Confraria dos Crônicos

De crônica, não basta a vida!



Comments: Terça-feira, Junho 22, 2004

UMA E OUTRA

Uma é sol, é mar, é ar. Outra é cinza, é prata, é asfalto. Uma é cor, sabor. Outra é
penhor, senhor. Uma tem simpatia, maresia, até apatia. Outra, antipatia, hipocrisia,
e a maresia que tem é plural, longe, famosa e cara. Uma é só felicidade,
sinceridade. Outra tem maldades e calamidades. Uma tem sentimento, casamento,
calçamento. Outra tem monumento, amancebamento, mas não tem calçamento. Uma tem
vento, santo, momento. Outra tem bafo quente, sortidos deuses sórdidos de pedra e
horas, muitas horas. Uma tem pessoas. Outra tem gente, muita gente. Uma tem calores
e amores. Outra tem odores e feitores. Uma é charmosa. Outra é imensa. Uma absorve
tudo, aceita tudo. Outra tudo engole, digere e vomita. Uma me abraça, me distrai, me
acolhe. Outra me afasta, me expulsa, me repulsa. Uma me adora. Outra me suporta.
Numa eu me sobresaio. Noutra eu sobrevivo. Numa eu vou viver. Noutra eu morreria. Na
segunda tem engenharia, prédios, mil pontes. Na primeira tem calmaria, casas e uma
ponte. Numa se canta e se dança. Noutra se grita e se corre. Numa tem são joão.
Noutra, de são joão só avenida. A segunda tem trânsito, tráfego. A primeira tem
horas sem rush. A segunda tem marginal. A primeira é colocada à margem. A segunda é
central. A primeira é esquina. A segunda é rica, cosmopolita, consumista. A primeira
é única. A segunda é o que há. A primeira, vai ser, quando crescer. A segunda, fada
madrinha. A primeira, ogro. A segunda é terra de todos. A primeira é para poucos. A
segunda, salada. A primeira, caju. A segunda mistura e centrifuga. A primeira é
decantada. A segunda é arte moderna. A primeira é da Vinci. A segunda é raro rubi,
joia cara. A primeira é diamante bruto, é joia. Na segunda tem físicos. Na primeira
tem química. Na segunda tem casacos, moletons e cachecóis. Na primeira tem costas,
umbigos e pele. Numa eu abro um sorriso, noutra eu fecho a cara. No rio de uma,
correm peixes, crustáceos e moluscos, mergulham aves e pescadores. No da outra, nada
nada, tudo bóia.

O agudo
Bruno Magalhães
20/6/4

postado por: RODOLFO TORRES 11:08 AM


Comments: Segunda-feira, Junho 07, 2004

O Causo do Jabuti ligeiro e do cachorro fujão

Re-oxigenados os pulmões e a mente, com menos monóxido de carbono correndo nas veias, reencontrei os meus. Em ares conhecidos, dentre a umidade tão familiar, e as chuvas rápidas e ferozes, mas que não alagam ou destroem tanto quanto outras, pude ouvir alguns causos curiosos, e o que mais me marcou foi o ¿causo do Jabuti ligeiro e do cachorro fujão¿.
Na casa dos meus pais habita um ser pequeno, é verdade, peludo, é verdade, da raça poodle, é verdade, mas que por essência é um cachorro, e como tal deve se dar ao respeito e porquê não impor algum respeito. Habita lá, também, bem menos pretensioso e notado, um Jabuti, mais precisamente um filhote de Jabuti. Não sei cientificamente até que idade o bicho é filhote, mas como tartarugas e seus semelhantes vivem muito(pelo menos dizem), e pelo fato de não ter mais de dez anos, o chamo de filhote. Comprova a minha teoria o fato do mesmo ter menos da metade do tamanho do pai. Portanto, é mesmo um filhote.
Independente disso, sendo filhote ou um adulto forte e robusto, o mesmo foi surpreendido em uma alucinada caçada ao cachorro (que não é filhote). Era notável, segundo o relato assustador dos atônitos e estupefatos espectadores, o desespero do cachorro, a fugir do monstruoso predador. É bem verdade que é citado pelos mesmos delatantes a enorme convicção com a qual o perseguidor se dirigia em direção a sua vítima. Nos é descrita em detalhes a face felina que adquiriu o jabuti, parecendo ter caninos maiores que o do poodle. Graças a aptidões inatas, o cachorro sobreviveu, apesar do empenho sobrenatural do quelônio. Explica-se desta forma o porquê de ser o caminho até o jardim da casa um verdadeiro calvário para o pobre canino.
Após o episódio presenciado, o pobre jabuti, até então um ser pacato, que vivia tranqüilamente entre plantas rasteiras e grama baixa, virou o fiel amigo de meus pais e de minha irmã, sendo inclusive submetido a banhos e lustres na carcaça regulares (já que foi difícil convencer o dono do pet shop a tossá-lo) e vacinação contra a Raiva, só ainda não aprendeu a latir.
Do aditor
GustavoGT
Natal 07/06/04

