Confraria dos Crônicos

De crônica, não basta a vida!



Comments: Segunda-feira, Novembro 29, 2004

Leso, liso e luso

Já me revoltei muito contra os portugueses, acho que até mais do que eles merecem. Nem gosto de lembrar certas declarações minhas como: "que povo mais sem futuro esse de Portugal". Só de escrever isso fico, como eles diriam, rubro de vergonha. Pois é, já falei muito mal deles, fiquei bastante desiludido com hábitos da "terrinha" e cheguei a crer que o Brasil só não ia pra frente por causa do idoma. Pode uma coisa dessas? Se bem que eles também não colaboram muito, pois alguns que conheci eram extremamente estúpidos. Deixa pra lá. Falemos pois das coisas agradéveis. Tipo, a música desse povo. Não sei se vocês conhecem alguma manifestação típica daqueles lados, mas pude entrar em contato com algumas que considero maravilhosas. As Tunas. Isso mesmo: Tunas. Jovens universitários portugueses reunidos numa espéie de agremiação acadêmica que tocam músicas tradicionais lusitanas. Serve também para fazer serenetas para as donzelas de lá. Pensem bem. Enquanto por aqui os jovens músicos dizem que a mistura de nossas tradições com ritmos sonoros estéreis é o novo caminho de nossa música, em Portugal os jovens ainda realizam serenatas para as donzelas. Aproveitam a vida universitária bebendo com os amigos, tocando músicas para as damas e ainda viajam de vez em quando para expor a música de seu país. Outros que se deram bem, até demais, foi o "Madredeus". Imagine jovens portugueses tocando rock no arredores de Lisboa. Até que um dia, um deles notou que a música de seu país era, além de mais bela, mais elaborada e lhe dizia muito mais do que aqueles agudos irritantes. Trazendo para cá a história, fui num espetáculo de Alceu Valença outro dia, há muito tempo, e ele disse que na sua adolescência todos o seus amigos tocavam rock. E ele, o único que cantava sua terra, foi também o único a se tornar artista. Sei lá... Nem sigo meus próprios conselhos às vezes, mas que os músicos brasileiros olhem mais para esses exemplos. MIsturar coisa boa com coisa ruim nunca vai produzir algo melhor, já dizia Ariano Suassuna. O problema deve morar na variedade que é a nossa música. Tem horas que muita opção é desagradável. Portanto, nesse ponto, a piada somos nós. Manoeis e Joaquins num palco destruindo nossa história.

postado por: RODOLFO TORRES 7:28 PM


Comments: Natal dos "Narcisos"

Não gosto de usar o "argumento de autoridade", mas às vezes não tem como escapar desse artifício da linguagem que para mim soa mais como uma falta de capacidade de elaborar um raciocínio próprio do que uma prova de conhecimento ou algo do tipo. Nelson Rodrigues já dizia que o brasileiro é um "Narciso às avessas", aquele sujeito que cospe na própria imagem. Ora, para o sujeito chegar a se depreciar, ou a seu próprio povo, sua auto-estima provavelmente se encontra aos frangalhos. Se bem que nunca fomos mesmos bons de auto-estima, mas acho que temos melhorado. É isso, temos melhorado. Quem me dera conhecer por completo a imensidão desse Brasil, com sua absurda variedade de tudo, até de arte. Conheço alguma coisa da minha cidade natal Natal, portanto sou capaz ao menos de analisar essa pequena e esquecida parte da nação. De Nelson Rodrigues para cá, o brasileiro, acredito, passou a se respeitar um pouco mais, a não sentir tanta vergonha das nossas maravilhas. Porém, o natalense continua fiel à denominação rodrigueana. Não que os outros brasileiros sejam um exemplo de orgulho, longe disso. Mas é que em Natal o sujeito cospe para se sentir vivo. Somos uma cidade de "escarradores". Já falei aqui que na minha opinião um dos motivos para esse fenômeno foi a ocupação dos militares dos EUA durante a segunda grande guerra. Mas minha intenção não é provar nada, apenas pedir aos natalenses que se possível parem de cuspir na própria imagem. Isso faz com quem as águas fiquem turvas e nós não sejamos capaz de apreciar um reflexo que não é tão feio como pintando, ironicamente, por nós mesmos. Vamos parar de nos destruir. Em todo lugar encontro coorporativismo estadual, menos aqui. Chega de tanto cuspe. A água está suja, nossa boca seca e nosso reflexo trêmulo com essa atitude que, para nossa infelicidade, é nossa.

postado por: RODOLFO TORRES 12:34 AM


Comments: Quinta-feira, Novembro 25, 2004

Neurose

De repente o susto. Só me dei conta do que estava a ocorrer quando o guarda do metrô já havia voado em direção do cidadão ao meu lado, para arrancar de suas mãos um pacote, que suponho ter sido objeto de furto do mesmo, visto a quantidade de pessoas a correr em direção ao tumulto, sentido contrário que eu e outros menos curiosos adotamos.
Após cessada a taquicardia, notei que vinha calma e despretensioso, caminhando perigosamente em direção ao hospital. Estava pensando longe, sem me ater ao que ocorria ao meu redor. O ocorrido me trouxe de volta a realidade, de forma rápida e lancinante. O andar calmo e relaxado a princípio não deveria ser ruim, mas o é.
Nos nossos dias de caos e guerra civil, é necessário andar atento a tudo e a todos. Qualquer movimento, por mais que não suspeito, deve ser cuidadosamente analisado. A pessoa que caminha ao seu lado, ou pior, atrás de você, é um inimigo em potencial. Vivemos uma situação de guerra. Apesar de acharmos absurdo se viver em locais onde homens explodem seguindo suas crenças, a chance de morrer lá e menor do que a nossa, em virtude da violência nas cidades. Assim sendo, é plenamente justificável que sejamos neuróticos em constante estado de surto. A mania de perseguição é necessária para a nossa sobrevivência. O caminhar despretensioso é extremamente perigoso, quiça mortal.
As estatísticas só esperam um leve descuido teu para te premiarem como mais uma vítima da violência urbana. Serás o terceiro cidadão honesto naquele minuto a sofrer nas mãos de algum meliante.
O grande problema de escapar das garras da violência dessa forma é que fatalmente não nos livraremos de um infarto aos quarenta, ou internação em uma clínica psiquiátrica aos trinta.
Do aditor
GustavoGT
SP 25/11/04

