Confraria dos Crônicos

De crônica, não basta a vida!



Comments: Domingo, Maio 29, 2005

DE COMO NASCEM OS PSICOPATAS, TERRORISTAS E TORCEDORES DO PALMEIRAS

Quelido diálio,
Hoje, meu papai recusou novamente meu pedido para ter um cachorrinho. Ele não consegue entender que toda cliancinha precisa desespeladamente de um cãozinho. Sem um pequenininho animalzinhozinho de intimação não podelei viver. Minhas bonequinhas não me bastam. EU QUELO UM CACHORRO! Tentei esplicar mil vezes ao meu papai, mas ele num entende. Ontem foi a mesma coisa e acho que amanhã selá igual. Até quano eu vou suportar esse tlauma? Quando eu clescer eu vou dar muito dinheiro aos psicólicos telapêuticos. Mas eu não tô nem aí. A culpa é do meu pai. NINGUÉM MELECE o pai que eu tenho. Além de não poder cliar cachorrinhos, eu também não posso comer chocolate, me sujar na rua, nem andar de mão dada com meu amiguinho Paulinho. Meu papai diz que ele é muito velho pala mim. Já tem quase 9. É verdade que Paulinho às vezes é muito chatinho porque ele fica blincando de tilar a roupa e perguntar se eu quelo blincar de submalino. É clalo que não. Alooou! Eu sou menina. Não tenho peniscópio. Fico tililica com o Paulinho. Plefilo blincar de carrinho porque o Paulinho dilige e eu fico só passando a marcha. Meu pai diz que quando eu ficar maiorzinha eu vou poder fazer o que eu quiser e nem vou queler um cachorrinho. Acho que ele está falando sobre sexo. Ele pensa que eu não sei. Vi em Chiquititas Melissinha fazendo e aprendi. Eu já sei fazer. Já sei tudo soble sexo. Minha plima Gacinha diz que é igual a andar de montanha-russa: sente um fliozinho na barriga, fecha os olhos e o cabelo fica todo assanhado. Plefilo o cachorrinho porque eu detesto desarrumar meu cabelo. Meu papai é assim, adola me dizer como vai ser minha vida. Mas ele num sabe. Meu sonho é casar glávida igual tia Ritinha, que fugiu com o namolado pala fox do iguaçu. Vou molar numa casa enormona que nem ela. A casa tem até nome: quitinete. Adolei! É tudo muito organizado na casa da minha tia; quando um entla, outlo tem que sair. Num é legal? Aqui em casa cabe todo mundo dentro da cozinha. É tão impessoal. Ninguém melece. Quelo ser loula do tchan quano eu clescer. Minha bunda vai ser assim, ó, enorme. E eu vou ganhar muito dinheiro sem estudar, porque eu detesto ir plo colégio. Minha professola é muito chata. E fede. Minha mãe diz que é laquê. Mas eu acho que é catinga de sovaco. Os meninos adolam dar uma maçã pala a plofessola. Eu quelo dar limão porque é azedo que nem ela e minha vó passa no sovaco meu vô. Fica cheilo de bucha de cozinha. Melhor que laquê. Mas eu quelo um cachorrinho. Se meu pai não me der, eu vou matar todos os cachorros quano eu clescer. Vou soltar uma bomba no canil. POU! E ponto, acabou-se o que ela doce. Depois eu vou esplodir as torres-gêmeas e a sede do colintias porque eu não gosto de futebol. NINGUÉM MELECE.
Extraído do diário de Manuelinha pé-de-bomba, condenada à pena de morte nos EUA após explodir a casinha de cachorro da Casa Branca em janeiro de 2035, errar o alvo e matar o presidente. Até hoje especula-se o que ele estava fazendo lá.

O agudo
Bruno Magalhães
29/5/5

postado por: RODOLFO TORRES 12:47 PM


Comments: Sábado, Maio 28, 2005

A comédia do drama cotidiano

Assisti à pré-estréia de Melinda&Melinda, novo filme do aclamado e odiado Woody Allen. No filme, a mesma história é contada de dois pontos-de-vista bem distintos. A partir da cena em que uma mulher chega de forma inesperada num jantar na casa de um dos personagens, um dos narradores enxerga uma série de situações divertidas, desenvolvendo uma agradável comédia enquanto outro narrador vislumbra, por sua vez, um emaranhado de dramas existenciais e situações pesadas e reflexivas a partir do ponto inicial. Roteiro bastante inteligente, que vale o ingresso.
Traçando um paralelo com nossas vidas, essa situação se repete infinitamente. Muitos episódios podem ser interpretados de forma dicotômica. Sempre haverá o sujeito que enxerga o mundo de forma mais cinzenta e o outro que o pincela com cores mais vivas. Independente da dose de Prozac ingerida diariamente.
Nessa semana, uma médica, amiga minha, comprou um poodle. Na era de confiantes Schnauzer e peludos Lhasa-apso, o poodle por duzentos reais foi uma verdadeira pechincha. Eu vi o cachorro. Era um filhote com quarenta dias de vida, que cabia na palma da mão. De olhar cativante e pêlo marrom (ou caramelo, como queiram), foi prontamente batizada Carmel. Todos queriam pegar o cachorro e fazer pequenos gracejos. Todos, exceto Luma, minha poodle, que teve de ceder sua cama para o intruso por algumas horas até a dona de Carmel chegar do serviço e levá-la para casa. É engraçado como no reino animal, as reações são bem nítidas. Sentindo-se ameaçada pelo carinho dispensado à outra, Luma ignorou a concorrente: não se aproximou, não latiu nem rosnou, simplesmente ignorou.
A feliz dona de Carmel já fazia mil planos. Tratou logo de comprar a ração ou papinha de desmame, adequada para aquela faixa etária canina. Em breve, arrumaria um veterinário de confiança, compraria uma cama e vários brinquedinhos. Acompanharia seu crescimento como o de um filho, inclusive com direito a aulas de natação. Todo fim de tarde, ao chegar do trabalho, desceria com o cão para o passeio diário, compartilhando com os vizinhos as proezas que Carmel tratava de fazer todos os dias. Foi um dia de alegres emoções.
À noite, ao sair para o cinema com os amigos, um primeiro percalço. Tendo que deixar o cão sozinho, aquele pequeno ser quase amorfo, que mal enxergava, teve um agudo sentimento de culpa, acentuada por alguns ganidos chorosos que vinham da cozinha, onde improvisara uma cama com o jornal de domingo.
Durante o filme, a apreensão aumentou. Não conseguia se concentrar, pensando no cão abandonado no apartamento escuro, sofrendo com o frio e a solidão. E se uma coruja, essa abjeta ave de rapina comum nas redondezas, farejando a presa fácil, entrasse pela janela que esquecera aberta? Se não estivesse de carona, teria abandonado a sessão no meio e voltado correndo, a tempo de salvar Carmel.
Três horas de angústia depois, chegou agitada em casa. O cão respirava suavemente, embalado num sono gostoso de criança. Quem não conseguiu dormir foi ela. Começou a imaginar o sombrio futuro que agora a aguardava. Adeus, farra com os amigos. Ficaria sempre se achando uma egoísta, relegando o cão a uma existência solitária. Até sua grande amiga que prometera ajudar nos cuidados, agora se metera numa insólita viagem para África e sabe-se lá com que cabeça voltaria. E nos plantões noturnos, ficaria trinta e seis horas ausente, uma eternidade. Como se precipitara, trocando sua estimada liberdade pela escravidão. É, porque agora, ela servia ao cão. Em vez de ela possuir um cão, o cão a possuía. Era assim que agora enxergava os fatos.
Depois de passar a noite em claro, tomou a sábia decisão. Precisava devolver o cachorro, antes que fosse tarde demais. Apesar de as regras do Procom não se aplicarem ao caso, a vendedora teria que aceitar a mercadoria de volta. Depois de alguma negociação, Carmel retornou ao convívio comunitário ¿ fora uma ninhada grande de dez ¿ e minha amiga respirava enfim aliviada. Mataria o desejo canino nas viagens para o interior, na casa dos pais, onde uma pequena maltês sempre fazia festa quando chegava e vivia rodeada por pessoas pressurosas em atender suas vontades.

Luis Gustavo Ferreira

postado por: RODOLFO TORRES 1:29 PM


Comments: Sexta-feira, Maio 27, 2005

Vírus

Algumas coisas são realmente irritantes, mas você consegue suportar e sobreviver à elas, sem grandes estragos na alma e nas artérias do coração. A outras, porém, é impossível se manter indiferente, sem arrancar os cabelos e bradar aos céus palavras indigitáveis em tão seleto espaço como este.
Há meses, porque não dizer anos, convivo com vírus. Nada mais natural vindo de um servidor de saúde pública e privada (não confundir com o sanitário propriamente dito). Porém não falo destes, e muito menos me encontro infectado, pelo menos não que eu saiba. Mas os vírus que cito são os de computador, aqueles criados para satisfazer as necessidades financeiras dos fornecedores de anti-vírus.
Sempre encarei os vírus de computador sem o "romantismo" de pensar que são criados em alguma saleta de subúrbio frio e úmido, por marginais de barba por fazer, com um cigarro na ponta da boca e um uísque vagabundo no canto da mesa, que o fariam pelo simples e desleal prazer de fazer o mal. Tinha plena consciência de que só existem anti-vírus se existirem os vírus. Sem a doença, o remédio seria desnecessário.
Contudo, hoje cheguei por um instante a mudar de idéia, senão vejamos. Dos muitos vírus chatinhos que assolam a minha vida e a minha paciência, um em especial merece a minha atenção e revolta. Ele, caprichosamente, me deixa a cada vez que ligo o computador, sem uma letra, ou um número. Alguma coisa que eu teclar não irá funcionar. Já tirei este vírus umas duzentas vezes do computador, pelo menos um dos que causam isto eu até já sei o nome: "Bugbear". E o nome é feio pra caramba, mas o estrago é pior. Já fiquei algumas vezes sem o número 1, por exemplo. Sem a letra "L", em outra ocasião. Mas hoje ele se superou e provocou a minha indignação. Hoje ele me deixou sem a letra "G".
Entrei em total e descompensado estado de revolta histérica daquelas que se resolvem com gritos direcionados para a tela do computador e muros na almofada se resignadamente me acompanha a cada vez que venho a sala do computador. Sem a letra G não. Se me permitem: sem a minha letra G não. Um GustavoGT vira um ustavoT. Sem condições. Urrava de revolta e rubor quando me veio a idéia de escrever esta crônica. Automaticamente, sem movimentos bruscos da minha parte, sem agressão física ou tortura psicológica ao computador, a letra G voltou a funcionar. Após meia hora do computador ligado e centenas de tentativas, ela reaparece. Cínica, despretensiosa, como se nada tivesse acontecido. Logo agora que me preparava para escrever sem a letra G disponível. Seria uma crônica revolucionária. Um marco na história da literatura. Um texto sem uma letra específica. Criaria desta forma um novo estilo literário. O estilo UstavianoT, baseado no total e irrestrito desprezo a uma letra específica. Seria como a nossa vingança contra o vírus. Mas ele venceu, a letra reapareceu e sumiu o meu chão. Desmoronei .
Esse comportamento me fez repensar e filosofar sobre a origem da vida. Da vida dos vírus de computador. Aquela imagem do psicopata obeso e descabelado, de barba mal feita e mal cheirosa, rindo cinicamente enquanto termina de criar mais um de seus "filhotes" destruídores me vem a mente muito mais sólida. Só não entendi ainda como ele fez o víru adivinhar meu pensamento e me sacanear desta maneira.
Do aditor
GustavoGT
Natal 27/05/05

