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Confraria dos Crônicos
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De crônica, não basta a vida! Comments: Sábado, Abril 30, 2005 Roubado Fui roubado. Há poucas horas algum cretino quebrou o vidro do meu carro e levou o som. Apenas o som, tudo bem, deixou bolsa e os CD, mas levou o som. Em suma, fui roubado. Digo que fui roubado de maneira direta, porque me sinto roubado todos os dias. Sou um confesso revoltado a cada noticiário a que assisto. Me sinto furtado de minha dignidade a ver e ouvir os absurdos diários de desmandos e descasos oficiais a que somos submetidos. Me sinto um total assaltado a cada aumento mirabolante dos salários dos senhores do poder. Me sinto um furtado a cada aumento de por exemplo 15% nos salários dos funcionários do TCU. Me sinto um violentado a cada vez que me lembro que trabalho quatro meses por ano para pagar impostos, talvez aqui por que aqui me falte coragem para sonegar ou coisa parecida. Me sinto um revoltado em saber que pago um absurdo de impostos a cada produto que compro. Me sinto um imbecil impotente vendo a cada dia a minha dignidade e o meu suor de trabalho árduo se esvair aos cofres públicos, onde serão convertidos em propinas e serão parte essencial no conchavo diário do poder. Esses assaltos diários são indiretos, e ainda consigo dormir me convencendo que sou um neurótico ou coisa parecida. Me auto critico e pronto, vou deitar e dormir. Mas esse de hoje não. Cheguei ao carro e lá estava. Era algo direto e lancinante. Vi com meus próprios olhos algo meu ser levado de mim. A última vez que algo ocorreu parecido comigo tinha em torno de dez anos, quando um pivete me roubou uma corrente. Morei cinco anos em São Paulo e nada parecido ocorreu, para vir a ocorrer logo aqui, paciência tem limite. Desculpem a revolta e o desabafo, mas se já estava sem inspiração, pelo menos agora tenho uma desculpa pelos dias sem escrever nada: Estresse emocional agudo associado a perda material de objeto de estimado valor pessoal, sem o qual não suporto a sinal de quatro tempos que dá acesso ao Hospital Universitário. Do aditor GustavoGT Natal 30/04/05 postado por: RODOLFO TORRES 8:23 PM Comments: Curso de Italiano Saber inglês nos dias de hoje é quase uma obrigação. Aqueles que não estudam atualmente, já estudaram e julgam ser o suficiente para as obrigações profissionais ou para assistir Friends sem ler a legenda. Aliás, esse hábito de assistir a filmes e seriados legendados parece ser tipicamente brasileiro. Na Europa, o padrão é a dublagem. Ponto para os brasileiros. Dublagem é coisa para crianças e analfabetos. Além disso, o processo de distribuição dos filmes fica mais demorado. O cinema estrangeiro chega antes aqui. Dito isso, passemos à excentricidade: estudar italiano. Tudo começou numa conversa despretensiosa durante o almoço. Falei que gostaria de aprender italiano. Logo eu que durante anos fora pragmático, debochando da idéia de estudar outro idioma que não o inglês, além, é óbvio, da inculta e bela. Naquele almoço, percebi que essa vontade de parlare é bastante prevalente e rapidamente muitos adeptos surgiram. Os motivos eram os mais diversos. Eu gosto da sonoridade da língua, do jeito alegre e da facilidade dos fonemas (comparado com alemão, por exemplo). Há ainda a admiração pelo cinema italiano e uma idéia cada vez menos inconsciente de passar um tempo na bota, quem sabe estudando. Outros motivos alegados pela turma foram a ascendência italiana, viagem de turismo programada ou simplesmente passar o tempo fazendo algo diferente e lúdico. Passamos, então, à prática. Nada de metas definidas. O horário é ingrato ¿ das 13h às 14h. Com aulas sempre após o almoço, nosso sotaque não poderia ser mais que macarrônico. Optamos, num primeiro momento, por não contratar professor por motivos monetários: aluguel, condomínio, luz, telefone, curso (oficial) de inglês e a tosa do cão são taxas com mais apelo no momento. Sem professor, o aprendizado é lento e, às vezes, imperceptível. Por outro lado, como é de graça, ninguém se queixa. Na verdade, agora temos uma professoressa, a desavisada Wilma, funcionária do laboratório. Assim que soube que havia um grupo de estudo de italiano, ela se animou e há uma semana aderiu. No passado, ela freqüentou regularmente um curso de italiano por três anos. Além disso, tem origens italianas e desde nova, aprendeu mais do aquelas manjadas expressões de novela das oito. Na cabeça dela, seria mais uma aluna, com desejo de manter a fluência. Em poucos minutos, foi promovida à professora. No primeiro dia que foi, Wilma nos presenteou com o submundo das palavras italianas ¿ uma lista de parolacce (palavrões). É incrível o fascínio que esses jargões têm em alunos de língua estrangeira. Foi batata. A lição, se bem me lembro, de conjugação verbal, teve que ser abortada. Todos só queriam decorar a tal lista ¿ era vafanculo pra cá, finocchio pra lá e outros impropérios mais previsíveis, como putana e vacca. Num instante, todos quase gritavam ao mesmo tempo, exagerando na entonação. Tal qual italianos mafiosos, gesticulavam e tentavam dar um ar cênico à coisa. Fazendo um balanço desses dois primeiros meses, o saldo é positivo. É óbvio que ainda não dá para manter um diálogo. Uma vantagem imediata foi descobrir o significado preciso de uma série de palavras incrustadas no nosso cotidiano e que às vezes passam despercebidas, como o caldo-freddo (torta quente com sorvete, frio) do McDonalds, saber que pomodoro é tomate, libero é aquele jogador que não tem posição definida em campo, é livre para jogar onde quiser, e muitas outras. Aprendemos ainda uma palavra curinga, com seus múltiplos significados, potencialmente útil numa hora de aperto: na dúvida, diga prego! O intercolutor interpretará conforme o contexto e não perceberá o engodo. Numa semana em que o novo papa assumiu seu reinado, e na prática, a língua do italianíssimo Vaticano não poderia ser outra, o discurso inicial para o povo que se aglomerava na piazza San Pedro começou com as (agora) familiares palavras: fratelli i sorelle, irmãos e irmãs. Parece pouco, mas esse é apenas o começo de uma alegre jornada, è vero... Luis Gustavo G. Ferreira Brasilia/DF postado por: RODOLFO TORRES 8:05 PM Comments: Sexta-feira, Abril 29, 2005 Dicas ao contratante E eis que me surge uma idéia: escrever sobre política. Exclusivamente sobre política. Ter um espaço dedicado à crônicas políticas. Vou para Brasília mesmo e esse projeto futuro de um blog ficará como uma espécie de currículo permanentemente atualizado. Quando sair nas portas dos jornais e sucursais da capital federal, apenas digo o nome da página e o editor poderá conferir na tela do computador o meu texto. Mas antes algumas explicações se fazem necessárias. Direi ao contratante que não sei escrever textos jornalísticos. Apesar de ser formado em comunicação, com habilitação em jornalismo, não saberei seguir aquelas regras de texto que os jornais exigem. Minha primeira advertência ao contratante será: "Não sou um idiota da objetividade". Gosto de ser redundante, de escrever coisas desnecessárias. Gosto da cadência do texto. Sempre sou guiado por um ritmo muito particular que os meus dedos fazem no teclado. É uma melodia, na medida do possível, bastante agradável. Portanto, escrevo para ouvir a música que os meus dedos fabricam durante o ato da escrita. E quando escrevo nos moldes jornalísticos, não existe música. O texto jornalístico atual é uma espécie de Hip Hop para os meus ouvidos. Uma batida repetitiva, monótona, chata mesmo. Uma batida que não empolga, que não cativa. Chata é a palavra! Explicarei também ao contratante que sinto um profundo tédio da cobertura política atual, que aquela linguagem é para algumas seletas castas, mas a verdadeira sabedoria está no povão. Não precisamos de análises comedidas de especialistas em política dos livros. Isso é coisa para o interior da academia. Precisamos sim é falar com a grande e uniforme massa que compõem a maioria absoluta dos votos úteis. E desde quando o brasileiro nato aprecia qualquer coisa chata? O contratante ficará chocado com a minha argumentação, mas dirá que existem algumas regras para serem cumpridas, que o leitor já se identifica com aquele estilo de texto, etc. Mas prometerá que assim que souber de alguma coisa, entrará em contato. Deseja uma boa tarde e um até logo bastante sincero. Antes de sair, já imaginando o ar que vou respirar quando deixar aquela sala refrigerada, direi que não sirvo mesmo para o exercício de tal função. Sou tentado, por mim mesmo, a tentações sazonais em relação ao estilo dos textos que crio. Os sons do teclado no qual digito servem de guia dessa labuta diária que é escrever sem ter para quê. E sigo os sons. Sempre os sons. Quem sabe, e com bastante sorte, um rodapé de página interna de jornal, bem perto dos obituários, não me é cedida para solidificar o anti-aprendizado das técnicas atuais de texto nos periódicos? postado por: RODOLFO TORRES 4:58 PM Comments: Quinta-feira, Abril 28, 2005 texto No intervalo de uma ou outra agonia, naquele breve tempo em que a esperança possivelmente iria vencer alguma forma de cansaço, encontro consolo em obras cinematográficas italianas. Vejo Federico Fellini, um homem cansado da ausência do lúdico lutar bravamente e ainda em preto em branco transformar sua frustração numa obra de arte do cinema e da metalinguagem. Quero falar agora sobre a ausência de criação, a falta do que falar, a angústia do nada a dizer. Fellini, em seu filme 8 ½ , dirigiu a própria morte, e foi capaz de coordenar as pessoas que passaram por sua existência no momento derradeiro em que tudo se desfaz. Aquele instante triste do adeus. Aquele mesmo em que todos nos esquivamos para tentar passar melhor, mas não passamos melhor. Apenas e tão somente pior. Sempre pior. E foi nessa situação, nesse inevitável contexto em que Fellini dirigiu as mulheres que passaram na sua vida, na pela de um diretor de cinema cansado, desistimulado. Como ele as dirigiu, não saberei responder. Ele viveu no circo, nas artes e no cinema. Soube lidar com a interpretação de forma tranqüila. Ao passo que eu sou um produto triste de um mundo sem beleza. Nem sei ao menos se saberia dirigi-las num último momento. Como sempre fui conduzido por vontades femininas, apenas seguiria feliz ao túmulo e as desejaria mais do nunca, visto que aquela seria uma despedida ainda mais triste do que foi a passagem por esses solos de vida. Iria sorrindo ao túmulo, sendo conduzido por elas, mas sem ter a ilusão de que não estaria indo ao túmulo. Aí está a diferença. Nunca fui enganado por elas. Apenas me deixei levar, o que me faz um réu em maior grau perante a sapiência do pedir sem exigir; do mandar sem ordenar; do imperativo feminino em essência. Sou levado ao meu descanso em paz, e ainda mais em estado de graça por me ver finito, e não sucumbir aos encantos suaves de mulher por toda a eternidade. Vai tudo um dia acabar e eu voltarei a ser quem sou, sem o vício de um rosto delicado. Serei sozinho para ser puro e quieto, com carências próprias e duradouras. Serei eu só, sem a consciência da vivência delas. Para me tornar realmente como sou. Só. Numa esperança inútil de felicidade... postado por: RODOLFO TORRES 6:59 PM Comments: Quarta-feira, Abril 27, 2005 Violentos Bernardo Bertolucci gosta dos filmes de Quentin Tarantino. Na verdade, a imensa maioria das pessoas gosta dos filmes de Tarantino. Eu não. E não se trata de remar