postado por: RODOLFO TORRES 9:42 PM


Comments: Tiêta nas minhas preces

Às vezes, não raramente, sou salvo por imagens ou diálogos perdidos e fora de contexto, mas que produzem efeitos muito claros e imediatos para mim. Já estou entrando numa fase esquisita da atenção do olhar. Parece que estou vendo algo, mas na verdade não estou. Provavelmente estarei visitando porões úmidos e escuros de minha memória ou na melhor das hípóteses pescando previsões para o futuro. Prestar atenção sempre foi um desafio que agora está sendo desvendado, com dificuldade, claro. Numa balança subjetiva dessa falta de concentração, poderia me atrever a pesar as coisas que perdi e ganhei com esse meu agora eterno "veleiro dos pensamentos" que já foi jangada quando era menino, mas jamais chegará a navio. Afinal sempre temi demais me aprofundar em pensamentos próprios. Já cheguei a não conhecer minha feição diante do espelho, estava num corpo de outro ou aquele reflexo não era o meu. Com procedimentos seguros, ficarei apenas no rasinho. Porém tem dias que vejo tudo, entendo tudo e ouço tudo. Hoje é um deles. Coloquei um pão na frigideira e estava esquetando o leite, naquela refeição de meio de tarde. A televisão estava ligada em uma novela, que aliás é a nossa identidade visual e dramática. Um homem brigava com outro por sua inoperância. Todos acreditavam nele e agora estavam desiludidos. Afinal, ele tinha tudo para ser outra coisa, muito maior, poderoso, rico e influente. Hoje era um mendigo, vendido. Seus filhos o abandonaram e a sarjeta era agora seu lar. Um desgraçado... Seu nome era Brasil. Como seria mais proveitoso três "vale a pena ver de novo" por dia. Com apenas uma produção atual por vez, até para dar emprego aos filhos dos atores mais renomados. Imaginem todo dia "Sassaricando", "Tiêta" e "Cambalacho"? O Brasil ia parar, porém se reconheceria muito mais. Outro dia me disseram que o paraíso deve ser conquistado gradualmente, aos poucos, pois caso contrario perderia a graça. No caso das telenovelas, não. Precisamos rir, chorar e torcer pelo mocinho todos os dias, até o fim, sempre. E sem querer ser chato, é notório que os autores de novela não estão inspirados. Pois que tirem férias, e nos deixem com as pérolas já produzidas. Que esses bons tempos das novelas voltem, urgentemente. Enquanto não, ficaremos com o que de melhor fizemos.

postado por: RODOLFO TORRES 5:57 PM


Comments: Terça-feira, Novembro 23, 2004

CONTEMPLAÇÕES


Eu estava só contemplando. Então, ela chegou, fez o que quis, usou e abusou e foi embora. E me deixou só contemplando.

Um devaneio, um raio, um lampejo, uma indiscrição. Algo que nunca termina como começou. Não há como formar um ciclo. Seria mais como um espiral infinito. Não é total alento, mas consola. Não desaparece, mas dá um tempo. Não acaba, mas torna menor. Não interrompe, mas interpõe. Não cura, mas alivia. Sem motivos começa e com mil motivos finda. Dá um novo ânimo. Dá uma nova chance, um recomeço. Facilita, diminui. Impede a devastação total. Hecatombe. É uma tragédia-comédia-tragédia sem fim. Leva ao riso. Mata o choro. Tira a venda. Fecha o olho. Invade a alma. Faz, refaz e se desfaz. Se torna etérea lembrança. Modifica, petrifica, vivifica, fica. Dá a luz. Renova. Faz correr o rio. Faz desatar os nós. Mover o moinho. Faz crescer, aparecer. Faz meninos, homens e homens, meninos. Faz de bobos, palhaços em um palco iluminado, com ou sem platéia, não importa a platéia, só o espetáculo. Tem um jeito simples. Vem e vai; vai e vem. Prolonga. Dismistifica. Tira da rotina, da surdina, da batina. Cega, enlouquece. É completamente conhecido, mas não se tem a menor noção do que seja. Não explica, não controla, não enrola. É o olho do furacão. É o dono do cão. É a ostra que confina a pérola. É a água da fonte. É a fissão de núcleos. É a força da natureza humana. É o que dá e tira a inspiração. É maior que a compaixão, maior que a razão, que a compreensão. É maior do que nós e menor do que Deus. É o horizonte, é o arco-íris, é o pote de ouro. É que todos buscam sem saber onde ou porque. Não há endereço certo, não há motivo justo, não há explicação. Nâo é tudo; não é nada. É só o amor.

Eu estava só contemplando. Então, ela chegou, fez o que quis, usou e abusou e foi embora. E me deixou muito feliz.


O agudo

Bruno Magalhães

23/11/4

postado por: RODOLFO TORRES 9:15 PM


Comments: Curral dos pavões

Ainda no aeroporto de Brasília, antes mesmo de cruzar com Zeca Pagodinho andando livremente por lá, vou em direção a uma das diversas livrarias daquele local para passar o tempo e esperar munido de letras a hora do vôo. Antes de chegar aos livros, passo por um quiosque onde uma vendedora me dá um caloroso bom dia. Eu estava com paletó e sem gravata, um ar de funcionário do alto escalão do governo preocupado com um assunto maior do que a minha real preocupação: ficar a milhares de metros acima do chão num aparelho que pode cair e matar todos à bordo. Quando voltava para finalmente embarcar, a mesma vendedora se lamenta porque eu passei por ela direto, sem lhe dar a menor possibilidade de um contato maior. Pobre moça. Assim como a humanidade, me julgou pelas vestes. Daí tentei juntar o procedimento da vendedora ao que o jornalista Ricardo Noblat disse quando eu o entrevistava. Falou entre outras coisas que o jornalista sofre da "síndrome de Deus". Aquela cara amarrada, aquela prepotência... Coisa que aliás não é peculiar dos jornalistas. Temos categorias profissionais muito arrogantes também. Porém os jornalistas são peculiares devido ao baixo ordenado. Prepotentes na miséria! E assim vai passando a vida. Hoje mesmo fui surpreendido numa clínica médica que estava com minha avó com um discurso muito elegante e com tom de desprezo proferido por um homem de vestes brancas. Desdenhava de forma implacável uma senhora que reclamava da burocracia dos planos de saúde para que todos os presentes ouvissem e talvez dessa forma não se atrevessem mais a reclamar. Bem parecido com aquelas antigas formas de "dar o exemplo". Cada categoria que seja mais estúpido para com as outras para provar sua utilidade e afirmar sua importância nesse mundo. Talvez essa moça do aeroporto tenha me ensinado que devo andar com ar de preocupado e bem vestido. Portanto, peço licença para criar mundos e vidas. Como se eu precisasse pedir alguma licença...

postado por: RODOLFO TORRES 4:52 PM


Comments: Sábado, Novembro 20, 2004

Voar pra quê?

