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Confraria dos Crônicos
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De crônica, não basta a vida! Comments: Sexta-feira, Dezembro 31, 2004 Travesseiro magro Já não estava agüentando mais o meu travesseiro, tão velhinho, de tão mole já nem tinha mais forma. Até que numa dessas felizes coincidências, recebo um novinho, imponente, alto e com a forma bem definida de travesseiro daqueles que merecem uma boa noite de sono. No início da dormida, foi ótimo. Até que os personagens do meu sonho começaram, todos, a sentir um incômodo, que aumentava sem razão aparente. Até que acordo e me deparo com o quarto escuro. Tento evitar me levantar, coloco o travesseiro gordinho nas pernas, mas não tem jeito. Sou obrigado a pegar o velho, com uma cumplicidade que só nós temos. Uma intimidade de quem suportou meus tormentos, minhas viradas de lado, minhas insônias e até aquelas lágrimas involuntárias que sempre torna úmido qualquer travesseiro, seja de quem for. Por causa desse desajuste provocado por esse "calouro" nas minhas noites, perdi as últimas luzes desse ano. Queria ficar acordado para ver o último poente, mas estava com sono devido ao travesseiro novo, que não me deixou repousar como deveria. Peguei o antigo e fui esperar os raios mais fracos do fim de tarde na varanda, deitado numa rede. E acordei numa escuridão sendo intimado a me arrumar para a festa de mais tarde. Tenho que ir agora, já que vou pegar minha avó, minha namorada, e esperar mais um ano. Dessa vez sem as fantasias de meninos. Mas com a fadiga dos solitários. postado por: RODOLFO TORRES 8:29 PM Comments: Quinta-feira, Dezembro 30, 2004 Tudo é efêmero Enquanto bebia minhas dores no meu quarto, passava a vista num livro em espanhol que um conhecido trouxe de Barcelona. São frases e citações de Marco Aurélio, que devia ser algum militar romano, daqueles que consquistaram mais terrítorios do que a mente limitada e provinciana desse que traça essas linhas consegue imaginar. Falo devia porque a preguiça impede uma pesquisa mais aprofundada do que a lembrança das aulas de história. Aliás, deve ser bastante monótono colher apenas triunfos. Desde de criança, sou um colecionador de perdas, e creio que isso não mudará. Voltando ao livro, trata-se de uma espécie de guia de conduta, reflexões sobre a vida e lições de moral de alguém que, repito, deve ter sido um verdadeiro empreendedor em seu tempo. Só para registrar: cada dia que passa vejo que a maior praga dos nossos tempo é aquele ser engravatado que vem à televisão explicar porque a população não tem emprego. Sempre falam em qualificação, pensamento positivo, importância da aparência, etc. São trágicos e cômicos. Portanto, como todo brasileiro acha que sabe falar espanhol, resolvi arriscar e tentar ler "Meditaciones". Não é tão difícil, mas não chega a ser também uma facilidade só. Muita coisa me surpreendeu nos escritos desse romano que dividiu seus pensamentos em 12 livros. O que tenho comigo é um tratado sobre psicologia e moral. Bastante apropriado para tudo, em qualquer época. E enquanto passava as páginas tentando achar as frases mais curtas, porque as mais longas são de páginas inteiras, encontrei uma bastante apropriada como ensinamento de vida. Talvez seja essa a explicação maior para tudo. Assim que a li, liguei logo ao estilo Crônica. E nem é uma explicação, é uma constatação, uma análise de alguém que está muito cansado para brigar diante das dúvidas existências que sempre aperreiam os homens. É sim, um desabafo, a rendição de um velho general poderoso. Deve ser o que todos nós sentimos várias vezes durante a vida, mas não conseguimos expressar em palavras, e alguma coisa vem para nos distrair e desviar nosso pensamento para alguma coisa mais imediata, e alegre. Já senti isso muitas vezes e agora vejo que alguém lá atrás, quando Roma ainda era império, escreveu o que penso. Quer dizer: o mundo, o homem, a vida, é a mesma. Até o fim, a mesma. Todo es efímero, lo que recuerda y lo recordado postado por: RODOLFO TORRES 5:10 PM Comments: Quarta-feira, Dezembro 29, 2004 Enólogo de promoção de supermercado Agora mesmo passo por uma fase de deslumbramento, por uma repentina vontade de aplaudir todo mundo, e dessa forma incentivar o ator que cada qual somos, muitas vezes sem saber sê-lo. Certamente um desses motivos do meu deslumbre é a lenha que o governo está colocando na fornalha adormecida do nacionalismo brasileiro. Mas tudo bem, até porque idolatramos tanta coisa ruim nesses anos todos, e ainda teimamos em idolatrar, que uma pitada de auto-estima é bem vinda. Sou favorável ao projeto de elevar nosso orgulho pátrio, até porque não é da vontade dos governantes elevar mais nada. E tudo vira uma espécie de circo, sem querer depreciar o circo, longe disso. No picadeiro os governantes e na platéia, a nossa eterna e insubistituível "alma de cachorro de batalhão", que espera, sempre espera, até gosta de esperar. Encanta-me esse tema. Nessa última frase deu vontade de começar com o pronome "me", logo no início da frase, mas é proibido. Descobri outro dia que já na semana de arte moderna de 22, os artistas questionavam essa proibição do jeito brasileiro de se expressar, e que não altera em nada o entendimento da sentença, portanto o processo de comunicação está garantido sem nenhuma perda de sentido à quem se destina a mensagem. Pode até parecer que estou enrolando porque até agora não apareceu nada que tenha relação direta com o título. Não se trata disso. É que fui humilhado na véspera de Natal por toda a família ao declarar minha admiração por um vinho nacional. Posso dizer que conheço alguns famosos, caros, franceses, chilenos, alemães, portugueses. O que me acaricia o paladar é o Almadén. De início foi uma questão financeira, estava em promoção, essas coisas. Hoje, não quero outro. Ressaca? Claro que existe! E o que seria a ressaca senão o objetivo maior da bebedeira? Nessa nova revalorização do sentimento pátrio, o governo deveria convencer os que são considerados especialistas em vinho a não repetir o pensamento das nossas elites, rancorosas com o que é brasileiro. Até porque enólogo e vidente são categorias muitas parecias, campo fértil para picaretagem. Deixemos de besteira e vamos celebrar Baco com vinho nacional. E ter ressaca tupiniquim, dor de cabeça patriótica e mal estar brasileiro. Tudo isso gastando bem menos. postado por: RODOLFO TORRES 3:27 PM Comments: Terça-feira, Dezembro 28, 2004 Ecologia é coisa do passado Li há pouco um artigo de um