Confraria dos Crônicos

De crônica, não basta a vida!



Comments: Quinta-feira, Maio 20, 2004

Nostalgia do Caos

Constatação horripilante este final de semana, enquanto estava na pseudo-pacata cidade de Campos do Jordão: senti falta do trânsito de São Paulo. Isso mesmo, senti em alguns momentos, vontade de estar dirigindo em São Paulo, em meio ao caos.
Para os que não conhecem, Campos é uma bela cidade montanhosa, fundada de início para tratamento de pessoas com tuberculose, pelo seu ar frio e seu clima, também característica pela presença do Plátano, aquela planta que tem a folha na bandeira do Canadá. É sempre movimentada, mas em épocas de meio de ano e de congresso, se torna um verdadeiro inferno (mais de 5 mil visitantes). O pior não é a quantidade de pessoas, mas o que estão a fazer por lá. É um verdadeiro desfile de carros caros e de Narcisos e Narcisas. E nada mais irritante do que ter que passar de carro a 10 Km por hora porque o jovem e eloquente piloto a sua frente está a desfilar seu possante por entre os olhares dos transeuntes, também chiques e bem vestidos
Demorava tanto quanto ou mais do que em São Paulo para me locomover, por muitas vezes valia mais a pena anda a pé, pois se chegava mais rápido ao destino. Não tenho nada contra o dinheiro e o que ele proporciona, mas tudo tem limite.
Realmente senti falta de São Paulo em algumas horas. Aqui pelo menos não se anda por um nobre motivo: são milhares de caros no caos instalado, todos querendo chegar a algum lugar. Não se anda por existir trinta caros a sua frente, e não porque há trinta espectadores a sua volta.
Do aditor
GustavoGT
SP 19/05/04

postado por: RODOLFO TORRES 11:40 AM


Comments: Segunda-feira, Maio 17, 2004

Golf e Gravata

Tive o que podemos chamar de final de semana proveitoso, e não pelo fato de estar em um evento científico de minha especialidade, como por bem poderiam pensar os senhores. O chamo de proveitoso por dois motivos básicos: golf e gravata.
Saibam os mais descrentes de minhas habilidades para o nobre esporte em questão que já adentrei no restrito mundo dos que ganham dinheiro com o esporte. Ganhei uma meia garrafa de vinho, após acertar uma tacada sensacional em um mini golf. Foi um momento único de extrema categoria, onde fui finalmente reconhecido como um proeminente talento para o esporte. Tá certo que não ganhei propriamente dinheiro, mas por outro lado economizei na compra de meia garrafa de vinho. É também verdade que centenas de outras pessoas também ganharam tal prêmio (o buraco era grande),mas o que vale é que a minha tacada foi a única realmente digna de registro, com um movimento perfeito, e uma maneira profissional de se posicionar diante da bola. Por sinal, registre-se que fui o único a reclamar que as condições para a prática do golf não eram adequadas para uma pessoa habituada aos melhores campos.
E o outro momento mágico merece registro. Após anos e anos descrente de minha capacidade para dar nó em gravata, inclusive já tendo reclamado de tal má sorte em crônicas prévias, não é que estou um verdadeiro perito em tal assunto. É impressionante como estou um mestre na questão. Não é um talento inato, como pode parecer aos mais entusiasmados, esse dom herdei na verdade para o golf e outras atividades menores. É um talento talhado em horas e horas de treinamento exaustivo, a procura do nó ideal. E não é tive o reconhecimento público por tal feita, após um nó de gravata que atingiu quase que a perfeição, uma obra-prima.
Realmente, caros confrades, esse fim de semana foi de boas surpresas.
Do aditor
GustavoGT
SP 17/05/04

