de bar mais acalorada. Mas sem excessos.
Querem ver um dado triste? A nossa imprensa que trata a política com humor não está se renovando. O sarcasmo na política nacional está com os cabelos brancos e não existe na meninada um interesse em usar o humor para tratar da bandalheira que é a política. O que vejo são jovens "engessados" em seus textos e pronunciamentos. Também, se a primeira coisa que se ensina nas faculdades de jornalismo é que o repórter não pode ter opinião...
Um país que não trata com ironia e deboche os seus políticos está condenado à mediocridade. Se eles nos tratam como nos tratam, por que não poderemos usar a nossa única arma contra esses funcionários públicos eleitos por nós mesmos? A sátira é a única vingança possível contra a classe política. E os jovens não a utilizam...
Entra governo, sai governo, os impostos sempre serão aumentados e a coisa vai por aí mesmo. Ao menos sabemos para onde o nosso dinheiro está indo. E isso já é um começo.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 1:37 PM


Comments: Domingo, Junho 05, 2005

Felicidade

Todos os dias, meu cachorro dá provas incontestes de felicidade. Por coisas absolutamente simples. É só jogar longe um dos muitos brinquedos que tem, e ele dispara alegre para pegá-lo e trazê-lo de volta, exigindo um novo arremesso e repetindo à exaustão a brincadeira. Outro momento grandioso do seu dia é o passeio na quadra, sempre cheirando os mesmos locais do jardim, "cumprimentando" à sua maneira, seus colegas de espécie, mesmo os maiores, que para nós, humanos, poderiam representar uma ameaça. Na volta para casa, exibe um inconfundível ar de satisfação. Esse constante bom humor e felicidade pelas coisas pequenas da vida me faz recordar a infância.
As lembranças que tenho daquele mundo despreocupado, sem a neurose do amanhã, dos intermináveis planos do futuro e ainda sem as frustrações vividas no passado, são sempre prazerosas. É cada vez mais difícil, com o passar dos anos, ter a noção exata de quão feliz fui em determinados momentos daqueles anos de ouro. Eram momentos de felicidade de difícil precisão temporal. Hoje, não dá para dizer se foram dias inteiros, ou se duravam horas ou minutos, mas certamente eram momentos de felicidade mais freqüentes e mais intensos, em que o mundo exterior era só parte da paisagem. Os problemas alheios faziam jus à sua condição. Na infância, ainda não temos os anticorpos contra os problemas impostos pela sociedade e que mais cedo ou mais tarde, se tornam excessivos, se voltando contra nós mesmos, como uma reação alérgica.
Naqueles anos, o verão, que é a estação da felicidade, se exibia com toda sua plenitude. Costumava ser o verão de três meses, de férias escolares, passado ao lado da minha mãe e dos meus irmãos na casa de praia. Meu pai nos acompanhava nos fins-de-semana e nos trinta dias de descanso anual em que se desligava da estatal. Nessa casa de janelas amplas, que deixavam entrar a claridade de dias repletos de sol, de uma varanda aconchegante onde podíamos balançar na rede ou espalhar nossos jogos de tabuleiro no chão, eu tive momentos de absoluta felicidade. Fosse um cão, viveria com o rabo abanando.
No quintal dessa casa, havia duas goiabeiras. A minha predileta era a de goiaba branca. Subia nela todos os dias (por sorte, não fui uma criança obesa) e no alto da sua copa, estabelecia meu território particular. Lembro que levava uma pequena almofada e algumas revistas em quadrinho e do meu "escritório", desfrutava da vista panorâmica e das aventuras do Tio Patinhas. Em alguns momentos de distração, algumas quedas foram inevitáveis, mas o solo arenoso e os ossos ainda maleáveis impediram qualquer susto maior.
Quando meu pai vinha, eram freqüentes as pescarias na lagoa, que ficava a uns dez minutos de caminhada. Acompanhados de tios que veraneavam na mesma cidade, partíamos munidos de varas, puçás e rede de "arrastão". A volta para a casa era a alegria antecipada pela memória gustativa daqueles camarões, siris e peixes frescos, que trazíamos numa caixa, a serem saboreados com o melhor suco que existe, que é o suco de caju natural.
Estourando o balão da memória e voltando ao presente, a conclusão a que chego, que obviamente não é definitiva, é que a felicidade não é um estado que se atinge facilmente após uma determinada idade. Está longe daquela sensação fugaz propiciada por uma compra no shopping, por um prato de sushi ou por se morar num apartamento bem decorado e bem localizado. A alegria momentânea quase sempre é perturbada por uma preocupação qualquer, quando não pelo sentimento de inveja que desperta. Acho que a felicidade legítima, aquela presente nos versos do poeta, está longe até mesmo do tão neuroticamente perseguido sucesso profissional e da conseqüente estabilidade financeira. Essa felicidade pode ser encontrada no seu estado puro, na aurora de nossas vidas, na imagem de uma criança que molda um castelo de areia na praia num dia de verão.