contra a maré, ser o diferente, o chato. Nada disso. Não gosto dos filmes de Tarantino porque visualizo de forma nítida um ridículo extremo nos filmes violentos. Os filmes violentos são, para mim, uma alegoria ordinária do ridículo. Tenho que o cinema só é algo mais do que a violência, ridícula, desses filmes de largas bilheterias. Há anos aluguei um filme alemão sobre violência. Chama-se "Violência Gratuita", mas tem um título em inglês um pouco diferente, Funny Games. Esse filme alemão é um dos melhores filmes que já vi, justamente por tratar a violência no cinema como ela deve ser tratada, como algo asqueroso, repulsivo, incômodo. E não tratá-la com essa glória toda. A violência não carrega nenhuma glória. Quanto mais a violência no cinema. Mas Tarantino acha que a violência foi feita para ser filmada, foi feita para o cinema. E, mercadologicamente, ele está certo! Violência Gratuita discute a relação da violência no cinema e ao mesmo tempo levanta a questão da cumplicidade do espectador para a brutalidade nas telas. Aquele sujeito que fica horrorizado diante de uma chacina, de um assassinato, de um tiro na sua rua, é o mesmo que assiste à exibição desses atos numa sala escura, comendo suas pipocas e tendo uma noite agradável. Que condições temos para recriminar a violência se a é mesma violência que atrai rebanhos gigantescos às salas de exibição. Fui ver ontem um filme japonês de um excelente diretor. Zatoichi, do diretor Takeshi Kitano é a história de espadachim cego no Japão do século 19 que mata como ninguém. Ele seria uma espécie de Tom Mix com a espada. Matava todos, facilmente. E com os olhos bem fechados. Já tinha visto outro filme desse mesmo diretor, chamado Dolls. E afirmo que Dolls é poesia. Pura, simples e profunda poesia. Quando cheguei à sala do cinema, um bando de adolescentes gritavam, faziam o maior barulho. Estava ficando insuportável a presença daqueles rapazes por lá. Inicia-se o filme e em menos de dois minutos de exibição a violência explode de forma brutal na tela. O espadachim mata dois homens de uma forma tão inesperada que a platéia cala-se. Até os adolescentes calaram-se diante das cenas de sangue na tela grande. Mas Zatoichi, filme sangrento, na verdade é uma sátira à violência nesses filmes de samurais. Kitano é um comediante no Japão. E ele introduziu cenas hilárias no mar de sangue e homicídios que é esse filme, justamente para dizer que aquele filme específico não era como os outros. Não banalizava a violência, ao contrário. Denunciava-a. Tornava-a ridícula. Como ela realmente é. De Tarantino, só vi um filme chamado "Um drinque no inferno". E fiquei nauseado, com o mal gosto de tudo, até do meu que estava vendo aquilo. Portanto, tenho duas desculpas para a violência no cinema. A primeira é a denúncia do espectador, de quem consome a violência, de quem vibra com a morte potencializada. A outra é que a violência é ridícula. Mas não é bem a violência que é ridícula. Ridículo é quem financia qualquer modalidade de violência. Seja nas ruas ou nas telas. Êta mundo ridículo. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 6:20 PM Comments: Terça-feira, Abril 26, 2005 Ir Outro dia a atriz e diretora de cinema Carla Camurati falava, surpreendida e feliz, das coincidências da vida. Como a vida é cheia delas, Carla especificou. Restringiu seu espanto ao que o mundo nos mostra diariamente. Os sinais do mundo. Ela acredita que o mundo fala conosco, diariamente, através de sinais. A comunicação do mundo para conosco é feita de detalhes pequenos, sutis. Quem não for atento o suficiente não dialoga com a vida. A existência passará anos enviando sinais e o pobre portador de sua pequena quantidade tornará-se-a surdo. E cria-se o monólogo do existir. A vida mandando mensagens, o homem não entendendo. O resto é bastante perceptível. Carla Camurati dizia abismada: "É impressionante! Todo assunto que pesquiso, toda vez que me dedico a algum tema, a vida se encarrega de mostrá-lo para mim. Ela nunca me abandonou nesse quesito". A responsável pela retomada do cinema nacional une-se a dois ícones das letras nacionais na crença da fala da vida. Paulo Coelho também acredita que o universo todo conspira a seu favor quando você quer algo. Nelson Rodrigues diz que Deus fala através das coincidências. Enquanto a mim, estou com eles. Eu, Carla, Nelson e Paulo acreditamos nos sinais da vida. Hoje mesmo tive uma daquelas sensações boas, parecida com a que temos quando encontramos uma fotografia esquecida. Vemos nosso rosto mais sereno e nossos olhos com um brilho incomum à atualidade. Encontrei um papel amassado, empoeirado, sujo, no fundo de uma gaveta. Li o que estava escrito e achei bonito. E um pouco relacionado com o momento que vivo. Estou de partida para Brasília nesse sábado. E encontro uma tentativa de poema, um rabisco sem data, provavelmente escrito há dois anos, antes da minha partida para São Paulo. Li pela primeira vez o meu versinho miúdo. Olhei para a rua e a luz de início de manhã era muito bonita. Os matinhos que nascem entre os paralelepípedos estavam grandes e muito verdes. Um verde ideal de início de dia. Esses matinhos eram grandes sem chuva, e com carros a passar por cima deles durante todas as horas. Eram grandes e verdes. E belos. Olhei para eles com o meu grão de poesia na mão. E tive a certeza que a vida estava falando comigo naquela hora. Se há uma coisa que gosto é de mato que nasce entre as pedras das ruas e calçadas. E a vida sabe disso. Fê-los imensos naquele instante para mim. E reli o papel amarelado. Para constar em algo, sei lá, transcreverei essas palavras. Palavras do jovem Rodolfo que dizem alguma coisa para o mesmo ainda hoje. Ir Deixe-me acreditar que não vou agora Isso sustenta-me e adia o que por vir está Deixe-me pensar que a separação é contornável E que a melhora é segura confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 5:14 PM Comments: Segunda-feira, Abril 25, 2005 O natalense que procura uma fé Estamos sendo bombardeados há uma semana com noticiais, fotografias, dados biográficos, etc., do novo papa. Até aí tudo normalíssimo. Mesmo porque não é toda semana que um líder da igreja católica morre, após um pontificado de quase três décadas, tendo outro assumido o seu lugar. Diria até que eu sei pouco sobre o novo papa. Com a capacidade de comunicação que dispomos hoje, diria que sei muito pouco, quase nada a respeito de Bento XVI. Acabo de me recordar de uma conversa com um primo. Ele em Brasília, eu em Natal. Conversávamos em tempo real, nos vendo pela tela do computador. Se bem que eu tinha um eco que me atrapalhava todo. Mas tirando isso, um primor, uma maravilha da tecnologia contemporânea. Disse-lhe, numa certa hora, que ficava encabulado com tanta tecnologia. E de repente saiu uma idéia que provavelmente não é original. Mas saiu, e de mim. Se fosse na universidade, teria que provar num relatório de quarenta laudas de onde saíram aquelas conclusões. Porque, para a universidade, qualquer discente é um não-pensante. Divaguei mais ou menos na seguinte constatação: "O avanço tecnológico na comunicação é inversamente proporcional à nossa capacidade de se comunicar.". Ou seja, quanto mais avanços que facilitem a comunicação, menos somos capazes de estabelecer diálogos, falar e ouvir, essas coisas. Meu primo discordou, mas isso não tem importância. Voltando ao papa, temos aqui em Natal (e em algumas outras cidades do RN) um sósia muito particular para o novo papa. Trata-se do candidato à prefeitura do Natal na eleição passada, o sargento Miguel Mossoró. O resto do país não entenderá essa comparação pois falta ao resto do país a face de Miguel como referência. É uma comparação muito estrita, muito localizada, porém perfeita. Bento XVI é a cara de Miguel Mossoró, e não o contrário. Ao menos para os natalenses. E a grande imprensa, que tanto fala mal do novo papa, chamando-o de conservador, disso e daquilo, poderia muito bem mostrar ao país que temos sim um sósia quase siamês do cardeal alemão. Aliás, deveríamos fazer um concurso de sósias do novo papa. Duvido que Miguel Mossoró não levasse o caneco. Ontem fiquei imaginando um natalense que estivesse ocasionalmente procurando alguma fé para seguir. O natalense, em casa, assistindo à sua televisão na sala, pensando numa fé para professar. Esses tempos permitem a "escolha da fé" numa prateleira digital. É só passar os canais. Mas a televisão só será democrática no dia em que algum canal de religiões africanas estiver disponível na grade de programação. Até lá, estaremos nas tradicionais variantes do cristianismo. Retomando. O natalense, cansado, convencido de que a igreja continuará conservadora e medieval, passa o canal e vê outra opção de credo. Cai direto no Clip do vereador Bispo Francisco de Assis. O natalense, que não tem lá muita formação na área da estética, poderá, quem sabe, ficar encantado com a figura arredondado do Bispo "universal" Francisco de Assis. Mas certamente desaprovará alguns trechos do seu videoclip. Em primeiro lugar, o Bispo está vestindo duas camisas numa fazenda do RN. Isso é impraticável. Tudo bem que a estética convencionou que belo é o traje do frio. Mas, e os valores da terra? O figurino do Clip está desaprovado. Vamos à atuação. Ora, se vocês virem esse registro em vídeo, terão a mesma certeza da minha: o Bispo não toca sanfona. Ele faz um playback. Tocar ele não toca. As tomadas do vídeo são repetitivas e a edição do mesmo é enfadonha. O natalense, desesperado por conta das qualidades das opções, não sabe mais o que fazer. Vai dormir sem nenhuma fé a ser professada. A prateleira eletrônica da salvação não está muito atraente. E o natalense, coitado, dormirá sem saber a quem pedir proteção, para si e para os seus entes e amigos queridos. confrariadoscronicos@yahoo.com.br postado por: RODOLFO TORRES 3:45 PM Comments: Sexta-feira, Abril 22, 2005 A confraria dos crônicos abusa, mais uma vez, da boa vontade de um dos seus colaboradores mais assíduos. O caríssimo amigo Luis Gustavo, que completou trinta anos, é conterrâneo do nosso Patrono e Mestre, Rubem Braga, além de premiado em concursos literários. Nesta partilha conosco mais uma de suas crônicas. Do aditor GustavoGT Natal 22/04/05 Trinta anos Nesta semana, completei trinta anos. Alguns diriam que é uma idade como outra qualquer, igual a fazer vinte e nove ou trinta e um. Conversa fiada. Não é à toa que existe a palavra balzaquiano (ainda que uma corruptela da versão feminina) para designar o incauto que chega à quarta década. Datas especiais como essa devem ser celebradas e servir para reflexões. Não aquelas reflexões banais do cotidiano: será que troco a musculação pelo tênis? Ou ainda, será que o cão enjoou da ração e é hora de mudar de marca? As reflexões a que faço conta são aquelas de cunho íntimo, relembrando a trajetória de vida. Em meio a esses pensamentos, vale reportar algumas lembranças. Gostaria que fossem como as deliciosas crônicas do Rubem Braga, lembrando uma infância vivida numa casa com porão enigmático e um aconchegante caramanchão, mas não, sempre morei em apartamento. Também não têm aquela compleição saudosista típica dos idosos, pois afinal, faço trinta e não setenta anos. Não dá nem para começar com "naquele tempo". Paciência, chegarei lá. Na primeira passagem, estava em Cachoeiro, para quem não sabe e são muitos os ignorantes, a capital secreta do mundo. Fazia o calor de sempre, acima dos 30 graus. Há poucos dias, minha turma da sexta série do ginásio