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Confraria dos Crônicos
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De crônica, não basta a vida! Comments: Segunda-feira, Fevereiro 28, 2005 Lindas palhacinhas A maquiagem das adolescentes que andam através das madrugadas pelas lojas de conveniência dos postos de gasolina está borrada de lágrimas numa face embriagada e jovial. Tanta tristeza das meninas bêbadas que tentam não ser daqui. E esse jogo é bastante perigoso, pois elas lutam contra o lugar e vice e versa. Por conta da umidade do ar excessiva, várias delas ficam com rosto de bolo derretido. Bem sei de que a intenção delas nas madrugadas das conveniências é mostrar sofrimento. Mas como é possível mostrar sofrimento com rosto de palhaço idoso num corpo rígido e de saias? Não, elas não pretendem ser moças divertidas, apesar de que todo sofrimento adolescente e voluntário tem seu lado cômico. Mas as moças estão se saindo bem no quesito interpretação. Ao menos percebo seus esforços em relação a isso. Madrugada em loja de conveniência. Ambiente refrigerado, iluminado, um oásis "open", numa madrugada de locais "close". Jovens, cada dia mais jovens, exercendo sua liberdade de consumo como a mais valiosa representação de liberdade. Como se liberdade não implicasse também em sofrer de forma individual, exclusiva. Quando nos dizem como devemos sofrer, tendemos a não fazê-lo em sua plenitude. Liberdade também é sofrer por demais. Um garoto me pede um dinheiro, atraído pelos produtos que estão atrás do grande vidro, dizendo que sua fome era grande. Entrego-lhe os centavos que tenho e ele sai em direção às meninas palhaças e sofredoras, que bebem no lado de fora da loja, naquela madrugada. O pequeno pedinte pára e olha as garotas. São várias. Ele observa e noto um tímido. Já me senti assim várias vezes, especialmente quando tenho que abordar alguém profissionalmente. A sensação é horrorosa. Ele conta as moedas que tem consigo e volta a observar as meninas tristes. Quando saí de lá, ele ainda estava parado, olhando para a mesma concentração de garotas mais velhas do que ele. Deve ter ficado admirado com tanta beleza, tímido por ter que fazer um pedido pouco agradável. Não sei o fim desse episódio, nem se ele foi às meninas ou não. Apenas sei que toda beleza é triste e todo sofrimento voluntário tem seu lado ridículo. E que as meninas com cara de bolo derretido das conveniências são engraçadas. Lindas palhaças que ainda fingem sofrer. Como numa preparação para o amanhã que não exige mais maquiagem, nem torna a face hilária, nem demora a aparecer. postado por: RODOLFO TORRES 4:03 PM Comments: Sexta-feira, Fevereiro 25, 2005 A falta de vocação da assombração Vou mais uma vez ficar só no meu quarto, que vez por outra tem desfile de fantasmas. Não são vultos covardes, que só permitem que os visualizemos quando entram num ambiente escuro, trajando aquelas roupas brancas, sem os pés a tocar o chão. Esses fantasmas são corajosos. Tenho que fechar bem os olhos e tentar ouvir meus pensamentos para que não ouça seus passos. De vez em quando um está chorando no banheiro, ou ao lado da cama cansado e esquecido de como se faz para se deitar e relaxar. Muitos moram em livros e existe até aqueles que sentam em cima da janela. Outra noite acordei com um ruído baixo, que sem explicação lógica me fez acordar. Era um ruído baixo e grave, que não deveria despertar ninguém, mas me fez levantar da cama e ir tomar água. Ao sair do quarto, encontro alguém pálido, perto da escada, olhando para os vidros que refletiam as luzes da noite. Falou que estava cansado. Apenas cansado. Não tinha talento para a assombração. Comecei a sentir dó da pobre alma. Falou que aquele sentimento que eu nutria por ele o fazia se sentir ainda pior. Pediu, com jeito, que eu voltasse para a cama e continuasse meu sono. Garantiu que eu não me recordaria de nada ao acordar, seria como se a conversa nunca houvesse transcorrido. Quis lhe fazer um monte de perguntas, mas notei que estava impaciente. Pediu mais uma vez, dessa vez num tom imperativo e meigo. Disse que eu deveria dormir para o meu bem. Ele não era bom em assombração, mas poderia se mostrar extremamente desagradável aos meus olhos caso eu não fosse dormir imediatamente. Antes de voltar para a cama, ele disse que eu deveria me assustar toda vez que aquela cena se repetisse. E que não poderia existir pena de minha parte. Eu deveria sentir medo. Fui deitar e logo adormeci. Pouco depois, senti um vento anormal em cima de mim. Era como se o ventilador estivesse há pouca distância do meu rosto. Deve ter sido ele, rodopiando em cima de mim, fazendo algum ritual para que eu esquecesse do que vi. O coitado era incompetente também em fazer os recém acordados da madrugada esquecerem o que viram. E ainda lembro de um comentário seu, dizendo que o cachorrinho daqui de casa é mal educado. E escandaloso. Tenho pena do meu medo. E horror do meu alívio. Meu olhar está quieto e a normalidade de tudo é o que mais me apavora. postado por: RODOLFO TORRES 5:18 PM Comments: Quinta-feira, Fevereiro 24, 2005 Pretexto para a não solidariedade O estádio Machadão, em noites de jogo, com aquelas luzes todas, fica ainda mais bonito, principalmente se visto de longe. Como eu vi, ontem. Andava pela BR, lembrando da morte da moça naquela mesma estrada, e vi o Machadão banhado de luz própria. E cabe aqui um esclarecimento. Soube da versão,digamos oficial, para a morte da moça. Os pais dela foram buscá-la numa festa num município vizinho. Já na volta, eles discutiam ferozmente, ao ponto de fazer o pai da moça parar o carro e começar a surrar a esposa diante da garota. Ela, desesperada, vendo sua mãe receber socos de punho cerrado, saiu do carro e foi buscar ajuda, na cegueira de toda grande pressa. Atravessou a BR e foi atropelada por um carro que era guiado por um jovem, acompanhado