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Confraria dos Crônicos
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De crônica, não basta a vida! Comments: Quinta-feira, Março 31, 2005 O jogo que nos redimia Sempre que leio nos jornais estrangeiros, principalmente nos europeus, que a batalha pela água no planeta será a razão da próxima guerra mundial, penso em Tarso Jereissati. Senador pelo Estado do Ceará, empresário bem sucedido e dono de várias empresas, entre elas a Água Mineral Indaiá, ele e sua família certamente não sofrerão qualquer espécie de privação do líquido que compõem mais de oitenta por cento do nosso organismo. E semanalmente os jornais da Europa batem nessa tecla. Água, água, água... Cada vez que me deparo com esse tema, bebo um copo de água numa represália miúda aos europeus. E agradeço, com minha sede morta, o fato de não ser de lá. Passemos da água para o futebol. Do mesmo jeito que temos água em abundância e que essa história de guerra da água diz respeito aos nossos filhos; portanto longe de nós, os dirigentes do futebol brasileiro querem ser europeus e importam o modelo de um campeonato de pontos corridos para cá. O argumento é que dessa forma eles premiam a regularidade, a eficiência, a produtividade das equipes. Aquele que vencer mais ganha o campeonato. Nada mais justo! Para os europeus... Em primeiro lugar, nunca fomos (e rezo para que isso não mude) de premiar a eficiência. Um campeonato nos moldes de pontos corridos acaba com o lirismo da última partida do campeonato, o desespero das torcidas em dia de decisão, a paralisação de um país para a ¿grande final¿. Elimina a surpresa, torna o futebol equivalente a uma ¿fábrica de resultados¿. E o futebol deve ter espaço para a arte, para o improviso, para o inesperado. Não tratemos da nossa maior paixão de forma tão objetiva. Como é sem-graça premiar aquele que obteve mais pontos durante todos os jogos, sem que um azarão, numa partida inspiradíssima, lhe tire o troféu. Essa objetividade é estéril, anula a magia de um esporte que começam a tratar com um racionalismo que o descaracteriza. Como se o futebol pudesse ser medido com resultados. No dia em que esse esporte se tornar apenas resultado ( e olha que estamos nesse caminho), acabarão as razões para dribles irresponsáveis, passes insanos, esquemas táticos suicidas, etc. Ontem, assim como milhões de patrícios, estava assistindo ao jogo do Brasil contra o Uruguai. E antes mesmo da partida começar, falei que Romário deveria ser convocado, mesmo (e por isso mesmo) tendo quase quarenta anos. Não sei que desmerecimento a experiência provoca nas pessoas nos atuais dias, mas porque não colocar um jogador que na área é infalível, que simplesmente não perde na frente do goleiro, que tem sangue frio e deseja mais do que qualquer garoto a oportunidade de jogar pela seleção. A forma física do baixinho não difere muito da de Ronaldo na atualidade; Romário tem noção de quando está em impedimento e quando não está; na área, Romário é simplesmente mortal. Garanto que ele não perderia o que Ronaldo teve audácia de desperdiçar ontem. Mas premiamos a imaturidade e condenamos a experiência. Esse é o padrão atual de comportamento, em qualquer área, quanto mais no esporte. Mas ouso defender Romário, um jogador absurdamente injustiçado. Ganhou praticamente só a copa de 1994. E foi covardemente deixado de lado nas de 98 e 2002. Assim como defendo Romário, defendo um futebol que não seja refém de resultados práticos. Sou defensor de um futebol no limite do irresponsável, do improvável, do místico. Esse é o futebol que o povo brasileiro está se desacostumando a apreciar. Não torço por produtividade. Nem fico em frente à TV para acompanhar uma linha de produção de uma fábrica qualquer. Nem mesmo tenho o gol como obetivo final de um confronto entre as quatro linhas. Ainda considero que alguns dribles ou jogadas são capazes de pagar o ingresso num jogo de 0 X 0. postado por: RODOLFO TORRES 3:39 PM Comments: Quarta-feira, Março 30, 2005 Se Camus tivesse a pressa de Caymmi... Das ironias formadoras da vida, uma é um tanto cruel; assim como são todas as outras. Estou sem saber como seria um começo adequado para essa crônica, mas sou ruim de começos. Quando dei por mim, tinha que escovar os dentes depois de cada refeição e antes de dormir, ir à escola de segunda a sexta e rezar muito para não passar a eternidade ao lado de uma criatura feia e má. Portanto não exigirei de mim mesmo um começo adequado de um escrito para um fim tão brutal quanto foi o do escritor argelino Albert Camus. Fui muito rápido ao tema central e agora vou divagar um pouco para que esse texto adquira um tamanho considerável. Nessa fase da minha vida, sou fascinado por alguns silêncios da imprensa de província. Sim, não fico mais exalando minha indignação pelos cantos como no tempo de estudante universitário. Agora um leve sorriso se faz na minha face e quero até gargalhar desses silêncios nada misteriosos e absurdamente rentáveis. Falo isso porque um jovem abestalhado de família abastada matou um rapaz de família humilde por atropelamento, há cerca de três semanas, numa das principais avenidas de Natal. Pelo que me contaram, uma verdadeira operação abafa foi instalada em toda a imprensa natalense por parte de altos membros do governo estadual. O moço que dirigia o carro cruzou o sinal vermelho do cruzamento das avenidas Prudente de Morais e Bernardo Vieira a uma velocidade superior a 120 km/h, derrubou postes, além de um dos pneus do veículo ter atingido um proprietário de um carrinho de cachorro-quente, quebrando-lhe a bacia. Comecei falando de ironias. Pois vejam que ironia da vida. Esse rapaz, que vinha numa velocidade tão absurda e que bateu tão violentamente contra postes, sofreu apenas escoriações leves. Não que eu lhe deseje a morte. Longe de mim tal vontade. Mas o escritor Albert Camus, que morreu num acidente de automóvel em 1960, não dispunha desse aparato de segurança dos veículos de hoje. Certamente Camus guiava a uma velocidade bastante inferior à do jovem abestalhado. E nós perdemos um dos maiores escritores que o século XX teve a coragem de deixar vivo, nascido na Argélia. E agora, com um tamanho razoável de linhas, imagino talvez um Camus com a pressa de um Caymmi. Sim, com aquela maravilhosa lentidão que torna tudo mais belo. Camus não deixaria o mundo órfão de sua obra. Teríamos mais embasamento intelectual para reconhecer as estratosféricas contradições das quais somos feitos, as que moldam nosso caráter, as que nos tornam nós mesmos. A letra de "Estrada de Canindé" fala dos prazeres da locomoção lenta, e vangloria a falta de velocidade dos que são pobres e por isso mesmo andam a pé; podendo apreciar as belezas simples da estrada, e que os ricos, por andarem de burrico, não se dão conta. Eu até citaria Nelson Rodrigues, que dizia: "Acho a velocidade um prazer de cretinos. Ainda conservo o deleite dos bondes que nunca chegam". Mas não quero falar da minha fascinação pelo silencio da imprensa na província, nem do jovem infeliz que tirou a vida de outro jovem. Quero sim dizer que os acidentes de trânsito levam muitas pessoas boas. Escritores, poetas, trabalhadores, jovens... Ironicamente, o interior de um carro foi cenário da última respiração do gênio das letras francesas. Ironicamente, o interior de um carro é uma arma letal para tanta gente que ainda respira. postado por: RODOLFO TORRES 3:46 PM Comments: Terça-feira, Março 29, 2005 OLHO NO OLHO Hoje um amigo, muito amigo mesmo, ligou para o meu celular e lamentou o fato de eu não estar em Assu no momento, pois queria falar comigo pessoalmente. Eu também lamentei e aconversa foi adiada para semana que vem, pois detesto falar ao telefone, celular e internet, principalmente internet. Apesar de usá-la como uma ferramenta necessária ao dia-a-dia. Realmente não se pode pensar o hoje sem comunicação em massa, à distância e rápida, muito rápida. Mas senti uma saudade imensa de antigamente. De como as coisas aconteciam. De quando não havia internet, celular, telefone. Nesse tempo, falava-se pessoalmente. Ah, tempos bons. Inclusive, não sei nem se posso falar assim, pois praticamente não vivi esse tempo. Funciona para mim como uma memória coletiva, uma saudade coletiva de um antigamente tão