postado por: RODOLFO TORRES 6:55 PM


Comments: Outubro de 2006 em maio de 2005

Brasília ferve mais a cada dia. É o clima de eleição presidencial que toma conta da capital, com uma antecedência brutal de mais de um ano. Dessa vez, aquela máxima repetida à exaustão, "O brasileiro deixa tudo para a última hora", não funcionou. Como sou um aspirante à analista político, vou tecer meu comentário sobre essa tão citada CPI dos Correios, ou seja, mais um caso de corrupção num governo brasileiro. O que, sinceramente, não é nenhuma aberração, exceção, ou anormalidade.
Lembro muito bem de uma noite do ano de 2002. Eu estava num corredor da universidade, tomando um suco (creio que era de laranja) com um pastelzinho de queijo de manteiga. O assunto, evidentemente, era a eleição presidencial. Um grupo de semi-jornalistas (creio, mais uma vez, que não tiramos o "semi", mesmo após a formatura) opinavam como se as suas opiniões fossem capazes de percorrer alguma distância que não fosse uns míseros centímetros chorados. Pois bem. Lá pelas tantas, o meu amigo multimídia Breno BX profetizou uma análise, na hora, incompressível. Antes de mais nada, cabe aqui fazer justiça. Breno é de uma coragem suicida. Na primeira semana de curso, ele, naquele galinheiro das esquerdas que é toda universidade federal, declarou: "Eu sou de direita!". E nem por isso deixamos de tê-lo como amigo. Mesmo porque, qual o universitário que sabe o que realmente é esquerda e direita? Até parece que não sinônimos...
Dizia que Breno teve seu momento de profeta da política. Disse o meu amigo: "Tomara que a esquerda ganhe essa eleição para que nunca mais ganhe nenhuma outra". Se eu pudesse realizar um retoque discreto, diria que a esquerda nada mais é do que a direita frustrada, que nunca chegou ao poder, que é incapaz (por virtude ou desgraça) de chegar ao poder. Voltando à frase de Breno, pelo que tenho visto e lido por aqui, os partidos de direita cansaram-se desse governo e estão dispostos a abreviar esse mandato que, em assuntos domésticos, está uma desgraceira só.
Qualquer líder, desde o síndico de um pardieiro de periferia até um presidente da República, é suscetível a perder o seu cargo por má gestão. Qualquer um. Só que a falta de habilidade desse governo chega a ser infantil. O ministro da Casa Civil e o presidente nacional do PT estão promovendo uma verdadeira caçada aos parlamentares que assinaram o requerimento que pedia a instalação da CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) sobre a corrupção nos Correios. Criou-se, dentro do Partido dos Trabalhadores, uma intolerância nazi-facista. Mas não é de se admirar essa falta de liberdade dos socialistas e/ou comunistas. Quem defende e admira regimes como o da antiga URSS, China, Cuba, etc, só tende a ser autoritário na pior expressão do termo.
Há dois dias, o senador Eduardo Suplicy (PT/SP) assinou o pedido para a instalação da CPI dos Correios. No plenário do Senado, Suplicy chorou ao dizer que assumiria as responsabilidades do seu ato, já que a direção do partido tinha fechado questão em relação a não assinatura. Disse que entenderia se o PT não lhe fornecesse a legenda para disputar uma vaga de senador nas próximas eleições.
José Dirceu, ministro as Casa Civil, andou ligando para o ex-governador do RJ, Anthony Garotinho, pedindo ajuda já que o clima de denúncias estava insuportável. Dirceu, numa humildade fora de hora, previa um golpe contra o atual governo nos telefones ao inelegível ex-governador. Garotinho disse que nada poderia fazer, apesar de controlar uma bancada de 30 deputados como quem tange gado débil, e que o povo brasileiro teria o direito de saber a verdade.
E eu no meio disso tudo? Até agora só relatei fatos, mas nada que se aproxime de alguma análise. O que irá nortear a minha carreira de analista político será a "não surpresa". Quando se trata de política, meus caros, não devemos esboçar surpresa, muito pelo contrário. Até porque, o que é a política senão a batalha incessante pelos já citados 23 mil reais por segundo que o governo arreacada?

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 4:48 PM


Comments: CORUJAS E BONECOS

Na minha mesinha de computador tem uma coruja. Uma corujinha com a cabeça escura e o corpo coberto de penugem amarelada, vestindo uma bata branca. Leva um estetoscópio no pescoço e uma maleta aos seus pés. Na plataforma onde se ergue garbosa, lê-se ¿doctor¿. Foi um presente que alguém me deu e que eu gosto muito. Segundo a minha mãe, a coruja é o animal-símbolo do curso de Letras e significa inteligência, erudição, conhecimento. Deve ser verdade, pois muitas corujas são professores em desenho animado. Não sei porque, então, uma coruja vestida de médico, mas de qualquer forma sempre gostei muito da minha corujinha desde que morava em São Paulo. Hoje, pela manhã, percebi que sua orelha quebrou. Quem em seus insanos desvarios quebraria a orelha da minha coruja? Alguém muito perverso com certeza. Pensei que poderia ser uma conspiração dos professores de português para recuperar o seu símbolo perdido. Mas porque não levá-la como presa política ou até solicitar resgate sobre a mesma? Não sei. Quebraram apenas a sua orelha, um gesto infantil de vingança que fere todos os familiares da corujinha, inclusive eu, como seu proprietário. Ou será que foi um atentado de retaliação realizado por outras corujas professoras que ganham mal e sentem inveja da minha corujinha mais promissora? É mais provável.
Tenho outros bonequinhos. Sem muito perceber, parece que existe entre mim e meus bonecos uma relação maior que de proprietário-propriedade, mesmo não brincando com eles. Não chega ser uma coleção, muito longe disso, aliás eu gostaria de ter mais bonecos, de todos os tipos. Alguns têm poderes especiais, como a coruja que de vez em quando sopra algum tema para eu escrever na confraria (como este!). Outro boneco, que por sinal é o que mais gosto porque veste-se com o manto do alvinegro natalense, tem a incrível habilidade de subir na geladeira e permanecer lá faça chuva ou faça sol. Como adora aventuras radicais, de vez em quando ele se joga lá de cima só para voar na imensidão da cozinha. Graças a Deus, nunca quebrou nenhum osso, mas já foi seqüestrado diversas vezes por integrantes de uma facção rubra cujo o nome sou incapaz de pronunciar para não dar nenhum tipo de crédito a esta organização. Muitas vezes, paguei do meu próprio bolso resgate para reaver meu preferido. Salvo traumas óbvios como o de permanecer no bolso de um terrorista vermelho por horas, escapou ileso e voltou para a porta da geladeira. Mas outro boneco, irmão menor deste, e por ser jovem, mais impulsivo, também fiel seguidor da Frasqueira Sagrada, não resistiu e após várias batalhas e raptos, suicidou-se. Mas de forma honrosa, agarrado num pote de molho de tomate, explodindo o chão da cozinha do agressor e transformando tudo em caos e sangue. Hoje, senta-se ao lado de Alá, com 47 concubinas articuladas. E aqui na terra, tornou-se herói. Pelo menos na sua geladeira. Que Deus o tenha e o mantenha imantado para que não caias mais em tentação.

O agudo
Bruno Magalhães
27/5/5

postado por: RODOLFO TORRES 9:50 AM


Comments: Quinta-feira, Maio 26, 2005

Satisfação na espera

Há exatos dez dias solicitei uma conexão à Internet, por um provedor local. E, numa série de desencontros e vicissitudes, estou sem a bendita conexão, que permitirá minha visita ao mundo numa tela pequenina. Ainda tenho que adquirir um aparelho estanho, mas necessário; pedir senha; etc... Mas parece que dessa vez a coisa vai pra frente. E creio que esse serviço foi mais difícil do que cancelar um cartão de crédito que não foi solicitado. Mas já havia se tornado uma questão de honra adquiri-lo, e nem mais me importava o preço, as condições, vantagens e brindes que essa aquisição me propiciasse. O fato é que, em plena era neoliberal voraz, não consigo comprar um determinado serviço pois o sistema deles estava em manutenção. Na verdade, uma manutenção de avião presidencial, de sistema bancário nacional, de alguma coisa extremamente complexa e vital.
E por que permaneci nessa luta desigual contra a manutenção das máquinas da BR Turbo? Tenho, no máximo, um par de certezas na vida. E uma delas é que a espera é o verdadeiro êxtase. Sim, é na espera que reside o prazer, o deleite, a embriaguez de felicidade. Sem uma breve espera, seríamos tão tristes, tão frustrados... Em outros termos, afundaríamos em desolação.
Outro dia ouvi alguém dizer, numa animação espantosa, que já existe um serviço de telefonia que permite o usuário discar para qualquer localidade do planeta e pagar o preço de uma tarifa local. Ora, o próprio e-mail já devastou a excitação da espera pelo carteiro, por aquele envelope caindo na caixa postal na frente das residências. O avião acabou com aquelas intermináveis viagens de navio, onde paixões colossais surgiram e morreram, onde cartas apaixonadíssimas foram escritas. As viagens de navio proporcionavam o clima ideal para que sonetos fossem paridos, aos milhares. Hoje, quem escreve sonetos? Além de mim, que estou escrevendo um livro de sonetos, não conheço mais ninguém. O povo antigo (Nelson Rodrigues), dizia que em sua infância um soneto provocava adultérios e casamentos. Hoje, causa estranheza quando não cai no mais completo ridículo.
Portanto, ainda guardo satisfações antigas. Uma delas é aguardar, me remoendo de ansiedade por dentro, que a BR Turbo providencie a minha mais rápida conexão à rede de computadores. Até lá, o prazer da espera eterna me fará companhia.
E engana-se quem pensa que tenho alguma mágoa ou ressentimento contra tal empresa. Ao contrário! A BR Turbo prova mais uma vez que é possível uma outra ideologia empresarial. Num mundo uníssono no que se refere aos procedimentos das empresas, a BR Turbo faz, com uma espera deliciosa, a verdadeira satisfação dos consumidores dos seus serviços. Que Deus abençoe a BR Turbo e sua manutenção infinita.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 7:55 PM


Comments: Quarta-feira, Maio 25, 2005

Costas rubras

Tenho a mais profunda e límpida noção de que estou escrevendo para leigos em recepções diplomáticas. Mas o que posso fazer? A vida nos encarrega do que somos capazes de suportar... E, então, cumprimento o embaixador argentino no Brasil. Mas antes, vamos ordenar os fatos. Quando ainda morava em São Paulo, tive um intenso contato profissional com o Adido de Imprensa da Embaixada da Argentina em Brasília. Algo em torno de um mês, incessantemente. Voltei para Natal, fui para o Canadá, retornei a Natal, e o Adido continuava mandado para o meu e-mail os eventos da Embaixada. Quando chego a Brasília, comunico-lhe que estou aqui. E ele, numa atitude gentilíssima, me convida para uma recepção na casa do Embaixador argentino, que se realizou hoje.
Fui! Ao chegar, notei que na entrada da residência oficial, eu era o único sem convite. Encontro um homem baixo e careca, e pergunto pelo Adido de Imprensa da Embaixada. Era ele... Confesso-lhe que sou um iniciante em recepções desse porte, mas ele me acalma. Eu deveria apenas cumprimentar o embaixador e mais uma meia dúzia de generais, e poderia entrar na festa sem maiores problemas.
Faço-o. E por lá permaneço duas horas calado. Apenas bebendo e comendo. Mas se engana quem pensa que as recepções diplomáticas da atualidade são pomposas. Fui a muitas formaturas de medicina em Natal e digo, sem o menor medo de exagerar, que as festas dos médicos recém-formados em Natal são muito mais suntuosas do que as recepções diplomáticas atuais.
Estou apenas iniciando um relato. Para o meu deleite, havia cerveja. E era Bavária. Quando eu imaginaria que numa casa de Embaixador, serviriam cerveja? E Bavária? Deve ser a crise... Mas vamos prosseguir. Diversos oficiais das forças armadas da América do Sul estavam presentes. Peru, Uruguai, Paraguai, Chile e Bolívia. Além dos argentinos e brasileiros. Óbvio. A festa transcorre sem maiores problemas. E eu apenas ficava imaginando: "Como perdi uma noite de sono, imaginando que aqui seria uma festa de não-humanos? Como fui tolo ao ponto de desconsiderar certos gestos e atitudes universais, como aquele indivíduo que enche a mão de salgadinhos, ou aquele que não sai de perto do local que saem as bebidas, etc...".
Muito vinho e churrasco. Só que o churrasco era para colocar dentro de um pão pequeno. E não havia guardanapos. Militares, o corpo diplomático, empresários, um senador do PSDB e eu comendo sanduíche de churrasco sem guardanapo.
Tocava-se tango. Até que uma banda de oficiais do exército brasileiro tocou os hinos dos dois países. Cantei o Hino Nacional. Depois, a banda se foi. Era chegada a hora dos dançarinos de tango. Num palco improvisado, o homem negro e a mulher alva dançaram a música que caracteriza a Argentina. O rosto dele estava banhado em suor. As costas delas estavam rubras pelas marcas da mão dele. Eu olhava as costas da dançarina e pensava: "Será que as argentinas que dançam tango ficam marcadas dessa forma?". Mas o casal era brasileiro. Ao menos ele. Para finalizar o número, fizeram uma mistura rítmica. Tico-Tico no Fubá em ritmo de tango. Fabuloso... Quase acreditei que era possível uma integração entre os dois povos. O casal é aplaudido fervorosamente. O dançarino chama algumas senhoras ao baile, prevenindo-as: "Estou suado, mas continuo cheiroso!".
Mas havia uma surpresa aos anfitriões, reservada pelo metereologia patrícia. Eles, que falavam o espanhol numa velocidade irresponsável, tiveram que suportar a chuva torrencial que desabou na casa do Embaixador. Todos bebiam os últimos goles de vinho e não havia mais a enorme fila para comer o churrasco dentro do pão.
Mas diria que as costas rubras da dançarina de tango foi o registro mais indissolúvel que levarei comigo. Minha primeira recepção diplomática, e descubro que as dançarinas de tango, após os espetáculos tristes e belos dessa dança, são obrigadas o dormirem de bruços.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 5:41 PM


