Confraria dos Crônicos

De crônica, não basta a vida!



Comments: Sexta-feira, Abril 30, 2004

Pipocas

Definitivamente os tempos mudam. E não só mudam os tempos, como as coisas também mudam. Notem os mais atentos e prendados as atividades do lar, como fazer uma simples pipoquinha no Sábado á noite, que isto é a mais pura verdade. Não precisam os candidatos serem extremos conhecedores da labuta de uma cozinha, ou fazerem a melhor pipoca já vista, como eu. Basta se aventurarem a fazer pipoca, e verão que o que vos revelarei é o óbvio. As coisas mudam, e as pipocas também.
Desde criança gosto de pipoca. Ao contrário dos mais radicais, que acham pipoca de rua melhor do que pipoca de casa, sou enfaticamente contra tal afirmação. Pizza pode até ser, mas pipoca nunca. Adoro pipoca caseira, feita geralmente em quantidades exageradas e saboreada quentinha. E no fogão logicamente. Me nego aqui a discorrer sobre pipoca de microondas, um afronte a boa culinária.
Sempre fiz pipoca na manteiga, porque aprendi assim e porque sempre fiz excelentes pipocas, então não havia motivo para experiências que abdicassem da boa e companheira manteiga. Já sabia do óleo como substituto, mas o ignorava por completo. Quando me mudei para São Paulo, numa das primeiras oportunidades de saborear a iguaria, me deparei apenas com óleo, mas não fui orgulhoso, e a fiz ,mesmo assim. A ausência da manteiga (ou porque não a achava na geladeira) perdurou por um bom tempo. Fato este que me levou a utilizar o óleo por repetidas vezes. Há algumas semanas, retornei a saudosa manteiga. Para a minha surpresa, o milho queimou por completo e nenhum, nenhum deles estourou. Apavorei-me ao ver aqueles grãos torrados e pretos no fundo da panela. De imediato bradei aos ventos coisas obscenas sobre a qualidade do milho, que não se fazia mais milho como antigamente, e coisas assim. Obviamente, resignei-me, pois havia acabado o milho, e tentei novamente, com outro milho, a experiência. Para meu total desespero, a cena se repetiu, nenhum estouro. Tivera feito tudo certo, até as tradicionais três batidinhas, no lado da panela, com colher de madeira (de preferência velha e muito usada). Na revolta repeti o processo com óleo. Funcionou.
Constatei então, o milho de hoje não estoura mais com manteiga. E o pior, o mesmo vale para a margarina. O óleo, meus senhores, a partir de agora é soberano. A coitada da margarina resta o consolo de ainda ser passada em torradas e bolachas cream-cracker.
Do aditor
GustavoGT
SP 30/04/04

postado por: RODOLFO TORRES 4:48 PM


Comments: Deixe seu recado

"Após o sinal, deixe seu recado!" ... não há nada que me deixe mais desconcertado do que esta simples mensagem. Acho que por isso mesmo que não tenho secretária eletrônica, nem no celular. Além de desconforto, sinto uma sensação de raiva, ou melhor, tenho ódio destas mensagens. Parece que para me irritar ainda mais, "eles" andam alongando cada vez mais estas. Tem uns dois ou três avisos de alerta antes de cada recado. Parece uma operação ultra perigosa. Hoje em dia são quase quinze minutos até o momento em que se é permitido deixar a mensagem (que alívio).
Não disponho, e nem quero dispor, da mínima intimidade com estas máquinas que falam sozinhas, e depois colocam você para falar sozinho, feito um esquizofrênico em surto. Após aqueles bipes horríveis, fico em estado de latência, que na minha mente duram várias horas, até conseguir pronunciar a primeira palavra. Meio trêmula, sem força ou convicção, ela sai. Seguindo-se a ela, vão as outras, meio gaguejadas, meio afônicas, são expulsas de minha boca, sem a mínima emoção ou convicção. Quando paro para raciocinar, já se foi tudo, que alívio. Ao som de frases entrecortadas, por vezes sem nexo, e palavras repetidas, acho que consigo deixar o meu recado.
Para ser sincero não tenho secretária eletrônica porque não teria paciência de utilizá-la. Não nego as vantagens de tal ferramenta, e as facilidades que proporciona. Mas definitivamente, não nasci para falar com máquina.
Do aditor
GustavoGT
SP 28/04/04

postado por: RODOLFO TORRES 4:47 PM


Comments: Quinta-feira, Abril 29, 2004

Mais uma dele

Há fortes evidências de que o filósofo que influenciou
toda uma cultura pós-prussiana também legou aos
seguintes essa pérola que é o termo 'metrossexual', tão
em moda atualmente. Estou falando em nada menos que
Brunico de Magal, o viril, que em um artigo de revista
indexada de fantasias femininas de 1379, segundo
datação por carbono 14, recém-descoberto nas cavernas
de shadai larife, Emirados Árabes, junto a escrituras
apócrifas menos importantes salvas do dilúvio por um
camelo intelectual, rebelde e ateu, com o título em
inglês de 'The metrosexual theory', introduz o termo em
questão. O nosso sábio, que para os menos informados,
também foi um Lama no Tibet, não quis dar o sentido que
a palavra tem hoje em dia; esse sentido primordial foi
levianamente mudado no correr dos anos, provavelmente
por conspirações extra-terrestres de controle do
pensamento humano. Mas não quero tirar conclusões por
vocês, por isso segue abaixo o 'abstract' do referido
texto, que eu, na minha modéstia, livremente traduzi do
anglo-saxão antigo.
"A teoria metrossexual", por Magal, Brunico de, et al.
"Segundo observações minhas, corroboradas por inúmeros
colaboradores, noto que há indivíduos do sexo masculino
que atraem o sexo oposto com menores empecilhos que
outrem. São normalmente disputados à pontapés por
sortidas concorrentes, que se degladiam enquanto o ser
supremo se regozija. Este raramente seleciona apenas
uma; ele subconscientemente sabe da importância do
espalhamento de suas preciosas e diferenciadas sementes
na natureza. A cópula, que sempre se dá ao encontro
deste, é com certeza vigorosa e provavelmente prazerosa
para ambas as partes, principalmente para a por hora
escolhida. Ele se vale de um instrumento de persuasão
infalível por ser bastante escasso na natureza, mas
muito comum na sua espécie. Devido ao pudor da editora
desta, prefiro não publicar qual seja, porém faço-me
entender certamente. Este atributo se faz avantajado,
chegando até um metro de tamanho, devido observações
longínquas, e circunferência aparentemente enormecida,
mas francamente desconhecida pelos nossos pesquisadores
simplesmente por receio de força maior. À luz da
ciência, as medidas, consistência, textura, cheiro,
sabor e efeitos provocados carecem de ensaios
posteriores por pesquisadores mais dedicados, sem medo
de se entregarem à causa. Não busco essa glória.
Conclusão: pelo exposto, está provado que o jumento
realmente é um indivíduo metrossexual."
O agudo
Bruno Magalhães
29/4/4

postado por: RODOLFO TORRES 3:29 PM


Comments: Terça-feira, Abril 27, 2004

QUASE-GAY

Há uma nova moda em voga no mundo, principalmente na
Europa, que está mudando os conceitos masculinos. O
chique, o politicamente correto, o cool é ser
metrossexual. Não vá pensar que se trata de um sujeito
bem-dotado, não (pelo contrário, eu acho). "Metro" vem
do mesmo radical que forma a palavra metrópole, quer
dizer é um homem urbano, moderno e antenado (nem
precisa dizer onde fica a antena). O metrossexual é o
sujeito que tem grana, cuida da aparência acima de
tudo, faz as unhas, sabe todas as tendências de moda,
só usa roupa de grife, usa e abusa de cremes faciais,
não tem vergonha de chorar em filmes, vai mensalmente
ao cabeleireiro (e muda o corte), malha muito, faz
plástica se necessário, passa um dia por mês num spa
urbano (dia de noiva), não sofre ao depilar
sobrancelhas, e outras cositas mas. Quer dizer tudo que
sua mulher faz ou faria se tivesse dinheiro. O pior é
que falam que a tendência é irreversível, todos os
homens serão assim. Deus me livre. Eles juram de pé
junto que são heterossexuais, mas eu acho que são mesmo
é heterodoxos. O maior ícone metrossexual é uma
figurinha carimbada nos tablóides e desfiles de moda
ingleses, David Beckinhan (ou algo parecido), aquele
jogador do Real Madrid. Não tenho nada contra os
homossexuais, mas a partir de hoje tenho tudo contra os
metrossexuais. É um homem feminino demais; na verdade
ele é tudo que sua namorada gostaria de ser, com
exceção de um pequeno (muito pequeno) acessório que eu
acho que eles precisam ler o manual antes de usar. Não
sei se na hora do "pega-pra-capá" eles são homens
mesmo. Eles devem fazer amor olhando para o próprio
glúteo no espelho. Acho que eles ainda não descobriram
o que são de fato e ficam enrolando as mulheres até
encontrarem o homem-da-sua-vida. Se um fresco der uma
cutucada... Se alguém vendar os olhos de um
metrossexual, der 24 rodadinhas e soltar o cara numa
boate gay, ele nunca vai encontrar a saída. Digo com
orgulho, lá em Assu pode até ter viado, mas tenho
certeza que não tem nenhum metrossexual. Ainda bem.

O agudo
Bruno Magalhães
27\4\4

postado por: RODOLFO TORRES 3:23 PM


Comments: Segunda-feira, Abril 26, 2004

A repetição tarda, mas não falha


Nesses últimos dias, aliás, nesses últimos anos, tudo parecia acabado. Comum era relembrar o passado com aquela nostalgia que rasgava o peito, certo de que nada poderia amenizar, ao menos que fosse, aquela sensação certa do "já era!".
Não! Encontrei a bóia nesse lamaçal. Algo que me fez acreditar que tudo é possível quando a alma vale à pena. Bebi Grapete. Deve ter na grafia registrada dois "p" ou dois "t", mas vocês entenderam. Inexiste algum outro refrigerante que sequer faça sombra ao sabor uva que deixa línguas e espíritos roxos.
Até a garrafa era a mesma de décadas. Feita de vidro, com o nome pintado de branco e nas bordas da boca aqueles traços de ferrugem que até aprimoram um raro sabor da infância. O que há mais então a ser dito? Gole longo numa Grapete cura alguns males de hoje, para todo o sempre. E com um pão doce então...

postado por: RODOLFO TORRES 11:04 PM


Comments: Domingo, Abril 25, 2004

Os Números Mentem
O que deveria ser uma ciência totalmente exata, nos permitindo o luxo de nem pensar para acreditar, é utilizada por muitos para distorcer o que é real, enganando aqueles para os quais se destina a análise, na grande maioria das vezes a vítima somos nós, a população, manipulada de forma canalha e irresponsável.
Não vos falo de numerologia ou algo que o valha. O objeto da minha revolta se centra as análise variadas, vinculadas nos mais sérios e respeitados jornais e revistas do país. A estatística é o grande réu.
Uma frase que antes achava engraçada e hoje julgo corretíssima, nos diz que quando bem torturada, a estatística nos fornece o resultado que se quer. Infelizmente isso é verdadeiro em todos os campos. Em termos médicos, por exemplo, muitos são os exemplos de análises distorcidas como resultado de "distorções estatísticas". No campo da política, então, chega a ser obsceno.
O erro não reside no cálculo em si, um mais um continua sendo dois, na maioria das vezes. O desvio ocorre no que se pretende analisar, e na conclusão que se tira baseando-se no referido cálculo. A interpretação que se dá chega a ser hilária, em determinados casos. Muitas vezes existe um disfarce, uma camuflagem, nos obrigando a estar atentos para toda a informação recebida. Em outras ocasiões, como que fazendo pouco da inteligência do ouvinte, se esquece de disfarçar a malícia e o veneno contidos na notícia.
Já ouvi absurdos, os quais geralmente esqueço, afinal quero chegar vivo aos quarenta. Em certa ocasião, contudo, renomado âncora de não menos renomado jornal noturno se vangloriou ao vincular a informação "estúpida " de que o preço dos serviços e da alimentação em São Paulo era dos mais baixos (em dólares) quando comparado com Nova York, Londres e Tóquio. Vejam os senhores que absurdo, que atentado a inteligência do telespectador. Não me interessa esse tipo de informação idiota, pois o cálculo deveria ser baseado no custo versus o ganho da população. Aí sim veríamos a nossa vergonhosa situação.
Os responsáveis pela formação da opinião pública deveriam pensar a este respeito, no tipo de consciência política e social que se está criando com informações desse tipo. Enquanto isso não ocorre, persisto cismado e cético, não com os cálculos, mas com as conclusões.
Do aditor
GustavoGT
SP 25/04/04

postado por: RODOLFO TORRES 11:11 AM


Comments: Sexta-feira, Abril 23, 2004

O silêncio dos inocentes


No carnaval do ano passado, li a biografia de Duda Mendonça, o ministro da propaganda do atual presidente. Ficava às madrugadas lendo na rede, ouvindo Chico Buarque baixinho e bebendo vinho chileno. E não foi uma má leitura não. Muito produtiva por sinal. O que mais me identifiquei com o publicitário foi sua preferência pelos botecos às boates. Adoro boteco, gostaria que meu corpo fosse velado em um. E odeio, detesto, tenho nojo de boate. Duda Mendonça profetiza que nos botecos, só os melhores sobrevivem. Enquanto que na boate, não. Com aquela barulheira infernal, um escuro mórbido e um frio siberiano; não há como se comunicar. É aquela coisa: Quem tem a melhor casca!
No boteco, com a música ambiente, a sinuca empenada, apenas uma opção de tira gosto e uma cachacinha para molhar o gogó; há a possibilidade de diálogo. E não existe nada pior do que gritar ao pé do ouvido de outra pessoa e ela não entender o que você está querendo falar. Lembro de uma propaganda da Coca-Cola que um garoto encontra uma garota numa pista de dança, com um som absurdo e ele faz-lhe uma pergunta, que não é entendida e respondida como se fosse outra a indagação, e nesse festival de falhas na comunicação eles acabam se beijando e vivendo uma noite agradável.
Acabo de saber que na França, a última moda é a "Festa Quieta". Você vai a um clube noturno, boate, pub, etc; e é expressamente proibido falar e tocar música. Tudo funciona à base do bilhetinho. A humanidade precisou passar por mais de trinta anos de ruído ensurdecedor para apreciar uma boa conversa. Sim! Outra coisa que detesto é a tal da música eletrônica. Mas parece que agora os tempos mudaram. Só imagino como será essa festa aqui no Brasil. Onde encontraremos pessoas suficientes que não falem por algumas horas, que suportem ficar sem escutar música enquanto bebem e que saibam escrever?

postado por: RODOLFO TORRES 4:55 PM


Comments: Quinta-feira, Abril 22, 2004


Que bonitos olhos tens

Outro dia, andando pela calçada da casa em frente à minha, vi dois pardais no chão. Um maior, que provavelmente era a mãe, e um pequenino. A hipótese mais provável para esse inesperado encontro é que o pequeno caiu do ninho. Ou, quem sabe, estavam caçando minhocas. Não sei. Fui em direção aos dois e o maior saiu voando. O menor, no desespero, corria apoiado nas pequenas asas, utilizadas como muletas de uma corrida desastrada e demente. Levei-o para minha casa para cuidar do órfão. Mas me disseram que pardal não se cria, que morre numa gaiola.
Coloquei-o numa velha gaiola, antes habitada por periquitos australianos. Amassei banana e mamão. Molhei um pouco de pão no leite e coloquei um depósito com água para ele. Ele não queria comer. Tentei colocar comida em sua boca. Em vão! Voltei para minhas atividades.
Retorno à gaiola, no outro dia e vejo as frutas e o pão cheios de formigas, que já se alimentavam do pequeno pássaro deitado. E não chorei por ter perdido o passarinho.
Em verdade eu sabia que o passarinho não sobreviveria, mas ele era meu prisioneiro. E se fosse morrer, que não fosse na boca de um gato, nem debaixo de um pneu de bicicleta. Seria uma morte entre a fartura. Um fim solitário, dentre a matéria-prima que atrairia seus assassinos, que vieram por sua teimosia de não obedecer a uma criança teimosa e cruel; como qualquer criança nessa vida.

postado por: RODOLFO TORRES 5:39 PM


Comments: A cor da pureza

As diferenças regionais que nos
tornam maiores atingem, claro, também os termos
médicos. Quando não é no significado do termo ou na
pluralidade de palavras com o mesmo significado, a
pronúncia, não sotaque, é bastante diferenciada. E não
há como tirar a certeza da mente local de que ela e só
ela está certa. Dentre muitos exemplos, para mim, o
casaco branco que os médicos usam por cima da roupa
paisana, é o que gera maior controvérsia. Aqui em
Sampa, ele é conhecido como jaleco ou avental, No Sul,
chamam-no de guarda-pó. Lá na minha terra, o certo é
bata. Isso mesmo bata. E para ter certeza, fui
consultar o dicionário. E não é que os papa-jerimum
estão certos. Segundo o aurélio, jaleco significa
casaquinho curto usado por barbeiros; avental não
precisa nem dizer que é roupa de cozinheira. Guarda-pó
é a mesma vestimenta, só que é usado por professores
que não querem sujar a roupa do pó do giz. Já bata tem
vários significados, um deles é exatamente o que nós
queremos dizer, o casaco branco por cima da roupa do
médico. 1 x 0 para a terra de Poti. Nossa vantagem é
tão grande que nem bata a gente usa lá em Natal. Fica
muito melhor um médico vestido de médico, quer dizer de
branco, do que se escondendo atrás de um casaco. Parece
que é para aumentar a distância do paciente. Sem falar
no calor. O médico é uma pessoa normal até vestir
aquela capa; daí ele se transforma, vira o senhor
doutor fulano de tal, a maior autoridade em determinado
detalhe significante ou não. Parece até que ele não ri,
não chora, não sente... não se importa. Claro que não
isso que faz o bom ou o mau médico, mas para mim,
psicologicamente, interfere. Eu não gosto de usar bata,
prefiro branco, mas as pessoas te olham diferente se
você usa a cor da pureza. Para começar não têm certeza
se estão vendo um médico (disparate!), pensam que é
enfermeiro ou fisioterapeuta. Não que haja algum
problema em ser confundido com outra profissão, mas só
o tempo que você perde explicando que médico, um dia,
antes deles nascerem, também usou roupa branca, não
vale a pena. Por enquanto, vou na deles e quase sempre
uso bata, mas é só até voltar. Então vou andar puro,
alvo e doce, como um din-din de côco.