simples e sincero. Naquele tempo as pessoas falavam olhando na cara, no téti-a-téti, sem se esconderem atrás de um impulso telefônico ou de uma imagem digitalizada sem tempo real. A globalização já chegou tão longe que a IG (internet grátis) tem números de telefone específicos para cada comunidade rural de Assu (Porto piató, Lagoa do Ferreiro, Vertentes, trapiá, etc). Pode um negócio desses? Um rincão esquecido e pobre de um Nordeste tão distante do Sul-maravilha com uma linha da IG só para ele? É incrível. Mas é verdade. Uma paciente de uma dessas comunidades, do sítio como a gente fala, veio me perguntar sobre fibromialgia, doença supermodernosa que pensava só existir na cidade grande e para os mais abastados. Eu pensava que pobre só teria verme no bucho. Que preconceito meu! Mais inocência que preconceito, é verdade. Ela me disse que na igrejinha da comunidade tem internet. Taí! O problema é que nossos governantes são mais inocentes ou preconceituosos do que eu. Só há remédio para verme no Posto. E agora? O progresso chegou antes do dinheiro. Ou então o dinheiro já chegou e já se foi para algum paraíso fiscal. Mas deixa para lá que eu estou ansioso mesmo é para saber qual o assunto que meu amigo quer tratar. Se for segredo estará guardado, mas se for fofoca, contarei para vocês. O agudo Bruno Magalhães 29/03/05 postado por: RODOLFO TORRES 10:18 PM Comments: Motivação, sucesso, vitória, etc, etc, etc... Ontem mesmo, voltando para casa depois de um dia inteiro sem sair dela, cheguei a uma interrogação inusitada; diria até impensável. Perguntei para mim mesmo, sem a ambição da resposta, se o dinheiro é uma droga. Alguém poderia dizer que o Real realmente é uma droga. Mas não é por aí que eu quero discorrer. Não quero falar sobre a falta de força da moeda nacional perante qualquer outra de qualquer país que neva. Não é isso... E se porventura considerássemos que o dinheiro nos obriga a um ritmo de vida que não é o nosso, não é o natural, não faz bem; ao contrário, só o mal? Se admitíssemos que somos dependentes da sensação estranha que ele nos causa, que ficaríamos arrasados sem ele, que nossas vidas não teria mais nenhuma razão de ser sem essa ferramenta tão saborosa. E que o vício pelo dinheiro é absolutamente incentivado, que quem por acaso não o deseje brutalmente é um leproso, um perdedor, um maldito. Como a vida nos tornou assim? Sem dinheiro, nem humanos somos. Creio que o dinheiro sim é uma droga. Tem todos os sintomas de uma droga. Apenas uma droga em escala planetária, há gerações, com costumes e tradições para exaltá-la, mas uma droga, droga de papel com efeitos psicológicos e físicos. E somos todos felizes, todos desgraçadamente felizes com essa maravilha que cheira ruim e é cheia de bactérias. E nesse mundo de palhaços, elegi um símbolo: o indivíduo que faz palestras de motivação para empresários. Como me divirto vendo um homem obeso tentando explicar os motivos dos fracassos empresariais de vários homens infelizes e que pagam caro pelo sucesso improvável, impossível. Pelo pouco que entendo e conheço de tudo, sei que para os ricos existirem, devem necessariamente existir os pobres. É mais ou menos lógico. Da mesma forma, para existir um vencedor, devem existir perdedores. E como o homem gordo e com gravata tenta driblar essa regra simples da existência e vende a ilusão aos débeis de que todos podem ser vencedores? Vejam como é simples pregar o impossível. E o pior, sempre existirá várias pessoas dispostas a pagar caro para ouvir alguém pregar o impossível. Hoje, qualquer um é palestrante de "motivação". Se você levar um tiro na testa e sobreviver, pode alugar um galpão e cobrar ingresso para a sua palestra "Como sobreviver às adversidades da vida e aplicá-las no mercado empresarial". Fale o quanto você teve vontade de vencer, das dificuldades que é ter um projétil instalado no frontal, de como seu pensamento positivo fez de você um vencedor e aguarde senhores obesos lhe aplaudindo. Faça uma ou outra graça, use metáforas compreensíveis para crianças de 4 anos e comece a adquirir a droga do dinheiro. Não se esqueça de dizer que tudo, absolutamente tudo na existência é similar ao funcionamento de uma empresa. Use exemplos como a praia, que é uma figura de fácil entendimento, e fale que a água, a areia, o vento e o sol trabalham juntos e de forma harmônica. Exemplo ideal para os funcionários de uma empresa bem sucedida. E seja mais um imbecil a ganhar droga dos idiotas em abstinência. postado por: RODOLFO TORRES 12:39 PM Comments: Meu melhor dente Segue, para deleite dos confrades, mais uma colaboração do Dr. Luís Gustavo, o nosso amigo de Brasília, sobre a sua saga odontológica. E como o mesmo disse, gosta tanto que é casado com uma dentista: "Didaticamente, os dentes podem ser catalogados em incisivos, caninos, pré-molares e molares. Os incisivos são os exibicionistas, colocando-se à frente dos demais; nas fotos (é só folhear um exemplar de Caras), quase sempre se mostram orgulhosos. Os caninos são um resquício evolutivo de uma época em que os homens precisavam dilacerar certas iguarias, principalmente animais silvestres. Os molares são dentes mais robustos, infatigáveis no ato de mastigar a comida em geral. Quanto aos pré-molares, não sei ao certo sua função principal, mas eles estão ali para compor a arcada dentária. É sobre essa raça de dente que vou discorrer hoje. Apesar de já ter usado aparelho ortodôntico no passado, numa época em que era chique portar esse acessório de tortura, parte dos antigos problemas recidivou. Fiquei com a tal da mordida cruzada e segundo os especialistas no assunto, isso é progressivo, o que pode culminar com assimetrias faciais. Lábio para um lado, nariz para o outro, sei lá. Depois de alguma pressão externa, quem mandou casar com dentista-neurótica-por-estética, resolvi encarar novamente o ortodontista. Confesso que meu maior receio não era pelo aparelho em si. Como disse, já usei no passado e sei que o pior é tolerar a dor por dois a três dias no mês, que se seguem aos ajustes nos fios, dor minimizada por algumas artimanhas, como jamais morder qualquer coisa nesses dias, maçã nem pensar. O medo mesmo estava nas possíveis extrações dentárias. Sádicos por natureza, a maioria dos ortodontistas elegem alguns dentes indefesos e os condenam à pena máxima, em termos técnicos, a exodontia. Tenho ainda os quatro cisos, que chamam de dentes do juízo. Tive juízo suficiente para não permitir sua extração pelos motivos alegados como: é um dente inútil, é de difícil escovação, só serve para dar cárie, etc. Tudo muito vago. Mas agora temia pelo veredicto do ortodontista. Extração de dente per se é uma coisa medieval, dos cisos então, é cada história escabrosa que se ouve ¿ o dentista quase subiu na cadeira... ele está incluso e na hora de sair, fragmentou em cacos..., fraturou a mandíbula porque ele estava inclinado, etc. Por serem os mais inúteis dos dentes, pensei que sobraria para eles. Levei meus exames radiológicos e o molde de gesso. O dentista examinou atentamente a arcada, fechando e abrindo seguidas vezes, olhando por todos os ângulos. Eu ali apreensivo e, nas mãos dele, meus dentes rindo de mim. Após cinco minutos de silêncio, a sentença: tem que extrair o 34. Que diabos essa mania de alguns dentistas de se referir ao dente pelo número. Perguntei o óbvio: qual é o 34? Ele apontou para o primeiro pré-molar inferior esquerdo. Fiquei surpreso, misto de alegria por não ter que extrair o ciso, operação mais cruenta, com a tristeza por perder um dente perfeito. Dias antes, havia comentado com a Milla, meu melhor dente é esse pré-molar. Num mar de amálgamas e resinas, ele mantinha-se intacto, com suas cúspides originais: um pequeno pilar imune às bactérias da cavidade oral. E agora, de nada adiantava sua genética perfeita. Tentei ainda um último lance, será que não dá para extrair o segundo pré, que tem uma restauração grande. O ortodontista não se comoveu, e começou a falar de forças vetoriais, necessidade de ancoragem e outras coisas abstratas para justificar seu diagnóstico. Não teve jeito. Duas semanas depois, foi consumado o sacrifício. Perdi meu melhor dente ¿ nesse momento, ele jaz num copo com água sanitária, para retirar pequenas manchas. Poderia ir para um museu de dentes, tamanha