de mais quatro amigos, explicitamente alcoolizados. Essa é a versão oficial para a morte da moça, ao menos foi o que me contaram. Mas falava do Machadão iluminado. Estava contemplando o estádio luminoso quando próximo à uma passarela vejo muitas pessoas no meio da avenida. Logo me vem à mente a cena da menina morta, e creio se tratar de mais uma morte por atropelamento. Vários rapazes se encontravam à margem direita da pista, e formavam uma massa uniforme, em forma de círculo. Um ou outro estava na margem esquerda, e foi um desses que quase atropelei. Buzinava sem parar, para que os que estavam de costas aos carros se afastassem. Mas a massa circular da margem direita da avenida girava. Era estranho associar um atendimento dinâmico e giratório de populares a um atropelado. Alguma coisa não se encaixava. Mas tinha em mente o rosto da moça coberto por sangue. Só via isso! Quando me aproximo mesmo da cena, pude ver que se tratava de um espancamento. Um rapaz deitado no chão com uma camisa preta e vários de pé, chutando-o, com camisas vermelhas. Como era bom o tempo em que torcedores desses times chegavam juntos ao estádio de futebol... Mas um carro que estava precisamente atrás de mim salvou o rapaz. Uma caminhonete preta freiou em cima dos agressores, que saíram como baratas do pedaço de pão, quando ligamos a luz da cozinha escura. Era uma mulher que guiava, que salvou o torcedor do ABC da surra covarde. Continuei meu caminho no papel covarde que Deus me deu. Procurando justificar minha falta de ação por uma lembrança mórbida da moça com rosto em sangue. Se é que me faço entender. postado por: RODOLFO TORRES 6:15 PM Comments: Aperto Até por uma questão de honra tenho que lhes escrever, ainda não sei o que mas tenho que escrever, pelo simples fato de há tempo não tê-lo feito, e também por notar que só há um texto meu na página principal da confraria, e este é o último, prestes a ser engolido e mandado às profundezas dos arquivos após a publicação de mais um, apenas um texto. E já que ele vai, que seja por um texto meu. Não escrevo por pura falta de tempo, acreditem, minha vida anda corrida como nunca. É um aperto só. É tanto aperto que, por exemplo, não tenho tempo sequer para comprar um mísero par de sapatos. Acreditem os senhores que estou com um par de sapatos, dos mais sociais, para o meu dia-a-dia de consultório e plantões. Como de tênis ou chinelo (outras ferramentas disponíveis no meu arsenal momentâneo) não dá, e os outros sapatos e demais bugigangas encontram-se na mudança, vindo para Natal, em algum lugar do pacífico sul, o mais lógico seria comprar imediatamente um novo par. Este tal do sapato me dói muito no pé, ao final do dia. O mais urgente seria comprar outro, mas nem isso eu tenho tido tempo. Estou na fase de resolver três problemas e surgirem quatro no mesmo minuto. A situação é tão lastimável que estou me convencendo a suportar a dor, por pura falta de opção. Já estou até gostando de chegar em casa e tirar o sapato, pois se por um lado a dor encomoda durante o final do dia, a sensação de retirar os sapatos apertados ao chegar em casa é simplesmente reconfortante. Quem sabe daqui pra frente não passo a comprar sapato 39. Do aditor GustavoGT Natal 24/02/05 postado por: RODOLFO TORRES 4:40 PM Comments: Quarta-feira, Fevereiro 23, 2005 O cálido cineasta do apocalipse A paranóia vai retornar! Aliás, mais uma delas. O que não nos falta hoje, com esse estilo de vida sem futuro que levamos, é a tal da paranóia. Mas veremos ressurgir uma paranóia cafona, fora de moda, ultrapassada. Apesar de ser uma preocupação absolutamente coerente, até porque nossa vida (ou sobrevida) depende dela, nos últimos anos, principalmente com a queda do muro lá pelas bandas de Berlim, a coitada ficou esquecida. Foi abandonada, deixada de lado por questões menos tão catastróficas, como por exemplo o derretimento das calotas polares, que farão com que o nível dos oceanos suba muito até que nossos netos não tenham mais terra para pisar. Mas como a humanidade nesse ponto é brasileira, e deixa tudo para depois, a coisa vai ficando pior a cada dia, mas tudo bem. Apesar do calor insuportável que está fazendo em Natal, que é uma cidade privilegiada pela natureza (e só pela natureza), uma cidade que fica na esquina do país, com um oceano inteiro para se refrescar, por aqui se está passando por um período de calor e ausência de vento insuportável. Voltando ao tema do texto, a questão é bem simples. Eu rezo para que isso seja apenas sensacionalismo da imprensa. Vamos lá... O presidente dos Estados Unidos, George Walker Bush, assinou a autorização para que o seu país atacasse o Irã em Junho, daqui a quatro meses. Não sei se vocês estão por dentro dessa coisa de relações internacionais, mas o fato é que o Irã não é como o Iraque. O Iraque não tinha tecnologia nuclear. E o Irã tem a famosa bomba atômica. Imaginem o que seria um conflito nuclear nessas alturas... Logo quando o homem pensou que terminada a Guerra Fria, a humanidade passaria por vastos períodos de paz. Teremos que sobreviver a essa agora. E agora? Não sei se vocês também sabem, mas o Irã é o país que mais edita livros de poesia no mundo. Se existe a nação de poetas, essa é o Irã. Detém um cinema de excelente nível, apesar dos poucos recursos para as produções. A explicação para a qualidade do cinema iraniano talvez seja a larga produção de poesia por lá. Deve ser... E quando se fala em confronto nuclear, e cinema, não podemos deixar de citar um filme dos EUA que é uma verdadeira pérola. Eis que mais um filme de Stanley Kubrick volta a se tornar atual: "Doutor Fantástico, ou Como Aprendi a Parar de Me Preocupar e Amar a Bomba". Na verdade, é chato falar dos filmes de Kubrick porque eles têm aquela perfeição técnica toda. Sinto-me mais à vontade quando falo dos filmes latinos. Mas vamos lá... Engraçado como esse