Confraria dos Crônicos

De crônica, não basta a vida!



Comments: Domingo, Outubro 31, 2004

Tradições vistosas

Sei de muita gente que adoraria ser inglês, e me incluia nesse grupo até pouco tempo, questão de meses, quando me deparei com alguns e podendo conviver de perto com os indivíduos, desisti para ser um brasileiro, que nunca desiste. Voltando do Canadá para o Brasil, ou melhor, de São Paulo para Natal, num vôo com conexões em Brasília e Recife, um rapaz que estava ao meu lado começou a conversar. E num curto espaço de tempo me fez seu analista e declarou um profundo descontentamento com o ser humano. Estava numa desilusão que só ele. Muito frustrado com a falsidade das pessoas e outros temas corriqueiros para quem quer reclamar da vida. Não seria eu a reclamar de alguém desiludido, mas a impressão que deu foi a de que se ele não desabafasse comigo, iria cometer o suicídio. Quando resolvi abrir a boca pra exclamar meu desapontamento com alguns aspectos da vida num país de língua inglesa, ele me conta que já havia morado na Inglaterra. E que não sabia como tinha saído de lá. Teve uma apendicite em Londres e chegou a ser operado por lá mesmo, sem seguro saúde, apenas como um turista brasileiro em terras britânicas. Como quem despreza o leite azedo, e comendo aquele jantar de avião, confessa seguro de si que jamais voltaria para aquela terra, habitava por um povo que na sua opinião não tinha o direito à respiração. O comandante da aeronave anuncia que em pouco instantes estaremos descendo em Recife. Com o guardanapo amassado e arremessado no copo vazio, proclama: "Eles que fiquem com os milhões. Prefiro os meus tostões!". Nos despedimos e agora deveria esperar mais alguns instantes para chegar a Natal depois de quase 40 horas de viagem, obviamente com intervalos, de Toronto pra meu canto. E a vida segue seu curso... Amanhã, assim como no país da rainha, uma tradição será mantida. A "Birita cívica" novamente ocorrerá na casa da mãe do meu talentoso e querido amigo Rafael Bezerra. Há 22 anos, em toda eleição, os amigos se reúnem por lá para celebrar a democracia, a lei-seca, a liberdade e em menor instância, a amizade. Se bem que não é tão rígida como aquelas tradições velhas, onde tudo é a mesma coisa há milênios. Essa é uma tradição jovem, bela, com possibidade de ser moldada. Rafinha é um gênio da publicidade, um craque no tratamento de imagens, um fotógrafo ímpar, um diretor de criação fabuloso. Porém desconfio que esse convite seja feito por alguma espécie de tristeza dele, um "não querer ficar sozinho especialmente nesse dia". Não sei bem. E a cada eleição, bebemos, alguns antes e outros depois do voto, com esse amigo que fundou uma das nossas poucas tradições vivas. Tradição que até lava a alma.

postado por: RODOLFO TORRES 6:37 AM


Comments: Sábado, Outubro 30, 2004

O poente aprisionado

Há muitos dias um homem quis presentear sua amada com um pedaço de momento. Seu amor era tanto que sua tarefa seria aprisionar o instante preferido de sua pretendida. Inicialmente ele observou alguns episódios que teimavam em se repetir todo final de tarde. E nas tentativas iniciais o bom homem lançava redes aos céu, com toda a força de que dispunha, sendo castigado com a queda do artefato ao mar. O barulho que fazia nas águas e as espumas que surgiam na superfície azul eram uma espécie de auto-mutilação, um momento de solidão na tarefa do impossível. Após a derrota inicial, tentava derrubar a luz com pedras para que quando o sol caísse na água ele não quebrasse. Bastaria um breve nado para que pudesse apanhar a oferenda. Na sua percepção, quase conseguiu. Quase! Já estava ridicularizado entre os seus. Afinal quem é capaz de aprisionar o poente? Com varas afiadas e longas, procurou furar aquela esfera amarela de fim de tarde. E a cada barulho que as hastes faziam no oceano, um pouco de sua alma se partia. Devagar e constantemente. Nadou à noite para bem longe da costa, pois o sol nasce pequeno no horizonte. E voltou cansado, sem o astro, com sua gaiola imensa especialmente construída para tal missão. Já desiludido, procurou a querida e sem avisar absolutamente nada, levou-a para o alto de uma colina. Mirou os olhos da amada para cima em pleno meio-dia, na direção do astro-rei, por alguns instantes. Ela gritava de dor e suas lágrimas eram quentes. Cega de luz, buscou o chão e orientada pelo vento soube onde se encontrava o mar. O poente não foi aprisionado especialmente para ela; porém o amor de um homem privou-a do sofrimento cotidiano de saber não poder possuir aquele ornamento luminoso somente para si.