editorialista da Folha de São Paulo. Para os que não conhecem a hierarquia de uma redação, editorialista corresponde ao "faixa preta" do jornalismo impresso. O cara que só fica abaixo do dono do jornal, e olhe lá... E na Folha, tudo se confunde com intelectual. Até contínuo daquele jornal tem seus momentos de semi-deus. No artigo, escrito por um editorialista, intelectual, da Folha, ele diz que Deus é das duas uma. Ou não é benevolente, ou não é onipotente. Não estou aqui para defender Deus, até porque tenho lá minhas dúvidas em relação ao Deus único. Na verdade sou politeísta, mas nós, os que tem fé demais para um único Deus, somos ridicularizados, então nos disfarçamos de ateus para passar melhor. Se aquela onda gigante que arrasou vários países do sudeste da Ásia aconteceu, talvez Deus não seja tão bom, ou talvez ele não possa impedir tudo. E como somos solidários e cooporativistas em relação ao outro ser humano nas tragédias naturais, e não nas sociais, a tendência é culpar mesmo a natureza, que matou muita gente de forma desnecessária. O mais comum é realmente se sentir triste em relação a essas mortes, como fiquei. Afinal, quem se sente bem assistindo a pessoas em desespero pela perda dos parentes enquanto coloca um pedaço de carne bovina na boca? Mas o que aqui quero questionar é: será que a fúria dos nossos editorialistas é a mesma quando a natureza é agredida? Quando um vazamento de óleo ocorre e polui quilômetros de mar, a raiva é equivalente? Ou quando a emissão de gases tóxicos por parte dessas nações"desenvolvidas" ultrapassa tratados internacionais, em nome da produção industrial e do consumo, que gera milhares de empregos; a ira é semelhante? Os editorialistas e intelectuais, que até ridicularizam os ecologistas, deveriam rever suas balanças, aquelas que medem injustiças, para quem sabe reconhecer que essa onda que tanto matou do outro lado do mundo pode ter alguma relação, por menor que seja, com a doença pela qual o planeta está passando. Que desrespeita a própria vida de todos os seres terrestes. E seus inquilinos nem um pouco preocupados. postado por: RODOLFO TORRES 9:18 PM Comments: Segunda-feira, Dezembro 27, 2004 Hoje:. E numa festa qualquer, e nem precisa ser festa, apenas uma reunião, crianças correm em desespero, e gritam a plenos pulmões a ponto de tirar a paciência dos ex-crianças, sempre caem e choram bastante. Em geral, são levantadas pelo adulto que está mais próximo e depois do pranto banhar a face lisa e a mão com terra, saem em disparada novamente até serem recolhidas para o lar. Sempre fico impaciente com esse tumulto. Aliás, quase sempre. Também corri quando era para correr nas festas. Agora sento com quem nunca vi correr em festa alguma. E permaneço sentado, apenas levanto para apanhar bebida ou comida. Estou cansado em qualquer ocasião. Só tenho disposição para ficar chateado. Enxergo o cansaço em tudo, até nas repetições das brincadeiras dos mais novos. Mas admiro hoje em dia os rituais, e percebo que os poucos ritos que ainda temos fazem algum sentido hoje. Quando era um corredor de celebrações adultas, apenas o correr existia. Nesse passar de tempo, algumas idealizações caíram e nenhuma mais foi edificada. De primeiro sentia um vento gelado na cara, que era a mistura do suor do rosto com o vento frio da noite. Mais tarde, apenas refrigerantes e de vez em quando uma bebida quente, sem ninguém ver. As conversas sempre são as mesmas, o número de gente aumentando e a insatisfação também. A reza foi instituída há poucos anos. Forma-se um círculo, todos de mãos dadas. A comida é servida após o pedido de proteção. Fui dormir cedo porque já mais me empolgo com a madrugada. E vou procurando sentidos e justificativas, sem esperança nenhuma de encontrá-los, para ter no hoje um porto tranqüilo. Será isso. Procurar no imediato algo. E achá-lo! postado por: RODOLFO TORRES 6:18 PM Comments: Sexta-feira, Dezembro 24, 2004 Motivo de celebração Hoje fui acordado com um grito. Um vendedor que passava pelas ruas e anunciava seu produto aos gritos me despertou. No caso era camarão. "Camarão, olha o camarão!". Nem fiquei chateado, ao contrário. Até lembrei de um homem que vendia um doce que pregava até na alma, quanto mais nos dentes. Era no bairro de Candelária, e ele passava perto da casa da minha avó. Com sua voz grave, gritava: "Chico". E toda a molecada corria para os mais velhos e pedia algum dinheiro para comprar aquela delícia, que na época parecia mais uma cachaça infantil. Fiquei sorrindo na cama, sozinho, sem motivo aparente, até adormecer novamente e esperar pela celebração de aniversário da minha cidade. Nas outras partes do mundo, um monte de gente celebra de forma diferente essa data. Alguns relembram o nascimento do salvador. Outros, as boas vendas. Há aqueles que precisam de um motivo para beber, e outros para reunir a família e dizer o quanto gostam dela. Ficarei a esperar mais essa data, sem maiores expectativas, pois vejo minha cidade ganhar mais um ano e não ocupar um lugar que lhe é devido. E faço companhia ao destino do meu lugar, e não tomo o lugar devido. E eu, e minha cidade, e tudo o que vejo não toma o lugar devido. Empanturrados de comida e profundamente sem motivação, todos cairemos nos braços alheios e diremos a tão famosa frase dessa noite que busca realmente ser sincera. Lá pela segunda garrafa de vinho nacional a vida estará melhor. Um estranho orgulho tomará o controle, e com aquela voz pausada talvez eu fale baixinho apenas para mim mesmo: "Feliz aniversário minha cidade, estou aqui". postado por: RODOLFO TORRES 5:07 PM Comments: Quinta-feira, Dezembro 23, 2004 A voz rouca de um católico O carro velho passa lento, quase sempre em ponto morto, com um barulho de motor cansado e carrega em cima de sua lataria descascada pelo sol um auto falante de comício de interior, que traz mais ruído do que voz aos seus ouvintes. Sempre passa pelas ruas desse bairro informando aos seus moradores as novidades sobre a igreja da praça, que passa por uma reforma e precisa de doações dos fiéis. Convoca os moradores para as missas, quaresmas, celebrações em geral. Só ontem dei conta de que sempre ouvi essa voz. Parece irreal, mas a conheço por pelo menos vinte anos. Geralmente o carro transita pelas ruas de pedra nos sábados à tarde, depois do almoço, quando o sol está mais forte e quem não é turista fica em casa, geralmente deitado numa rede, pensando na vida enquanto tem na boca o gosto do almoço rotineiro. É nessas horas que a voz católica traz aquela monótona notícia dos que querem