O agudo
Bruno Magalhães
20\4\4

postado por: RODOLFO TORRES 11:37 AM


Comments: Terça-feira, Abril 20, 2004

Invertida é a primavera minha

Quem nunca relacionou as quatro estações, com as três idades, com as duas almas, com a vida única? A natureza parece ter um procedimento de florescimento no início de todo ciclo, com a gradual perda de cor, sabor e prazer ao final. Será que não existe uma associação rápida da primavera, com a infância, com o início de um romance? Onde tudo é tão intenso e brilhante que teimamos em desafiar até a existência, certos de que o que sentimos ultrapassa até o tempo; que muda tudo, acaba com a primavera, envelhece o homem, desgasta o romance e delimita a vida.
Mas tenho a esperança de ter pulado algumas etapas para recuperá-las mais adiante. Na minha primavera senti ventos glaciais. Sou um velho habitando um corpo jovem. O amor teima em permanecer viril e a vida me escapa.
Quero que o outono dos meus dias seja tão intenso como o primeiro beijo de um garoto trêmulo. E quão bom seria aguardar o inverno como uma criança espera o recreio.

postado por: RODOLFO TORRES 12:41 PM


Comments: Sexta-feira, Abril 16, 2004


Primeira página de um terceiro mundo

Ainda com a vista turva de quem acaba de acordar, vou à sala para tomar leite e ler o que estão falando de Natal, do país e do mundo. E como hoje é sexta, vou direto ao caderno de cultura do Diário para saber o que Norman Bates (vulgo Alexandre Honório), meu amigo, escreveu sobre cinema. Se bem que hoje, em caráter excepcional, ele não escreveu nada. E se for para escrever sobre aquele conflito entre vampiros e lobisomens, melhor descansar a pena.
Já que não há a coluna de cinema para ler, então vamos ao resto. Foto de primeira página, colorida, ampliada: as pernas de um homem saindo debaixo de um pneu de um ônibus. Coisa leve para quem vai começar o dia. Sem querer entrar naquela discussão acadêmica e eterna do papel da imprensa noticiando coisas como essa, ou melhor: o destaque dado a esses fatos; fiquei só por um instante mínimo pensando em como nosso tempo sepultou o lúdico.
O pobre homem morreu porque parou sua moto antes da faixa para um pedestre atravessar a rua. O ônibus atrás da moto também parou. Mas um caminhão cheio de material de construção que vinha atrás do ônibus, à toda velocidade, bateu no coletivo que esmagou o motoqueiro pelo princípio da inércia.
O caminhoneiro fugiu e deve esperar dois dias para se apresentar às autoridades policiais.
Outro dia, ainda na faculdade, o mestre Carlos de Souza estava dando aula e citou que o consumo de notícias trágicas é muito maior nos países pobres do que nos países ricos. Perguntei a razão dessa sede. Respondeu que não tinha certeza, uma certeza científica, mas em sua opinião era para tentar esquecer por algum tempo a vida podre, resumida na carência não apenas material. Consome-se sangue nos noticiários para se comprovar que existe alguém ainda pior que você.
E o lúdico nos dias nossos? Resume-me a um romance policial eletrônico, de péssima qualidade, mal gosto e que assusta de verdade.

postado por: RODOLFO TORRES 2:35 PM


Comments: Quinta-feira, Abril 15, 2004

Ao Prefeito

Aproveito o espaço de tão ilustre confraria para falar-lhes de uma figura impoluta e proeminente de nossa sociedade, ímpar em se tratando de exemplo de homem público, louvável em todo o cenário cultural norte-riograndense e brasileiro, quiçá mundial.
Essa figura da qual vos falarei trata-se do ilustre Dr...
Devido a sua humildade ser do tamanho de sua grandeza de espírito, me reservo ao direito de não citar o seu nome. E antes de especulações infrutíferas, digo aos senhores que o mesmo não é, e nunca foi (será com certeza!) prefeito.
A alcunha ("Prefeito, grandissísima autoridade"), além de dever-se ao enorme desejo de toda a nossa sociedade, cai-lhe muito bem, pois o mesmo é uma figura de respeitável presença, sendo de uma postura invejável.
Não venho neste espaço me deter os assuntos políticos ou ideológicos que justificam tal apelido, prefiro citar fatos que demonstram a imensa e louvável postura do mesmo diante de episódios corriqueiros.
Certa noite de sexta-feira, aguardava o prefeito e sua digníssima esposa (com justiça entitulada: "Primeira-dama, grande autoridade") em sua residência (um apertamento no mesmo prédio que o meu). O mesmo estava em etapas finais de seu asseio. Enquanto distraidamente o aguardávamos, com toda a paciência e respeito, ouviu-se o abrir da porta do banheiro e a frase: "-Oh "Primeira dama, grande autoridade", por favor, dê-me creme dental !!!".
Agora pergunto aos senhores, que figura, por mais idônea e ríspida de caráter, usaria tais termos para uma solicitação tão corriqueira. Logicamente só omiti o nome da primeira dama e o troquei pela sua alcunha, o resto da frase foi real. O prefeito o faz porquê é assim. É na verdade um homem de extrema educação e bons modos. Qualquer outro cidadão, em primeiro lugar, não se daria ao trabalho de citar o nome de sua esposa, e muito menos usaria o vernáculo com tanta propriedade. Feliz desta mulher que tem em seus braços tão louvável homem.
Vários outros são os exemplos deste afirmação, mas a emoção me impede de declamá-los aos senhores.
Aproveito apenas (entre lágrimas furtivas) para confirmar o apoio total e irrestrito ao prefeito, e avisar aos interessados que, como futuro chefe da casa civil, me coloco à disposição para os apoios financeiros a tão nobre candidatura.
Do aditor
GustavoGT
SP 10/11/03

postado por: RODOLFO TORRES 5:50 PM


Comments: Você

Gostaria de compartilhar com vcs a minha angústia ao escrever-lhes ontem. Ao olhar para a tela, lá pelo meio da última crônica que escrevi, me deparei com uma palavra estranha e esquisita: Você. Não pelo seu significado, ou que eu seja um extremista egocêntrico, hiper-narcisista ou coisa assim, mas achei muito feio a palavra em si. A sensação que tive é de estar vendo ela pela primeira vez.
Realmente estranhei a dita cuja, e fiquei com aquela cara de cachorro que vê alguém (estranho) se aproximar de sua casa ou de seu dono. Parei de escrever e encarei a palavra por alguns instantes. Ela me intrigou muito.
Aí percebi que talvez seja porque o "Vc" esteja já tomando o lugar do "Você", pelo menos no meu imaginário. Será que a mania de escrever abreviado e o exagero de siglas esteja me deixando órfão do meu idioma? ...Será que aos poucos vou desacostumar a escrever e ler palavras por inteiro?
Ao receber alguns e-mails, ou me deparar com textos informais, demoro muitas vezes a entender o que se está tentando dizer. E isso não ocorre só na internet, não se enganem. Por quantas vezes perco tempo tentando entender algumas siglas ou abreviações criativas de outras pessoas, em relatórios ou prontuários. Sem querer me eximir da culpa, já me surpreendi tentando abreviar palavras, de maneira que ao final só eu entenderia.
Também não podemos culpar a internet, ou os adolescentes de hoje, pois tudo se originou, há muitos e muitos anos, com a primeira rubrica da história.
É a pressa do ser humano a desserviço da língua portuguesa.
Do aditor
GustavoGT
SP 14/04/04

postado por: RODOLFO TORRES 5:49 PM


Comments: Cansaço

Tenho Apnéia do Sono ... descobri isso há poucos dias, após exames. Fiquei perplexo, o nome é feio e o problema também, mas isso não vem ao caso, pelo menos em parte. Durante consulta com um especialista de renome no assunto, após o diagnóstico, já com umas trinta e cinco versões de meu testamento guardadas, me deparei com uma série de perguntas, que me foram feitas em questões de segundos, e sobre as quais quase não pude refletir. Dentre elas, as quais quase todas já me esqueci, uma me chamou atenção: - Você sente cansaço durante o dia?
O que parecia ser algo banal de se responder, me fez ponderar por alguns preciosos segundo do meu tempo de consulta. Se fico cansado? ... sim, na rotina do meu dia-a-dia, se pensar muito no que tenho que fazer amanhã, já bate aquela moleza na véspera. Mas sabia que não era este tipo de cansaço que interessava ao doutor. Ele queria saber além. É tanto que ao ver meu semblante, complementou: - Você cansa muito? ... neste momento notei que eu estava certo. Ele queria saber se o meu cansaço é ou não um cansaço normal. Teria, portanto que me colocar em uma escala de cansaço em relação a população geral, e ver aí onde estou: se canso muito, mais ou menos, ou pouco. No final das contas não soube responder, até respondi algo, mas tão sem convicção que nem me lembro mais.
Aqui não se objetiva fazer nenhuma crítica ao atendimento a mim dispensado, na verdade busco uma auto-crítica. Por excesso de zelo de meus pacientes, em responder corretamente, muitas das vezes tenho certeza que causei a mesma sensação neles. Acostumado a fazer o mesmo que meu médico dezenas (as vezes centenas) de vezes durante o dia, agora pude notar o porquê de obtermos respostas tão evasivas algumas vezes, quando fazemos aos nossos pacientes perguntas que julgamos banais. Quer coisa mais besta de se responder do quê se você sente cansaço?
Do aditor
GustavoGT
SP 13/04/04

postado por: RODOLFO TORRES 5:49 PM


Comments: Longevidade

Para enganar a morte, tenha uma vida péssima; que cada respiro seja a agonia de existir. Deteste pessoas, cantos, praças, praias, beijos e água de côco. Que cada dor que tenhas, antes de ser apenas um pequeno lembrete de que és um ser vivo, sirva para despertar um desespero alado. Fuja do sol mesmo tendo saudades. Viva de saudades. A saudade é o melhor canto para se viver. Deseje a noite e precise do escuro. Clame por sombras e nunca descarte uma mágoa. A coleção de mágoas é o combustível da longa vida que não precisa-se. Procure defeitos próprios com uma obstinação que não lhe é peculiar, e jamais será, e ache-os, e viva-os, e que sejam proclamadas as tuas imperfeições de caráter impiedosamente, em público. E que o riso seja uma fruta podre no fundo de um cesto cheio. E que tua poesia seja lançada ao vento.

postado por: RODOLFO TORRES 5:49 PM


Comments: Calma, Filho!

Loucos tempos esses nossos, tempos de ações rápidas, pouca pausa e muito ato, tempos de atitudes desenfreadas. Já não nos basta a correria do corpo, sofremos com os saltos da nossa mente.
A loucura do dia-a-dia atingiu o centro de toda nossa estabilidade, o nosso lar. Vivemos num tempo em que os filhos matam os pais. Seja por dinheiro, por raiva ou indignação, por ação de drogas lícitas ou ilícitas, por amores (errados) e incompreendidos. O perigo pode estar ao seu lado, e nem sempre será fácil detectá-lo, ou será que todos os pais que morreram nos últimos tempos não o tentaram?
Se antes os filhos (bem como as mulheres) sofriam atrocidades de uma sociedade machista e autoritária, onde as surras e os tapas precediam qualquer forma de diálogo e ensinamento, agora é a vez deles. O que vemos hoje nada mais é do que o espelho cruel deste mesmo cenário, só que com os papéis invertidos. São os filhos que estão batendo forte, sem antes perguntar.
Passamos de um ao outro lado do espectro, sem sequer pararmos num ponto intermediário, onde exista alguma espécie de ação civilizada antes da brutalidade.
Aos que como eu pensam em ter filhos, cabe uma reflexão nestes tempos de guerra. Como será a forma ideal de educação para os nossos filhos? ... sei que para esse tipo de pergunta não existe resposta, nem tenho a pretensão de descobrí-la. Só espero sair vivo dessa!
Do aditor
GustavoGT
SP 04/04/04

postado por: RODOLFO TORRES 5:49 PM


Comments: Réu do remorso

Outro dia um amigo me disse como os treinadores de elefantes faziam para prender um bicho daquele tamanho sem utilizar recursos elaborados. Basta apenas um pequena corda amarrada à alguma pata, geralmente, creio, à dianteira.
Quando o pequeno elefante consegue ficar de pé, logo é amarrado. Cresce, come, dorme, respira, deita, acorda amarrado. Quando já é aquele monstro pesando toneladas, ainda é amarrado da mesma forma à qual era quando contava com poucos dias de vida. Já está acostumado com a corda e "sabe" que não adiantará fazer força para sair, pois já tentou quando muito jovem, sem sucesso. Acostumado está.
Num trabalho para a faculdade, defendi a rotina. É a rotina que nos orienta, nos dá sentido. O que fariam os cineastas, poetas, escritores, etc, sem essa sucessão idêntica de fatos diariamente. Falo dessas atividades pois já é subentendido que outras atividades "técnicas" são a exaltação da rotina.
E não prego aqui a saída das amarras. Se nós saíssemos da cordinha que nós é colocada em nossas patas quando pequenos, ficaríamos desorientados, suplicando por uma volta rápida e urgente àquela confortável e conhecida cordinha.
O que nos dá o "recheio", tão necessário para algum sentido, é a corda. Mesmo que nos transforme em depósitos de culpa, angústia, dor... Mesmo assim!
Vou negociar uma corda maior comigo. Uma que chegue ao pescoço...

postado por: RODOLFO TORRES 5:49 PM


Comments: O que nos impele

Meu carcomido corpo teima em resistir a pressão do tempo. Tudo que faço nesse processo frágil e previsível que se chama vida é envelhecer. Envelheço desde que nasci. Só vou parar de envelhecer quando morrer. Então, não envelhecerei mais, apodrecerei. Serei devorado lentamente pelos vermes que só vivem por causa da minha morte. As reações endógenas que cessarão de acontecer definem o que é a vida. A vida nada mais é do que reações químicas que sucedem, reverberam e geram outras reações. É o complexo e microscópico mundo bioquímico que rege tudo, antecipa tudo, prediz tudo. Há uma centelha divinal que impele isso? Há uma intenção Maior por traz? Quem poderá, um dia, dizer. Eu, com certeza, não. "Deus me livre" saber dessas coisas, se Deus existe... Eu não quero ter certeza absoluta de nada. Se alguém tiver um dia certeza de alguma coisa, se sim ou se não, terá atingido o cume da sabedoria, o máximo, o topo. E daí, vai para onde? Não haverá mais para onde ir; chega de metas a alcançar; acabou-se os planos futuros. Não haverá futuro. O que sempre impulsionou a humanidade foi a dúvida. Sem ela, que seria de nós humanos ridículos e mortais? Seríamos resumidos aos vermes que nos comem quando morremos. Nós sempre tentamos ser algo mais que reações químicas. Por isso vamos sempre buscar a verdade por trás da dúvida. E a dúvida reinará eternamente até o fim dos dias, como a energia potencial de uma mola encolhida, como a força capaz de vencer o atrito que segura a pedra na ladeira, como a alavanca que levanta o mundo, como a mão que empurra o balanço. Força suprema e necessária para o desenvolvimento do maior poder que Deus (Deus?) pôs na Terra, o Pensamento Humano.