postado por: RODOLFO TORRES 3:29 AM


Comments: Sexta-feira, Outubro 29, 2004

cuida que no naufrague en tu vivir

Vez por outra passo nas páginas pessoais dos meus amigos que estão em São Paulo para saber das novidades, como é que estão convivendo com aquele dinamismo ao infinito da metrópole que engole todos; essas coisas. Passo pelo loucorama, título dado por meu amigo Breno BX à sua hospedagem na rede e encontro um texto falando sobre a minha pessoa e também a respeito do livro da confraria no tocante às linhas minhas. Logo de início, pelo título, ele não deseja mais a minha permanência no "mundo crônico" no qual estou atolado; se bem que não duvido que ele não queira minha permanência na vida mesmo. Porém ele é o único clubber parnasiano que conheço. Se pudesse lhe dar um presente, não saberia o que comprar. Ou um ingresso para aquelas festas eletrônicas intermináveis; ou somente um quadro triste e pequeno com aquela casinha na beira do lago. Mas é isso. Sem a autorização dele, publicarei aqui o texto. Ah, o título lá de cima é um trecho do bolero "la barca".

Pela impermacência do crônico

Meu camarada Rodolfo Torres está agora em livro, o que não deixa de ser um bom augúrio. A escrita fixa a palavra (e o mundo) não apenas para quem a proferiu, mas para o outro. São abertas novas dimensões mentais, estabelece-se a crítica, faz-se diálogo.

Conheci Rodolfo na graduação de Comunicação Social. Aprecio a forma como enxerga a vida. Há nele um olhar amplo, daqueles capazes de varrer cosmos inteiros, no todo e no detalhe. Um olhar no extremo oposto da passividade, portanto um filtro. Rodolfo dialoga consigo mesmo. E também com o mundo. Nele, é o que me parece, essas trocas produziram um ser humano com dúvidas e pontos de vista lapidares.

Na leitura de suas crônicas, observei que o camarada Rodolfo anda um tanto sorumbático. Compreendo esse estado como impermanente, mas, mesmo assim, me preocupei. Sinto que esteja se apegando demais às coisas. Já o vi mais livre.

Rodolfo está perdendo a fé na humanidade, o que não o faz dele minoria, muito contrariamente. Meu amigo olha para além mar e não compreende como conseguimos chegar onde estamos. Por isso, diz-se velho em suas crônicas.

Rodolfo está com saudade do sorvete de tapioca artesanal feito pela Tropical e degustado ou de frente para o mar ou escutando um rabequeiro cheio das melodias. A maioria dos paulistas realmente não sabe do que se trata. É coisa da melhor qualidade! Rodolfo teme pelo futuro do sorvete de tapioca. Acredita que a guloseima tem os dias contados, que será mais uma vítima indefesa da pós-modernidade capitalista alienante. O que pode ser.

O camarada também está magoado com Pernambuco (sentimento estendido ao Rio Grande do Norte). Acho mesmo uma injustiça que a insulada Fernando de Noronha não esteja em nossas mãos potiguares. Todavia, não custa lembrar que Pernambuco é mais que seus políticos. Para que tanto amargor? Briga com o Rio Grande do Sul? Ora, mas nós já não somos potiguares, papas-jerimum?