Comments: Terça-feira, Maio 24, 2005

O barbeiro de Mato Grosso

Há em toda barbearia um encanto sublime. São homens que trabalham contra o tempo, contra as tendências da modernidade e diria, até, contra os aparelhos de barbear modernos que inundam as prateleiras dos mercados. Lembro bem de um barbeiro italiano que fazia a minha barba quando eu residia em São Paulo. Sua mão trêmula contrastava com a sua habilidade de décadas no ofício. E cada vez que vou ao barbeiro, tenho uma nítida certeza. Trata-se da maior prova de confiança que um homem pode dar ao seu semelhante. Afinal, quem entrega o pescoço a uma navalha alheia, tem que estar pronto para a vida se esvair em sangue, diante de um espelho grande.
Mas dizia que fui a um barbeiro. E, como todo bom barbeiro, o de hoje conversou muito. É de Mato Grosso. Mas veio garoto morar em Brasília. E, sem querer, tive uma aula de geopolítica do Centro-Oeste nacional. Provavelmente vocês não sabem, mas houve um tempo em que os dois Estados eram unos. Se não me engano, até certa parte de Roraima era Mato Grosso no passado. Mas alguns inconfidentes trataram de dividi-lo.
E tem mais. Outros Estados também eram Mato Grosso, que provavelmente era um colosso territorial. Se o barbeiro de Mato Grosso não estiver errado, no governo do General Figueiredo, houve a cisão. Daí, para variar, pensei no Rio Grande do Norte.
Pela lógica, e pela geografia, o RN deveria ser apenas e tão somente chamado de Rio Grande. E pela questão histórica, das capitanias hereditárias. E até porque ele fica no Nordeste, e não no Norte. Mas Rio Grande do Nordeste não é esteticamente aceitável. Portanto, se a justiça geográfica e histórica fosse feita, seríamos apenas Rio Grande. O outro, o do Sul, poderia permanecer como está.
Entretanto, existe um outro porém... O Mato Grosso e o Mato Grosso do Sul é que são Estados felizes. Existe uma fronteira, um contato, uma proximidade. Qualquer problema entre eles, é resolvido com uma simples enchida no tanque de gasolina. Entre os Rios Grandes não é bem assim. Passagens aéreas ou dias de estrada são indispensáveis.
Daí buscava uma solução. E a única que encontrei foi substituir alguns nomes dos Estados da federação. A Paraíba se chamaria Rio Grande do Sul, e o Rio Grande do Sul passaria a se chamar Santa Catarina do Sul. Mas estimo muito o nome "Paraíba".
Então a solução é excluir o "Norte" do Rio Grande do Norte, mas que a sigla RN permaneça, até como alusão à inicial da sua capital.
Pois é, meu caro barbeiro do Mato Grosso. Não és o único proveniente de algum Estado com contratempos. Não falarei de Fernando de Noronha e do Atol das Rocas porque esse assunto não cabe no final de nenhuma crônica. Esse roubo de ilhas é tema para livros quilométricos. Não para croniquetas.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 7:01 PM


Comments: Apatia

Ainda com a crônica sobre ``tênis`` na cabeça, do confrade Luís Gustavo, reverberando em minha mente, lida horas atrás, me deparo com uma partida de tênis, ao vivo, enquanto despretensiosamente passava os canais de televisão. E não era uma partida qualquer. Era o jogo de estréia do nosso Gustavo Kuerten, o Guga, no torneio que o consagrou, podemos assim dizer, para toda uma nação e para o mundo, do qual já foi campeão por três vezes. Este é um dos quatro maiores eventos do tênis mundial, e temos um digno representante lá. Mereceu então a minha torcida e atenção.
Sabemos que a fase não é boa, mas pelo menos eu tinha esperança de ver uma boa atuação neste torneio. Afinal, esta é a casa dele. Se não é literalmente, é de coração. Pois é notório o carinho e admiração que o nosso Guga conquistou lá em Paris. Ou seja, neste torneio meus amigos, não existe fase ruim. Aqui é como uma final de campeonato em um clássico. Os times se equivalem.
A minha esperança e paciência se esgotavam rapidamente durante os pontos, numa velocidade de mais de 180Km/h, que foi o saque mais rápido do jogo. Guga perdeu por três sets a um. Ele não só perdeu, ele jogou mal, muito mal.
Mas o pior não é que ele perdeu ou que tenha jogado ruim. Nada pior do que a sua expressão durante a partida. Aos confrades que não viram o jogo, era algo parecido com: apatia. Falo em apatia para tentar descrever a cena que presenciei. Um misto de falhas técnicas absurdas, culminando no que eles chamam de erros não forçados, aliado a uma total falta de empolgação . Seu olhar era baixo, sua face era de quem estava ali por obrigação. Para mim, e para todos que assistiam, aquele deveria ser o jogo da vida dele. Se algo poderia reerguer o nosso campeão seria uma boa atuação neste torneio.
Não foi isso o que vimos, infelizmente. Era notório, se não trágico, o tom dos comentários dos profissionais do tênis. Sempre achei Guga instável tecnicamente nas partidas, oscilando entre bons e maus momentos, mas nada parecido com o que vi hoje.
Lamentável, triste, deprimente. Não me permitirei mais o sofrimento de vê-lo entrar em quadra para perder. Quero guardar os bons momentos na memória. O coração feito na quadra de saibro após mais um título. O sorriso moleque. O punho fechado para a torcida e a garra na ponta da raquete.
Tentei e consegui traçar um nítido paralelo com a nossa situação enquanto nação. Nos falta raça, nos falta vontade, nos falta aquele pouquinho de revolta, no bom sentido: a vontade de mudar o rumo das coisas. Que o brasileiro aprenda a entrar em quadra a cada partida com a vontade de vencer. E para isso vale cara feia, vale grito para a torcida, vale ancarar o adversário, vale empolgação.
Do aditor
GustavoGT
Natal 24/05/05

postado por: RODOLFO TORRES 6:00 PM


Comments: Segunda-feira, Maio 23, 2005

Vocação para servir ao interesse público

Outro dia, há muito pouco tempo, eu estava jantando num restaurante. Dizia, inconsolável, que o brasileiro paga muito imposto, em tudo, para sempre, até a eternidade. Talvez, o pagamento de tributos seja a mais visível e fatal vocação do brasileiro. Mas não questionava a respeito da vocação do nosso povo. Falava, simplesmente, que o brasileiro paga muito imposto. Ora, isso é um fato, uma verdade, um senso comum. Eu não preciso ser gênio, nem muito menos economista, para saber disso. Pagamos imposto sem ter o por que. É um vício, uma fatalidade, uma predestinação. Se algum analista internacional for questionado a respeito da função do povo brasileiro, dirá, sem ensaiar qualquer dúvida: "Serve para pagar imposto".
Dito isso, passo adiante. Pois não foi que um ser que estava ao meu lado duvidou que eu pagava imposto. Falou, em termos de baixo calão, que eu não pagava imposto, em absoluto. Que aquela lamúria era uma choradeira ou algum charme da pior procedência.
Mas vejam bem... Que espécie de quadrúpede pode afirmar que qualquer brasileiro, incluo até os que comem capim pela raiz, não paga imposto? Lembro muito bem de um texto de Jô Soares na revista Veja, no início da década de noventa, que dizia que no dia em que o ar for cobrado, os que forem fiéis pagadores terão direito a uma quantidade limitada de fungadas por mês. Esse é o nosso destino. Pagamos importo por vício. E ouso falar que nos dia em que os impostos forem reduzidos, teremos uma revolta colossal nesse país. O povo, injuriado, colocara a face do governo entre as mãos e perguntará: "Queres tirar o propósito da minha existência?; Queres tornar a vida um vácuo ilimitado?". A grande verdade, a inapelável verdade é que sem os impostos, seríamos desnorteados, seríamos tristes, seríamos menos brasileiros. O nosso povo é constituído de miséria, corrupção deslavada e alta carga tributária.
Sem esses pilares, seremos mancos enquanto povo. Mas o melhor ainda será dito. Sim, existe um dado absurdamente emblemático, que fará com que, pela primeira vez, possamos sentir o verdadeiro valor dos nossos impostos. Ah, o brasileiro é um iludido... Falo isso sem nenhum cinismo. A maioria da população do Brasil acha que os políticos são corruptos. Isso é um equívoco! Não são os políticos que são corruptos. O ser humano é que tem a corrupção entranhada, como uma úlcera hereditária. Sejamos sinceros... Hoje mesmo, vi que o governo federal arrecada por segundo (leia bem, segundo), 1/60 avos de minuto, nada mais, nada menos, do que 23 mil reais. Ou seja, o que o governo federal arrecada para nada fazer num segundo, não consegui ganhar em toda a minha vida, fazendo o mesmo. Ou seja, nada.
Mas não culpo o governo. Seria imbecilidade minha culpar seres humanos por seguirem características humanas. Recriminar a corrupção no governo é o mesmo que recriminar um cachorro por latir. Portanto, vamos viver as nossas vidas sem mágoas, sem ressentimentos, sem recalques, sem lástimas. Vamos viver apenas pensando: 23 mil por segundo.
E que sejam elaboradas ideologias, tipos de caráter, biografias, livros, teses, partidos políticos e o que seja, para esse fim. 23 mil por segundo.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 11:20 PM


Comments: Rumo a Rolland Garros

Esse mês, começarei no tênis. Venho dizendo isso há algum tempo, mas agora é sério. Ganhei uma raquete de presente de aniversário, no ano passado e até o momento ela permanece intocada, abandonada no escuro do armário e para completar, ainda sem as cordoalhas, o que faz dela uma raquete triste e banguela. Mas, em breve, ela reluzirá ao sol de Brasília.
Existem dois tipos básicos de tenistas: aquele que começa cedo e desenvolve bem as técnicas requintadas e repletas de nuance do jogo; e o tenista temporão, aquele que gosta da idéia de jogar tênis, já planejou várias vezes a incursão ao saibro, mas nunca passou das transmissões na TV. Já adentrando a quarta década de vida e muitas vezes visando demonstrar ascensão profissional, já que o tênis é um esporte de elite, resolve, enfim, ensaiar seus "lobbies". Sou precisamente esse tipo de tenista, embora não tenha evoluído de casta social.
Sei que nunca atingirei um nível razoável. Minha curva de aprendizado será tênue como a de um aluno de escola pública. Por outro lado, capricharei no ritual. Jogar mal, sim; sem estilo, jamais. Para começar, levarei minha toalhinha. Game sim, game não, irei até o canto da quadra dar aquela enxugada no suor do rosto e dos braços. Nos momentos decisivos, talvez páre a cada ponto, objetivando também irritar e desconcentrar o adversário.
A cada bola tocada na rede, que "pingar" sutilmente no outro lado da quadra, vibrarei por dentro, mas, mantendo a fleugma exigida, farei um gesto constrito, pedindo desculpa pelo golpe de sorte . Na hora do saque, equilibrarei pelo menos umas quatro bolas na raquete, e após olhar fixamente para cada uma delas, como se examinasse um traçado de eletrocardiograma, escolherei as duas mais aptas para o tipo de saque que efetuarei na seqüência.
No game de serviço do oponente, apertarei as cordoalhas da raquete e balbuciarei palavras ininteligíveis, como se conversasse com a raquete. É ridículo, mas faz parte do ritual da concentração, peça-chave nesse jogo solitário. Em homenagem pessoal ao Guga, ídolo maior, na hora de rebater a bola, emitirei um grunhido gutural, oscilando no timbre: mais grave se for na direita e mais agudo se for um back-hand. Aliás, priorizando o estilo e não a eficiência, meu back-hand será apenas com uma das mãos. Nada daquele golpe horroroso do Agassi, apelando para as duas mãos quando a bola cai na esquerda.
Nas bolas duvidosas, na falta de um juiz de linha, eu mesmo gritarei "out", em seguida riscando um círculo qualquer no saibro, para provar que a bola caiu fora. Se o adversário quiser conferir de perto, fingirei não perceber e apagarei rapidamente a marca, trazendo para o tênis um pouco da catimba aprendida em anos de futebol.
Como acessórios não menos importantes, levarei minha garrafa d'água e uma penca de bananas a fim de manter a homeostase dos líquidos corporais, tolerando bem as partidas mais duras, decididas em longos tie-brakes. Não sei quem começou com a mania, mas todo tenista que se preza, devora bananas entre os games. É um frugívoro único, com anorexia seletiva a todas as outras frutas: nunca vi tenista que se lambuzasse com uma manga suculenta ou se conformasse com uma frugal maçã, por exemplo.
Quem quiser acompanhar essas memoráveis partidas, pode comparecer ao clube do exército, palco escolhido para desfilar meu futuro repertório de "winner points". Será bem-vindo, desde que mantenha-se quieto na arquibancada e não ouse jamais abrir um jornal ou folhear uma revista quando eu for sacar. Ah, ao final do ponto, pode aplaudir comedidamente, e, por favor, nada de comemorações efusivas que isso aqui não é futebol...

