Confraria dos Crônicos

De crônica, não basta a vida!



Comments: Segunda-feira, Janeiro 31, 2005

VELHA ESPONJA CANSADA

Acabei de fazer uma prova prática e a professora disse: Parabéns, você está pronto para fazer a prova de título. Na hora eu adorei. Fiquei radiante com o elogio e tudo o mais. Mas a alegria não durou nem dez minutos. Não queria estar pronto para a prova de título. Eu queria estar pronto para vida. Talvez eu até esteja, mas como eu vou saber! Acho que nenhum professor tem condições de dizer isso para um aluno. Talvez algum mestre Jedi ou samurai que passou a vida inteira com apenas um aluno saiba quando o seu pupilo está realmente pronto. Mesmo assim Obwan Kenobi se enganou em relação a Anakin Skywalker. Como é que alguém vai saber? Acontecem tantas decepções entre as pessoas que não há como se saber se alguém está pronto para a vida. Outra coisa; o que é estar pronto para a vida? É saber ganhar dinheiro? É saber cuidar de si e dos outros a sua volta? É saber onde encontrar a felicidade? Acho que é uma mistura dessas três e de outras coisas mais. Os filósofos pré-socráticos diriam que há três tipos de pessoas, fazendo analogia aos jogos olímpicos da antigüidade: os que vem para comprar e vender, os que vem para competir e os que vem só para assistir. Os espectadores seriam os filósofos. Os comerciantes são os primeiros e eu acho que vim para competir mesmo, já que não tenho paciência de ficar apenas olhando e não consigo nem vender meu celular para poder ir embora com mais dinheiro. Hoje é meu último dia como residente. A partir de amanhã não haverá mais ninguém para me dizer o que fazer ou assumir a responsabilidade por mim. Vou sair da concha protetora da universidade e cair no mundo. Hoje é meu último dia como residente, mas não como aluno, pois não dá para não aprender mais. Sempre vai existir algo novo para se absorver. Como uma esponja. Mas, ainda como uma esponja, estou ficando velho e meus poros absortivos de conhecimento já estão por demais preenchidos e já não são tão ávidos assim por novas informações. Acho que estou cansado, mas não morto. Preciso, inclusive, aprender a criar novos poros ou substituir os abarrotados por outros mais carentes. Preciso aprender a ganhar dinheiro. Preciso saber onde está a felicidade. Preciso cuidar dos meus... Preciso de tanta coisa. E tudo isso hoje, agora, para ontem. Não vai ser fácil. Nem eu queria que fosse porque não teria menor graça. Com já disse, eu sou um competidor. Tomara que esteja pronto para esse embate mortal que se chama vida. Ai de mim se eu não estiver!
O agudo
Bruno Magalhães
31/1/5

postado por: RODOLFO TORRES 11:54 AM


Comments: Leadiotice

Não sei se com vocês acontece o mesmo, mas sou tomado por uma vaidade boba quando acabo de ler um livro. Mais parece que concluí um "grande trabalho" de Hércules. Se bem que alguns livros (alguns não, vários!) são um martírio, uma penúria, um fardo de leitura. E o contraditório é que os livros depressivos, de autores depressivos, na sua grande maioria, não são desagradáveis. Ao passo que autores sãos, ou alegrinhos, e acadêmicos, são insuportáveis.
Tudo isso porque concluí nesse fim de semana mais um livro do genial Nelson Rodrigues. Já estou até com vergonha de citá-lo porque o pessoal pode achar que ele pensa por mim. Na verdade, já falei um monte de coisas aqui que não confessei que tive NR como inspiração. Outras vezes cito porque não tem jeito mesmo.
E posso dizer sem medo que o nosso maior dramaturgo também é o maior professor de jornalismo que já tive. Sem nenhum medo de errar, digo que Nelson Rodrigues é o maior professor de jornalismo do Brasil. Como isso é possível?
Outro dia estava na redação da revista Caros Amigos, num início de tarde qualquer, usando o computador que fica na frente da mesa do editor chefe. Vou pegar um café na cozinha e na volta confesso um grave defeito, um defeito hediondo, um absurdo profissional. Com a coragem que de vez em quando me ataca, digo para ele, sem mais nem menos, sem razão aparente, iniciando uma conversa dessa forma: "Posso lhe fazer uma confissão? Não sei fazer texto com lead!". Só para os que não sabem, lead é uma técnica para os textos jornalísticos criada pelos jornalistas dos Estados Unidos na qual o escritor tem que responder a seis perguntas fundamentais logo no primeiro parágrafo: Quem fez o quê, quando, como, onde e por que. É obrigatório fazer isso porque o leitor não pode perder tempo com devaneios pseudo-literários dos que escrevem jornal.
Na mesma hora achei que seria demitido por justa causa. É a mesma coisa que um médico falar para o seu superior: "Faltei a aula de pulmão e não sei para que ele serve" (como se o pulmão não fosse uma dupla). Para os jornalistas de hoje, é a mesma coisa. Se não sabes escrever nos moldes do lead, não serves para trabalhar com o jornalismo.
O editor tira os óculos, me olha atentamente e antes de pedir um café para ele diz que essa técnica é estúpida, coisa de empresário da imprensa dos EUA que desconsidera o prazer da leitura dos que compram jornal. O lead, segundo ele, seria a cretinização da escrita, o texto mais burro que porventura alguém possa realizar. Segundo Nelson Rodrigues, uma técnica que torna cada página de jornal "mais árida do que três desertos". Fiquei consolado, afinal o que se ensina na faculdade de jornalismo é o lead. E eu não o tinha aprendido.
Nelson Rodrigues, já na década de sessenta do milênio passado, traça comparações entre a imprensa na qual ele iniciou, na década de 20, e a dos anos 60, época de agitação em todas as áreas. Para ele, o adjetivo tinha morrido para os jornais, os repórteres não mais se envolviam emocionalmente nos fatos, os copy desk eram verdadeiras bestas, e a "fome de mentira" do ser humano estava sendo saciada pela televisão, nas novelas.
Mas o quero citar é a visita do Papa a Portugal. Numa imprensa completamente técnica, sem espaço para emoção, o Jornal do Brasil estampa, em primeira página, que o sol estava radiante nessa ocasião. NR diz que para a velha imprensa, o sol mais vagabundo era radiante.
Portanto posso dizer, munido de alguma experiência, e com a opinião compartilhada por alguns dos grandes do jornalismo nacional, que temos a obrigação de desaprender o lead. A técnica burra da escrita que torna tudo insosso. De quem escreve a quem lê.

postado por: RODOLFO TORRES 11:14 AM


Comments: Sexta-feira, Janeiro 28, 2005

O pires eletrônico

Quem se externa é um carente. Seja quem for. A simples necessidade de se expressar denota carência. Comunicação é, antes de mais nada, carência, medo de ficar só, o desejo de ser reconhecido. Falo isso porque nos corredores da faculdade de Comunicação, sempre alguém me aparecia com um texto, um poema, uma frase, numa espécie de mendicância de talento para a escrita. Geralmente lia os textos sem qualquer atenção, pois o que mais interessava era a figura do autor ao meu lado a roer as unhas, numa expectativa hilária. Sempre elogiava o que me era confiado, mas o fazia sem muita empolgação. O meu interesse era a carência do escritor ao meu lado. Sua produção era secundária.
Mas não pensem que apenas estudantes fazem isso. Já recebi textos escritos por profissionais renomados da imprensa nacional, para que o meu aval fosse dado. E lá estava a mesma cara de apreensão, a espera de uma opinião. De vez em quando olhava discretamente e a boca roia unhas geralmente sujas, com as extremidades escurecidas pelo acúmulo de suor.
Eu, por também fazer parte dos carentes que precisam se comunicar, não fico de fora dessa regra, que não tem exceção. Quem simplesmente fala é carente. Até os mudos o são. Como poderia logo eu ficar de fora disso. E fazendo uma análise de minha condição, posso aqui dizer de nariz empinado que esse espaço aqui é um pires eletrônico.
A figura do pires na verdade poderia ser substituída por um chapéu, boné, por aquelas malas em formato de instrumento musical; enfim, qualquer recipiente que consiga guardar moedas.
Na sorveteria Tropical, na Prudente de Morais, tem um senhor que toca violino e que também participou do excelente documentário natalense "Faces da Rua". Ele toca seu instrumento esperando a generosidade dos que por ali passam ou tomam sorvete (o melhor da cidade), traduzida em dinheiro, geralmente moedas. Aos que por acaso colocam o agrado na caixa do violino, ele faz um sinal de reverência e continua sua música triste. O estranho é que a música dele é tocada para dentro. Não consigo explicar isso, mas sinto que ele toca para dentro. Assim como algumas pessoas falam para dentro, ele toca violino para dentro.
Do mesmo jeito sou eu. Eu e todos que se externam num texto. Ficamos sempre aguardando a boa vontade dos outros. Como não sei tocar nenhum instrumento, e sou carente como qualquer um, venho por aqui quase diariamente. E escrevo sempre pensando em um bolero. Talvez quando eu decida qual instrumento devo tocar para acompanhar a melodia triste do bolero, pare de traçar linhas diárias. Até lá, o pires estará no chão de alguma esquina virtual, a espera de um agrado. E diariamente.