O agudo
Bruno Magalhães
30/3/4

postado por: RODOLFO TORRES 5:49 PM


Comments: Argentina X Chile

Como não é privilégio de nós "macaquitos", todo povo tem por hobbie ou diversão falar mal de outros. Nós, brasileiros, temos por diversão falar mal dos portugueses e argentinos(e agora de americanos, graças a um imbecil que acha que se acha o novo Hittler). Se falamos mal, geralmente em piadas, não o é por maldade ou raiva, é só porque falar mal de alguém geralmente faz bem. Na verdade quando fica só no falar mal, já é uma grande vantagem, melhor do que sangue derramado e choros por entes mortos.
A prova da nossa benevolência e pacificidade se dá no meu local de trabalho, onde convivemos com dois argentinos (sem contar com dois chefes, que também o são). É uma convivência pacífica e cordial, tanto que fomos convidá-los a um embate futebolístico. Tudo transcorreu na maior tranquilidade (e olhe que um deles era um fominha). Durante a cervejinha pós-jogo, componente indispensável de qualquer pelada, sem a qual todo o esforço e sudorese seriam inoportunos, conversava tranquilamente com um deles. Ao comentar o assunto rivalidade, o mesmo disse não ter problemas em relação ao Brasil (também, estava em menor número, é argentino mas não é doido).
O tema foi o gatilho. Em fração de segundos, disse ter raiva de chilenos, e aí se transformou. Começou a falar rápido e apreensivamente, despejando argumentos, alguns deles fortes, no sentido de justificar tamanha indignação com tal país. Não os explicitarei neste breve texto, pois não é meu objetivo convencê-los do ocorrido. Pelo que me passou, o sentimento dele é o de todo argentino, em relação aos chilenos, que são todos iguais, nenhum presta.
O seu olhar era de ódio, e falo isso pois já tive a experiência de ver um árabe assistindo pela tevê a um atentado contra judeus por seus semelhantes, a vibrar e aplaudir o ocorrido (o olhar era o mesmo).
Engraçado, não sabia de tamanho sentimento deles para com os chilenos. Não sei quem tem a razão, ou se há alguém com razão nesta história, só sei de uma coisa: em relação aos vinhos, os chilenos são melhores.
Do aditor
GustavoGT
SP 30/03/04

postado por: RODOLFO TORRES 5:49 PM


Comments: CANGULEIROS x XARIAS

Para minha grata surpresa, descobri hoje, minutos antes
do clássico-rei do estado, que a rivalidade de ABC e
América é mais antiga até mesmo que a própria criação
dos dois clubes. Antes de serem criados os dois maiores
clubes do RN e antes mesmo de haver futebol em Natal,
havia uma rivalidade entre as tribos que habitavam os
bairros Ribeira-Rocas e Cidade Alta. Os primeiros se
pintavam com a cor negra do jenipapo e os rivais com
encarnado do urucum. A rivalidade ultrapassava as
fronteiras esportivas que por ventura houvessem na
época. Os Canguleiros diziam que os Xarias não descem;
os Xarias respondiam que os Canguleiros não sobem.
Inconscientemente ou não, o ABC futebol Clube foi
fundado no Bairro da Ribeira e se veste de Preto até
hoje, e o América teve sua primeira sede na Cidade Alta
e usa o vermelho como cor principal. Mantendo a
tradição, a rivalidade continua até hoje. E daqui a
algumas poucas horas, Canguleiros recebem os Xarias em
um campo neutro, o Estádio do Machadão, na Lagoa Nova,
para o primeiro embate de uma série de dois que
definirá quem vai para a semifinal e quem vai esperar
até o ano que vem. Eu, desde de pequenininho que sou
canguleiro, essa vai ser fácil; é óbvio que seremos
campeões. Se não, talvez no fim do campeonato, dê uma
outra tribo na cabeça: os guerreiros Janduis de Assu; o
melhor time do campeonato.

O agudo
Bruno Magalhães
24/3/4

postado por: RODOLFO TORRES 5:48 PM


Comments: Nota Dez

Se me perguntarem algum dia: "Qual a coisa que você nunca fez na vida e tem vontade de fazer ?", Diria: "Queria ser narrador (ou locutor, sei lá como se chama aquilo!) do resultado da apuração das escolas de samba do carnaval carioca."
Com certeza seria um momento único. Acho desfile de escola de samba muito sem graça, mas a apuração é o inverso, cercada de tensão e emoção. É interessante o desespero dos componentes das escolas ao primeiro 9,9. Onde o Dez é o único resultado aceitável, um mísero nove vírgula nove causa indignação e revolta. Esse é um aspecto interessante, dentre outros, a perfeição é perseguida, e decidida por um júri altamente subjetivo e questionável, onde alguns são medíocres e outros radicais em demasia.
Fugindo do escopo desta discussão, voltemos ao ponto chave, ou seja, adoraria ser responsável por informar estas notas ao público em geral. Notem os confrades que o atual "narrador", que já está no cargo desde que me entendo por gente, é descaradamente torcedor da Mangueira, por sinal uma acertada escolha, uma justa homenagem a melhor escola de samba do carnaval, que tem a honra de morar no coração do poeta Chico Buarque de Holanda.
É uma torcida insana e despudorada, desde o destaque na intonação de voz ao pronunciar: "Estação Primeira de Mangueira", até o momento de dizer a nota. Ele sarcasticamente faz uma pausa maior ao divulgar a nota da mangueira, e depois entoa o Deeeez. O Dez da mangueira tem pelo menos dez segundos a mais de duração que os outros dez das outras escolas.
Talvez a explicação da paixão do brasileiro pelo desfile e pela apuração seja a sua total subjetividade. Aqui, como no futebol, na política e na vida, nem sempre o melhor vence.
Do aditor
GustavoGT
SP 20/03/04

postado por: RODOLFO TORRES 5:48 PM


Comments: Apenas ia

Apenas ia, meio na ponta dos pés, meio apressado, apenas ia. Com a cabeça baixa, meio concentrado, não estava triste, muito menos alegrado, apenas ia. Entre muitas outras cabeças, a sua parecia não aparecer, não estava displicente, muito menos empolgado, apenas ia. Não havia muitos problemas, tampouco tranquilidade, nada que a sua cabeça já não suportasse, pouco tempo e muito fato, apenas ia. De passos ora firmes, ora despreparados, caminhava meio ao vento, meio ao asfalto, apenas ia.
Outras cabeças também iam, todas no mesmo passo, sem terem nada a ver, todas no mesmo barco. Fora do barco, e sentindo o passo, apenas ia. Caminhar sem ter o porquê, caminhar dentro do passo. Caminhando sempre ao destino, caminhando fora do compasso. Caminhando sem destino ou compasso, apenas ia. Se os passos nos levam ao ponto, também nos tiram de fato. Muitos passos, poucas certezas, ora certezas ... aí faltam os passos. A mesma decisão do passo, as vezes nos tira o chão ... de fato. Sem certezas ou chão, só ele e os fatos, apenas ia.
Do aditor
GustavoGT
SP 16/03/04

postado por: RODOLFO TORRES 5:48 PM


Comments: Interrogação às avessas


No dia quatorze de março do ano de dois mil e quatro, aniversário de Gláuber Rocha, Albert Einstein, e de tantos outros menos famosos e, por esse motivo, mais fundamentais, lembro do engenheiro Alex, espanhol de Barcelona, que conheci no albergue da juventude em Parati-RJ, durante um encontro de escritores anglo-brasileiros no início de agosto do ano passado.
Ele estava de férias, viajando pelo Brasil hospedado em albergues (que para mim é a melhor forma de hospedagem), com um pequeno bloco de anotações, caneta, nenhum creme de barbear e uma solidão européia tão profunda que se confundia com sua alma.
Terminei meu relato sobre o engenheiro fã de Adriana Calcanhoto. É que a Espanha está tão falada nesses dias que eu tinha que demonstrar minha ligação com o país. Há pouco assisti a um filme do maior cineasta daquelas bandas - Luis Bunñel (não sei se o "tio" fica no primeiro "n"), amigo de Dali, Garcia Lorca, entre outros. No ano do Crash da Bolsa de Nova Iorque, ele trabalhou num filme junto ao mestre do surrealismo na pintura.
Nação abençoada nas artes. Mestres da pintura, como Picasso e Dali; mestres no cinema, Bunñel e Almodóvar; mestres nas letras, Cervantes e Garcia Lorca (entre milhares)... Certamente estou em falta com vários mestres espanhóis. Outro dia, fui a uma exposição de Gaudi (nem sei se a grafia está correta), no Masp. Arquiteto e pintor catalão.
No dia da poesia, 14/03, traço umas letras para os mais sanguinários colonizadores das Américas. Meu poema chama-se: Eita, Eita, Eita...


Lampião de um México massacrado

Terás a tarefa de guiar

Um povo tão adorável

Quanto à face de Aznar


Virgulino serias aqui

Onde não há Astecas para matar

Só Severinos, fracos, famintos

Que a vida se encarrega de acabar



Livre o norte e basta

Agora a vareta é tua

Esqueça a morte passada

Aproveita e fica na rua



Zapata estaria contente

Do seu nome governando a colônia

De um texano tão demente

Quanto a invasão da Polônia

postado por: RODOLFO TORRES 5:48 PM


Comments: Um e Cinquenta

Por imposições do trabalho, tenho sido obrigado a perguntar, pelo menos duas vezes ao dia, o peso e a altura de alguns pacientes. A população que tenho contato não se assemelha aos padrões nórdicos ou escandinavos no que se refere a sua estatura. A grande maioria a quem dirijo os meus questionamentos são pessoas baixas. Isto me serviu para confirmar, agora munido de argumentação prática e com números que não me deixam mentir, uma teoria que fervilhava em minha mente há algum tempo. "Não existe ninguém com menos de um metro e cinquenta de altura".
De forma mais abrangente, não existe ninguém entre um metro e quarenta e um e cinquenta de altura. Para aquelas pessoas abaixo de um e quarenta, é no mínimo deselegante este tipo de pergunta, ou seja, a população por mim examinada e que faz parte desta "teoria revolucionária" não tem um número suficiente para chegarmos a alguma conclusão.
É impressionante como não existe ninguém que diga ter um metro e quarenta e seis ou sete centímetros. É até meio cabalístico. Tenho um e CINQUENTA, respondem eles, em tom mais alto e mais confiante, como que para lhe ameaçar ou intimidar. Nota-se este perfil de "superfaturamento" mais evidente em relação a altura do que ao peso. Parece vergonhoso ter abaixo de 1,50. Já aqueles que ultrapassam a barreira mágica, e que estão acima do desprezo e da vergonha de serem "baixos", não afanam os centímetros. É relativamente comum se ter um e cinquenta e dois ou três (um e quarenta e oito ... jamais). Porém, para desespero destes, a fita métrica não mente jamais.
Isto é um fato notável e publicável. Aquele que ousar pertencer a esta faixa, será o melhor dentro de sua categoria em praticamente tudo, por pura falta de concorrentes . Já pensou: "Sou o melhor pugilista na minha categoria"; "Dentre os meus semelhantes, ninguém me supera na corrida"; etc
Confrade Rodolfo e Epifânio, meu primo, aproveitem a dica. Vocês podem inclusive fundar uma associação, tipo uma ONG, de apoio a estas pessoas, para resgatá-las ao seu devido lugar.
Do aditor
GustavoGT
SP 14/03/04

postado por: RODOLFO TORRES 5:48 PM


Comments: A K e o G

A K e o G se encontraram na lanchonete:
- Oi, K (beijo, apenas 1).
- Tudo Bom (bem fresca, pelo nariz).
- Vamos tomar um Chopes?
- Só se for com uns pastel.
- Então K, a gente se conhece há uns 10 ano, ***
(palavrão), fez faculdade juntos, fomos pras balada
federal...
-- **** (palavrão mais cabeludo), É verdade né, meu.
Lembra aquelas pinga de fechar o bar?
- Pô, mina, então... ***** (palavrão que eu nunca ouvi)
faz tempo... Já passamos poucas e boas. Até já demo
umas ficada por aí, não foi?
- Puta... (Interjeição que serve para qualquer momento
da frase. Ou sem frase. Não é considerado palavrão)
- Então...
- É ... então.
- Então K, eu tô com uma puta dúvida (serve também para
designar coisas grandes), olha só, eu queria perguntar
uma coisa... então eu falei: Meu! Será que a K vai
estar ficando chateada?
- Meu, ***** (mais um), não vou estar ficando, não.
Pode perguntar.
- K, é que eu chamei tanto você de K que eu esqueci seu
nome!
- Meu, eu também esqueci o seu, G!

Esse curto diálogo ridículo serve para demonstrar o
absurdo que se chega aqui em São Paulo em relação às
amizades. Os palavrões e os erros de português foram só
para aumentar o realismo. É desse jeito; sem exagero. O
fulano te conhece hoje, amanhã já esta dando um
beijinho e chamando por um diminutivo infantil do seu
nome. Chega a ser irritante. Proliferam K, G, Lê, Pati,
Gu, tati, Mi, pri, sil, ci, san... tenha dó. Nem os
homens escapam. Com o tempo ninguém sabe o seu nome.
Sobrenome nem pensar. Só se for alguém importante e com
sobrenome estrangeiro. Aí é o contrário, o sujeito fica
conhecido pelo sobrenome difícil. Até mesmo quando o
sujeito tem um nome bem feio ou comum, eles deixam o
cara em paz. Epaminondas é pá, Maria é má, demócrito é
D, Joercílio é Jô, e por aí vai. São os mesmos
monossílabos pueris que tentam demonstrar intimidade
quando na verdade ela raramente existe. Banaliza-se e
superficializa-se a intimidade de modo que todo mundo é
íntimo. Mesmo sem ser. Então se todo mundo é íntimo,
ninguém, em verdade, o é. Aí eu me lembro do meu avô,
Zé Rufino, que me chamava de Brune e meu pai de
Ruberto. Ô veio macho, nunca foi íntimo de ninguém nem
chamou ninguém de K ou G.
O agudo
Bruno Magalhães
03/03/04

postado por: RODOLFO TORRES 5:47 PM


Comments: Precedente

Em consideração aos nossos queridos leitores de todo o Brasil, e até de outros países como Israel, abro um precedente para publicar um texto que não é de minha autoria, mas trata do assunto que é uma paixão aos membros dessa confraria. E como diria minha querida namorada, trata-se de um precedente "metalingüístico". Mas o que farei primeiro: Explicarei o que é uma metalinguagem ou colocarei o texto propriamente escrito? Segue a crônica que tanto gostei e que gostaria de compartilhar com todos vocês. A explicação da metalinguagem deixa para depois...

DE CRÔNICAS E CRONISTAS
10/03/04

por Diorindo Lopes Júnior

Garantem os estudiosos das Letras que o cronista Rubem Braga, quando não tinha assunto a comentar, tornava-se muito melhor. Acredito.
Considerada por alguns como um gênero menor da Literatura e por outros como algo em permanente "crise de identidade", entre a mesma Literatura e o Jornalismo. O poeta Carlos Drummond e o próprio Rubem Braga já trataram deste tema em seus escritos, o que não me lembro é se um deles observou que o cronista é um colibri das palavras: livre, lépido, fagueiro e sem qualquer compromisso, exceto com a simpatia do leitor - este, sim, a se prestar contas.

Penso que o cronista, antes de tudo, é um cidadão em permanente busca de um canal a se expressar. Muito mais que (mais) um contador de histórias e causos, faz de seu ofício um "instigador" a instantes de ensimesmamento, alguma nostalgia, reflexão e questionamento do leitor anônimo. O mesmo leitor que, atarefado com o corre-corre da faina diária, pouco tempo dispõe para cuidar do espírito ou mesmo das atribulações reais que lhes são impostas goela abaixo pelos poderes de plantão.

A Crônica, basicamente, é uma "conversa olho-no-olho" do cronista com o leitor. É uma forma de Literatura generalizada e, ao mesmo tempo, também é Jornalismo, atividade que busca informar e interagir na relação sociedade-poderes. Feliz do jornalista que pode também ser cronista. Antes de profissional, é também cidadão.

Não se pense, portanto, que o cronista quando trata de assuntos mais pertinentes a outras editorias, está "sem assunto". Não, ele apenas está exercendo sua liberdade opinativa e tentando aproximar-se mais do cotidiano do leitor, tão cidadão quanto.
Trate do tema que tratar, pessoalmente, prefiro o cronista que "fala" comigo como se estivéssemos em uma mesa de botequim, "olhando" em meus olhos e me levando a beber de suas palavras. Quanto menos rebuscadas, melhor.
O Brasil é bastante pródigo neste "gênero jornalístico-literário". Aos falecidos e citados Braga e Drummond, acrescento Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende, mais Vinícius de Morais, Flávio Rangel, Antônio Maria, Rachel de Queiroz, Carlinhos Oliveira, João do Rio, Clarice Lispector, Marcos Rey, Nélson Rodrigues, só para lembrar alguns, entre muitos. E é melhor parar por aqui, pois entre os vivos não destacarei ninguém para não cometer a mesma indelicadeza de Pelé, quando da elaboração da lista da Fifa.
Observei apenas alguns dos poucos nomes que li/leio, mas nesse Brasilzão imenso, há de haver muita gente "cronicando", e bem. A se lamentar, apenas, a presença de poucas mulheres no ofício. Mas, compreende-se: mulheres preferem esconder o jogo.

Diorindo Lopes Júnior (diorindo@uol.com.br) é jornalista e autor de O Sol em Capricórnio (www.editorasaraiva.com.br).

postado por: RODOLFO TORRES 5:47 PM


Comments: Intolerância gratuita

Para minha mais autêntica surpresa, descobri hoje ao
ler um jornal de Natal que o Machadão (estádio local)
tornou-se praça de guerra entre a s torcidas dos dois
principais times da cidade, ABC e América, durante o
último clássico, domingo. Fiquei indignado. Há anos
acompanho os times locais, com idas religiosas ao
estádio, trajado de torcedor com camisa e gorro, e
nunca soube de um tumulto tão grande e generalizado,
com tantos envolvidos e feridos. Até eu sair de Natal,
havia um clima de cordialidade entre as torcidas. Eram
apenas adversários, não inimigos. Os torcedores dos
clubes rivais muitas vezes chegavam juntos no estádio,
dividiam o mesmo estacionamento, as mesmas bilheterias,
se cruzavam nas entradas dos portões, só eram separados
quando chegavam na arquibancada e apenas por um espaço
vazio com duas cordas precárias. Nunca tinha havido
tanta confusão, apenas casos isolados de brigas de
pouquíssimos torcedores mais exaltados. Os fatos
relatados pelo jornal nos mostram torcedores marginais
que usam de covardia e requintes de crueldade. Houve
torcedor que foi espancado sozinho ao descer do ônibus
e precisou ir para o Pronto-socorro e perdeu o jogo.
Houve outro marginal, identificado como Boy Lalau, que
obrigou uma torcedora adversária a tirar a blusa do
time que estava vestindo e depois ainda aplicou-lhe
umas palmadas no Bumbum. Absurdo. Parece que Natal quer
virar cidade grande, já tem até briga de torcida!

