Confraria dos Crônicos

De crônica, não basta a vida!



Comments: Quarta-feira, Julho 21, 2004

Aos meus súditos

Cada passo de uma vez e a cabeça baixa, como que para fazer reverência ao cansaço acumulado, subia eu a escadas do metrô, quando me deparo com um eloquente discurso no topo da escadaria. Bradava o distinto cavalheiro aos sete ventos palavras meio que sem nexo, era como se a ânsia por declamá-las o impedisse de dar uma seqüência lógica ao texto, de modo que expeliam-se de sua boca aos montes e embaralhadas. Não tive tempo ou coragem para me deter a escutá-lo em detalhes. Falava algo sobre o homem e a mulher, sobre Deus e a natureza, sobre o tempo e a economia globalizada.
Quem só o escutasse, poderia ser envolvido pela firmeza de suas declarações, pelo tom de voz tão seguro de si, como aqueles postulados clássicos, que ignoram qualquer necessidade de confirmação ou ratificação mais científica. Era pungente a sua crença naquilo que declamava, bem como a sua pose ao pé da escadaria. Parecíamos todos seus súditos, que no mínimo deveriam reverenciá-lo pela oportunidade de ouvir tão sábias palavras.
O descaso de todos que passavam por ele não pareciam afetá-lo. As vezes até sorria e se mostrava gentil para com alguns. Era como se tivesse na verdade com pena daqueles que jogavam fora tão sábios ensinamentos. A oportunidade, sabia ele, não se mostraria para aqueles pobres desinteressados novamente com tanta facilidade. Seus súditos mais cedo ou mais tarde veriam sua real importância. E fazia aquilo tudo de pura boa vontade, nada cobraria ou exigiria por tal serviço prestado.
Como aquele bêbado maltrapilho, muitos existem espalhados por aí, dentro de seu próprio reino de mentira, de onde surgem para a realidade, sem esta perceberem, ou se percebem , sabiamente a ignoram.
Do aditor
GustavoGT
SP 20/07/04

postado por: RODOLFO TORRES 7:54 PM


Comments: Segunda-feira, Julho 19, 2004

Viva a Diversidade

Dois times, duas nações representadas no tablado verde numa cidade ao norte do Peru. Duas pátrias de chuteiras nos pés e corações nas mãos. Um embate futebolístico de rivalidade e saudosismo. Apesar do cenário propício, não pude deixar de notar em algo peculiar. Os dois times dividiam, dentre tantas diferenças, a mesma camisa, exceto pelas cores usadas e pelo pequeno distintivo de cada país no centro da camisa (que por poucos centímetros não passa desapercebido).
A mesma pieguice do número envolto por um círculo. O mesmo destaque para o nome no dorso do uniforme. As mesmas listras disformes a escorregar pela lateral da camisa. Em tudo, tudo mesmo as duas camisas são iguais, exceto pela cor e pelo pequeno símbolo, como já dissemos.
O motivo, apesar de óbvio, merece uma análise mais pormenorizada. Que o patrocinador seja o mesmo, é até compreensível. Mas em respeito aos consumidores tal cena bizarra deveria ser evitada. Para uma empresa que patrocina praticamente todas as grandes seleções do planeta, em vários esportes, poderíamos esperar mais originalidade, ou pelo menos a contratação de mais um estilista, de preferência com menos mal gosto. Entendo inclusive que a padronização deva fazer parte da campanha publicitária de tal empresa, mas um pouco de variação não mataria os acionistas majoritários.
É o puro retrato da globalização, como já previra Aldous Huxley em seu livro (Admirável mundo novo). Espero que pelos menos as cores de nossa bandeira sejam respeitadas pelos donos de nossas chuteiras.
Do aditor
GustavoGT
SP 19/07/04