filme, até porque é em preto em branco, é o meu favorito de Kubrick. Nele, o diretor debocha de um confronto que poderia aniquilar a existência no planeta, ironiza a relação estúpida de poder entre as duas superpotências da época (URSS & EUA), parece nos dizer o quanto é patético a vida humana depender das decisões desses idiotas que estão no comando dos governos e das forças armadas, em todas as épocas, em todo lugar, para todo o sempre. Kubrick seria uma criança que brincava com um assunto que tirava o sono de bilhões de pessoas na Terra. Diria até que esse é o filme no qual o diretor adquiriu um espírito latino (seria possível isso?). Talvez seja por isso que eu goste mais desse filme. É engraçado ver como a guerra fria era estúpida. Um simples apertar de botão detonaria reatores nucleares que devastariam milhões de seres humanos em segundos. Kubrick tinha razão! Eis um assunto para ser ridicularizado. Mas agora a questão é outra. Só existe uma superpotência, as utopias estão enterradas e cheirando mal, o presidente dos EUA é louco e o cinema de hoje parece incapaz de brincar com a situação ridícula na qual estamos inseridos, a não ser com documentários cujo propósito maior não é a história, mas provar que o diretor é alguém engajado nas causas humanitárias e inteligente o suficiente para comprovar o óbvio. A situação está mais delicada para nós, nesse período de tempo em que estamos. Se realmente o confronto nuclear começar, melhor é sorrir, achar graça da estupidez, como Kubrick fez. É o nosso papel nesse jogo todo. Achar tudo ridículo, e tentar levar adiante seja lá o que for, ou o que chamamos de vida. postado por: RODOLFO TORRES 11:50 AM Comments: Terça-feira, Fevereiro 22, 2005 Dois casos rodrigueanos e verídicos Fulano era um homem trabalhador. Acordava cedo, tomava seu café da manhã quando o céu ainda estava escuro, andava muito até o ponto do ônibus, tomava ônibus lotado, comia marmita ou prato feito, sentia sono durante o início da tarde, saia do trabalho cansado, tomava outro ônibus lotado, andava muito até a sua casa e antes passava na padaria para levar pão e leite para o seu lar. O comentário geral dos vizinhos era de que aquele homem era um devoto do lar. Só vivia para o trabalho e para a esposa. Nada mais lhe interessava. Era até usado como referência de bom esposo e de bom comportamento pelas mulheres da vizinhança. Um verdadeiro modelo de marido. Algum tempo depois, numa dessas certezas sem provas dos que contam a vida alheia, Fulano descobre que sua mulher estava lhe traindo. Repetiu sua rotina diária, com um único detalhe. Ao invés de passar na padaria quando voltava do trabalho, passou num mercadinho. Comprou dois litros de álcool. Foi para sua casa. Sentou numa cadeira de balanço, e derramou sobre si mesmo o primeiro litro. Sentia o rosto frio, quando despejou o segundo litro nos braços e nas pernas. Tocou fogo no próprio corpo e saiu na rua gritando que amava sua mulher, ardendo numa chama que o consumiu em poucos segundos. * Cicrano namorava uma jovem mas não contava com a aprovação de toda a família. Era um daqueles típicos casos de romance adolescente. Todos lhe falavam que aquela moça tinha modos muito ousados, tirava muita liberdade com outros rapazes. Cicrano, cego de amor, continuou sua relação, cada dia mais fortalecida pela desaprovação dos familiares. Nas gafieiras, onde geralmente passavam o domingo à tarde, o escândalo era regra. As moças da família de Cicrano falavam que ela não o amava, que suas atitudes eram absolutamente reprováveis enquanto moça séria. E o moço continuava apaixonado. Até que num desses domingos de baile, a namorada de Cicrano alerta uma prima dele para as feições de outro rapaz que dançava no salão. Ela segura a outra moça pelo braço e lhe confessa, com ar malicioso, que estava com vontade de mandar um beijo ao atraente rapaz. No outro dia, reunião de cúpula da família para tratar do assunto. Decidiram que os homens deveriam sair com Cicrano para algum bar e lá, lhe contariam do episódio ocorrido. Não haveria homem algum nesse mundo que não ficasse com a honra dolorida num caso desses. Lá pelas tantas, descrevem o fato, com riquezas de detalhes, para Cicrano. E exigem uma atitude dele. Ele, que já estava chorando, diz, numa certeza fulminante: "Ela é melhor do que eu!". postado por: RODOLFO TORRES 2:58 PM Comments: Segunda-feira, Fevereiro 21, 2005 Ela partiu, eu passei Nunca saberei relatar um fato acontecido sem antes me sentir tentado a criar diálogos, cenários, expressões, vidas. Infelizmente esse caso que agora iniciou não terminou em vida. Na verdade, é um pedido de morte o que tenho para contar. Voltava para casa em plena BR-101 quando encontro luzes de ambulância, vários carros estacionados nas marginais e na própria pista, em ambos os sentidos, arriscaria até a dizer que uma centena de pessoas já se encontrava por lá. Com uma das faixas da pista interditada, todos os carros foram obrigados a reduzir a velocidade, e a seguirem no já tradicional cortejo da demência dos motoristas natalenses. Mas nesse caso havia uma razão para tal velocidade. Desligo o som do carro e me aproximo da cena. Logo ouço gritos histéricos de uma mulher que estava sentada no meio fio, desolada. Ela chorava compulsivamente, e de vez em quando soltava urros, nessas exatas palavras: "Eu segurei!". Sigo em frente, passo pela ambulância e encontro o corpo de uma moça deitado no asfalto. Seu rosto era sangue. Seu braço não estava numa posição natural. Resolvi olhar para o rosto dela, e sua face estava disponível para qualquer um que quisesse olhá-la. Ainda prosseguindo, curiosos abismados comentavam que a moça morreu na hora do acidente que envolveu dois carros. A batida foi tão forte que um dos carros atravessou o canteiro que divide as duas pistas da BR. Fui pra casa e não parei mais de pensar no rosto da moça colado