é sua perfeição, mas não existem tais museus. Seu destino final será mesmo o de servir para treinamento de alguns preparos especiais de porcelana que a minha esposa fará em breve. Durante a extração, não senti dor convencional. A anestesia foi muito bem aplicada. Mas aquela mistura de lidocaína e bupivacaína foi incapaz de apagar minha dor interior pela perda do pré-molar, sem dúvida, o melhor. Deixou um buraco (em linguajar odontológico, um diastema) na minha arcada, que nos próximos meses, será preenchido pela lenta marcha dos dentes vizinhos. É fato que no último mês, minha situação só piorou: dor nos dentes pelo aparelho recém-colocado, dificuldade para comer na presença infame de uma barra palatina, que dificulta ainda a dicção, e agora, esse vazio entre o canino e o segundo pré-molar. Esse espaço deixado desaparecerá em breve, assim espero; mas a saudade deixada, essa fica. Assim como a mulher amada, também existe o dente amado, podem acreditar." GustavoGT postado por: RODOLFO TORRES 8:39 AM Comments: Segunda-feira, Março 28, 2005 Armas brasileiras no Haiti e no Brasil Meu caro amigo Sérgio Kalili está em Nova Iorque, mas também esteve no Iraque (único jornalista brasileiro a entrar no esconderijo de Saddan Hussein) e mais recentemente em Porto Príncipe, capital do Haiti. Estuda na Universidade de Harvard, é um jornalista que transborda talento e uma grande pessoa com a qual tive a honra de trabalhar em São Paulo. Inclusive o convidei para comer camarão numa reunião de potiguares em terras bandeirantes. Só aí descobri que meu amigo desrespeita algumas regras de alimentação entre os judeus. Mas na hora do convite não me dei conta de que ele é judeu. O que tinha de maior valor para lhe oferecer era um prato de camarão em São Paulo. E ele foi. Colaborei com ele numa matéria sobre um relatório da ONG Justiça Global sobre a violência policial no Brasil, que é uma epidemia. Mata mais do que qualquer outra coisa nesse país. Essa organização trouxe para cá a relatora de direitos humanos da ONU, uma paquistanesa que não me recordo o nome. Após várias visitas, reuniões, conversas com detentos e cidadãos, o resultado é previsível: a mulher saiu horrorizada! Mas ontem encontro Kalili no MSN (uma raridade!) e puxo uma conversa sem grandes pretensões. Meu amigo me diz que escreveu uma matéria na revista Isto é sobre a força de ocupação brasileira no Haiti, que Lula leu e não gostou, e que gostaria da minha opinião sobre a matéria. Ora, a minha opinião sobre a qualidade do texto é apenas uma. Excelente! Não lembro se confessei uma torpeza profissional para meu amigo Sérgio Kalili, mas se não, aí vai. Eu simplesmente não tenho organização e estrutura emocional para fazer o que ele faz. Se, transcrevendo as dezenas de entrevistas que ele fez com moradores do Morro do Boréu, no Rio de Janeiro, chorando seus familiares mortos; eu quase que desabo em lágrimas. No final, quando a matéria estava escrita, eu estava com lesões profundas na alma. Chagas que provocam sofrimento até hoje. Enquanto que ele consegue manter muito bem separado o lado profissional do pessoal, chegando a debochar da minha fragilidade. Sinto que assim como a canção, "O Haiti é aqui". Incrível semelhança entre os métodos dos militares brasileiros no Haiti e dos policias, também militares, no Brasil. Abuso da força, poder de vida e morte sobre a população pobre, terror instalado, garantia de impunidade promovida pelo Estado, etc. A história, nesse caso, se repete até de forma ridícula. Um sujeito, que mora numa favela ou num bairro mais pobre, sai para o trabalho e é morto por militares (seja da força de ocupação ou da polícia) de forma covarde e brutal. Quando lia o texto, pensava que as linhas traçadas por Kalili no Haiti servem para tantos outros lugares que até poderia crer que ele usou de experiências anteriores para escrever sobre o terror promovido pelos militares brasileiros naquele país miserável, que tanto admira o Brasil em geral e seu futebol pentacampeão em particular. Os haitianos já começam a hostilizar os soldados brasileiros com pedras e até tiros, diferente do que já ocorreu, quando os militares patrícios eram agraciados pela população. E meu amigo Sérgio kalili ainda pergunta o que eu acho... Acho, ou melhor, achava que só a polícia usava dessas táticas; não uma "força de paz". E é preciso que venha esse brilhante jornalista para relatar com a competência que lhe é característica as atrocidades dos nossos em outras terras; em um lugar mais triste até do que o nosso. Se não conhecesse Sérgio Kalili, poderia dizer que ele não saiu de um grande centro urbano brasileiro, ou puxou da memória lá em Nova Iorque o que sabe sobre violência no Brasil, e relatou com brutal clareza o que ocorre no Haiti. postado por: RODOLFO TORRES 3:52 PM Comments: Quinta-feira, Março 24, 2005 Meu recheio Consigo até imaginar a agonia daqueles que escreveram seus livros importantes, ou que escreveram seus poemas viscerais. Digo consigo porque consigo mesmo; e não apenas penso conseguir. Praticamente todas às vezes, quando passo a vista nas primeiras letras, visualizo o escritor na sua árdua tarefa de traçar suas linhas para deixar de ser ele mesmo e emprestar tinta à mísera eternidade. Certa vez, falei o que queria e confessei que "não sou nada sem meus preconceitos". Pois bem. Carrego alguns preconceitos tatuados no caráter. Um deles é contra a produção artística em sua forma operária. O artista acorda, toma seu banho, coloca seu macacão de artista, toma o café, beija a mulher e vai fazer sua arte. Não quero me libertar da certeza de que essa produção é menos artística do que a forçada não pelo cartão de ponto. Mas forçada pela agonia, pela inquietação, pela necessidade do vômito poético. Também sou contra a liberdade plena e irrestrita. Só a delimitação rígida é que torna o lírico infinito. Assim como Vinícius de Moraes fazia sonetos, que são estruturas com rígida métrica e rima, e alcançava a redenção; também me faço porta-voz da rigidez para a arte. A rigidez por parte do artista e para com ele próprio. Não é que eu queira, com isso, podar qualquer sopro do sublime. Até porque não mais os temos. No máximo, temos espasmos artísticos. Mas não se trata disso. É que me reconheço finito pelas manhãs. Não alcanço mais meus sonhos. Agora eles é que se adaptam ao meu cansaço, ao meu tédio, à minha pessoa. E na delimitação das normas, naquele espaço determinado entre os muros do que me aprisiona, posso tentar às vezes ser como antigamente. Que levava meu leque às tempestades e podia ser quem eu desejasse, exceto eu mesmo. Quero o limitado, para poder novamente sem quem eu antes era, quando não existiam limites além da baixa estatura e da alma tacanha. Aprenderei as regras para voltar ao que era, pois era tudo, menos eu. Pois sem preconceitos, andamos vazios. É o que garante um certo recheio à carcaça humana e o que nos liga ao passado imutável. Para não me tornar um "pastel de vento", me apresento recheado com os ensinamentos, os preconceitos, que nada mais fazem do que nos colocar em nosso posto de limitados perante a miserável e infinita eternidade. Também com suas devidas limitações... postado por: RODOLFO TORRES 11:36 AM Comments: Quarta-feira, Março 23, 2005 Tudo cai A ocasião exigia um traje mais elaborado. Tratei de colocar uma roupa social que me fez ficar parecido com algum advogado entediado do dinheiro que jorra de qualquer lugar misterioso para a sua conta bancária. Era sim uma ocasião especial, afinal estava me arrumando para ir ver pela primeira fez um filme de Bertolucci no cinema. Não era um filme alugado que seria visto na sala, que eu pudesse pará-lo quando não acompanhasse a legenda ou quisesse ver alguma cena que por algum acaso me chamou mais a atenção. Teria que suportar conversas paralelas, gente que se levanta e bloqueia a visão, algumas risadinhas e tudo o mais que sessões badaladas promovem. Além, claro, daquelas propagandas locais que me causam um divertimento íntimo inexplicável. Em outras épocas eu jamais confessaria tal abjeção, mas hoje em dia eu o faço até porque sempre tive laços estreitos com qualquer espécie de chiqueiro. Maio de 1968 em Paris. Aquela revolta estudantil que sacudiu a capital francesa e fez com que milhares de jovens franceses