erguer uma igreja maior por aqui. O incansável locutor fala aos velhos, afinal os mais novos em geral não freqüentam o ambiente pelo qual os idosos lutam. A voz é triste, e mais triste ainda é quando escuto essa voz. Uma passagem lenta. Um apelo ao vento de crepúsculo. Como nunca presenciei procissões, com esse informante sou até transportado a locais onde a fé leva gente às ruas, vestidas de branco, com terços seguros num punho fechado, acompanhando imagens por quilômetros. Ontem ouvi a lamúria mais uma vez, só que com um pouco mais de atenção. A igreja precisa ser concluída. Doações serão bem vindas. Encontrava-me no jardim, entro em casa a esperar aquele velho carro passar, com um homem que o dirige e ao mesmo tempo tenta seus propósitos num lamento arrastado, e numa locução tão familiar. postado por: RODOLFO TORRES 5:11 PM Comments: Quarta-feira, Dezembro 22, 2004 Apologia ao fracasso Notem que a sabedoria é do povo, enquanto que o conhecimento é dos especialistas, geralmente chatos e infelizes. Pois é tratando da sabedoria popular que vou relatar um episódio de um pequeno comerciante do interior do nordeste brasileiro. Vamos tratá-lo por Fulano, homem simples, sem maiores ambições além de viver com um mínimo de conforto. Fulano tinha uma vendinha e comercializava produtos primários como arroz, feijão, milho, pão. Tinha lá uma cachaça e rolo de fumo, doces e baralho com senhoras despidas. Até que num desses inexplicáveis turbilhões da economia, as pessoas pararam de pagar pelos produtos do seu Fulano, mas continuaram levando o que ele disponibilizava na vendinha. Tanto compraram fiado que seu Fulano se viu obrigado a fechar. Pensou, pensou e concluiu: "O Brasil deve muito mais e não está nem aí, por que eu vou me preocupar?". Foi ao primeiro forró que encontro e lá amou as mulheres, bebeu suas dores e viveu uma noite memorável. Sabedoria essa não é encontrada na mais recente catequese dos desempregados brasileiros promovida pelo senhor Roberto Justos. Sem dúvida nenhuma é um homem bastante elegante, bonito, etc. Apenas creio que ele está degolando o nosso jeito, tirando a poesia dos fracassos que sempre chegam à nós e exigem atenção de nossa parte. Uma busca interminável pela perfeição nada mais parece do que a tentativa de um preenchimento do rancor de ser desse país, por parte dele e de tantos. Chego a me divertir com tanta carência do exterior por parte dos que compõem o seu programa. O "erra é humano" deve ser abolido segundo nosso mais novo homem de televisão. Fico menos preocupado porque sei que a nossa divina irresponsabilidade é histórica e não será um mero programa de TV que vai tirar de nós essa característica tão santa e fundamental. Trabalhar é ruim, sim! Quem vier dizer o contrário está faltando com a verdade. Para que se produzir mais dinheiro? Já tem tanto. Vamos dividir (não precisa ser de forma igualitária) e viver em paz. Voltando ao "errar é humano", comprei um livro do patrono-mor dos cronistas brasileiros, Rubem Braga, e lá estava um texto que tinha por título: "Todo mundo pode errar um pouco". Repondo aos "idiotas da objetividade", como diria Nelson Rodrigues, com apenas esse título de Rubem Braga: "Todo mundo pode errar um pouco". Ou até muito. Errar está para humanos assim como ter os focinhos úmidos está para os cães. Muita gente vai acreditar no que o auto-publicitário está dizendo, mas aqui vai um voz contrária a essa tendência que toma de conta do mundo. Errem, muito, e mais, e por toda a vida. Não deixem que alguns tirem o prazer de chorar derrotas insuportáveis, remoer rancores vastos e que pulsam vez por outra; ou desprazeres cotidianos, porque a vida é cheia deles. Tudo deve ter um equilíbrio, e a vida não poderia está fora dessa regra. Pra cada grão de sucesso, um punhado de fracassos torna equilibrado e saudável esse quesito. PS: Ninha, minha querida amiga. Vi o seu e-mail e agradeço pela lembrança, por mostrar a árvore da casa de Rubem Braga. Sua amiga jornalista disse que está por demais atarefada, mas logo entrará em contato contigo. Um grande beijo. postado por: RODOLFO TORRES 5:16 PM Comments: Terça-feira, Dezembro 21, 2004 Mais uma tentativa de sensibilizar Carlinhos No final dos anos 80, muitas coisas que hoje são banais eram acessórios de poucos. Exemplo é a câmera filmadora, que eram enormes, tanto que cabia uma fita VHS inteira dentro delas, o que dava um aspecto até mais profissionais do que observamos com as minúsculas máquinas de hoje em dia. Uma época dominada pelos filmes de lutas orientais, onde os apenas um homem detentor de uma técnica primorosa enfrentava um grupo de no mínimo cinco, com o detalhe que os cinco eram muito maiores e mais fortes do que o homem só. Como aqui na rua existia um batalhão de garotos, algo em torno de 15, todos queriam ser lutadores. Entretanto apenas dois conseguiram chegar à faixa preta de alguma modalidade de luta. Um deles, Reno, casou no último sábado. Lembro muito bem de um dia em que ele e seus irmãos disseram que haveria uma sessão de cinema na casa deles. Contava com uns oito anos. Aquilo me encantou, afinal uma projeção seria exibida na área da casa dele. Era final de tarde e aguardei minha mãe voltar do trabalho para pedir uma autorização que me permitiria andar trinta metros e assistir ao filme. Ela não acreditou, entretanto insisti demais até o ponto que ela autorizou minha ida até a casa dele com a menina que trabalhava lá em casa. O pai de Reno atendeu e disse que não tinha nenhuma sessão de cinema lá, que aquilo era brincadeira de seus filhos. Chego ao lar e meu irmão diz que "caí como um pato" nessa história. Primeira marca do cinema em minha vida que recordo. Então, com vários garotos querendo ser "ninja", e com um deles com uma filmadora no final dos anos 80, logo se providenciou um roteiro, escrito à época pelo atual médico Galério Jales, e as filmagens se iniciaram. O título do filme era "Fire Gangs", ou em português, "Gangs de Fogo". Eu fazia um policial que só tinha uma única fala no filme inteiro. Após Djanilton e Ismael travarem um duelo de espadas de cabo de vassoura, Ismael morria com um litro de molho de tomate na cara, os policiais chegavam e eu dizia, com cara de espanto e verificando a respiração daquele ser deitado numa calçada escaldante: "Morreu". Nem exclamação tinha, apenas a constatação fria e impessoal. Morreu. Vestíamos casacos pesados em pleno meio dia de uma capital nordestina, mas tudo para ficar de acordo com o figurino dos filmes de luta. Segunda marca do cinema em minha vida que recordo. Após