postado por: RODOLFO TORRES 5:13 PM


Comments: Quinta-feira, Maio 13, 2004

Libertinagem de imprensa

Considero absurdo o embate entre o governo brasileiro e
o New York Times. Não vou nem criticar a ação do
governo em retirar o visto do cidadão americano aqui no
Brasil, apesar de não concordar. O governo, num
rompante extremo de inabilidade em questões pequenas,
transformou um dilema totalmente desimportante, escrito
por um jornal lido por poucos aqui no Brasil, em uma
problema diplomático. Com uma assessoria dessas, para
que oposição. Vou mais além. Num momento histórico que
se perpetua há tempos, onde sempre se pede, se exige,
se incentiva a liberdade de imprensa, tão cultuada como
sinônimo de democracia, eu pergunto onde entra a
responsabilidade da imprensa. O repórter do NYT disse
que o povo brasileiro estava preocupado com a
quantidade de bebida ingerida pelo nosso presidente,
que por sinal não está fazendo nada, mas isso dá outra
crônica. Eu não sabia desse "problema" do presidente e
acho que ninguém sabia também. Nunca ouvia falar em
nada parecido. Me pergunto se o único que sabia disso
era esse tal repórter e porque que ninguém nunca
denunciou esse fato aqui no Brasil. Para mim não havia
preocupação nenhuma. Agora, perceba a repercussão
internacional de uma afirmação duvidosa desse tipo. Um
mercado frágil como o brasileiro iria ou irá sucumbir
muito mais em relação ao externo. As nossas bolsas
cairiam numa velocidade espantosa, os investidores
sumiriam, o risco-país iria para a estratosfera, e toda
essa baboseira econômica que poderia acontecer. Mas em
resumo o povo é que iria perder e o país entraria mais
ainda pelo cano. Não sei se o dito repórter teria algum
interesse outro em relação a essa questão, mas muita
gente grande iria ganhar com um maior afundamento do
Brasil no lamaçal da economia mundial. Inclusive Bush,
com esse pequeno desvio de atenção: sai a coleira no
iraquiano nu e entra a cachaça brasileira. É melhor
esse repórter do NYT cobrir a ocupação do Iraque, lá
tem muito mais furo... de bala. Ele pode até virar
refém ou ser malhado como um judas na ponte e aí ser
notícia de verdade.
O agudo
Bruno Magalhães
13\5\4

postado por: RODOLFO TORRES 2:54 PM


Comments: Terça-feira, Maio 11, 2004

Sem direito

Em mais um de meus surtos de revolta contra os que regem este país, me deparei com um argumento irrefutável contra a minha pessoa, destes que não permitem nem esboço de reação, diminuindo você a uma gota no oceano: Eu não voto.
Apesar da aparência sempre jovial, por vezes confundido com um adolescente, não tenho menos de dezesseis anos. Mas não voto simplesmente há quatro anos. Desde que mudei para São Paulo, tenho justificado em todas as eleições. Este ano, pensando que existia um limite de tempo ou de número de eleições para justificar, fui me informar sobre a transferência do título eleitoral. A funcionária, por telefone, me informou que não existia este tal limite (será mesmo que não?).
O processo em si não é tão burocrático. São necessários poucos documentos fotocopiados, porém teria que me deslocar até uma zona (eleitoral), em horário comercial, o que me ocuparia cerca de 02 horas de um dia rotineiro. Isso para mim é bastante tempo. E pensando que perderia pelo menos um almoço, e que teria o mesmo trabalho na próxima eleição, pois aqui não mais estarei, espero, resolvi manter-me não votante por mais este pleito.
Em resumo, a minha indignação e vontade de fazer valer os meus ideais esbarra em prato de comida. O meu voto, em palavras mais claras, foi comprado por um almoço. Não tenho o direito de me indignar com quem vende o voto por dinheiro, dentadura, passagem, chinelos ou outros objetos. Tenho vendido o meu ao conformismo.
E quantas vezes não agimos desta forma, nas mais diversas situações. Me revoltei hoje comigo mesmo. Não me acho no direito de opinar sobre o que está acontecendo, pois não participo de nada disso há quatro anos. Talvez seja hora de falar menos e agir mais. Como 05 de maio já se foi, fica para a próxima eleição, até lá, não deveria me revoltar , só não sei se consigo.
Do aditor
GustavoGT
SP 10/05/04