levassem às ruas da cidade-luz suas bandeiras chinesas para defender a liberdade, a renovação, a esperança; foi palco para a história do "Os Sonhadores". Um casal incestuoso de irmãos gêmeos franceses conhece um jovem dos Estados Unidos numa cinemateca, ficam encantados pelo moço e o chamam para permanecer na sua casa enquanto os pais viajarão por um mês. Muita libertinagem acontece nessa casa habitada pelos três jovens como, por exemplo, a perda da virgindade da irmã com o hóspede na cozinha enquanto o irmão prepara tranqüilamente uma gemada. Encenações de trechos de filmes antigos provocam pagamentos de prendas, quando não adivinhadas. Por exemplo: masturbação em público. E por aí vagamos entre enxertos de clássicos nesse belo filme do diretor italiano, falado em inglês em pleno maio de 1968 na França. Acaba o filme com uma manifestação reprimida pelos policiais. Nesse instante várias pessoas se levantam, e mais uma vez as inconveniências das sessões de cinema se mostram. Mas as legendas não sobem. Elas caem. Pela primeira vez, ao menos que eu me lembre, vi legenda de filme cair. Elas sempre sobem. Sempre! E fiquei vendo aquela cena estática e pensando no porque das legendas que caiam, ao invés de subir. Puxei da memória os meus conhecimentos sobre o tema, e após a análise certeira da minha namorada no lanche após a sessão, vi a luz do conhecimento estuprar minha ignorância. Como pode jovens na França, com bandeira chinesa em punho, querer defender a liberdade? Se o regime chinês é apenas e tão somente o oposto da liberdade. Como a esquerda é tão canalha ao ponto de declarar socialismo sinônimo de liberdade? E como a juventude francesa, tão culta, não teve contato com a obra de Camus que provocou o fim de sua amizade com o Sartre, "O homem revoltado", na qual entre outras coisas acusa a esquerda de ser uma cega vocacional e voluntária aos desmandes dos regimes autoritários socialistas? Os irmãos gêmeos incestuosos são absurdamente contraditórios e não vou relatar mais esse filme. Apenas penso saber o porque das legendas caírem... postado por: RODOLFO TORRES 2:41 PM Comments: Terça-feira, Março 22, 2005 A sociologia paulistana não está vaidosa Em se falando de sociologia, naquele ramo do conhecimento em que só os paulistas podem dar opinião, confesso que tenho lá minhas paixões desenfreadas por essa bela forma de justificar, um pouco, um povo. Ainda ontem mesmo estava lendo um dos maiores sábios dessa nação, ele mesmo, Nelson Rodrigues. Falava dos quadris das mulheres da sua infância. E naquela época a mulher brasileira transbordava fertilidade com as "cadeiras" largas, num corpo de não manequim. Aliás, segundo Nelson, manequim é a antibrasileira. Mas deixemos de falar das maravilhosas curvas da mulher brasileira e vamos tentar explicar esse país. Quando a sociologia ainda dava seus primeiros passos por essas terras, a principal preocupação dos estudiosos da área era caracterizar o povo brasileiro. O que o tornava brasileiro, quais características, etc. Depois, os componentes da brasilidade foram meio que esquecidos. Fundamental agora era explicar a razão do nosso povo ser contraditoriamente pobre em meio à abundância de recursos. Conversa vai, conversa vem; fato é que Sérgio Buarque de Holanda (o pai do Chico) disse que somos uns desterrados nessa terra. O brasileiro é órfão de terra, não nos reconhecemos como povo, não somos corporativistas em termos de nacionalidade (a não ser quando um engenheiro patrício é seqüestrado no Iraque), e por aí vamos, construindo um país meio sem querer, sem rumo, contando com a capacidade de improvisação que teimamos em roubar do destino. Dentre as referências sociológicas que encontrei na minha consulta, constava o nome do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Não posso dizer nada contra os escritos presidenciais até porque nunca os li. Mas Millôr Fernandes, que copia descaradamente o estilo do Barão de Itararé, leu e disse que se trata de uma "idiotice barroca". Cabe aqui um parênteses para falar do Barão. Outro dia escrevo apenas sobre ele, mas só aqui para nós, os cariocas devem seu humor a um gaúcho. Devem também muitas outras coisas a um monte de gente que não é de lá, mas esse traço forte da personalidade da imprensa (do passado, é verdade) fluminense é obra de um gaúcho. E não sei até que ponto a personalidade saiu das páginas de jornal para se impregnar no cotidiano. Cabe aí mais um tratado de sociologia. Mas na minha consulta por entre os grandes da sociologia do Brasil, não encontrei Florestan Fernandes! Será que os paulistas estão relapsos assim para com o pensamento nacional. Não é possível! Não citar o mago da sociologia da USP... Não citar Câmara Cascudo já virou rotina, apesar de ser o maior folclorista que essa terra já produziu. Mas fazer o que? Quem mandou ele se declarar um "provinciano incurável e permanecer em Natal por toda a vida? Se fosse dar aula pros sulistas, teria até Hip Hop sobre ele. Mas tudo certo. Não estou rancoroso. Até porque, como diria a sociologia brasileira, sou um "homem cordial". E, de novo, só pra nós; estou mais para um "homem bestial". postado por: RODOLFO TORRES 3:03 PM Comments: Segunda-feira, Março 21, 2005 Chuva a contar gotas Ouço agora nesse início de manhã os primeiros trovões de uma chuva que por si já salvou a minha semana. Chuva forte, barulhenta, que faz soprar um vento refrescante nessa cidade que estava abafada feito às paisagens infernais mais clássicas. Qualquer um que dorme banhado no próprio suor acorda revigorado com uma chuva escandalosa nessa manhã sem alegria. Mas se já temos o que comemorar nesse início de semana, significa até ensaiar um sorriso mais firme d'outros tempos que se fazem atrasados na minha saga. Minha alma de pobre donzela é tão bobinha que por vezes se esquece daquela máxima oriental das esferas, que diz que tudo gira, que tudo muda. A chuva já calou e mesmo assim não quero saber das angústias de Pessoa nessa manhã. Não quero me redescobrir cada vez mais em sua pena. Basta de referências outonais por já! Os pingos santos já voltaram, e seu canto trará bem estar a muita gente, como aqueles que permanecem em casa pela manhã vendo o passar sem vontade das horas até o almoço esfumaçar numa mesa angustiada. Mas se não fui hoje despertado pela tristeza, posso até dizer que meu vazio está relapso. É um incompetente esse sentimento. Por certo bebeu demais nessa madrugada e vaga alegre por sua falta de mundos por erguer. Foi-se mais uma vez a chuva. Dessa vez, parece que partiu em definitivo. Vai deixar muita gente que acorda cedo para regar suas flores secas sem ocupação de encher um regador velho. Não terão as primeiras obrigações da manhã de todo dia. Um pássaro encharcado que chacoalha apressado no fio telefônico voa subitamente em direção ao cinza da manhã e quem tem tempo para os contemplar adquire uma certeza simples. A de que a vida é uma rotina de horas. Na melhor das hipóteses. postado por: RODOLFO TORRES 7:27 AM Comments: Domingo, Março 20, 2005 VÍTIMAS Vítimas que somos de nós mesmos. Incapazes de realizar, de pensar, de sonhar. Vítimas que somos dos outros. Impossível perceber o controle. Vítimas que somos do acaso. Que nos faz perder e ganhar com tanta facilidade. Vítimas que somos do pecado. Onde se disfarça todo o mal. Vítimas que somos de Deus. Que espalha sua existência até nos que não acreditam. Vítimas que somos da natureza. Formigas debaixo do sapato. Vítimas que somos do sistema. Ninguém fica à margem. Vítimas que somos da burocracia. Lixa corrosiva de tempo e recursos. Vítimas que somos da razão. Nada pulveriza tanto as emoções. Vítimas que somos da humanidade. Sempre tão desumana. Vítimas que somos do sexo, canalizador de todos os desejos. Vítimas que somos do prazer, essa coisa que se torna objetivo, mas que desaparece quase antes de começar. Vítimas que somos do amor. Onde tudo começa e termina. E que tanto desejamos que nunca termine. Vítimas que somos do ódio. Onde apenas uma pitada modifica o desfecho. Vítimas que somos da felicidade. Escravos de uma realidade às vezes tão simples. Vítimas que somos da inveja. Mantenham-nos longe dos seus dois lados. Vítimas que somos da aparência. Fator determinante do sucesso alheio. Vítimas que somos da hipocrisia. Mal bastante necessário