postado por: RODOLFO TORRES 2:22 PM


Comments: Quinta-feira, Janeiro 27, 2005

Anti-gravidade

Engraçado... Passei dois dias sem escrever, estou com assunto para mais de um mês sem nenhum sacrifício, e quando me deparo diante do teclado, simplesmente não sai nada. Mas a vida se encarrega de trazer assunto a toda hora para as linhas que traço de forma teimosa. Eis que surge uma ligação telefônica.
Mas antes, quero confessar aqui que criei um slogan para um grupo de amigos do meu bairro. É o seguinte: a grande maioria dos rapazes, em todas as épocas, sai para as festas e não raro consegue "roubar" um beijo de alguma garota que por lá esteja. Esses amigos do meu bairro não. Imaginem o que é sair com mais oito homens e nenhum sequer ter a coragem de sorrir para alguma menina que passa. Nem um mísero olhar. Simplesmente nós, eu me incluo também, aparentemente paramos no tempo. Tempo em que os meninos não falavam com as meninas. A questão é que essa falta de comunicação nos dias atuais nos causa vergonha, o que na época de garoto era motivo de orgulho. Os loosers, ou seja, aquele bando de barbudos tímidos, sem talento para puxar conversa com nenhuma mulher, envergonhados por vida, somos nós. Se bem que eu tenho namorada, então não sou tanto quanto eles. Se fosse uma garota, jamais queria me deparar com esse tipo de homem. A produção pode ser impecável, a beleza pode explodir os olhos de quem porventura mire um olhar na direção de quem a possuir. Mas a garota sairá frustrada, pois um mísero "oi" será impensável.
Voltando ao telefonema, era o meu amigo Rodrigo, o mestre dos loosers, para me informar que tinha deixado sua condição de perdedor pois ontem pediu o número de telefone de uma garota numa festa. Estava tão feliz que sua voz estava trêmula e podia imaginar sem dificuldade sua expressão de alegria, pelo simples fato de conseguir o que para ele deve significar as portas para um mundo extraordinário e mais belo, o mundo dos homens que conseguem beijar uma mulher que jamais encontrou na vida, numa noite de festa. Sou absolutamente contrário a esses beijos, mas sou numericamente insignificante. Não só numericamente. Sou completamente insignificante. A verdadeira posse é o beijo na boca, mas não esse beijo. A verdadeira posse é o beijo garimpado, esculpido, lapidado.
Como acredito em sinais do universo (li "O alquimista" e torço por Paulo Coelho), creio que essa atitude de Rodrigo será apenas o início de uma nova fase. Ele que passou quase trinta anos sem jamais pedir o telefone para nenhuma garota, é músico e nesses dias está para concluir seu primeiro disco, com composições próprias.
Não sou crítico musical, nem muito menos pretendo sê-lo. Mas ao ouvir uma das faixas desse trabalho autoral desse amigo, fiquei sinceramente convencido de que a sensibilidade musical está enraizada nele. Não sei se fará sucesso, afinal os dias de hoje estão confusos, e sucesso atualmente é mais sinônimo de falta de qualidade do que a confirmação da mesma.
Ouvindo a música intitulada antigravity, parece que por um instante as coisas iriam flutua. Os copos subiriam, as toalhas ficariam no teto, as cadeiram bailavam como aqueles astronautas nos vídeos da NASA. Tudo ficaria mais leve. É raro hoje em dia algo sonoro que nos faça flutuar. Ou querer flutuar. Ou sentir que por algum instante tudo ao seu redor vai se desprender do chão. Numa época que o chão parece que nem mais existe, ou que tudo está absurdamente amarrado, pesado e sem sabor; nessa mesma época surge uma canção que me fez imaginar uma sala com todos os objetos dançando no ar, com calma.
Aconselho, na minha insignificância, e como ex-baterista da banda dele, que tire a introdução apenas com a bateria. Que a música comece com todos os instrumentos. Assim, quem sabe, ele consiga mais números de telefone femininos.

postado por: RODOLFO TORRES 12:26 PM


Comments: Segunda-feira, Janeiro 24, 2005

A nova terra do sol nascente

Quando era menino, na casa de praia de meu tio Loiola, caminhando pela areia fina de Barra de Maxaranguape, ele disse que caso eu algum dia me perdesse, era só colocar a mão direita no sentido em que o sol nasce, e estaria inevitavelmente de frente para o norte. Assim como toda criança, perguntei o por que daquilo. Não era necessário saber a razão, apenas que eu decorasse aquilo. O grande problema é que sou canhoto na perna e destro na mão, nunca decorei qual o braço direito quando não estou com relógio, que uso no esquerdo.
Cheguei a pintar de caneta um sol no punho direito toda vez que saia para caminhar na praia, como se fosse percorrer distâncias continentais. Até que algum tempo depois soube numa aula de um professor do qual não me recordo o nome nem a fisionomia que o dia começava no Japão e terminava no Chile, ou mais ou menos no Chile. Para fins pedagógicos, acaba no Chile. A estrela ilumina primeiro o oriente, passa pelo centro do mundo, que é a Europa, e termina seu trabalho no resto da civilização, as Américas.
Compreendida a questão, o negócio agora era absorver as milhares de outras informações que o colégio Salesiano vomitava desesperadamente aos seus alunos. E não tive tempo de pensar nas possibilidades desse fato em nossa vida.
Mas Cascudo abriu meus olhos para uma outra possibilidade do sol. Quero aqui registrar que o colégio Salesiano fica a menos de 100 metros da residência de Câmara Cascudo, e nos dez anos que fiquei por lá, não lembro de uma vírgula pronunciada em relação ao maior nome do folclore nacional. Tínhamos que estudar a vida de padres italianos apaixonados pelas crianças desde aqueles tempos.
Cascudo cita que para os africanos que são banhados pelo Atlântico, o poente é no mar. Para os americanos do Pacífico, também.
Alguém que não esteja com o humor muito bom pode questionar a utilidade disso. Diria que talvez esse fato limite a nossa natureza poética. Sim, a natureza não foi absurdamente generosa conosco como se prega. Longe disso. Exigiria um poente no mar como tantos outros povos o tem.
Mudemos o sentido de rotação da Terra. Nosso primeiro fuso será o do Acre. Nosso continente será a nova terra do sol nascente. Mas pelo amor de Deus, façam, exijam, implorem que o mar seja o berço do nosso poente diário.
Sim, a natureza foi sutilmente cruel conosco. Soube com uma astúcia maligna nos colocar desacordados no encontro da luz com o horizonte. Os que estão despertos, não conseguem olhar para tal cena. A intensidade de luz é crescente. Não paramos porque os olhos doem . E logo o céu estará azul. Não! A natureza definitivamente não foi gentil conosco como se prega por aí. Falta algo. Uma luz de fim tarde que caia nas águas. A bola amarela no céu que se afoga todos os dias diante de nós.
Um poente no mar.