no asfalto. Comentei com alguns conhecidos sobre a tragédia, até que um deles disse que a moça em questão estava no banco do passageiro do carro do pai, e estavam discutindo seriamente. Ela perdeu o controle de si, tirou o cinto de segurança e puxou com toda a força o volante do carro, que não estava com uma velocidade baixa. Seu corpo foi projetado para fora do automóvel. Segundo outros relatos, menos confiáveis, ela brigava com o pai por causa de um namorado. Sentiu que não mais valeria a pena respirar sem aquele que lhe guiava a vida em sentido. Morreu em conflito com a família. E encontrou seu objetivo no asfalto da 101. Mas as duas imagens que tenho desse ato são imagens de mulher. Uma deitada no asfalto. Seu rosto era sangue. Outra gritava, distante do corpo. Parecia que anunciava aos outros carros que se aproximavam o que iriam encontrar. "Eu segurei!". E nessa noite, aquele trecho de rodovia federal se encheu de dor. Pela morte da moça que brigou com o pai, quando esse dirigia, numa velocidade alta, ditando os procedimentos da garota, que encontrou abrigo no asfalto, que transformou seu rosto em sangue, olhava para todos os que passavam, inclusive eu. Que passei. postado por: RODOLFO TORRES 3:33 PM Comments: Sexta-feira, Fevereiro 18, 2005 O furto da fruta Quando roubava apenas frutas, tinha meu crime favorito. Do muro estreito do vizinho, pulava para o telhado de um pequeno quarto de despejos nos fundos da casa ao lado. E lá, nessas telhas cinzas com fuligens é que eu apanhava o fruto do meu delito. Minha preciosa cajá-manga. Quanto mais verde, melhor. Uma senhora que trabalhava na casa dos meus pais me dava apoio na realização do ato. De forma ágil, e com um saco plástico de supermercado, me esbaldava de tanto comer aquela fruta rara, e tão gostosa, e azeda, ao ponto dos dentes ficarem dormentes. No início dessa semana procurei por uma escada para novamente furtar a fruta, já que não sou mais um criminoso da ativa, estou sem prática. Irônico é como a vida nos faz crer que existe algo mais valioso do que os sabores da prática ilícita. Nunca me pareceu que existia algo que valesse mais a pena do que roubar cajá-manga. Quando retornava para o quintal de casa com uma dúzia delas, sentava na areia, e mastigava com força. De tão azeda que era, não raro era o fio de baba que molhava meu peito. A senhora que trabalhava na minha casa, e que me esperava, comia com sal. O caroço tinha uns fios, que mais parecia que se tratava de um caroço arrepiado. E assim fiz minha fortuna de menino, com aftas e dentes que ardiam ao vento. Se bem que sei porque parei de tirar essa preciosidade do vizinho. É que fui humilhado por ele na condição de ladrão. Estava em cima do quarto de despejos do vizinho, quando uma janela se abre, um homem se projeta para fora e diz que eu deveria tomar cuidado. Poderia tirar quantas quisesse, mas que tivesse cuidado quando fosse descer porque eu poderia me machucar. Minha condição de ladrão estava arruinada. Nunca vi se ter zelo por quem comete delitos. E nessa semana, com auxílio de uma escada, planejei retomar essa atividade por mais um dia. Questão de recordação. Mas vi que a planta não mais existe, o telhado talvez não me suporte e minha agilidade não é mais a mesma. Duvido também que se alguém me visse hoje em dia em cima de um telhado, teria para comigo palavras zelosas. Portanto tenho que inventar um novo crime bom para mim, para sentir aquele sabor de infração imberbe, de aftas muitas, dentes ardidos ao vento e uma leve dor de barriga. postado por: RODOLFO TORRES 4:25 PM Comments: Quinta-feira, Fevereiro 17, 2005 Eternos Um menino brincava sozinho num cenário com muitas arvores, muito verde, num final de tarde bem antigo. Não sei o seu nome, apenas vejo uma criança sentada na grama, cansada, iniciando sua tristeza. De repente uma coruja cai perto do menino, que se levanta rapidamente e na curiosidade dos cientistas foi pegar no bicho de olho grande e pio abafado. Como era um filhote de coruja, não sabia proceder diante dessas situações de queda de ninho. O garoto segura o bicho e de forma não intencional quebra-lhe uma das asas. E nota que a íris do bicho se transfigura. E aquilo não lhe saiu da mente por toda a vida. Formou-se médico anos mais tarde, e continuava recordando do menino que foi, quando fraturou a asa da ave, e os grandes olhos do bicho se transfiguraram para exprimir a dor física. Esse menino, cujo nome desconheço, estudou a íris humana. Ele teve a comprovação científica de que os olhos são a janela da alma. Que os males do corpo e da mente são refletidos na parte que abriga qualquer cor no olho. Ele foi um cigano da medicina, que lia os olhos de quem quer que fosse, e dizia quais eram seus males, até males futuros. Físicos e psíquicos. Sabendo dessa informação, desvendei que era a esposa de Elvis Presley numa capa de revista canadense. Ela estava ao lado da filha e da neta. Os rostos eram idênticos, as peles esticadas, maquiadas, com a luz certa, camuflavam a idade. Analisando apenas o rosto, não era possível saber quem era a avó ou a neta. Mas tinha o olhar. Enquanto a garota tinha o olhar ávido de vida, a avó, mesmo jovial na aparência, tinha o olhar dos cansados, dos saturados dessa rotina de respiração incessante, que sempre cessará, porque não há quem suporte encher os pulmões de ar e o espírito de tragédia. Ainda não inventaram a plástica do olhar. Quando o fizerem, Priscilla Presley pode voltar à juventude por completo. Exceto por dentro. Aí vão inventar a plástica da alma. Daí seremos eternos. Eternos idiotas. postado por: RODOLFO TORRES 4:41 PM Comments: Quarta-feira, Fevereiro 16, 2005 Hoje não é passado Tenho saudade de um tempo em que se dizia que sonhar não pagava imposto. Era menino na idade e tudo parecia tão longe de se concretizar. Meu maior divertimento nesse tempo era a janela do carro do meu