postado por: RODOLFO TORRES 5:53 PM


Comments: Sábado, Junho 05, 2004

Diário de Bicicleta

Não era um dia habitual para a minha labuta diária, de levar o meu mestre ao seu trabalho. Isso mesmo, em plena cidade do asfalto e da poluição o meu senhor prefere a mim como meio de transporte, o que me deixa feliz, mas naquele dia não. Naquele dia e com aqueles trajes, pois nunca o vira assim, tão arrumado, logo percebi em seu semblante que algo de inusitado ele iria aprontar, mas como não emito opiniões, me limitei a obedecê-lo, e então saímos do nosso prédio.
O desvio do trajeto habitual selou as minhas suspeitas, só não imaginava que iríamos parar em local tão suntuoso, pois daqueles hotéis chiques e granfinos só ouvira falar, quando alguma bicicleta amiga, ou essas motos esnobes me falavam, como que para me humilhar. E era realmente tudo o que me diziam, que lugar elegante, que luxo, um lugar que sempre quis conhecer, mas não naquela situação. Afinal, levava o meu amo para algum evento importante, e confesso ter ficado constrangida ao entrar em direção ao estacionamento, vendo todos aqueles carros importantes, senti certa aflição pelo meu dono.
Porém não era o que o sua face acusava, ele vinha cheio de si, totalmente certo e convicto, em direção ao manobrista. No seu semblante algo de moleque, se é que vocês me entendem. Acho que o que ele queria era causar um choque nos demais, e conseguiu. Ao ver a bicicleta, o manobrista logo mostrou, estampado em seu rosto, não estar entendendo nada daquela situação, exigindo explicações, e se possível a nossa retirada imediata de tão digno local.
Quando o meu senhor foi pedir para guardar-me junto aos demais carros, tremi nas bases, logo eu, tão magrinha e acanhada, passar por tal vergonha, meu Deus das Bicicletas, não sei como não esvaziou o meu pneu na hora, mas sobrevivi, sobrevivi para ver a confusão entre o meu amo e o manobrista, que se recusava a aceitar-me entre os demais carros. Se tivesse mãos em vez de guidão, puxaria meu amo e sairíamos dali voando. Após muito bate boca, foi sugerido que se pagasse o preço de um carro para me guardarem ali, fato que revoltou por demais o meu adorado senhor, e que provocou até a indignação (contida) de um funcionário do estabelecimento, que propôs me guardar junto a sua bicicleta. Esta última proposta aceita, fui me juntar a uma das minhas, e passamos agradáveis horas a conversar e a trocar idéias.
Apesar da beleza do local, prefiro o dia-a-dia nas tumultuadas ruas, em direção ao trabalho, lá pelo menos não me olham como se eu devesse ser um carro.