postado por: RODOLFO TORRES 10:48 AM


Comments: Sábado, Janeiro 22, 2005

Apelo

Parafraseando o título de um dos clássicos da música popular brasileira, inicio esta minha humilde e desesperada solicitação aos caríssimos confrades e agregados, até porque o apelo que vos farei tem tudo a ver com a música popular brasileira. Isto não é uma crônica, pelo menos escrevo sem esta intenção.
Estava em meio ao trabalho diário, quando de repente, não mais que de repente, ouço no som ambiente uma música maravilhosa. Tenho quase certeza que já a ouvi antes, mas como já ocorrera, foi como se só a descobrisse naquele momento. Uma melodia maravilhosa, mas não sei qual é a música, e preciso da ajuda dos confrades para localizá-la urgentemente. Para esta difícil missão, dispomos de poucas pistas, senão vejamos:
Quanto ao cantor/cantora, me pareceu inicialmente ser a maravilhosa Maria Betânia a interprete daquela pérola em forma de música. Não sei se pela emoção da descoberta, passei a ter dúvidas no decorrer da música. Por vezes achei ser Ivan Lins quem a cantava. Um dueto talvez? ... não sei. Saliento porém aos meus detetives amigos que existe a remota possibilidade de não ser nenhum dos dois.
Esperando não ser leviano, o título da música me parece um tanto óbvio, visto se tratar de uma homenagem a uma mulher. Portanto o título deve ser o nome desta, e aí começa o problema. A acústica do recinto, aliado ao meu estado vertiginoso, me impediram de registrar o nome com plena convicção. Se tivesse que apostar, diria: Dandara ... ou Dândara, visto que após o "Lá Lá Lá, Lá Lá Lá, Lá Lá, Lái ara" escutava-se um sonoro: "Dandara".
Algumas coisas me fazem, como esperto investigador, afirmar que a música não é por demais antiga. Cita-se que a nossa "Dandara" tem um tribal no tornozelo, sendo este inclusive um dos momentos mais emocionantes da música, no qual verti lágrimas de satisfação e emoção. Aliado a esta caracterização da personagem, afirma-se ainda, ou melhor, existe na letra a presença de um telefone celular. Não lembro se o celular era de Dandara, ou Dandara vendeu o celular, ou se Dandara ligou para um celular ... não sei. Sei que existe um celular na história, se não estou alucinando existe. Dandara de celular e tribal no tornozelo não pode ser idosa, no máximo uma adulta jovem.
Após expor-lhes as pistas, reforçando o meu apelo, aguardo o envio do nome da música e do cantor/cantora. Não ficarei chateado se for inclusive presenteado com uma cópia da justa homenagem a Dandara, a quem passo a admirar.
Do aditor
GustavoGT
SP 21/01/05

postado por: RODOLFO TORRES 10:25 AM


Comments: Despedida

Não sei me despedir. Reforço esta óbvia constatação agora que faltam poucos dias para deixar São Paulo e voltar ao convívio dos meus. O fato de não saber me despedir não me causou estranheza, mas não esperava que este sentimento aparecesse neste momento.
Descobri que não sabia me despedir há cinco anos, quando vim morar em São Paulo. Não falo aqui daquelas despedidas de "Tchau ... até amanhã", ou "Tchau ... te vejo semana que vem". Despedidas, daquelas que só sabemos que vamos, e não temos a menor idéia de quando, ou se, voltaremos, estas realmente me deixam sem chão. Há cinco anos, saí de Natal só sabendo que vinha, sabia que voltaria mas não sabia quando. Um mês, onze meses, era tudo uma incógnita. Não sabia nem onde faria a residência médica, se faria. Quanto tempo ficaria em São Paulo, se ficaria em São Paulo, se agüentaria. Não sabia aonde moraria. Sentimentos e dúvida justos, em se tratando de alguém que sai de sua cidade. Entrei na sala de embarque com os olhos cheios e o coração apertado.
Até há poucos dias tinha a plena certeza de que não sentiria isso novamente. A volta para Natal foi algo que sempre me fascinou, algo pelo qual sempre esperei com alegria. Porém hoje o meu sentimento é em alguns aspectos parecido com aquele em 2000.
Tenho alegria incontida, mas uma sensação de que algo também ficará por aqui. Fiz grandes amizades nestes cinco anos, convivi com pessoas maravilhosas e admiráveis, companheiros de angústias e exemplos a se seguir. Não citarei nomes para não ser injusto. Com certeza meu sentimento se deve as relações que construi por aqui, e não a cidade. Me despeço com facilidade do trânsito , da violência, dos pedágios, dos dez reais para parar o carro na rua, dos dias sem almoço, das duas horas para atravessar uma avenida, mas de algumas pessoas não.
Procurei, acho que com sucesso, encarar estes anos como uma temporada. Apesar de desejar, nunca coloquei a volta para Natal como o meu objetivo, e sim como uma consequência. Sempre encarei o tempo por aqui como muito curto para tudo o que eu queria, principalmente em termos profissionais. Talvez por isso o tempo tenha voado. E talvez por isso tenha conseguido sair satisfeito em termos profissionais. Não esperava tanto.
Deixo aqui então o meu Tchau a cidade de São Paulo, com boa sorte aos que continuam. Em relação aos amigos que fiz, não consigo dizer nada. Meus sentimentos em relação a esta despedida são confusos, me sinto no Aeroporto Augusto Severo embarcando para longe, e não para perto. A estes um caloroso abraço, e desculpem se não falo nada e me viro rápido. É que meus olhos estão cheios e meu coração também vai um pouco apertado.
Aos amigos, obrigado por tudo
Do aditor
GustavoGT

postado por: RODOLFO TORRES 10:23 AM


Comments: Sexta-feira, Janeiro 21, 2005

Carta ao cronista

Nesses dias pensei em entrevistar um cronista para esse espaço. E o assunto da entrevista seria a crônica, claro, pura e simples. Passando pela sua origem, até para dar um caráter histórico à conversa e chegando ao texto encontrado principalmente em jornais pelo país afora, onde mestres das letras brasileiras (letras brasileiras sim!) fizeram, e ainda fazem, confissões, anunciaram amores, decepções e construíram análises. Mas o texto mais saboroso é aquele que passeia pelo cotidiano, despretensioso e por isso mesmo profundo.
E quem seria melhor para me falar sobre o tema do que o professor Vicente Serejo? O mestre da crônica potiguar embriagava auditivamente uma sala de aula facilmente, numa naturalidade de quem fala com um amigo pelo telefone.
Resolvi escrever ao professor me identificando como um ex-aluno do qual ele não recordaria. E é verdade. Achava que simplesmente o convite de uma entrevista nem mesmo seria respondido. No outro dia recebo a resposta, afirmativa, pedindo apenas alguns dias de espera pois uma viagem já estava programa anteriormente. Fiquei fazendo construções absurdas, ensaiando perguntas que não seriam sensatas. Não conseguia sair de indagações do tipo: "Existe crônica alegre ?", "A crônica é sinônimo de melancolia ?", "Rubem Braga é poeta ou cronista ?", "Dos mineiros contemporâneos o meu favorito é Paulo Mendes Campos. E o seu ?".
Até que desisti de formular perguntas. Vou abusar da boa vontade do cronista e farei mais um pedido. Dessa vez peço ao cronista que, ao invés de uma entrevista explicando a crônica, que a metalinguagem seja instrumento de uma inspiração para que uma crônica seja escrita sobre a crônica. Provavelmente Mestre Serejo já traçou várias linhas nessa direção. Mas creio que não existe problema.
Que esse estilo não tão bem definido, que visita a literatura e o jornalismo, seja dissecado por quem o sabe fazer.
E revisando o texto antes de enviá-lo, noto que esse meu pedido nada mais é do que a vontade de ter mais uma aula.

postado por: RODOLFO TORRES 9:22 AM


Comments: Quinta-feira, Janeiro 20, 2005

Desejo-lhe uma partida sem dor

Partirei para uma despedida. Num barzinho nem tão distante. E tenho por mim que já vivi esse instante. Não nessa cidade, nem nesse ano. Já me despedi de vários. E nunca celebro essas ocasiões. Jamais reuni amigos para tal fim. Fico só e quando é chegada a hora de sair de vez, olho pra tudo com carinho, tudo que me é próximo.
Irônico... Na verdade, tive uma despedida surpresa num pub irlandês no Canadá, na minha última noite no país. E aquilo me dói ainda hoje. A dor só não é maior porque reconheço as boas intenções de um povo que aprendi a admirar ainda mais. Um cantor tocava músicas populares, uma delas falando da parte velha de Dublin, quando dedica a canção para mim. Eu estava dilacerado por dentro.
Apesar de não concordar com o propósito da celebração de alguém que esteja de partida, mesmo sendo temporária, vou. Enquanto músicas irritantes serão executadas, estarei sentando, bebendo uma água com gás, pensando em outras coisas que não sejam tão tristes quanto a inevitável despedida.
Soube há poucos dias que um rapaz que conhecia morreu. Não diria que era um amigo, mas um conhecido por quem nutria respeito e simpatia. Quando nos encontrávamos, nos abraçávamos e sempre um conferia se a vida estava sendo generosa com o outro, na tradicional pergunta: "Tudo bem?".
Pelo pouco que sei, bateu num poste enquanto pilotava uma motocicleta. Passou algum tempo numa UTI e morreu depois. A morte é bem mais cruel quando carrega os jovens e belos, como era o seu caso.
Ele se despediu sem reunir seus amigos, sem ao menos saber de sua partida. Até agora soube quando deixo lugares e pessoas. Mas não suportaria sair e celebrar na véspera de um dia triste a minha ausência.
Prefiro partir sem alarme. E ao menos sem muita dor, como espero que tenha sido essa partida desse homem que nos deixou numa triste colisão.