pai. Via a vida passar lentamente. Aquela era a minha televisão. Nas viagens para Mossoró, ao lado dos meus irmãos que dormiam, tinha no meu lado um filme frenético, numa velocidade segura. Agora há pouco recebo um telefonema de uma senhora muito educada, perguntando como eu estou. Respondi que ia bem, na medida do possível. Ela então diz que já faz um ano que visitei o médico da visão, e me aconselha uma nova consulta. Aceitei, claro. O que eu seria sem a minha visão. Lembrei do mais belo elogio que recebi. Era garoto, de uns 12 anos, e estava no colégio. Como andava geralmente só, fui cercado por um grupo de meninas mais "velhas". Elas deviam ter uns 14 ou 13 anos. Olhei-as e elas apenas sorriam, mas não deixavam eu sair do círculo formado por seus corpos. Uma delas quebrou o silêncio e disse: "Você vê verde?". Não entendi coisa alguma, fiquei com medo. Uma outra disse: "Vamos trocar de olho?", e fez menção de que iria arrancar seus próprios olhos com as unhas longas. Acho que fiz cara de choro ou alguma autoridade escolar se aproximou, pois elas saíram rapidamente, e eu não desejei mais ser cercado pelas mulheres. Creio nisso ainda hoje. Nenhum homem deseja ser cercado pelas mulheres. Com aqueles risos irônicos, aquelas conversas de pé de orelha. Tudo isso nos fere. Vou ao médico dos olhos lembrando de Win Wenders, fabuloso cineasta alemão. No excelente documentário brasileiro "Janela da Alma", ele diz que gosta dos óculos, ele sente que sem os óculos o campo é muito amplo, enxerga-se demais. Os óculos são o delimitador da visão para ele. Nossa visão periférica já não serve para as mesmas coisas do cotidiano. Publicitários estudam como elaborar anúncios próprios para essa abrangência de visão. E, cegos como somos, sem nenhuma educação visual, educação do olhar, produzimos a mais extraordinária poluição para os olhos de que se tem notícia. Entra hoje em funcionamento o Protocolo de Kyoto. Países desenvolvidos se comprometem a poluir de forma fiscalizada. Haverá mercado de poluição. Caso o país não use o seu limite de poluição, poderá vendê-lo a outro que porventura queira comprá-lo. E assim caminharemos ao futuro de Huxley. Como é bom poder envelhecer sem motivos para saudades, sem vontade do passado, despertando diariamente e sorrindo, pensando, ansioso: "Menos um dia". postado por: RODOLFO TORRES 4:23 PM Comments: Terça-feira, Fevereiro 15, 2005 COISAS NECESSÁRIAS PARA UMA BOA VIDA Tem coisas que a gente tem que fazer um dia. Pelo menos uma vez ou duas na vida. Ler um grande livro bom do começo ao fim, como "Guerra e Paz" ou a Bíblia, puxar algumas brigas na adolescência (por motivo de mulher), roubar um beijo, fazer uma serenata, escrever um poema apaixonado (apenas um "se você não quiser ser realmente um poeta" mais que um é frescura), tocar um instrumento, escrever um livro, plantar uma árvore, comer até passar mal, beber até passar mal, ter um filho, fazer uma grande aventura, viajar por um longo caminho, passar o carnaval em Salvador... Algumas dessas coisas eu já tinha feito, outras ainda não tive chance ou me faltou competência, como puxar uma briga. Mas nessas férias, tive a oportunidade de realizar três desses feitos obrigatórios para uma vida que pode se dizer feliz ou pelo menos atribulada. Vim de carro de São Paulo à Natal, com passagem super importante por Salvador. Foram 3673 Km, regados a muita comida exótica, sol menos que o necessário, chuva mais do que se queria, e muita, muita conversa (só havia 5 CDs disponíveis). Comemos bem e mal, mas principalmente comemos muito. Todos os integrantes, em algum momento (nunca no mesmo período), passaram mal de tanto comer. Falamos até acabar o assunto ou faltar saliva. Gastamos mais que o previsto, mas infinitamente menos do que queríamos. Fizemos um pouco de tudo, inclusive nada. O ápice da viagem foi o carnaval de Salvador. Três dias na primeira capital do Brasil, correndo atrás do Trio, debaixo de muita chuva. Muita água em cima da cabeça e muita cerveja dentro. Além de toda a curtição ótima da viagem, foi muito bom conhecer melhor minha irmã e meu cunhado, que foram ótimos parceiros nessa loucura medida. Sem falar da minha esposa, sempre ótima companhia. Se você não conhece bem uma pessoa e tem vontade de conhecê-la, viaje com ela. Passe dez dias sobre as mesmas rodas e você saberá quem realmente ela é. Meus companheiros de viagem ficaram melhores agora depois de tê-la feito. Simplesmente vocês não podem deixar de fazer isso. Viajem! Ah! E se forem passar mal, recomendo moqueca. O agudo Bruno Magalhães 15/2/5 postado por: RODOLFO TORRES 8:32 PM Comments: Política sincera machuca a fantasia de um povo Nesse fim de semana fiz o queria ter feito há muito tempo. Assisti à trilogia do "O Poderoso Chefão", além de mais um DVD extra, mostrando entrevista, bastidores, essas coisas. E só o fiz por causa da Minha Carla, que é responsável pelos filmes que vemos. Passei o final de semana me sentindo um imigrante italiano nos Estados Unidos, querendo atirar em todos os desafetos, torcendo pelos bandidos, vendo por cima como o dinheiro vindo de atividades ilícitas controla todo o tecido social, e por aí vai. Um dos conselhos que o velho mafioso interpretado por Marlon Brando dá ao seu filho, interpretado por James Caan, é: "Jamais deixe que os outros saibam o que você está pensando". Esse é impossível para mim, afinal teimo em escrever e não tem como se esquivar de opiniões. Já não seria um mafioso italiano em Nova Iorque. Prosseguindo, vamos ao segundo filme. Logo no início, Michael Corleone, interpretado por Al Pacino sofre uma tentativa de extorsão por parte de um senador que minutos antes lhe concede um prêmio por ajuda ao sistema educacional do Estado. Como o mafioso se nega a lhe oferecer uma porcentagem da jogatina, o senador muda o tom de voz e se mostra áspero. Diz-lhe entre outras coisas que não