Largue desse spleen! Supere Baudelaire! Permita-se um Huxley, um Alberto Manguel, um Yeats. Escute mais maracatu e deixe de besteira!

postado por: RODOLFO TORRES 1:35 AM


Comments: Quinta-feira, Outubro 28, 2004

Sinuca dos planetas

Idolatro alguns hábitos menos nobres e por isso mesmo, justamente por esse motivo, mais prazeirosos. Tomar um caldinho de cana com coxinha oleosa de rodoviária é sem dúvida um deles. Ficar vendo os pardais "inchando" por causa da chuva fina nos fios telefônicos é outro. E se for pra descrever tudo é preciso deixar de fazer qualquer outra coisa somente pra realizar essa honrosa função: catologar as maravilhas da simplicidade.
Mas estou irritado hoje porque esqueci de assistir ao eclipse da lua. Nessa hora estava vendo uma entrevista muito boa com um roteirista e poeta italiano. E quando o tema é cinema italiano, dá até vontade de escavar a genealogia pra ver se nesse caldeirão genético do qual somos produto, não sobrou uma vaga pros conterrâneos de Fellini, Scola, Pasolini, etc.
Enquanto me era dada a oportunidade de admirar mais ainda o cinema daquele país, nesse momento, a terra ficava entre a lua o sol, numa espécie de "sinuca dos planetas" em que a bola da vez é a 2, e a branca está muito estragada, com fissuras; típico de quem não tem sutileza no taco. Há quem possa retrucar dizendo que nem a lua nem o sol são planetas. Porém esse título foi o que mais me agradou: sinuca dos planetas. Como aqueles bares mal-iluminados e baratos, que ficam literalmente na beira das estradas do nosso país; vejo a via-láctea dessa forma. Uma "vendinha" perdida no meio de qualquer imensidão, iluminada por velas e que só possui uma mesinha do jogo cheia de poeira. Não saberia dizer aqui quem é que joga nessa pobre sinuca, se alguém ainda joga ou se algum dia já jogou. Quem sabe o "jogador" ainda nem chegou? Apenas olha a movimentação das bolas e de forma cautolesa espera o momento certo pra suas tacadas apocalípticas.
Entretanto ouso afirmar que conheço um pouco os habitantes da bola 5. E muito maior que a sinuca planetária de hoje à noite e a que nós estamos fazendo conosco, com tudo na pobre bola azul. Essa sim, é digna de ser nomeada "de bico".

postado por: RODOLFO TORRES 12:17 AM


Comments: Terça-feira, Outubro 26, 2004

Que Alemão

Tento me conter, mas não consigo deixar de me indignar ao ver e ouvir as baboseiras a respeito da Fórmula 1 atual. Em primeiro lugar, ainda bem que já acabou a palhaçada que foi o campeonato deste ano. Em segundo lugar, achei muito boa a vitória de Juan Pablo Montoooya no grande prêmio do Brasil, o único piloto que ousou desafiar as regras impostas não sei por quem, mas que provocou a ira do campeão por várias vezes. Só ele teria condições de apimentar a disputa, se forças maiores permitissem.
Discutirei veementemente com qualquer um que queira debater a respeito deste Alemão campeão por dezoito ou sei lá quantas vezes seguidas. Não escrevo o seu nome não por raiva ou algo assim, é porque não sei mesmo (deve ser schumacher!). Poderá ser campeão mais quinze anos, porém só me calarei no dia em que ouver uma real disputa entre pilotos pelo título, coisa que não ocorre desde Ayrton Senna.
E não me venham com a estória de que a sua equipe é a melhor. Todos os títulos de grandes campeões, como Senna, Prost, Piquet, Mansel, etc, foram conquistados com disputas ferozes por cada ponto, mesmo entre pilotos da mesma equipe. Por quantas vezes duas Maclaren brigaram curva a curva, e até tiraram uma a outra da corrida. Comparar Senna com o Alemão me parece leviano. E esta comparação não deve ser feita até ele disputar realmente com alguém as vitórias.
Me dá raiva ao ver que hoje não existe disputa dentro da equipe. Se é assim, como querem que eu torça pelo nosso piloto. Só se for para começar a tomar anti-depressivo. Agora se o Montoya fosse o outro piloto da Ferrari, aí meus caros confrades, o bicho ia pegar. Enquanto nada ocorre, continuo fazendo questão de não assistir a emocionante disputa pelo segundo lugar.
Do aditor
GustavoGT
SP 26/10/04