Peço licença ao aditor para utilizar seu estilo reclamador de escrever. Talvez existam poucas coisas no mundo tão úteis e imprescindíveis atualmente. Assim como o sanitário e a roda, o avião é uma daquelas invenções que revolucionam e mudam o mundo. Não estou reclamando do avião em si; pelo contrário, acho-o uma maravilha da mente humana. Estou indignado, injuriado, furioso até, com as empresas aéreas comerciais. E não há nenhum motivo pessoal para tal cólera. Não houve nenhum evento que servisse de estopim para está crônica. Simplesmente acho as empresas aéreas, senso-lato, a pior relação empresa-cliente que já inventaram. Na verdade, só há um motivo para se andar de avião comercial: a economia de tempo. Além disso, não enxergo uma única vantagem em voar comercialmente. Senão vejamos. A passagem é estupidamente cara. Tem trecho mais caro que uma moto; até mais caro do que um carro usado velho. Com certeza mais cara que minha bicicleta. E apesar disso, as empresas têm a audácia de torná-la pessoal e intransferível. Você se torna preso a ela; não pode dar, vender, alugar... Nada. Uma coisa cara assim deveria ser sua, e não da empresa. Você, que comprou, deveria ter o direito de fazer o que bem entendesse com ela. A viagem aérea, que posa de rápida, está cada vez mais lenta, com mais paradas. Cada trecho tem pelo menos duas escalas e uma conexão. Parece um pinga-pinga velho. Se continuar assim, vai ser mais rápido ir de ônibus. Até porque, a viagem começa quando você sai de casa; então aqui em São Paulo começa duas horas e meia antes. Um absurdo. Sem falar na poltrona que é pior que a de qualquer linha de ônibus intermunicipal. Você fica todo dormente, o pé fica inchado, o pescoço dói... O sujeito envelhece alguns anos só de andar de avião. A comida, que já era ruim, agora é inexistente. Dão um pão duro com queijo ou um saquinho com seis amendoins dentro. Racionam até o gelo da água. Limitam, Inclusive, o peso que você pode carregar. Você paga R$ 1.000 por uma passagem e não pode levar duas malas? Não, se passar do limite, cobram R$ 8-10,00 por quilo. Mais caro que ouro. E tem aeroporto que ainda aluga o carrinho! E o ¿overbucking¿? Eles têm a coragem de vender mais passagens que lugares mesmo você pagando uma pequena fortuna para viajar. Ainda tem a taxa de embarque. Pra que serve? Manutenção do aeroporto? Se for, não sou eu que tenho que pagar com certeza, mas sim as próprias empresas aéreas. É por isso que da próxima vez que eu for para Natal, eu vou igual a Dominguinhos: vou de carro. E vou parar no carnaval da Bahia.
O agudo
Bruno Magalhães
18/11/4

postado por: RODOLFO TORRES 12:23 PM


Comments: Quinta-feira, Novembro 18, 2004

Higiene da alma

Que coisa boa é olhar livro de fotografia, filha da pintura e mãe do cinema, assim como o samba, pai do prazer e filho da dor. E não sei porque não consigo mais não associar fotografia com sala de espera de dentista. Talvez pelo extremo terror que sentia daqueles monstros de branco com um motor que perfurava nossos dentes e que tornavam a vida um lembrete constante de que o inferno estaria por vir. Mas, em compensação, quando acabava a agonia, era hora de respirar aliviado e prestar atenção nos dentes dos outros, tão feios. Tínhamos que esperar uma hora para tomar guaraná com coxinha e ter a certeza de que a saúde bucal só era alcançada através da extrema dor física e espiritual. Nessa época, tinha o hábito de adiar os banhos quando algo de bom acontecia comigo. Queria ficar com a mesma roupa e o mesmo ar de quando a coisa boa surgiu. Um banho desmancharia isso e quem sabe a sorte ficaria com raiva. Se bem que minhas alegrias eram relacionadas ao desempenho escolar. Tão rara era uma nota boa que quando alguma chegava, queria dormir com a farda para que dessa maneira o bom desempenho se repetisse, eu fosse aprovado e no futuro não ficaria pobre. Mas a crença acabou. Não há mais motivos para não tomar banho. Ao contrário. Cada dia mais quero ir para debaixo do chuveiro, ficar por horas passando sabonete cada vez com mais força. E a alma continua suja.

postado por: RODOLFO TORRES 10:07 AM


Comments: Quarta-feira, Novembro 17, 2004

Aprendiz de "mulherzinha"

Tento e sempre vou tentar ser elegante. Nunca vou desistir desse traço de personalidade que busco, quase sempre inutilmente. Exemplo de deselegância é comentar aspectos de relacionamento em público. Como dizia aquela velha máxima: "roupa suja se lava em casa". Se bem que não se trata de uma roupa suja, apenas um pequeno desapontamento que não compromete ao infinito. Mentira. Compromete sim! O fato é que ontem estava conversando com minha namorada pelo serviço de comunicação instantânea que os computadores permitem. E lembrei que ela havia comentado meu último texto dizendo que não gostava muito de Rubem Braga. Mas como é possível não gostar, e muito, de Rubem Braga? E infelizmente ela não está só. Dois tios queridos também não nutrem e compartilham a admiração colossal que tenho pelo cronista. Tio Eduardo e Tio Toinho. Perguntei o por que disso. Como é possível? Ela, uma ensaista da melhor qualidade; não faço aqui nenhuma bajulação. Lembrem-se que estou desapontado. Logo ela, uma pessoa com quem aprendi tanto, que possui uma cultura como poucas que conheço, não "gosta muito de Rubem Braga". Nem sei quando entrei em contato com o escritor capixaba pela primeira vez. Só lembro que quando meu irmão mais velho começou a sair com seus amigos adolescentes, eu ainda era uma criança. E ficava só e acordado, lendo livros de crônicas que meu pai ganhava e deixava na biblioteca lá de casa. Quem sabe o mestre estava nas minhas leituras de onze anos... E para completar a minha desilusão, ela ainda o classifica de "mulherzinha". Estilo de "mulherzinha". Pois bem. Minha querida, saibas que sou um mero aspirante a imitador de Rubem Braga. Não tenho o menor pudor em dizer isso. Se com ele aprendi a olhar o cotidiano de outra forma, mais branda e tolerável, com esse homem vi que a escrita leve da crônica pode assumir patamares tão nobres quanto ou até maiores que romances; serei um chocado fiel ao textos de Braga. E já que as coisas foram colocadas dessa maneira, serei a mulher de nossa história. Terás que suportar o meu pranto, minhas dúvidas e angústias. Sempre munida com uma palavra desdenhosa, vais ridicularizar meus tormentos e de forma alguma permitirei mais que sejas fraca. Podes ficar com as farras e amigos de boteco. Com as corridas de cavalos e automóveis, e também com partidas de futebol. Serei a mulherzinha de nós dois, sempre pronta a qualquer hora te dar o carinho que desejas e que na maioria das vezes não mereces. Que os bares da vida não te façam esquecer dos meus braços.

postado por: RODOLFO TORRES 11:21 PM


Comments: Terça-feira, Novembro 16, 2004

Dicas para as décadas

Entrar em uma livraria pode ser perigoso, tão perigoso como o acesso a algumas verdades. Nem falo da questão financeira, que também é importante, visto que é possível o indivíduo mais afoito gastar verdadeiras fortunas em livros. O problema não é gastar em livros, mas em livros errados. Alguns puristas podem dizer que qualquer livro é válido, mas isso não corresponde à verdade. Até os chamados livros de "auto-ajuda", tão mal falados nesses dias, são mais interessantes do que alguns outros. Falo isso porque nesse último domingo vou a uma livraria apenas para procurar "Os Maias", de Eça, mas ele não estava lá. E fico vagando pelo ambiente como uma mosca vadia em volta do lixo, sem me prender a nada, apenas num passeio lerdo e displicente. As sessões são organizadas e até perfumadas. Mas prefiro, sem juízo de valores, um sebo. Tenho pra mim, agora com juízo de valores, que é mais honesto. E de tanto vasculhar os livros por lá, descubro um válido de aquisição. Um Rubem Braga em seus últimos dias, sereno, poeta, como ele sempre foi. Um menino com a experiência trágica dos anos e a visão doce de guardião do cotidiano. Uma carícia em forma de livro. Não canso de passar a vista e de repente me sentir na cena, observando os acontecimentos delicadamente expostos por esse mestre. Como não seria nenhum pecado transcrever por aqui o que achei interessante, aí vão alguns provérbios portugueses que Rubem Braga citou numa crônica chamada "Os portugueses dizem assim", após ter recebido o livro Rifoneiro português de Pedro Chaves . São dicas para o sempre, melhor aproveitadas se compreendidas.