sagrara-se campeã no futebol de salão, nos jogos inter-classes do Colégio Jesus Cristo Rei, colégio de freiras onde varei os oito anos do primeiro grau. Fui o herói da final, marcando os dois gols da vitória e por aqueles dias usufruía as fugazes honrarias que esse tipo de feito tem aos onze anos de idade. Estudava pela manhã e à tarde pegava minha Monark amarela freio a disco (como era boa aquela bicicleta), e ia para a quadra da escola jogar bola. Naquela tarde, a nossa partida foi interrompida mais cedo. Tinha jogo na TV e não era coisa pouca: Brasil e França na Copa do México, com Josimar e tudo. Do desfecho triste, todos se lembram: o Zico perdendo o pênalti, a bola batendo nas costas do azarado do Carlos e entrando, etc, mas o que ficou para mim, daqueles dias, foi a alegria pueril de jogar bola na escola, andar de bicicleta (nada de bike), ouvir o grande Osmar Santos (fora Galvão!) narrar "ripa na xulipa e pimba na gorduchinha", sem falar no Araquém, o gol-man. Muda o parágrafo, muda-se a década e também a cidade. Agora, estou em Vitória, a magnífica capital capixaba. Tive o grande privilégio de morar lá por sete anos (pena que passou tão rápido). Esqueçam essas histórias de lugar violento, de crime organizado, juiz assassinado por outro juiz. Tudo isso tem fundamento, mas não cabe numa crônica como essa. Fiquemos apenas com as praias e ilhas, com a temperatura amena e a brisa no calçadão de Camburi, com o parque da Pedra da Cebola, onde fiz o curso de montanhismo, e com a Praia do Canto, palco das comemorações dos títulos rubro-negros, ao som de Jorge Benjor e Paralamas, numa época em que o Flamengo ainda tinha suas glórias. Bom, voltemos ao texto. Estou no baile da minha formatura. A sensação que pairava entre todos era tão nítida que era quase palpável: a farra estava acabando, faltavam poucas horas para o desfecho inevitável. Lembro que virei para meu colega Zé Nivaldo e fiz o trocadilho infame: e agora, José? Agora, era cada um por si. A turma fragmentada subitamente - fiquei no lote "paulista" . A turma estava morrendo e às seis horas da manhã de 30 de janeiro de 1999, quando a música finalmente cessou, foi constatado o óbito. Fui o último a deixar a festa, junto com o Marcelo "pedra", que tinha essa alcunha pela compulsão por falar. Os outros retrucavam: cala boca, pedra, pedra não fala. Aquela noite foi uma das duas únicas vezes em que tive amnésia, exagerei no uísque (a outra foi com rum, após o Brasil x Suécia de 94 (semi-final). No dia seguinte, como um retirante, joguei as malas no ônibus e fui para São Paulo, numa viagem de quatorze horas que passaria a ter presença constante no meu calendário a partir de então. Aqueles mil quilômetros separavam minha cabeça mergulhada na residência agaceana, do coração mantido no Bairro de Lourdes, onde minha dentista insistia em morar... Chego então aos dias atuais (glup!). Olho ao redor e para minha surpresa, não estou de volta à Vitória. Tantas vezes dizia para meus amigos em São Paulo: "troco de profissão mas não troco de cidade", contando os dias para acabar a residência e voltar para casa. Um sonho recorrente era o avião sobrevoando o convento da Penha e todo o arquipélago, fazendo uma volta a mais nos céus de Vitória, antes de descer em Goiaberas, trazendo a bordo o jovem médico cheio de saberes e resignado em entrar para Unimed. No aeroporto, a Milla me esperaria de braços abertos e subiriam os letreiros num final hollywoodiano. Mas não, o avião fez um caminho inusitado e acabou sobrevoando uma região de prédios militarmente dispostos em meio a árvores retorcidas. O avião perdeu o norte e pousou no centro-oeste. Vida nova, hábitos novos. Nos fins de semana, em vez da praia, o clube do exército ao som da rádio Verde-oliva. Não tem a moqueca do Curuca em Guarapari, mas tem o bacalhau no Francisco. Aqui, a vida não é tão suada, nos dois sentidos. E voltando às primeiras linhas, se não mantenho a técnica daqueles tempos dos jogos inter-classes, ainda faço os meus golzinhos no Cruzeiro Velho toda quarta-feira, jogando ao lado de um gaúcho e de um colombiano (!?). Não me queixo, pelo contrário. Porque sei que, assim como o ritmo cardíaco, uma vida bem-sucedida precisa de variações... postado por: RODOLFO TORRES 10:32 AM Comments: UTOPIA Acordei hoje e vi que estava tudo diferente. Percebi que a chuva que havia ontem sumira e no lugar dela havia o sol forte, mas não implacável. Percebi pela janela que as todas as pessoas, de todas as idades, estavam fazendo exercícios e principalmente estavam se cumprimentando sem medo e sem distinção de sexo, raça, religião ou time de futebol. Todos eram educados e nunca jogavam lixo nas ruas nem cruzavam um sinal vermelho ou paravam na faixa de pedestres. Até o guarda havia guardado seu boleto de multas pois já era obsoleto e olhava nos olhos de todos com um sorriso, nunca de cima para baixo. Liguei a televisão e o repórter não falou nenhuma vez sobre violência, sobre corrupção ou sobre guerras. Disse ainda que o Brasil estava emprestando de bom grado dinheiro ao FMI. Troco de canal e a notícia é sobre a cura do câncer. Outro repórter não parecia surpreso ao noticiar um casamento entre um negro e uma branca e outro entre um judeu e uma palestina. Noutro momento, o chefe de estado da china dava um caloroso abraço fraternal no seu semelhante do Japão. Noutra imagem, um iraquiano fazia o Sinal da Cruz, vestido com uma camisa do Chicago Bulls. Os Estados Unidos retiraram suas tropas de todos os estados não americanos por pura falta de necessidade e não houve citação á ONU, acho que é porque ela não precisa mais existir. Há um ano que não se derruba uma árvore que não tivesse sido plantada com esse fim. Há dois que não há mais poluição nos rios e mares e há muitos que isso não é mais um problema. Os últimos presos por crimes hediondos estão sendo libertados por bom comportamento e as cadeias, vazias, estão virando parques públicos. O jornal local mostra chuva leve em Lages e em todo o nordeste, reforça que isso é lindo mas não é mais necessário, pois há tempos que acabou o problema de falta de água na região. O caderno de esportes aplaude o desempenho brasileiro nas últimas olimpíadas, quando foi campeão disparado; o time de futebol parou de jogar partidas oficiais pois não havia mais rivais à altura. Faz apenas exibições, e de graça. O Assu Futebol Clube desfila em carro aberto naquela cidade pois acaba de retornar de tóquio após conquista do Mundial interclubes. Quando já estava quase acabando a surpresa em meu semblante, o repórter diz que finalmente chega hoje, a qualquer momento, a tão esperada e indesejada bola de fogo do espaço que vai reduzir o planeta Terra a migalhas. Antes de entender a complexidade desse fato, escuto um barulho ensurdecedor vindo não sei de onde e tudo treme. Num pulo, acordo de verdade, suado, olho pela janela e, graças à Deus (ufa!), está chovendo em bicas. O agudo Bruno Magalhães 22/4/5 postado por: RODOLFO TORRES 9:06 AM Comments: Quinta-feira, Abril 21, 2005 Exclamação na primeira página ainda existe Quem se presta a escrever crônicas diárias é refém de alguns assuntos inevitáveis. Tento ao máximo escapar dessas imposturas, como por exemplo, quando o novo papa Bento XVI assumiu o trono do Vaticano. Nenhuma palavra minha foi dita a esse respeito. Foi um silêncio voluntário. Enquanto alguns muitos esperneavam por conta da ortodoxia e conservadorismo do cardeal alemão, fiquei bastante tranqüilo pois a igreja é conservadora, sempre o foi. Não será nesse tempo de vida nosso que o catolicismo provará de idéias liberais. E sinceramente, não sei até que ponto a modernidade de hábitos deva ser digna de apologia. Mas passemos adiante. Passei a faculdade de comunicação inteira ouvindo que o repórter deve ser imparcial, que quem escreve reportagem não pode dar opinião, mas apenas relatar o que transcorreu, etc. Qualquer intenção opinativa por parte do repórter deveria ser tratada como uma agressão imperdoável à honra do "bom" jornalismo (tratado nas universidades como uma ciência fria, com moldes e fórmulas precisas). Existem professores, profissionais e empresários de comunicação que acreditam piamente na eficácia dessas fórmulas. Pagam fortunas em cursos de reciclagem, pós-graduação, etc. Tratam de forma gélida uma manifestação humana em constante ebulição e dinamismo. Para esse tipo de gente, o leitor não tem tempo para ler. Então, a forma do texto ser escrita deve obedecer padrões precisos para que a atenção do público não seja desviada. O texto jornalístico da atualidade é um lixo frio e insosso. Essa padronização é tão desumana que às vezes o instinto fala mais alto e o redator põe, nesse tempo árido do jornalismo, um ponto de exclamação na primeira página. Juro que quando vi um ponto de exclamação na primeira página do Diário de Natal, exprimindo uma opinião apaixonada sobre um acontecimento, pensei que ainda temos alguma esperança. Não somos tão canalhas e/ou débeis mentais para seguir essa objetividade estéril, artificial, cretina e ignóbil. Ainda escrevemos com algum tipo de paixão enterrada. E isso nos salvará. As redações ainda serão salvas pelos que escrevem com paixão, sem dividendos para com a objetividade jornalística. E o que seria capaz de provocar a explosão de algum sentimento num jornal, cidade ou país? O que faria com que um jornalista colocasse na latrina seus conhecimentos sobre comunicação e o fizesse visitar o "chiqueiro dos sentimentos", aquele local onde afloram as paixões mais descabidas, local odiado pelos comunicólogos, editores de jornal e professores de comunicação. Qual assunto seria capaz de fazer o jornalista descer às profundezas do sentimento, a ponto de fazê-lo colocar um ponto de exclamação na primeira página? O futebol. O Baraúnas, time da cidade de Mossoró, segunda maior cidade do Rio Grande do Norte, venceu por uma placar de três a zero o Vasco da Gama, tradicional clube brasileiro do Rio de Janeiro. Alguém pode pensar que só o time de Mossoró ganhou. Não! Os escribas daqui também saíram vitoriosos. Despejaram nas páginas do maior jornal da capital uma vingança cheia de si, contra os colegas de profissão do Rio de Janeiro, que chegaram a humilhar o time mossoroense. Os cariocas disseram que o artilheiro da equipe, com quarentas anos, tinha cara de "pingunço". E tem. Eles riam antes da partida, com anedotas preconceituosas e tudo o mais. Os nordestinos foram desdenhados. E saíram vitoriosos. Mossoró prepara uma grande festa para os heróis, com desfile em carro aberto e outras regalias a quem comete atos de bravura em escala nacional. E com tudo isso, com o futebol aliado a elementos de descriminação regional desse país, os jornalistas, tão certos de suas idéias, tão seguros da eficácia dessas normas frias e impessoais do jornalismo atual, colocam um ponto de exclamação na primeira página do maior jornal da capital na seguinte manchete: "Foi passeio, sim!", e logo embaixo o placar do jogo em letras verdes. Expressaram opiniões, passaram longe da imparcialidade, esqueceram técnicas cretinas. "Um crime contra o jornalismo sério", bem poderia ser o comentário de algum comunicólogo com teses publicadas e títulos incontestáveis. Quem dera se todos os dias esses profissionais esquecessem o que aprenderam em bancos universitários e passassem a publicar textos parciais, pessoais, com exclamação. Deu gosto de ver (e ler) que ainda existe seres humanos em redações. E não técnicos de uma escrita aleijada e árida. postado por: RODOLFO