postado por: RODOLFO TORRES 10:19 PM


Comments: A matança sempre continuará

Nessa vida de arengas várias, nem tudo vem de forma direta. Até aqui, nada foi realmente dito. Apenas umas palavrinhas tentando engatar um texto ainda sem forma, mas com o principal: a idéia. E vamos lá... Entrando no tema "quem nunca maltratou um animal, que atire a primeira pedra", quero fazer uma confissão. Nada de grave, apenas a maldade corriqueira de um garoto que brincava de colocar peixinhos de briga para se degladiarem dentro daqueles vidrinhos pequenos de Nescafé, até a morte de um deles. O animal em questão é um exemplar japonês chamado beta. E como em todo o reino animal, o macho é aquela alegoria toda enquanto que a fêmea é sem-graça e apática. Para comprovar essa minha afirmação, basta usar o pavão como exemplo. Pois bem. Para quem não sabe como se faz pra colocar os peixinhos para se matarem, não basta muita coisa. Dois exemplares de machos juntos num espaço preferencialmente pequeno porque o contato é inevitável, garantindo a diversão da molecada. E se por acaso a situação fornecer apenas um bichinho, ainda há lugar para o sadismo. Basta colocar um espelho na frente do vidro do aquário ou equivalente que ele abre aquele calda colorida, as brânquias se abrem que mais parece que uma cachumba imediata o acometeu e, na sua inocência, o pequeno beta vai se debater contra o vidro até que o espelho seja retirado. Eu fiquei na briga dos peixinhos. Alguns vão pras de galo. Mas o que aqui quero é relatar, até como serviço de utilidade pública, o verdadeiro contexto que existe por trás das touradas. Nós brasileiros fomos injustos para com os espanhóis por gerações. Achávamos que eles matavam os touros por puro prazer. Mas não é isso. Seria muita maldade. A explicação para esse traço da cultura hispânica me foi revelado por ninguém menos do que Orson Wells, num dos seus documentários. Se aqui cabe um parênteses, ele foi filmar no Ceará lá pela década de 40 mas não conseguiu findar um projeto cinematográfico sobre as jangadas. Retomando; a tourada nada mais é a celebração do encanto que as mulheres provocam nos homens. O touro representa o homem: com uma visão restrita, raivoso, pouco hábil e portador da força bruta. O toureiro, a mulher: ágil, sútil, delicado, ornamentado e mortal. O espetáculo baseia-se nesse eterno "jogo" entre homens e mulheres até que, num golpe de misericórdia após tanto sofrimento e humilhação por parte do ruminante que já sangra torrencialmente, o toureiro com o consentimento de uma platéia extasiada, num golpe mortal de uma lâmina afiadíssima, coloca fim à existência do marido da vaca. Não sei vocês, mas eu tenho mais um motivo para torcer pelo touro.