Luis Gustavo Ferreira

postado por: RODOLFO TORRES 1:15 PM


Comments: Sexta-feira, Junho 03, 2005

Balanço da semana

Gostaria de registrar aqui que essa semana foi simplesmente horrenda para mim. Diversos contratempos, irritações, atrasos, mal-entendidos, etc... Parece que eu desaprendi a me comunicar. Ou os outros, de ouvir. O fato é que estou até de certa forma contente em ver essa semana morrer nessa sexta à noite.
Eu nem sei se eu deveria confessar isso, mas estou me surpreendendo com a minha admissão, a mim mesmo, de que sou esotérico. Acredito em tudo. Simpatia, horóscopo, vidente, cartas, búzios, religiões, sonhos, dados, superstições e na imprensa. E pelo que falam todos esses meios de contato com o além, as fases más antecedem as fases boas. Não nessa ordem. Mas para me livrar desse inferno astral pelo qual estou passando, bom mesmo é ter alguma certeza.
Outra coisa. Peço aqui sinceras desculpas, pela minha ausência nesse espaço, a mim mesmo. Combinei comigo que escreveria por aqui todos os dias da semana. Mas acabei não conseguindo, devido ao serviço débil de instalação da internet que escolhi.
Portanto, meus amigos, até segunda feira. Vou agora me resguardar um pouco, ficar sozinho nesse espaço que disponho para que na próxima semana, sem falta, eu posso voltar a redigir alguma coisinha pra vocês.
Tudo de bom, e espero que não tenham nunca na vida uma semana tão fracassada como a que tive. Até segunda

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 7:34 PM


Comments: Quinta-feira, Junho 02, 2005

Entrevista interrompida precocemente pela ignorância do jornalista

Desde que cheguei a Brasília, cerca de um mês atrás, tinha uma meta absurdamente bem definida: entrevistar o Deputado Federal Fernando Gabeira (PV/RJ). Como um intelectual, político e militante de várias causas, Gabeira certamente daria uma entrevista bastante rica e esclarecedora. Presenciar o que ele presenciou (queda do muro de Berlim, derrubada do governo Allende no Chile, assassinato do líder dos seringueiros Chico Mendes) não é privilégio de qualquer um. Gabeira certamente é um ótimo personagem para o resgate e a análise de fatos cruciais do nosso país, e por que não dizer, do próprio mundo em que vivemos.
Depois de conseguir agendar um horário com o atarefado Deputado para a entrevista, cometi o erro de ir ao seu gabinete pelo Eixo Monumental justamente quando no mesmo se realizada uma passeata dos trabalhadores ligados à agricultura.Vinte minutos perdidos num engarrafamento fizeram com que a minha entrevista de uma hora se reduzisse a quarenta minutos.
Gabeira me alerta que dispões desse tempo, antes que a entrevista se iniciasse. Desculpo-me pelo atraso e também pela ausência do fotógrafo, que não pôde comparecer ao seu gabinete por motivos pessoais.
Mas antes de transcrever a entrevista miúda que ocorreu, devo aqui registrar e confessar a minha ignorância. Ora, como é possível que numa entrevista com um escritor, o entrevistador não se dê ao trabalho de ler os seus livros, importunando de uma forma vil e desrespeitosa o autor de uma obra? Gabeira esclareceu-me de um fato: não devemos, em hipótese alguma, importunar um autor com perguntas a respeito de alguma obra sua. E que isso fique de lição aos jornalistas de todas as idades. Realmente é um absurdo questionar alguém a respeito de um fato, quando esse mesmo alguém publicou um livro sobre o fato em questão. E eu que achava que nenhum autor estava isento de esclarecimentos sobre o seu trabalho... Mas Gabeira é irretocável! Não existe nada, absolutamente nada, para se perguntar a respeito do seqüestro do embaixador dos EUA, além do que Fernando Gabeira escreveu em "O que é isso Companheiro?". Livro que, diga-se de passagem, não li. Apenas assisti ao filme umas três vezes e li resenhas e comentários em revistas e jornais. Além de algumas entrevistas na televisão. Mas isso é pouco! Pouquíssimo, por bem da verdade.
Portanto, que fique a lição: quando alguém escrever um livro, não cometa a gafe de questioná-lo sobre o tal livro. Pergunte como anda o campeonato de cuspe à distância na China, mas nada de perguntas sobre o livro, ok?
O engraçado disso tudo é apenas um fato. Sou um leitor voraz de Nelson Rodrigues. Depois que entrei em contato com a vasta obra do nosso maior dramaturgo, e excepcional jornalista, os outros escritores ficaram menos importantes. E como tenho perguntas para ele que nunca serão respondidas... Mas é isso.
Se encontrar o Deputado Gabeira alguma outra vez, além de não questioná-lo sobre seus escritos, que não merecem um mísero questionamento, terei a mais profunda certeza de que "A arte da leitura é a da releitura. O livro que nós não lemos não nos faz falta nenhuma. A única besta integral é a que leu 40 mil volumes" (Nelson Rodrigues).