Luis Gustavo Ferreira

postado por: RODOLFO TORRES 12:14 AM


Comments: Domingo, Maio 22, 2005

OS ET'S DE QUIXADÁ

Meu telefone não para de tocar desde quinta-feira à noite, quando a TV Globo exibiu - no jornal que agora, lamentavelmente, não é mais da Ana Paula Padrão - uma reportagem sobre OVNI's que são avistados por moradores da minha cidade, Quixadá. Para pôr fim aos milhares de telefonemas extemporâneos, quero tornar públicas algumas informações preciosas.
Antes que qualquer coisa, devo esclarecer que eu não sou um ET, como poderia sugerir algum engraçadinho de plantão.
Dito isto, devo esclarecer, também, que a reportagem não traz pra mim nenhuma novidade. Há muitos anos nossos amigos intergalácticos fazem contato com os sertanejos daquelas bandas. Quando eu ainda morava por lá - que saudade! - já se ouvia "causos" de discos voadores e moças abduzidas. E tenho que dizer aos senhores que é tudo verdade. Absolutamente verdade. Eu mesmo já vi um disco voador. Tava meio escuro, chuvoso, mas tenho certeza que era coisa de outro planeta. ET mesmo eu nunca vi, não posso mentir. Mas tenho um amigo, cujo primo viu e garante que o bicho é feio. Os incrédulos, maldosos, dizem que o bicho até parece com um cearense, tem a mesma cabeça chata. Mas isso é pura maldade, o bicho é muito mais feio. Quer dizer! Segundo o primo do meu amigo, que viu e contou.
O fato é que basta ir a Quixadá, para perceber o porquê de terem os ET's escolhido aquela cidade. A explicação de tudo está nos monólitos - imensos blocos de pedra, verdadeiras montanhas de rocha maciça que fazem Quixadá, nas palavras de um compadre meu, guardar muita semelhança com o Rio de Janeiro. A beleza do lugar é tão pujante, que impressionou até os alienígenas. Os mais fascinados com as histórias dos discos voadores, poderiam dizer que os monólitos são, na verdade, naves extra-terrenas que sofreram um choque físico-químico ao entrarem em contato com o calor escaldante do sertão cearense e se transformaram em rochas. É possível! Aliás, há por lá uma velha lenda, que diz que a Galinha Choca - rochedo mais famoso e mais bonito da região - muda de lugar de tempo em tempo. Eis aí a explicação. Trata-se de uma nave alienígena.
Mas o que eu realmente quero dizer a todos, principalmente aos que se impressionam com coisas doutro mundo, é que não tenham medo. Os ET's não irão além de contatos episódicos com os sertanejos. Eles têm medo de que, fazendo contato aberto e extensivo, agente dê um jeitinho de exportar para o planeta deles a corrupção, a bandidagem e a "senvergonhice" que assolam a nossa Terra.

Natal, 22 de maio de 2005.

O Ausente
Rafael Loiola.

postado por: RODOLFO TORRES 7:34 PM


Comments: Quinta-feira, Maio 19, 2005

Ateliê d'alma

Há muito tempo, pensei em escrever algum texto com o título: Os homens com quem durmo. Mas não escrevi porque seria incompreendido, preterido, descriminado... Bobagens da pouca idade. Mas hoje posso escrever, sem pesos maiores à minha pessoa, que não sou mais o mesmo sem dormir com aqueles dois homens que me marcaram profundamente, quando ainda morava em São Paulo. Dormia com Aldous Huxley e Albert Camus. E fui feliz como nunca com esses dois.
Para não trair a minha idéia de outrora, resolvi confessar esse meu período de transcendência nas noites paulistanas. E ouso dizer que esse argelino e esse inglês são melhores do que qualquer roteirista de televisão da atualidade, fato que me fez esquecer uma das minhas maiores paixões. Sim, adoro televisão. Qualquer programa é um convite irrecusável à audiência. Como trabalhei alguns anos em televisão (e como tenho saudades dessa atividade, meu Deus...), reconheço aspectos imperceptíveis aos olhos leigos.
Em breve, sairei à procura de dois livros nos sebos de Brasília. As portas da percepção, de Huxley; e As ilusões Perdidas, de Balzac, que é francês, mas escreveu no mesmo idioma de Camus.
Portanto, para encerrar essa croniqueta, ou crônica miúda, direi que alguns autores exercem o papel de costureiros de almas. Ou até mais. Artesãos. São eles que moldam alguns trechos do meu viver. E, na infelicidade de cada qual, constituo a minha felicidade numa leitura profunda. Mentiria se dissesse que não sou feliz. Extraio alegria das mais inusitadas fontes. Bebo, sedento, das lamúrias dos grandes. Sonho em dormir com eles. E algum tipo de felicidade me é reservada.
Tristes noites aqueles que não são roteirizadas por esses homens. Tristes noites sem eles. É como se a vida fosse apenas viver. Sem ter para o que sofrer.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 11:43 PM


Comments: O CAMALEÃO E O DIABO NO VALE VERDEJANTE

Tudo eram flores e chuva naqueles idos de outono. A terra estava verde como nunca. O sol brilhava incessante. Fazia calor. Os habitantes do bosque estavam todos muito contentes. Passeava atento um pequeno Camaleão de cor ainda verde, muito verde, verde até demais. Mas todos na floresta apreciavam aquela cor que representava antes de tudo esperança. O pequeno Camaleão era tido como um herói perante todos na floresta devido suas desventuras passadas. Muito embates tinham sido vencidos contra inimigos lendários e muito mais fortes. Àquela altura, corria solto na floresta a boataria em torno da potência do pequeno Camaleão. Consideravam-no invencível, que tinha poderes sobrenaturais, que nada nem ninguém poderia destruí-lo. Como tantas outras vezes, havia sido marcado um duelo de morte naquela bela tarde verde. Naquele dia, o bosque estava mais verde que de costume. tudo em torno do rio tinha uma única e maravilhosa cor verde, com diferentes tonalidades. Todas as outras cores foram preteridas, apenas o branco fazia contra-ponto ao verde. Vinha gente de todo o vale para assistir ao embate mortal. E na hora do evento, o palco montado na floresta estava abarrotado de toda espécie de bicho, independente da sua cor, todos eram verdes. O inimigo, dizia-se, já estava abatido. Tinha tido confronto recente com o camaleão e sucumbira diante das garras do nosso herói. Mas quando o espetáculo começou, tudo mudou. O inimigo revelou sua verdadeira face. O cordeiro virou lobo e o tão insignificante inimigo mostrou-se como realmente era: o Diabo. É... o próprio demônio em pessoa. Todo vestido de vermelho, não demorou muito para aplicar golpes e mais golpes no nosso surpreso Camaleão, que recuava desorganizadamente, dando mais motivos para o Diabo atacar. Não parecia ter forças para reagir. Cada tentativa de reação, voltava em escala muito maior do inimigo. O Diabo foi marcando tentos a seu favor. 1, 2, 3... Depois de considerado perdido, o Camaleão lançou-se desesperadamente ao ataque, tentando um nock-out . Não houve sucesso. O tempo, que julgava-se ser seu melhor aliado, mudou de lado e decretou impiedosamente o fim. Sem chance. O primeiro confronto entre os dois adversários havia deixado mais baixas que se imaginava e o Camaleão entrou em campo meio combalido. O Diabo mais uma vez mostrou-se um ótimo estrategista. Colocou toda a vantagem nas mãos do Camaleão para usurpá-la depois de forma melancólica. Foi vil, ardiloso, manhoso... foi o Diabo. O maior virtude do chifrudo foi enganar todo mundo no que se referia a sua existência. Pensava-se que estava morto, mas não estava. Pensava-se que não existia, mas revelou-se. No final, acusou-se o árbitro de vender a alma... ao Diabo. Depois, participantes juram que o Camaleão já entrou na disputa com outra cor. O seu verde-oliva reluzente estava meio amarelado, foi ficando roxo das pancadas que sofria, de cansaço ficava azul e terminou assumindo a cor do inimigo: ficou vermelho de vergonha. O Camaleão tão imponente ficou cabisbaixo. Perdeu parte da sua cauda durante a luta e muito da sua auto-estima. Mas engana-se quem pensa que o Camaleão morreu. Ele só está dando um tempo. Logo, logo volta a ameaçar e trucidar adversários com a mesma facilidade de outrora. Seu verde está se redefinindo e vai ressurgir muito mais bonito. E noutra tarde verdejante qualquer, o nosso herói vai voltar a ser vencedor. E toda a floresta vai junto.
O agudo
Bruno Magalhães
18/5/5

postado por: RODOLFO TORRES 3:58 PM


Comments: Quarta-feira, Maio 18, 2005

Ensaio dos sonhos

Alguma coisa sempre acontece no meu coração quando passo pela esplanada dos ministérios e vejo o congresso nacional. É uma visão que provoca alguns sentimentos até esquisitos, como o de fazer parte desse país, de alguma forma. Sei que para quem nunca o viu na frente, é difícil tentar explicar essa sensação. Mas o fato é que quem vem a Brasília, se sente mais brasileiro quando passa pelo congresso à noite. De dia, ele não é tão pomposo. Mas pela noite, com todas aquelas luzes iluminando aqueles dois prédios interligados e os pratos pra cima e pra baixo, a coisa é outra. Uma aparência célebre apossa-se das casas legislativas. Sim, o congresso nacional é mais digno à noite.
Pois fui até a esplanada nessa madrugada, só. Guiava sem pressa, numa pista de seis faixas. Queria perder o medo de andar por essa cidade de endereços práticos e indecifráveis. Passei pela rodoviária e finalmente: congresso à vista!
Mas não me atrevo a passar do Palácio Itamaraty, porque daí teria que entrar pela Praça dos Três Poderes e dobrar à direita no Palácio do Planalto. A partir desse ponto eu não saberia mais voltar. Portanto, peguei o retorno antes do Ministério das Relações Exteriores em direção ao lar. Logo mais, passaria pelos sem-terra.
Minha intenção era fazer um ensaio fotográfico dos sem-terra à noite. Como seria a noite dessas pessoas? Dezenas de ônibus estavam estacionados em frente a um ginásio, pertinho da esplanada. Também havia centenas de barracas de lona, fogueiras, bandeiras do movimento e da pátria. Alguns dormiam, mas tinha tanta gente do lado de fora, numa reunião em plena madrugada gelada de Brasília, que tive vontade de parar.
Não tinha máquina fotográfica comigo. Teria que voltar ao apartamento e busca-la. Até achei uma boa idéia propor ao meu primo que me acompanhasse nessa experiência. Até imaginava como sairiam as fotos. Trabalhadores agasalhados, cozinhando seus alimentos em fogueiras pequenas; crianças dormindo abraçadas às mães, que também dormiriam encostadas em algum suporte das lonas; trabalhadores atentos a um orador nem tão inflamado; um acampamento de agricultores na madrugada de Brasília.
Chego ao apartamento e meu primo estava roncando. Convencido da inoportuna idéia que portava, me preparei para dormir. Deito com as imagens que vi ao passar lentamente no carro pelos sem-terra. Com a minha frustração de não ter feito as fotos. Deito sem um registro material dessas cenas. Mas o ensaio fotográfico veio em sonho. E as imagens eram fortes.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 2:55 PM