" À barba cã se entrega a moça louçã";
" À besta louca, recouveiro maduro";
" A quem dávamos vida, em galochas vai à missa";
" O abade donde canta, daí janta";
" Adeus, Anica, se o teu galo canta o meu repinica";
" Alegrai-vos, tripas, que aí vai vinho";
" Antes casada arrependida que freira aborrecida";
" Bem prega frei Tomás, façamos o que ele diz e não o que ele faz";
" O bem roubadinho vale tanto quanto o bem ganhadinho";
" Do homem é errar, e da besta teimar";
" Donzela honesta, ter o que fazer é a sua festa"

São vários os provérbios e me sinto um pouco desconfortável por estar requentando uma crônica tão macia. Meu conforto reside em alguns que preferem "pizza amanhecida" ou algo do gênero.

postado por: RODOLFO TORRES 11:20 AM


Comments: Segunda-feira, Novembro 15, 2004

Balbucias, sussurros e voz baixa de mulher

Uma das ambições que carrego é possuir um cachorro num futuro não tão próximo. É que ainda tenho que aprender a tomar conta de mim, pra depois cuidar de outros. Se bem que desconfio que ninguém aprende a tomar conta de si sem antes ter de cuidar de outra pessoa. Mas isso é um assunto controverso e demorado. Esse meu futuro bichano já tem nome: Ligeiro Sertão. Uma singela homenagem a um dos maiores músicos da Confederação do Equador, o cearense Belchior, que numa de suas obras intitulada "Tudo outra vez" fala esse nome de cachorro. Todos concordamos que nome de cachorro pode ser qualquer nome, até nome de gente, já que cachorro não se ofende. Quando caminhava num centro comercial daqui de Brasília, passei por uma loja de animais e me deparei com um belíssimo exemplar da raça Bulldog. Até bati uma foto com ele, que de tanta emoção fez xixi no chão em frente à loja. Quero retomar à música de Belchior, que em certo trecho diz "quero esquecer o francês". Há dois dias, minha namorada me ligou e emocionada disse que finalmente achou a música que finaliza o filme canadense "As invasões bárbaras". Ela gravou e colocou para que eu escutasse aquela melodia tão agradável ao telefone. Repetidas vezes escutei aquilo. Compulsivamente. Nem sabia mais se deveria ficar feliz ou triste, já que persegui aquilo como a poucas coisas na vida. Até mesmo quando estava em Toronto ficava balbuciando a melodia para espantar contraditoriamente a tristeza. Era sábado à noite e estava só, ouvindo essa música francesa que é tão bela e que dói tanto, principalmente sussurrada por uma voz feminina. Desde então não posso esquecer o francês, esse idioma que promove uma tortura boa em voz baixa de mulher e que deveria ser exclusivo delas; que nem aquelas rendas complicadas do Ceará, coisa de mulher e um "charme brasileiro".

postado por: RODOLFO TORRES 11:31 AM


Comments: Domingo, Novembro 14, 2004

Depressa e com força demais

E eu que achava que por aqui em Brasília tudo era tão diferente do restante do país, por aqui existir uma organização única em todo o Brasil, fui agradavelmente surpreendido com uma atendente de um lava-roupas logo na entrada do prédio em que estou alojado. Estou ficando sem roupas limpas e amanhã é feriado nacional. Mas até aí nada demais. Principalmente nesses nossos dias, onde tudo é lucro e mais lucro; não saberia dizer nem por que razão mais existe domingos, feriados e dias santos. Sem razões aparentes para descansos comercias, de forma ingênua fui perguntar à moça se na segunda feira estaria a loja aberta, com uma certeza íntima de que estaria, mas tinha que ter a certeza. Já estava de saída para encontrar alguns parentes e não havia mais tempo para subir ao apartamento e pegar as roupas várias e sujas. A respiração fica muito difícil no meio-dia, mas a distância era pequena até demais, e não acarretaria risco ao meu coração, que teima em bater depressa e com força demais quando saio nesse horário. Já no interior da loja, vendo roupas estendidas e enumeradas, ao lado uma moça passava o ferro quente em uma blusa branca, sou atendido por uma mulher de cabelos curtos e uma cara um pouco irritada. Pergunto se o estabelecimento estaria aberto na segunda, feriado nacional, como havia dito anteriormente. Ela, num obsceno alívio, responde: "Graças a Deus não!". E inicia uma gargalhada que só encontra precedente na minha infância, onde era ridicularizado praticamente todos os dias. Fui encontrar os primos da minha mãe com humilhações cravadas num coração que bate depressa e com força demais nessa hora do dia, em Brasília.

postado por: RODOLFO TORRES 3:24 PM


Comments: Sábado, Novembro 13, 2004

Os exorcistas já chegaram

Por ordem do bom-senso, recomenda-se sobreviver às próprias memórias, que chegam de repente e não deixam o pobre ser livre dos castigos em forma de imagem. E sendo o "baile do respirar" essencialmente irônico por demais, um dos melhores remédios para a subexistência às recordações é sua externação. Fico pensando teimosamente no cinema autoral dos italianos, todos os dias. E noto que os filmes que mais gosto são desfiles de demônios particulares, de grandes diretores, e mais do que grandes diretores: grandes homens. Unidos, apesar da vaidade que é ser um produtor de fantamas pessoais que serão consumidos por varios povos. Eles eram unidos e creio que ainda o são. Lembrei-me agora de um livro que foi lançado sobre a vida do jornalista esportivo e locutor Sílvio Luiz. Em uma certa hora de uma entrevista de lançamento, ele confessa, até um pouco envergonhado que não leu o livro sobre ele mesmo. E que não o fez por sentir uma profunda depressão ao passar a vista nas primeiras páginas e relembrar um tempo em que a atividade profissional e a vida eram mais genorosas. Não em termos financeiros ou materiais. Mas em companheirismo. Os italianos têm milênios de história e um território menor do que vários Estados da federação. Nós não temos passado e um continente em forma de país a ser "amarrado" por nós mesmos. Que os exorcistas de lamúrias privadas brasileiros transformem seu penar em algo prazeiroso e que dessa forma consigam dormir mais tranqüilos com aqueles "aperreios mentais" materializados e livres para impressionar a outros. Essa é a súplica da arte: o tormento de vários à custa do bom sono de um; unido ao seus pela beleza catastrófica dos desassossegos próprios insistentemente vivos. Arte é libertar demônios pessoais. E como deve doer a prisão desses demônios!