nesses dias. Vítimas que somos... Vítima que sou... Vítimas... O agudo Bruno Magalhães 20/03/05 postado por: RODOLFO TORRES 4:31 PM Comments: Sexta-feira, Março 18, 2005 Banzo burro Cheguei muito sem graça, falando baixinho e com o olhar pra baixo. Disse, quase num sussurro, que estava com uma saudade esquisita e de certa forma, injustificável. Mas fui lá e disse, na maior. Esperava uma patada, mas o amigo canalha age da mesma forma que ele agiu. Nem uma repreensão mínima. Ao contrário. Um apoio inesperado me surpreendeu e agora eu podia me despir da vergonha e usar minha saudade como manto. O certo é que tenho a mesma polaridade da felicidade e sou feito do mesmo material dela, tendo em vista que ela nunca está próxima. Algumas vezes faço que nem a vejo e quando ela passa mais perto, salto meio desajeitado e ela sempre consegue desviar. E sempre caio com a cara no chão. Nas formas tradicionais de saudade, a minha não se encaixa. Como alguém pode ter saudade de São Paulo, vivendo num litoral? Não me perguntem, apenas sinto, vergonhosamente, falta da falta de horizonte; do céu cinza e irrespirável; dos prédios sujos cercando o olhar; da vida aperreada; de São Paulo. Porém, sou também constituído de preguiça, de falta de ganância e de umas pitadas de uns tipos estranhos de desprezos. Incluindo-se aí o pela existência. Deve ser por isso que tenho esse oco no habitat. Sou, simultaneamente, da mesma polaridade de Natal. Ambos não tem vocação à grandeza. E vou vagando entre as horas, fiscalizando os horários do sol e meditando nessa falta de vento medonha que nos assola. Agora mesmo, torno meu corpo mais burro com um ventilador ao meu lado, quase colado com o corpo. Vejo que meu banzo também é burro, e quero crer na burrice dele. Mas é impraticável essa tentativa de fé, que aliás é apenas mais uma fé minha e impraticável. Como sou sem sentido, meu Deus! Como sou sem sentido... Que a preguiça herdada dos índios me faça suportar o banzo negro que me faz sentir falta daquele lugar que é a casa brasileira de todos os homens desse planeta. Ah, banzo burro. Sentimento sem sustentação que até quem o possui não te leva a sério. E tens como única serventia esse maltratar contínuo. De que sentes saudades? De que? postado por: RODOLFO TORRES 3:26 PM Comments: Quarta-feira, Março 16, 2005 O Causo do Jabuti Ligeiro e do Cachorro Fujão (Parte II) Como toda história que se preze, esta também teve um desfecho trágico e porque não dizer surpreendente. Lembrem os confrades que o Jabuti em questão, tomado por uma força estranha, sempre fez as vezes de fiel guardião daquela residência, colocando para correr inclusive o seu maior desafeto, o cachorro, que tentara inutilmente se fazer ouvir. Este, por sua vez, vendo que o duelo direto com o veloz e astuto quelônio seria talvez a sua derradeira batalha (o Jabuti já fora até atropelado por algumas vezes, sobrevivendo sem sequelas), tratou de usar de artimanhas outras para reassumir o seu papel de ¿maior e fiel amigo do homem¿. Apesar de covarde e medroso, o cachorro realmente não pode ser chamado de burro. Descartado o duelo direto, se empenhou em confabular algo para tirar o Jabuti do seu caminho. Mas como fazê-lo. Passou então a utilizar-se de subterfúgios ilícitos. Conseguiu a cumplicidade e porquê não dizer a conivência e a ajuda (por sinal decisiva) do dono da casa. Algumas dessas entidades (donos de casa) têm por hábito a conversa rotineira e sorrateira com os seus bichinhos, sem que ninguém veja. E foi numa dessas que tramaram a expulsão do quelônio. Sempre foi notória a preferência do dono da casa pelo cão, mas poucos acreditavam que a sua predileção o levaria a um complô tão leviano. Para tentar submergir o real motivo, tramaram então uma escabrosa estória, colocando a culpa da valentia do quelônio na sua solidão, ou seja, na ausência de um ser semelhante do sexo feminino no seu convívio. Fato este que se fosse verdade tornaria o cachorro o ser mais valente de todo o ocidente, visto sua igual situação de solidão em relação à ausência de uma companheira. Confabularam e precisaram da colaboração de outros cúmplices, bem como da apatia e resignação dos demais membros da casa, para dar ordem de despejo ao Jabuti. Fez-se então a tragédia, o quelônio foi mandado para uma fazenda, onde supostamente existe uma fêmea para o seu deleite. Fato este que se for verdade, não justifica a situação do pobre Jabuti, tendo agora que mostrar toda a sua valentia, mostrar para que veio ao mundo, demonstrar o seu senso de liderança, brigar pela posição de dono da casa contra vacas, bois e vários cachorros. Eles que se cuidem ... Do aditor GustavoGT Natal 16/03/05 postado por: RODOLFO TORRES 1:32 PM Comments: A avenida do desejo Não sou tão irresponsável para querer pregar a decência nesses dias atuais e cada vez menos nossos. E quando estou farto da minha desgraça, saio pela noite em direção à praia. Quando o sol nasce por trás do mar, naquele instante em que o céu está indeciso em relação à sua coloração, sem saber se adota como traje o amarelo das manhãs ou se fica com o pouco que lhe restou do luto da noite; é nessas horas que a vida se mostra mais simples e aceitável. No trajeto até o mar, sou "desejado" por várias pessoas que mostram suas formas íntimas aos que trafegam na avenida. E todas são lindas em suas formas de desejar. Os céticos podem falar que elas não são lindas, ou até mesmo que nem são "elas". Deixemo-los pra lá. São incapazes de reconhecer que a avenida que leva à praia, nas primeiras horas da noite, até os últimos instantes da madrugada, se transforma na maior fornecedora de olhares meigos que essa cidade possui. Até o mar, qualquer um que passe numa hora de tráfego mais ameno à luz dos postes será desejado por poucos instantes e quilômetros, é bem verdade. Mas o que seria de nós sem as migalhas de desejo dos outros? A Avenida Engenheiro Roberto Freire já salvou vários homens por poucos segundos de uma vida mais amarga. Suas personagens nuas trazem uma redenção, até diria, sincera aos que vão ver o mar pelos motivos do vazio inevitável. Sim, agora chego à praia de Ponta Negra trazendo comigo não apenas meus dissabores. Aguardo o crepúsculo acompanhado pela memória de vários corpos honestos que deixei pra trás. Pois a intenção da nudez explícita poderá até absolvê-la dos julgamentos mais severos. Mas será incapaz de tornar mais áridas as madrugadas daqueles que também sofrem por razões pouco nobres postado por: RODOLFO TORRES 1:23 AM Comments: Segunda-feira, Março 14, 2005 Intocável instituição Umas das mais célebres e intocáveis instituições nacionais está sendo atacada e o que é pior, comentada, em todos os bares de beira de estrada de barro. Parece que o patrimônio da música e da elegância do Brasil errou. Digo parece porque não tenho nada a ver com as mulheres que ele beija ou deixa de beijar, cabendo a mim apenas o incômodo papel de invejoso nessa história. E enquanto o marido da morena pede que o cantor vá procurar mulheres de idade semelhante ao portador da voz chinfrim numa clínica geriátrica, as revistas de fofoca e os canais de televisão especializados no que todo mundo gosta, mas poucos admitem - a vida alheia - faturam horrores com o esfacelamento da suposta descrição e timidez do eterno em vida, Chico Buarque. Ontem mesmo, minha namorada disse que se sentiria realizada se o casal Chico Buarque e Marieta Severo fizessem as pazes e voltassem àquela vida feliz de outrora, quando as filhas eram pequenas e não havia nenhum Carlinhos Brow para torrar a paciência. Volta e meio faço um exercício pessoal, que é a tentativa de compreender o outro. A técnica baseia-se na não explosão de fúria diante de algumas declarações alheias. Tentar apenas compreender, e se for mais ousado, entender, o que o outro quer dizer. No caso da minha namorada, não explodi porque ela está se recuperando de uma crise alérgica violenta, e ainda está doentinha. Mas até agora não entendi a plena realização dela diante da volta do casal. Sério mesmo... Mas vamos lá. Outra instituição nacional que está sendo bombardeada diariamente - há décadas, diga-se de passagem - e que voltou à cena ontem com uma declaração fabulosa do seu presidente, foi a Câmara dos Deputados. Severino Cavalcanti, presidente da Câmara, simplesmente