postado por: RODOLFO TORRES 10:47 PM


Comments: Sexta-feira, Maio 07, 2004

ZYB: MÁQUINA DO TEMPO

Descobri ontem, meio sem querer, que a rádio difusora
AM ZYJ 601 - 1480 Khz, Princesa do Vale, da cidade que
eu nasci, está na internet, para o mundo todo ouvir. Há
mais de 20 anos no ar e ainda é a única de toda a
região. Fazia muito tempo que não ouvia. Foi uma volta
ao passado maravilhosa. Ainda tem os mesmos programas,
com quase todos os mesmo locutores, com aquela
programação típica de AM do interior. Antes de
amanhecer começa o 'Forrozão da Minha Terra' que me
acordava todo dia bem disposto. Lá pelas 8 tem o 'show
da manhã', que mistura músicas da moda com forró pé de
serra e notícias locais em primeira mão. Hora do almoço
é a hora da 'Princesa Esportiva' com o supra-sumo do
esporte da região. Depois do almoço tem programa de
músicas românticas para embalar aquele soninho bom da
hora da siesta, misturado com leitura de cartas amorosa
dos ouvintes. No meio da tarde tem programa de músicas
que estão fazendo sucesso. Pausa para a hora do Brasil
e fecha a noite com músicas românticas para facilitar a
sessão-coruja. Para mim o melhor da programação são as
propagandas. Tem propaganda da mercearia de fulano, da
borracharia de sicrano-de-beltrano, com destaque para o
sorteio da rifa de 7 liquidificadores e 7 batedeiras,
fora o prêmio-extra surpresa sensacional, só para quem
pagou, nada de fiado. Tem chamada de tudo, de bodega a
clínica de saúde, passando por pau-de-sebo, circo e
loja de informática. Mas não tem nenhuma da Coca-cola
ensinando o que é a real, ou do McDonalds dizendo que
ama tudo isso. O endereço do estabelecimento é daquela
forma precisa que só quem sabe chega: rua da faculdade,
perto da algaroba grande, em frente à casa amarela;
qualquer coisa é só perguntar que todo mundo informa.
De vez em quando, o locutor anuncia que fulana-de-
beltrano perdeu a prótese na rua da pista, perto da
bueira, espera que a mesma não tenha caído na própria e
solicita devolução após lavagem. O gratificante é que
eu conhecia todos os locutores e quase todas as
propagandas eram de alguém que eu lembrava. Ah!
Saudade! Quem me dera poder deitar numa rede muito bem
localizada no alpendre, depois de um almoço bem pesado,
com um radinho de pilha no colo e cochilar ouvindo a
Princesa, só lembrando de esquecer a cidade grande. Um
dia eu volto!
O agudo
Bruno Magalhães
6\5\4

postado por: RODOLFO TORRES 1:17 AM


Comments: Quarta-feira, Maio 05, 2004

Cachorro doido

Há tempos um sonho me persegue, ou melhor dizendo, um pesadelosinho besta e sem graça. Estou geralmente em uma rua deserta, na penumbra ou no escuro, de noite, quando de repente, ao dobrar uma esquina, me deparo com um cachorro do outro lado da rua. Quando consigo recordar de sua face, é a de um pastor alemão imenso e mal-encarado, tipo pit-bull ao acordar ou outra destas bestas ferozes. Ele já me fita com raiva no olhar, e então parte desesperado e com a boca de tubarão aberta, em minha direção, como que querendo me devorar vivo. Corro de volta alucinadamente, e para a minha sorte sempre encontro um muro ou uma grade de portão para subir e persistir vivo, pois em todos os meus sonhos escapei ileso. Sem fôlego mas ileso.
O mais engraçado é que este sonho me faz lembrar de uma criatura sui generis por concepção e constatação: "O cachorro doido". Me permito assim denominá-lo, pois não há um só relato na literatura (de meu conhecimento) que defina este espécime canina, que com os caninos expostos ficam nas ruas perturbando a paz e a ordem social. Essa criatura não é domesticável, pois não os observamos dentro de casas. Se o Cachorro Doido é causa ou consequência disso não sei explicar. Só sei que estão nas ruas, e o seu lazer preferido se resume em partir na direção de qualquer coisa que se mova e que passe na sua frente, ou na sua rua. Tem uma atração especial por automóveis, de preferência os mais velhos e barulhentos, mas não se inibe diante de carrões mais refinados ou de ônibus. Corre desenfreadamente ao encontro do inimigo, mostrando todos os seus dentes, em sinal de desafio e como que para impor respeito. O mais interessante é que os mesmo raramente provocam alguma reação dos transeuntes, a não ser aborrecimento. Acho que nem raiva (aquela doença que quem tem baba) eles são capazes de transmitir. Os mesmos, embora não comentado previamente, na maioria das vezes são seres de porte ínfimo, senão desprezível. Quanto a sua linhagem, ascendem, esmagadoramente, de genitores vira-latas perebentos, com carrapatos aos montes. Para ser sincero, não acho realmente que combine com um cachorro de raça definida estes surtos de megalomania.
Analisando a sua procedência, pelo menos no que diz respeito a cidade de Natal, onde se pesquisa há muito tempo esta anomalia, notamos que estão disseminados, porém com nítida concentração no bairro de candelária. Neste referido ambiente, fui vítima, durante quase todas as férias de minha infância, desses caninos entrópicos, quando ia comprar pão , por volta da 16 horas, para a minha querida avó, sem dúvida a mais bela, nobre e honrosa residente de tão distinto bairro. Quantas e quantas vezes aquele meio quilo de pulga perturbava o meu trajeto até a padaria, me colocando a correr, e sempre na volta, parecia de propósito. Esperava retornar para me ver correr com um saco de pão e dois de leite nas costas. Confesso que quando não o encontrava sentia falta, e por vezes ia, geralmente com meus primos, ao seu encontro, vasculhando nas ruelas do bairro, o encontrava, se fazia notar e saia em disparada.
Há muitos anos não faço este trajeto. Acho que o pulgento sente a minha falta. Deve ter morrido, com certeza. Suspeito até que é o próprio que anda a me perseguir nos meus sonhos, só que agora não tenho coragem de provocá-lo.
Do aditor
GustavoGT
04/05/04

postado por: RODOLFO TORRES 7:09 PM


Comments: E o assunto é:

Caso eu esteja errado, que me corrijam, mas um grande jornalista político que o país possui chama-se Fernando Rodrigues. O cara mora em Brasília, é colunista da Folha, do UOL e deve ter mais algumas colaborações por aí. Foi através dele que o país conheceu a gravação onde dois deputados acreanos foram comprados em 1997 para aprovar a emenda da reeleição do então presidente FHC.
E entrando na série "Mais uma das contradições Petistas", o atual governo, que tanto esbravejou à época contra a proposta e depois, contra a compra, tentará aprovar uma emenda que garantirá a reeleição dos presidentes da Câmara dos Deputados (João Paulo Cunha) - aquele que colocou a polícia no congresso no ano passado - e do Senado (José Sarney). Aliás, eu gostaria muito de estudar um episódio que denomino "A farra das concessões", onde o presidente da República José Sarney saiu distribuindo autorizações de utilização de rádios e televisões para políticos de todo o país, garantindo apoio ao seu mandato por cinco anos. Esse fato deveria ser arduamente estudado e debatido entre nós, jornalistas. Limitou nossa atuação, castrou e feriu a profissão. Um absurdo!
Pois bem. Lula tentará aprovar essa proposta e a governabilidade ficará garantida. E lembram da enxurrada de medidas provisórias de FH? O mesmo acontece nesse governo.
Quando entrei na faculdade, pensava em ser jornalista político. Entretanto acho que não tenho estômago para isso. É tanta corrupção que qualquer um ficaria deprimido em não poder fazer nada. Por isso adotei o lúdico, o lírico e o poético.
Enquanto a forma de governo permanece a mesma, irei comer uma tapioca de carne de sol com nata e um pão de macaxeira assado, com café, pamonha e, quem sabe, alguma cidadania nos couros.


postado por: RODOLFO TORRES 4:58 PM


Comments: Segunda-feira, Maio 03, 2004

Feito Praga

Hoje às dezesseis horas, o céu estava nublado e caía uma garoa que para uns é chata, para outros trágica e para tantos, divina. Estava atravessando uma rua bem próxima de casa quando olhei para uns morros verdes do exército nacional e Praga me veio à mente. Estava com frio, gotas muito fina me tocavam. Olhei e a paisagem era uma saudade só. O crepúsculo se adiantou duas horas, como se uma noite não fosse sofrimento bastante nessa cidade que foi Praga por alguns instantes. Pulo uma poça d¿água que treme com a chuva fina que corta uma alma que está de partida e que pretende voltar ao local não cuidado pelos seus quando e com o cabelo prata e a voz pacata suplicarem clemência por um exílio voluntário, inevitável e bicolor.

postado por: RODOLFO TORRES 11:59 PM


Comments: Domingo, Maio 02, 2004

O futuro do "mudar o mundo"

A minha geração - o pessoal com menos de trinta - vive sem expectativa de revolução. Já se foi o tempo em que se filiar a um partido político; entrar para uma banda; seguir sua vocação profissional; evitar certa marca de refrigerante; desligar o aparelho televisor nos filmes de Los Angeles; escrever manifestos e amar uma bandeira ainda faziam algum sentido. Uma impressão que tenho é que os anos sessenta e setenta consumiram a criatividade, originalidade e desejo de, no mínimo, três gerações.
Mas chega de ficar recordando um passado inigualável. Estamos num período bíblico e vagaremos num deserto de demência por quarenta anos. Vamos imaginar o início dessa trajetória nos anos 80. Certo é que já passamos da metade, mas ainda faltam dezesseis primaveras daquilo que Gláuber Rocha denominou de "cultura da mediocridade".
E quando uma geração perde a intimidade com a poesia, as armas surgem como a melhor opção. Quer mudar o mundo, jovem? Relaxe. Não seremos nós que o faremos. O momento histórico de grandes alterações ainda está por vir. Daqui a quatro eleições presidenciais dos Estados Unidos, o mundo terá uma série de fatores que o levarão à revolução.
Que será comprada! Mas até lá, dezesseis bolos aguardam essas pessoas de um tempo que condena implacavelmente a inteligência. Vamos preparar a década de 2020. Será nossa última chance de "mudar" um mundo que, desde o início, nunca fez força para tal.

postado por: RODOLFO TORRES 10:17 PM



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