postado por: RODOLFO TORRES 4:48 PM


Comments: Sexta-feira, Julho 09, 2004

Os Cem Menores

Na Feira Literária Internacional de Parati/RJ, este ano, foi lançado um livro no mínimo interessante. Trata-se do livro com os cem menores contos, crônicas e poemas da literatura nacional, textos que tem no máximo 50 letras. O autor o mostrava como uma alternativa para aqueles que, nos dias atuais, não encontram tempo sequer para respirar, quanto mais para se debruçar sobre um livro com mais de cinquenta caracteres.
Tenho interesse em ler tal livro, deve ser uma leituras gostosa. Só acho uma pena que o tema e o propósito do livro sejam colocados desta forma. Será que realmente não temos tempo para uma boa leitura, ou será que utilizamos na verdade o nosso tempo de uma outra forma. Tudo na nossa vida é questão de prioridade. Desperdiçamos, ou melhor, utilizamos preciosos minutos de nossa existência como outras atividades.
Achamos, por exemplo, justificável e normal perder mais de uma hora por dia no trânsito. Quantos minutos de pé, pacientemente esperando para ter o privilégio de jantar em um restaurante insubstituível. Preferimos por muitas vezes assistir a programas de televisão que visam apenas conquistar a audiência através da desgraça alheia, em uma briga feroz pela notícia mais atroz. E não venham defender estes programas absurdos de fim de tarde que mostram a violência como produto de exposição, sem nenhum compromisso com a solução destes. Ver a violência exposta só por assisti-la, não passa de um voyerismo macabro. Quantos não se deleitam de frente a televisão para assistir aqueles shows horríveis de pessoas se digladiando em frente a telinha, expondo problemas pessoais, que em nada tem a ver com quem os assiste. No meio de toda esta lista de importantes compromissos, quantos livros você leu no último mês por pura opção?
Da forma que optamos por dividir o nosso imenso tempo livre, fica difícil até achar tempo para ler poesias de cinquenta letras. Talvez o autor tenha de ser mais exigente e menos prolixo na sua próxima coletânea.
Do aditor
GustavoGT
SP 09/07/04

postado por: RODOLFO TORRES 2:15 PM


Comments: Segunda-feira, Julho 05, 2004

Verdades Históricas

Em visita a um colega de turma, em sua nova morada paulistana, além de conhecer seu novo endereço, pudemos conversar tranquilamente por longos minutos. Sempre aprendo algo nestas conversas informais. Acho inclusive que hoje em dia se conversa muito pouco, talvez porque há sempre uma telinha ao alcance, mesmo nos locais mais longínquos e humildes, o monitor de televisão se destaca.
Entre os vários assuntos degustados, um me chamou especial atenção. Ao lhe falar sobre o espetáculo que presenciei na cidade de Mossoró, durante as festas juninas, sobre a tentativa de invasão do bando de Lampião a esta, uma verdadeira mega produção, nos lembramos de um colega seu de Hospital, um verdadeiro especialista em Cangaço. Digo nos lembramos pois já havia tomado conhecimento de tal figura em conversas anteriores, digna de menção inclusive, pelo seu apego a tema tão nosso.
Na verdade, e quem sou eu para discordar, este estudioso afirma em alto e bom som que na verdade a digníssima cidade de Mossoró não foi o local que resistiu realmente ao bando de Lampião, devendo-se este registro a outra localidade nordestina(a qual não me recordo o nome, e muito menos o estado), que resistiu sitiada por três meses aos cangaçeiros. Ainda segundo a realidade proclamada, o ocorrido em Mossoró se deveu a um erro de cálculo do bando de Lampião, que colheu informações erradas sobre a cidade, com um informante de meia tigela. Registre-se o fato das invasões bárbaras cangaçescas se precederem de informações detalhadas sobre a localidade a ser atingida, em palavras miúdas, o cangaçeiro pensava se tratar de uma cidadela menor, tanto que a pseudo-invasão se precedeu de horas de orgia, regadas a álcool e mulheres. Ao então adentrar em tal cidade, com pouca munição e muito álcool nas veias, vendo que não conseguiria êxito, o mesmo nada pode fazer a não ser lutar e correr.
Ora vejamos, o fato de Lampião não saber escolher seus informantes não é problema nosso. A derrota realmente existiu, se não foi uma luta igual, se o bando não se preparara como deveria (ou não deveria) é irrelevante no momento. Houve uma tentativa de invasão, se o brio mossoroense se deveu ao álcool ou a pouca munição dos adversários, isto não tira de cena a valentia de um povo.
A história está recheada de distorções dos fatos reais muito mais graves do que estas, e que são resignadamente aceitas e louvadas, inclusive em bancos escolares. O que falar do nosso herói Tiradentes? Algo mais deveria ser dito sobre a invasão de um país para lhe roubar petróleo, do que a farsa do motivo isolado, que seria a derrubada de um ditador? Ficará na memória da humanidade milhares de inverdades, que tem por pretexto as vezes até denegrir uma raça ou a imagem de um povo, se não, o que nos lembramos ao ver um oriental ,principalmente Vietnamitas, ou ninguém viu um filme do Rambo? ... o que ocorre com a polêmica da invasão de Lampião é algo que só visa acalentar o brio de um povo tão humilhado como o povo nordestino, em especial do nosso Grande Rio Grande do Norte. É essencial que se cultive dentro de cada um dos mossoroenses essa verdade (por certo exagerada), e que isto sirva para elevar a cidade ao patamar que ela merece.
Entendo os argumentos do especialista supracitado como válidos, mas abomino a ausência da citação de nossa grande Mossoró como palco de uma derrota do Rei do Cangaço.
Do aditor
GustavoGT
SP 05/07/04

postado por: RODOLFO TORRES 7:10 PM



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