Comments: Terça-feira, Maio 17, 2005

DAVI x GOLIAS

Estou de luto essa semana. Ninguém, por favor, me dê os pêsames. Me sentirei humilhado. Ninguém também tenha a audácia de caçoar de mim. Eu não suportaria. Peço-lhes que respeitem a minha dor, que é absolutamente sincera. Vocês com certeza já tiveram muitas derrotas na vida. Sem dúvida. Eu também não fico atrás. Já tive muitos transtornos nesses longos anos que chamo de vida. Mas com certeza nenhum tão triste, tão lamuriante, tão deprimente quanto o que se passou nesse domingo. Nem parece que faz apenas dois dias, inclusive. Para mim, já se passaram uns dois anos desde o acontecido e é como se fosse ontem... na verdade foi anteontem, mas parece muito mais. Tinha tudo para ser um dia perfeito. Era inclusive dia do aniversário do meu pai. A festa já estava toda pronta. Mas teve de ser cancelada. Não havia clima. E não estou sozinho nessa tristeza. Toda uma cidade chora o mesmo fato e sente essa dor que não me deixou dormir por duas noites e que provavelmente não sumirá hoje. Havia um clima maravilhoso de esperança até antes de acontecer o imponderável. Toda a minha cidade se enfeitou. Nas praças, desde cedo, as malas dos carros abertas denunciavam a alegria através de auto-falantes. Os trios elétricos esperavam apenas a ordem para iniciar. Por onde se olhava, o verde predominava. As crianças arriscavam placares mirabolantes; os senhores, sempre ponderados, ainda estudavam de quanto seria vitória. Até as mulheres, muito freqüentemente indiferentes a eventos desta natureza, espalhavam seus sorrisos nas ruas e embelezavam tudo por onde passavam. Sabiam até hinos, gritos de guerras e palmas ensaiadas. Uma belezura. O local do embate estava completamente lotado. Não tinha nem lugar para cuspir, se a educação vigente permitisse. Havia mais. Quase uma certeza de vitória. Uma coisa de ser favorito, de talvez ser campeão. Mas acabou logo depois do início. Não teve quem percebesse quão ingênuos nós fomos. Achamos que poderíamos ser grandes. Que teríamos força equivalente ou até superior. Eles foram infinitamente melhores. Eles foram mais do que pareciam ser e nós fomos muito menores do que fomos levados a crer. No fim, a força escolheu o outro lado e nossa vantagem que parecia ser enorme antes do jogo, ficou insignificante. Foi revertida de forma fácil até. Caímos diante do Golias. E nós pensávamos que nós éramos o Golias. 3 x 0! Sem apelação. Não teve nem do que reclamar, embora alguns jurem que o mediador foi comprado (por 15mil!). Um desesperado ainda invadiu o campo para acerta-lhe um pontapé. A educação acabou-se numa chuva de garrafas de água para dentro da grama e depois noutra, de pedras, sobre o transporte do adversário que, a esta altura, já tinha se tornado inimigo. Infelizmente eu estava lá. E era de dentro. O clima do vestiário depois da partida estava simplesmente horrível. Dava para ouvir a respiração dos outros. Dava até para se cortar o ar com um serrote. Saí para não chorar. No outro dia, todos lamentavam muito e davam mil e uma explicações para o acontecido. Mas não havia explicação nem consolação. Nos resta apenas aguardar o próximo ano e torcer, com maior vontade talvez, para que a Terra que sempre foi dos Poetas também seja do futebol. Ah! Outra coisa, quem pronunciar o nome da novela das oito perto de mim, vai ouvir. Ah! Vai!
O Agudo
Bruno magalhães
17/5/5

postado por: RODOLFO TORRES 10:19 PM


Comments: Ao futuro eleitor potiguar

Um cenário medonho sempre acompanhou os eleitores potiguares. Não falo da conduta dos políticos de lá (só um pouquinho), mas em relação as suas faces e corpos. Imagine o espetáculo desagradável que quem vota é obrigado a presenciar. O horário eleitoral no Rio Grande do Norte é semelhante à uma casa de monstros, mansão mal-assombrada, trem fantasma real, etc.
Portanto, eis um aviso aos jovens do RN que se habilitam a votar aos 16 anos: cenas assombrosas farão de vocês pessoas menos felizes. E como tudo na vida, principalmente depois do governo Lula, funciona à base de metáforas, aqui vai uma bem simples, diria até mal feita, metáfora. Mas é ilustrativa para descrever o horror a que somos submetidos a cada eleição.
Cada eleição é um passaporte para um show dos infernos. As mais terríveis criaturas, de práticas políticas capengas, se apresentam. Entraremos no vagão que nos conduzirá a algumas dezenas de dias intermináveis.
Tudo fica escuro, escutamos jingles cretinos e uivos ao longe. Um trovão aqui, outro ali, e de repente uma raposa canta para a lua. Entra a Nikita local dizendo que trabalha pra valer, com o seu olhar que privilegia diferentes estaturas. Depois, uns irmãos mutantes que possuem sua genética fundida a dos sapos falam, como sábios, que o caminho é aquele mesmo. Ou outro. Depende. Mas o sapo é um bicho extremamente sagaz e adaptável, ao ponto de respirar na água ou na terra, pela pele ou pelos pulmões (será que os sapos têm pulmões?), no governo ou na oposição.
Logo adiante, o homônimo de um cientista francês, com bigode de cantor de tango, sai do seu formol e balbucia palavras no seu dialeto, que de tão complicado, exige esforços imensos. O que faz com a musculatura da boca puxe a pele de um olho. E tome piscada...
Ainda tem o hipnótico privatizador das luzes. Que com a suas bochechas vencidas pela gravidade, a dentição de pangaré e a voz sussurrante, faz-nos dormir o sono dos contribuintes ludibriados.
Não nos esqueçamos do pigmeu voraz. Não se aproximem dele crianças! Ele foi capaz de ganhar honrarias numa das altas casas do legislativo nacional. Sua argumentação é feroz. Seu poder verbal é praticamente insuperável. Com o seu mais recente fiel escudeiro, promove as cantorias de sereia nos mais distintos lugares. O mais prudente é amarrar as mãos às costas para não se matar, buscando o alívio eterno dessa melodia sinistra.
Há o que nada com a agilidade de um peixe-boi, em águas internacionais. Cruza hemisférios em poucas horas, e guarda tecido adiposo para épocas nas quais a sua popularidade não está tão em alta.
Outros sentem o cheiro das urnas com a antecedência de meses, pois usurpou o nariz dos tucanos e fareja alianças proveitosas com a sua venta descomunal.
Exemplos mórbidos não faltam. Mas não poderia deixar de aqui citar os traidores do tempo. Eles têm o poder de enganar calendários, relógios, datas, etc. Quando o tempo crê em algo, eles alteram a percepção da realidade. Burlam discursos gravados e almejam mais quatro anos de reinado.
Cuidado crianças. Muito cuidado ao entrar na urna eleitoral. Criaturas desagradáveis podem fazer com que vocês não durmam durante muito tempo. Tempo até demais...

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 4:11 PM


Comments: Segunda-feira, Maio 16, 2005

O nome do morto

Atualmente o seu pai tenta um empréstimo bancário para abrir uma escola de datilografia, única profissão que desempenhou durante sua vida inteira, sem grandes glórias e com pequenas humilhações corriqueiras. Já tem um projeto mal feito, pretende alugar uma salinha e já consegue visualizar a sala repleta de alunos. Quando questionado sobre as razões do ofício, ele não pestaneja: "É por causa do barulho". Várias máquinas de escrever produzem um barulho encantador aos seus ouvidos sem talento nato para a música elaborada. E não se abala com as novas tendências. Haverá sempre os que buscam ruídos antigos para acalentar a alma. Está decido em seu empreendimento. E não existe quem o desvie do seu propósito empresarial.
A mãe é parteira. Ajudou a colocar centenas de bebês no mundo, em suas próprias casas. Com certa modéstia, declara que se sente um pouquinho serva de Deus quando traz a sua mais perfeita obra para o além-ventre. Seus serviços já não sais mais requisitados, porém o seu talento não atrofiou. Deseja ver o seu ofício se perpetuar como o canto dos grilos nas madrugadas silenciosas. Na mesma salinha alugada do curso de datilografia, à noite, colocará as máquinas de escrever num canto de parede e reunirá as grávidas sem dinheiro. Oferecer-lhes os seus serviços e saberes parece uma forma justa de não morrer a técnica ancestral, e de não morrer à míngua.
O casal tem um filho que fará serviços menores nos afazeres paternos e maternos. A televisão e, por conseqüência, as pessoas não acreditam no sucesso dessa investida. Há quem os considere vagabundos, pois trabalhar para o vazio é a forma mais elegante de não ser um imprestável por completo.
Ficarão dias a espera de alguém. E só o carteiro e alguns vendedores ambulantes os visitarão. Esse é o destino que a unanimidade credita ao casal. E é esse o destino que lhes será ofertado.
O velho datilógrafo morre de parada cardíaca teclando apenas a letra M da sua máquina, que não tinha nem papel, num final de tarde naquela sala vazia e escura. A mãe é presa por exercício ilegal da medicina. E todos os domingos o seu único filho vai lhe fazer uma visita na ala feminina do presídio em que se encontra. Seu crime foi trazer gente ao mundo sem nenhum livro antecedendo os seus atos profissionais.
O garoto herdou a sina da labuta vã. Será escritor daqui a alguns anos. Morrerá entre palavras. Sua mãe sairá morta da prisão. Seu ofício valerá a seguinte inscrição na lápide materna: "A morte é paciente. A vida, descontente".

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 4:41 PM


Comments: Sexta-feira, Maio 13, 2005

Sexta-feira 13

Escrevo nessa sexta-feira 13, maio de 2005. Embora o número 13 seja tido ora como sinal de infortúnio, ora de bom agouro, haja visto as conhecidas manias do penta-chato Zagallo, essa data reunindo o número 13 à sexta-feira tradicionalmente é ligada ao azar.
Sobre a origem dessa superstição, há, como de hábito, muitas teorias. Uma das que conta com maior apoio relaciona a última ceia de Jesus, com a presença de 13 convivas à seu martírio e morte ocorridos na sexta-feira subseqüente.
Não tenho qualquer tipo de superstição, nem essas infames tipo: não passar embaixo de escada, usar trevo de quatro folhas, fazer figa, etc. Sempre encarei essas coisas como bobagens, futilidades que caíram no gosto popular. Às vezes, viram motivo de graça - era muito comum o uso dessas situações em quadrinhos - é só lembrar do Gastão, sortudo inveterado.
O Houaiss é categórico e preciso na definição da primeira acepção do verbete superstição: "crença sem base na razão, que leva a criar falsas obrigações, a temer coisas inócuas, a depositar confiança em coisas absurdas".
Infelizmente, parece haver uma tendência cada vez maior de se valorizar essas crendices. Até os práticos norte-americanos perdem milhões de dólares ao evitar viagens e fechar grandes negócios nesta data. Sem falar nos prédios infantilóides que pulam do 12° direto para o 14º andar. Paradoxalmente, num novo milênio, com avanços marcantes da ciência em todos os campos, é incrível como o ceticismo ainda encontra rejeição em tanta gente, que prefere gastar dinheiro e energia com as diversas formas de mães Dinah existentes no mercado e com prescrições de cartilagens de tubarão, pílulas de clorofila e afins. A essas almas deslumbradas, e também aos amantes da ciência, recomendo como livro de cabeceira o excelente "O mundo assombrado pelos demônios", de Carl Sagan, notório defensor do senso crítico. O livro é um escudo contra todo típico de falácia e falcatrua maqueadas de "misticismo", que tentam jogar a humanidade na escuridão desde o início de sua história.
Voltando à sexta-feira 13: para mim, só não é mais uma data qualquer no calendário, pois curiosamente marca o dia em que comecei a namorar a minha cara-metade. Tem, portanto, um valor simbólico, nunca místico.