O agudo
Bruno Magalhães
09/03/04

postado por: RODOLFO TORRES 5:47 PM


Comments: CORRENDO DO RISCO

Queria ter uma moto. Queria poder não usar capacete.
Queria sentir o vento no rosto, a sensação de
liberdade, o quase-vôo em terra firme. Queria fazer
força para baixo com pé uma, duas, três vezes até que o
motor pegasse. Queria descansar como o macaco que
segura a moto inativa. Queria seguir numa estrada sem
fim, daquelas onde o sol sempre prega uma peça,
desenhando uma miragem bruxuleante na frente, acima do
asfalto quente. Queria subir uma duna ou um morro
qualquer, vendo o mar ao fundo ou à frente, terminando
sempre em banho refrescante. Com moto e tudo. Queria
sentir todo o peso da inércia quando fizesse uma curva
fechada com o joelho raspando no chão. Queria sentir o
sabor da adrenalina sendo despejada aos litros em
minhas veias até o meu coração ficar mais rápido que
eu. Queria sentir as mãos da minha amada agarrando a
minha cintura e apertando com força para não cair toda
vez que eu acelerasse. Queria ouvir as suas
interjeições de emoção a cada balanço. Sentir o seu
sopro ao meu ouvido me pedindo para ir mais rápido,
para não parar agora, para não parar nunca. Aí eu me
lembro da última notícia informando que colidiu um
ônibus com um caminhão, com mais de 30 feridos e dois
mortos, o motoqueiro e o passageiro que vinham em uma
moto arrojada a mais de cem que entrou embaixo do
caminhão. Ou daquela foto que recebi pela internet que
mostra um motoqueiro com o corpo partido ao meio e o
capacete rolando pelo asfalto após um acidente com uma
caminhonete. Ou o paciente que vejo adentrando o pronto-
socorro trazido pelo resgate respirando com dificuldade
e que a tomografia mostrou que vai ficar paraplégico.
Acho que eu não quero mais ter uma moto.
O agudo
Bruno Magalhães
2/3/4

postado por: RODOLFO TORRES 5:47 PM


Comments: O Nada

Desde os primórdios da confraria, o ato de sentar em frente ao computador de meu apertamento é o gatilho necessário para disparar os meus dedos e escrever, ou melhor, teclar e formar os textos que teimamos em compartilhar. É um ato quase que medular, pois não me fixo previamente em um tema, apesar de pensar em alguns durante o dia. Acho inclusive que não saberia escrever para a confraria em máquinas de escrever ou se me fosse reservado o dever de escrever a mão. Confesso já ser refém dos teclados e do "mouse". Basta-me, portanto, chegar de mansinho, ligar o computador, sentar, e aí já vai. Ou melhor, bastava.
Hoje o nada me invadiu. Cheguei, aproximei, liguei, sentei, respirei fundo, e nada. Nada, simplesmente nada, nenhuma idéia, nenhuma história ou estória, nenhuma filosofia de botequim, nada. Inexplicavelmente, nada. Aos mais geriátricos, que viram "história sem fim" em algum domingo a noite, fui invadido violentamente pelo "nada".
Essa impotência literária me assustou, e não me venham com essa estória de que isso acontece com todo mundo. Já estava acostumado a sentar e pronto, agora terei que pensar, e pensar novamente para fixar, talvez até escrever palavras chaves em rascunhos, antes de chegar, sentar ...
É "duro" mas é a realidade, os anos vão passando, passando e de repente chega o tempo em que os reflexos falham, e o nada dá o sinal da graça. Deus nos livre do "nada".
Do aditor
GustavoGT
SP 04/03/04

postado por: RODOLFO TORRES 5:46 PM


Comments: Onisciência


Todo e qualquer presidente brasileiro deveria criar um ministério, ou secretaria especial ligada à presidência, ou órgão especial administrativo, nova pasta, o que for, para captar a real sabedoria que é expelida pelo povo. E o local onde todos os problemas da nação são passados a limpo de forma indiscutível é a mesa dos bares. Tragam a certeza que nesses ambientes espalhados pelo país, exércitos de ministros brilhantes, estadistas épicos e pensadores atemporais podem ser escalados a qualquer momento.
Iniciei o primeiro parágrafo pretendendo falar mal dos oniscientes dos bares brasileiros, mas resolvi mudar de idéia. Vou defendê-los. Direi que são necessários, não para o país, nem para suas comunidades; mas para eles próprios. Afinal, alguns pagam terapia para extravasar suas angústias, outros praticam esportes, outros partem para a violência, outros vão aos bares, bocas de fumo, seringas, narizes sangrentos, etc. Os oniscientes das mesas de bar fazem seu discurso à platéia pouca e se satisfazem.
Não trago nenhuma estatística comigo para proferir minha conclusão, mas quanto pior está o país, mais se bebe, mais bares são abertos e mais oradores surgem por trás de garrafas vazias e restos de comida num prato geralmente gorduroso.
Portanto, que bebam. Bebam e resolvam os problemas do país em algumas doses. Que bom que vocês existem ( bom para os que realmente decidem). Além de não importunarem o governo, ainda alimentam a indústria de bebidas. E não seria exagero dizer que o Brasil precisa de vocês, que milhares de pessoas vivem de vocês. Não de suas posições políticas, mas do consumo do produto propulsor da oratória. Bebe Brasil! E que nunca acabe o porre que o faz país.

postado por: RODOLFO TORRES 5:46 PM


Comments: Sem Cartão

Estou no que podemos chamar de um ritmo louco e voraz de trabalho, talvez porque seja o último ano nestas terras outras, quero sorver tudo o que profissionalmente posso obter daqui. Inclusive sem o tempo que gostaria para escrever. Apesar do cansaço extra, não me incomoda muito o meu corre-corre. Para que os confrades vejam, estou sem horário de almoço três vezes por semana, e em outros dias de jejum não oficiais como hoje, por exemplo, às vezes também fico sem o honroso tempo para me deleitar sobre um prato de comida, com muito arroz de preferência (como hoje, por exemplo).
Mas isso não me incomoda, pois só percebi o que acabo de lhes contar há poucos dias, pois estou há exatos um mês e dois dias sem o cartão da minha conta bancária, e isso realmente me incomoda. Não que tenha horrores de dinheiro para sacar, até porque faltaria tempo para gastar, mas é um absurdo não saber quanto dinheiro tenho na conta, ou melhor quanto já estou devendo.
Já se somaram infindáveis tentativas de resolver o problema por telefone, e só ouço que o cartão já foi enviado, que vai chegar, que tá quase lá, que espere mais um pouquinho, que a vida é assim mesmo, que tenha calma, que sei mais lá o que. Em uma das últimas tentativas, resolvi radicalizar, e parti para xingamentos de baixo calão logo no início da conversa, e com o primeiro que atendeu, apesar de nunca a pessoa que teoricamente resolve atender telefones ... azar de quem atendeu, pois ouviu muito. Já consegui inclusive o ramal de uma funcionária que parece ter alguma moral naquela bagunça, pois foi a quinta a falar comigo em uma das minhas tentativas de receber o cartão, também, se não tem influência, azar, pois vai ser ela que vai me atender nas duas vezes por dia que tenho ligado para a agência (apesar de tudo, ainda consigo tempo para isso).
Na última tentativa foi me dada a possibilidade, o que me causou enorme indignação, de ir receber o cartão na agência. Não vou ... e não vou, e pronto. Tenho o direito de recebê-lo em casa, e já disse que se tivesse tempo de ir na agência em horário comercial, já teria ido para esganar metade dela com minhas próprias mãos. Não acho tempo sequer para almoçar, imagine gastar 60 a 75 minutos para ir até eles só porque os animais não conseguem me mandar o cartão.
Me disseram que já mandaram 03 cartões e nenhum chegou. Aí, já em estágio de psicose avançado, cheguei a imaginar um complô dos porteiros contra a minha pessoa, em um ato de pura covardia, confiscando todos os meus cartões e os colocando em alguma alcova, se reunindo à meia-noite, fumando cigarros baratos na penumbra da alcova e rindo da minha cara de imbecil ligando para a portaria todo dia, para saber se chegou algo do banco.
Aproveito a oportunidade para informar aos que se compadeceram de meu drama, que me mandem ajuda financeira em espécie, de preferência em notas de cinquenta, para não fazer muito volume.
Do aditor
GustavoGT
SP 02/03/04

postado por: RODOLFO TORRES 5:46 PM


Comments: PROCURA EM DIMINUTA

Há muito tempo que batuca na minha cabeça uma música
que ainda não consegui expressar. São acordes
inatingíveis. É como o fim do arco-íris, nunca consigo
pegar o pote de ouro. A melodia fica em meu juízo todo
o tempo. Já tem refrão, arranjo, tudo. A letra vai e
vem. Tem balanço, tem suíngue, tem escala diferente,
tem uma batida nova, tem um jeito próprio, tem vida.
Parece até ter vontades e desejos. É como se ela já
existisse. Como se já fosse famosa, se já estivesse
fazendo sucesso. Conheço essa música melhor que outras
que já compus e muito melhor que outras que já ouvi e
que escuto sempre. Às vezes, pego o violão, tento
alguns acordes, procuro inspiração, procuro me lembrar
da preciosa... mas aí ela desaparece, evapora,
esvanece. Parece que ela não quer ser composta, que
não quer ser tocada, cantada ou muito menos divulgada.
Já tentei de tudo. Já tentei ouvir o coração, a mente,

outros compositores, influências externas, mas nada.
Talvez ela não queira que eu seja o seu interlocutor
para o mundo. Mas se assim for, eu peço que apareça
para mais alguém. Permita-se ser gravada para que eu
possa pelo menos ouvir na voz de outro. Não sou
ciumento, nem vaidoso. Só quero deleitar-me sobre ela e
ficar inerte em seus braços. Ser levado para outro
lugar, outro plano, outra esfera, lá pelo intangível.
Na fronteira entre o sono e o vigil, no que chamam de

alfa, no instante imediato antes do despertar, entre lá
e cá, na metade do caminho para o céu. Talvez quando eu
chegar lá, eu perceba algumas imperfeições e note outra
música atravessando a primeira, deixando-a fora do
compasso, destruindo-a. Então daí eu comece a

tamborilar meus dedos em outro ritmo e a tremer
involuntariamente outras palavras em meus lábios. E daí
eu recomece a busca pela música perfeita.

O AGUDO
Bruno Magalhães
01/03/04

postado por: RODOLFO TORRES 5:46 PM


Comments: Fila Também é Cultura

Em pleno carnaval, bem como em outros feriados prolongados, muitos consideram um bom programa aproveitar a cidade de São Paulo vazia, sem aquela agitação e ritmo frenético típico de seus dias "normais". Apesar de não concordar com tal conduta, respeito aqueles que a tomam.
Ao chegar e reencontrá-la, na quarta-feira de cinzas, liguei a televisão para ver as novidades que graças a Deus não tomei conhecimento no período carnavalesco. Me surpreendeu a entrevista com uma senhora que se encontrava na fila para ver a exposição de Picasso. Nos dias de carnaval, a visitação a tal evento era gratuita, como que um prêmio de consolação aos que aqui teimaram em ficar. O tempo de espera médio em um dos dias chegou a cinco horas, isso mesmo, cinco horas, e a reportagem a que assistia tratava exatamente deste tempo um pouco prolongado.
Uma pobre senhora se deliciava ao comentar como o repórter a felicidade daquele momento, pois já estava ali a cerca de três horas. Quando foi perguntada sobre o que achava do tempo de espera e da fila, a mesma disse que não se importava com tal demora, pois naquela fila interminável, com várias pessoas, era uma boa oportunidade para conversar, conhecer pessoas e fazer amigos. Foi aí que virou para o repórter e disse: "Fila também é cultura". Me desculpe a digníssima senhora, mas que cultura é essa?. Se não a deixa indignada o fato de esperar por horas pelo honroso momento, pelo menos nos poupe de tal heresia.
É incrível como perdemos tempo, em filas, no trânsito, no banco, no caixa do supermercado, em estacionamentos, em bilheterias. Isso me deixa indignado. A cultura que se pode adquirir nestes cantos é a da perda de tempo, da vida se esvaindo, do jogar fora pedaços de um néctar precioso e desperdiçado, o tempo. Tenho sede de tempo e de vida, pois já aprendi o quanto ela é curta, e não podemos nos dar ao luxo de gastá-la em filas.
Do aditor
GustavoGT
SP 29/02/04

postado por: RODOLFO TORRES 5:45 PM


Comments: Célebre elmo

Muita e tanta gente não sabe, ou não lembra, ou pior: não que lembrar; mas nesse mês que nasce agora o Brasil comemorará quarenta anos do golpe militar que derrubou presidentes, governadores, prefeitos, parlamentares, que caçou, torturou, matou, cuspiu e brindou sob fardas brilhosas. A ditadura brasileira está quarentona. Uma das maiores ditaduras militares do século XX.
Para comemorar tal acontecimento, eu - um cineasta embrionário, farei um documentário sobre o prefeito de Natal à época do golpe, Djalma Maranhão. Que foi preso por suas idéias de caráter socialista. Ficou encarcerado em Natal, em Fernando de Noronha e no Recife, antes de ser exilado no Uruguai onde morreu em 1971. Seus restos mortais estão no cemitério do Alecrim, tradicional bairro da capital potiguar.
Implementou um método de alfabetização do extraordinário educador Paulo Freire, intitulado "De pé no chão também se aprende a ler". Igrejas, fábricas, teatros, sindicatos, eram aproveitados como salas de aula. Djalma conseguiu com esse projeto alfabetizar milhares de natalenses.
Algumas pessoas falam que devíamos esquecer o passado, que não há mais motivos para "remoer" essas coisas...
É quando penso nos judeus, que até hoje relembram seus mortos na segunda guerra e fazem questão de não esquecer; nos paraguaios que não esquecem nossa covardia a mando da Inglaterra; nas mães da Praça de Maio da Argentina; mo onze de setembro chileno na década de setenta que matou Allende, e no novaiorquino também; nos Bascos que sonham em se dividir da Espanha; naqueles irlandeses do norte; e em tantos conflitos e vergonhas atuais e passadas, tão passadas que os que agora combatem apenas o fazem pela tradição de guerrear...
Esqueçamos o jovem judeu que crucificado tornou-se motivo para a existência de milhões de pessoas.
Estranha forma de cultura essa nossa. O estrangeiro milenar é celebrado com fervor; o nativo torturado há pouco é desmerecido...

postado por: RODOLFO TORRES 5:44 PM


Comments: Tempo ido


Um sinal de respeito é quando alguém usa o "no meu tempo". Quando trabalhei em uma revista lá do sudeste, um dos jornalistas passou uma tarde inteira conversando com o revisor e o fotógrafo (todos da última idade) iniciando o diálogo com esse termo que detona experiência e sabedoria. "No meu tempo"... E lá se ia alguma relíquia que fazia brotar suspiros, sorrisos desconcertados e aquela saudade inútil dos tempos mortos.
Sempre quis dizer para alguém essa frase. Só que geralmente era o mais novo da turma, e nada do que falasse era novidade, surpresa ou atrativo aos outros tão mais velhos, e sábios, e cheios de si. Hoje já não carrego esse desejo estúpido de demonstrar sapiência. Envelheço como os muros dessas casas que expostos ao sol descascam e desbotam e apagam. Não trago glórias para tornar-me um mercador de acontecimentos floreados por mim mesmo.
Quando o momento chegar, e tiver que fazer a comparação do "meu tempo" com o outro tempo de "daqui a pouco", direi que sou do tempo do telefone fixo como investimento; do homem que vendia caranguejo numa haste do seu tamanho formando noventa graus com seu corpo de pé, apoiada em seu ombro, crucificado em seu ofício; da mulher com voz nasal que vendia feijão verde nas portas das casas; do homem do "espanador", que fazia questão de frisar a última sílaba do seu produto; do carro de peixe que não podia parar e andava à velocidade de cinco quilômetros por hora; do caminhão de gás que deixava os garotos subirem, dando uma carona até à esquina...

Sou do tempo de uma vida ainda boba, ainda boa, ainda vida.

postado por: RODOLFO TORRES 5:44 PM


Comments: Laxante, carnaval e outros temas...