TORRES 5:57 PM Comments: Quarta-feira, Abril 20, 2005 Noite de véspera de feriado Véspera de feriado é um afago ao coração. Uma alegria incontida nos toma a certos sorrisos e faz da noite da véspera do feriado um momento tão bom que chega a ser inúmeras vezes o infinito de melhor do que o próprio feriado em si, que só serve ao leito, ao sono, ao sonho. Pois hoje é véspera de um feriado. E nessa hora já é possível sentir alguma satisfação não costumeira que passeia pelo ar, pela áurea desse lugar. Várias meninas vão entregar-se a um amor desaconselhado e, por essa razão, mais delicioso e necessário. Rapazes irão se reunir para contar suas vantagens diante da vida e do amor, fazendo dos seus grãos de discurso um documento universal. Tudo é possível, tudo é bom. Hoje é véspera de feriado e não existe mais tristeza que seja cabível numa noite dessas. Temos os vinhos e a aguardente. A praia é bem próxima e cheira melhor ainda nesses dias de início de outono. A santíssima trindade de daqui a pouco será: praia, chuva e noite. E eu creio em tudo, acho que tudo é bem possível, bem contundente. Em véspera de feriado, teimo em crer mais na vida. Só quando os primeiros raios anunciarem Tiradentes é que a noite redentora da véspera de feriado terá findado. Noite de feriado prolonga por si esse palco das estrelas. Mas estamos em noites nubladas. As gotas longas da chuva que são vistas de uma calçada também nos salvam. Os postes formam uma "bolha" de luz ao redor da lâmpada grande, e debaixo de qualquer toldo sempre temos o costume de olhar para aqueles filetes de água derrotados pela gravidade. Há quem diga que o amanhã trará consigo todos os incômodos que nos foram privados nessa noite, pois se afirma que a semana é uma sucessão de desgostos, de lágrimas condensadas e retidas, de suspiros presos. A semana é um leve apodrecimento da alma. Porém digo que não. Não! Até que se prove o contrário, hoje a noite será infinita. Temos tudo para chegar à felicidade nessa noite. Bebidas, chuva, vento frio e salgado. Não haverá amanhã, é o que me diz alguma intuição de festa. Até que os primeiros raios de Tiradentes provem o contrário, a noite da sua véspera será infinita. A noite terá o comprimento exato desse nosso lamento. O céu vai mandar suas lágrimas e o Atlântico se retorcerá frenético em sua impotência de dilúvio bendito. Tudo o mais é improvável. É nessa noite que saberemos a profundidade do nosso canal lacrimal. E quantos litros o mesmo comporta até transbordar num auxílio ridículo ao dilúvio que o impotente oceano não é capaz de provocar. postado por: RODOLFO TORRES 5:05 PM Comments: Terça-feira, Abril 19, 2005 Tédio do pânico Antes de dormir, já de madrugada, com o céu indeciso entre as trevas e o raiar de luz, lia sobre a invasão dos idiotas na década de sessenta. Pela primeira vez na História o idiota, embriago da sua estratosférica maioria numérica, deixa a sua condição de idiota e ergue a voz ao planeta. Lidera povos, promove seminários, profere palestras para empresários, é empresário, funda instituições, torna-se professor, escritor, artista, etc. O mundo, desde aquela época, e para todo o sempre, é um mundo idiota. Nelson Rodrigues tem para mim uma magia semelhante a do seriado mexicano Chaves. Não é a primeira vez que leio uma crônica de NR falando sobre os idiotas. E mesmo sabendo até dos adjetivos e termos que o dramaturgo utilizará para explanar sobre a condição do idiota no mundo, não me canso de passar a vista sobre as suas letras. Do mesmo modo é o tal seriado televisivo. Tenho todos os episódios decorados desde a infância menor. Chegava à casa do colégio, atirava a bolsa na sala e corria para o aparelho televisor do quarto dos meus pais para ver pela enésima vez um episódio especialmente dublado e contextualizado para o Brasil. Era, e ainda o é, mágico. Até hoje assisto ao programa, rio das mesmas piadas e tenho uma vontade tímida de chorar quando o protagonista vai ao barril para mais uma noite de fome, numa vila pobre do México da década de setenta. Fui dormir pensando no mundo idiota de Nelson (ou como alguns escrevem, Nélson) Rodrigues, que é o nosso mundo, o mundo do "daqui em diante". Já estava numa fase indefinida do estágio de sono. Não podia ser definida como lucidez, nem como atuação majoritária do subconsciente. Via imagens indefinidas e em processo de formação. Nada muito bem explícito à memória. Até que, ouço um barulho vindo do jardim da minha casa. Salto para a escada e ouço a porta da frente, que dá acesso à área, ser forçada. Corro para o telefone e ligo para a polícia. Uma gravação diz que naquele momento todas as linhas estão ocupadas. Necessário seria esperar. Uma voz solícita me atende. Falo meu endereço, explico a situação e por último falo o meu nome. Uma viatura policial chegará em poucos minutos, é o que me informa a voz serena do outro lado. Visto uma camiseta e aguardo o carro das sirenes. Olhava para rua escura, iluminada com aquela luz "amarelo ovo" dos postes. Chovia fino e o ar da madrugada de chuva é sempre acalentador. Aguardava os policiais que iriam revistar o quintal da minha casa a procura de alguém. O tempo passou. Olhava para a rua já com tédio. Rezava para que o meu pedido de socorro tivesse sido esquecido pelos policiais. Queria apenas dormir. Se alguém estivesse lá fora, no jardim, que por lá permanecesse. Queria até acreditar que estava procurando abrigo para a chuva. Deito e procuro dormir. O rapaz do jornal chega antes dos policiais. Aquele periódico é arremessado e faz um estrondo na área. Estava certo que o meu pedido tinha sido esquecido. Já deitado, pensava em retomar meu sono. Até que ouço um carro se aproximando. Vejo as luzes da sirene apenas ligadas, de forma preguiçosa. Saio e falo com um policial. Ele pergunta se tudo está calmo. Digo que, quase uma hora depois, está tudo bem. Ele olha para o interior da propriedade e diz, cheio de sua certeza: "O elemento deve ter vazado". Agradeço a assistência e vou me deitar, com o tédio do pânico que tive por vários minutos. Minutos que seriam mais do que suficiente para tantas coisas. Até para se chegar ao tédio de um sentimento fulminante. postado por: RODOLFO TORRES 4:32 PM Comments: Segunda-feira, Abril 18, 2005 Quermesses e arraias Na semana passada, iniciei um projeto prazeroso com a minha senhora. Iríamos assistir às mais de quinze horas do seriado brasileiro "Os Maias", baseado na obra do escritor português Eça de Queiroz. Iniciamos na quarta e findamos nos sábado (madrugada do domingo), com mais de três horas e meia dessa adaptação por dia. Ao final, achei que tinha vencido o seriado. Tinha heroicamente concluído-o sem arranhões maiores na alma. Mas não o venci. Pois foi essa obra que me venceu. E, já rendido pelos Maias, chegou o final de semana passado. Prestei concurso para a carreira diplomática durante esse final de semana, o que me causou algumas dores físicas, principalmente na coluna. O primeiro dia foram quase duzentas questões sobre o mundo, numa prova cruel e simpática. No segundo dia, dois textos teriam de ser produzidos, sobre o ofício de historiador e a sua relação com o ficcionista. O Ministério das Relações Exteriores considera as duas funções muito parecidas. E eu também. E fui fazer as provas do Instituto Rio Branco tendo as cenas dos Maias na memória. Se nós temos alguma pretensão de destratar nossa pátria, de cuspir em nossos valores, de nos envergonhar da nossa condição de cidadãos desse país, temos que aprender um bocado com esse português. Não será esse ou aquele colunista, dessa ou daquela revista ou jornal, que irá amarrar os cadarços dos sapatos da fúria do escritor luso para com a sua pátria. Eça de Queiroz, em "Os Maias" desconsiderava Portugal como território europeu. Atacava abertamente o clero e o culpava pelo atraso em que o seu país se encontrava. Os personagens desse romance se queixam o tempo inteiro da condição de portugueses. Queriam ser franceses ou ingleses. Até espanhóis, em último caso. Menos portugueses. Esses, representantes do atraso de um continente que transbordava humanismo e requinte, que ensinou o mundo a ser o que ele é ainda hoje, para o bem ou para o mal. Um exemplo emblemático foi a primeira corrida de cavalos em Lisboa. Toda a alta sociedade presente para o evento que já era moda em Paris e Londres. Alguns ufanistas declaravam que aquele esporte não era feito para Portugal, cheio de glórias passadas e enterradas, glórias que só serviam para não fazer morrer de desgosto uma população inteira daquele país, posto em escanteio da Europa até pela geografia. Antes o término da corrida, uma briga inicia-se. Um apostador revoltado vai espancar o jóquei que chegou em último, nem deixando-o cruzar a linha de chegada, e no qual depositou uma soma considerável de dinheiro. Instala-se uma confusão generalizada. Um dos expectadores da balbúrdia constata que Portugal foi feito apenas para quermesses e arraias. Não para esse tipo de refinamento. Aquela fala ficou martelando em minha mente: "Quermesses e arraias". E se eu pusesse na prova do Itamaraty que o Brasil de hoje, assim como o Portugal de Eça, também só comporta para esse tipo de celebração? Ainda não tive tempo para me desiludir tão brutalmente com o meu país, ao menos de um modo equivalente ao de Eça de Queiroz quando escreveu Os Maias, uma de suas últimas obras. Mas sinto que estou a caminho de um grau descomunal de desesperança para com o Brasil. Quem sabe serei um diplomata sem grandes recepções e bailes, sem glamour, sem contatos íntimos com o poder. Serei um diplomata dos confrontos entre vizinhos das periferias mundiais, dos deportados por falta de dinheiro, dos prostituídos e presos em terras estrangeiras. Um diplomata de quermesses e arraias. postado por: RODOLFO TORRES 4:30 PM Comments: Sábado, Abril 16, 2005 NÃO QUERO UM PAPA BRASILEIRO Após a morte e o sepultamento do Papa João Paulo II, começaram as especulações sobre quem deverá ser o novo Papa. As campanhas estão em pleno vapor no Vaticano, fazendo estourarem as bolsas de aposta. Aliás, sobre a eleição do Papa há um livro extraordinário chamado "A Eminência", do Morris West, no qual podemos conhecer as minúcias dos bastidores da eleição e a "politicagem" que também acontece por lá. Mas não é exatamente sobre o Conclave que eu quero falar. O que tem me chamado à atenção é a torcida ferrenha que algumas pessoas têm exercitado para que um cardeal brasileiro seja consagrado Papa. Parece torcida de final de copa do mundo. Alguns até andam fazendo promessas mirabolantes, caso tenhamos um Papa brasileiro. Bem! Como costumam dizer que eu sou sempre do contra, não poderia deixar de dar minha opinião. Sou contra um Papa brasileiro. Não torço por nenhum dos cardeais brasileiros. Não me interessa ter um brasileiro como Papa. Isso mesmo. Não vejo porque seria interessante termos um Papa brasileiro. Para nós nada mudaria. O posto que eu queria ver ocupado por um brasileiro era o de Presidente dos Estados Unidos. Mas um brasileiro daqueles "pai d'égua", macho, patriota até a alma. Daqueles que sempre "puxam a sardinha" para o nosso lado. Aí eu queria ver! Seria realmente interessante. Uma vez presidente, o brazuca logo trataria de nomear dois outros brasileiros para presidirem o FMI e o Banco Mundial. Assim, de imediato perdoariam integralmente a dívida externa brasileira. Além disso, o brazuca, por decreto, acabaria com todos os subsídios agrícolas, industriais, culturais, etc.. Por medida provisória (quase esquecia