Luis Gustavo Ferreira (o azougue)

postado por: RODOLFO TORRES 6:40 PM


Comments: Atoreco

Poucas poltronas, não mais do que vinte; uma sala de quarenta metros quadrados; uma cadeira no palco; um revólver numa mesinha ao lado da cadeira. Esse era o cenário vazio de um pequeno teatro que visitei hoje. Não se pode entrar lá usando sapatos. Só as meias são permitidas nesse templo da interpretação. Daí, olhei para esse ambiente misterioso, ambiente no qual qualquer tragédia humana poderia ser representada, e achei que estava na hora de arriscar alguma coisa no campo das artes cênicas.
Mesmo sendo tímido nato, bem que poderia interpretar outras dores, para quem sabe apaziguar as minhas. Dessa forma as minhas feridas não se sentissem tão solitárias nessa carcaça que as abriga com todo o carinho ao longo desse par de décadas.
Estou tentado a atuar para algumas pessoas que estejam dispostas a crer em algo ensaiado. Que sou quem represento ser, que sofro o que represento sofrer, que amo o que (ou quem) represento amar.
E quando a carapuça cansar, vou em busca de algo mais estimulante ao momento. Jogo-a no camarim do tempo e logo providencio outra vestimenta.
Mas já ensaiei diversos espetáculos ao espelho. Eu era tudo. Inclusive platéia emocionada, artista respeitado e crítico deslumbrado. Era tudo, menos eu mesmo.
E já que não consigo ser algo além de retalhos de interpretações fragmentadas e picotadas, vou em busca de um roteiro de atuação. Vou saber o que devo fazer e saberei o que por vir está. Até o meu final conhecerei. E tudo será brincadeira, como sempre tem sido.
Pela primeira vez vou atuar com ensaios e direção, luz e público pagante. Nada que se compare à minha medíocre encenação pela vida, pelos dias, pelos outros.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br



postado por: RODOLFO TORRES 6:36 PM


Comments: Quinta-feira, Maio 12, 2005

Ceia marginal e contente

Até pensei em escrever hoje a respeito de um velho senhor que passa as madrugadas nas ruas dessa cidade, com o uniforme da seleção brasileira e uma bola murcha de futebol, jogando uma partida imaginária com as paredes, os postes, os muros, as vidraças... Ele é jogador e narrador, simultaneamente, de um espetáculo diário e único. E procura sempre um espaço parecido com um gol para disparar um chute certeiro e potente, após um "chapéu" no adversário que pode ser chamado de vento. Ele busca, sempre com êxito, fazer aquele último gol que Pelé fez contra a Suécia na final da copa do mundo, em 1958. Depois grita com o pulmão cansado, mas com o coração apaixonado, que a taça do mundo é nossa.
Seu uniforme é sujo da grande final de todas as madrugadas. Mas sempre canta o hino nacional nas madrugadas de Brasília, e sempre chora. Após ganhar o cobiçado prêmio para a nossa pátria, sai fazendo uma volta olímpica pelas longas avenidas daqui. Alguns carros buzinam, num sinal de agradecimento pelo título. Assim é a vida do homem que toda noite vence uma copa do mundo para o Brasil. A primeira. Sempre a primeira.
Mas gostaria de escrever sobre uma ceia de mendigos, tipo à de Bunnuel. Via na minha frente o que o cineasta espanhol filmou. Os pedintes não sentaram à mesa e formaram o desenho da Santa Ceia. Estavam ao lado de um ponto de ônibus, cada qual com o seu jantar. Um com um milho, outro com um sanduíche. Tinha até uma sopa num depósito de plástico. E estavam rindo, alegres e festivos. Carros passavam à centímetros das suas faces que mastigavam, mas isso nem de longe consistia em algo problemático.
Brincavam com a vida, ou até mesmo, brincavam de viver. Não ouvi nada do que falavam porque estava longe e passei muito pouco tempo naquele estacionamento. Na verdade, presenciava a folga dos mendigos. Deviam contar seus casos, ou vantagens, ou que quer que seja. Mas naquela hora, naquela exata hora, o mendigo era eu. Olhava-os como se pedisse um pouco daquela euforia. Fui um pedinte dos mendigos eufóricos.
Chega a hora de partir. Antes de ficar ao lado deles, recebo de forma involuntária a minha esmola. A única mulher que estava entre os quatro homens olha para trás. Até então só via seu cabelo amarelo. Ela olhou para trás, sorrindo, de alguma piada que o único homem que estava de pé e que gesticulava compulsivamente contou.
Ofuscou-me o brilho infinito que saia do seu sorriso. Dois segundos registraram a alegria dela para sempre na memória. Vazava luz por sua boca. Escapava alegria por onde antes eram dentes.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 10:43 PM


Comments: Quarta-feira, Maio 11, 2005

Hay Dias

"Hay dias que no se lo que me passa...". Vinícius de Moraes homenageou Pablo Neruda na canção Cotidiano nº2 com esse verso de um tango. Para Vinícius, tratava-se de mais um trecho de um dos poemas do amigo chileno. Os versos não eram de Neruda, mas ele mesmo assim aceitou a homenagem do poetinha que também não modificou a letra da canção. Quem fala muito sobre esse episódio é o extraordinário Toquinho. Em quase todas as suas apresentações, Toquinho relata o momento em que ele e Vinícius foram mostrar essa música para Pablo Neruda. Tocaram-na e após finalizá-la, Neruda disse: "A canção é belíssima, mas não entendi a homenagem.". Vinícius, indignado, rebate: "Mas como não? É um trecho de um dos seus poemas mais famosos!". A discussão começa, até que Neruda chama a esposa e confessa que não recorda dos seus versos. A esposa é que saberá se aquele verso é seu ou não. Questionada, ela afirma que aquele é o trecho de um tango muito famoso. Vinícius e Toquinho, sem jeito, tentam remediar a situação. Mas Neruda, elegante e amigo, lhes diz: "Não tem importância. A homenagem está feita! Se eu não escrevi esse verso, gostaria muito de tê-lo escrito.". E a vida seguiu.
Toda essa introdução foi para constatar, com muita tristeza, o fim de mais um blog de grande valor. Estranho fenômeno esse dos blogs que morrem. Ou melhor, que são assassinados. Essa ferramenta é o caminho de expressão desses nossos dias. E, como dizia Marcelo Tas: "Não se pode desprezar qualquer canal de comunicação.".
Sinceramente fico triste quando vejo blogs mortos. E fiquei ainda mais triste quando a minha namorada, Micarla, resolveu acabar com o blog dela, o Hay Dias. Não porque se trata da minha namorada, mas porque extraia de lá conhecimentos, análises e poesia. É um privilégio namorar uma ensaísta. E confesso que a melhor análise de um filme japonês, chamado Dolls, que li foi escrita por ela. Ela fez uma análise em versos. Uniu Camões com a obra de Kitano. Além, é claro, de um primoroso conhecimento da língua portuguesa.
Raros são os blogs que nos acrescentam algo. E diria até que quem extermina um blog útil deve pagar um preço. Não pode simplesmente apagar um espaço de beleza sem sair impunemente. Portanto, minha namorada tem que pagar pelo ato cruel e hediondo.
Tenho sinceras esperanças de que ela reative o Hay Dias. E como tenho... Mas, se por alguma infelicidade nossa, ela resolver deixar o seu blog no cemitério virtual, e não usar os seus poderes de vida e de morte em relação ao grande espaço de ensaios literários e cinematográficos que ela construiu, essas palavras ficarão como uma derradeira homenagem ao Hay Dias.
Rogo que ela traga riqueza à grande rede de computadores interligados. Pois, Hay Dias que não leio ensaios valorosos, sensíveis e profundos como os dela. Hay Dias que não me encanto com as análises de Micarla.

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postado por: RODOLFO TORRES 2:33 PM


Comments: Terça-feira, Maio 10, 2005

Recalque

Estou decepcionado com uma atitude minha. Sim, estou desapontado para com o meu procedimento diante de uma controvérsia. Na bem da verdade, nunca suportei os indivíduos defensores de qualquer governo. Sempre o governo está aquém de suas possibilidades. Principalmente o brasileiro. Para mim, qualquer população e qualquer imprensa têm por obrigação ser contrária ao governo vigente.
E não é que me flagrei discutindo com um defensor da política externa do governo atual. Mas aí existe um atenuante: a política externa do governo Lula é o que o redime. Mas existe um contratempo. Sim, existe uma adversidade: a Argentina. Como é possível que nós, brasileiros, deixemos que esses platinos interfiram na nossa escala rumo à onipotência futura. Sim, o Brasil será a nação em formato de coração que ensinará ao planeta como se deve viver. Se o mundo é capaz de imitar os EUA, resistirá a qualquer outra intervenção. Quanto mais à intervenção agradabilíssima do Brasil.
O fato é que alguém defendeu o corpo mole do governo brasileiro em relação aos argentinos. Existe uma solução bastante simples: abram as comportas de Itaipu. Deixem os argentinos boiarem em águas brasileiras, e que aprendam a respeitar uma nação mais forte. Mas essa não é uma lição aos atrevidos que falam espanhol. Isso é um aviso aos imprestáveis que falam o português, e que deixam esses estúpidos portenhos se elevarem à nossa nação. Ora, se somos capazes de enfrentar os EUA e a comunidade européia em questões delicadas, porque não obstruiremos a fala dessa reles nação que se chama Argentina. Porém, tenho pretensões humanistas e mais elevadas. Não pregarei o ódio aos nossos vizinhos.
Serei obrigado a reconhecer a beleza das argentinas e a sua excelência na produção de vinhos. Mas aí vai um recado direto ao Itamaraty: Deixem de ser frouxos em relação a esses argentinos. Somos mais ricos, mais numerosos, mais influentes e pentacampeões de futebol. Não me façam desistir de uma carreira antes de iniciá-la. Se enfrentamos de fronte erguida os EUA e a União Européia, o que é a Argentina nessa relação entre nações?

PS: Não passei no exame de admissão à carreira diplomática do Itamaraty. Isso pode ser considerado um desabafo. Ou um conselho...

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postado por: RODOLFO TORRES 10:27 PM


Comments: Segunda-feira, Maio 09, 2005

Traço do arquiteto

Saio incorporando frases feitas pelos outros ao meu vocabulário diário com a mais cínica naturalidade. Quantas e quantas vezes eu fiz isso. E para muita gente, aquelas frases de efeito que digo são de minha autoria. Exemplo foi uma bem singela. Estava não sei onde e não lembro quem disse uma singularidade do tipo: "Prefiro três dias de tortura chinesa à uma hora de música eletrônica". Bem, aí estava uma verdade universal e inapelável. Busco me convencer do contrário, mas não consigo. Música eletrônica é lixo!
Se em que geralmente dou os meus retoques, para ter a minha participação nesses ditos eternos. Resolvi então fazer uma indagação ao meu amigo Cabelo. Questionei-lhe: "O que você prefere: Tortura chinesa, música eletrônica ou um CD na íntegra do Djavan?". Ele pensou, e só me disse que a escolha era muito difícil.
É claro que as três são modalidades distintas e cruéis de maltratar almas. Mas o fato é que lembrei hoje de Djavan quando olhava para o céu de Brasília. A vida tem os seus mistérios mais indecifráveis, mas creio que esse eu consegui desvendar juntando uns três pensamentos e fazendo umas sinapses preguiçosas. Para quem não conhece, o céu de Brasília é simplesmente um espetáculo. Nunca vi um céu dessa beleza e desse tamanho. Nas outras cidades, o céu é sempre um complemento secundário da paisagem. Aqui, a paisagem é o céu. A terra é apenas o que não é céu.
Num fim de tarde desses qualquer, olhei para o poente e até disse que se Van Gogh estivesse aqui, ele certamente iria ficar desconcertado com o amarelo obsceno dessa paisagem.
Mas ia dizendo que juntei algumas idéias para desvendar o misterioso céu daqui. Bem, pelo que me conste, isso aqui é um planalto. Ou seja, é plano e alto. Se é alto, está mais perto do céu. Se é plano, o céu é mais visível e contínuo do que em locais com depressões.
E as nuvens, então, são outro espetáculo daqui. Não raramente elas formam um corredor felpudo para a luz que chega até o solo. Algumas nuvens tem mais de uma cor, de tão grandes. São vermelhas numa ponta e alvas na outra.
Não me admiro que Djavan tenha ficado boquiaberto com esse céu. Segundo o cantor, esse céu também é projetado numa prancheta de arquiteto. Também faz parte do traço de Niemeyer.