esse filme, outro foi feito pelos mesmos garotos, entretanto não fui convidado porque era um dos mais novos, se não o mais novo. E vocês sabem como o mais novo sofre nessa fase da vida. Infelizmente a fita não mais existe, porém uma única e escassa foto ainda perdura na casa de Carlinhos. Ele disse que são duas, mas me recordo apenas de uma. Faço um pedido em público para ele: Encontre essa foto dos bastidores dessa filmagem. Para ele não deve ter muito valor, mas para mim essa foto é algo de mágico, de lírico. Uma mera foto pode unir duas das coisas que mais prezo: a amizade e o cinema. Por isso insisto tanto nessa busca. Creio que o garoto mais velho deveria ter uns 11 anos nessa foto. Achei que falaria de Fellini e sua relação com a tevê, mas fica para uma próxima oportunidade. Há urgências mais vitais nesse momento. postado por: RODOLFO TORRES 11:28 AM Comments: Segunda-feira, Dezembro 20, 2004 Casa portuguesa, com certeza Um mero informativo. Nada mais do que isso será o que por ventura sair daqui para frente. Mais um europeu é preso na Rio Grande do Norte por práticas sexuais com menores de idade mediante pagamento, ou seja, prostituição infantil. Mas esse caso é bastante peculiar. O português já morava no RN há quatro anos, era empresário, dono de postos de combustíveis e um motel. Armando Monteiro Castelo Branco, 64 anos, pagava 200 reais para tirar a virgindade de meninas de 13 e 14 anos. Ao ser flagrado no motel do qual é proprietário, na praia de Muriú, Armando sacou uma arma de fogo, mas foi dominado pelos policiais. O subsecretário de Defesa Social, Maurílio Pinto de Medeiros, faz um apelo aos pais das meninas que tenham sido vítimas do português que se apresentem à delegacia de polícia mais próxima e registrem queixa do ocorrido. Dessa forma, a prisão de Armando será facilitada, com um número maior de vítimas. Enquanto isso, em Portugal, centenas de brasileras são escravizadas e obrigadas a se prostituírem para nosso irmãos colonizadores. Quantas reportagens são produzidas mostrando que elas são enganadas e ao chegarem a Portugal, obrigadas ao ato. Ou seja, o Brasil é um bordel para nossas crianças. Portugal é um bordel para nossas mulheres. Pior foi quando encontrei em São Paulo, no ano de 2001, numa padaria qualquer, um português. Pedi um café e um pão com manteiga. Ele pergunta de onde sou e respondo. Vai resmungando pegar o café e dizendo que os nordestinos vão para SP apenas para pedir esmolas e ter filhos. Acontece... Brasileiro é destratado no Brasil, em Portugal, em todo lugar. Se nossas meninas são prostitutas, nem para cafetões temos competência. Que sejam jogadas aos velhos europeus para que babem, e fiquem suados em cima de seus corpos pequenos. Ao lado uma boneca de pano acompanha a cena, numa meia luz de um quarto mal iluminado qualquer. postado por: RODOLFO TORRES 12:21 PM Comments: Sábado, Dezembro 18, 2004 Anonimato Às vezes quando você pensa que está tudo certo, que não hora melhor para fazer determinada coisa, sempre aparece algum impecilho para atrapalhar. Esse impecilho geralmente é um chato, totalmente sem noção. Isso é bastante comum. Mas, por outro lado, acontece também das coisas darem errado ou não ocorrerem da maneira como a gente quer por uma total obra do acaso. Onde ninguém tem culpa. Veja. Ontem, eu fui ao parque do Ibirapuera praticar minha corridinha quase-diária e despretensiosa. Já que fui de carro trabalhar (fato raro), resolvi colocar a roupa da corrida dentro do carro para não perder o tempo de passar em casa para trocar de roupa. Mais ou menos 5 da tarde, sol de horário de verão, condições meteorológicas propícias, cheguei no parque disposto a correr muito. Parei o carro no estacionamento do parque, e como estava bastante tranqüilo, sem ninguém por perto, sem nenhum carro também, considerei a hipótese de trocar de roupa dentro do carro mesmo. Certifiquei-me que não vinha ninguém, comecei o processo nunca fácil de trocar de roupa dentro de um carro pequeno com uma direção para atrapalhar. Quando a calça chegou no pé, expondo totalmente minha cueca amarela, um outro carro resolveu estacionar justamente ao meu lado (com tanta vaga sobrando), com uma senhora de meia idade ao volante. Ela deu aquela olhada desaprovadora de cima abaixo que me constrangeu. Fiquei vermelho, sorri amarelo e evidentemente perdi o rumo e segundos preciosos na troca. Após longos momentos de terror, com a mulher fazendo cara feia, coloquei o calção e subi até cobrir tudo. Só aí é que a mulher saiu do carro. Para minha surpresa, veio em minha direção. Eu achei que ela ia dar uma senhora esculhambação. Já estava preparando o discurso para me defender, quando ela disparou: ¿será que vai chover?¿ Meio boquiaberto, respondi de pronto: ¿Acho que vai; é melhor eu correr logo!¿ E saí em disparada, sem nem aquecer. Ainda bem que eu moro em São Paulo. Coisas de cidade grande, ninguém repara em nada. O Agudo Bruno Magalhães postado por: RODOLFO TORRES 12:51 PM Comments: Releitura Há poucos dias iniciei uma fase da minha vida que julgava distante, a perder de vista. Gosto de ler, mas gosto muito. Há tantos títulos que ainda não tive o prazer de abrir. Há tantos autores que com certeza já teria que Ter relido. Quando converso com alguns (poucos) amigos entusiastas de uma boa leitura, aí é que fico irrequieto, até surge uma ponta de inveja, me imaginando lendo aqueles livros citados. Ao entrar numa livraria, aí é que tenho certeza de que preciso de algumas vidas para ler o que gostaria. Por tudo isso, é que poucas vezes me imaginei relendo algum livro. Por mais que escutasse por várias vezes o quão prazeroso é este momento, o quando podemos aprender e observar o que não havia visto em leitura prévia, sempre achei primordial ler mais. Com certeza li muito pouco, mas ao visitar minha linda Natal há poucos meses, fui de encontro a estas convicções. Aroveito aqui para comunicar ao meu irmão-confrade que usurpei, com devolução devidamente prevista para fevereiro próximo, de sua estante o livro de Rubem Braga (200 crônicas escolhidas). Esse, meus amigos, é (se me lembro bem) o primeiro livro que releio. Nada mais justo do que iniciar esta prática com um livro do nosso patrono e fonte inspiradora. Já nas primeiras crônicas pude constatar o que me disseram. Leio inclusive com mais cuidado, como se depois desta leitura, não pudesse mais abri-lo. Seria como a minha última chance de sugar ao máximo daquelas crônicas. É mais nostálgico e mais agradável. Se bem que nesse caso, sabendo o dono do livro, através