gosta de sua gente, de seu povo, dos métodos corruptos da máfia italiana. Michael Corleone apenas o observa e lhe diz tranqüilo: "Política e crime é a mesma coisa". Isso foi apenas para tecer meu comentário sobre a eleição do novo presidente da Câmara dos Deputados. Com um número recorde de participantes (cinco), sendo dois do partido do governo (PT), dois do PFL e um do PP, pela primeira vez na história da casa a eleição de presidente foi para o segundo turno. O eleito foi o deputado do PP de Pernambuco, Severino Cavalcanti, que tinha uma proposta clara aos colegas de plenário. Se fosse eleito, aumentaria os salários e privilégios dos parlamentares. Apenas isso. Em outros tempos, ficaria revoltado, triste, deprimido, irritado, com tal postura dos políticos. Mas vendo a trilogia do filme, pude ver o que não tinha antes visto. Um verdadeiro documento de como as coisas são feitas, da forma que são feitas, ao contrário do que os bancos de universidade, professores, livros, teses de doutorado falam. Quando falo isso, alguém pode dizer que é um filme dos EUA, que retrata apenas a realidade de lá. Engano. É um filme universal. Lembrando desse fim de semana, entendo porque o deputado de PE foi eleito, e até consigo vislumbrar algo artístico. Afinal, se despir da carapuça de homem preocupado com os anseios da população e assumir tal proposta abertamente é algo louvável. Só é pena que nem exigimos mais que os nossos políticos sejam atores. Hoje eles falam o que pensam, e nem respeitam mais a nossa fantasia de ser representado por boa gente. Só queria um pouco mais de fantasia nos três poderes por parte dos que o representam. A forma como eles funcionam é imaginável. Mas ainda quero descobrir as coisas pela ficção. E não por declarações vindas de quem não quer mais ser o representante bem intencionado de um povo. postado por: RODOLFO TORRES 6:14 PM Comments: Segunda-feira, Fevereiro 14, 2005 Barba verde dos muros dessa viela Voltava para casa e subia a ladeira bem devagar, com uma preguiça boa. Sentia-me calmo e até um pouco conformado porque tinha nas mãos um saco com pão e na outra um leite, também ensacado. O café estava sendo preparado no início da manhã e a passarada ainda falava mais alto do que todos. Aprendi que essa é a hora boa de se tomar o café. Apenas ouvindo o canto desses bichinhos, soprando na xícara quente e bebendo aos goles miúdos. É quando me vem a nostalgia de uma vida mais simples, mais pacata. Se minhas ambições são desfocadas, a culpa é da sensação que sinto nessa hora. Algumas das casas dessa rua imitaram o nosso estilo de unir jardinagem e decoração, e também usaram uma plantinha que em pouco tempo prega em todas as paredes e concretos. Seu nome é Era, e o seu resultado visual é bastante agradável. Várias casas aqui dessa rua já têm suas fachadas verdes, assim como a que vivo. Passei anos sem notar isso. Não sei precisar quem iniciou essa plantação de Era nos muros dessas casas, mas tomo como ofensa ver essa apropriação de estilo. O verde é a marca dessa rua. Nas calçadas, árvores de grande porte fazem a sombra providencial do dia, e causam a penumbra macabra quando é noite. Duas delas formam um arco, já que seus galhos se unem, os carros passam por baixo desse encontro e qualquer caminhão traz à rua ganhos finos e folhas banham a calçada de verde. Vendo um muro antigo e mais extenso do que o padrão, apenas uma extremidade é banhada da luz amarelada dos postes. Duas árvores fazem sombra por lá, bem separas entre si. O resto da armação é totalmente envolvida por sombras, quando a luz do poste é maior do que o luar. Pobre parte de muro, sem receber luz amarela de poste antigo, ou de sol de sertão, ou da lua que suaviza as trevas do olhar. É a rua dos muros sem luz de lua. E com tanto verde, que protege alguns carros durante o dia da forte radiação solar, mas que torna tudo mais sombrio nas noites que demoram a passar. postado por: RODOLFO TORRES 1:23 PM Comments: Sexta-feira, Fevereiro 11, 2005 Terminologia Minha mãe caiu hoje no quintal, quando estava regando as plantas de lá. Enroscou um pé na mangueira e quando foi realizar um movimento de rotação sobre si mesma, desequilibrou-se e tocou o chão com sua face, no embalo da gravidade. Estava vendo algo na TV e minha irmã grita meu nome, dizendo que ela (mainha) havia caído. Esperava encontrá-la no chão, mas quando cheguei à cozinha, ela já se encontrava com gelo no joelho e no rosto. Pensei muita coisa num trajeto inferior a dez metros. Tremia interiormente, a respiração ficou mais difícil, as pernas mal me sustentavam e uma coragem súbita apossou-se de mim, tão frágil para socorrer fisicamente um outro. Mas fui mais guiado pelo grito da minha irmã. Era o único homem em casa, e como tal deveria tomar alguma atitude, mesmo com a emancipação da mulher na vida em sociedade, pois sei que elas cobrariam tal reação à altura. Chego à cozinha correndo e não queria ter que levantar minha mãe ensangüentada. Sou um amante do desconforto psíquico, e um feroz inimigo da dor física. Partilho com Oscar Wilde uma filosofia de vida. Não saberei reproduzir aqui a frase fielmente, mas o que mais valer no caso é a intenção. "Que Deus me livre das dores físicas, pois das morais eu mesmo me encarrego". E já me via carregando minha mãe cheia de sangue pelo rosto, com alguns ossos quebrados, e tendo de suportar seus gritos de dor. Era chegada a hora que tanto evitei durante a vida. Quando dou mais três passos encontro minha mãe com cara de criança que fez coisa errada. E guiado por sua feição infantil, num alívio indescritível, falei horrores para ela. Estranho jeito de demonstrar alívio. No velório do meu avô, fui expulso por não conseguir parar de dar risadas. O mais desconcertante era ver a cara de sofrimento dos outros, partilhar dessa dor e não conseguir parar de rir. Ria tanto que a barriga ficava doendo. Ria