postado por: RODOLFO TORRES 4:50 AM


Comments: Segunda-feira, Outubro 25, 2004

Voltem a nós

Nem queria fazer aqui uma apologia ao passado, naquele sentido de que tudo antes era bom e hoje nada agrada. Absolutamente. Mas é que lembrei agora mesmo de uma conversa que tive há alguns anos com meu amigo Matheus Cirne sobre qual ramo de trabalho deveríamos seguir. No meu caso a dúvida era permanecer na televisão ou partir para novas mídias. Estava ficando muito repetitiva a vida dentro da TV Universitária e queria seguir meu sonho inicial, que era trabalhar num jornal diário (coisa que nunca consegui). Mas o fato é que a televisão universitária foi a minha maior escola, ironicamente, já que desejava do fundo d'alma sair de lá. Voltando à conversa com Matheus, lá pra tantas, acho que numa ilha de edição, ele me diz que não gostaria de trabalhar em outro meio, tendo uma espécie de reverência misturada a culto com o nosso modesto serviço. Até tentei argumentar, mas ele foi enfático: "a coisa que mais fiz até hoje foi assistir à TV. Passei minha infância vendo TV. Posso até dizer que minha maior companhia até hoje é a TV". Calei-me, óbvio! E como ele está certo. A babá eletrônica realmente sempre fez parte de nós. E como é gostoso trabalhar com imagens... Nesse sentido, deve fazer algum sentido que os comercias de televisão para nós representem algo mais do que meras tentativas de venda dirigidas por quem quer que seja. Peneirando, podemos achar alguns comercias que ocupem o mesmo patamar que músicas, filmes, livros e até pessoas na nossa memória sentimental. Para mim, um desses é aquele da Faber Castel acompanhado da música "Aquarela" de Toquinho. Uma animação belíssima! Uma junção de produto à venda e arte como poucas. Até parei um pouco para tentar descrever o comercial, mas não é necessário... Quem chegar a ler isso, certamente recordará dessa magia em forma de propaganda. E lembrando disso, constato duas perdas: o estilo "comercial-poema" é tão raro hoje nas televisões e não tenho mais aquelas coleções de lápis, com suas réguas, borrachas, grafites, lápis de cor, tão belas e que não serão mais vistas em minhas manhãs daqui pra frente...

postado por: RODOLFO TORRES 1:46 AM


Comments: Sexta-feira, Outubro 22, 2004

Que vergonha!

Ainda existe espaço para galos que cantam de forma imprudente durante toda a madrugada na vizinhança daqui de casa. Houve épocas que era incapaz de apreciar algumas coisinhas tão fundamentais que só elas mesmas para me darem a certeza de que estou no meu canto, e não no dos outros. Teimei, teimei - falando que não gostava, que era "feio" - e agora não consigo viver sem aqueles copinhos americanos de boteco capazes de aprimorar o sabor e o aroma do cafezinho "de agrado" desses estabelecimentos nossos. Posso ver algumas galinhas que ficam no fim da rua, entre a praça e as pedras do calçamento, assustadas com os carros, bicando o chão naquela rapidez delas. Ainda vejo galinhas no meio da rua! Isso é uma dádiva. Moro perto de uma praça que já foi mais bela porque no passado podíamos contemplá-la por inteiro. No meio, um pequeno centro comunitário que servia de igreja aos sábados. Mas de uns anos pra cá, resolveram construir uma igreja maior, desprezando a anterior, que resiste abandonada. Essa igreja não foi concluída, não permite mais admirarmos o local por completo e ainda me disseram que viaturas da polícia militar aproveitam o vão central do templo católico para que policiais possam dormir durante à noite. Se bem que eu teria medo de dormir numa igreja e não saberia explicar a razão. Mas é isso! Algumas coisinhas me fazem bem. Uma delas é ver galinhas nas ruas. Outra é ver aquelas plantinhas nascendo nas calçadas e ruas, cuidadas pela chuva e pelos bichinhos. E pensar que tudo isso me veio porque comprei um milho na rua e degustando-o fiquei triste pois houve um tempo em que não gostava das coisas simples da minha terra.

postado por: RODOLFO TORRES 5:13 PM


Comments: Quinta-feira, Outubro 21, 2004

Ciúme bestial

Custou muito para EU tomar coragem e assumir publicamente que sou um ciumento, diria, compulsivo. E não adianta tratamento químico ou psicológico para esse traço de personalidade. O fato está consumado! Porém sou daqueles não-violentos. Toda minha raiva fica contida e guardada, numa caixinha de Pandora particular. Tenho ciúmes de livros, roupas, perfumes, filmes, pratos, praças, ruas, muros, paisagens, ares e formas. E também tenho um ciúme danado da mulher brasileira, em particular da potiguar. Mesmo não sendo um nada para a grande e esmagadora maioria delas, continuo assim, um ciumento. O detalhe desse sentimento é que só o possuo quando as potiguares amam outros brasileiros ou estrangeiros. Nesse caso quero a todo custo protestar. Se pudesse até diria para elas que deveríamos ser "puristas" e nos guardar "íntegros" para as próximas gerações. Potiguar só com potiguar! Mas quando vejo jovens natalenses pobres com estrangeiros branquelos nas praias dessa cidade, não sei o que devo sentir. Se devo ficar furioso, já que aqui é uma "casa da luz vermelha" para turistas europeus, maculando nossas meninas - quando digo meninas, são realmente meninas, algo do tipo 13 ou 14 anos. Ou se digo que o mundo é assim mesmo e ainda bem que elas estão de alguma forma ganhando seu dinheiro, já que nem ligamos para elas mesmo. Não sei que sentimento devo abraçar diante disso. Apenas meu ciúme permanece, só que dessa vez ele está confuso. Tão confuso quanto os natalenses, que não permitem que suas pequenas filhas brinquem de boneca.