Outro dia escrevi que o samba não me representava. Como também não me representa o frevo. Nem sequer aquelas marchinhas de carnaval, com seus metais e tambores no mesmo nível dos passistas. A festa que o país celebrará nessa noite não me representa. E acabo esse período buscando alguma forma de representação para que não fique ao sabor desses ventos tão fortes e curtos; dessa sazonal euforia chamada carnaval.
Liguei há poucos dias para meu irmão reclamando da minha falta de estímulo para escrever. Não sei o que há, mas estou com uma certa "prisão de ventre" nas mãos. Cada frase dói para ser escrita. Nada que a prática não resolva...
Mas o que me estimulou a escrever esse pequeno registro da minha desavença com o carnaval foi a última frase de uma crônica de Drummond sobre uma Gincana. Conta o poeta que estava em seu apartamento quando uma menina bate à sua porta perguntando se ele era imortal. Ele tenta explicar que algumas pessoas crêem que todos somos imortais, através de uma ligação com o criador, etc, etc, etc... A garota irritada com aquela conversa por demais abstrata pergunta se ele é ou não, que não tinha tempo para perder pois a gincana da qual participava estava ocorrendo e ela havia ficado de arranjar um imortal da Academia Brasileira de Letras para levar ao colégio.
Drummond explica que, para aquela situação, infelizmente não fazia parte de tal instituição. A garota, decepcionada, sai às pressas de sua frente dizendo que não podia deixar a outra equipe ganhar tal prova. O poeta entra em seu apartamento, fecha a porta devagar, senta à máquina e descreve o que se passou, concluindo seu texto da maneira mais maravilhosa. A conclusão de Drummond é a mais perfeita definição para esses dias de carnaval, de tantos eufóricos ávidos de qualquer coisa que os diga que aquilo faz sentido.
Quem passar a vista nessas palavras durante o carnaval provavelmente estará solitário. Dedico o texto aos solitários do carnaval, aos sós dessa data. Apenas lhes digo que a pior forma de solidão é a compartilhada aos milhares. É aquela que de tão grande, não cabe em seu portador, que vai enganar os olhos com pessoas que jamais estarão próximas. Só que a solidão é ciumenta. Cobra pela infidelidade, com um vazio em dobro...
"Excelente divertimento numa hora em que faltam alegrias e é preciso inventá-las". (Carlos Drummond de Andrade)

postado por: RODOLFO TORRES 5:43 PM


Comments: Motivo de perverso

Talvez ninguém tenha dito ainda, mas o que nos
caracteriza como uma espécie animal diferenciada é um
sentimento que hoje é tido como vergonhoso e não
aplicável em condições normais. Na pré-história, quando
a linhagem humana estava se desenvolvendo, houve um
grupo de hominídeos que adquiriu uma capacidade tão
grande de abstração de pensamento que fez coisas que
nenhuma espécie tinha feito antes: matou sem razão.
Utilizou-se da condição humana mais primitiva, a
perversidade. Não há registro histórico de alguma
espécie anterior tenha matado outro ser vivente sem o

motivo de auto-defesa ou alimentação. O homem, com seu
cérebro imenso para a época, mas metade do que é hoje,
permitiu-se matar sem sentir fome para saciar apenas o
seu ego primitivo. E como o homem primitivo matou.
Exterminou diversas espécies. Tornou-se poderoso e,
pior, tomou consciência do seu poder. Já naquele tempo,
nenhuma espécie rivalizava em inteligência com a
espécie humana; inclusive essa característica
revolucionária serviu também para derrotar ou subjugar
outras espécies de hominídeos da época para que se
torna-se único e sem inimigos à altura. Foi crucial na
definição de espécie dominante no planeta. O homem foi
perverso até pouco tempo, cerca de 2000 anos atrás,
quando a perversidade obteve o seu auge e não tinha
mais propósito porque não havia inimigos reais em
outras espécies. Só havia inimigos dentro da espécie
humana, motivada por raças, geografia, religião ou
cultura. Foi nesse momento que a espécie humana mostrou
as suas armas adaptativas. Quando parecia que ia se
auto-exterminar, devido brigas dentro da própria
espécie, uma figura que adquiriu uma importância que na
época ninguém julgou ter e uma dimensão que dura até
hoje e não tem previsão de acabar ofereceu outro
sentimento também estritamente humano. Como salto
evolutivo do pensamento, Jesus utilizou e,
principalmente, propagou um sentimento que já existia
naquele tempo mas isoladamente e em algumas populações.
A solidariedade modificou a história natural humana. A
perversidade passou a ser imprópria da condição humana.

Isso fortificou a espécie que deu a outra face. Os
povos deveriam se ajudar mutuamente e não dividir-se e
guerrear. Foi uma revolução cultural e evolucionária
típica de quem veio para mudar o mundo. Quando quiser
fazer o mal, lembre-se: você não precisa mais ser
perverso; seus ancestrais já fizeram o trabalho sujo
para você.

O agudo
Bruno Magalhães
19/02/04

postado por: RODOLFO TORRES 5:43 PM


Comments: Piadista Decadente

Ao ouví-lo se auto-entitular como ¿piadista decadente¿, termo que de antemão afirmo discordar, por não retratar a realidade, me lembrei que ultimamente me esqueço de piadas com uma rapidez assustadora, e o meu repertório anda escasso, fato a se registrar, visto que até pouco tempo tinha uma facilidade invejável para decorá-las.
Em tempos não muito distantes, até em companhia de outros confrades, gostava de emendar piadas, aproveitando-se dos personagens para fazê-los protagonistas da próxima piada. Nada mais legal do que pegar o papagaio que acaba de falar algo que não devia e colocá-lo, sem lhe dar descanso, em outra situação embaraçosa. Isto exige um treinamento e rapidez de raciocínio. Sou daqueles que gosta de florear a piada, até inventando novas situações, como que para rechear a estória (ou história). Este ponto já não é uma unanimidade. Há aqueles que preferem encurtar a piada, pois realmente as estórias curtas são menos susceptíveis aos desinteresses e aos ¿não entendi¿. Por sinal, nada mais humilhante para um piadista do que explicar piadas.
Nos dias atuais, porém, meu repertório se restringe a algumas poucas boas piadas. Não se preocupem que não irei contá-las agora. O mais interessante é que pareço estar em estado de hibernação, pois após algumas piadas ouvidas, reacende-se o repertório e até consigo emendar duas ou três boas piadas. Estou com a capacidade de armazenamento para piadas quase no estoque máximo, conclusão que cheguei após avaliar a situação. Acho que preciso fazer uma reformulação de espaço no meu Hard-Disk cerebral. Sinto que o espaço destinado a coisas mais ¿importantes¿ deverá sofrer uma redução de espaço.
Do aditor
GustavoGT
SP 16/02/04

postado por: RODOLFO TORRES 5:42 PM


Comments: Odores do descasso

Uma das grandes vantagens de se morar em terras paulistanas é, sem sombra de dúvidas, a alegria e o imenso prazer de viajarmos, de preferência para bem longe, quem sabe a uns 3.000Km de distância, quase caindo no mar, ao norte. Como nem sempre isto é possível, embarquei para a sempre bela Rio de Janeiro/RJ. Poucos lugares exercem sobre mim tal fascínio. É realmente uma cidade maravilhosa.
Como que para brindar tal presente, tive o prazer de me hospedar na casa de um Tio querido, que elegeu há décadas o Rio como seu lar, e hoje poucos tem tanta cara de Rio de Janeiro como ele. Em companhia tão agradável de Sandra e Eduardo, e tendo como fundo o aterro do flamengo (o quintal deles, como gostam de dizer), com o bondinho do pão de açúcar lá longe, à esquerda, fica fácil ser feliz.
Em meio à empolgação, decidi ir passear na praia, pisar em sua areia, só para sentir o gostinho do mar a entrar pelos meus poros. Ao chegar na beira da praia, aquele banho de realidade e tristeza, de ver o quão sujo e castigada está a bela Baía e o aterro, ao ver o quão avermelhada está a sua água, ao sentir tão pouco o cheiro do mar, que perdeu a sua força diante dos odores do descasso.
Sentamos a beira-mar, na areia, a poucos metros do mar. Ao ver o vai-e-vem daquelas ondas de óleo e coliformes fecais, pode-se concluir algumas coisas. É realmente uma pena não podermos tomar banho na bela praia do flamengo, pelo menos sem ter a certeza de sairmos vivos.
Se isso é verdade, é tão verdade também que nem os homens, apesar de tentarem de todas as formas e modos, por anos e anos, foram capazes de destruir o que Deus fez com todo o capricho. Se existe algo que parece ser imune a ignorância e ambições humanas é o Rio de Janeiro. Nem todas as balas perdidas e orientadas foram capazes de afugentar os que acreditam na beleza da natureza. Nem a poluição consegue tirar o charme do aterro do flamengo, bem como o prazer de caminhar pisando em sua areia.
Como nem tudo é eterno, e Deus também pode cansar de trabalhar sozinho, temo pelo futuro. Ainda são privilegiados aqueles que nesta terra moram, não sei por quanto tempo.
Do aditor
GustavoGT
SP 16/02/04

postado por: RODOLFO TORRES 5:42 PM


Comments: VENDO A BANDA PASSAR

Quando pequeno em Assu, passava o ano esperando chegar
o sete de setembro e o aniversário da cidade, dia 16 de
outubro. Eram datas importantes para mim por um motivo
simples: tinha banda marcial na rua. Já na primeira
infância, admirava o som dos instrumentos. Deliciava-me
em especial com os instrumentos de percussão. Lembro
uma vez que passei o dia inteiro só olhando um sujeito
tocar frevo numa caixa-de-guerra velha acompanhado por
um surdo meio frouxo. Notem, eu não prestava atenção no
trumpete ou no sax, só olhava a percussão. Para mim era
o máximo. Como ele conseguia produzir aquele som que a
primeira vista poderia parecer caótico, mas que tinha

um compasso marcado e uma seqüência lógica de pancadas
que só pude perceber e entender anos mais tarde. Bem
precoce, uns 8-9 anos, consegui entrar na bandinha
marcial do meu colégio de freiras tocando surdo. Não
parei mais. Fui ¿promovido¿ a percussionista de caixa-

de-guerra e daí para tocar tarol, meu objetivo inicial,
foi um pulo. Havia bandas bem maiores como a do colégio
JK e melhores como a dos escoteiros, mas eu gostava
mesmo era da minha, regida pelo sargento Oliveira, que
era cedido pelo quartel para nos comandar. E comandava
mesmo, era regime de caserna, sem direito a chamá-lo de
Sarja Oliva fora dos bastidores. Apesar da banda ser
bem modesta (não havia instrumentos de sopros, só
percussão), para mim era como tocar no Olímpia. A
cidade toda parava para ver, formava-se filas de
pessoas nas calçadas para ver a banda passar. E eu lá,
com um uniforme bem chamativo; cartola, correntes e
luvas nas mãos, parecia um imperador. Alcancei, para
minha sorte, o fim da era que se ensinava música no
colégio. Minha irmã mais velha aprendeu piano com Irmã
Ernestina. Nem eu, nem ela, nem ninguém que eu me
lembre tornou-se músico profissional, mas aqueles
estímulos infantis e sem um propósito maior serviram
para aumentar a capacidade crítica musical de todos
nós. Hoje aprende-se inglês e informática de forma
obrigatória. Não há mais espaço para literatura,
redação e música nos colégios. Que saudades de irmã
Ernestina e do Sarja Oliva.

O agudo
Bruno Magalhães
130/2/04

postado por: RODOLFO TORRES 5:42 PM


Comments: QUANDO NIETCHE MATOU


Atendi hoje um paciente que me causou, em seqüência, raiva, alívio, pena, sensação de impotência e no fim raiva de novo. (Raiva) - Era um jovem de 21 anos, que tinha 2 doenças graves (lupus + epilepsia) e que não queria tomar os remédios, não queria fazer os exames de controle, enfim não queria ser tratado. Comparecia nas consultas porque a mãe obrigava. (Alívio) - Por sorte ou por ter um bom anjo da guarda, ele estava bem, incrivelmente bem, o que dava mais motivo para não querer tratamento. Parecia ser inteligente e tinha aquela atitude de desprendimento, de rebeldia, aquele ar de não estou nem aí típico dos jovens. (Pena) - Mas na verdade ele estava em franca depressão; fazia meses que não saia de casa, que não namorava, que não trabalhava, que não vivia. Dizia saber exatamente o risco que corria e que não havia importância. Nada nem ninguém o convencia da necessidade de se tratar; quando resolvesse por si iria iniciar o tratamento, dizia ele. (Impotência) Eu e a médica-assistente tentamos em vão persuadi-lo a se tratar, inclusive de depressão, sem o menor sucesso. (Raiva de novo) Depois que ela saiu, conversando com ele sobre outras coisas que não doença (apesar de tudo, ele tinha um bom papo), descobri o motivo de tudo. Ele me perguntou se eu acreditava em Deus e eu respondi que sim, enfaticamente. Ele afirmou que não acreditava porque Deus havia morrido. (-Estalo!-) "Deus está morto". "A história acabou". A única verdade é a minha". "Procura a ti mesmo". "Torna-te quem tu és."... Você está lendo Nietche? Perguntei. Ele confirmou. Era óbvio. Aquele louco, mesmo depois de morto, estava enlouquecendo os demais. Pobre mente enfeitiçada por devaneios megalomaníacos de desesperança. Intelectuais do apocalipse adoram esse maníaco. Alguns até radicalizaram e deturparam suas idéias até causarem flagelo mundial e guerra. Imagine o que pode fazer num frágil intelecto suscetível e fraco. Não me contive. Mandei ele ler "quando Nietche Chorou" para ver o quanto esse filósofo era louco. Depois que fosse ler Heguel, sócrates, demócrito, até Paulo Coelho e a Coleção vaga-lume para entender melhor a vida e ganhar esperança. Mandei-lhe fazer amigos, procurar seus parentes distantes em viagens de carona, trabalhar, fazer amor (ele falou que tinha parado com isso, pode), beber (com moderação)... voltar à vida. Ele me disse que não queria se tratar nem parar de ler Nietche. Constatei, na prática, o que já suspeitava: Nietche pode ser um vício mortal. LER NIETCHE FAZ MAL Á SAÚDE.

O agudo
Bruno magalhães
12/02/04

postado por: RODOLFO TORRES 5:42 PM


Comments: Paraginecologia Horoscópica

Qual o seu signo? ... de vez em quando escuto esta pergunta, e respondo, obviamente, que sou do signo de áries. Sempre torcem o nariz para mim, pobre ariano. Não que eu ache ruim, ou bom, não acho nada, por três motivos: primeiro porque não entendo disso, depois porque não acredito, e por último , porque não existe.
Como muito bem observado pelo nobre colega, o confrade agudo, em uma de nossas discussões filosóficas regadas a ingesta etílica de leve a moderada, daquelas que te deixam levemente ressacado no ouro dia, mas ainda querendo mais uma cervejinha, chegou-se a conclusão de que o calendário é produto do homem, e isto não pode ser a base para o comportamento e tendências das pessoas.
Para provar que não sou radical, ofereço aqueles que me acham por demais cético, ou que acreditam em horóscopo, uma nova teoria, que poderá mudar os paradigmas da nossa existência: A " Paraginecologia Horoscópica", que se baseia pura e simplesmente na utilização, para fins astrólogicos, ou seja, de moldagem de personalidade, desta técnica inventada pelo homem, que nos permite programar a data do nascimento de nossos filhos.
Observem os senhores a magnitude disto que vos digo, a partir de hoje, e baseados no calendário, poderemos estudar qual a melhor personalidade para o nosso filho, e a partir daí programarmos a sua data de nascimento, tudo isto em bases sólidas para o seu futuro caráter, aptidões e posicionamentos diante da vida. Àqueles que se julgam bem sucedidos e boas pessoas, simples: basta seu filho nascer no dia de seu aniversário, pelo menos quanto a bons dias para negócio e bons fluidos para o amor, vocês estarão em pura sintonia.
Porém, como nem tudo são flores, acabou a desculpa de que o nosso filho é assim ou assado. Vocês tem o poder para definir isto , basta estudar o melhor perfil "horoscópico" para a novo ente querido. Até o meu problema "horoscópico" teria sido resolvido, pois se tivesse nascido quatro dias antes, seria outra pessoa. Pelo menos para um pisciano ninguém torce o nariz. Apenas alerto aqueles que pensam em transformar um filho Ariano em Pisciano, cuidado: ele poderá se tornar um cabeludo e torcedor do Alecrim FC.
Do aditor
GustavoGT
SP 08/02/04

postado por: RODOLFO TORRES 5:41 PM


Comments: Verdades sobre a mentira

A mentira é um instrumento de coesão social muitíssimo saudável. Nenhuma sociedade vive sem um pingo de mentira. Desde que o homem começou a imaginar, ele mente. Mente para fazer o mal e mente também para evitá-lo. Há mentirinhas saudáveis como dizer que aquela roupa horrível da sua amiga está ma-ra-vi-lho-sa, torcer pelo mesmo time do chefe, responder tudo bem a um tudo bem perguntado... São inverdades que tornam a vida em comunidade possível. Não haveria convivência pacífica só com a verdade absoluta. Na verdade, verdade absoluta de fato nem existe. A única verdade absoluta é que não há verdade absoluta. Existem verdades temporárias. Essas sim são as maiores mentiras quando o tempo passa. Dentro de um zero grau Kelvin da verdade, o dia-a-dia seria no mínimo insuportável. A resposta para um "como vai?" seria, por exemplo, "vou de ônibus" para os menos capazes e um relatório pormenorizado de tudo que você está passando para aqueles mais detalhistas. Algumas pessoas chegam perto, como seu Lunga, o velho que leva tudo ao pé da letra. Para ele, é tudo ou nada, não há meio termo. Pessoas assim são tidas como engraçadas, loucas ou chatas. Estão à margem do normal da sociedade. Isso tudo é para dizer que vocês, caros confrades, têm que parar com essa preocupação besta de classificar minhas estórias como mentira ou verdade. O único escritor que deve estritamente falar sempre a verdade nua e crua é o jornalista. Não minto, apenas imagino e quem imagina não mente jamais. Não acreditem apenas no que seus olhos vêem. Não procurem a vossa verdade nos meus textos. Há uma verdade muito maior no fundo. A verdade de quem cria, inventa, de quem tenta colocar no papel aquilo em que acredita. Se é verdade para mim, também pode ser para vocês. Não procurem uma verdade fácil, apenas confiem, apreciem, julguem até. Procurem a mim, procurem por vocês. A chance de encontrar e gostar é muito maior. Só reconhece uma mentira aquele que já mentiu.