vai a público e diz que a Câmara não será mais "supositório" do poder executivo. Ora, se o terceiro homem na escala hierárquica da federação dá uma declaração dessa, não vejo porque existir mais qualquer teoria dos três poderes independentes. Severino é o filósofo da política nacional. Nunca, na história desse país, alguém se atreveu a jogar as cartas de maneira tão sincera e, até diria, inocente. No caso de Severino, também não tenho nada a ver. Sou apenas um cidadão e como tal, devo me resguardar ao direito de ser obrigado ao voto a cada ano com terminação par. Como falam que a situação vai se resolver algum dia através do voto, estarei aguardando o próximo noticiário em época de campanha mostrando um velhinho que faz questão de votar, apesar da idade avançada e da desobrigação do ato; e um adolescente de 16 anos que tirou seu título porque segundo o mesmo seu voto pode ser decisivo. Que ataquem todas as instituições nacionais: Chico Buarque, Congresso, etc. Mas não mexam na propaganda eleitoral gratuita. Essa sim faz de nós o que verdadeiramente somos. Brasileiros. postado por: RODOLFO TORRES 7:48 PM Comments: Sábado, Março 12, 2005 Conflitos em África Pouquíssimo tempo atrás, cerca de dois anos, comprei num sebo perto do Memorial Câmara Cascudo um livro de crônicas políticas do jornalista Newton Carlos sobre as ditaduras militares na América Latina. Para quem não conhece o jornalista citado, ele é um dos maiores especialistas da imprensa em política internacional, já foi editor de não sei quantos jornais, trabalhou na extinta TV Manchete e agora retornou à Folha de S. Paulo, onde escreve quinzenalmente. Newton Carlos viveu os golpes militares que assolaram esse continente, como correspondente da imprensa brasileira nos países que foram tomados de assalto pelos militares comandados diretamente pela Casa Branca. Já relatei inúmeras vezes que prefiro o imaginário, mas tem horas que saber do que se passa é bem instigante. Até porque teremos a total e plena certeza de que nada poderemos fazer, e que sendo dessa forma, a realidade nada mais é do que um campo chato e de gente frustrada. Fiquei de escrever para o mestre do jornalismo internacional brasileiro, mas fui adiando, adiando, até ele escrever novamente sua coluna na Pensata da Folha. Pode ser falta de conhecimento minha, petulância, ou qualquer nome depreciativo que queiram dar para mim; mas desde que vi uma entrevista de um embaixador brasileiro falando sobre a África, vi o quanto o jornalismo internacional tem de ser melhorado. Em primeiro lugar tratamos aquele continente de forma uniforme. Para nós, inexistem nações, culturas, povos distintos. Se é da África, é a mesma coisa. Com exceção da África do Sul, que foi colonizada pelos ingleses e aparecem vez por outra nos filmes; ou do Egito, que tem lá seus monumentos, e que também aparece nos filmes, o resto é tudo igual. Estou agora de cara com uma matéria da Reuters, falando das 10 "crises esquecidas" do planeta. Logo de cara me deparo com três nações africanas: Congo, Uganda e Sudão. Depois mais três: Libéria, Costa do Marfim e Serra Leoa. Como a intenção desse texto não é a transcrição da matéria, mas a afirmação de que se recebemos vasto material da imprensa diária sobre os conflitos no Oriente Médio; porque não recebemos, nem no formato de reportagem especial semanal, um panorama dos conflitos num continente que é tão íntimo do nosso país? A imprensa descrimina conflitos absurdamente sanguinários. E se é o sangue que dá audiência, porque também não mostrá-los. E por essas, e por outras, que fico com o lúdico, até para não ficar amargo de novo. E só mais um dado para confirmar a nossa ignorância em África, a cada 30 segundo uma criança morre de malária naquele continente. E nós, apenas revoltados com o Iraque... postado por: RODOLFO TORRES 6:36 PM Comments: Quinta-feira, Março 10, 2005 As vestidas Não é questão de ir contra a maré, nem tenho a intenção de causar polêmica, até porque o que penso é quase senso comum, apesar de muitos ainda não percebê-lo. Estou com o olhar entediado. E não é qualquer tipo olhar. Do mesmo modo que alguns artistas se cansaram de ver o sol nascer, e ainda se cansam, estou entediado de ver o corpo feminino com pouco pano. Como diria Nelson Rodrigues em 1968, "os jovens conhecem o tédio antes do desejo". E o mais grave nisso tudo é que meu tédio não tem volta, até porque a tendência é o aumento da exposição do mesmo produto, com várias faces. Como disse Lúcifer no filme "A última tentação de Cristo" de Martin Scorsese, "existe uma única mulher, com várias faces". E eu que sempre procurei acreditar no individualismo das mulheres, tenho que ceder às palavras do senhor da escuridão e concordar com ele. Hoje em dia, só existe uma mulher, com várias faces. Algumas hão de pular, de se debater, se por acaso entrarem em contato com essas linhas. Mas no papel de homem, posso dizer sem nenhuma vergonha que a figura da mulher no imaginário masculino está intimamente relacionada ao mistério. Sem mistério, a figura da mulher fica meio capenga. O corpo da mulher deveria ser um mistério permanente para os homens, até mesmo para os mais experientes, que viveriam de saudades. É uma forma horrenda de burrice, até das próprias mulheres, saírem por aí mostrando suas formas. Certa vez Fellini disse que o importante não é a mensagem, mas a espera da mensagem. O ato de esperar o que está por vir é mais prazeroso do que a vinda de seja lá o que for. Então já que todo mundo já sabe o que encontrar por baixo das roupas de ambos os sexos, vamos fingir que dá para voltar à costumes mais tradicionais, mais antiquados, ou até como alguns possam dizer, "mais de direita". Tenha lá o nome que for, vamos parar de nos despir de forma urgente. Ainda sonho em andar pela praia e ter o prazer de imaginar como seria o corpo das belas mulheres que passariam vestidas num trajes que só alimentariam a imaginação. Nenhuma teria defeitos estéticos contemporâneos como a celulite, não existiria a compulsão pela forma, as academias fechariam, e a paranóia feminina seria menor. Elas não mais teriam que se preocupar com as medidas. Isso ficaria sendo responsabilidade da imaginação masculina. As vestidas teriam apenas que desfilar, fazer de conta que não sabem que estão sendo desejadas e soltar aqueles leves sorrisos de timidez quando ouvissem um gracejo. Seria ótimo trazer de volta às roupas para as mulheres. Até porque a realidade é muito desinteressante, e o resultado final do contato íntimo entre os gêneros é sempre o mesmo. Sempre. postado por: RODOLFO TORRES 8:46 PM Comments: Quarta-feira, Março 09, 2005 Rotina de aranha Outra noite, precisamente no Rio de Janeiro, escrevi a favor da rotina. Sim, a rotina é que torna tudo possível, inclusive a poesia e a percepção do belo. Não concebo essa revolta exacerbada contra a rotina que tanto se prega por aí pois sempre nos apegaremos a ela. Quando finalmente chega o nosso solitário momento diante do espelho, suplicamos pelas conveniências da rotina, e que tudo seja sempre daquele jeito desejado. Até porque a noção de felicidade que carregamos desde os primeiros anos de vida, é uma noção rotineira. A casinha que solta uma fumaça preguiçosa num campo cheio de verde ao lado de um lago pacato e límpido. Uma mulher carinhosa e filhos amáveis. Sim, a felicidade é projeção da rotina. Se bem que falei de rotina mais para exemplificar o caso de um pobre inseto frustrado. Esse inseto fracassado tem em comum comigo uma fobia, que é o medo de altura. Mas não é bem medo, e tem psicanalista dizendo a mesma coisa por aí. Na verdade é um desejo profundo de mergulho, de sentir o vento na cara aumentando estupidamente até que não sentiremos mais nada. Aquele que tem medo de altura na verdade passa por um conflito interno violento. A razão diz que não pode e o resto diz "acaba logo com isso". E do mesmo jeito que eu não suporto altura, que tenho verdadeiro pânico da distância do chão (e uma pitadinha de vontade de me jogar do alto), a aranha que mora no banheiro daqui da minha casa também tem. Não que eu não tenha tido oportunidade de matá-la, mas é que pratico ensinamentos budistas para com insetos que não me causam medo, nem nojo. A pequena aranha é um desses casos. É até bonitinha... e por que não dizer