destas linhas, que o peguei sem aviso prévio, deve mesmo ser a minha última chance de ler este livro especificamente. É ... adeus "200 crônicas escolhidas". Do aditor GustavoGT SP 18/12/04 postado por: RODOLFO TORRES 12:41 PM Comments: Sexta-feira, Dezembro 17, 2004 De graça, até conselho meu Não é novidade para seu ninguém que o mercado de jornais impressos não anda muito bem. Até aí é consenso. E sempre encontramos aqueles mais proféticos, falando até a data que o papel de enrolar peixe vai entrar para a história como peça de museu. Também tem os cautelosos, que dizem que determinadas mudanças devem ser adotadas para que esse meio da expressão humana não termine seus dias numa agonia humilhante. E o terceiro grupo, no qual me incluo, que não faz a menor idéia de quando é que o jornal vai mesmo acabar, se é que vai acabar. Segundo o jornalista, escritor, poeta e pensador das ciências da comunicação Carlos de Sousa, enquanto não tiver tela de computador que fique na frente do vaso sanitário, o jornal está sossegado. Já falei aqui do meu profundo desejo de trabalhar numa redação de jornal diário. Das práticas jornalísticas, é a que exige maior "tirocínio" do profissional. Imaginem só o que é ter que escrever algo como três matérias diárias, após coletar dados e entrevistar diferentes indivíduos, com um cidadão que detém o título de editor aos berros e do seu lado falando que só falta o seu texto para aquela edição começar a ser rodada. Funciona meio como um exército. Semelhante até na proporção de homossexuais presentes nas redações e nos quartéis. Mas alguma coisa está além de esquisita no mercado de jornais da Natal. Não saberia dizer com precisão o que é, mas noto que a coisa não está andando como deveria. Nem se trata de escândalo descoberto ou qualquer tema que tenha relação com escândalo. Parece que o cidadão daqui está enjoado da forma como se faz jornalismo impresso. O "Diário de Natal", o maior da cidade, está cada vez mais magro. Seu caderno de cultura, que abriga nada mais do que quatro colunistas sociais de duas páginas completas, está sem o "recheio". O "O Jornal de Hoje", vespertino que surgiu como opção num mercado polarizado há décadas entre o DN e a Tribuna do Norte, resolve que sua edição na Internet não será mais gratuita a partir do próximo ano. A TN passou recentemente por uma reforma gráfica que ao meu ver tornou o jornal mais parecido com um informativo de escola primária. Sem contar o maior portal jornalístico que de tão engessado, parece que já se tornou uma estátua da informação. Voltando ao "O Jornal de Hoje", ouso escrever aqui que a decisão de cobrar dos usuários de Internet para que as notícias possam ser lidas constitui um erro grave. Um retrocesso. Uma idéia infeliz. No dia em que for notado que a Internet não é uma mídia convencional, e como tal deve ser tratada, talvez quem administre os periódicos possa perceber que assinar conteúdo "na rede" é pedir para ter menos leitores e por conseqüência, menos anunciantes. Na era digital, fazer panela de informação é no mínimo um disparate. postado por: RODOLFO TORRES 11:29 AM Comments: Quinta-feira, Dezembro 16, 2004 Palpite de quinta O palpite mora em nossa alma, mora e nem adianta negar que mora porque mora mesmo. Nessa primeira seqüência, cometi um "erro" segundo os que querem engessar a maneira de se escrever um texto. Não é permitido, segundo os manuais de redação, a repetição porque tal prática denota a falta de vocabulário do redator. Fico, novamente, com Nelson Rodrigues. E aqui abro mais um parêntese. É que já está ficando feio citar tanto Nelson Rodrigues por aqui. Dá até a impressão que penso pelas palavras dele. Mas não é possível fugir das observações de um dos mestres. Nelson já dizia que era um preconceito absurdo essa história de que as palavras tinham que exprimir alguma coisa. Bobagem! Segundo ele, algumas frases teriam apenas o sentido harmônico e auditivo, sem necessariamente dizer algo concreto. Em alguns casos, as palavras pedem para nascer, cabendo a quem as escreve esse parto tantas vezes complexo. Aos outros, que encontrem significado para essa junção. Que discutam em bancos de universidade se tal conjunção deveria mesmo se encontrar naquele exato lugar, ou se deveria ser trocada. Não importa mais. As palavras lá estão e por lá ficarão, até que outra seqüência nova venha importunar os guardiões do bom português. "A solidão dos homens é um problema político". Foi essa a frase que inspirou Nelson Rodrigues a proclamar que nem toda frase deve necessariamente ter sentido. Que isso é o mais puro preconceito. Agora já tenho a ligação entre a primeira frase e a política, tema inicialmente pensado para essas linhas. Tudo está completamente virado no cenário político nacional. É convenção que obriga o maior partido do país a se desligar do governo, depois ministro do judiciário anulando tal decisão. Presidente do Senado falando que não sai. Ministro da integração dizendo que está à disposição. Senadora alagoana saindo pra presidente e ex-presidente falando de imitação. Gente pequena tentando pela segunda vez a cadeira e pesquisas elegendo os "bichão". Diante disso tudo, resta apenas esperar (que é a nossa real vocação) e tentar rir um pouco desse verdadeiro teatro. Sem revoltas maiores até porque eu quase que me dou mal com essa de ficar chateado com a política, tendo quase um colapso no aparelho cardíaco. O meu palpite é que as próximas eleições presidenciais serão algo no mínimo imperdível. Para o bem ou para o mal, porém imperdível. postado por: RODOLFO TORRES 11:18 AM Comments: Terça-feira, Dezembro 14, 2004 Fenomenologia da escrita É com bastante tristeza que percebo que alguma coisa não vai bem nesse mundo dos blogs. Vários já foram abandonados e outros tantos estão em via de sucateamento, num estágio de semi-putrefação. Confesso que antigamente senti muita inveja, de várias pessoas. E quem me curou desse mal foi meu amigo Felipe Nobre, guitarrista de uma das melhores bandas que conheço, Os Grogs. Grande parte de minha amargura no passado se deu ao fato de ser um músico frustrado. E como foi duro entender que música é talento. Queria ter um dom que não nasceu comigo, para minha desgraça. Foi quando vi um colega de faculdade tocando violão no corredor do setor V. Minha primeira reação foi a de ficar com raiva, procurar defeitos, não enxergar o gênio que ali estava. Até que fui sincero comigo e admiti que estava diante de um exímio músico. Pensei comigo mesmo: "Não dá para não ser amigo dele". Quer dizer, num ato de sinceridade