postado por: RODOLFO TORRES 8:13 PM


Comments: Quarta-feira, Janeiro 19, 2005

Produtor das imagens vistas enquanto durmo

Quando durmo, sou uma pessoa melhor, num mundo melhor, mais meu. De repente, a minha lógica assume o controle e agora posso voar por onde quiser, visitar paisagens enevoadas e encontrar com pessoas de rostos embaçados. Tenho um competente departamento de capturas de imagens e de edição das mesmas. O sono é para mim um momento de assistir a trechos de uma projeção surrealista e orgânica.
Ao descobrir que as imagens podiam ser lidas, assim como um texto, um mundo até antes lúdico passou a ser sério. Por burrice minha passou a ser técnico, com normas e padrões, manuais e cursos. Deixou de ser brincadeira.
E quem foi que disse que uma projeção deve ter roteiro? Não creio em roteiros para nada, muito menos para viagens. O exemplo mais comum é quando no momento do sono, meu subconsciente está exibindo algumas cenas para mim e o telefone toca. De repente algo se transforma na exibição e o toque do aparelho é incorporado ao meu espetáculo visual absolutamente particular. Não quero um subconsciente com roteiro, assim como transfiro esse desejo para a vida quando aberto estão os olhos.
Como temo os filmes de terror, e ainda me assusto com alguns sonhos, interrompo a sessão bruscamente quando meu eu interior, quer por vezes se divertir com minha infantil capacidade de me arrepiar diante de imagens de mulheres, sempre elas, que surgem pálidas e autoritárias, nuns gritos e feições horrorosos, resolve exibir e montar cenas desagradáveis. Chuto o projetor, abro as portas de emergência e falo a todos os garotos que estão lá comigo, com as faces muito parecidas, em ordem crescente de amadurecimento, quase idênticas, os quais me ajudaram a me tornar quem sou, que por aquela noite terão que se contentar com as memórias de um ser desperto.
Quando o diretor sem roteiro parar com essa bobagem, tem sessão para todo mundo, inclusive para os que ainda não sabem falar. O produtor, algumas vezes, tem que se ranzinza. É o jeito.
Só desconfio que toda essa molecada é quem dirige essa projeção...

postado por: RODOLFO TORRES 7:59 PM


Comments: Terça-feira, Janeiro 18, 2005

Cartier Bresson dos crepúsculos



Ainda bem que vivemos nesse tempo de câmeras fotográficas digitais, computadores conectados mundialmente, alta velocidade da informação e problemas de relacionamentos com a realidade. Foi por esse motivo que pude praticar a fotografia mais intensamente, sem aquela coisa chata de comprar o filme e revelá-lo.
Estava numa praia meio deserta quando escutei uns pássaros perdidos e fui ver o nível da claridade pela janela. Já não estava completamente escuro. Queria respirar aquele ar de início de dia perto da água, até que fui lembrado da câmera digital que porventura estava na casa. Saí tirando fotos num ensaio irreal. Naquele tempo as lembranças das aulas de fotografia vieram. Noções técnicas de composição da imagem foram esquecidas subitamente quando me deparei com o mar. Agora desejava um barco.
Já voltando para a casa, recordei de alguns homens que deveriam estar no meu lugar naquela hora. Cartier Bresson seria um deles. Fotógrafo francês que marcou estilo fotografando o simples, o dia-a-dia em preto em branco, com uma maestria e um domínio de luz e contra-luz que só vendo seus registros para perceber quanto o simples é genial. Paris foi registrada em demasia por suas lentes. Parques com seus namorados e os cafés das esquinas da capital francesa. A menina atrasada para a escola e o homens de meia idade entediado com a vida. Uma bicicleta entre os carros e os postes formando perspectiva num enquadramento magistral. Esse era o Cartier Bresson, que fotografou não só a França, mas o mundo, numa época na qual os equipamentos fotográficos não eram tão acessíveis. Hoje em dia as boas imagens são produzidas em escala industrial. Não mais emocionam o tanto que já emocionaram.
Se acordasse muito cedo nessa praia, veria todos os dias essa mesma imagem se repetir. Foi preciso que eu não dormisse para captar esse instante que considero belo. E que me fez sentir por um instante um Cartier Bresson dos crepúsculos.



postado por: RODOLFO TORRES 6:11 PM


Comments: Segunda-feira, Janeiro 17, 2005

Um Itamaraty banguela

Falar mal dos editoriais da Veja é a mesma coisa que bater num bêbado. Mais fácil, impossível. Mas esse último editorial reforça ainda mais toda a opinião da mídia brasileira quando trata do idioma inglês na admissão de diplomatas brasileiros. A questão é bem simples. O Instituto Rio Branco, que forma os diplomatas do Brasil, deixará de tratar o inglês como disciplina eliminatória. Ou seja, para ser diplomata agora, questões como economia internacional, direito internacional, história, geografia, português e cultura brasileira serão mais importantes do que a língua de Marlon Brando.
Segundo o ministro das Relações Exteriores brasileiro, Celso Amorim, o Itamaraty prefere um diplomata que saiba história do Brasil a um que fale perfeitamente o inglês. Lógico que posto dessa forma, fica mal explicado. Até porque é bem provável que um cidadão que se disponha a enfrentar a maratona de testes do IRB, saiba muito bem as duas coisas: inglês e história do Brasil. Mas vá lá que só saiba uma das duas. Nada mais certo do que exigir dos diplomatas brasileiros que tenham conhecimento do seu país. Claro! Jornais, televisões e tudo o mais chama a medida de anti-americanismo infundado do governo. Uma verdadeira atitude infantil diante do maior comércio mundial. Mas o que se esperar de um país no qual as elites sempre tiveram verdadeiro pavor de uma atitude de defesa da pátria. E sendo a imprensa um reflexo dessa mesma elite raivosa com os valores nacionais, claro que o resultado não seria muito diferente desse. Um ódio velado, uma fúria insana pelo fato do governo agora querer formar seus representantes lá fora com maior formação, e mais sólida, sos seus valores, de sua origem.
Lembro agora mesmo de Nelson Rodrigues, numa de suas espetaculares crônicas esportivas. Dizia que fora ao estádio Mário Filho, o popular Maracanã, assistir ao amistoso Brasil X Inglaterra antes da copa de 70. E, jornalista que era, via os jogos nas cabines de imprensa do estádio, ao lado de diversos colegas de profissão. Sentiu-se só quando notou que era um dos únicos a torcer pela seleção brasileira. Toda a imprensa nacional, principalmente a paulista, se derretia em elogio aos ingleses. Além de inventores do futebol, eram mais bonitos, bem nutridos e quiçá seus nomes fossem mais sonoros aos ouvidos nossos, tão envergonhados dos já tantos josés e joãos.
Nelson refletiu e proferiu uma frase impagável: "A seleção da Inglaterra é o Bonsucesso com três refeições ao dia". Pra quem não sabe, o Bonsucesso é time não tanto aclamado do Rio de Janeiro. Uma espécie de Alecrim daqui de Natal. Todas as cabines já tinham a certeza da vitória inglesa mesmo antes do jogo iniciar. Empresários e jornalistas se derretiam de admiração pelos anglo-saxões. Devia ser até constrangedor presenciar tanta admiração junta.
Até que o jogo começa e o Brasil logo mostra quem manda na partida. Como não vi o jogo, apenas sei o resultado, não vou ficar imaginando coisas. Mas me parece que Tostão entortou três antes de chutar no cantinho do arqueiro adversário. Final do amistoso: Brasil 3 X 0 Inglaterra. Alguns saiam e lamentavam baixo a derrota de uma pátria tão nobre para a nossa, tão ...
Já torci contra o Brasil na última copa. Mas o motivo era outro. Torci contra porque o técnico não escalou Romário. É bem diferente...
Até que lá na geral, um homem gritava de felicidade. Sua pele escura reluzia de suor. Uma lata de cerveja na mão, um espeto vazio de churrasco na outra. Gritava numa felicidade incontida "Brasil, Brasil" para os jogadores que saiam do gramado rumo ao vestiário. Tinha um outro dente na sua boca alegre. Os jogadores agradecidos o reverenciaram, incluindo Pelé, Rivelino, Gérson, Tostão, Carlos Alberto Torres, Jairzinho, etc. Sua felicidade era a gratidão impagável de um povo aos magos da bola.
Nessa questão da mídia e o exame de admissão dos diplomatas, mais uma vez a mídia está com os que falam inglês. Dessa vez, o governo brasileiro na figura do Itamaraty mais se parece com o homem eufórico e agradecido. Saudando um Brasil sempre desprezado pelos próprios brasileiros.