postado por: RODOLFO TORRES 10:21 AM


Comments: Sexta-feira, Novembro 12, 2004

Guarda-chuva

Invenções são inerentes à espécie humana. Devo inclusive concordar que a maioria delas são por demais proveitosas, de extrema utilidade, chegando até (graças a elas)a nos tornarmos verdadeiros sedentários estirados em um sofá esperando o infarto chegar. Porém, de todas as invenções da humanidade, a mais inútil é o tal do guarda-chuva.
Não existe coisa mais imprestável, e tenho certeza do que vos falo. Ele é tão ridículo que, em primeiro lugar, nunca está no local certo, quando precisamos dele. Se quiseres ver uma seca de proporções catastróficas, basta sair todos os dias de casa com o tal guarda-chuva embaixo do braço, que não cairá uma só gota de chuva, seca total, chão rachando e os miolos fritando de tanto sol. No mínimo desleixo e esquecimento de tal utensílio, desmoronará sobre sua cabeça o pior dos temporais.
Se, por algum erro cósmico, você se deparar com um deles durante uma chuva, não se engane, sairás de encontros às águas todo contente, enfiado embaixo desta bomba armada, sendo todo ensopado dos pés ao pescoço. Só escapa a cabeça. Inclusive uma das poucas funções do mesmo seria na saída do salão de beleza, para as madames que acabaram de retocar o cabelo. Você, pobre confrade, que está no meio da chuva, estará sendo todo molhado (menos o cabelo), e o pior, passará a andar mais devagar por se achar protegido, ledo engano. Melhor seria aquela corrida básica dos que não tem guarda-chuva, que se molham muito menos.
Ironicamente, sua principal utilidade acontece nos dias de sol, nos sendo de grande valia. Quem manda a chuva vir de lado, e não de cima?
Por culpa do vento, ou sei lá de quem, o fato é que o objeto é imprestável. Tenho-lhe tanta aversão que nem sei o seu plural.
Do aditor
GustavoGT
SP 12/11/04

postado por: RODOLFO TORRES 1:02 PM


Comments: AS GUERRAS DE BRUNICO

Como todos os gênios incompreendidos, as invenções de Brunico, que nunca as patenteou pois nunca buscou dinheiro ou glória terrena, foram modificadas e utilizadas de forma maquiavélica para o mal. Seu papel nas Guerras púnicas e em muitas outras posteriores foi, por assim dizer, indiretamente decisivo. A civilização ocidental é o que é hoje porque Roma e não Cartago possuía a tecnologia bélica mais avançada da época, afanada inescrupulosa e impunemente do nosso herói por César. Lembro-me bem de um esboço em papel-manteiga encontrado em 1092 d.C., no fundo de um poço de ouro branco (jorrava leite com nata e às vezes queijo de coalho), que chegou até nós, escapando da Idade Média através de monges homossexuais da Ordem dos Sem Cueca, que explicava minuciosamente como fabricar e utilizar tão mortal arma de guerra àquela época; hoje, claro, já obsoleta. Transcrevo, pois, de forma livre, as observações feitas pelo próprio Brunico acerca desta maravilha tecnológica, em carta enviada ao dono da pensão familiar da cidade, seu cúmplice na empreitada. O texto era em português arcaico e erudito (ininteligível atualmente).
De como enviar diversão sorrateiramente pelas muralhas. Por de Magal (data provável: setembro de 109 a.C.)
Nesses tempos modernos, em que nossas liberais esposas, amparadas pela lei, têm o cúmulo de querer proibir diversão fora dos muros da nossa cidade (nota: todas as casas de fornicação da época ficavam fora dos limites da cidade, por motivo de decoro), recorro a um apetrecho por demais importante para nossa liberdade como homens. Já que não podemos de maneira alguma sair da cidade, sob pena de execução, para praticar atos de real e justificada necessidade masculina, sugiro, pois, fazer adentrar, por meio aéreo, as perseguidas. Isso seria feito de modo escondido, por cima dos olhos das nossas mulheres e das espadas de nossos guardas. Assim, estaria garantido o direito divino dado por Zeus a todos os homens, qual seja: cópula em caráter não-reprodutivo. Segue em anexo como fazê-lo.
Ave Baco.
Brunico de Magal
PS: providencie um colchão de palha para aterrissagem.

Estava criada a catapulta, que em português arcaico não era escrita com nenhum ¿L¿.
O agudo
Bruno Magalhães
11/11/04

postado por: RODOLFO TORRES 12:34 PM


Comments: Cascata verde

Com o passar dos dias, responsabilidades são adquiradas, conscientemente, ou não. Tenho pra mim que algumas responsabilidades são uma proteção ao esquecimento, tão inevitável e por isso mesmo, tão temido. Já tomei o esquecimento como dádiva, benção. Mas hoje tenho um certo respeito para com o tempo e não seria capaz de jogar fora a forma encontrada para permanecermos lembrados por mais uns dias. E partindo por esse caminho, iniciei a tarefa de não deixar a sacada da minha casa tão fúnebre, como inclusive já haviam me dito. "Uma casa que dá medo!", já disseram. Com uma palmeira vinda do Piauí, cujo tronco só sai da terra após vinte anos, e com longas folhas que embalam meu sono e minhas insônias. Confesso que fiquei com receio após saber que justamente a minha casa era vista dessa forma, tão pouco acolhedora. Por isso regava as plantas três vezes ao dia, para que uma "cascata verde" caísse do primeiro andar e o contraste surgisse. O verde se contrapondo à ausência de vida, ou cor, que dá na mesma. E tive algumas recompensas. Um beija-flor visitava aquele pedaço de verde quase que diariamente e as plantas já estavam alcançando os carros lá embaixo. Esse pequeno jardim era uma das minhas mais prazeirosas obrigações. E temo por sua vida. Acho que após uma semana fora de casa, ele está seco, quase morto. Morto como alguns dias me senti, sendo ressucitado pela simples tarefa de fornecer água às plantas, esperando que seus ganhos tocassem o chão e que um certo pássaro bebesse a seiva dos meus cuidados.