para comigo mesmo, consegui transpor uma das maiores características do natalense, que é o desejo de desgraça do próximo. Da mesma forma, fico absurdamente infeliz com esse abandono em massa do meio que caracteriza esses tempos. Que já proporcionou surpresas agradáveis, leituras excelentes, análises profundas ou até desabafos sinceros. Gostaria de saber o que seria de alguns de nós, exibicionistas natos, sem essa ferramenta. No meu entender, sempre fica mais belo falar de assuntos antigos. Aquelas coisas de "no meu tempo" e por aí vai. Ontem mesmo fiz uma visita a uma cigarreira (banca de jornal para o resto do país) muito tradicional no bairro que moro, procurando um jornal local. "A Pioneira" está como sempre esteve, só que agora com serviço de fotocópia. No mais, o mesmo. Só que não vou lamentar mortos antigos, e sim rezar para que esse jovem espaço virtual não morra entre os que o fizeram ganhar força, a ponto de ser o principal responsável pelo terceiro lugar nas eleições municipais de um cabo reformado do exército sem nenhuma expressão política, obtendo mais votos do que dois deputados federais famosos no Rio Grande do Norte. Portanto, deixando a inveja e o "espírito natalense" de lado, peço aos blogueiros de Natal que não abandonem seus portais. Posso até me arrepender. Na verdade, vou me arrepender, tendo em vista que alguns textos que li em blogs provocaram invejas colossais. Mas isso é superável. Importante mesmo é registrar as agonias desses dias, no único veículo do qual dispomos. Ainda... postado por: RODOLFO TORRES 8:28 AM Comments: Segunda-feira, Dezembro 13, 2004 Doente de poeira Respirar por uma única narina durante a noite toda não é tão desagradável quanto acordar com a garganta em brasa porque as duas taparam e o jeito foi inspirar pela boca mesmo. Tudo isso porque cometi a estupidez de mexer em papéis e livros antigos, empoeirados, com alguns anos de resignação. Procurava um livro de Glauco Matoso, que aliás escreve para a revista na qual sou um mero colaborador. Aliás, a última sexta não foi uma das melhores noites desse dia. Após um filme irlandês depressivo e tanto, sinti que meu corpo não iria se sentir muito bem durante os próximos dias. Estou moído. Para fazer uma comparação bastante simples e eficiente, parece que essa alergia é um triturador e eu sou a cana. A batalha interna já começou e minhas defesas estão lutando incassavelmente contra a poeira que está nas minhas vias respiratórias. O resultado é o catarro verde. Dizem que quanto mais verde é o catarro, mais violento foi o combate. Não consigo engolir quase nada, até água dói. Se não melhorar em breve, terei que ir ao hospital dos alérgicos e tomarei injeções para auxiliar minhas células de defesa. Já preguei diversas vezes que o passado é muito melhor do que o presente. Mas não é! Pelo menos quando se trata de papel, os arquivos digitalizados são muito melhores, principalmente para os alérgicos como eu. Não sentirei falta alguma dessas fazendas de ácaros. E com licença, tenho que assoar meu nariz que mais uma batalha já mostra seus mortos. postado por: RODOLFO TORRES 9:50 AM Comments: Sábado, Dezembro 11, 2004 Bola de cristal trágica Mais um turista estrangeiro é assaltado por aqui. Dessa vez, um sueco, assistente social que passava férias nesse lugar tão esquecido até mesmo dentro do país do qual faz parte. Reagiu a uma tentativa de assalto e levou um tiro, disparado provavelmente por um rapaz com idade inferior a dezoito anos, mesmo com uma campanha de desarmamento que comemora participação histórica da comunidade. A mídia local reclama um prejuízo antecipado, já que os turistas não mais virão nos visitar e pela primeira vez na história essa cidade é assunto nacional num país como a Suécia, com direito a ser localizada num mapa por um dos seus jornais mais populares. Restaurantes refinados já não mais pensam em contratar funcionários locais e baratos para funções árduas, como sorrir àqueles que os desprezam. Hotéis e pousadas cancelaram uma possível ampliação em suas estruturas físicas, tendo quem diga que muitas portas vão se fechar num verão extremamente apático para o setor turístico. As natalenses que acompanham executivos e turistas abastados jamais se contentarão com o homem nativo... O consumo de entorpecentes lícitos e ilegais vai diminuir, a oferta aumentará e se as leis econômicas estiverem corretas, o preço cairá. Taxistas não mais farão suas corridas, com dicas generosas do tipo: "sabe, o senhor consegue isso e aquilo lá em...". A polícia terá preocupações mais regionais e a moça que vende protetor solar na beira da praia vai brigar com o namorado porque andou demais e só vendeu um, com fator de proteção baixo, que é mais barato. Produtos como a bandeira nacional ficarão encalhados, logo que o brasileiro não consome as suas cores. Enfim, os habitantes ficarão sós e nesse isolamento terão que aprender algumas coisas simples, como: em turista não se toca, como na mais imaculada das virgens, nem mesmo com os dedos. postado por: RODOLFO TORRES 10:20 AM Comments: Sexta-feira, Dezembro 10, 2004 O fim muito cedo Nem sei se existe mais um curso de inglês que tinha aqui perto de casa, chamado Columbia, no qual passei vários anos da minha infância e adolescência tentando aprender esse idioma que de tão simples e bárbaro, chega a ser irritante. Consigo recordar de muitas coisas, mas o que sempre me puxa é a lembrança de uma noite em 1993. Numa pequena sala de aula estava ao lado do meu ex-vizinho e amigo de infância Moisés, quando de repente a secretária entra interrompendo a aula e chamando meu amigo, que levanta e vai atender ao telefone fora daquele lugar. Volta esbaforido e diz que tem que sair porque um amigo seu havia acabado de cometer suicídio. A aula continuaria até o fim e voltando para casa vi vários carros na rua, e pensei: "Deve ter alguma festa por aqui...". É quando entro em casa e recebo a notícia de que Eduardo, um rapaz que morava no final da rua, com dezoito anos à época, havia atirado na própria cabeça com um revólver. Pelo que fiquei sabendo a atitude foi tomada devido a um final de relacionamento. Não cheguei a fazer nenhuma investigação para saber maiores detalhes, apenas ouvi constatações soltas. Uma delas foi que Toquinho, como era mais conhecido, comprou a arma com um cheque. Não deixou bilhete ou carta explicativa, ao menos que eu saiba. Apenas escreveu no canhoto a palavra "liberdade". Como ele era mais velho do que eu, numa época em que cinco anos mais parecem ser trinta, só me recordo de uma vez