de dizer que o brazuca iria levar pra lá essa pérola jurídica, naturalmente), adotaria o Real também como moeda deles. Como pacifista que é, mandaria retirar imediatamente todas as tropas americanas que estivessem fora de seu território. Para finalmente entrarmos no Primeiro Mundo, o brazuca "abrasileiraria" a Coca-Cola, o McDonald's, a Ford, a GM e a Microsoft. Mas não entraríamos apenas para bagunçar, como sugeririam os maldosos. Também daríamos nossa contribuição. Iríamos aperfeiçoar algumas das coisas deles. Trocaríamos a figura do Tio Sam por uma Passista da Mangueira e no 4 de julho promoveríamos um carnaval fora de época, com direito a escola de samba carioca e trio-elétrico bahiano. Lançaríamos a MPB of America, acrescentando ao jazz pandeiro, cuíca e tamborim e ao country, sanfona, triângulo e zabumba. No hit parade, emplacaríamos três sambas do Noel, três do Cartola, três forrós do Gonzagão e um Chico para fechar com chave de ouro. É isso. Definitivamente não quero um brasileiro no Vaticano. Prefiro-o na Casa Branca. Natal, 16/04/2005. Rafael Loiola (O Ausente) postado por: RODOLFO TORRES 7:47 PM Comments: Sexta-feira, Abril 15, 2005 SEM MARIA NEM FUMAÇA Pronto! Era só o que faltava! Depois de anos sendo excluídos do resto do Brasil, agora nós conseguimos ser preteridos do próprio Nordeste. Depois de perdermos a refinaria para um estado qualquer que não produz petróleo, o governo federal planeja deixar-nos de fora de um grande projeto nacional. Descobri hoje num telejornal local que o executivo vai construir uma ferrovia trans-nordestina, do Maranhão a Bahia. Quem vocês acham que ficou de fora? Acertou, o velho RNinho. Foi preterido, esquecido, deixado de lado, humilhado, jogado no lixo. A ferrovia que deveria cortar todo o nordeste, pula exatamente esse estado que nós nascemos. Cadê a bancada potiguar? Um deputado local diz que ninguém sabia do projeto e que soube através da imprensa, há 2 semanas. Imperdoável. E que tudo que pode fazer é denunciar e reclamar e lutar e chiar e espernear... quer dizer: nada. Fomos excluídos do último nicho que achávamos que pertencíamos. Somos agora como uma ilha solta no Oceano Atlântico. Uma dessas que qualquer Tsunamizinha arrasa. Os outros brasileiros deveriam tirar passaporte para vir para cá. Poderíamos nos desgarrar do Brasil e sermos incorporados por Portugal (já quase somos mesmo), Holanda ou França. Menos Estados Unidos, por favor, eu não suportaria e me mudaria para o Brasil, até para São Paulo, Eca! Melhor ECA do que EUA. Poderíamos ser uma Guiana norueguesa ou sueca. Por que não? Seria melhor, talvez até um filho meu tivesse chance de jogar na copa do mundo se ele fosse escandinavo. Seria uma recompensa. E dizem que vai ter um aeroporto de carga internacional imenso em São Gonçalo. E como essa carga vai escoar? De trem é que não vai ser. Deve ser de caminhão já que aqui se produz tanto petróleo. Ah! Mas não se refina, então é mesmo que nada. Sei não. Como posso fazer muito menos do que a bancada do RN, só posso escrever está crônica em tom de desabafo, vou permanecer como um ilhéu naufragado do ITA que vem do Sul e que nunca, nunca mesmo, pára aqui. Deus conserve a Redinha. O agudo Bruno Magalhães 16/04/05 postado por: RODOLFO TORRES 8:08 PM Comments: Palavra proibida Jackson do Pandeiro é um gênio, e isso é inegável. Apesar de paraibano, declarou seu amor pelo Rio de Janeiro, sem que com isso causasse mágoa na sua queria Paraíba. Era gênio até nessa conciliação entre os Estados queridos. Já tinha ouvido falar muito em seu nome, mas nunca tinha me dado ao trabalho de ouvi-lo. E quanto tempo perdido esse em minha vida sem a sua música. Ouçam-me bem: um país que dá a luz a Jackson do Pandeiro e Cartola tem algo a dizer para o mundo, mesmo que seja em português. Como um país gera dois gênios assim, como quem pega um simples resfriado? Enquanto Jackson era irreverente, alegre, festeiro; Cartola era introspectivo, triste e melancólico. E os dois eram gênios complementares. Numa de suas canções, que inclusive dá o nome a uma famosa banda baiana - Chiclete com Banana, Jackson não se rende ao massacre imposto pelas grandes indústrias do comportamento. Ele declara que só vai misturar os ritmos dos EUA ao seu samba quando o "Tio Sam" tocar um tamborim. Até lá, ele fica com o que é daqui mesmo. Jackson do Pandeiro morreu e não misturou sua música com os eletrônicos facilmente digeridos por aqui, cada vez mais digeridos com naturalidade. Pois bem, tudo isso para chegar ao grande tema do momento: o racismo. Um jogador negro brasileiro ficou ofendido por ter sido chamado de negro por um jogador argentino, não negro. Até aí, tudo bem. Não sei como se procedeu tal cena, até porque não vi o jogo. Só sei que o zagueiro portenho estava até há pouco preso em São Paulo, por ter chamado um jogador negro de negro. Entendo, compreendo, aceito as justificativas do brasileiro. Não deve ser fácil ser negro no Brasil. Não deve ser fácil não, não é nada fácil. Mas Grafite é paulista. E eu, nordestino. Morei em São Paulo durante um período razoável, e senti na pele o que é ser um nordestino na selva de pedra brasileira. Quando estava adaptado ao ambiente profissional, um dos meus colegas, numa tentativa sincera de me fazer um elogio disse que eu não parecia com um nordestino. Dizia isso num tom de elogio, com carinho estampado no olhar. Era como se aquilo para ele fosse comparável a dizer: "considero você igual a mim, apesar de você ser nordestino e eu paulista". Pare ele, que me elogiou segundo seus critérios, minha reação não poderia ter sido pior. Perguntei-lhe visivelmente irritado: "Então eu pareço com o que?". Colegas se meteram na minha frente, me levaram para um canto, a famosa turma do "deixa disso". Creio que o zagueiro argentino e o atacante brasileiro teriam se tornado grandes amigos se o hermano dissesse: "Você não parece um negro". Apesar de Grafite sê-lo, e continuará sendo negro, maravilhosamente negro, esplendidamente negro. Como eu continuarei sendo baiano para os paulistas e paraibano para os cariocas, apesar de ser potiguar. E macaquito para os argentinos. Ora, se eu sou sub-gente no meu próprio país, qual o problema de ser destratado por um argentino? Sinceramente, ser chamado de nordestino em São Paulo era motivo de orgulho para mim. E falava do Nordeste para todos. E defendia essa terra lá como ninguém. Até de forma meio ridícula. Mas defendia. E nunca me envergonhei da minha condição. Fico impressionado com esse discurso de consciência negra, de valorização das periferias, do orgulho da raça, enfim; tudo que prega o hip-hop. Com seu grau de conscientização das periferias, mas que nada faz além de importar comportamentos Made in USA e uma música pobre em melodia e harmonia. E que não agüenta a pronúncia de uma palavra proibida: negro. Se alguém me chamar de nordestino, direi "Pois não?". Seria o que Grafite deveria ter dito quando o chamaram de negro. "Pois não? Quer que eu drible menos, ou jogue mais devagar para que consigas me marcar melhor? Impossível meu caro, sou geneticamente mais forte e veloz do que você. Além do mais, sou profissional e não pega bem fazer isso. Aliás, dá licença que os companheiros estão vindo aí. Passar bem.". postado por: RODOLFO TORRES 4:36 PM Comments: Quinta-feira, Abril 14, 2005 Adolescência Minha adolescência já passou há algumas décadas, mas para a minha satisfação eu trabalho com adolescentes, ouvindo-os, orientando-os individualmente, como também em reuniões chamados de grupos educativos. Nestes grupos, os temas são variados e escolhidos pelos adolescentes. E para minha surpresa ouvi depoimentos que me fizeram refletir, e que merecem ser relatados. Entre os muitos que foram ditos, esses são os que estão memorizados: - Ser adolescente é estudar e brincar, mas tem grande diferença de ser adolescente pobre, e adolescente rico, porque o rico possui celular, computador e carro. - Uma lembrança que tenho da minha infância, é que meus pais brigavam muito, e quem sofria era eu, com medo deles se separarem. - O que mais eu queria era ter um pai jovem que pudesse conversar comigo, ir ao shopping, jogar bola, pois tenho quatorze anos e meu pai tem mais de cinqüenta anos - Ser adolescente é estudar e fazer tudo o que a mãe dizer. - O que mais me entristeceu foi que meu pai não confiou em mim. - Eu gostaria de saber o que é uma mulher fácil. - Eu não sei porque as horas neste grupo passam rápido, enquanto que no colégio demora a passar. -Ser adulto é ser responsável, ser adulto é fazer tudo certo, como faz o meu pai. Cada frase dessas eu ficava a refletir, como também gostaria de solucionar os problemas relatados. Mas de certa forma eram dados alguns esclarecimentos, e tenho certeza de que serão úteis para suas vidas. Esses grupos continuam a existir e fazem parte do programa de saúde do adolescente - sus . TERESINHA DE JESUS GOMES TORRES. postado por: RODOLFO TORRES 4:35 PM Comments: Quarta-feira, Abril 13, 2005 Parlamento dos ébrios Realmente, definitivamente, o encanto das mesas de bar está se esvaindo. E logo para mim, que adora uma rotina, que é fiel à mesmice dos copos secos e da visão turva; do pouco dinheiro e da alegria fugaz. A magia desses locais escorreu para uma profundeza qualquer. Talvez ficou emperrada num dia qualquer da semana passada e por lá ficou. O fato é que já não me agrada mais esses ambientes de satisfação etílica. Estou me encantando com a água com gás. Já tracei laços complexos com vários sujeitos, e fica difícil a debandada repentina. Por enquanto vou, olho, fico calado, bebendo água e pensando em qualquer outra coisa que não seja o assunto em pauta. Mas vou. Ontem mesmo, fui. E para a minha surpresa, deram um conselho bem representativo de qualquer mesa de qualquer bar. Falaram para eu não pensar muito, que isso era perda de tempo, não resolvia. Um primo mais velho citou Raul Seixas para tentar me convencer a tomar uma dose de uísque. "Não pense que a cabeça agüenta se você parar". Fiquei por ali, a recordar minha euforia nos primeiros anos de bebedeira oficial. Quanta alegria, quanto deslumbramento. O mundo era meu e o consertava todas as noites com minhas opiniões esbravejadas. Minha platéia era escassa, assim como o dinheiro que eu tinha. Mas conseguia ajeitar o planeta após algumas garrafas de cerveja. E ia para casa com a exaustão de um líder mundial inédito, que vivia num mundo simples e bom, e que via com nitidez todos os defeitos da humanidade, porém teimava em crer nela. A fadiga no outro dia era tão certa quanto a próxima reunião de líderes. Acho que toda mesa de bar é um parlamento, e quanto mais se bebe, mais a solução para temas mundiais é nítida. E é justamente dessa forma que o parlamento dos ébrios funciona. Sem pensar, com muita bebida e fúrias pessoais incontroláveis. Sempre escutei que o Brasil seria a voz do novo milênio. O país que ditaria os rumos da humanidade nessa nova era. Alguns sinais são claros, tão nítidos que chegam a ofuscar. Exemplo é a talento nato dos brasileiros para a informática. Até o Orkut ganhou uma versão em português, visto que esse é o idioma predominante naquele espaço. Pois que o arquiteto número um da nação, Oscar Niemeyer, projeto o parlamento dos patrícios ébrios. Com uma simples mesa de bar instalada no alto de uma grande auditório, garçons munidos de garrafas de cervejas, petiscos e uma música qualquer ao fundo; assistiremos ao nascimento de manadas de líderes mundiais diariamente. E o Brasil confirmará sua vocação