postado por: RODOLFO TORRES 5:00 PM


Comments: Quarta-feira, Outubro 20, 2004

O baile do sempre

Há quem use o termo "sinceramente" em vão, ou seja, quando diz "sinceramente" não é tão sinceramente assim como a própria palavra determina. Mas usarei aqui o "sinceramente" em sua forma mais precisa e exata. Sinceramente poderia falar sobre o lançamento do livro, no qual sou co-autor, por dias e mais dias sem mudar de assunto. Relataria aqui os pormenores de uma festa belíssima; de um povo surpreendente como é o caso do assuense; do meu acanhamento diante de tanta gente; do carinho com que autografei dezenas de exemplares; das estradas perigosas e mal cuidadas do nosso estimado RN. Mas não o farei. E qual seria a causa, razão, motivo ou circunstância (adoro o professor Girafales!)? É que a vida continua e precisa ser relatada de forma urgente. Também não é pra tanto assim! Por mais que as canetas e teclados parem de uma hora pra outra, a vida continuará se anunciando por todo lado, naquele bailado diário de sempre, cotidianamente e sempre. Então vais olhar a vida passar na rua e na angústia de não saber como se faz pra seguir o bailado desesperado dessa dançarina eterna, retorne triste ao lar e munido de algum idioma jogue letras em algum lugar que até falem de como é bom vê-la sempre nos palcos, enquanto o sempre fizer sentido.

postado por: RODOLFO TORRES 3:26 PM


Comments: Domingo, Outubro 17, 2004

Auto-promoção

Desde o início desse espaço, tínhamos só uma certeza: apenas e tão somente textos seriam inseridos por aqui. Afinal, uma página eletrônica dedica à crônica não tem espaço para fotografias, vídeos, etc. Mas como todo pai "abobado" com seu primeiro filho, abriremos essa exceção e concomitantemente faremos uma coluna social "de leve", até pra vender o nosso peixe que está tão bom e baratinho...


Eis o filhote...


Rodolfo Torres e Bruno Magalhães com o livro da Confraria antes do lançamento do mesmo na "Praça do Buraco", em Assu-RN


Admirados com a "obra"


A multidão assuense ávida pela boa leitura


Autógrafos


Após o sucesso nas vendas, a comemoração na casa dos pais de Bruno, o agudo. Além dos confrades, as primeiras-damas dessa Confraria: Micarla e Alessandra.

PS: O confrade Gustavo, no momento do lançamento do livro, estava salvando vidas em São Paulo. Você fez muita falta meu irmão! Sem deixar de lembrar da enorme falta que todos sentiram da minha querida cunhada Mychelle, que deixou a festa menos bela com sua ausência.