postado por: RODOLFO TORRES 6:15 PM


Comments: Sexta-feira, Janeiro 14, 2005

Assim falou Roberto Solino

Roberto Solino, mais conhecido como Solino, é um gênio. Não falo isso porque ele é meu amigo. Muito pelo contrário. Comum é admirar pessoas estranhas e fuzilar os conhecidos. Mas como seria possível desprezar a inteligência desse homem que só ontem me revelou dois aspectos da vida que jamais conceberia só.
O primeiro foi intitulado por ele mesmo "O cúmulo do paradoxo". Ele veio a mim com essa pergunta e, sem saber que ouviria um tratado do comportamento humano, disse-lhe um "não sei", esperando uma piada ou algo do tipo.
Ele começou a dissecação dos aspectos comportamentais de homens e mulheres mais ou menos dessa forma: "Mulher não gosta de bichinho de pelúcia, ursinho, essas coisinhas fofinhas? E por que será que na hora de se agarrar, várias delas preferem os típicos machos: peludos, suados, brutos e fedorentos? Homem não gosta de violência, futebol, porrada em geral? E na hora de se agarrar, por que preferem uma mulher delicada, de pele macia, e cheirosa?".
Nessas horas um feixe de luz nos atravessa e ficamos parados, apenas pensando porque não pensamos nesse fato, que explode na nossa frente todos os dias. Confesso que fiquei um pouco tonto. Afinal, partindo dessa lógica, podemos concluir que o comportamento dos homens em estado de não acasalamento se assemelha ao das mulheres que querem procriar. Enquanto que as mulheres, quando não estão a fim de realizar a cópula têm o comportamento dos homens no ato de concepção.
Aí deve está a solução do impasse entre os gêneros. Essa característica do comportamento de ambos deve ser a chave para frases como "não entendo as mulheres" ou "homem é tudo igual mesmo". Deve ser mais um sarcasmo da natureza ter-nos feito dessa forma.
Nem ouso imaginar uma torcida de futebol com mulheres ardendo em desejo e um arranjo de flores feito por homens em desesperado. Mas posso pensar sim, que no ato do amor, cada qual mostra sua verdadeira face. Os homens se mostram desprotegidos. As mulheres, guerreiras.
Talvez seja isso sim. Somos mais fortes fisicamente, com uma aparência peluda e agressiva para tentar suprir nossa carência, para enfrentar o combate deitado, para satisfazer o gênero forte e sair vivo diante de tanta força travestida em fragilidade e carícias.
E assim, mais uma vez, transborda o gênio de Solino, que desvenda um dos mais complexos enigmas com a simplicidade própria dos iluminados. Outro dia escrevo sobre o segundo aspecto.

postado por: RODOLFO TORRES 6:21 PM


Comments: SAUDOSA INSÔNIA

Acordei hoje muito antes do alarme tocar. Fiquei lá, sem me mexer e sem abrir os olhos esperando o ditocujo tocar. Tentei achar o motivo dessa inesperada insônia terminal. Cheguei a uma só conclusão: saudade. É... Parece que saudade também causa insônia. Mas saudade de que? Claro, eu tenho mil razões para sentir saudade. Não tenho mais casa, toda a minha família e até minha esposa está há mais de 2 mil quilômetros de distância, estou morando sozinho, num apartamento emprestado... Mas essa saudade comum, rotineira, que me dá todo dia é muito fácil de perceber e até agora não tinha causado nenhuma falta de sono. Eu já sabia de todos esses motivos que eu tinha para ter saudade. Por essas causas sinto saudade toda hora, sempre que me lembro. Mas não era isso. Era como se algo gritasse aqui dentro. Como se alguma voz me alertasse do que realmente eu tinha que notar. Comecei a relembrar o dia anterior e voltei a uma pergunta relevante que me fizeram. Se estava emocionado por ir embora. Emocionado? Nunca tinha me perguntado isso. Emocionado como? Triste pela partida ou alegre pelo regresso? Respondi que estava ansioso apenas para ir embora e desviei o assunto. Mas essa pergunta me acordou e ficou martelando hoje de manhã. A gente não consegue fugir por muito tempo das questões mais intrigantes. Acho que a resposta é sim. Estou muito emocionado por partir. É uma alegria incontida por voltar para casa. Mas, sem eu perceber, junto também tem uma tristeza profunda por deixar a vida que eu tinha em São Paulo. Já reclamei muito dessa cidade, mas agora que vou embora, começo a pensar no que vou deixar para trás. Essa cidade me acolheu da forma que acolhe gente de todo o mundo: como uma recepcionista de rede hoteleira. Totalmente impessoal, mas de braços abertos. Nunca me negou nada, ou quase. Me deu tudo que eu quis a um preço justo: muito suor (até no frio). Me deu principalmente amigos que fiz ou refiz aqui. Alguns que nunca vou ver mais e que vou lembrar com saudade. Outros que eu vou ver de vez em quando, com alegria sincera. E alguns poucos que espero continuar vendo para sempre. Alguns destes eu conheci aqui mesmo, outros que já conhecia desde a faculdade e até desde de pequeno, mas que São Paulo ajudou a aproximar. A distância, às vezes, aproxima mais que quando se está perto e trás compensações que não se imagina. São Paulo me deu a comunidade Life-center e depois o segundo eixo na vila Clementino. Tenho muito que agradecer a São Paulo por ter me dado esses amigos Quando me lembrar de São Paulo vai ser com o sorriso dos meus amigos ao meu lado e não com qualquer coisa que eu tenha reclamado no passado. Que em cada 25 de janeiro seja lembrada essa fase da nossa vida que já tem trilha sonora e muitas páginas escritas. Que nós nunca nos separemos.
O agudo
Bruno Magalhães
14/1/5

postado por: RODOLFO TORRES 12:16 PM


Comments: Quinta-feira, Janeiro 13, 2005

Eu quis parar a mão de Picasso

Há esperanças para a televisão a brasileira. Há sim senhor! Hoje mesmo assisti a um programa na Cultura (pra variar) sobre ética. Dois intelectuais falando a respeito das, digamos, variações da ética e por aí vai. Logo de cara recebi uma sugestão de leitura. Deveria ter o mínimo de pudor ao confessar algo dessa natureza. Desconhecer esse livro de Balzac... Logo eu! Pra quem se interessa em uma boa leitura, que trata do papel dos jornalistas no início da atividade jornalística profissional na França, época na qual os escritores detinham a função de construir a realidade; trate de adquirir "As ilusões perdidas". Eu mesmo exigirei como presente de aniversário.
Na verdade não gosto de ficar comentando o que os outros escrevem, ou filmam, ou seja o que for. Mas tem coisas que são inevitáveis.
Outro dia, numa festa de grã-finos, o jornalista mineiro Otto Lara Rezende berrou: -"Sou analfabeto três vezes! Em música, pintura e futebol". Se a "potência jornalística", como diria Ruy Castro, se declara analfabeto nesses tópicos, imaginem esse que vos escreve.
O segundo estudioso a falar sobre ética me pegou apenas por uma frase. Disse que as imagens hoje em dia se alastram como um câncer. E que no meio dessa quantidade absurda delas, em toda a parte, não sabemos mais olhar. Desaprendemos a ver.
Logo depois entra um pediatra falando da pele dos bebês e lembrei que tinha alugado um filme sobre Picasso.
E já estava preparado para ver mais um documentário com depoimentos, cenas dele pintando, sua infância, como ele sofreu para chegar ao patamar de artista consagrado, seus fãs... Essas coisas que sempre encontramos em documentários. Que nada!
Imaginem que conseguiram em 1956 umas tintas especiais... O que se espera de um documentário sobre um pintor? Que a câmera fique ao lado do pintor e que capte o processo, sua mão passeando sobre a tela, etc. Nesse não. Óbvio que também tem isso, mas na maior parte desse filme que deveria durar dez minutos e acabou tendo noventa uma tela branca iluminada toma todo o monitor, com uma forte incidência de luz. Atrás dela, Picasso desenhando e pintando seu mundo, principalmente touros, cenários comuns e até Dom Quixote. Tudo em sua visão de gênio. A música varia entre flamenca e clássica. Não há narração, apenas os traços aparecendo e a tela se preenchendo das formas daquele que mudou a pintura do século XX.
Não agüentando assistir àquele espetáculo se formando diante dos meus olhos sozinho, grito para minha irmã vir e compartilhar ao menos um quadro comigo. Sou cristão diante da beleza. Até comentei que às vezes a tela estava linda e lá vai Picasso meter um preto, ou um azul, e vai borrar tudo, e as coisas se transformam. Dá vontade de dar pause em certos momentos e dizer: "Chega! Já está muito bom assim". Mas gênio é gênio. Ele só deslizou uma vez, quando tinha tempo determinado para terminar uma pintura, já que naquela época a coisa era na película cinematográfica. Apenas esse. O resto, é de cair o queixo. Apenas aquele incoveniente... De vez em quando, dá vontade de gritar: "Pára".
O DVD ainda conta com um bônus, onde o documentário "Guernica" e um ensaio de Truffaut completam a maravilha.
Posso dizer que ao menos esse "câncer das imagens" nos dias atuais, e que nos torna cegos, estagnou por hoje em mim. Termino com um trecho do ensaio de Truffaut, que fala muito mais do que qualquer coisa que venha dizer. "Uma obra de Picasso executada diante dos nossos olhos é um milagre que, se necessário, bastaria para justificar a grandeza do cinema".