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postado por: RODOLFO TORRES 3:32 PM


Comments: Bola de basquete

Depois de três dias consecutivos perguntando ao porteiro se chegara alguma encomenda, Rubens, enfim, ouviu o que queria:
- Chegou uma caixa hoje, sim! É só assinar aqui.
Naquele dia, subiu pelas escadas; não queria esperar pelo elevador. Além do que, mora apenas no segundo andar e mal completara trinta anos. Sua mulher estava em casa e ao ver o embrulho, perguntou:
- Quié isso?
- Uma bola.
- Bola, pelo correio!?
- É, comprei na Internet. É mais barato que na loja.
- Bola de quê?
- Basquete.
- Nessa caixa pequena?
- Ela vem vazia, precisa encher. É da Spalding, igual às que usam na NBA.
- O que é NBA?
Rubens não se dignou a responder. Olhava fixamente para aquele objeto laranja, ainda disforme. Em breve, aquilo seria uma senhora bola, daquelas que só um galalau consegue segurar com apenas uma das mãos. Do alto de seus honestos um metro e setenta e seis centímetros e meio (fazia questão do meio), Rubens a seguraria com as duas mãos, mas não se importava.
No clube, todos o invejariam, chegando com a bola nova. Para causar mais impacto, arrumaria também uma munhequeira branca, para limpar o suor da testa.
Finalmente, chegou o sábado.
- Nanda, tô indo pro clube.
- Hum!? - olhou para o rádio-relógio, que marcava 9:10h.
- Clube, ó! - exibiu a bola embaixo do braço.
- Tá bom. - fez um muxoxo e virou na cama.
Nada tiraria o bom humor de Rubens naquele dia. Sem pestanejar, deu de ombros e desceu para a garagem. Em dez minutos, chegou ao clube. Na quadra, algumas crianças brincavam numa das tabelas. A outra estava vazia.
Após um breve alongamento, arremessou de vários pontos do garrafão e também da zona morta e da linha de três, sua antiga especialidade. Notou que a pontaria não era mais a mesma. Simulou lances livres e pequenos "jumps" contra adversários imaginários. Arriscou algumas bandejas.
Antigamente, pegando uma boa impulsão, conseguia encostar a ponta dos dedos no aro. Era um ritual fazer isso toda vez que entrava na quadra. Tentou uma vez: ficou longe do aro. Na segunda tentativa, sentiu uma leve fisgada na coxa e desistiu.
Depois de quinze minutos, enjoou de arremessar. Parou e ficou olhando para o outro lado, onde agora quatro meninos jogavam. Eles corriam, pulavam e, às vezes, interrompiam o jogo para discutir alguma jogada. Compensavam a pouca técnica com muita energia.
Rubens lembrou-se de quando tinha 15 anos. Não perdia um jogo do Chicago Bulls. Quando não podia assistir, gravava em VHS e assistia no dia seguinte. Tinha uma coleção de fitas. No clube, jogava todo fim-de-semana. Sábado à tarde era o horário nobre: quadra concorrida. Time perdedor esperava meia hora para voltar. Na arquibancada, algumas meninas olhavam, entre risinhos. O aro ficava a 2,75m de altura e assim conseguia fazer enterradas. Até de costas aquilo era bom! Depois do jogo, combinava com os amigos a saída da noite.
Voltou para casa, com a roupa quase limpa, sem cheiro de suor.
Tomou um banho e voltou para cama. A mulher ainda dormia. Caiu no sono. Sonhou que jogava basquete na lua. As jogadas eram surreais. Toda vez que a bola, após fazer uma parábola exagerada, dava aro, Rubens pulava mais alto que todo mundo e dava um tapinha certeiro: dois pontos mais...

Luís Gustavo Ferreira

postado por: RODOLFO TORRES 1:41 PM


Comments: A hora certa

Sala de reuniões de grande empresa, mais especificamente uma empresa de serviços essenciais do nosso estado. Momento tenso, decisivo por que não dizer desta forma. Com certeza os homens que detêm o poder de decisão estão presentes. O subordinado imediato, que teve a infeliz tarefa de anunciar o problema, anuncia: - Precisamos fazer um serviço na BR. Um dos chefes, aquele mais neurótico já sentencia: - Aonde exatamente?
Com receio da agressão, o subordinado tenta amenizar: - Ah ... logo ali, quase em frente ao Shopping, um trecho tranquilo!
O único sensato que detêm o poder de decisão entra em pré-pânico, e já despeja todos os seus argumentos: - Mas como? ... ali de novo! Já foi feito serviço há pouco mais de um mês. E você chama aquilo de "trecho tranquilo".
Sob o perplexo olhar dos colegas, e quase às lágrimas, ele conta até dez e, já em tom resignado, sentencia: - Tudo bem, se tem que ser, será feito. E qual o plano?
Antes da pronúncia da primeira palavra do subordinado, aquele chefe neurótico pronuncia em tom solene: - Como quando? ... agora mesmo, se vamos fazer, vamos fazer logo!
Vê-se nitidamente o olhar de desespero do subordinado, sabendo o que estaria por vir, resolve sugerir: - Senhor, não seria melhor ...
Subitamente interrompido pelo chefe choroso, cala-se: - Lógico que é melhor, vamos fazer este serviço à noite, por exemplo. Não podemos fechar a rua agora, às 10h da manhã em plena segunda-feira de trabalho.
O pânico que quase já se desfizera do rosto do subordinado retorna de forma voraz ao ouvir as palavras do neurótico: - Caro amigo, lembre-se do que nós combinamos ...
Estas suaves mas duras palavras foram as últimas que se pronunciaram naquela sala. Como em outras instituições, lá também se seguia uma máxima na qual sempre haverá aquele que manda, e muito provavelmente sempre haverá alguém que manda mais que você. O choroso resignou-se e se lamentou a relembrar algo que o fizera emudecer naquele momento. O combinado é o combinado.
Por motivos óbvios, os nomes dos envolvidos foram preservados, e a real combinação não poderá ser revelada, pois não existe limite de idade para se acessar a nossa página na internet.
Dali em diante o serviço teve seu súbito início. Fechada a rua e iniciada a lentidão no trânsito, estaria quase tudo perfeito para o completo caos no trânsito. Foi nesta hora, já nos corredores, que o neurótico lembra da última e principal ordem, pois sem ela nenhum caos estará realmente estabelecido. Sentenciou em tom triunfante para o subordinado: - E não esqueça de avisar aos guardas de trânsito!
Do aditor
GustavoGT
Natal (em pleno engarrafamento) 09/05/05


postado por: RODOLFO TORRES 11:19 AM


Comments: Sexta-feira, Maio 06, 2005

Palavras úmidas

Tentava lembrar qual foi o primeiro livro que tinha chamado a minha atenção para o verbo ler. O primeiro livro inesquecível. Escavei os mais profundos poços da memória e cheguei ao livro, mas não sei precisar o ano. Talvez 1991. Talvez. Devia estar na sexta série do primeiro grau, e a professorinha indicou aquele livro para a moleca ler. Mas como seria possível sobreviver a uma leitura de mais de cem páginas? Com tanta coisa a ser feita, cem páginas tinham a dimensão do infinito para qualquer garoto que prefere o jogo de bola, a televisão e a bicicleta.
Através de uma professora de português entrei em contato com "Vidas Secas", de Graciliano Ramos. Anos mais tarde, comprei um livro de Albert Camus, A Peste, traduzido pelo mesmo Graciliano. Havia encontrado o autor responsável pelo meu prazer da leitura. E como seria possível agradecer, homenagear esse escritor fantástico. A melhor maneira deve ser lê-lo. Com uma breve olhada em seu sítio oficial na grande rede, logo de cara encontro uma declaração do escritor numa entrevista realizada em 1948.
Mas antes mesmo de copiar o que Graciliano disse, devo aqui transcrever uma frase que achei num dicionário de citações. Aliás, são várias frases que copiei sobre o ofício de escritor. Uma delas é que a profissão de escritor merece a piedade das demais pessoas. A outra é que a escrita encomendada deforma o talento. E por aí encontramos diversas citações sobre essa atividade, encarada por Kafka não como um dom dos céus, mas como uma ordem do inferno.
A que mais me encheu os olhos de luz foi uma que trata da relação do escritor com a cultura e a inteligência. Não vou colocar aspas porque esqueci o papel, no qual as frases estavam escritas, na casa dos meus pais. Mas dizia algo como: inteligência e cultura não são elementos indispensáveis ao grande escritor; mas são indispensáveis aos escritores menores.
Graciliano tinha uma exorbitante inteligência e uma extraordinária cultura. Como não acredito em critérios comparativos para as artes, foi gigante na literatura como tantos outros. Sem ser o campeão, ou algo que exija uma classificação. Foi genial como tantos. E, do alto da sua sapiência de escritor essencial à nação, declarou: "Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever deveria fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer.".

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 6:09 PM


Comments: Quinta-feira, Maio 05, 2005

O cortejo da demência

Quanta serenidade consegui ao me livrar do trânsito de Natal! Para quem não conhece o sistema de lá, adotaram a mão inglesa: ultrapassagem, só pela direita. Quantos acessos de fúria tive ao guiar pelas avenidas, tendo a duas faixas à minha frente ocupadas por carros à mesma velocidade. Ao passar pelo veículo infrator, olhava para a cara do motorista. Geralmente eram senhoras, guiando um automóvel possante em míseros 40 quilômetros por hora.
Mas intitulei o trânsito de lá. Chama-o carinhosamente de "O cortejo da demência", pois quem quiser andar numa velocidade razoável, por exemplo, sessenta quilômetros por hora, é impedido. Vejam só isso. A demência dos motoristas natalenses é tanta que um dia, numa avenida extremamente movimentada, fui ultrapassado por uma carroça. Tudo parado. Achei que algum acidente tinha ocorrido, pois caso contrário não haveria justificativa para tamanha lerdeza. Fui seguindo e não existia nada, absolutamente nada.
Daí olhei para o cavalo quando ultrapassava o ágio veículo para as ruas de Natal e pensei comigo mesmo: seus colegas de quatro patas estão a guiar automóveis.
Sem exagero, Natal é uma cidade que merece a insurreição dos quadrúpedes. Mas ao ler essa última frase, noto que ela é muito abrangente. Quadrúpedes há em todos os setores da vida e da além-vida. Mas como falo do trânsito, vou me deter à insurreição eqüina e dos demais puxadores de carroças para um propósito específico. Em Natal, os com quatro patas habilitados à direção prestariam um maior serviço à comunidade se simplesmente fossem pastar nos canteiros da cidade. Seria lindo de ver aquele rebanho de motoristas natalenses capinando, de boca verde, o mato que escorre para o asfalto.
Eles seriam bem tratados, sem dúvida nenhuma. A princípio, seriam cadastrados em algum órgão público, também composto por quadrúpedes. E assim, unidos pelo número de patas, a administração pública em todas as esferas e os cidadãos seriam livres para viver uma vida de fartura.
Pena é que esse texto deve por excelência não se estender muito. Mas fico pensando nos cavalos que puxam aquelas pesadas carroças, cheias de entulhos. Dói no coração quando o pobre animal tem que subir uma ladeira íngreme levando chicotadas no lombo e puxando um peso absurdo, debaixo daquele sol explosivo. Mas o motorista natalense não é nada coorporativista. Deixa um ente passar por toda espécie de sofrimento sem ao menos oferecer-lhe uma mínima indignação.
E tenho para mim que o trânsito de natal só será algo de tolerável quando os quadrúpedes entrarem num consenso. Ou guiam automóveis, ou puxam carroças. Os dois, é impraticável. Caso optem pela tecnologia dos veículos motorizados de última geração, resta aos seres humanos de Natal usar suas bicicletas. Que a insurreição eqüina natalense venha em breve. E que não sejam lerdos para tal, ao menos nisso.

confrariadoscrônicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 3:45 PM


Comments: Quarta-feira, Maio 04, 2005

Erro Fatal

Não sei ao certo, mas há cerca de quinze anos me deparei com um objeto estranho no escritório da casa de meus pais: um computador. Até então só tivera contato com esta máquina no colégio, onde fizera um curso, dois anos antes. Curso de D-Basic e Carta Certa. Na época "windows" se resumia a um livro de mil páginas, que alguns professores de computação psicopatas carregavam debaixo do braço. Nenhum computador comum tinha a tal janela. Estes cursos, do M-DOS, erram uma aberração para os dias atuais. Só como exemplo, o editor de texto, carta certa, era impraticável. Os teclados e os computadores em si não sabiam o que era um acento. Para um simples acento agudo ou til que se quisesse digitar, eram necessário três ou quatro tecladas: CTRL, ATL e lá vai fumaça. Circunflexo nem lembro como se fazia.
Mas ao me deparar com tal máquina, agora nossa, me animei e liguei o computador, esperando que funcionasse o tal do DOS. Minha surpresa. O nosso computador tinha "windows". Já tivera oportunidade de mexer nele, mas só de relance. Agora não, nós tínhamos. Era a prova que os psicopatas de outrora estavam certos. O "windows" já era uma realidade. Como pouco sabia nanusear, me limitei a coisas banais, como descobrir quais os jogos do computador. Em certo momento a surpresa. Uma tela branca aparece no centro da tela. Do nada, simplesmente surge e já me intimida. Contrasta com a serenidade do restante da tela. Refeito do susto, resolvo ler o conteúdo de tal objeto intruso.
Para meu desespero o título já era apavorante: Erro Fatal. Logo após a explicação. Eu tinha violado o arquivo WEFJKSDLK. LGK (se não era exatamente este o nome, era muito parecido). O terror e a sensação de desmaio iminente me impediram de ler o resto da carta bomba. Mas como? Logo eu, que nem sabia mexer naquilo, só tentava clicar no jogo de paciência! Tinha destruído o computador, tão caro. Seria trucidado em pequenos pedaços.
Susto e pânico, não necessariamente nesta ordem. De forma atroz e sanguinária, eu violara o mais recôndito arquivo de todo o computador. Invadira um território não permitido aos pobres mortais. Poucos meliantes em toda a história teriam sido tão nefastos.
O que fazer? A vontade imediata foi correr antes que o computador explodisse, ou que a interpol chegasse e me levasse preso condenado ao inferno direto, sem escalas em penitenciárias.
No auge do desespero, fiz algo impensado: desliguei o computador. Nada na face da terra (ou quase nada) me faria ligar novamente o computador. Quando outro tentasse em vão ligá-lo, e não conseguisse (na minha opinião), já teria a desculpa perfeita: - Nem nisso eu sei mexer! Era provável que a próxima mensagem na tela fosse ainda mais ameaçadora.
Para minha surpresa, quando o computador foi ligado (não lembro por quem), tudo transcorrera normalmente. Nada aconteceu. Que estranho. Mal sabia eu que descobria, naquele momento, o mais sensacional recurso da computação de todos os tempos. O "reset". Apesar de não ter propriamente reiniciado o computador, foram estas observações preliminares que sedimentaram o seu até hoje tão difundido uso.
Do aditor
GustavoGT
Natal 04/05/05

postado por: RODOLFO TORRES 8:12 PM


Comments: Bananas & Bananeiras, Repúblicas & Republiquetas

E se a geografia da América do Sul fosse irresponsável como as suas elites e de uma hora para outra resolvesse que aquela posição de uma "América menor" estava incômoda, e "plantasse bananeira"? Um continente plantando bananeira, não no sentido denotativo, mas no lírico. Não sei se é pela nossa capacidade de exportação desse produto, mas é fato que somos conhecidos como o continente das Repúblicas das bananas. Provavelmente é um trocadilho malicioso entre o nosso produto de exportação e as atitudes governamentais de cá. Deve ser isso...
Falo isso porque pensei na posição geográfica do RN. Se a América do Sul resolvesse plantar bananeira, iríamos, o Rio Grande do Norte, aos Andes. Sim, teríamos neve, bons vinhos e aqueles bichinhos que parecem um camelo, só que menores e um pouco mais simpáticos. Trocaríamos de lugar com o Chile. A via costeira seria a nossa cordilheira e teríamos o poente no mar. Cascudo seria o nosso Neruda e a grande maioria dos turistas estrangeiros que nos visitassem, teriam a curiosidade dos enólogos, e não a dos pedófilos.
Continuaríamos sem fazer fronteira com nenhum outro país, mas dessa vez seríamos o Estado mais ao sudoeste em termos de mapa. E não o mais nordestino em geografia, e o menos em costumes a apego. Os ares que vêm do Atlântico provenientes da Europa e África não encontrariam em nós os seus primeiros respiradores. Seríamos os últimos a respirar ares ancestrais do atlântico e os primeiros a sentir a brisa gelada do pacífico sul. Se não me engano o Amapá seria a nossa patagônia. O Piauí, a terra do fogo (ô sina...). E Fernando de Noronha nunca deixará de ser as Malvinas dos potiguares, quer a América do Sul esteja plantando bananeiras ou não.
Do lado deles, as geleiras derreteriam em muito pouco tempo. Nosso sol é competente na arte de queimar. Os novos habitantes de um nordeste hispânico tratariam de se desfazer de várias peças de roupa, e cairiam no mar salgado, com uma luz que cega, mas que não deixa a tristeza à vontade. A linha do equador cortaria a Argentina, que teria os seus sertões irremediáveis. O Chile só seria formado por praias, montanhas e sal. O Uruguai seria parte da floresta amazônica, e o Paraguai, a Bahia. A maresia iria se entranhar nas ruínas das cidades astecas (ou será incas? Ou maias?) do Peru.
Dançaríamos forró no gelo para espantar o frio, à beira do Pacífico, no pôr-do-sol, a beber o nosso vinho... E teríamos uma saudade inexplicável do calor sufocante, da pouca roupa, e do ar de desprezo que entra em nosso continente pela nossa casa, vindo dos países mais ricos e mais pobres desse planeta.
A América do Sul continuará plantando bananas. Exportando-as. Matando de fome os seus. Mas quando a América do Sul plantar bananeira, o atual sul da Argentina fará fronteira com o México.
Gosto do México. País simpático. Não desejaria isso a esse país que já faz fronteira com os Estados Unidos. EUA ao norte e Argentina ao sul. Eis uma república de mártires. Um país de santos.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 3:21 PM


Comments: Terça-feira, Maio 03, 2005

No sovaco de Brasília

Descobri ontem mesmo que não estou em Brasília. Por mais inverídica que possa parecer essa declaração, ela corresponde à verdade. Estou em uma cidade satélite de Brasília, que fica a cinco minutos de carro do centro da capital federal. Só entendi isso quando conversava num restaurante com um gaúcho e um primo. Ao lado, três homens engravatados discutiam algo. E de repente, o mais velho pegou o telefone celular, discou para algum número e explodiu em ira. São os ares dessa cidade. Quem coloca um terno por aqui adquire a dimensão de uma figura indispensável aos rumos da nação. E o senhor, careca e com a cara fechada, dava gritos que quase me fazem pedir desculpas por minha existência.
Mas escrevo para um ou outro que, em sua gritante e esmagadora maioria, não se encontra no cerrado. Vou tentar explicar Brasília, pelo pouco que sei dela. Essa cidade, como todos sabem, foi projetada. E tem o desenho de um avião. Com direito às asinhas e tudo mais. São dois grandes eixos: o monumental e o eixão. Eles, juntos, formam um desenho de avião. E quem está fora desse desenho não é Brasília. Mesmo que o indivíduo more na pontinha de uma das asas, ele está em Brasília. O meu caso não é esse. Não peguei nenhum mapa, mas pelo meu senso de orientação, creio que estou no sovaco de uma das asas. Ou seja, não é Brasília.
Se eu sair andando a pé, em 10 minutos estarei no memorial JK, que é Brasília. Disseram-me também que aqui não existe prefeito. O que ocorre aqui é a figura do administrador. Sem voto popular. É indicado por alguma figura mítica que foge ao meu entendimento.
Estou numa cidade que se chama Sudoeste. Antes, chamava-se Cruzeiro. Mas os moradores não apreciavam esse nome, também não sei por que motivos, e resolveram trocá-lo para Sudoeste/Octagonal. Então, resido entre Brasília e Cruzeiro.
Haverá, quem sabe, um plebiscito para trocar o nome do Sudoeste. Três sugestões estão disputando a final. Eu prefiro "Cidade Jardins". Mas já disseram que eu não poderia votar. E parece que já existe outra cidade satélite com esse nome.
Porém o que mais me fascina nessa história confusa, que beira o irreal, é a futilidade dessa arenga toda. Passei anos negando para mim mesmo uma realidade: a futilidade é que torna a vida possível. Sem momentos fúteis, vegetamos, simplesmente vegetamos num cotidiano prático e hostil.
Quando digo que a história beira o irreal, não estou exagerando. Por mais que se troque o nome dessa cidade satélite, por mais que mexam e remexam nessa questão terminológica e terminal daqui, se por acaso alguém quiser me enviar algo pelo correio, pode colocar como destino a cidade de Brasília e o CEP correto que a correspondência chegará sem nenhum problema.

confrariadoscronicos@yahoo.com.br

postado por: RODOLFO TORRES 5:22 PM


Comments: Segunda-feira, Maio 02, 2005

Quem nunca viu a morte lá de cima?

Algumas dúvidas me perseguem incansavelmente. Sou um portador de incertezas nato, daqueles que têm na sua ignorância uma espécie de registro geral, uma identidade. Mas uma dúvida minha morreu nesse último sábado. E se ela não tivesse morrido, o defunto seria eu mesmo. Ainda tinha minhas dúvidas em relação a um medo... Falo da fobia de altura que adquiri há alguns anos. Sim, falo do extremo pânico de viajar de avião. Belchior é que foi feliz. Por causa do seu medo de avião, ele segurou a mão de uma bela mulher. Ora, quando aquele colosso de metal subiu aos céus sem muita vontade, dando a impressão de que a gravidade dessa vez iria triunfar sobre a teimosia humana, fechei subitamente a janela. O homem que estava ao meu lado, e que acompanhava a visão das casas minúsculas lá embaixo, olhou-me com um desprezo profundo. Tive vontade de pedir-lhe: "Diga que não vamos todos morrer agora".
Estava sentado ao lado do motor do avião. Da minha janela não era possível nem ver a asa. E aquele barulho de carro velho me perseguiu por duas horas e meia. Alguns instantes o motor parecia indestrutível, insuperável. Em alguns outros intervalos ele parava e o avião simplesmente voava na bangela. O avião planava a uma altura de onze mil pés.
Olhava para as comissárias de bordo. Tão lindas, tão despreocupadas. Parecem desconsiderar a insalubre atividade que exercem. Olhei para trás e dezenas de pessoas dormiam, como se as suas vidas não estivessem quase no fim. O próprio homem ao meu lado dormiu. Roncou. Vejam só, enquanto uns passam momentos de angústia exponencial, outros dormem por puro tédio.
Peço cerveja para não deixar que o medo me tome por completo, e me faça levantar e gritar: "Vamos todos morrer!". O homem ao meu lado olha de canto de olho para minha mão trêmula ao segurar o copo de plástico com a bebida que trará alguma melhora. Nessas horas, a irresponsabilidade trazida pelo álcool é o meu escape. Já na segunda latinha de cerveja, tenho outra visão da viagem. Já começo a procurar os anjos na parte de cima das nuvens.
Aquela consistência de algodão doce não pode provocar turbulências num monstro de metal. De repente o sinal de apertar os cintos é acionado. Passaremos por uma área de instabilidade. Até a música que ouvíamos é desligada. Mesmo ligeiramente ébrio tenho uma certeza. Era mentira do comandante. Não era turbulência nenhuma. Era a confirmação de um sonho que tive há duas semanas. O avião iria cair. Pergunto para mim mesmo: "Por que você ainda viaja nisso?". Naquele instante, quando tudo estava perdido, não tive vontade de chorar. Apenas tirei meu cinto, pois queria que o meu corpo vagasse vadio por entre as chamas e as partes incendiárias do avião. Não faria nenhuma posição indicada pelas aeromoças.
A turbulência passa, o comandante avisa que iremos descer em Brasília e avisa à tripulação que o pouso está autorizado. Saio da aeronave e olho o rosto maquiado e aliviado das belas comissárias, que como qualquer um de nós, sente medo de sair do chão. O medo inconfesso dessas moças é traduzido no sorriso delas em cada desembarque. E nas gotinhas gordas de suor entre a boca e o nariz.

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postado por: RODOLFO TORRES 3:24 PM



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