de pátria do novo milênio. Com bêbados que resolvem os mais complexos problemas humanos sem ao menos pensar. postado por: RODOLFO TORRES 4:18 PM Comments: Terça-feira, Abril 12, 2005 Tema único "O amor tem sido para mim sempre o maior dos assuntos, ou, antes, o único" (Stendhal). Gosto de começar meus textos com citação. O motivo é bem simples, na verdade é uma pirraça. Quando fui tentar um estágio num jornal daqui, escrevi sobre um lixão que estava sendo desativado. E comecei com um trecho de um documento, entre aspas. A moça que me dispensou do jornal, no meu segundo dia, disse que isso não era permitido por não sei que leis da escrita. Talvez sejam as leis dela. Vai saber? Portanto, toda vez que posso, coloco uma frase entre aspas para iniciar meu texto, para provar para mim mesmo que é possível fazer isso. Volto à frase que inicia essa crônica. Não é só para Stendhal que o amor é o único assunto. Para qualquer um o amor é o único assunto. O mais contraditório nisso tudo é que o único assunto foi esquecido. Escrevemos, falamos e vivemos sem assunto nenhum. Somos cegos e insensíveis ao assunto único. Lembro que qualquer história de amor, à medida que o tempo passa, ganha ares de ridículo. E se não falarmos de amor, temos mais alguma coisa para falar? Ridículos somos nós, que esquecemos do amor, que fingimos viver melhor sem ele. Como chegamos a esse ponto? Na década de sessenta, no Brasil, o artista que por ventura se arriscasse a falar de amor, somente do amor, o tema único, seria taxado como a mais ridícula das criaturas, justamente porque seu tema era o amor. Com tantas coisas acontecendo o tempo todo, com tantos problemas mundiais, políticos, sociais, ecológicos, etc, o sujeito vem falar do amor... Tenha lá a santa paciência! Amor não paga conta, amor não enche barriga, amor não põe comida na mesa, amor só traz sofrimento e alienação. O próprio Roberto Carlos foi excomungado pelos cantores políticos, pois suas músicas falavam de amor. Mas não pensem que o assassinato do amor é exclusivo dessa década de 60. Em toda época o amor foi morto, por todos. É da nossa natureza extirpar o amor do nosso convívio, como se retira um câncer. Só que apesar dos tratamentos químicos contra a doença do amor, ele ainda se alastra entre poucos. E vai infectando um ali, outro acolá. E por mais que algumas revoluções tecnológicas sejam presenciadas por nós, esse assunto será ainda o único a valer a pena. O amor é tema único para todos. Tema único que foi esquecido. Indesejado tema único que sempre nos perseguirá. postado por: RODOLFO TORRES 4:44 PM Comments: Segunda-feira, Abril 11, 2005 FACES DO PODER É realmente um país interessante este Brasil. Semana passada ocorreu um fato curioso. A convite do Presidente Lula, dois ex-presidentes integraram a comitiva brasileira que foi ao sepultamento do Papa João Paulo II. Aliás, diga-se de passagem, o Papa mesmo na morte consegue conciliar. Os ex-presidentes em questão foram Sarney e Fernando Henrique. Evidentemente o gesto do Presidente Lula foi louvável e a aceitação por parte dos outros dois, sobretudo por parte de FHC, demonstrou a maturidade e a serenidade que se espera de homens que estão ou estiveram no mais alto posto da vida pública nacional. Também é evidente que todos queríamos estar presentes nesse vôo. Caladinhos, escondidos, mas de orelhas bem abertas para não perdermos uma só passagem da conversa que, certamente, aconteceu entre os três. Eu também fico a me perguntar o que eles conversaram. Será que FHC não resistiu à tentação e deu alguns "pitacos" para o Lula?! (espero que não). Será que o Lula não se conteve e ofereceu algum ministério para FHC?! Ou será que o Presidente Sarney, raposa velha que é, tratou logo de costurar uma aliança imbatível para 2006?! Nunca saberemos. Mas, independente de todas essas dúvidas, queria chamar a atenção para um detalhe. Os três presidentes têm perfis absolutamente distintos. São inteiramente diferentes em suas origens e em suas atuações políticas. Sarney é um típico representante das oligarquias nordestinas, um daqueles políticos que comandam seus territórios há décadas e que sempre estão próximos ao poder central do país; FHC é um clássico exemplo da elite intelectual brasileira, acadêmico internacionalmente respeitado e membro da "nata" paulistana; Lula foi retirante nordestino, operário, sindicalista e começou a fazer política exatamente nos movimentos sociais. Portanto, é fácil perceber que os três presidentes, pessoalmente, não têm nada em comum. É de se perguntar, então, por que o Brasil continua exatamente o mesmo, se os últimos presidentes são totalmente diferentes entre si? Todos sabemos a resposta. De nada adianta continuarmos a mudar apenas a pessoa do governante, sem mudarmos toda a base. Sem partidos de verdade, sem ideologias políticas bem definidas e sem políticos com posições formadas, nada de novo acontecerá no Brasil. Mas o fato de termos tido presidentes tão diferentes em pouco mais de vinte anos, por si só, já demonstra um claro desejo de mudança que o povo brasileiro sempre cultivou. O velho jargão da mudança é sempre utilizado por todos os políticos e sempre é vitorioso, porque efetivamente não estamos satisfeitos com o país que temos. Eu duvido que alguém se eleja a qualquer coisa na Dinamarca ou na Suécia prometendo mudar tudo. È triste percebermos que no Brasil passam os anos, os mandatos, os governantes, as oportunidades e nada de novo acontece. Aliás, analisando os três presidentes aqui citados, observamos que absolutamente nada de diferente ocorreu em seus governos. Considerando alguns fatos recentes, chego a pensar muitas vezes que, dos três citados, o mais à esquerda é exatamente o presidente Sarney. Imaginem! Bom! O fato é que, voltando à viagem presidencial, se os três presidentes disputassem numa partida de pôquer qual deles seria o Presidente da República quando desembarcassem do avião, fosse qual fosse o vencedor nada mudaria. Tudo permaneceria como dantes. Tudo errado. Natal, 11/04/2005 Rafael Loiola postado por: RODOLFO TORRES 3:03 PM Comments: Projeto de livro Domingo é dia de divertido horror na televisão, pois costumo crer na beleza daquele que é asqueroso, por essência mesmo, asqueroso de nascimento. E ninguém mais repugnante do que aqueles que promovem palestras de motivação, com seus programas devidamente encaixados num domingo à noite. Semanalmente vários suicídios são planejados num domingo à noite. Ontem, então, acredito que centenas de natalenses pensaram em se matar. Como deu vontade de chorar nessa noite... Minha tristeza estava num nível tão elevado que acabei contaminando os que estavam ao meu lado. Mais especificamente minha namorada. Só quando ela saiu de perto de mim, após umas três horas, sua alma se acalmou e a esperança numa vida melhor lhe tomou o espírito de assalto. Antes disso, não. Lanchávamos, e queríamos chorar. Mas não choramos, pois a comida era boa e o local estava cheio. Mas quis abraçá-la e chorar com a minha boca cheia de pão, para drenar um pouco o sofrimento de ontem à noite. Passávamos pela cidade numa noite sem estrelas e com o vento frio. O tédio atingiu os coqueiros da orla, que provavelmente estavam felizes naquela hora por serem apenas plantas. Calado estava e assim permaneci. Uma frase ou outra, mas no geral estávamos apenas com o tédio, cada qual com o seu. Quem sabe, o tédio de ser natalense? Quem sabe... Lembrei-a do que ela certo dia me disse numa loja de doces. Minha própria namorada me aconselhou a escrever um livro de autodestruição. Sim, na contra-mão dos palestrantes da motivação, seria eu uma voz contra essa tolice do sucesso. Só não penso em organizá-lo por capítulos. Quem sabe posso relatar algo do que vivi? A idéia me parece simpática. Precisamos é perder o medo da derrota, do fracasso, da frustração. Eles são tão certos em nossas vidas quanto a morte. Meu avô certa vez disse que o ser humano já devia ter se acostumado com a morte. Ele já estava velhinho e disse isso sem mágoa, apenas como se constatasse um esquecimento do ser humano. Não sei se a morte pode algum dia ser encarada dessa forma pela humanidade. Mas o fracasso pode ser desmistificado e até embelezado. É tão natural fracassar! Vou me entregar a esse projeto do livro de autodestruição. Espero que ele sirva para alguém, até porque sempre nos sentimos confortados quando encontramos alguém numa situação pior do que a nossa. Para citar mais uma vez Nelson Rodrigues, queria que ele estivesse por aqui entre nós. O que diria o Nelson sobre os palestrantes da motivação? O que diria Nelson sobre esse espantoso mundo que destrói séculos em dias? "O ser humano já fracassou" (Nelson Rodrigues). postado por: RODOLFO TORRES 2:08 PM Comments: Sábado, Abril 09, 2005 DIFRUSO Existe coisa mais chata do que gripe? Eu não conheço. Existem diversas doenças mais graves e com sintomas mil vezes piores, mas nenhuma é chata como a velha gripe. Você passa uns 10 dias tossindo, expectorando, salivando, cuspindo um muco imundo que você não imaginaria em sã consciência produzir e todo mundo se espanta: tá gordo, hein!! É um incômodo. Cada tossida dá de dor cabeça a dor na barriga, passando pela dor no peito clássica. Parece que a gente passou o dia fazendo abdominal ou levou uma surra. Às vezes, a tosse é tão forte que parece que vai explodir alguma hérnia em algum lugar. Só resta torcer para que não seja no saco, pois deve ser a única doença do mundo mais chata do que gripe. Algumas pessoas chegam a ¿perder¿ urina ou expelir gases durante esse aumento súbito na pressão abdominal. Ainda bem que não é o meu caso; meus esfíncteres funcionam muito bem, obrigado. Não se consegue subir um degrau, que dirá jogar bola; impossível. De vez em quando dá uma moleza boa de dormir e depois uma suadeira que você desejaria estar nos Alpes Suíços ou pelo menos em Martins. Mesmo que seja só um resfriado comum ou um ¿estalicido¿ como dizia lá no meu interior, o sentimento é de derrota para a virose. A gente acha que é a única pessoa do mundo que tem uma gripe tão longa e que nunca vai ficar melhor e que essa tosse não vai embora nunca e outras coisas impróprias que acontecem com nossa mente momentaneamente entorpecida. O pior ainda estar por vir. Não existe nenhum médico do mundo que dê um dia de atestado para uma simples gripe. Eu mesmo não dou; para não criar vício, sabe. É uma doença menor, nada incapacitante, coisa que não vai nem vem. Não existe nem remédio efetivo, só uns sintomáticozinhos que não tiram sintoma nenhum. Só tem um momento que a gripe nos dá alegria. É quando ela vai embora. Ah! Que alívio! Seria bom se todas as coisas chatas da vida fosse embora assim, em uma semana. O agudo Bruno Magalhães 09/04/05 postado por: RODOLFO TORRES 8:10 PM Comments: Sexta-feira, Abril 08, 2005 A dor, a falta de cor e a luz compreendida Vou comprar uma coleção de lápis para ficar mais contente. Nunca deveria tê-los deixado. Naquele tempo, se livrar deles era um sinal de amadurecimento. Hoje vejo que errei em deixar aqueles instrumentos que comprovavam minha incapacidade. Não sei desenhar, mas gosto do cheiro dos lápis. Gosto das cores, e da própria presença deles. Vou comprar lápis, um monte deles. Porque agora tenho alguma renda. Ridícula renda que vai garantir a aquisição desses bens, tão ausentes na minha. Quase vinte anos de separação me tornaram uma pessoa mais árida. Vou retomar os lápis, as tintas e os desenhos desajeitados. O que importa se o desenho não traga a beleza? Se a