O agudo
Bruno magalhães
05/02/04

postado por: RODOLFO TORRES 5:41 PM


Comments: O mistério das dez chaves ao portão

Quem for ao Memorial Câmara Cascudo encontrará uma sala com um lobisomem. Na parede uma declaração do famoso folclorista falando, provavelmente numa entrevista, que naquele exato momento em que a pergunta foi formulada, com várias pessoas, num ambiente iluminado, ele não acreditava em lobisomem; mas numa noite de lua cheia, no meio da mata, ouvindo as raposas uivando para a lua, ele acreditava e o entrevistador também.
Seguindo a lógica de que quando estamos sós, a superstição toma formas mais nítidas, estou, nesse momento, com todo meu niilismo e ceticismo e o que mais eu não tiver; assustado. Achei dez chaves encostadas no portão daqui de casa, oito pretas e duas brancas.
E o principal responsável pelo meu medo são os programas de televisão, geralmente de madrugada, onde os orientadores espirituais mais parecem jogadores de sinuca dos botequins mais longínquos. Eles só falam em trabalhos de macumba, encostos e outras coisas. Como se a influência da cultura negra fosse algo maléfico. Triste é como a palavra macumba adquiriu um caráter tão pejorativo.
Mas o fato é que estou achando que essa quantidade de chaves foi colocada por alguém que pretendia, para usar aquela lógica dos símbolos, "trancar" os caminhos de alguém por aqui. E quem poderia querer fazer isso conosco? Será que existem pessoas que se ocupam em querer o mal das outras? ...
Prefiro acreditar em algo mais lúdico, como no misterioso caso do "contador de troco do pão" de Natal. Um homem que na primeira metade do século passado saiu para comprar pão e sempre voltava com o troco para casa. Sua mulher, bastante maltratada por ele, usou o troco (alguns poucos centavos) de todos os dias para comprar uma passagem para qualquer distância dele. Ele descobriu o saco de moedas no qual ela cuidadosamente juntava as moedas e, para vingar-se da traição planejada, comprou aquele importância de correntes e cadeados. Amarrou-a à mesa durante muito tempo.
Tento dizer a mim mesmo que o homem percebeu que uma mulher deve ser presa de outra forma. E que as chaves no portão foram jogadas por ele quando percebeu isso.

postado por: RODOLFO TORRES 5:41 PM


Comments: Constrangimento em campo

Os fatos que relato estão expressos na coluna de
Everaldo Lopes da Tribuna do Norte, do dia 4/2/4. Dou
apenas uma arejada para tornar a narração mais
emocionante. Partida vibrante no Amazonas; Anamã (talvez
uma tribo local) x combinado amazonense. O jogo estava
para acabar, 2x2. Cada qual queria levar a vitória para
casa. O atacante parte para cima do zagueiro disposto a
dribla-lo a qualquer custo. Só que a vontade do defensor
de não ser enganado naquele final de partida era um
muito maior. Quando o centroavante colocou a bola na
frente e já estava com meio corpo de vantagem, o beque
se recuperou e, numa superação sem tamanho e com uma
maldade que só os zagueiros grossos de várzea sabem
demonstrar, deu uma tesoura por trás e por cima da bola,
disposto apenas a deixar o adversário inutilizado para o
resto do de sua curta vida futebolística e talvez até
para as práticas laborativas diárias. A bola continuou,
o ponta ficou estendido no chão. Não movia um músculo,
imóvel. O juiz alerta, preciso, enérgico e de forma
categórica, lembrando que a regra é clara (o difícil é a
interpretação), apitou a falta, correu para perto do
lance e, ainda com o culpado se levantando, aplicou-lhe
corretamente o cartão vermelho. Aí começaram os
problemas do árbitro. E não pensem que foi devido a ira
dos companheiros do time penalizado. De fato, quando o
juiz puxou o cartão vermelho do bolso da bermuda, saiu,
enrolado no cartão, uma calcinha vermelha, que, devido a
energia imposta pelo árbitro no movimento, voou pelo ar
e fez uma parábola até chegar de volta ao chão. Fez-se
aquele silêncio no estádio. Todos os jogadores, comissão
técnica, dirigentes e torcedores olhavam estáticos para
a roupa íntima estendida no gramado. Após uma
eternidade, o distinto árbitro apanhou a calcinha do
chão e guardou-a novamente no bolso. Daí reinou a
discrição. Foi como se nada tivesse acontecido. Os
jogadores voltaram a se exasperar, os dirigentes a
reclamar e a torcida a xingar a autoridade máxima em
campo. Ninguém teve coragem de perguntar do ocorrido. O
jogo voltou ao seu normal até o fim. Os presentes foram
tão discretos e corretos para com a imagem pública do
juiz que até hoje ninguém assume que foi testemunha
ocular e presencial do fato. Comenta-se em mesas de bar
que desconfiada esposa do digníssimo árbitro requereu o
divórcio. Nada confirmado.

O agudo
Bruno Magalhães
05/02/04

postado por: RODOLFO TORRES 5:40 PM


Comments: Entre a beleza dos olhos vagos

Nunca soube responder aquela velha questão, surgida ainda na infância: "O que você vai ser quando crescer?". Dizia que seguiria os passos paternos, mas é o que praticamente todos fazemos nessa fase. Quando estava no último ano do colégio descobri o que realmente queria quando um rapaz de uma floricultura qualquer chegou à porta da sala de aula com flores para uma aniversariante. Pensei: "É isso! Quero levar boas coisas aos outros, boas energias, boas sensações...". O contra-argumento aos que porventura me desaconselhassem era "Quem vai maltratar uma pessoa que lhe traz flores?".

Só que minhas flores não eram feitas por mim. Apenas transportadas. Eu era uma mera ponte entre as flores, que jamais seriam minhas, e a pessoa agraciada. Queria então produzir flores, decidir suas cores, texturas, tamanhos, formas e aromas. Assim as flores tornavam-se minhas...

A garota que estava aniversariando recebeu-as, emocionada, e virou sua face ao homem que as trouxe. Ele não mereceu um mísero agradecimento. Ela volta ao seu canto trazendo, além do buquê, todos os olhos ali presentes. Menos os olhos do entregador, que os baixou e seguiu sua bela e triste saga: levar uma beleza que não é sua.

Enquanto todos estavam ansiosos para saber quem as tinha mandado, eu pensava que o grande ponto para o reconhecimento de quem traz a beleza aos outros é que a beleza seja de sua autoria. Teria que ser fabricante e distribuidor da beleza porventura produzida por mim. Mas não levo beleza a ninguém. Seria muita sorte se fosse um mero "embelezador de subsistência", que no meu "minifúndio de talento" consegue alimentar-se com o seu fazer.

E se a beleza que for produzida escapar e alcançar outros cantos, quem a encontrar talvez não saiba que ela não brotou simplesmente; foi trazida por alguém que quase sempre não recebe nossos olhos...

postado por: RODOLFO TORRES 5:40 PM


Comments: Cara de Mal

Logo que entrei no metrô, percebi em seu semblante algo a mais, além do que aquelas muitas caras nos mostram, cheias de cansaço e estresse. Trazia no olhar algo que oscilava subitamente entre o distante e a realidade, sendo chamado a esta última como que as pressas. Enquanto oscilava nestes extremos, se debatia dentro de si mesmo, inconformado e por que não dizer, revoltado.
Ao surgir um lugar para sentar-se, o mesmo desabou ao meu lado, como que desistindo de ficar de pé. Era nítido o seu desconforto com algo, pois não havia um segundo em que o mesmo não fizesse um gesto brusco ou conversasse consigo mesmo, sem emitir sons. A sua postura me incomodava e me fazia prestar atenção aos seus movimentos, justo no dia em que nada levei para ler no caminho.
Quase ao final da viagem, próximos à última estação do metrô, ele abriu impulsivamente a sua carteira, surrada pelo tempo, com vários papéis, e com certeza pouco dinheiro. Procurou e rapidamente localizou a alvo de sua procura. Uma folha de papel dobrada. A desdobrou como que procurando por algo que não iria encontrar, querendo certamente que as letras que lera ali instantes antes tivessem mudado ou desaparecido.
Apesar disso, o processo de abertura do papel foi instantâneo, bem como foi o modo como ele rasgou aquela carta. Sim, era uma carta, escrita com letras de mulher, a qual só li o título: "Bom dia", escrito em letras maiores, seguindo-se a este uma folha inteira escrita em pequenas e tímidas palavras. Com certeza portava um assunto pouco agradável e que não fizera o leitor feliz. Pouco provável que não seja uma carta de despedida, pois quem escreveria uma carta à pessoa "amada" com este título, seco e impessoal. Sinto-me, analisando agora, um intrometido voyerista dos problemas alheios, mas não pude deixar de perceber toda a cena (e a tirar logicamente algumas conclusões).
Após especular e me intrometer por alguns segundos em seus problemas, a porta se abriu e desci apressadamente. Ele ficou, sentado, imóvel, segundos após rasgar a carta, como que se convencendo de que aquele bom dia tinha na verdade sido um adeus.
Do aditor
GustavoGT
SP 03/02/04

postado por: RODOLFO TORRES 5:40 PM


Comments: Esporte Sim Senhor

Como que do nada, conversávamos sobre esportes, logicamente iniciando-se, como todo bom brasileiro, por futebol. Não demorou muito a esgotar-se o assunto visto que não haviam ABCdistas ou vascaínos para serem massacrados. Foi quando um dos presentes afirmou que há três meses frequentava aulas de tênis, isso sim um esporte digno, segundo o mesmo. Disso não discordo, até concordo. Como que não havendo o que contestar, alguém perguntou-me sobre Golf, e o quanto caro era, já sabedor da minha admiração e talento nato para o mesmo. Reservei-me a comentar, concordando em alguns aspectos e dizendo-lhe que a hora aula pode ser até mais barata que a de outros esportes. Na verdade, até este momento assuntos mais urgentes e importantes consumiam a minha atenção, até a hora em que o energúmeno tenista disse que Golf não era esporte.
Gostar ou não é um direito de todo mundo, e em relação a qualquer coisa, mas o tom provocativo conseguiu despertar a minha atenção. Após pensar em resolver no tapa a questão, decidi vomitar argumentos contra o mesmo, ir de encontro a rede, para anular a ação do adversário. Confesso que fui desesperadamente, sem o cuidado de não levar um "Lobby". Informei ao mentecapto que era sim um esporte, quisesse ele ou não. Para os incautos, registre-se que em uma partida de Golf se caminha quase oito quilômetros, e, ao contrário do que o "André Agassi raquítico" quisera supor, caminhada em ritmo forte. Basta aos senhores se deliciarem assistindo a uma bela partida do "Grand Slam", televisionadas por TV a cabo, par comprovarem o fato.
Desafiei-o inclusive a dar algumas tacadas, e dormir com o braço latejando, pois se engana quem duvida da força desprendida para os golpes. E o mais interessante: além de tudo, e apesar dos céticos de espírito, é um esporte para todas as idades.
Mas, se para ele o que vale é a força e calorias a menos, vá jogar squash. Já eu treinarei karatê para a próxima conversinha sobre esportes ...
Do aditor
GustavoGT
SP 02/02/04

postado por: RODOLFO TORRES 5:40 PM


Comments: Esse foi o barulho que foi

Como gostaria de te entender, de saber o que quer de mim e acabar definitivamente com essa comunicação monossilábica, esporádica e repetitiva. Conheci tantas e tantas, iguais em essência. Mas já que estou contigo agora, e repartimos nossas noites, porque não declara a tua vontade. Antes, com a madeira do chão, tudo estava esclarecido e aquele toque que perfurava o silêncio era apenas a piso se contorcendo, soltando uns urros.Mas o piso agora não é mais marron. É gelo. Que é produzido por ti, caixa pálida, refúgio primeiro do acordar da guela escaldada. Facilmente catalogamos os possíveis barulhos na madrugada, no interior de uma casa. A porta que range, o motor da geladeira que dá aqueles "estalos". Mas a sinfônia que antecede os primeiros cantos das aves não é composta apenas de portas e motores neuróticos. Há os elementos ocultos e imperceptíveis aos ouvidos nossos. Gosto de ser surpreendido quando percebo um novo instrumento em uma música já apreciada por mim. Quando descobri o "violão 7 cordas" numa música de Cartola, entrei em sintonia com a música. Uma porta é escancarada quando se faz uma descoberta dessas. A música lhe mostra uma nova faceta. Sua imagem é alterada. Mas os sons que compõem as madrugadas são imperceptíveis, quase todos. E não adianta fiscalizar de perto, pois o silêncio reinará. Como as mulheres, essa "tosse dos lares" não quer ser desvendada. Apenas ouvida. Como alguém que faz algo porque tem de fazê-lo, independente dele próprio. Torna esse som um companheiro, tendo a prudência e o "ouvido musical" de diferenciar a "Sinfônica Cotidiana" das "Fechaduras Forçadas".

postado por: RODOLFO TORRES 5:40 PM


Comments: Vou-me Embora Para Meu Lar

Última sexta-feira de janeiro na cidade do Natal, dezesseis horas e vinte e cinco minutos. Ainda estou em meu escritório. Em outros anos, estaria absolutamente ansioso para desligar o computador, dar uma rápida olhada na agenda da semana seguinte e sair correndo a 180 km/h rumo à Praia de Muriú. Entretanto, desta vez não vou fazer isso e estou achando ótimo.
Não, eu não me divorciei de Muriú ¿ que, aliás, eu continuo amando e continua sendo onde eu vou buscar a inspiração poética para enfrentar esta vida doida. É que precisamente há uma semana eu recebi meu apartamento. Desculpem, mas preciso dizer isto novamente: MEU APARTAMENTO!!! Novinho. Cheirando a tinta. É meu primeiro apartamento e eu sou o seu primeiro dono. É uma sensação maravilhosa. Já estou dormindo debaixo do meu próprio teto. Há algum tempo, imaginava que isto estaria ainda muito distante. Agora, é uma realidade.
É verdadeiramente um caso de amor. Parece que já moro lá há muito tempo. Tanto que no fim de semana passado, depois de voltarmos de uma festa, onde levianamente bebi muito prosseco e muito uísque, acordei no meio da madrugada absolutamente atordoado e, ainda bêbedo, não sabia que dia era, que horas eram, não lembrava de nada que tinha acontecido, mas uma coisa eu reconheci assim que abri os olhos: estava debaixo do meu teto.
Bem! Hoje é sexta-feira de verão em Natal. Todos vão deixar seus trabalhos e correr alucinadamente para as praias. Eu não. Eu, vou-me embora para o meu lar. Lá, eu não sou amigo do rei. Lá, eu sou o próprio rei. Lá, eu tenho a mulher que eu sempre quis e a cama que carinhosamente escolhemos. Vou-me embora para o meu lar. Lá, eu sou feliz.

Rafael Loiola
30/01/2004.

postado por: RODOLFO TORRES 5:39 PM


Comments: Brunico de Magal

Presto uma homenagem ao maior filósofo contemporâneo da língua portuguesa e correlatas de todos os tempos. Um pensador que até hoje está no anonimato provavelmente por uma conspiração que me cheira a CIA e a KGB juntas. Brunico de Magal, o eloqüente, nasceu em uma cidade do semi-árido nordestino, onde sempre abundou água, daí o seu nascimento paradoxal, que até hoje gera controvérsias em rodas de samba e botequins. Quando ele nasceu, a bolsa das águas simplesmente estourou. No seu parto, ainda no chiqueiro, sua mãe foi presenteada com três dádivas por chefes de estados longínquos: um pé de pato, uma baladeira e uma quartinha cheia de carne assada com arroz de leite e rapadura de sobremesa. Seu pai tinha sumido 13 meses antes. Mas poderia ter nascido na Grécia antiga, em Cartago, na three falks Sioux, na China mandariana, na Normandia dos cavaleiros, em Melbourne antes da olimpíada ou em Nova York pós-moderna e chique. Melhor teria sido nesta última, pois finesse, estilo e chiquesa lhe eram próprios. Labutou de tudo quanto lhe deixaram. Foi sapateiro, sacristão tocador de sino que rezava a missa de vez em quando, garçom de padaria depois promovido a padeiro, palhaço de circo ¿tomara que não chova¿ até ver o próprio pegar fogo, violinista rabequeiro, puxador de boi que só batia esteira, organizador de filas em geral, repentista violeiro, presidente do Brasil por 3 dias antes de Mem de Sá, médico sanitarista, tatuador de gado, Hippie, Punk, Yuppie e Snoopy. Destacou-se em todas; era um líder. Mas sua verdadeira vocação eram as letras e as idéias. Escreveu pérolas em telhas semi-prontas como Qual a cor do burro quando ele foge e se isso interfere na metáfora suburbana atual. Nessa sua primeira obra ele introduz a dialética Hegueliana antes do próprio. Pior seria se pior fosse; um dos primeiros livros de auto-ajuda que se tem notícia, mas que os americanos abafaram. Pensando que era cachorro, ruí um osso; este inspirou ecologistas de todo o mundo a pensar sobre o tema, devido a empatia animal que há no texto. Inclusive a palavra ecologia tem sua primeira aparição na literatura mundial nesta obra (esta foram os Russos que esconderam). A obra maior da revolução francesa: Como afiar tesouras, alicates e guilhotinas. Livro não braile para cegos, neste livro, ele pensou apenas em seu próprio lado financeiro. E um só de poemas para Maileide, sua eterna namorada, intitulado Quanto eu lhe devo? Cito aqui apenas as mais destacadas obras. Por essas que não poderia deixar de reverenciar este que sem dúvida foi o mais destacado entre os sábios (o mestre Yoda foi baseado na sua pessoa). Não é à toa que é considerado o Confúncio do Nordeste. No correr, contarei mais sobre sua vida e obra.