em que ele esteve aqui em casa. Brincava de Pogobol (não sei se a grafia é essa) e lembro do seu rosto olhando para o brinquedo. Hoje é bem estranho pensar que tenho seis anos a mais do que ele tinha quando morreu. Sua família talvez não tenha suportado a dor da lembrança permanente, pois a bela casa foi vendida. Desde criança sempre morei nessa rua, e vários homens morreram por aqui. O marido da Dona Bianca; o tio de Moisés, João. Mas a morte de um jovem carrega a lamentação do interrompido. Eu era uma criança e ele um rapaz, e sendo ainda rapaz não teve o tempo necessário para saber que elas sempre nos matam, não tendo a precisão dessa ação partir de quem a sofre. postado por: RODOLFO TORRES 11:27 AM Comments: Quinta-feira, Dezembro 09, 2004 Deixe de ser homem ! Ainda bem que nesse espaço as brigas são escassas. No máximo pode acontecer uma breve discussão sem maiores rancores vindouros, o que de fato é absolutamente salutar. Exemplo foi outro dia em que discutíamos para ver quem seria nosso patrono. Eu saí de Rubem Braga, enquanto Rafael preferiu Fernando Sabino, antes mesmo desse morrer, o que torna sua escolha um tanto quanto profética. Não recordo das opiniões de Gustavo e Bruno para tal posto. E com um leque tão vasto de escolhas, tenho certeza que qualquer um representaria bem demais esse espaço dedicado ao estilo que ora bebe no jornalismo, ora na literatura, e que não tem vergonha de ser uma manifestação nacional das mais características, como tantas e muitas e várias. Só que nesse instante uma dúvida se instala em mim: qual é o feminino de patrono? Supondo que seja patrona, já temos uma. Trata-se da atriz Maitê Proença, que lançou um livro de crônicas chamado Entre os ossos e a escrita, ou se não for esse o título, é bem parecido. Ah, Maitê... És um daqueles casos em que a mulher vira vinho! Vendo Maitê Proença falar sobre seu livro, acabo de me descobrir como um jornalista que sempre quis escrever para revistas femininas, e que nunca teve coragem de declarar esse desejo pois considerava que a imprensa dos homens era mais válida. Queria ser da imprensa feminina, como uma Cláudia, Nova, etc. Até consigo imaginar a delícia que deve ser tratar de temas femininos. Provavelmente serei mal compreendido e até alguns poderão fazer graça com o que expresso, mas tudo bem. Ainda fico com minha vontade. Para poder tirar essas rugas da testa, esse bico dos lábios quando algo de sério acontece, num ritual mais ridículo do que útil. Elas estão ganhando, senhores. Aliás, sempre ganharam, mas só agora estão solicitando o resultado favorável. Pois é Maitê... Provavelmente não tens a escrita mais bela, mas a escrita tem a ti, bela, como sempre serás, obscenamente bela. postado por: RODOLFO TORRES 10:27 AM Comments: Quarta-feira, Dezembro 08, 2004 Marinheiro-menino O mar... Sempre consigo me lembrar do mar com carinho e até com a saudade dos que vivem próximos demais para se conhecerem melhor. A vida perto do mar tem que ser outra, precisa ser outra, tão distinta da que se leva perto demais dos concretos sem o sal pregado nas paredes. E vendo o mar, a praia em particular, lembro de uma caminhada num final de tarde de janeiro, onde fazia uma garoa tão agradável quanto santa, e até o céu cinzento não era capaz de tirar a beleza daquela hora porque nem sempre um céu triste é necessariamente uma paisagem que não acolhe. A areia estava mais alva do que de costume e as águas daquela praia não pareciam receber muito bem as colegas que caiam do céu, rivalizando-se numa dança estranha. De vez em quando as palhas de algum coqueiro perdido teimava em balançar mais bruscamente e o vento deixa de ser carícia e por momentos pequenos chega a ser reflexão. O ar não é tão salgado quanto nos dias de sol. É doce. E doce continua durante todo o trajeto errante de três homens que caminham pelo prazer de ver paisagens mudarem lentamente. Passamos por meninos que tentam levar uma embarcação de plástico às águas com muita determinação e pouca técnica, porém bravamente. Sem nenhum constrangimento, discutem aos gritos o que deveria ser feito para que pudessem explorar melhor seus mares imaginários. O que carregava a âncora é o menor. Enquanto os maiores estavam com remos e analisavam quem deveria assumir que posto na embarcação, o pequeno estava atrás com uma pedra grande retangular que para aqueles garotos deveria ter o formato das tatuagens do Popaye. E seguimos sem pressa nem afliação, olhando por olhar um crepúsculo chuvoso e lindo. Na volta os mesmos meninos ainda brigando, só que estavam no mar, todos acomodados no barco, e o pequeno que carregava a âncora estava nadando com dificuldade por tentar erguer um peso três vezes maior do que o seu. E nos perdemos deles com o bravo marinheiro menino nas águas, tentando um lugar entre os outros, os seus. E fiquei triste por não ter ido ajudar um menino que carregando um grande fardo, buscava aprovação daqueles que desajavam seu afogamento. postado por: RODOLFO TORRES 3:29 AM Comments: Segunda-feira, Dezembro 06, 2004 Dois Copos Faltam-me argumentos sólidos o bastante para afirmar que se trata de um evento corriqueiro e, por quê não imprescindível, em todos os hotéis deste país. E se isso é verdade, então todos os do mundo, já que não somos originais pelo menos no quesito etiqueta e boas normas. Já tinha percebido antes em outros hotéis, mas interpretava como uma fato curioso, um detalhe para chamar a atenção, ou melhor, para reafirmar o destaque do estabelecimento no quesito "bem servir aos seus hóspedes". Na última semana ratifiquei a minha constatação de que não era um evento isolado, e sim uma pandemia na rede hoteleira nacional: Por que existem sempre dois copos no banheiro nos quartos dos hotéis? Forço a minha imaginação há dias para fugir da leviandade e não afirmar categoricamente que isso é um absurdo, mas confesso aos confrades que não consegui, não achei uma explicação lógica para o fato, e agora afirmo aos senhores: é irritantemente desnecessário. Confabulei comigo possibilidades básicas, como por exemplo o cuidado dos hotéis para com os portadores de próteses dentárias, ou seja, seria um simples guarda-chapa. Mesmo considerando a hipótese supracitada, julgo abusivo dois guarda-chapa. Se não infartar e conseguir chegar a honrosa idade do uso destes utensílios, nunca iria colocar a minha chapa no banheiro ao mesmo tempo que Mychelle. Talvez os hotéis estejam pensando naquela parcela da população, que não é pequena, dos constipados. Visto que a constipação intestinal se exacerba nas viagens, pois