Filme: O Mistério de Picasso
Diretor: Henry-Georges Clouzot
Ano: 1956
País: França
Como posso encontrar? : Vídeo Laser (Prudente de Morais, próximo à esquina com a Bernardo Vieira, fone 223 2311)


postado por: RODOLFO TORRES 7:48 PM


Comments: Quarta-feira, Janeiro 12, 2005

Prosa

-Eu nunca provei o amor, não saberia dizer qual o seu cheiro e sua forma. Quanto menos o seu gosto...
- Talvez alguma vez na vida tenha provado dessa raridade. Parece-me que o amor deve ser saboreado à noite, quando tudo está mais calmo.
- Há quem diga que não existe momento certo para tal degustação. Qualquer momento, desde que seja o certo, é o momento perfeito.
- Poderia dizer também que o amor provoca dor. E à noite é o momento ideal para que todos possam ouvir os gritos que são a conseqüência desse ato.
- Que tipos de grito?
- Vários gritos. Uns de dor, outros de prazer, outros na verdade são urros, feios e agoniados.
- Se são tão horrendos, qual seria a mística que envolve o ato?
- Talvez a confirmação da existência, a celebração da feitura de mais um, ou simplesmente provocar os outros, que urram para dentro e se sentem estimulados pelos gritos feios e sofridos dos tempos de amor.
- Como tu sabes disso?
- Acho que já provei do amor. Meu par parecia vir da selva, dos tempos onde amar era ter mais alguém entre os outros.
- Era desespero?
-Mais do que isso. Era angústia. Era a própria confirmação da vida. Não aconselho esses encontros marcantes durante o respirar.
- Por que?
- São falhos.
- Deveria sentir inveja dessa tua loucura. Se vaguei procurando algo, procurava a perdição, o desconforto que isso nos causa e que sem o qual vivemos pelos cantos, urrando para dentro, passando a mão solitária pelos cabelos que já serão poucos.
- Tenho saudades dos gritos, que eram falsos. Tinha fortuna naquela hora, tinha algo que muitos procuravam.
- Falta-lhe riqueza agora?
- Vendo um amor passado. E isso já encanta. É o suficiente...

postado por: RODOLFO TORRES 6:20 PM


Comments: Terça-feira, Janeiro 11, 2005

Veredicto aos puristas da imprensa

Há quem diga por aí que não gosta de julgar para não ser julgado. Eu sou o extremo oposto. Adoro julgar. Já que não consigo escapar mesmo dos julgamentos que de vez em quando ouço ao meu respeito, saio também sentenciando condutas de terceiros por aí como quem bebe água. Com uma naturalidade e como uma necessidade.
Esse primeiro parágrafo não corresponde à realidade. Não gosto de julgar, entretanto sou e sempre serei julgado (assim como qualquer um). Exemplo de que não gosto de julgar é um fato que aconteceu em Brasília nesses últimos dias e que a grande mídia não exibiu. Como já trabalhei em alguns veículos e entendo mais ou menos como funciona a relação entre grande imprensa e governo, não fico bufando pelos cantos, proferindo que esse país é isso ou aquilo. Nesse ponto sou sereno.
Para quem não soube do ocorrido, lá vamos nós. Um filho do presidente sentiu-se só no mês de janeiro em Brasília, quando tudo está parado, recesso por cima de recesso, e resolveu chamar seus amigos para uma festa. Como ele talvez tinha mesmo que ficar na capital federal, mandou buscá-los num avião da Força Aérea Brasileira e trouxe-os para o Palácio do Planalto. Local onde beberam, fizeram aquele churrasco digno dos chefes de Estado, se divertiram e por fim, pularam nas piscinas palacianas.
Ao meu ver, nada demais. Como já disse, não gosto de julgar e conheço por baixo a relação entre veículos de grande alcance popular e partidos majoritários.
Mas fica aqui um singelo registro da eficácia e importância da Internet em geral e dos blogs em particular. Se não fosse pela rede de computadores e pelas páginas pessoais, onde aliás foram publicadas as fotos da farra por um dos participantes da festa, não saberíamos nem ao menos o que faz o filho de Lula quando a solidão lhe faz uma visita.
Imagino sua dor. Eu, numa casa de praia, há meia hora de carro da cidade me sinto só. Imagine naqueles palácios de Brasília...
Agora, para contradizer o que já foi dito, vou julgar de leve, apenas e tão somente de leve, os profissionais de imprensa que ainda não acordaram para a era digital e acham que a Internet é um subespaço, subprodutos, ou um desses "sub" que falamos por aí.
A sentença é: bobos!

postado por: RODOLFO TORRES 6:10 PM


Comments: Segunda-feira, Janeiro 10, 2005

A solidão e os gregários

Muita coisa aconteceu de quinta feira para cá. A vida correu nesses quatro dias meio lenta. Como no instante em que estava dirigindo para a praia e vi um caminhão carregado de vasos sanitários estacionado numa calçada, e todos dirigindo com uma cautela imprópria dos que vão ao litoral. Enfim me dou conta que vários vasos sanitários caíram no asfalto. Estilhaços de todos os tamanhos e das cores branca e creme davam o contraste visual com o asfalto.
Queria até achar engraçado, mas quando esbocei o primeiro riso, olhei de lado e vi o motorista olhar para o material destruído. Olhava com a paciência dos sofridos e o que era motivo de graça, passou a ser também uma tristeza minha. Seu olhar era triste, e como os olhares tristes atraem. É a tristeza de um olhar que o eterniza.
Várias noites me encontro só na casa de praia dos meus pais. Não estou só na expressão exata do termo. Apenas todos dormem mais cedo e ouço os ruídos do mar e o vento nas palhas, achando que alguém muito mau está do lado de fora esperando a última luz se apagar para entrar e realizar suas maldades mais profundas.
Leio qualquer livro e de repente não estou mais na casa de praia. Transito entre Roma e o Rio de Janeiro, sem muita cerimônia. Não estou mais só. Em outros tempos procurei a cura da solidão nos outros. Mas procurava errado. O que deveria procurar não era a cura da solidão, mas o seu aperfeiçoamento, o seu refinamento.
Creio mais do que nunca que a solidão é um prêmio. Peço desculpas à solidão. É nela que me encontro; ela é a minha dádiva.
Foi essa solidão que me fez recordar do olhar triste do motorista que observava sua carga esparramada no asfalto, e uma frota raivosa a estilhaçá-la cava vez mais. Foi só que vi o olhar solitário desse homem.
Segundo as cartas, meu passado foi marcado pela figura do eremita, indivíduo solitário. Quero, ao mesmo tempo, ser só e feliz. Aliás, não existe fração de alegria. Ela é inteira e una. Como nós, cada qual, sozinhos e tristes porque sempre confundimos felicidade e aglomerações.
É mais ou menos como diz mamãe: -"Quanto menos, melhor seremos".