beleza é apenas um dos instrumentos da felicidade. Vou comprar lápis, tintas e telas. E vou ser como sempre fui, um péssimo desenhista, pintor, formador de imagens com a minha mão direita. Sempre achei que sou canhoto mas, por algum episódio do passado, me obrigaram a escrever com a mão direita. Ontem mesmo pintei uma camisa com tinta para tecido. Três pincéis e várias tonalidades. A camisa ficou destruída, os desenhos são de péssima qualidade. Até minha mãe não gostou. Mas é bom se sujar de tinta, e sentir aquele cheio, e estar entre as cores, e poder se misturar à elas. Ainda aprendo a fabricar a minha luz numa tela. E quando isso acontecer, quando eu fizer a luz com tintas, chegarei a um importante estágio da vida. Continuarei sem saber desenhar, mas já sei sentir a luz. Temia o escuro não por acaso. Tenho consciência da luz. E não sei desenhar. E vou comprar um monte de lápis. Mesmo que seja para colocar em algum copo sujo, num quarto sujo, cheio de jornal no chão. Vários desenhos incompreensíveis e de má qualidade. Mas com a minha luz, feita por mim mesmo. Sim, vou fazer. Com lápis, tinta e o branco, eu faço. Ah, se faço. postado por: RODOLFO TORRES 2:37 PM Comments: Quinta-feira, Abril 07, 2005 Sentido adormecido Já falei e não me canso de repetir que sempre buscarei a elegância, apesar de quase nunca tê-la alcançado, é bem verdade, mas o simples fato da procura, da caça, me anima e me dá forças para seguir em busca desse destino que não é o meu. Lógico que existe lá as vantagens de não ser elegante, afinal as compensações existem mesmo para isso, para premiar os incapazes de algo, ou seja, todos nós. E quando falo em elegância, nem me refiro à minha postura, que pelo jeito que anda, ficarei antes dos quarenta um corcunda que nem Frei Damião quando estava no final da vida. Não é isso. Tenho desprezado durante toda a minha vida o meu paladar. Como praticamente engulo a comida, sem mastigar direito, não penso muito no gosto dos alimentos, Na verdade, vario pouco, e em geral devoro o que é familiar ao meu paladar. Não quero ter preocupações em relação a esse ou aquele sabor estranho. Como o que conheço, rapidamente, e em grande quantidade, para ter mais tempo de sofrer deitado numa rede, com uma sensação que oscila entre o prazer e a tristeza. Meu leque de gostos é muito pequeno. Já me disseram que esse atrofiamento do paladar na verdade se dá por duas razões. A primeira é que colocamos tudo no mesmo prato, de uma só vez. Para quem entende de etiqueta social, isso é, além de feio, danoso ao paladar humano. Não sensibilizamos nossa língua. Essa é a verdade. A outra razão é que não somos um país de um povo rico. Guardamos características da pobreza extrema. Até a nossa elite econômica tem seus hábitos de ralé. Por essa razão histórica e sociológica, não nos importa muito o sabor do alimento. Fundamental se faz comer, e rápido, até a barriga parar com a dor da fome e começar com a dor da plenitude gástrica. Isso explica, por exemplo, as porções minúsculas nos pratos franceses. Para os de lá, é mais importante a sensação ao paladar que a comida causa do que propriamente a barriga cheia. Inclusive a barriga cheia é muito deselegante. Provoca uma série de fatores desagradáveis, esteticamente e também em outros sentidos. Terei, para ser elegante à mesa, que vencer séculos de história e décadas de hábitos. Mas hei de tornar-me elegante. Afinal, a descoberta de um sentido é uma experiência bastante agradável. Há pouco descobri a visão. É uma maravilha quando se aprende a enxergar por ângulos certos. Tudo fica mais frágil e belo. Partindo para a descoberta do paladar, terei que comer pouco para que o gosto da comida seja mais decisivo do que a barriga estourando; sem suco, afinal o líquido acaba com o sabor do alimento; e mastigando sessenta vezes até que a comida se transforme numa pasta que seja suavemente deslocada ao estômago. Deve compensar a descoberta do paladar. E vou continuar tentando, tentando, até que posso degustar realmente um alimento sem os vícios adquiridos, sem esses hábitos que apagaram um sentindo fundamental. Deve ser por tudo isso que a vida anda tão sem gosto. Ou, quem sabe, vai ficar. postado por: RODOLFO TORRES 4:28 PM Comments: NÃO POR PENA Vou tocar o dedo na ferida agora que a poeira já baixou. Vou ficar ao lado de puritanos, fundamentalistas, fanáticos, religiosos, até de Bush (nunca pensei que isso aconteceria). Sei também que vou contra a maré da intelectualidade atual. Esperei passar o caso da americana onde foram desligados os aparelhos que todos acompanharam pela televisão para emitir a minha opinião. Sou católico, minha formação é católica, mas não sou muito assíduo em missas e eventos da igreja. Apesar desse fato pesar sobre minha opinião, acho que não é por isso que sou contra. Todos podem argumentar que ela não queria estar assim e se pudesse escolher preferiria morrer, mas como é que a gente vai saber o que ela realmente queria. Há uma fábula que conta que um suicida se jogou de um precipício e durante a queda, ainda vivo, ele se arrependeu; não queria continuar aquela queda mortal. Então pediu ao seu deus (que no caso específico da fábula, não era o nosso Deus) que o salvasse. E o Deus dele providenciou um galho onde ele pôde se segurar para salvação. Como essa fábula demonstra, as opiniões das pessoas mudam em instantes. Mesmo que ela tenha dito que não queria ficar tal qual um alface, como é que a gente sabe o que ela quer agora que se tornou um vegetal. Será que a gente não pensa que ela preferia estar morta porque a vida vegetativa dela choca os nossos olhos e emoções? É um motivo a considerar. Vou extrapolar na comparação mas o caso permite. Se você fosse reduzido a uma pedra de mármore da bancada da cozinha, você ia preferir se pulverizada e virar pueira ou permanecer junto a sua família? Não sei. Eu também não estou muito convicto desses meus argumentos. Na verdade, essa questão precisa ser muito refletida. Mas quem somos nós humanos para tirarmos a vida de alguém? Falando como médico, tenho certeza que ela nunca mais voltaria a ter consciência do seu entorno, mas isso não a reduz a uma coisa que possa ser jogada fora, assim, por decreto. Como médico também eu fiz um juramento de nunca agir contra a vida, nunca tirar a vida, nunca causar sofrimento. Eu devo isso a Hipócrates. Por isso eu declaro: SOU CONTRA A EUTANÁSIA. O agudo Bruno Magalhães 07/04/05 postado por: RODOLFO TORRES 3:29 PM Comments: Quarta-feira, Abril 06, 2005 As duas academias Sem exceção, sempre pioramos. Ainda ontem procurava algo na geladeira por puro tédio, sem fome alguma, sem o oco do estômago se retorcendo sobre si mesmo. Foi quando lembrei de uma frase de Rita Lee (se é que não estou enganado). Dizia a tal frase: "É uma pena a juventude ser desperdiçada com os jovens". Tive vontade de sorrir, pois concordei de imediato, de forma sumária. Enquanto requentava o café, lembrava dessa frase e pensava que ainda sou um jovem, ainda me resta algum tempo para não entendê-la. Mas compreendo-a, tenho essa frase como um mandamento, uma verdade. Realmente é uma pena desperdiçar a beleza e a vitalidade com criaturas tão débeis quanto os jovens, que não conseguem reconhecer-se dessa forma pela miopia que a inexperiência dos poucos anos causa a todos. A juventude, sempre bela e burra, teve lá seus momentos de glórias. Pintores, poetas, escritores, músicos, dançarinos, atores e desportistas. O mundo também gera gênios nessa fase da vida. Até para provar aquela história da exceção de toda regra. Porém, duvido que se revele algum talento entre sérias repetitivas nessas academias de musculação. Como a outra academia, essa também é estúpida. As duas castram o ser humano, limitam-no de forma covarde e predatória. As duas academias têm uma semelhança obscena. São repetitivas, enfadonhas, sem espaço para alterações significativas, fundamentalistas e antidemocráticas. Além de promoveram a padronização do homem, num claro sinal de desrespeito às individualidades. Na verdade, ambas são um culto às avessas à condição do homem enquanto ser humano. Mas não é de hoje que não podemos mais ser nós mesmos. A diferença é que antigamente tínhamos uma liberdade maior para exercer nossa individualidade no físico. Pois no campo das idéias, fomos castrados desde muito tempo. Hoje, além de termos para sempre perdido a liberdade do pensamento, das idéias; perdemos também nossa individualidade no nosso próprio físico. Antigamente a juventude desperdiçava sua juventude com uma variação estética dos seus corpos jovens. Todos padronizados em pensamento, em ódios e amores, em sonhos e esperanças. Mas um era gordo, outro mais magro, e por aí vai. Hoje, temos obrigação de sermos magros, sem discussão. A padronização continuará. Depois das idéias, temos o modelo do físico, da cor da pele, olhos, e, finalmente, os cabelos. Seremos todos belos e iguais. E veremos que Hitler nunca foi derrotado, pois suas idéias estão nas duas academias, impregnadas até o último aparelho de musculação, ou até a última vírgula de um artigo científico publicado em revista altamente especializada. postado por: RODOLFO TORRES 2:57 PM Comments: Terça-feira, Abril 05, 2005 Desculpa para a solidão É hilário, para não dizer desesperador, quando você busca a todo custo alguns momentos de solidão e alguém sempre chega com algo para lhe mostrar, numa boa vontade explícita, evidente, incontestável. Passei hoje o dia inteiro buscando pelo menos sessenta minutos de solidão para poder redigir algumas frases miúdas, que se organizariam e formariam um texto. Mas hoje o dia não foi meu companheiro. Além de não ter minha estimada solidão nem por meia hora sequer, ainda de quebra não me apareceu aquela inspiração pequenina, porém necessária até para respirar. O que eu posso dizer do dia de hoje? Foi chato! Paradão, parecia mais um dia muito gordo que lutava para concluir sua jornada até a noite. Foi bastante monótono esse dia de hoje. Insuportável, no mínimo. Agora mesmo bato palmas para a noite e farei minha festa particular quando essa data findar. Dançarei sozinho no meu quarto com bebida e música baixinha. Trarei o espelho para os meus aposentos e direi para mim mesmo o quanto foi bom passar pelo dia de hoje. Não intacto; ferido, bastante ferido. Meu inferno seria viver a eternidade no hoje. Nada de anormal aconteceu, apenas não pude ficar tão só o quanto necessito. Se bem que me rasgo por dentro, me esfrangalho inteiro para não explodir em gritos e falar, bem claro, nítido como o nu público: Quero ficar só. E a minha desgraça maior é que por mais que fique só, por mais que busque a solidão, sempre estarei lá comigo mesmo. Na verdade, eu sou o meu castigo. Caso encontres comigo numa hora dessa qualquer, e minha feição não seja a mais convidativa, nem minhas palavras as mais acolhedoras; tenha ao menos piedade. Estou em fuga constante de mim. Eu sempre me alcanço. Eu nunca me escapo. Ao menos na solidão, eu não sou eu em público. postado por: RODOLFO TORRES 10:09 PM Comments: Domingo, Abril 03, 2005 Brigas A confraria dos crônicos, como toda pequena aglomeração de iguais que se preze, terá inevitavelmente que seguir os passos dos grupos mais famosos da história da humanidade, e essa decisão não cabe aos seus membros, será a eles imposta pela tendência natural dos acontecimentos. Para uma analogia rápida com os quatro confrades, poderemos utilizar os grupos musicais, por exemplo. É notório (e agora público) o clima de cordialidade e respeito