não estamos no nosso habitat defecatório, seria um possível serviço de utilidade para estas pessoas, que poderiam fazer uso de seus poderosos laxantes já no próprio banheiro, sem o risco de não conseguir chegar até ele para consumar a sua libertação excretória. Como fã incondicional de Vinícius de Moraes, e já pedindo desculpas a Oswaldo Montenegro (pelo plágio), aviso aos hoteleiros que se os copos (que geralmente copos de uísque) são para o uso no sentido da ingesta de bebidas alcoólicas, hábito por muitas vezes praticado pelo mestre vinícius, tomem algumas providências. Equipem os banheiros com uma boa e aconchegante banheira, e uma poltrona confortável para as visitas. Aí sim seria a única função lógica de dois copos nos banheiros: seriam os nossos gloriosos momentos de Vinícius de Moraes. Do aditor GustavoGT SP 06/12/04 postado por: RODOLFO TORRES 10:10 AM Comments: Sexta-feira, Dezembro 03, 2004 A caixa de chocolates chamada Brasil Há mais de um ano pensei em criar uma organização entre os Estados da federação, chamada de Organização dos Estados Apáticos. Aqueles sem nenhuma ou pouca representação nas manchetes nacionais, cujos habitantes sabem mais do que se passa nos grandes centros do que mesmo em seu lugar. E nessa lista de apáticos, o RN entra sem nenhuma dificuldade. Alguns até defendem essa falta de exposição na grande mídia, alegando ser uma espécie de escudo contra a violência e outros males de cidade grande. Mas temo que o nosso isolamento do Brasil apenas seja um estímulo para práticas não tão cristãs, como as que acontecem nessa província cosmopolita. As meninas sendo de vários turistas a cada dia é apenas um exemplo pequeno. Estão vendendo nossos terrenos aos turistas estrangeiros, sem nenhum controle. Ponta Negra não mais pertence aos brasileiros. Pipa também não. Vivemos uma ameaça absurda: perder nossas terras para os que trazem doenças venéreas. Ainda querendo dizer que está tudo bem, a OEA brasileira teria Estados que nem o querido Acre, Roraima, Amapá, Tocantins, como aliados. Somos, os "Estados Apáticos", semelhantes aos chocolates menos famosos e saborosos que as pessoas deixam para comer por último, pois as delícias já foram consumidas. Sempre é chegado o momento em que somos solicitados, mesmo que não sejamos a primeira opção. Ou até servimos como oferta em promoção para os estrangeiros que se lambuzam com o sabor dessa terra. A vida é amarga num fundo escuro e esquecido da caixa de chocolates Brasil. postado por: RODOLFO TORRES 8:07 PM Comments: Quinta-feira, Dezembro 02, 2004 Os frutos mais saborosos A goiabeira que existia no quintal da minha casa morreu há tanto tempo que nem me lembro mais quando foi que ela deixou seus colegas, os pés de carambola, romã, groselha e abacaxi mais sós. Pensei que eu a tinha matado. É que coloquei diversos pregos em seu caule, com o auxílio de um martelo, pois tinha lido no livro de biologia que a substância ferro era muito útil ao crescimento e fortalecimento das plantas. Como sou um sujeito apressado e impaciente, ajudei a goiabeira com aproximadamente quarenta pregos. E ela começou a ficar doente, caidinha. Não sei se todos tem a noção que existem diversos tipos de goiaba, umas mais pálidas, outras mais amareladas, e por aí vai. Sem nenhum protecionismo, as daqui de casa eram as melhores que já comi, até porque tenho a tendência de admirar os sabores fora daqui de casa. Aliás, minha infância tem gosto de goiaba. E goiaba verde. Fruta madura é sem graça. No máximo, tem que ser "de vez", que é quando ela está na adolescência. Acabo de lembrar de outra delícia, que é o umbú. Um amigo que tem família no interior, de vez em quando promete que vai trazer um saco com umbú verde para mim, pelo menos há três anos, e nunca o faz. Estou me desviando do tema primeiro, que é a ausência da goaibeira. Carreguei a culpa pela morte da planta por anos. E hoje, no café da manhã, minha mãe disse que o pé de goiaba morreu devido aos cupins que se alojaram em seu caule. Deveria me sentir aliviado, mas me frustei. Essa culpa que sentia, na verdade era orgulho. Satisfação de ter matado pelo menos algum momento da minha infância. postado por: RODOLFO TORRES 8:52 AM Comments: Quarta-feira, Dezembro 01, 2004 Um lixo de repórter Acho muito bonito quem escreve em jornal impresso, no papel mesmo, onde existe a possibilidade do cheiro de tinta e dos dedos pretos. E que os computadores não fiquem chateados, mas tenho muita atração pelas coisas clássicas. E mesmo tendo essa admiração toda, passei apenas um dia num jornal, num programa de treinamento para estagiários, que deveria durar uma semana. É que fui muito ruim e não me explicaram nada, como deveriam fazer, apenas me jogaram num carro e fui cobrir um fato bastante agradável: um depósito de lixo que estava sendo desativado contra a vontade do proprietário. A vizinhança reclamava que não podia fazer suas refeições pois logo baratas subiam nas mesas e boiavam no feijão, chafurdavam o arroz e com suas antenas tocavam o pão envelhecido; ao mesmo tempo em que ratos comiam os estoques de alimentos das casas. Além de toda a sorte de insetos e doenças. Na hora não tinha a mínima noção de algumas coisas básicas do jornalismo, mas agora vejo que a pauteira devia passar por problemas conjugais na época. O fato é que passei duas horas no depósito de lixo na Cidade da Esperança e enquanto aqueles escavadeiras retiravam o lixo, devido à uma ordem judicial, baratas voavam para todos os lados, numa "nuvem" desordenada e marrom. Algumas repórteres de outros jornais chegavam a chorar de nojo e uma delas disse que jamais poderia pensar na vida que uma barata fosse pousar em seus lábios. Volto à redação, depois de fazer uma pesquisa de opinião no centro da cidade, chamada "O povo fala"; ou "A voz do povo", não sei bem. Depoimentos colhidos, bloquinho rabiscado, sou levado à um dos computadores. "Escreva!". Pergunto quantas linhas devo escrever para a matéria. "A seu critério.". No outro dia chego à redação e sou convidado a entrar na sala da moça que treinava os candidatos. Para não sair de lá completamente humilhado, ela disse que eu tinha jeito, se levasse em conta os ensinamentos dos manuais de redação. Aconselhou-me à compra de jornais de São Paulo e desejou boa sorte no futuro, indicando a porta de saída. E ainda acho bonito escrever em jornais, cheirar o papel e sujar as mãos de tinta. Texto dedicado à Lara, brilhante arquiteta e amiga querida. postado por: RODOLFO TORRES 7:43 AM
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