a ponto de envergonhar meus pais perante toda a família naquele dia, e me envergonhar perante toda a família para sempre. Quando tirava nota perdida no colégio, também desabava a rir como um aluno prodígio. A ponto do professor perguntar se eu queria que ele tirasse os poucos pontos que eu tinha, dando logo um zero, para acabar de vez com minha "felicidade". Descobri o termo para essa reação pouco convencional. Histerismo. Sou histérico. Pois fiquei aliviado quando falei horrores para minha mãe, que estava com gelo na face e no joelho, e com cara de criança que fez algo errado. postado por: RODOLFO TORRES 7:07 PM Comments: Quinta-feira, Fevereiro 10, 2005 Odores de galeteria E quando tudo volta à normalidade, eis que fui comprar um galeto assado, de beira de estrada, com aquele saquinho de uma farofa amarela deliciosa. Sempre ouvi falar que as pessoas com menos condições financeiras são aquelas que sentem maior prazer ao comer. Que o diga a feijoada. Mas não é isso. É que ultimamente tenho pensado em cenas para o vídeo. Tudo o que vejo, leio e escrevo tem a teimosa visualização de um roteiro. Já que a realização, principalmente nesse caso, é mais complexa, por enquanto fico com as palavras. E vi ontem mais uma bela cena na galeteria de beira de avenida, quando lá fui comprar um frango assado. Partindo da frase, acredito que de Manuel Bandeira, "O Brasil é feio, mas é gostoso", tentarei dizer que somos condenados por vida. O brasileiro é condenado por constantemente reprimir-se. Nada mais delicioso do que comer aquele frango assado com bastante farofa, na beira de uma praia, com uma cerveja bem gelada. Nada mais delicioso do que uma feijoada, uma panelada, picadinho de tripa, buchada, rabada, etc. Alimentos tão sem classe, tão pouco agradáveis aos olhos outros, tão deselegantes, tão brasileiros. Tão gostosos! Quando disse no início do parágrafo anterior que vi a cena, na verdade não vi. Visualizei a cena. Eis que um homem, já cansado de tentar não ser daqui, assume sua condição de algoz da estética e num gesto súbito começa a comer com as mãos o alimento que está diante dele, numa relação mais pessoal possível com aquilo que irá compor seu organismo num futuro breve e ajudá-lo a se manter vivo. Chorando décadas de lágrimas represadas, a carne que devora torna-se mais salgada com as gotas incessantes. Na sua face, a farofa amarela está retida pelo suor. Chora e come. E tendo a ciência de que a nossa tristeza é mais simples, ele retém seu soluço, e se acalma. Num espasmo gradual, ele volta a si, ao que sempre foi. E encontra-se sujo de corpo e com a alma em frangalhos. Um atendente vai ao seu encontro. Faz-lhe uma confissão generosa. "Não há do que se envergonhar meu senhor. Eis a contradição de tudo que por aqui se representa. De um lado a delícia. Do outro, o certo. Se puder dar um conselho, direi que a boa regra para o viver está na visita rara à delícia. Aos olhos dos outros. Já que eles exigem isso do senhor. Também". E mais uma vez alguém transcendeu-se, no meio à fumaça cheirosa das galeterias de beira de asfalto. postado por: RODOLFO TORRES 5:57 PM Comments: Sexta-feira, Fevereiro 04, 2005 A cotidiana quarta de cinzas Mais um carnaval se aproxima do começo. Eis a festa que altera o clima de um país com uma sede de alegria anormal. Dentro de poucas horas, milhões de brasileiros vão começar a festa que irrita os inteligentes. Já falei contra o carnaval. Até que percebi que meus conselhos são amargos. Por fim, não aconselho mais. Mais um carnaval começa, dessa vez sem meus conselhos, minhas vãs tentativas de mostrar a todos que tudo é uma quarta feira de cinzas chuvosa. E eis que sempre estamos arrumando as malas, apagando as luzes, trancando as portas e nos cumprimentando, naqueles abraços rápidos de quem não quer sofrer muito na hora do adeus. Tudo será festa nesses dias longos em que o sol e a nação se encontrarão nessas ruas mal tratadas, tudo será euforia, como tudo, passageira. Apenas a quarta de feira de cinzas é eterna. Nesse dia é que nos separamos, nos abraçamos, prometemos manter contato. Abraçaste-me tão forte que quase caio, pois sabias que não nos veríamos mais. Fiquei naquela calçada triste vendo o carro que lhe levava sumir e virar à direita depois do sinal. Fiquei lá ainda machucado pela força do teu abraço. E querendo que essa dor não sumisse, pois depois viria outra ainda maior, que não era física, e ao mesmo tempo sim, machucava o corpo todo. Não vou dizer que tudo é uma quarta de cinzas. Vou calar diante da explosão de euforia, traduzida por quase todos como alegria. Não. A alegria com data para terminar já é um pouco triste. Desejo-lhes um carnaval sem a consciência da quarta feira de cinzas. Enquanto isso, aqui ficarei a lembrar do abraço que me machucou, que me feriu, para sempre. O teu abraço é tão presente quanto o término de qualquer alegria. Como a diária, a cotidiana quarta feira de cinzas. Para mim. Para sempre. postado por: RODOLFO TORRES 11:56 AM Comments: Quarta-feira, Fevereiro 02, 2005 "O vencedor" Outro dia estava no apartamento da minha querida amiga Tatiana dos Santos, em São Paulo, numa confraternização de colegas (e amigos) de trabalho, quando nem lembro quem colocou um CD para tocar. Era o "Ventura", da banda carioca Los Hermanos. Só lembro dela falando para mim: "escuta só a voz dele. Que voz doce!". Deixei pra lá e continuei a falar sobre algo pouco importante. O tempo passa e sempre lia críticas maravilhadas sobre o trabalho desses rapazes barbudos do Rio de Janeiro. E confesso que tenho preconceito contra a crítica generosa. E também sou guiado pela crítica raivosa. Quando falam que o trabalho não é bom, aí está o meu interesse. E geralmente estou certo. Até que hoje repeti um ritual, inconscientemente. Repeti exatamente o que tinha feito no dia do resultado do meu exame, no qual fui aprovado. Inclui-se aí não