que se instala a cada encontro dos confrades. As demonstrações de educação, desde em escutar pacientemente toda a fala do outro, até o tom ameno na voz a cada comentário ou réplica são cenas que tocariam a alma dos mais puritanos. Isso com o tempo está fadado a extinção. Ainda iremos decidir se de maneira súbita ou paulatina, mas a questão é simples. Como todo grupo ¿chique¿, terá que haver uma briga, uma discussão, um racha. Isso mesmo, uma briga entre os confrades. Não falo aqui aos senhores daquelas briguinhas bestas, as quais são resolvidas com um telefonema ou esquecidas e pulverizadas na próxima cerveja. Falo sim de uma acalorada e definitiva discussão, que leve por água abaixo todos os momentos passados, que tenha o poder de dizimar qualquer resquício de união entre os membros. Na verdade o motivo não é importante, e pra ser sincero muito menos a discussão em si. O que terá que acontecer é a dissolução da confraria. Isto mesmo. O fim do grupo de cronistas. Um fim repentino e avassalador, abrupto. Comunicado em nota escrita, nunca por entrevistas ou declarações, pois não é nada chique, a não ser que contratemos um porta-voz, com aquelas vozes de locutor de rádio AM. E para ser ¿chique total¿, o motivo nunca será revelado. Brigamos, apenas isso. Perguntarão aos prantos e estupefatos o por quê. E este nunca será revelado. Talvez nem exista. O que tem que existir é a dissolução. Alguns confrades, pressionados pela opinião pública, darão respostas vagas e confusas, como ¿incompatibilidade¿ ou ¿interesses diferentes¿, ¿falta de sintonia¿. Aos amigos, não se desesperem, pois como toda briga (quase toda), haverá a reconciliação, e entre os confrades voltará a reinar o clima de respeito que tanto os caracteriza em seus encontros, onde não se escuta um tom de voz mais elevado, a não ser os gritos constantes das companheiras dos confrades, que se digladiam em acaloradas discussões por motivos quase sempre incompreensíveis. Do aditor GustavoGT Natal 03/04/05 postado por: RODOLFO TORRES 9:45 PM Comments: Sábado, Abril 02, 2005 Homem de Bem Hoje morreu um grande homem. Independente de tudo o que se acredite no que diz respeito a ideologia própria, religião ou crença particular, hoje morreu um grande homem, daquelas pessoas que estão acima de qualquer contestação. Esse homem que foi ao encontro do criador é o Papa João Paulo II. Karol é sem dúvida, e sobre todas as crenças individuais, um grande homem. Para mim, católico, bem mais do que isto. Para aqueles que não, morreu um guerreiro da humanidade. Sem radicalismos, não admito opiniões em contrário. Todo aquele que em vida pregar o bem e dele fizer a sua bandeira e objetivo de vida é sem contestação um grande homem. Católico, protestante, ateu , judeu, islâmico, será sempre um grande homem aquele que puder ver no sofrimento do próximo também o seu sofrimento. Sei que esta opinião não é unanimidade. Isto de nenhuma forma me surpreende. Em uma sociedade onde muitos merecem a veneração e até títulos da mais alta nobreza por glórias e feitos tão inconstantes, ou até sem ter muito a acrescentar, de nada me admira que muitos possam colocar em cheque a bondade do ser humano. Quantos reis disso ou daquilo são verdadeira e fervorosamente idolatrados por coisas tão banais, ou imposições daqueles que comandam o consciente coletivo. Meus amigos, hoje morre um símbolo de vida para todos aqueles que acreditam na bondade do ser humano. Viva ao homem que como poucos simboliza o bem. Do aditor GustavoGT Natal 02/04/05 postado por: RODOLFO TORRES 8:29 PM Comments: TEM BURACOS NO MEIO DO CAMINHO Esta semana fui surpreendido, e fiquei bastante assustado, com um fato ocorrido: o colega com quem sempre viajo a trabalho perdeu o controle do carro e "capotou" na estrada, quando voltava para Natal. Não sofreu absolutamente nada, embora o carro tenha ficado extremamente danificado. Mas, passado o susto inicial, comecei a refletir sobre a constantes viagens e sobre as condições das estradas em que trafegamos. Devo esclarecer que na região pela qual comumente trafegamos as estradas estão até muito boas, embora saibamos que esta não é a regra em todas as regiões do Estado. Em meio às minhas divagações, lembrei-me de um certo detalhe que sempre comento quando estamos regressando para Natal, mais precisamente quando estamos passando pela conhecida "reta tabajara" que apesar do nome nada tem a ver com a turma do Casseta e Planeta, como alguns poderiam imaginar. É que em determinado ponto da rodovia tem-se a seguinte placa, enorme e muito bem sinalizada: "ATENÇÃO! BURACOS NA PISTA." A situação, por si só, já é hilária. Ora, por que ao invés de concertarem o trecho esburacado eles simplesmente nos informam de sua incompetência?! Somente no Brasil aceitamos passivamente tal situação. Mas devo admitir que todas as vezes que passo por ali fico a imaginar a cena para a colocação da malsinada placa. Seria mais ou menos assim: Um belo dia um funcionário do Departamento de Estradas, provavelmente indo visitar sua família no interior do Estado, percebe, não por acaso, que naquele trecho do rodovia há muitos buracos. Voltando do "feriadão", ainda ressacado, comenta com seu chefe a terrível situação da estrada. O chefe, já acostumado a solucionar problemas, e também bastante ressacado, responde: - E o que o senhor quer que eu faça, requisite verbas federais para concertar a estrada para que o senhor possa visitar sua família com tranqüilidade e segurança? Ora, francamente, eu tenho mais o que fazer! Um outro funcionário que ouvia a conversa interveio: - Chefe, já que realmente é um absurdo concertar a estrada, por que não colocamos uma placa para evitar acidentes. -Ótima idéia, mas é preciso comunicar aos superiores. Fez-se, então, um requerimento de urgência: "BURACOS NA PISTA. SOLICITO A COLOCAÇÃO DE PLACA SINALIZADORA PARA EVITAR ACIDENTES". Depois de um longo Processo Administrativo Interno, no qual foi ouvida inclusive a assessoria jurídica do órgão, para confirmar a legitimidade jurídica de tal providência, finalmente foi deferido o pedido para a colocação da placa de sinalização. Aí foi preciso mandar confeccionar a placa, o que custou mais alguns dias e mais alguns reais para o contribuinte. No dia determinado, então, saíram os quatro funcionários designados para a colocação da placa. Não sem antes enfrentarem o burocrata de plantão, que para liberar a guia de abastecimento do veículo precisava ver a ordem expressa do diretor-geral. Ultrapassados todos os trâmites indispensáveis, nossos heróis seguiram firmes para cumprir sua missão. Colocada a placa, voltaram para o departamento com a satisfação do dever cumprido. Antes de chegarem, porém, tiveram o pequeno contratempo. É que foi preciso parar para trocar dois pneus que estouraram ao cair num buraco. E assim, amigos, o problema foi definitivamente solucionado. Agora não temos mais desculpas para acidentes. Com a colocação da placa todos sabemos: no meio do caminho tem buracos. Rafael Loiola (O Ausente) postado por: RODOLFO TORRES 4:17 PM Comments: Sexta-feira, Abril 01, 2005 Por um mundo mais equilibrado Acompanho com preocupação, e com aquele aperto no coração, o estado de saúde do papa João Paulo II. Talvez pelo fato de ter nascido e crescido em lar católico, toda vez que vejo o polonês velhinho fico mais confortado, menos desprotegido. Nesses últimos anos, a saúde do bispo de Roma se deteriorou de forma exponencial, resultado de sucessivas viagens e da teimosia característica aos homens que entram na História. João Paulo II não precisa morrer para entrar na história. Já faz parte dela, de maneira inquestionável. Lembro com nitidez de um congresso eucarístico em Natal no início da década de 90. O convidado especial era o Papa. E lá fui eu com minha mãe e minhas tias, caminhando de casa até a pista, ver o Papa passar na BR-101, quando se deslocava do aeroporto para seu alojamento. Ficamos em média três horas aguardando Sua Santidade. Tínhamos flores nas mãos, lenços brancos e fotografias ampliadas dele. Quando a comitiva se aproximava de onde estávamos (debaixo do viaduto) com suas motocicletas da polícia e inúmeros carros oficiais, várias pessoas desabaram em lágrimas. E a grande questão do ato: eram lágrimas sinceras! As flores brancas subiram ao céu, saudando João Paulo segundo. Seu rosto era visto em cartazes, camisetas e em santinhos, firmemente seguro nas mãos católicas. Estava diante da fé. E tremi diante dela... Finalmente quando ele passa diante de nós, no seu carro especialmente adaptado, olha para o lado oposto ao que eu estava. Saí um pouco triste, com meu desejo de ser Papa abalado. Ainda tinha a idade de querer ser ao mesmo tempo, e com êxito fulminante: um policial, jogador de futebol e lutador de caratê do cinema. Incluí entre essas a vontade de também ser papa . Pouco mais de dez anos depois, João Paulo II agoniza no Vaticano. Seu estado de saúde é lastimável. Centenas de jornalistas realizam uma cobertura frenética da sua piora progressiva. Alguns, melhor dizendo, vários já especulam quem será o seu sucessor na cadeira de São Pedro. Falam até que o próximo papa será italiano, com uma idade próxima aos setenta anos, e realizará um papado de transição entre o conservadorismo atual da igreja para uma provável flexibilização num futuro não tão distante. Entendo as necessidades de captação de fiéis por parte de qualquer culto religioso, mas também não posso deixar de entender que hoje em dia, pelo menos que seja do meu conhecimento, ninguém é obrigado a seguir culto nenhum. Se alguém possui o seu (ou os seus), é por livre e espontânea vontade. Não há mais fogueiras, inquisições, surras, perseguições... Nada, nada. Hoje em dia está tão tranqüilo assumir qualquer religião que é notório o tédio na fé. Parece-me que a fé real necessita de fogueiras e leões para ser consumada. Mas o que aqui quero registrar é esse futuro erro que a Santa Igreja cometerá se flexibilizar seus dogmas nas próximas décadas. Onde ficará a culpa que ela nos colocou durante mais de uma dúzia de séculos? Quer dizer então que tudo acabará repentinamente? Não aceitarei um mundo sem culpas, ou um homem sem culpas. Quero as minhas intactas, sem nenhum documento do Vaticano que as torne mais brandas ou suaves. Faço isso pela pluralidade de visões do futuro. Já estamos numa época que se diz democrática, de livre opinião, mas que está com discurso único de costumes. Aquele que pregar a virgindade antes do casamento é apedrejado como um ladrão de varal. Eu lhes pergunto: seria ilegal defender a virgindade antes do casamento? Ou antidemocrático? Que democracia é essa que não consegue conviver com o tradicional, com o costumeiro? Que descrimina o diferente do agora? Quero viver num mundo em que a Igreja Católica represente a tradição da culpa num presente sem consciência. Parto agora em defesa da Igreja pelo simples motivo de que para se ter culpa é necessário se ter consciência de algo. Existia uma consciência. Alguns podem falar que é uma consciência dessa ou daquela natureza. Não interessa! É um tipo de consciência. Ao passo que hoje, extirpamos a consciência dos nossos atos como quem diz um sonoro não a um pedinte leproso. E não a queremos mais. Nunca mais. Rezo para João Paulo II se recupere e continue sendo a garantia do conservadorismo num mundo que se diz democrático, mas que apenas aceita a uníssona voz sem consciência da atualidade. postado por: RODOLFO TORRES 10:56 AM
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