postado por: RODOLFO TORRES 2:08 AM


Comments: Quinta-feira, Outubro 14, 2004

Considerações de varanda

Nesse constante desafio que é tentar traçar linhas diárias, inicio hoje sem assunto em mente nem idéia de como findar esse amontoado de palavras. Queria, por exemplo, falar sobre as plantas que estou regando diariamente na minha casa; e que faço isso apenas porque de vez em quando aparece um pássaro muito ágil e de uma beleza única. Com seu longo bico ele bebe das taças brancas chamadas de flor e paralisado no ar podemos ver suas penas de cor metálica, isso quando o sol colabora, lá pelo final da tarde, naquela luz ideal de crepúsculo. Ou então do pequeno garoto sendo levado para a escola pela mulher de cara amarrada. Dois mundos distintos estão expressos em suas faces: a ânsia do novo na criança e a certezas das tristezas dos dias, na mulher. Pode ser dito também algo sobre o forte vento que bate nessa época do ano, fazendo as janelas assoviarem como canários ou pardais vadios que dos fios telefônicos tentam despertar sujeitos vazios e de almas pesadas. Até cito as construções feias que inundam o cenário de telhados sujos com gatos maliciosos deitados nas sombras poucas ou os morros das forças armadas, tantas vezes contemplados por mim quando esperava o dia começar o seu trabalho de luz para me perder diante de tanto verde - creio ser este o verde cantado e pretendido na plantação por Gonzaga em Asa Branca. Enfim, é nesse local que vendo tudo isso fazia meus discursos às manhãs e exausto, dormia esperando a noite.

postado por: RODOLFO TORRES 10:58 AM


Comments: Quarta-feira, Outubro 13, 2004

O baterista besta

Com uma das mãos tapando o nariz, levo dois livros empoeirados para tomar um vento e quem sabe dessa forma eu possa lê-los sem espirrar de quinze em quinze segundos. São livros de um mesmo autor. Livros que confesso só ter dado uma breve olhada e deixá-los lá entre tantos outros também não lidos. Mas como é bom tê-los por perto, sempre à vista que nem obedientes filhos, nunca possíveis. Pois bem! Para não dizer que não li nada de Fernando Sabino, hoje passei a vista em algumas crônicas desse escritor mineiro que há muito tempo já era propriedade de nossa literatura. Descobri que ele já "roubou" uma crônica de Rubem Braga, que depois tomo-a de volta, quando os dois escreviam diariamente suas impressões do mundo nas páginas dos jornais brasileiros, brindando um povo com letras dignas de publicação; isso naqueles tempos onde era possível a admiração sem rancor entre profissionais da imprensa. E fuçando sua vida, afinal quando alguém ligado às artes morre uma biografia é prontamente exposta nos períodicos, também soube que ele fundara uma editora junto ao mestre Braga e a Paulo Mendes Campos; que morou em Nova York na mesma época com Vínicius de Moraes; e para o meu completo espanto: que tocava bateria numa banda de Jazz. Ainda no Canadá, escrevi que o Jazz é oco. Mas sou obrigado a reconhecer, como ex-baterista que sou, que esse estilo exige do indivíduo das baquetas uma técnica e um conhecimento do instrumento impressionantes. Se é possível se utilizar do termo "boa inveja", só dessa forma, tenho inveja dele. Supondo que, além de tudo, sou escritor, a morte de Fernando Sabino trouxe a sensação de perda de um dos mestres da crônica no Brasil por um lado; e pelo outro, a tristeza pelo desperdício do seu dom musical num estilo "metido à besta".

postado por: RODOLFO TORRES 11:48 PM


Comments: Segunda-feira, Outubro 11, 2004

Pai ao quadrado

Na verdade, nunca soube o que é ter um avô "tradicional". Daqueles que te levam para pescar, andar de bicicleta ou qualquer outra coisa muito próxima àquelas que aparecem nos comerciais de televisão dos planos de saúde, onde um sorridente senhor leva os pequenos ao lazer com um vasto sorriso de satisfação. Conheci apenas um dos meus avôs, que morava em outra cidade. Meu contato com ele era praticamente nulo, se resumindo a um abraço quando nos encontrávamos ou a um telefonema sem graça no dia dos pais ou datas comemorativas. Vovô Joaquim até que tentou brincar um dia comigo, mas eu já era um pouco grandinho. Fingi acreditar para não desperdiçar o que seria meu único momento de diversão com ele. Ele me veio com uma história de que um amigo dele teve uma febre tão grande que derreteu o crucifixo do seu cordão. Na hora tive vontade de dizer que ele havia perdido a oportunidade de me enganar com essas histórias fabulosas. Mas calei. E ele saiu rindo de mim, enquanto eu, nesse instante, tenho algumas lágrimas presas por ele. Não tenho mais avô. Ele se foi em 1999 e quando eu era criança alguns tios me chamavam de "Seu Joaquim". Até certo ponto sou "Seu Joaquim". Quando cito a falta do meu avô, quero com isso prestar uma homenagem a dois amigos que perderam seus avôs há poucos dias. No caso deles, os avôs eram chamados de "pai". Como só sei um pouquinho o que é um avô, me atrevo a dizer que consigo imaginar a falta que eles estão sentido agora. Força Gil e Théo, é o que deseja esse amigo neto do Seu Joaquim e do Seu Luís.