Entrevista com Fernando Gabeira

Rodolfo Torres - Nós sempre começamos com a infância do entrevistado, então eu queria que o senhor falasse um pouco sobre a sua infância, as memórias, a família.
Bem, eu nasci na cidade mineira de Juiz de Fora em fevereiro de 1941, numa área de classe média pobre, de trabalhadores. É um bairro ainda hoje bem pobre em relação a outros bairros da cidade. Comecei a estudar no próprio bairro e fiquei na minha cidade até os 17 anos. Ao fim dos 17 anos, eu parti para o Rio de Janeiro. Então, a minha lembrança da infância é de uma infância tranqüila, num bairro pobre de uma cidade de Minas, mas também de um espaço muito limitado para o que eu queria.

Rodolfo Torres - Quais eram as atividades dos seus pais?
Meu pai era um pequeno comerciante, ele tinha um pequeno armazém, e nós vivíamos nos fundos do armazém. Minha mãe era uma professora que depois de casada abandonou o magistério.

Rodolfo Torres - O senhor falou que a sua cidade, nos seus 17 anos, ficou pequena e o senhor partiu para o Rio de Janeiro. O senhor foi fazer alguma universidade no Rio de janeiro?
Na verdade eu nunca fiz universidade. Quando eu era estudante secundário na minha cidade, eu fui também líder estudantil e participei da coordenação de uma greve. Nós fazíamos muita greve na cidade. E uma das greves que eu participei era contra o aumento das mensalidades escolares. E de vez em quando também, nós organizávamos movimentos contra o aumento dos bondes. E tinha, às vezes até, algum movimento de quebra-quebra de bondes. Então eu fiquei no movimento estudantil até os 17 anos, mas nessa altura eu fui convidado para trabalhar num jornal lá. Então, aos 17 anos, eu já deixei praticamente o curso secundário e fui trabalhar direto, sem passar pela universidade. E trabalhando lá direto, eu digo que ficou pequeno pra mim porque eu era interessado numa imprensa mais rica, mais capaz de investigar grandes temas, de tratar de assuntos internacionais... e isso, naquela época, era mais acessível pra mim, no Rio de janeiro. O Rio de Janeiro era uma cidade onde ainda se tinha uma experiência jornalística importante, que era o Jornal do Brasil, e que era praticamente o meu objetivo quando eu me desloquei para o Rio. Era ir para o Rio de janeiro, mas trabalhar no Jornal do Brasil. Eu não pude fazer isso desde o princípio porque eu trabalhei um período também no Diário da Noite, como Copy Desk, de manhã. Até em 64, depois do golpe, eu consegui um trabalho no JB.

Rodolfo Torres - O que o senhor fazia no JB?
Eu era repórter. Comecei como repórter, depois fui para o Copy Desk, depois fui fazer a pauta, que era o planejamento geral do jornal e depois fui dirigir o departamento de pesquisa. É mais ou menos essa a minha trajetória.

Rodolfo Torres - Tenho uma curiosidade particular. O senhor chegou a trabalhar com o Nelson Rodrigues?
Não. O Nelson trabalhava no Diário Carioca, trabalhou talvez no Correio da Manhã, no O Cruzeiro, mas nunca convivemos no mesmo espaço.

Rodolfo Torres - E o senhor nem chegou a conhecê-lo?
Pessoalmente sim, eu o vi em Ipanema. No final da vida, ele andava por Ipanema e o vi algumas vezes. Mas nunca tivemos um contato pessoal. Nos anos 60, o Nelson era muito irritado com a esquerda, ele era um homem com um pensamento político um pouco mais conservador.