inocente? Todo despertar meu é a mesma coisa. Vou ao chuveiro e ao cruzar a porta, sempre arrebento com a canela a teia que ela teceu durante a madrugada. Todo despertar é assim. E não é que seja desagradável, até porque não tem cheiro e sai logo no primeiro contato com a água, mas toda aranha que se preze constrói suas linhas brancas em alguns locais mais reservados. Além do fato de que quando são interrompidas uma única vez, não mais traçam os fios alvos por lá. Mudam de lugar. Ao passo que a pequena além de medrosa, é teimosa. E todo despertar meu é assim... Se achar uma terceira característica em comum com a aranha, não sei o que farei. Provavelmente esquecerei os ensinamentos de Buda e vou tratar de eliminar a concorrência nessa casa. postado por: RODOLFO TORRES 5:49 PM Comments: Terça-feira, Março 08, 2005 Braga ou Fonseca Se quiseres que teu filho seja escritor, podes começar pela escolha do nome, e sugiro Rubem, não Rubens, e sim Rubem. Nada contra os Rubens, mas os Rubem que conheço, Braga e Fonseca, são simplesmente geniais. Já li o nosso patrono (Braga), bem como Rubem Fonseca. Aliás, no momento estou me deliciando com o livro ¿64 contos¿, de Rubem Fonseca. Ao contrário de Rubem Braga, que escreve com leveza e simplicidade, o Fonseca tem uma literatura pesada. O prefácio do livro ¿64 contos¿ é escrito por ¿Tomás Eloy Martinez¿, que eu desconheço, mas achei interessantes os seus comentários sobre Rubem Fonseca. Sintetizando, os seus personagens em sua essência são maus, mas isso passa a ser quase que uma virtude pelo modo como as coisas se desenrolam. Seria quase um Nelson Rodrigues, com menos perversão e mais maldade mesmo. Outros escreveram personagens maus, mas ninguém escreveu como Rubem Fonseca. É tanto, caros confrades, que já tenho a idéia para o meu primeiro conto. A estória é simples. Uma mulher de meia idade, recém-casada, extremamente bela, morando numa cidadezinha do interior (pois aí é que os escândalos atingem proporções monumentais), por motivos que não vem ao caso agora, passa a se drogar compulsiva e ferozmente, o que a leva rapidamente a um estado de degradação física e mental lastimáveis. A minha única dúvida ainda está no comportamento do marido. É certo, meus amigos, que ele a ama, e muito. Mas pode se comportar: 1)Estilo Rubem Fonseca: Vendo a sua amada desmoronar, também se droga, com ainda mais ímpeto, e aquilo, que aos olhos estupefatos da cidade é degradante, passa a ser perfeito, e o casal consegue a tão sonhada harmonia conjugal, em uma união feliz e estável, regada a muita heroína; 2) Estilo Nelson Rodrigues: O sofrimento do marido passa a consumi-lo, ao mesmo tempo em que aumenta o seu amor e desejo por ela. Essa proposta me agrada mais, devo confessar, penso até em um diálogo, com a mulher chegando em casa as 4 horas da manhã, após uma noite de drogas e orgias, com o marido, sentado a sala. A mesma o ignora, cospe em sua cara e vai dormir. Ao acordar, arrependida, pois ela o ama, corre para pedir-lhe perdão e prometer não mais o abandonar . O mesmo, chorando sem derramar lágrimas, pois não as tem mais, sentencia: - Não prometa o que não podes cumprir, só me prometa que sempre voltarás para casa. Está aberta a votação ... Do aditor GustavoGT Natal 08/03/05 postado por: RODOLFO TORRES 8:18 AM Comments: Segunda-feira, Março 07, 2005 "Tio" Douglas Ainda procuro o segundo livro de uma coleção de três volumes sobre língua e literatura para o segundo grau. Na verdade, foi o prêmio numa gincana escolar que um primo com nato talento para dança ganhou e, sendo honesto consigo mesmo, falou que não usaria aqueles livros chatos e resolveu me passar a iguaria. Vez por outra eu ainda vou a esses livros para tirar algumas dúvidas básicas da nossa complexa forma de expressão verbal e escrita. E diferente da grande maioria dos livros de português e literatura, esses livros sempre me recebem com um "seja bem-vindo". Sempre me sinto à vontade para usar de toda a minha ignorância, sem que com isso me sinta diminuído. Tenho pelo autor desses livros, Douglas Tufano, um verdadeiro sentimento de gratidão. Mesmo antes de estudar as escolas da literatura e os ensinamentos da língua no segundo grau, encarei análises sintáticas munido apenas de uma gramática de Douglas Tufano, que tem uma bela capa, na qual um homem corre na beira de uma praia num crepúsculo desconcertante aos olhos. Assim como Melhen Adas, autor de livros de geografia, Douglas Tufano subia o nível da explicação ao nível dos alunos. Aquela figura que se portava diante da sala para prováveis esclarecimentos era apenas um complemento para a voz escrita nas páginas. Não o sacerdote incontestável dos números frios, das fórmulas acabadas e dos deuses raivosos. Acho que foi o primeiro autor que ensinou português com exemplos de pessoas que apareciam na televisão de vez em quando, ou que eram vivas enquanto os pequenos leitores nasceram. Não mostrou que a língua é algo exclusivamente próprio dos salões machadianos de três séculos passados. Como sei que meu abraço não será concretizado, tento fazer dessas linhas uma extensão dos meus braços, e que de alguma forma elas se tornem circulares, rodeando aquele que me mostrou que os vivos, ou os recém mortos, também fazem literatura. Para Douglas Tufano, autor de livros de português para as crianças brasileiras, vai o meu abraço em forma de texto. E se tudo transcorrer pra lá de bem, ainda terei o abraço de um Manoel de Barros. E que delícia de abraço. postado por: RODOLFO TORRES 6:19 PM Comments: Sexta-feira, Março 04, 2005 Comei Fico contente quando chega pão quente. Daqueles pães do supermercado que é nosso, genuinamente nosso (menos meu). Ah, o pão do Nordestão é um pão feminino. Tem um prazo curtíssimo de validade. Quando chega à mesa para o jantar, tendo sido feito às 17 horas, nada há de se comparar. No outro dia, já não carrega mais consigo o frescor da juventude. Agora é um pão ranzinza, rabugento. Se os padeiros do Nordestão fossem poetas, não deixariam que fossem vendidos mais de três por residência. Com o compromisso do comprador de consumi-los imediatamente. Pão do Nordestão saído na hora, uma carícia feita de trigo, uma celebração cotidiana, apenas cotidiana, da arte de se fazer o pão. Numa mesa às vezes silenciosa, encontro conforto no pão macio e com a casca grossa e torrada, num café forte, no leite vendido no saquinho. E como é especialidade da vida trazer sofrimento aos que a têm, terei de me acostumar com aqueles adoçantes em gotas, que sempre amargam no final da garganta e nunca honram o conceito de doce ao nosso paladar. Em pouco tempo estarei novamente em contato com um pão que será desfigurado amanhã. Um dia é suficiente para torná-lo capenga. Mas hoje ele trará a leveza das horas pós-forno. E só reforçará minha mais profunda convicção, de que o amanhã sempre pune. Irá punir ainda mais os que guardam sua fome. Punidos seremos todos, famintos muitos, desgraçados tantos, degradados vários; apático, eu. postado por: RODOLFO TORRES 6:20 PM Comments: Quinta-feira, Março 03, 2005 Pregando para quem nem existe Nunca fui, com orgulho, exemplo ou referência de inteligência para ninguém. E tenho certeza de que a admiração degrada o admirado, exige-lhe uma postura engessada para os seus admiradores, que nunca cansam de praticar esse ato impiedoso para o seu objeto destinatário: a admiração. Sempre fiz questão de me abster dos elogios. E até hoje,sempre que eles ocorrem, faço questão de me esquivar. Quando sou insultado, é mais confortável. Dá até uma certa nostalgia remoer velhas mágoas nos baús da memória. Mas nesses dias comecei a imaginar histórias infantis, para o público mais sincero e, portanto, mais cruel que existe. Deve ser prazeroso ser o suporte para a imaginação da molecada. Deve valer mais a pena do que apenas confirmar os males às gerações que estão condenadas à tristeza. Enquanto bebia, pensei que convidamos errado. Quantas vezes um amigo disse: "Vamos beber?". E eu ia. Chegávamos ao local, bebíamos e porventura conversávamos. Da última vez, aconteceu o mesmo. Silêncio por muito tempo entre amigos reunidos. Até que me veio a noção de que a bebida, que é tratada como um fim, deve ser considerada um meio. Não devemos convidar uma pessoa querida para beber. Convidemos para ficar junto