postado por: RODOLFO TORRES 5:21 PM


Comments: Sexta-feira, Outubro 08, 2004

Nem todos estão mortos

De uns tempos pra cá, coisa de três anos ou um pouco mais, comecei a estudar por conta própria o cinema. O que na verdade chamo de "bom cinema". Nesse roteiro estão certamente os clássicos dessa arte e materiais novos surpreendentemente bons. De vários lugares, até dos Estados Unidos, contrariando muita gente por aí. Mas deixemos essas considerações de lado. Outro dia estava fazendo uma coisa muito feia, muito imprópria para quem se diz apreciador de qualquer manifestação artística. Classificava como num campeonato esportivo, com suas regras simples e diretas, os cineastas. E esse era melhor do que aquele por isso e aquilo... Quanta bobagem! Mas desse Top 10 entre os diretores, uma coisa boa foi que não consegui chegar ao número 1. Três deles ficaram "embolados" na disputa do ouro: Bergman, Kurosawa e Fellini. Sem importar a ordem. E morreram com idade avançada, sem tatuagens pelo corpo, serenos, insistindo numa poesia que já não mais parecia própria e adequada para esse tempo; morreram sábios, morreram mestres. E eu, no alto da minha autoridade como estudioso, descobri uma coisa que me envergonhou e, de certo modo, me alegrou. Um representante dessa época dos mestres está entre nós: Jean-Luc Godard está vivo! O cineasta francês é um exemplo de lenda do cinema, que agora eu sei, está vivo. Nelson Rodrigues o chama de imbecil; Jô Soares (sei que não é uma boa referência) diz que sua linguagem intelectual não é mais bem-vinda nos dias de hoje; eu apenas estou contente por ele ainda viver e lançar mais um filme onde, segundo o que li, vai contra a violência da nossa era, do cinema de massa, da vida de hoje. Qualquer voz contra o absurdo será aplaudida, e no caso de "Nossa música", seu filme mais recente, também refletida.

postado por: RODOLFO TORRES 3:21 PM


Comments: Quarta-feira, Outubro 06, 2004

Conselho editorial privado(a)

Uma semana atrás percebi que sou mais um dos hipertensos que povoam nossa pátria amada, salve salve. Se bem que motivos não faltaram para meu pobre coração disparar num corpo em descanso. Não cabe aqui nesse espaço um relato minucioso das minhas condutas, o fato é que agora uma parte minha morreu para que eu não morra por completo. Além de todas as recomendações insuportáveis que terei de seguir, ainda serei obrigado a reavaliar minha maneira de escrever. Falando da minha saúde debilitada para um amigo (que vez por outra lê o que escrevo), ele proferiu o diagnóstico sumário: estou hipertenso devido aos meus textos, que são pessimistas, para baixo, depressivos, um convite ao túmulo em outras palavras. Argumentei que não era bem por aí, afinal quem me conhece sabe que tenho uma das risadas mais deselegantes e estrondosas de que se tem notícia. Porém minhas risadas estão escassas e meu coração bate cada dia mais forte, numa pulsação que se não for contralada me levará a óbito em pouco tempo. Mas é tão difícil ficar sem beber e não enxarcar o cérebro de um produto que é capaz de tornar o campo de visão e as lembranças mais agradáveis, nem que uma ressaca cavalar venha castigar no outro dia quem ousou tentar se aproximar da satisfação... Perdão! Vou tentar convencer a mim mesmo de que palavras menos tristes vão me devolver a saúde. Sem bebidas. Palavras alegres. E mais algum tempo vivo!

postado por: RODOLFO TORRES 3:10 PM



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