postado por: RODOLFO TORRES 10:25 AM


Comments: Quinta-feira, Novembro 11, 2004

É brincadeira

Admiro, e muito, aqueles que por alguma fatalidade do destino ou algo do tipo, possuem auto-controle. Simplesmente não permitem que suas emoções tomem conta do seu corpo e as isolam, num pequeno compartimento do cérebro, que apenas serão usadas no futuro, quando estritamente necessárias. Mas o fato é que não tenho essa característica. Quando meu pai era estudante da faculdade de medicina, um professor dele disse: "Deus não se incomoda se o chamarmos de natureza.". E essa natureza me fez assim, sem capacidade de controlar impulsos, de certa forma até bobos. Mas juro que se não contasse o que por aqui encontrei, me sentiria mais forte, mais maduro. Deveria esperar meu retorno para de maneira triunfal declarar para os lá de casa: "Encontrei o jogo Academia e o comprei". Para os que não o conhecem, esse jogo é muito instrutivo e até certo ponto divertido. Funciona da seguinte forma: O cidadão lê uma palavra que apenas Aurélio Buarque de Holanda e Antônio Houaiss conhecem o significado. Cabe aos participantes encontrar significados para que os outros creiam que aquilo escrito por eles é o real sentido daquele amontoado de letras sem uso cotidiano. Passei por uma lojas de brinquedos e resolvi perguntar apenas por perguntar. E lá estava o jogo que foi caçado por minha mãe e meu irmão por esse país afora. Agora é só esperar para jogar em família. Gostaria pois de apenas um parênteses antes do desfecho. Creio que deveríamos todos passar uma madrugada trancados numa loja de brinquedos, um de cada vez, todo mundo. Até o fim das noites desse mundo, deveríamos a nós mesmo. Se ainda tiver crédito com o Papai Noel, ou o Do Céu, ou a Natureza; pediria isso. Que passemos essa noite na loja de brinquedos, e outra na de doces, mais uma na loja que vende quadrinhos da "Turma da Mõnica" e por fim somente outra num parque de diversão da periferia - sem brincar na roda gigante, que é perigosa e enferrujada. E, portanto, e voltando, não seria muito mais interessante ficar caladinho e apenas mostrar o "achado" em casa? Vai ter falta de controle assim numa loja de brinquedos...

postado por: RODOLFO TORRES 8:25 AM


Comments: Terça-feira, Novembro 09, 2004

Arapuca imaginária

Ainda ontem senti despreparo para com a sorte. Via as armações de concreto que surgiam do chão como numa plantação de prédios e minha blindagem contra a solidão funcionou como nunca. Não era necessário tentar um sorriso ou buscar uma lembrança amena de algum tempo de vida. Sabia do meu destino que era dormir sem contentamento. E assim o fiz. Um sono longo, profundo e constante. Bem queria continuar num trecho em que apareciam palavras mais ou menos assim: " nós que éramos tão jovens, nunca soubemos sonhar". Algo assim. Mas acordo com o telefone gritando e tinha tanta certeza de que lembraria dessas palavras que desprezei o papel e a caneta. Já desprezei algumas muitas coisas durante meu trajeto, na certeza de que não iria precisar delas jamais. Porém a experiência ensina que os bons sonhos não são diários. E que interessante seria andar com um bloquinho de papel e algum lápis no bolso, para que quando pensamentos dignos de morte no branco do papel façam uma visita, que sejam aprisionados. Nunca desprezem as formas de prender algum instante de imaginação. Até porque nunca fomos tão pouco visitados por momentos dignos de captura.

postado por: RODOLFO TORRES 10:54 AM


Comments: O MELHOR CAMINHO

Não que eu não seja católico ou cristão, por favor! Mas reconheço que, apesar de toda a minha formação de colégio de freiras, a igreja católica não é o único meio de se chegar a Deus. Nem as igrejas evangélicas, nem o judaísmo, espiritismo, budismo, panteísmo ou qualquer outra forma de expressar religião que haja no mundo. Todas são; mas nenhuma isoladamente é mais ou menos que as outras. Na verdade, ninguém precisa de intermediários para chegar Nele. Na maioria das vezes o meu intermediário é Jesus, até porque é mais fácil, mais tradicional, mais correto até. Só que não recorro somente ao Filho de Deus, em que acredito, mas com algumas reservas históricas colocadas pelo homem. Não pensem que recorro a alguma seita pagã ou culto ao diabo ou a Inri christi (aquele Cristo fajuto que é motivo de outra crônica). Não. Antes haver qualquer tipo de religião, o homem já entrava em contato com o Divino de forma individual, diretamente conversando ou realizando qualquer ritual em homenagem a Ele. Depois da igreja Católica todos os rituais fora do seu poder foram considerados pagãos e, portanto, proibidos. Atos como contemplação e meditação foram banidos porque não se necessita de intermediários (sacerdotes) para chegar a Deus. Inclusive o ato ritualístico que mais aproxima o Homem do que é considerado divino: o amor espiritual e carnal entre um homem e uma mulher. Com ele atingimos facilmente o "nirvana", considerado meio caminho para o Céu por muitos. Até aquele tempo, o homem e a mulher eram considerados iguais porque com os dois juntos, se poderia atingir Deus com muito mais facilidade. Depois, decretou-se que a mulher era impura e inferior (as mais liberais foram queimadas), o sexo era feio e pecaminoso e todos as outras formas de ritual foram retiradas da sociedade. O amor e, junto com ele, o sexo são formas naturais de comunhão com Deus. E vale gostar e querer mais, mas de forma espiritual, sem banalidades. Lembre-se, não foi o diabo que criou o orgasmo, foi Deus, para que nos reproduzíssemos. Portanto amem e façam muuuuuito amor, que Deus não desaprova. E para os americanos que votaram em Bush: vão transar e deixem o mundo em paz.

O agudo
Bruno Magalhães
08/11/4

postado por: RODOLFO TORRES 10:38 AM


Comments: Segunda-feira, Novembro 08, 2004

Além de tudo, candango

Quem também construiu Brasília foram os nordestinos. Não que eu não suspeitasse, mas tive a certeza ontem de que esse povo ergueu a capital do Brasil quando visitei o primeiro palácio presidencial daqui, chamado "Catetinho", em alusão ao palácio do Catete no Rio de Janeiro. A cidade até fez uma homenagem aos trabalhadores braçais do nordeste com duas estátuas que ficam de frente à catedral. E assim como as outras grandes cidades do país, Brasília também foi erguida pelo meu povo. E como seria possível alguém não prestar reverência a esses homens e mulheres? Pois não é que algumas pessoas daqui ainda falam mal dos nordestinos! Ainda existe isso no Brasil! As exclamações poderiam jorrar em constatações cada vez mais desoladoras. No ímpeto da vingança, já preguei atitudes de retaliação contra brasileiros que vêm de outras regiões (excluindo a região Norte), como por exemplo dar informações erradas e desencontradas ao turista que visita Natal. Ou até não servir café com bolo da moça, tapioca com côco e o divino suco de mangaba. Estava raivoso e disposto a todo tipo de maldade. Mas me vi só nesse projeto. E diferente de outros povos, com intensa capacidade de combustão de rancores, o meu é pacato, sereno e acolhedor. Diferente dos habitantes do interior, o natalense é tranquilo (há exceções!). E hoje percebo que seria uma injustiça contra qualquer homem tirar-lhe o gesto meigo e carinhoso dos cidadãos de Natal por uma piadela cretina. Que continuem falando mal dos "candangos". Não serei eu a plantar desavenças em almas tão boas.