Rodolfo Torres - Como foi trabalhar como jornalista no Rio de Janeiro depois do golpe de 64?
Foi extremamente difícil, porque o golpe de 64 permitiu até o dia 13 de dezembro de 1968 alguma margem de manobra. Você tinha possibilidade de denunciar alguma coisa, você tinha a possibilidade de cobrir, de uma forma mais ou menos isenta, as manifestações estudantis, e você tinha até a possibilidade de se organizar como jornalista e cobrir de uma forma organizada, talvez, aquelas manifestações. Havia o espaço para uma cobertura mais livre, havia o espaço para a organização... Havia até o espaço o questionamento dos sindicatos, e de todas aquelas estruturas antigas dentro do próprio jornalismo. Estava havendo um movimento geral de renovação, de questionamento. E esse movimento atingia até o sindicato dos jornalistas, na época. Então isso aconteceu até 13 de dezembro de 1968. quando houve uma mudança de qualidade com a assinatura do ato Institucional nº 5. Aí os censores se instalaram dentro da redação. Então, todas as matérias tinham que passar pela sala dos censores para serem liberadas. E você ter uma redação com censores, localizados lá dentro, fisicamente, isso mostra que alguma coisa mudou e que era necessário buscar outro caminho.

Rodolfo Torres - O senhor chegou a perder o emprego depois da assinatura do AI5?
Não, eu nunca perdi o emprego. Eu saí antes. Eu decidi sair do JB porque eu queria entrar na clandestinidade. Já me dedicar completamente ao processo de preparação da luta armada. E eu era um profissional bem colocado lá, não havia nenhuma razão para eu perder o emprego. Tenderia, evidentemente, a uma certa marginalização por causa de minhas posições políticas. Mas eu decidi sair antecipadamente para poder me dedicar integralmente ao processo político.

Rodolfo Torres - O senhor tem alguma ressalva ou se sente incomodado em falar desse período de clandestinidade?
Não. Tanto não tenho que escrevi um livro contando.

Rodolfo Torres - Então eu queria que o senhor falasse um pouco desse período de clandestinidade.
Eu acho que você pode dividir esse período de clandestinidade em duas fases. Uma fase onde era uma clandestinidade ainda sem ser procurado pela polícia, mas que era uma clandestinidade no sentido de que você já não se apresentava às pessoas com o seu nome, você já não tinha a sua casa, e você desenvolvia uma série de trabalhos que não eram públicos, que não eram revelados. Então havia esse tipo de clandestinidade, mas você não era procurado pela polícia. Com o seqüestro do embaixador americano e a aparição do meu nome, ficou uma clandestinidade diferente. Aí eu comecei a ser procurado pela polícia. E no período em que você é intensamente procurado pela polícia, cria-se um outro departamento dentro da clandestinidade, que é a "geladeira". Você vai para a "geladeira" durante um período. A geladeira significa o seguinte: você entra numa casa e fica lá. Você não sai para nada! Quando o dono ou a dona da casa sai, você procura fazer pouco barulho, procura se mover na casa de uma maneira tal que dê aos vizinhos a impressão de que a casa continua deserta. Então essa fase da geladeira foi uma fase que me aconteceu durante uns 6 ou 8 meses, aí eu fui para São Paulo, ainda na clandestinidade, com o objetivo de trabalhar com o movimento operário de São Paulo, no ABC. Mas infelizmente houve a prisão dos operários com quem eu iria trabalhar e dos trabalhadores que estavam associados, foi denunciada a casa aonde eu estava e eu fui preso.

Rodolfo Torres - E no caso específico do seqüestro do embaixador americano que, se não me engano, lhe rendeu o livro ¿O que é isso companheiro?¿? Como foi a gênese, o planejamento, até a escolha do pessoal que seria trocado pelo embaixador americano? Como foi isso?
Mas aí essa pergunta é uma crueldade. Eu já escrevi um livro sobre isso. Eu supus que você o tivesse lido. Você tinha que ter lido o livro. Você vai voltar aqui depois para a gente conversar. Ta legal? Quando você puder, você volta para a gente conversar. Porque poxa... Eu escrevi um livro, houve um filme, você vem me entrevistar pro site e você não procura saber que merda é essa, porra.

Rodolfo Torres - Eu vi o filme, li resenhas do livro, mas eu queria saber detalhes pessoais...
Vamos fazer o seguinte. Vou ter que interromper, já ta na minha hora. Eu vou ter que dar uma descida. Você volta com o fotógrafo e a gente faz. Você combina comigo, tá certo?

confrariadoscronicos@yahoo.com.br



postado por: RODOLFO TORRES 3:54 PM



arquivo