postado por: RODOLFO TORRES 6:51 PM


Comments: A CATRACA NOSSA DE CADA DIA

Um grupo artístico chamado "Contra-filé" colocou uma catraca em cima de um pedestal, no lugar de uma estátua, em pleno Largo do Arouche, centro de São Paulo, com os dizeres embaixo: Programa para a Descatralização da Vida. Era uma catraca comum, dessas que tem nos ônibus e em estádios de futebol, até já meio gasta e sem pintura. O grupo queria chamar a atenção para o excesso de controles (catracas) que nós passamos pela nossa vida diária. Coisas como burocracia, imposições sociais, convenções e formalidades excessivas que temos que encarar diariamente. Chama atenção o fato deles também se referirem a todas as catracas em que não passamos, como subterfúgios e contravenções das mais variadas formas que o ser humano criou para evitar e burlar esses controles. A humanidade, que se orgulha do seu livre arbítrio, está cada vez mais livre nas grandes questões, como religião e política. Quer dizer hoje em dia qualquer pessoa, na maioria dos países, pode assumir qualquer posição que nada de real acontece. Ninguém é preso ou sofre qualquer tipo de sanção. Estima-se que metade da população mundial vive em plena democracia. Ótimo, isso é perfeito. Só que em pequenas questões, o ser humano, isoladamente, consegue fazer muito pouco do que ele realmente quer. Justamente por causa dessa terrível democracia. O que quero dizer é que se uma pessoa comum, sozinha ou em pequenos grupos, quiser fazer qualquer coisa que seja contrário às normas sociais vigentes, sofrerá censura da pior forma que existe que é pela proibição e indiferença. Ninguém julga a questão como deveria. Se a maioria não aprova, isso não pode ser feito. E pronto. As pessoas são altamente rígidas no controle do alheio. Mas esquece-se de si mesmo. Todos gostam de se divertir, de falar alto, de ouvir música. Mas desde que não seja no apartamento ao lado, pois "incomoda". Quando mais fácil seria junta-se aos brincantes e se divertir também. Ou então realizar a sua própria "bagunça" para diminuir o estresse. Como um acordo de cavalheiros, Você não reclama de mim, que eu não reclamo de você e nós dois somos felizes. Olhe a diferença do que ocorre na real: Um quer brincar, o outro reclama porque incomoda; no fim os dois estão infelizes, um porque foi incomodo e o outro porque foi reclamado. Isso tudo é para expressar minha revolta em relação Life center quando tenta impedir a manifestação popular mais tradicional da nação brasileira, o churrasco com pagode. Deveria se colocar uma catraca no Life center e os dizeres: neste ambiente não se pode fazer barulho, tocar instrumentos, falar alto, rir, se divertir, viver, beber, fumar, jogar jogos de azar e namorar em pé. Espero que todos que acreditam no poder mesquinho da catraca se acabem na mão, sozinhos, como bons paulistanos.
O agudo
Bruno Magalhães
10/1/5

postado por: RODOLFO TORRES 11:22 AM


Comments: Sábado, Janeiro 08, 2005

Dúvida Cruel

O ser humano, além de um eterno insatisfeito, é um ser em constante processo de dúvida, ou vocês ainda não perceberam quantas dúvidas ou indagações passam pela nossa cabeça durante um simples e curto dia. Dúvida quanto ao futuro, indagações sobre o presente e o passado, sobre si mesmo, e geralmente muito mais sobre a vida dos outros.
Uma dúvida cruel e existencial me atingiu hoje, e ainda não me deixou. Graças ao sistema de coleta seletiva de lixo do prédio, estou um sujeito ativamente alimentador desta iniciativa, existindo um local de coleta único, de tudo que é reciclável, em cada andar, e um sistema daqueles separados, nas duas entradas do edifício.
Apesar de alimentador, sei que alimentos não entram nesta jogada (sem trocadilhos), mas alguns objetos me deixam em dúvida, e um deles em especial me causou um intransponível dilema, destes que nos revoltam.
Como um bom "Gomes", sobrinho de Tio Toinho, portava em uma das mãos um reles e simples palito de dente, ao voltar do almoço. Já adentrando no prédio, me deparei com os coletores seletivos de lixo. Logicamente satisfeito, tendo o palito passeado entre todas as minhas reentrâncias dentárias, pensei em me desfazer honrosamente do mesmo, sendo ainda útil e generoso com o futuro da humanidade. Nada mais óbvio: reciclemos pois este palito. Os coletores seletivos, vistosos e coloridos, são em número de quatro, especificamente para: metal, plástico, vidro e papel.
O ínfimo objeto em minha mão me causou então uma grande dúvida: onde jogá-lo. Me senti impotente, quase como o "Dino da Silva Sauro" ensinando ao filho, para um concurso de TV na pré-história, que a água era um metal, já que não era vegetal ou rocha (tenho quase certeza que troquei os objetos, mas perdoem a fraca memória), senão vejamos.
Obviamente o palito não é metal, na dúvida tente palitar uma obturação com um pedaço do embrulho dos chocolates, por exemplo. Descartado rapidamente: Palito não é metal. A Segunda dúvida, não menos intrigante: seria o palito um plástico. Após uma análise pormenorizada chego a conclusão que não, palito não é plástico . Do contrário não haveria risco em enfiar um palito na tomada de casa (por favor não tenham esta idéia imbecil só para me contrariar).
Seria então o palito de dente um "vidro". Apesar de relutar, ouso afirmar que não, palito não é vidro. E após analisar, realmente nunca vi ninguém beber água em um copo de palitos. Considerando a remota hipótese do palito ser algo perecível, um alimento por exemplo, só me restou considerá-lo e jogá-lo no local destinado ao papel. Não ignorando o fato do papel vir da madeira, não me senti confortável em jogá-lo lá no meio de outros parentes distantes mais evoluídos. Palito de madeira virou papel, que triste.
Sugiro inclusive que se destine um quinto recipiente para os palitos, onde, para não parecer presunção poderia se colar em letras garrafais: madeira. Se bem que, a depender de mim, este recipiente encheria rapidamente, só com palitos. Se coloca um desses na casa de um "Loiola/Gomes" então ...
Do aditor
GustavoGT
SP 07/01/04

postado por: RODOLFO TORRES 8:57 AM


Comments: Revolta

Sempre me considerei um sujeito revoltado em demasia, um hiper-revoltado, e às vezes até o que poderia se chamar de um "revoltador". Há dois dias tive uma prova do contrario, pois o fato que estou prestes a escrever, pela proporção de seus estragos atuais e futuros em relação à paz internacional, me causou uma das (senão a primeira) grandes revoltas de toda a minha existência. E só escrevo aos caros confrades 48 horas depois pelo simples fato de só agora recobrar a minha lucidez, após diminuição da quantidade de sedativos por mim ingeridos.
Existe, no caminho entre a minha casa e a estação mais próxima do metrô, um restaurante de esquina, de ilustres funcionários e freqüentadores, que serve uma comidinha bem feita, estilo essas feitas em casa, longe do gosto de isopor e dos enlatados atualmente na moda. Neste recinto tenho feito algumas refeições noturnas, já que o meu almoço é sempre uma incógnita a quilômetros de casa. Inclusive consegui habituar Mychelle as iguarias oferecidas, como um delicioso filé de frango, com generosa porção de arroz e feijão, que sempre pede um complemento de farofa. Um dos ilustres freqüentadores, até hoje citado pelos funcionários, que bradam aos sete ventos a sua fidelidade ao local, bem como o seu admirável apetite, é o confrade Rodolfo, cuja a simples menção do nome causa comoção em vários funcionários, que chegam a inundar os olhos e fazer aquela cara de cachorro na chuva.
Há exatos dois dias fomos mais uma vez ao "duas rosas", ignorando outras opções menos apetitosas. Qual não foi o meu espanto ao receber a notícia bombástica de que não se serve mais jantar no "duas rosas". Os pratos feitos a partir de então só são feitos até às 16 horas, a partir daí os pobres mortais tem que se contentar com os sanduíches e salgados de balcão.
A estupefação no momento superou a revolta, e saímos resignados em direção a outro local. No outro dia amanheci com raiva e continuo assim. Que absurdo. Que vergonha para a humanidade. Sorte de outros como Rodolfo, que vivenciaram os tempos áureos do "duas rosas", com seu farto jantar. Tenho a nítida sensação de que só irei lá para tomar a última cerveja em São Paulo, no dia 01 de fevereiro, antes do embarque para Natal, promessa já feita.
Como nada vem ao acaso, já conheci outro local, só que perto do hospital, com a mesma filosofia de vida, e a mesma quantidade de comida no prato. "Seu Gilson", pode preparar aquele filé de frango para o jantar.
Do aditor
GustavoGT
SP 07/01/04

postado por: RODOLFO TORRES 8:56 AM


Comments: Sexta-feira, Janeiro 07, 2005

HEDIONDO?