postado por: RODOLFO TORRES 10:05 AM


Comments: Domingo, Novembro 07, 2004

A carícia de Brasília

E Brasília está aqui! Nunca achei que algum dia viesse pra cá, e muito menos que gostaria desse lugar. Não cabe agora uma descrição de como é essa cidade, projetada pelos gênios da arquitetura mundial, até porque mesmo quem nunca veio sabe mais ou menos como são os principais pontos daqui. Os ministérios, o congresso, a catedral, o eixo-monumental, etc. Desnecessário é ficar relatando o que a televisão mostra diariamente (desnecessário no caso em que você não quer relatar mesmo, pois o relato do cotidiano televisionado ou não é fundamental). E com menos de dois dias na capital federal, visitei grande parte dos pontos turísticos graças ao espírito de cicerone do meu primo Augusto. São muito belos, imponentes... Dá até um certo orgulho republicano passar por esses cartões-postais de uma insanidade de JK que hoje é símbolo de posturas não muito corretas por parte dos homens que deveriam levar nossa pátria ao lugar devido na história. E quero crer que esse lugar já está empoeirado, com teias de aranha e fungos formando uma "pele" no nosso pódio. Mas chegaremos lá! E sem ódios, nem rancores. Será o "império da suavidade"! Porém, Brasília é uma menina rica e bela sem auto-estima. Que já deitou com vários, e nunca sentiu nada além de um aprofundamento em sua astronômica solidão. Já é hora de olhar para os seus, menina! Esqueça as promessas de felicidade fácil com gente bonita de fora e preza agora pelos teus desdentados e sujos; capazes de dar a vida pela carícia tua. Carícia desconhecida e cotidianamente aguardada.

postado por: RODOLFO TORRES 8:11 AM


Comments: Sexta-feira, Novembro 05, 2004

DO NÃO ESCREVER

Retomo hoje, pois, minhas atividades literárias há muito deixadas de lado.
Diria que não foi por querer que as deixei, mas ninguém me obrigou a não
escrever. Então falo apenas a verdade, Realmente não tive tempo. Estava
envolvido em muitos outros projetos da mesma forma criativos ou não,
mecânicos ou não, nem tão obrigatórios assim, mas com certeza urgentes e sem
possibilidade de protelação. Passei longos meses sem escrever, sem comentar
as crônicas dos meus caros colegas confrades, e, confesso, sem nem ler a
página que considerava outrora necessária e diária, assim como café da manhã
que todo dia a gente toma (eu, pelo menos, tomo). Minha vida pessoal e
profissional estava muito conturbada. Nesse período eu me mudei quase
definitivamente para Natal. Apenas meu corpo permanece em São Paulo, minha
alma, mente e coração, e todo o resto já estão em Natal. Aproveito para dar
um conselho, se é que tenho pré-requisitos para tanto. Nunca se mudem, dá
muito trabalho. Mas se a mudança for estritamente necessária, comecem-na
pelo menos 10 anos antes, que é para dar tempo. Mas não foi só isso. Tive
prova (a menor das desculpas). E principalmente, me envolvi diretamente com
a publicação do primeiro e essencial livro da confraria. Quem não tem, ainda
pode para adquirir o seu antes que esgote (R$ 10,00 + frete para qualquer
lugar do Brasil e Mundo). Mais ainda, produzi o meu segundo CD, totalmente
feito por mim. Quando digo feito por mim, inclui-se composição, execução,
gravação, digitalização e publicidade das músicas. Portanto, Volto
humildemente à confraria, afanando versos de Nelson Gonçalves, para pedir
exatamente o que segue:
Confraria, aqui me tens de regresso
E suplicante eu te peço a minha nova inscrição
Que Deus me dê a inspiração necessária para merecer pertencer novamente a
essa Casa de Crônicos.

O agudo
Bruno Magalhães
05/11/4

postado por: RODOLFO TORRES 4:47 PM


Comments: Saiam do meu sonho!

Bom mesmo é ser "do contra", como diria meu amigo Solino. Mas não é só ele que pensa dessa forma. Outro, Alex de Sousa, já me confessou que desde o dia 2 de janeiro de 2003 faz forte oposição ao governo federal. Eu até já tive meus dias de ir contra a maré. Hoje apenas observo meio que de fora, num altismo consciente, o que se passa por aí. Se bem que já estou mais velho e boa parte de minhas energias já se foram. Não tenho mais paciência para deixar o cabelo crescer e saio em retirada quando alguns exaltados começam a tentar solucionar problemas globais em mesa de bar. Não tenho mais idade para sair bêbado de botecos pela madrugada tendo a certeza de que o mundo está errado. Como se o mundo não fosse apenas reflexo do que no íntimo somos: desagradáveis. Deixando o mundo de lado e partindo para a cena adolescente de Natal, devo dizer que sonhei um sonho equivocado ( o pleonasmo é proposital). Quando era um baterista adolescente e testava tímpanos alheios, queria que o universo da MTV baixasse por aqui. Seria como aquela ocupação dos militares dos Estados Unidos durante a segunda guerra mundial nos campos de Parnamirim. Comenta-se por aí que esse episódio deu margem para que o natalense não fosse apegado às suas raízes como são outros patrícios nordestinos. Tomo essa hospedagem como uma desgraça para minha cidade. Outros, não. Deixando novamente a conjuntura mundial, principalmente a passada, vejo que meu desejo veio parar em Natal, de forma atrasada, mas veio. E se antes achava tudo sem sentido, com Carnatais, e aquele traje típico dos jovens à época: bermuda curtíssima quadriculada, camisa com manga três quartos e gola "canoa", sapatinho esporte fino e várias pulseiras e correntes douradas; hoje o quadro é mais desolador. O universo da juventude está totalmente teen, na forma mais feia da palavra. Na ressaca do sonho mal sonhado, não faço mais pregações ao vento. Apenas olho, e sinto uma profunda tristeza pelos jovens que acolhem o que desejei. Um universo fabricado em salas de reunião. Uma fúria oca em palcos projetados. O trio bateria, baixo e guitarra está exausto jovens. Saiam desse ambiente que tanto desejei. E nunca mais voltem.