tomar banho, mesmo com o calor de rachar que está fazendo hoje. E me descubro um supersticioso, assim, como quem flagra um adultério. Subitamente. E fiquei meio sem jeito comigo mesmo, mas depois me perdoei e me aceitei com tal. Tudo isso para dar a minha contribuição no resultado do exame vestibular da minha irmã Samara. Já estava quase derretendo, quando vi a lista dos aprovados e infelizmente o sonho da minha irmã de ser médica terá de ser adiado por mais algum tempo. Nunca foi tão difícil dar um recado como esse. Tive que fazer um esforço para falar que seu belo nome não constava na lista dos aprovados. Mas justamente hoje, resolvi ouvir o disco mais recente dos Los Hermanos. E lá estava uma música que, na voz doce de Marcelo Camelo, trazia um recado bem dado, principalmente para mim, que não creio nas vitórias, nos êxitos, no sucesso. Consigo enxergar uma poesia obscena na derrota, na figura do fracassado. É essa a personagem que mais me agrada na encenação do absurdo da existência. E como uma característica marcante do fracassado é a contradição, aqui vou me contradizer fazendo o que já condenei veementemente. Aqui vai um trecho da música "O vencedor", letra de Marcelo Camelo. E, por último, queria dizer para minha irmã Samara, minha querida irmã, que seu sonho foi apenas adiado. E não se sintas fracassada. Esse é um papel que não me constrange, e pelo qual tenho muito ciúme. Não lhe serve. É apenas meu. "Olha lá, quem vem do lado oposto vem sem gosto de viver Olha lá, que os bravos são escravos sãos e salvos de sofrer Olha lá, quem acha que perder é ser menor na vida Olha lá, quem sempre quer vitória e perde a glória de chorar Eu que já não quero mais ser um vencedor levo a vida devagar pra não faltar amor" postado por: RODOLFO TORRES 2:57 PM Comments: Terça-feira, Fevereiro 01, 2005 Picolé de chiclete e a dor egoísta O homem gritava ao lado de uma fila imensa de famintos que o seu picolé custava apenas quinze centavos. Falava com a desenvoltura dos ambulantes brasileiros, que num gesto amistoso conseguem cativar a afeição de muitos e assim realizar seu objetivo imediato de venda. O brasileiro consome por afeto. É apenas questão de "ir com a cara do vendendor". Pouco importa se aquilo que está sendo vendido será útil, ou alimentará sonhos. Não temos dinheiro para implantar desejos nos nossos prováveis consumidores. Usemos então a simpatia, o bom humor. A piada também funciona. Ao anunciar os sabores que ainda dispunha em seu pequeno isopor a um mecânico baixinho e sujo, fiquei com vontade de comprar um de chiclete. E comprei. O picolé era sujo. Mas na hora esqueci as doenças de água suja que estavam me refrescando naquele pedaço de gelo no palito. Era num restaurante popular no bairro do Alecrim, centro de Natal. Uma fila que dava voltas em si na calçada. Lá dentro, comida para mais de mil de pessoas ao preço de um Real ( prato feito, suco e doce). Primeiro são os velhos que entram. Depois são os carteiros, militares, comerciantes, camelôs e mendigos. As pessoas estão tristes na entrada e sonolentas na saída. Para muitas delas, aquela é a única refeição do dia. Não raro é o momento da queda de um corpo na fila. Pela fome e pelo local abafado. Gastei quinze centavos num picolé de chiclete para relembrar o passado. Quando era criança, comprava picolé de chiclete na porta do colégio. Quando joguei o palito fora, no asfalto de uma rua do centro de Natal, estava na verdade voltando ao tempo em que não era tão difícil pedir socorro. Pedi socorro pelo que vi. E meus socorridos trocariam qualquer grito meu por um prato. Meus gritos são essas linhas. E como desejaria não gritar de dor por vocês, apenas por mim. Somente por mim. postado por: RODOLFO TORRES 11:11 PM Comments: Estão chegando Sei que eles virão, não sei em quantos, mas virão. Hoje ainda eles estarão aqui na minha casa, que é a minha casa só por mais alguns dias, mas ainda é a minha casa. Eles virão ainda hoje e sei que tenho pouco tempo. Tenho que ser rápido e ágil se quiser escrever estas tortas e desconexas linhas. Eles virão e após sua partida sobrará pouca coisa. Sei que virão e não demorará. Sento em frente ao computador e finjo que posso escrever calmamente, mas sei que não. Eles virão. Após poucos segundos ouço a campainha. Sei que são eles. A passos curtos me encaminho na direção da porta. Ao abri-la me dou conta de que são quatro. Educados porém sisudos, decididos a cumprir a sua tarefa no menor tempo possível, são ágeis. Após o bom dia de praxe corro para o computador. Sabia que eram eles. Vieram. Neste momento tento ser só eu e o computador, afinal tenho pouco tempo. Eles vieram. Tento mas não posso ignorar o barulho vindo da sala. Poucas palavras e muito barulho. São eles. Entre sons de marteladas e papelão rasgado escrevo estas desconexas linhas. Sei que me resta pouco tempo, afinal eles vieram. A concentração a esta altura já foi superada pela tensão. Sei que agora já não me resta tempo algum. Em minutos percebo que eles acabaram o serviço na sala. Dois se dirigem para a cozinha. O terceiro só anota, registrando talvez o meu desespero. Tenho pouco tempo. O que fazer afinal, nada ? ... não, não posso desistir. Tenho que tentar até o último momento, apesar deles. Eles estão aqui mas e daí? ... Sei que posso, ainda que por pouco tempo, mas posso. É isso. Posso, posso e tentarei até o último instante. Quando menos espero o quarto elemento entra de súbito na sala do computador. Agora realmente ele chegou. Olho meio surpreso, meio resignado. É ele. Sentenciando afirma, já se dirigindo para o computador: "Isso vai". Nesse momento pouca coisa posso fazer. Levanto da cadeira e permito que o rapaz da mudança embale o computador e leve para o caminhão. Agora só em Natal. Do aditor GustavoGT SP 29/01/05 postado por: RODOLFO TORRES 6:09 PM
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