Leio hoje notícia atual sobre o caso serginho, Jogador do São Caetano que morreu em campo. O presidente do clube e o médico provavelmente vão responder por crime hediondo. Hediondo significa segundo o dicionário: depravado, sórdido; repugnante; asqueroso; repelente; imundo. Palavras realmente fortes para definir o crime que estes homens cometeram. É equivalente a ter matado com requintes de maldade e tortura. O mesmo que ter seqüestrado e matado o jogador ou até de tê-lo estuprado antes de matá-lo. Nem todo chefe de tráfico tem um tratamento tão ¿honrroso¿ em relação aos seus crimes. Acho que Fernandinho Beira-mar não é classificado pela justiça como um criminoso hediondo. Talvez por nós, mas não pela justiça. O médico e o presidente do clube e o próprio clube já foram punidos pela justiça desportiva e com razão, é claro. Mas, convenhamos, os envolvidos erraram, sim, com certeza, mas crime hediondo? Já é demais, vocês não acham? Isso abre um precedente muito desfavorável para todos clubes e principalmente para os responsáveis pela equipe médica. Se todo jogador que morrer em campo, tiver um médico e um presidente de clube presos por crime hediondo, daqui a pouco essas serão profissões de muito risco. Ninguém mais vai querer ser médico de clube. Será mais perigoso que surfar na Tsunami. Imagine, todos os jogadores do Brasil terão que passar por uma bateria intensa de exames e serem liberados para jogar perante um junta médica feita pelos mais renomados do país. Será um custo enorme. E não será para os clubes, pois como quase tudo que é realmente caro no país quem paga é o governo e, por conseguinte, nós (haja visto que o próprio jogador Serginho fez exames no InCor ¿ um hospital público). Se não houvesse tanta cobertura da imprensa nesse caso, acho que não se pediria uma pena tão grande. Registro aqui minha opinião que os envolvidos, se tiverem realmente culpa (não sou eu que tenho que julgar), devem ser punidos exemplarmente. Mas sem exageros, por favor.
O agudo
Bruno Magalhães
7/1/5

postado por: RODOLFO TORRES 12:08 PM


Comments: Quarta-feira, Janeiro 05, 2005

Indisciplina obrigatória

Quando lia aquelas páginas iniciais dos livros de colégio, sempre o autor justificava o estudo de tal disciplina da mesma maneira, independente de qual fosse, era através do mesmo argumento que deveríamos saber e prezar os conhecimentos existentes naquelas folhas, que nem sempre chegavam ao final do ano.
Notaríamos que a eletricidade se faz presente em nossa vida, seja quando abrimos uma geladeira para pegar uma garrafa d'água ou quando tomamos um banho quente. Da mesma forma, os plásticos, os tecidos, as estruturas em si eram formadas por partículas muito pequenas que nem mesmo os professores poderiam ver, mas estavam lá presentes.
E éramos convencidos de que a leitura daquilo se justificava de alguma forma, por mais cotidiana que fosse. Até aí, tudo certo.
Por um momento cheguei a pensar que tínhamos a obrigação do estudo das coisas necessárias, mas não é bem assim. Aliás, necessária é uma palavra bem relativa. Assim como precisamos saber dos fenômenos químicos do interior de uma ameba, também deveria ter um espaço maior para as coisas "não prioritárias" numa sala de aula.
Por que não estudar a fantasia, o irreal, discutir sobre fantasmas e picadeiros de circos? Se a justificativa é a mesma, preparar o aluno para o futuro, no futuro ele vai se deparar com situações onde o real não o auxiliará. Sempre formamos uma legião de práticos. E olha onde fomos parar!
É chegada a hora dos especialistas no lírico, na fantasia, no irreal. Vamos também formar sonhadores. Se o menino não sabe sonhar (o que é impossível), que seja forçado a fazê-lo assim como a tabuada deve ser aprendida.
Quem quiser ser racional, que seja. Não prego a ditadura da não realidade. Mas também exijo que essa racionalidade como regra de vida seja desfeita.
Os alunos "avoados" como eu passariam de ano sempre, com louvor. Enquanto os chatos, os patéticos das boas notas seriam obrigados a fantasiar, até nas férias, ao invés de ficar se debruçando em números que até dizem alguma coisa, mas poucos são os que ouvem.
E assim, num futuro próximo, alguma criança possa ler no prefácio de um livro que quem tem o conhecimento é ela. Naquela disciplina ela é a autoridade. E se ela for boazinha, que ensine aos colegas, pais e professores.

postado por: RODOLFO TORRES 4:02 PM


Comments: Terça-feira, Janeiro 04, 2005

A greve da doceira

O pé de groselha está abarrotado de pequenos frutos verdes pregados ao caule, que vistos de cima ficam ainda mais desolados. O chão do quintal está cheio dessas frutinhas já amareladas e de vez em quando um pequeno pássaro perdido faz sua refeição, com a pressa dos que roubam.
O doce dessa fruta é fabuloso. E torna-se ainda mais quando feito por minha mãe, que está chateada porque das últimas vezes que ela pediu para que as groselhas fossem retiradas do pé para serem despejadas na panela, com água e açúcar, formando aquele mel roxo; passaram-se meses e meses sem que ninguém mais tocasse ou ao menos, e o que é muito pior, elogiasse o que ela fazia com as frutas miúdas que estão explodindo no quintal.
E nessa greve, todos saem perdendo. Menos o chão do quintal, que está sendo adubado com as groselhas podres que por lá ficam. O pé, de tão cheio, parece que vai ficar torto. Nós ficamos sem o doce e ela sem os elogios.
Porém vendo o lado dela, me compadeço de sua dor. Há quem faz doce de groselha pelo mundo a perder de vista sem nenhum afago no ego.
Para remediar essa desastrosa situação, aqui registro meu louvor pelo doce. Minha compaixão pela doceira. E minha aversão ao barulho das bocas que falam enquanto deveriam saborear essa maravilha.
Melhor do que isso. Vou colher groselhas agora e quem sabe amanhã estarei a saborear o que de melhor o açúcar pode produzir se unindo a uma fruta.
Essa é a pior forma de greve. A greve de quem produz festa ao paladar. Pior do que a paralisação dos sábios, das mulheres enquanto mulheres, dos risos infantis e da produção das bebidas.
Não suporto mais olhar lá de cima e ver aquele pé abarrotado, aquele chão adubado de pequenos pontos amarelos podres, os pardais pulando naquela terra e minha boca salivando toda vez que penso no que a doceira faz com aqueles pequenos pontos verdes, do tamanho de uma uva, com o formato de um jerimum, com a acidez de cinco cajás.

postado por: RODOLFO TORRES 4:56 PM


Comments: Segunda-feira, Janeiro 03, 2005

Poucos pintores por aqui

Nem sei se Sebastião é mais velho do que eu. Provavelmente é. Ele é um daqueles homens que nem precisam de estudo, pois já tem sua sabedoria que infelizmente não é reconhecida e prestigiada por aqueles que precisam passar anos em bancos de frente aos quadros negros para se sentirem sábios. Mas tudo bem. Ele não se importa nem um pouco em não ser reconhecido sábio. Aliás, sua sabedoria reside no completo desprendimento de vaidade em relação ao reconhecimento de sua sabedoria pelos outros.
Enquanto Sebastião molhava as plantas, com uma paciência de monge budista, pensei em muitas coisas, diferentes e talvez complementares entre si. Acho que a primeira foi em relação à sua calma. Molhava as plantas como se daquele ato dependesse a o bom funcionamento do planeta. Como era final de tarde, tinha instantes em que a água formava no ar um véu espumante. E quando mudava de lugar para ver o efeito que a luz do sol provocava ficando em oposição ao cair das gotas, tinha ainda mais certeza da sapiência de Sebastião, que regava coqueiros numa tranqüilidade própria e atemporal.
Se não estou enganado, a segunda coisa que pensei foi nos pintores brasileiros do início do século passado que foram estudar na França e fugiram do academicismo da pintura européia (nem todos fugiram, apenas os festejados hoje) para retratar paisagens da nossa gente, no seu cotidiano, fazendo suas coisas simples, com paciência. Num dos quadros, uma janela era retratada, um homem cortava uma fruta com sua pequena faca e ficava no lado de dentro de uma casa, mascando fumo, com o olhar concentrado dos famintos. Uma mulher também ficou imortalizada nessa pintura, do lado de fora, jogando conversa fora no final do dia. Não saberei aqui dizer quem é o pintor dessa obra, nem mesmo o nome dela. Quem sabe são dois homens, ou duas mulheres. Duas mulheres não. É bem possível que tenha dois homens, nunca duas mulheres.
O que menos importa é essa dúvida nesse instante. O que mais importa é que foi uma cena que deveria ser retrata num quadro. Mas o pintor não estava lá. Todos os elementos se faziam presentes, menos o realizador. Sempre que vou à praia, em todo sol poente, pergunto: - "Será que os nossos pintores já morreram? Ou retratar paisagens não é mais uma prioridade das artes visuais?".
Fico nessa provocação estéril quando na verdade desperdicei minha única tela e meu conjunto de tintas pintando armários, ventiladores e móveis. O cheiro da tinta provocou dores de cabeça na minha família e a pintura foi considerada algo perigoso para a saúde da casa.
Quando pintei um ventilador por completo de um azul claro, fui chamado de Picasso. E temi pelos efeitos da arte na minha carne.

postado por: RODOLFO TORRES 6:53 PM



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