O Agudo
Bruno Magalhães
30/01/04

postado por: RODOLFO TORRES 5:39 PM


Comments: Algo Mais

Sou o que poderia se chamar de um ser facilmente irritável, principalmente em algumas situações de contato com várias pessoas ao mesmo tempo. Raramente não me irrito em alguns locais, como por exemplo um aeroporto, ou mais especificamente dentro de um avião. Como viajo pelo menos três vezes por ano, são no mínimo seis vôos em que corro o risco de ter minha paz de espírito afetada por atos e ações alheias.
Das coisas capazes de me afetar, com certeza o choro de uma criança tem posição de destaque. È um método quase infalível de perturbação da paz e da ordem social interna do ser humano. Só quem suporta, às vezes, são os pais, e o pior são aqueles genitores que acham bonito, ou fazem de conta que não é com eles. No mínimo a criança merece uma repreensão (logicamente suave e seguida de carícias), como que para que dar uma satisfação aos demais "incomodados".
Ao ouvir aquela sinfonia, sentado em uma poltrona desconfortável, me vem à cabeça várias coisas, como esganar os pais, mandar parar o avião, colar um esparadrapo na boca da linda criancinha, etc. Omito aqui os pensamentos mais macabros, impublicáveis, para a minha própria segurança e da confraria. Entretanto, todavia, tenho a nítida impressão de que estes pensamentos povoam a cabeça de quase todos, exceto aqueles elevados de espírito que compreendem a situação e o sofrimento dos bebês.
Há, contudo, uma enorme diferença entre nós e o americano que jogou água na cabeça da criança que chorava, em um vôo comercial no Brasil. Este pusilânime só fez isso pela certeza da impunidade, mais do que isso, pela suposição de superioridade em que estes boçais se encontram. É lamentável certos atos de arrogância dos donos do poder. Até quando toleraremos água na cara e dedos estirados. Com certeza podem ter de tudo, mas estão certos os que dizem que sempre lhes faltará uma coisa básica, educação. Para eles não há leis ou pudor, estão acima disso. Não podemos generalizar, nem hostilizar indiscriminadamente, mas o fato merece uma reflexão, uma mudança de postura frente aos outros, quer seja uma criança, um mercado consumidor, um país ou um povo.
Do aditor
GustavoGT
SP 30/01/04

postado por: RODOLFO TORRES 5:39 PM


Comments: O vento da discórdia

O quarto apertado, com três beliches lotados, seis homens suando em cima dos colchões, uma catinga danada de suor e outros odores, um calorão desgraçado e tudo o que eu queria era um ventilador. Lá fora, no corredor, luz, choro, gritos, e vozes entravam pela janela. Às três manhã, insone, resolvi procurar um, sem nenhuma esperança de conseguir, só para desencargo de consciência. Após procura persistente, dado a hora, obtive a visão do fim do arco-íris em um pequeno ventilador não utilizado, todo amarrado com esparadrapo. Testei e... maravilha, funcionava. Levei para o quarto pensando em como seria sensacional a noite dali em diante. Sem falar que eu seria recebido no quarto como um herói das Cruzadas que retorna com a imagem de Nossa Senhora recuperada junto aos mouros pagãos. Ou de forma mais recente e bem menos poética, como um pentacampeão. Volto ao quarto e ligo. Primeiro problema, o coitadinho do ventilador não roda. Também seria pedir muito. É por isso que tem tanto esparadrapo. Como eu fui lutar com o dragão e resgatar a roda dos ventos, tenho total direito, por merecimento, de ter todo o seu sopro só para mim. Dirijo-o, pois, para minha cabeça. Quase pegando no sono, escuto uma voz lá do fim do quarto: desliga isso aí, meu. Não acreditei: como? Outra vez, mais alto e em coro: . Como é? Existe alguém que não gosta de ventilador? As pessoas expressam amor ou ódio a cães, gatos, times de futebol, mulheres feias... mas um ventilador? É como não querer o bolo porque não gosta de batedeira. Ainda mais este, que está virado só para mim e não faz muito barulho. Mesmo se o vento fosse na direção deles e se fizesse barulho... não gostar de ventilador? Não é uma opção razoável, principalmente naquela situação. O que é que o ventilador fez com essas pessoas... essas pessoas... pouco flexíveis, para não começar agora o xingamento. Será que um deles prendeu o dedo nas pás quando era criança. Ou outro prendeu outra coisa (nesse caso o trauma seria explicável, mas não aceitável). Eles poderiam dizer que não gostam de ventilador se tivessem um ar condicionado para ligar. Definitivamente não era o caso. Recusei agradavelmente Desliga isso aí. Eu não gosto de ventilador o convite de voltar à temperatura infernal: Não mesmo! De jeito nenhum! Nem se Jesus Cristo pedir! A discussão se intensificou. Começaram a jogar travesseiros na minha cama, que por sinal agradeci, pois era só o que faltava para um sono perfeito. De repente, explodiu um coquetel molotov de tênis e um punhado de meias mal-cheirosas na minha cama. Quando eu estava para pedir arrego, acertaram o pequeno ventilador indefeso. Não! Façam isso comigo, não com ele, que não pode reagir, seus covardes. Gritei. O aparelho virou mas não parou. Resistiu bravamente. Finalmente reconheci a superioridade numérica e o maior poder de fogo do inimigo e pedi paz. Com diplomacia mantive o ventilador ligado, embora numa velocidade intermediária. Mas garanti algumas horas de sono ininterrupto e sem calor. Na próxima vez eu vou armado... com um condicionador de ar portátil.

O agudo
Bruno Magalhães
27/01/04

postado por: RODOLFO TORRES 5:38 PM


Comments: Ano Novo. Vida nova?!

Neste período de final de ano tive a nítida sensação de estar mais velho. Mais um ano acabou. Nestes momentos sempre temos que encarar as frustrações dos projetos não realizados e nos iludir, novamente, prometendo que neste novo ano as coisas serão diferentes. Desta vez eu realizo aquela obra que há anos venho programando. Desta vez eu faço aquela viagem que há anos venho planejando. Enfim, desta vez aquele projeto sai do papel (ou da cabeça)...
Sinto que efetivamente estou mais velho, porque neste fim de ano percebi que alguns daqueles projetos que há anos venho protelando não poderão ser mais concretizados. Definitivamente. É que alguns projetos ficam anacrônicos, démodé, caem em desuso, ficam obsoletos, ultrapassados. Não seria mais de bom grado pô-los em prática.
Não se trata de pessimismo, como poderia parecer. Ao contrário, penso que é preciso esquecer aqueles sonhos empoeirados para sonhar sonhos novos, mais serenos, mais maduros. Devemos esquecer a doce e confortável ilusão que chega junto com o novo ano, para, de maneira mais realista, desenvolvermos projetos mais atuais.
Por isso, entendo que não devemos fazer, neste novo ano, as mesmas promessas que sempre fizemos. Para este ano, não prometi nada. Estou cansado de repetir sempre as mesmas promessas de mudança. Nada prometi, mas tenho esperança de viver grandes alegrias e novas realizações. Nada prometi, mas sonho sonhos novos.
Apesar de tudo, devo confessar que neste momento não me sai da cabeça aquele velho samba: este ano não vai ser igual àquele que passou...

Rafael Loiola

postado por: RODOLFO TORRES 5:38 PM


Comments: ISMOS E ADOS

Sempre que ligo o meu computador fico absolutamente incomodado com a mensagem que aparece na tela: "O windows está sendo inicializado". Já começo o dia de mal humor. Ora, por que a mensagem não diz que o programa esta sendo iniciado?!. I-ni-ci-a-do. Mais simples e mais agradável. Atualmente, as pessoas acham que acrescentar sufixos desnecessários é falar melhor.
Outro dia, na televisão, alguém dizia, com um ar de intelectual, que "a problemática brasileira reside na concentralização de renda na mão de alguns, em detrimento da grande massa mizerabilizada...". Confesso que quase caí do sofá. Digam-me, existe alguma explicação plausível para que esse sujeito não tenha dito simplesmente: o problema no Brasil é a concentração de renda?! Ou ainda, se a intenção era gastar mais tempo de tv e parecer mais sabido: ... a concentração de renda, em detrimento da grande massa miserável?!. Paciência. Desliguei a tv imediatamente.
Eis realmente algo que me aborrece. As pessoas querem falar mais do que a idéia que querem transmitir, querem dizer em palavras mais do que a mensagem pode suportar. E olhem que isto ocorre com os que ainda conseguem transmitir alguma idéia utilizando-se do português. Porque pior que estes, são os que só sabem se comunicar na linguagem cifrada da informática, sem falar do novo dialeto, absolutamente incompreensível, dos adolescentes.
Bem, agora vou desligar o meu computador. Espero sinceramente que não me apareça na tela algo como: o windows está sendo finalizacionado...

Rafael Loiola
Natal, 27/01/2003.

postado por: RODOLFO TORRES 5:38 PM


Comments: REGRESSAR

Há algum tempo, um grupo de amigos resolveu, contagiados pela brilhante iniciativa do confrade Rodolfo Torres " ou entorpecidos por sua idéia, como ele bem escreveu " começar o que depois veio a chamar-se Confraria dos Crônicos. Os Crônicos, como intimamente chamamos a referida confraria, trouxe-nos gratas surpresas, novos prazeres pela escrita e pela leitura e, sobretudo, trouxe-nos uma bela oportunidade de viajar pra dentro de nós mesmos, compartilhar nossos pensamentos, nossas alegrias e nossas frustrações, enfim, para citar Drummond, nosso sentimento do mundo.
Nos últimos dias estive um pouco afastado dessa viagem, não coloquei à disposição dos meus amigos o meu sentimento do mundo. Estava perdido em problemas prosaicos. Mas agora regresso, porque os bons homens sempre regressam. Lembro aqui o velho dito: "no caminho da volta ninguém se perde". Regresso agora, como regressou o filho pródigo. Regresso agora como quem volta à cidade natal. Como o poeta que retorna a sua terra e reencontra sua amada, que mesmo sem acreditar mais em seu regresso, ainda permanece esperando.
Às diversas versões sobre meu repentino desaparecimento, devo responder apenas que me diverti bastante, mas, evidentemente, todas estavam equivocadas. Agora que retornei, pretendo não mais deixar esta querida Confraria e continuar colocando o meu sentimento do mundo à disposição de meus amigos. Aos caros confrades, quero me valer da bela canção do Chico e pedir "perdão pela duração desta temporada".

Rafael Loiola
Natal, 25/01/03.

postado por: RODOLFO TORRES 5:38 PM


Comments: Café

Com certeza, um dos produtos nacionais mais marcantes, que nos garantiu inegáveis avanços em tempos idos, proporcionando progresso e riqueza, nunca me atraiu, inclusive dizem por aí que os colombianos são melhores. Não opino pois desse tema nada entendo, só conseguindo distinguir entre o quentíssimo, o quente e o frio.
Quem trabalha em repartições ou instituições de saúde sabe muito bem o poder do café nestes recintos. Não há uma mísera sala, por pior que seja ou esteja, na qual não haja uma garrafa (ou garrafas) de café quentinho (as vezes). É impressionante como o ato de se tomar um cafezinho já é uma coisa medular. Entre uma conversa e outra, num assunto menos (ou mais) importante, inconscientemente se pega uma xícara de café. Toda visita merece o seu café. Não imagino como seria se fosse proibido tomar café no expediente: caos total.
No setor aonde trabalho, como não poderia ser diferente, várias xícaras são produzidas diariamente, para deleite dos apreciadores voluntários, e involuntários, como eu. Involuntário pois acabo de perceber que durante o dia, raramente não tomo uma xícara que seja. Se não há café quando chego, sempre comento o absurdo que isto significa, mesmo sem ter vontade no momento de tomá-lo. O mais grave é que o café do setor é conhecido no hospital como um dos piores. Para os confrades terem idéia, não raramente inexiste filtro, tendo que se apelar para lenços de papel (desses de assoar nariz, logicamente antes de se prestar a esta função) para coar o mesmo. Apesar de péssimo conhecedor do tema, não me estranha a nossa vergonhosa classificação, visto o absurdo do uso do lenço, pois se não afeta a essência do café, é emocionalmente deprimente, pois como nos valorizarão enquanto fazedores de café vendo tal cena?
Quando digo que não entendo nada, não estou sendo modesto. Tomo qaualquer café normalmente, sem gostar ou desgostar, até quando os próprios colegas dizem que está horrível. Ou seja, não noto muita diferença. Tenho a leve impressão que neste ponto eu me dou bem, pois estou para ver alguém fazer um café que eu ache ruim.
Do aditor
GustavoGT
SP 27/01/04

postado por: RODOLFO TORRES 5:37 PM


Comments: Ansiedade globalizada

Domingo, faleceu, de causa desconhecida até agora, um jogador de futebol húngaro que jogava no Benfica de Portugal durante uma partida. Mas não vi a notícia na televisão ou na internet. Soube de uma forma bastante peculiar. Vários pacientes, no mínimo cinco (número que não é insignificante, muito pelo contrário), chegaram no hospital no qual estava dando plantão ontem com sintomas de ansiedade aguda. Eles ou alguém deles relacionavam os sintomas à notícia da morte desse tal jogador que eu nem sei quem é. Sem querer ser insensível à dor alheia, cabe aqui no mínimo uma reflexão. Como a televisão mexe com a cabeça e os nervos de uma pessoa! Principalmente da classe social mais baixa (dou plantão em hospital do SUS). As pessoas chegavam em estado lamentável, com suores, falta de ar, dor de cabeça, dormência e tontura. Parecia que tinha morrido a mãe. Mais uma vez, não me entendam mal; não estou desdenhando, só constatando o fato. Admito que o sujeito devia ser bem jovem, e a morte deve ter sido filmada, o que pode causar uma comoção momentânea. Mas era um jogador de futebol de outro país, provavelmente desconhecido, sem nenhum laço emotivo, nem muito menos grau de parentesco com as pessoas em questão. Eu que me considero um apaixonado por futebol não ficaria tão emocionado assim. É impressionante como os meios de comunicação em massa estão transformando as pessoas comuns em marionetes a serviço da mídia. E a tendência é piorar cada vez mais. Se eles quiserem, você chora, você ri e principalmente você compra. Chora-se mais a morte de uma pessoa famosa ou que apareceu na televisão do que a do vizinho. Na verdade, desconhece-se o vizinho. Conhecemos cada vez mais o outro lado do mundo (pelo menos o que é interessante para mídia que se conheça) e menos os moradores da nossa rua. A globalização está nos aproximando cada vez mais do que está longe e nos distanciando do que está perto. Para que saber como se prepara um sushi se você nunca comeu um pão na chapa na padaria da esquina. São inversões de valores totalmente descabidas. Quando sair de casa hoje ou amanhã, globalize a sua rua, dê bom dia para o seu vizinho.