de nós. Se tiver bebida, que provavelmente terá, ótimo. Mas não tratemos um meio como razão principal. Sei não... Sempre entro em contradição. Creio que o álcool já foi melhor utilizado. Hoje, no máximo, a cerveja é um repelente da tristeza. Eis a sua mais nobre função. Funções etílicas à parte, queria que as crianças que ainda não nasceram me ouvissem. As que já vivem não podem mais apreciar os caminhos. Ensinam-lhes a admirar o desembarque, não a trajetória. Meus pequeninos, tenho algumas coisas pra lhes dizer. A primeira é: obedeça (mas não creia) em quem tem o dobro do seu tamanho. As sementinhas que lhes geraram talvez não estivessem repletas de amor, mas isso não é motivo para desapontamento. Até porque na pior das hipóteses houve um desejo, que é o amor enquanto criança, que nem vocês. Quando estiverem aprendendo a andar, não se apressem. Durante toda a vida, vocês, inúmeras vezes, vão desejar a inabilidade de caminhar. Pois alguns momentos são tão bonitos que parece que a vida tem ciúmes da nossa alegria e nos obriga a andar. Não aprendam a caminhar depressa, e nem tão bem. Guardem um pouco do andar desastrado para essas situações. Resgatem as serenatas. Exaltem a beleza de forma bela. Não se apressem em concretizar o amor. Na verdade, o amor não é concretizável. Enganem o amor o máximo que puderem. Façam poesia e conheçam primeiro o desejo. O tédio chega inevitavelmente. postado por: RODOLFO TORRES 2:30 PM Comments: Quarta-feira, Março 02, 2005 Faroeste Cabloco II Das grandes amizades que construi após cinco anos em São Paulo, duas com certeza estão em Brasília no momento, por méritos e merecimento, como pessoas e como profissionais. Peço permissão aos confrades para publicar o surto psiquiátrico de um deles (vulgo: a Lôra), relatado pelo Dr. Luis Gustavo, texto este transcrito na íntegra, sem cortes, conforme visto e relatado pelo Luís. Devido a força do conteúdo, tirem as crianças da sala. Contra-indicamos sua leitura aos cardiopatas e depressivos/compulsivos: "Vamos tratá-lo apenas como Mário. E ai de quem perguntar: que Mário ? Mário é um sujeito educado, aliás extremamente educado, do tipo que sempre usa expressões como com licença, por favor, mesmo que seja para fazer algo em prol do seu interlocutor. Além da educação formal, outro traço fundamental de sua personalidade é seu dinamismo no trabalho. Não consegue ficar parado, sem produzir compulsivamente. E, por tabela, acha absurdo que as pessoas ao seu redor o façam. Nascido em Ribeirão Preto, médico de profissão, lapidou essa característica no centro exportador de workaholics - São Paulo, onde viveu por dois anos. Acontece que, por ironia do destino (desculpem-me o clichê), surgiu uma bela oportunidade de emprego daquelas ditas irrecusáveis em Brasília, a nossa querida ilha da fantasia, famosa pelas cadeiras de trabalho vazias, ou melhor, apenas decoradas com um paletó enquanto seus donos colocam a conversa em dia nos corredores ou na copa, bebericando um cafezinho e já tramando o que fazer no próximo fim-de-semana, que começa pontualmente no happy-hour da quinta-feira. O choque foi intenso. Nosso Mário, já na primeira semana, sentiu na pele, ou como ele gosta de dizer, na adrenal, sempre constricta, produzindo adrenalina, as conseqüências daquele ambiente hostil. Logo que chegou, descobriu que sua sala não tinha computador, que havia sido solicitado ao setor de compras, necessitaria de aprovação do diretor, posteriormente tomada de preços, licitação, etc. O processo havia começado há oito meses e, tal como uma gestação, ainda não chegara a termo. Não se deixou abalar, levou seu computador pessoal para o trabalho. Descobriu, no entanto, que havia normas a esse respeito. O setor de help-desk teria que conectar seu computador à rede e instalar o programa anti-vírus. Bom, parece simples, pensou. Ligou para o setor: ora ninguém atendia, ora dava ocupado, ora o sujeito que atendia anotava a solicitação e dizia que em breve providenciaria. Após quatro dias de tentativas, sempre rodiziando entre as alternativas acima, finalmente apareceu o indivíduo da informática, Eugênio. Nosso Mário teve que se superar para manter a fleugma e educadamente cumprimentar o sujeito, agradecendo (!) pela sua chegada. Após 1h, Eugênio deu o veredicto: seu computador está com algum problema e não podemos colocá-lo na rede. Mário perguntou que problema era. Como resposta, recebeu um franzir de testa de Eugênio e um lacônico não sei. Mário não se deu por vencido, perguntou a colegas onde poderia resolver o dilema. Apontaram a feira do Paraguai como solução, tem de tudo lá, inclusive loja que conserta computador. Na segunda-feira, colocou o gabinete do computador em baixo do braço, quando ao tentar sair do prédio, foi barrado, suspeito de estar roubando um objeto da instituição. Teve que dar meia-volta e fazer uma solicitação para sair com seu computador. Após 4h, chegou a resposta e ele, enfim, conseguiu deixar o prédio. Ao chegar na feira do Paraguai, estranhou a pequena quantidade de pessoas na região, mas logo descobriu a razão. A feira não funciona às segundas-feiras. Cidade estranha, pensou desapontado. No dia seguinte, voltou e deixou seu computador. Dois dias depois e por trinta reais, resgatou o dito-cujo, agora sim, pronto para uso. A primeira coisa que fez ao chegar na sua sala foi ligar para o help-desk. Teve sorte, alguém atendeu. Solicitou para conectarem seu computador na rede, para que pudesse usar a Internet. Do outro lado da linha, disseram que era simples, mas que tinha que mandar um e-mail oficializando o pedido, regra nova. Mário, quase incrédulo no que acabava de ouvir, perdeu a paciência, e aos berros, disse que não poderia mandar o e-mail pois ainda não estava conectado à Internet. Assustado, o funcionário da informática recuou e disse que já desceria para resolver a situação. Quase bufando, Mário desligou o telefone e voltou-se para o computador. Após ligá-lo, a luz do gabinete piscou duas vezes e não mais acendeu. Sentiu um leve odor de fumaça. Com o coração acelerado, confirmou o que temia: o pessoal que consertara o computador havia trocado a chave para 110V. Mário ligou novamente para o help-desk: não precisa vir mais. Após desligar, permaneceu por alguns minutos em estado catatônico. Apenas um órgão do seu corpo parecia funcionar: a adrenal, sempre constricta, gotejando sua adrenalina na corrente sangüínea. " GustavoGT Natal 02/03/05 postado por: RODOLFO TORRES 10:47 AM Comments: Terça-feira, Março 01, 2005 Espécie de prece em prol do retorno do vento Uma cidade litorânea sem vento. Dizendo dessa forma, parece até que a queixa é contra a falta de vento durante o dia. Não é bem isso. Porque não se abre a janela mais próxima do leito antes de dormir sem a intenção de entrada de um rebanho bravo de ar que inunde de frescor toda pele suada. Sim, a pele que na ausência de vento se transforma na cachoeira de água salgada do seu dono a ponto de banhá-lo por inteiro de um suor que com o passar da noite ficará mais frio, a ponto de momentaneamente refrescar o ser suado. O lençol se torna úmido e é piscina rasa dos habitantes de toda uma cidade que por gerações soprou nos seus em seus sonos. Felicidade é uma brisa desobediente que duas vezes por noite faz carícia na pele dos submergidos em água e uréia própria. Só mesmo quem dorme imerso em seu próprio suor é capaz de admirar uma noite de vento constante. Mas não ligo o ventilador, mesmo reluzindo em contato com os primeiros raios da manhã, que também não traz vento. Nem chuva. O ventilador tira a solenidade de um momento de brisa numa madrugada que ferve, com árvores caladas. Usar tal aparelho é mentir para o corpo. Não quero aceitar que o vento também deixou Natal. O que deixava essa cidade habitável resolveu não fazer um percurso tão longo. Ficou mais perto de casa e agora brinca lá dentro do oceano, fazendo águas turbulentas e arremessando sereias às nuvens. Que o vento volte e trate de secar esses rios em nossos leitos, de cessar nossas cachoeiras. Que o frescor tenha novamente poesia, sem com isso aumentar a conta de energia. Que a brisa afaste de nós a nossa áurea porque a cidade do Natal sem vento é a filial do inferno. postado por: RODOLFO TORRES 10:57 AM
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