OBS: Texto transcrito, com permissão, em sessão espírita, de autoria da ¿bicileta de Brunico de Magal¿. A veracidade dos fatos supracitados é de responsabilidade da bicicleta. A considerar o juízo de seu dono, creio ser a mais fiel verdade.
Do aditor
GustavoGT
Natal 05/06/04

postado por: RODOLFO TORRES 4:45 PM


Comments: BRASINALDO

O Brasil dentuço, careca e com cavanhaque


Apanha a bola em plena intermediária e avança sob marcação intensa. Dribla o primeiro como se passasse por uma criança. O segundo o persegue lado a lado sem chegar nem perto da bola. Com um pisão na pelota, o marcador desenfreado é lançado a metros da perseguida. Invade a área com rapidez, cabeça baixa, o zagueiro tenta pará-lo com o físico. É como se batesse num poste. Cai ao solo sem entender como pode haver tanto equilíbrio. Só falta mais um para chegar ao gol. Vendo-se numa missão impossível de parar o atacante, o defensor que restou se vale de artimanha ilegal e o derruba escandalosamente, sem nenhuma piedade. O juiz em cima marca penalty. Não há nem reclamação. Ronaldo converte o primeiro de uma série de quatro que iria marcar naquela noite. E a história se repetiu mais duas vezes. Com suas chuteiras douradas e hipervalorizadas, Ronaldo correu, chutou, driblou e marcou três gols no jogo de ontem contra a Argentina. Na força, parecia um jogador de Rugbi a levar a bola a frente sem ninguém a detê-lo. Na habilidade, conduzia a bola com os pés como se fora com as mãos, passos longos, poucos toques, precisão. Na experiência, impunha respeito dentro e fora da área. Na magestade, lembrava tempos antigos de futebol romântico. Tudo isso sem perder o sorriso dentuço e a eterna careca cinzenta. Ronaldo desbravou a defesa platina como se subisse o rio Prata a procura do Ouro das suas chuteiras. Invadiu a área como um conquistador espanhol. Chutou como carabinas catalãs em fúria e driblou como se capoeira jogasse. Se todos fossem iguais a você, não haveria a menor graça. Ontem, o fenômeno foi fenomenal..

O agudo
Bruno Magalhães
03/06/04

postado por: RODOLFO TORRES 4:15 PM


Comments: Terça-feira, Junho 01, 2004

Malefício da dúvida


Acordou num sábado sonolento e logo foi surpreendido por um silvo multitonal, longo e fino, vindo dos fundos. Nunca ouvira som semelhante em casa. Quem ou o que estaria produzindo esse ruido? Procurou o início do som e se deparou com sua esposa a assoviar absortamente, concentrada em arquitetar uma melodia que não se encaixava em nenhum conjunto de tons que ja tivesse ouvido. Na verdade, parecia fora de qualquer escala conhecida. Se não houvesse tanta alegria na composicao, o marido diria que era um som horrivel; embora gostasse da afinação da voz do seu conjuge, definitivamente ele não classificaria como aprasível aquela música. Achou estranho tanta felicidade logo cedo. Ainda mais embalado por assovios. Nunca ouvira sua mulher assoviar. Será que ela estava escondendo algo? Certamente, não era nada relativo a ele próprio ou ao matrimônio, que ja era bastante sólido para não haver dúvidas. Claro, nao deve ser comigo, pensou... Será? Nããão... Talvez seja. Deve ser. Pensando bem, ela parece estar rindo dele, se contorcendo por dentro e se esforçando muito para se segurar e não explodir em gargalhadas. Logo sua mulher, sempre tão austera. O que o pertubava era o assovio. Havia formas mais nobres de demonstrar felicidade. Pensou em cem motivos para aquele estado. Todos foram iguais na balança da dúvida. Não consenguindo se decidir, nem se aquietar, pensou em perguntar. Mas, dar-lhe esse gostinho? Aumentar ainda mais sua fortuna? Conteve-se, fez meia-volta e saiu se remoendo, num mix de curiosidade e raiva, mas já bolando um jeito de se vingar dessa traição inesperada. Não há limites para a malícia feminina, sobretudo das mais inocentes.

O agudo
Bruno magalhães
31/5/4

postado por: RODOLFO TORRES 5:20 PM



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