postado por: RODOLFO TORRES 9:49 AM


Comments: Quinta-feira, Novembro 04, 2004

Um coração do tamanho das belezas capixabas

A vida de quem se atreve a escrever tem lá suas compensações. Mesmo naqueles dias em que o assunto tem que ser desenterrado ou até repetido, ainda sim é um privilégio. E quando a inspiração vem, necessário apenas é deixar fluir a sucessão de palavras. Hoje não terei que procurar um tema, fazer associações diversas ou ficar lembrando do que aconteceu há décadas. Pois recebi um livro com paisagens do Espírito Santo da minha única leitora capixaba, Sônia Sabino, mais conhecida como "Ninha". Cerca de três semanas atrás mandei um exemplar do meu singelo livro para ela, que mesmo assim ainda insiste em ser agradável para comigo. Além de mostrar as cidades do ES, muito lindas por sinal, Ninha ainda envia um CD com músicas tradicionais do seu belo Estado. Pude ver como Vitória é um lindo lugar, com suas praias e paisagens que até lembram Natal. Vila Velha é outro local singular, com seu "Convento da Penha". E poderia ficar aqui descrevendo essa preciosidade que tenho em mãos por horas e mais horas. Mas acredito que ela deva suspeitar que a coisa que mais me chamou a atenção foi um postal de Cachoeiro de Itapemirim, terra natal do maior cronista desse país: Rubem Braga. Lá em Cacheiro tem duas montanhas lindas, chamadas "O Frade e a Freira". Assim escreve Ninha sobre as montanhas: "Duas montanhas germinadas, cujo formato faz lembrar o casal religioso, localizado na divisa de Cachoeiro de Itapemirim com Rio Novo e Itapemirim. Uma lenda conta que os religiosos se apaixonaram e, como não tinham direito ao amor, sofriam unidos pela mesma dor. Não se sabe se cederam ao amor, mas Deus não os separou. Porém, jamais os uniu em um abraço. E assim a sua imagem permanece até hoje esculpida pela natureza: frente a frente, em atitude de 'sonho e resignação'. ". Eu sou um péssimo observador de montanhas nas quais as pessoas vêem algo além de pedras. Exemplo disso é na cidade do meu pai, Martins, uma serra no interior do Rio Grande Norte. Ao subir, temos ao lado um paredão imenso no qual todos dizem ver a imagem de Jesus com a coroa de espinhos. Confesso que nunca vi isso durante diversas subidas e descidas da serra. Minha mãe fala que é porque não tenho fé. Mas no caso do "Frade e da Freira", talvez pela emoção do instante; por essa ser a terra do "Velho Braga"; ou sei lá porque; vi perfeitamente. Vi sim! Entretanto sou um indivíduo honesto, principalmente em relação às minhas leitoras que mandam lembranças (são várias!) e tenho que aqui declarar que sai ganhando nessa história. Enquanto envio um exemplar do livro da Confraria para Ninha, ela por sua vez manda um guia fabuloso do paraíso no Brasil. Primeira foto: linda. Segunda foto: linda. Terceira foto: linda. Tudo: lindo! Olha que até procurei defeitos para que o meu querido RN não ficasse com ciúmes, mas é complicado encontrar algo que não embriagem os olhos. E assim pude conhecer um pouquinho mais da minha pátria através da gentileza dessa capixaba, que tem um coração do tamanho das belezas do Espírito Santo.

postado por: RODOLFO TORRES 3:05 AM


Comments: Quarta-feira, Novembro 03, 2004

Janela & Jambeiro

Quando tudo começa a ficar claro, os pássaros cantam nos fios telefônicos que passam pelas folhas do pé de jambo em frente à janela do meu quarto. E não raro é aquele pequeno exemplar de primata que também corre por esses fios, assustado e com um receio quase humano. Um ou outro carro sobe ou desce a rua, pessoas passam sonolentas para manter a saúde e aqueles lá que vão comprar pão e leite. Nesse mesmo instante algumas mulheres estão varrendo as calçadas que de forma insistente e diária são invadidas pelas folhas. Inclusive pelas folhas do meu pé de jambo diante da janela dos meus aposentos. Varrem lá sem muita disposição, com aquela preguiça esmagodora de início de dia. Não quero aqui dizer que elas são preguiçosas, longe disso. Dentre os sons que compõem a manhã de minha rua, elas são parte essencial. Ao vagar uma hora perto da janela, que dá pro pé de jambo, num pequeno quadro entre as folhas e as bordas de madeira da parede, uma delas varria a rua despreocupada, como se aquela cena não fosse plástica. Numa combinação de sofrimento e preguiça a senhora levava a vassoura num bailado experiente e terno, e as folhas subiam ao sabor de sua vontade naquela manhã de novembro comum. Durante a madrugada é possível escutar o barulho das ondas lá de longe, quando a cidade se cala, num instante em que quero gritar e não mais posso. Do mesmo modo não pude ficar vendo por muito tempo a senhora que à sua maneira regia um tipo de espetáculo de dança e música embaixo do pé de jambo, de frente a um qualquer que diante de uma janela via a vida, de teimoso, que sempre foi.

postado por: RODOLFO TORRES 9:31 AM


Comments: Terça-feira, Novembro 02, 2004

Eleições 2004

Pilar de qualquer sociedade democrática, o voto tem sido analisado exaustivamente neste dia tão importante, um dia em que se definirá os futuros de um país. Neste dia 02 de novembro de 2004 os eleitores (que quiserem) decidirão o nome do novo presidente dos Estados Unidos da América.
Se não estivesse plenamente convicto de minha sanidade mental, e em pleno gozo de orientação temporal e espacial, teria sérias dúvidas se estou vendo noticiários do Brasil ou dos EUA. Não quero nem falar da desorganização dos donos do poder em termos de eleições, ou da vitória forçada do atual presidente há quatro anos, quero apenas questionar a real importância do nome do vitorioso para a nossa situação.
Tenho verdadeiro asco quando vejo o atual dono do mundo na televisão, mas pouco me importa quem sairá vitorioso, isso não vai afetar em nada a nossa vida submissa. Saibam os senhores que tudo o que se discutiu nesta campanha disse respeito a guerra e a economia, deles, é claro. O resto do mundo que se exploda, sem trocadilhos ou humor negro.
Para aqueles que compartilham da minha opinião eleitoral, saibam que tradicionalmente, o partido do homem da guerra(republicano) é o menos protecionista. Em outras palavras. Para aqueles que pensam no Brasil, talvez seja melhor a sua permanência, pelo menos em termos de comércio internacional. Saindo da teoria, tanto faz como tanto fez, ou vocês acham que hoje em dia, na atual conjuntura, existe espaço para se pensar na América latina. Só quem anda perdoando dívidas e pensando nos outros países ultimamente é o Brasil.
Do aditor
GustavoGT
SP 02/11/04

postado por: RODOLFO TORRES 10:46 PM


Comments: Segunda-feira, Novembro 01, 2004

Asfalto triste da Prudente

Triste. Assim é o final de toda a festa. E quando os últimos convidados se vão, mesmo sobrando enormes quantidades do que se come e bebe; a fartura nessa hora é triste. E de nada adianta olhar para as marcas da celebração impressas no chão que já fazem parte da decoração pós-festa. Tudo é assim, e melhor é aceitar: apenas e tão somente triste.
Passava agora mesmo por umas das principais avenidas daqui, e tudo estava tão sujo; e triste. Assim como aqueles cadáveres dos soldados da primeira grande guerra em solos europeus, sem tirar nem por; copos plásticos, latinhas de cerveja, papeis e garrafas plásticas dividiam o asfalto dessa avenida. Todos lá, mortos.
Mais uma eleição é disputada. Porém nesse tipo de celebração a tristeza não assume seu posto apenas no final, como em toda festa. A tristeza desde sempre esteve ditando as normas dessa forma que os homens encontraram de mostrar uns pros outros porque devemos louvar um egoísmo.
E o mal não é chegar às ruínas dos confrontos e sentir-se triste. O mal é partir para algum campo de batalha com a alma morta. Ou pior, triste.

postado por: RODOLFO TORRES 3:29 AM



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