O agudo
Bruno Magalhães
27/01/04

postado por: RODOLFO TORRES 5:37 PM


Comments: O desfile e o descanso

Só andei a cavalo um único dia, na primeira infância, na fazenda de um amigo do meu pai. Meu pai puxando uma corda amarrada na cara do animal e eu em cima, imponente. Sempre gostei desse bicho. Outro dia falei que qualquer um que use um suéter, inevitalvemente é tomado por uma elegância. Achava que o mesmo acontecia com a montaria; ou seja, quem estivesse montado num cavalo assumiria ares monárquicos. Mas estava enganado... O que vi na praia nesse final de semana mostrou que estava errado. Centenas de cavalos numa marcha escaldante, sob um severo sol de uma praia familiar. Nessas condições, é admissível uma lata de cerveja; somente nessas. Maré baixa, quase meio-dia e a cavalgada do verão passa. Poderia dizer que como tanta coisa na vida, a cavalgada passou. Longe disso. Muitos animais lindos e muitos pangarés. Alguns jumentos (que é nosso irmão, como disse Gonzaga) num passo miúdo e contínuo. Carros caros passeando, e maculando a cavalgada. Mas notava que faltava a elegância aos montadores. Cada postura que deve ter causado incômodos a Rodrigo Pessoa. Quando os últimos nos deixam e retornamos à sombra do alpendre praiano, ouço um dos presentes, amigo dos meus pais, comentar que os "cavaleiros" iriam encontrar-se numa outra praia, um pouco mais longe. E que os verdadeiros "peões" já estavam lá, bebendo aguardente e dançando forró. Como por essas terras ainda existe um certo orgulho em saber montar (ainda bem), com jornais e televisões disputando declarações, todos tornam-se rurais. Já achei-os petulantes, beirando o insuportável. Hoje, até os aceito. E bem queria ter um burrinho para acompanhá-los. Agradeci por não ter o bicho na hora de dormir, com a pele queimada e um calor dos trópicos que nem o número "3" do ventilador resolvia. Podem dizer que nesse dia, patrão ficava sob sol quente (desfilando, é verdade, mas suando) e vaqueiro bebendo ao lado dos amigos. No mesmo horário!

postado por: RODOLFO TORRES 5:37 PM


Comments: Porção Extra

O que seria um simples jantar, se transformou em mais um batismo. Entrei para a última refeição do dia e poucos encontrei, praticamente só os funcionários. Duvidei a princípio que a lanchonete estivesse em funcionamento, parecendo estar fechando as portas. Quando me convenceram do contrário, sentei e lembrei de um recado que deveria ter dado a eles, que me atendiam.
Ao falar do pedido de Rodolfo, para falar em seu nome e mandar um abraço, causei um turbilhão de emoções em praticamente todos, exceto, talvez, no que prepara os lanches. Posso estar sendo injusto, visto que o mesmo é extremamente introspectivo, e tem de trabalhar de costas para o movimento.
Todos imediatamente se lembraram de quem eu lhes falava, sempre com um comentário carinhoso e uma pergunta: "Quando ele vem novamente?" ... os pobres mal sabiam que a sua partida fora sem previsão de retorno. Isso lhes falei, sem querer causar depressões agudas. É notório o carinho que os mesmos tem por ti, caro irmão, falam não de um cliente, mas de uma pessoa amiga. Até o dia de tua partida eles sabem, e insistiram em saber o dia de sua volta.
Deles, o mais empolgado, e que sabia que fostes numa quinta-feira, era aquele mais moreno (sou péssimo para gravar nomes). Este, visivelmente emocionado, insistia em lembrar qual a sua preferência e algumas manias, como informar-lhes previamente o seu grau de fome. Talvez por isso mesmo me chamou de Rodolfo todas as vezes.
Não querendo corrigi-lo, e compreendendo a situação, resignei-me. Ao pagar a conta, me chamou e disse, como que acordando para a realidade: "Já que ele não está aqui, vou chamar você de Rodolfo a partir de hoje!". Será que também vai lembrar de me dar a porção extra de farofas, por conta da casa?
A você, um abraço meu, de Mychelle e de todos da Lanchonete Duas Rosas.
Do aditor
GustavoGT
SP 24/01/04

postado por: RODOLFO TORRES 5:37 PM


Comments:
Não morra sexta

A noite de hoje trará um sussurro. Todas as noites de hoje trazem. Uma prece de afogada é a voz de toda sexta-feira à noite. E quem não fica mais forte quando ela chega? Quem não carrega a certeza laica de que por pior que seja essa noite, será melhor que o melhor escurecer dominical? A noite de hoje é mentirosa! Uma sereia que encanta os desavisados. Eles pulam de seus barcos e caem na noite, procurando aquele alegria anunciada. Geralmente morrem afogados com a manhã do sábado, que insiste em acabar com um entusiasmo atemporal que, novamente, a noite de hoje proporcionará. A semana é uma cigana velha. É capaz de trazer muita sofrimento com seus sete filhos. Mas no amadurecimento de sua sexta cria, ficamos cegos e não mais importa as desventuras dos outros seis. Urgente agora é que essa filha de hoje não morra. Não é possível isso... Então que sua maturidade seja a mais longa possível. Que sua velhice roube a infância do caçula. Que o sono venha antes que o pequeno dia do sábado nos alcence!

postado por: RODOLFO TORRES 5:36 PM


Comments: ÓCIO CRIATIVO?

Quem falou que isso existe? Se existe, não comigo. Faz dias que cheguei de Natal, no que seria o fim das minhas férias, e ainda me faltam 8 dias. Estou trancado nesse apartamento, que cada vez diminui mais, sem ter nada para fazer. Não consegui produzir nada de significante nem para o mundo nem para mim. Não me dá vontade de estudar (opção inconcebível), trabalhar, passear, malhar, tocar, ler... Eu só assisto televisão. Já não agüento mais. São mais de 80 canais da Net de puro tédio. Tenho toda a programação decorada. Escapa um ou outro filme melhor e alguns jogos da seleção. No mais, nada. Baseado naquela velha questão que se pergunta ao desocupado que está perturbando você: ¿você não tem o que fazer, não? Vá lavar uma trouxa de roupa.¿, eu poderia me ocupar. Nem isso eu tenho coragem. A casa está uma bagunça, pior que nos meus tempos de solteiro. Pilha de roupa para lavar e passar, poeira em todos os cantos, louça amontoando-se na pia... Se demorar mais, serei sufocado pela poeira. Se vocês vierem aqui em casa e não me encontrarem, podem procurar embaixo da montanha de poeira que se acumula na frente do sofá. O máximo que consigo fazer é me alimentar de forma bastante salutar como vocês devem imaginar. Só porcarias e fast-food. Engordei 5 quilos. A situação é grave. Faz uma semana que eu uso o mesmo calção velho e rasgado. Quando eu acabar nem mendigo quer mais. Nem de escrever eu tenho vontade. Quer dizer, eu até tenho, mas cadê a inspiração, a chama, a fagulha... é só cinza. Tudo é cinza, até o céu, que as vezes eu abro a cortina para olhar. Então se eu não escrever mais, é porque meu cérebro está de férias, saibam. Estarei muito ocupado não fazendo nada. A hora mais emocionante do dia até que minha esposa chegue é quando o telefone toca. Só o barulho já quebra a minha rotina e me faz limpar a baba que insiste em cair da minha boca. Geralmente é serviço de telemarketing, me oferecendo alguma besteira imperdível. E eu fico explicando com pormenores porque que eu não quero aquele produto até eles desligarem. Mas não pensem que estou reclamando. É só um desabafo, uma vontade louca de voltar a trabalhar que daqui a pouco passa (com certeza). Enquanto isso vão trabalhando aí que logo, logo alcanço vocês.

O agudo
Bruno Magalhães
23/01/04

postado por: RODOLFO TORRES 5:36 PM


Comments: Roleta Russa dos anjos

E comecei a tirar pétalas de uma rosa com número ímpar naquela sentença sentimental de bem-querer. Num jardim que acreditava nunca precisar sair, arrancava partes de todas que achasse para anular o efeito das primeiras, nessa hora dilaceradas como soldados em campos de batalha antigos. Minha ânsia era conseguir afeto da maneira inicial, mais fácil e de resultado previsível. Não mais bastava as de casa; eram necessárias as da rua, das praças, do colégio, dos acostamentos, da igreja e casa de parentes. Quando já fazia buscas entre as preferidas de minha mãe, como um bicho que chafurdava entre o vermelho, amarelo e branco; surge minha mãe, que em seu direito de mãe dá-me uns tapas por destruir suas plantas. Nunca entenderia ela que não estava fazendo aquilo achando que era um aventureiro das selvas que procurava um tesouro escondido. Procurava jeito de acabar com um "bem-me-quer".

postado por: RODOLFO TORRES 5:36 PM


Comments: Amor Retribuído

A conheço desde que nasci, embora logicamente não me lembre de detalhes, quase sempre estive junto dela, exceto por alguns períodos. Mais precisamente dos primeiros dias de vida até os dois anos. Adorava a sua companhia desde a infância, e ao contrário da maioria dos adolescentes, queria que o tempo passasse devagar. Era como se os dias fossem curtos demais para nós. Já passávamos dias magníficos desde esta época. Quando comecei a conhê-la melhor à noite, senti que a queria para sempre. Dos três aos vinte e três anos, praticamente não deixei de vê-la por mais de quatro dias seguidos.
Apesar de não ter plena certeza do motivo, sempre me causava ansiedade a idéia de um dia estarmos longe. Sabia, mesmo no fundo do inconsciente que um dia isto iria acontecer, e fiz com que os nossos momentos fossem eternos enquanto durassem. Há quatro anos este dia chegou. Mesmo com promessas de voltar dentro de pouco tempo, para me entregar totalmente a nós, ela parecia não acreditar, e me dizia que muitos já disseram a mesma coisa, e nunca mais voltaram, pois haveria outra a qual os atrairia pelos motivos mais fúteis e banais, sem um real sentimento envolvido. Confesso que tive realmente outra nesses anos, mas sempre fui fiel a ela em pensamento. Esta outra nunca chegou perto de me convencer a não voltar.
A cada dia pensava nela e refazia a minha promessa. Nos nossos encontros anuais ou com sorte semestrais, nunca me dediquei ao nosso relacionamento, na verdade outras coisas se faziam mais importantes, no meu planejamento de voltar para ficar com ela. Agora pude demonstrar o quanto a amo, pois nunca tive tanto tempo junto dela como no começo deste ano. Foram quinze dias perfeitos, de cumplicidade e juras de amor eterno. Como que pressentindo que eu sairia sorrateiramente, nos últimos dois dias ela começou a chorar. Sempre fui de esconder o que sinto, as vezes em doses altas de auto repreensão, ao contrário dela, que demonstrou o quanto somos importantes um para o outro. Vertendo lágrimas inicialmente discretas, que se consolidaram desde o dia da minha partida. Desde então não para de chover em Natal.
Do aditor
GustavoGT
SP 22/01/04

postado por: RODOLFO TORRES 5:36 PM


Comments: CONCUBINATO SOLAR

Nunca entendi porque na BR 101, entrada da cidade de Natal, há uma placa que diz: "Natal, a Noiva do Sol". Para mim é um contra-senso, pois, quem mais tem direitos de matrimônio com o nubente em questão é a senhorita Lua. Afinal de contas, está lá há muito mais tempo. O safado do Sol já enrola a Lua nesse noivado há alguns milhões de anos. Nada mais justo do que declarar a Lua como legítima noiva e prometida para casar com o partidão Sol, senhor de respeito e enxuto (seco até), mas muito fogoso pelo que me consta. É verdade que a senhorita Lua não é mais aquela menina de outrora e, que o Senhor Sol não me escute, nem virgem ela é mais; um ou dois homens já andaram passeando por lá. O segundo até ficou doido porque queria ser o primeiro. Mas mesmo assim ela tem direitos adquiridos, quase um uso capeão. Com certeza, se botar na justiça, a Lua leva tudo que o Sol tem, além dos discos de Chico Buarque e alguns cinturões de asteróides. É isso mesmo, depois de tantos serviços prestados. É verdade que eles quase nunca se encontram, mas quando acontece, a luz se apaga e só Deus sabe o que rola. Até os passarinhos vão dormir com vergonha. Natal, que é muito menos casta que a senhorita Lua, além de todos os de casa, adorava os americanos (se bem que a Lua também gostou), agora acolhe principalmente os portugueses e escandinavos. E sempre cabe mais um. Por mim, Natal ficaria com o honroso título de "Amante do Sol". Mas de forma oficial e legítima, sem segundas ou terceiras, com direito a exigências e tudo o mais. Assim, todos nós seríamos confirmados o que já somos: fiéis súditos do Rei-Sol.

O agudo
Bruno magalhães
21/01/04

postado por: RODOLFO TORRES 5:35 PM


Comments: Seis professores no juízo

"Faça um pedido"! Eu responderia: "Gostaria de ser lembrado como um homem que escreveu sobre o Alecrim Futebol Clube". Provavelmente o gênio desdenharia do meu pedido. E como o gênio não nos acompanha após o pedido, gostaria mesmo que ele ficasse trancafiado naquele bule que costumam chamar de lâmpada. Fique por lá e me deixe com meu pedido ridículo. Chovia muito nesse fim de tarde por aqui. Saio de um consultório médico, onde o profissional que sabe dos olhos constata que tenho que utilizar óculos. "Para descanso e por desencargo de consciência". Quando falo que chovia muito, na verdade uma garoa chata que nada interfere no clima quente; apenas aumenta a umidade. Ainda falerei da umidade... Como é bom respirar água em seu estado gasoso! Vou para a Deodoro, numa loja de material esportivo ao lado do CIC (Colégio Imaculada Conceição) chamada Sport Real. Minha Carla pergunta ao vendedor se lá eles vendem a camisa do Alecrim. "Tem"!, responde o vendedor entusiasmado, já baixando aquele ferro sanfonado que protege as lojas pela noite. Não há estacionamento. Retorno. Minha Carla fica no carro. Compro o manto alvi-verde. O vendedor me confessa, baixinho, que lá é o único local que o manto é vendido. Declara que o dono é alecrinense, que o técnico do Alecrim esse ano era técnico da seleção brasileira de futebol de praia e que o time estava "trincando" para retornar ao estadual. Volto para o carro. Minha Carla declara que a camisa é mais bela que a do América. Poucas horas após, amigos me convidam para uma partida de sinuca num bar maravilhoso que desconhecia: Snoker bar (ou algo assim). Em frente à igreja de Candelária. Ambiente maravilhoso. Duas mesas de sinuca profissional. Comida excelente. Atendimento primoroso. Quando lá chego, adequadamente vestido, encontro os amigos. Vou jogar sinuca. Perco. Volto à mesa. A casa fica mais vazia. Volto ao jogo. Permaneço. Após algumas doses do saudoso "professor", quando não mais me importava se iria ganhar ou não; surge o dono do bar com algo nas mãos. Nessa hora, a mesa ao lado estava ocupada por antigos natalenses que ouviam e cantavam bolero. Um deles perguntou para mim, não sei se antes ou depois do dono do bar aparecer, se eu era da família dos "Dantas". "Não sou"... O dono do bar mostra, profético, um ingresso datado de 1986. O jogo era Palmeiras e Alecrim. Para completar o caráter dramático de sua oratória, ainda diz que ninguém em Natal possui outro. Na hora pensei que aquela peça poderia ser o primeiro componente do museu do Alecrim F.C. Olhei, toquei, ... Ele volta para suas tarefas, quando lembro de perguntar o placar do jogo. Já na cozinha, olhando para baixo, declara a derrota por quatro a zero. Minha camisa rendeu, no bar, uma rodada de bebidas por conta da casa, um companheiro nas arquibancadas do Machadão e a certeza de que minha paixão é antiga, como as boas coisas da vida, como naquele tempo em que existia algo digno de comemoração.

postado por: RODOLFO TORRES 5:35 PM


Comments: [20.1.04 10:00 PM | RODOLFO TORRES]
Aparência é tudo

Sempre me deparo com uma cena interessante, a poucos metros do trabalho. Uma senhora, sentada na calçada, pedindo esmolas. Até aí nada mais corriqueiro e banal, principalmente por estes lados.
Deve ter em torno de quarenta e poucos (talvez muitos) anos. Amputada de uma das pernas, ou será das duas? ... não sei, a pressa até hoje me impediu de confirmar esta informação. Daquelas pessoas bem nutridas, não chegando a obesidade, mas que trava lutas contra a balança. Como tal, se veste dignamente, sem luxos ou exageros, serenamente, com certeza bem melhor do que eu ao sair de certos plantões. Coloca sempre à sua frente um isopor, com uma faixa de plástico amarela sobre o mesmo, onde está escrito, em um português correto e direto, o seu pedido. Talvez por isso mesmo esta senhora nem se dê ao trabalho de observar o movimento ao seu redor, pois pelo menos pela manhã, no horário em que a vejo, está concentrada, na maioria das vezes lendo algum livro, ou fazendo tricô.
No começo me surpreendia com a quantidade de moedas que estavam, todos os dias, colocadas à suas frente. Na verdade não considerava aquela senhora com uma pedinte. Às vezes ela parecia não estar ali, era uma figura fora de foco, ou sem relação com o ambiente. Em outras, a achava envergonhada de tal situação, sem a coragem de observar o mundo cruel a sua frente, sempre de cabeça baixa. Já cheguei a antipatizá-la, como se a mesma menosprezasse os que ali passavam. A cada dia o meu sentimento em relação ao fato muda.
A única coisa de concreto é que ela, com certeza, tem das mais altas rentabilidades em seu ramo de negócio. Certamente poucos conseguem ganhar a quantidade de moedas, em um dia, que já vi sobre seu isopor. Creio que a resposta esteja na sua aparência. Ela não causa asco, como muitos, nem medo. Pela sua serenidade, os nossos temores em relação a situação diminuem. Nunca a imaginaria pegando o seu "salário" e trocando por drogas, ou bebida. É a nossa dura realidade ... até para pedir esmolas, é bom caprichar na aparência.
Do aditor
GustavoGT
SP 20/01/04

postado por: RODOLFO TORRES 5:35 PM


Comments: Taxi?

Como todo bom neurótico do Tipo Obsessivo-Compulsivo com traços de transtorno do comportamento tipo distúrbio intermitente do humor (maníaco-depressivo), sou avesso, na maioria das vezes, a situações imprevistas, neste ponto se incluindo as perguntas lancinantes. Não sou fã das mudanças fugazes de conduta ou de planos, principalmente no que se refere ao meu dia-a-dia. Notem os confrades que só nós, neuróticos (quase loucos), somos capazes de nos definirmos tão bem.
Ainda sentindo os efeitos da falta de Dióxido de Carbono (ou excesso de oxigênio) no cérebro, condição incompatível com a esquizofrenia e infarto do miocárdio, saía distraído e parcimonioso do metrô, em direção ao meu apertamento. Ao dar o primeiro passo (com o pé direito) na rua, ouço: "Táxi???".
Não foi simplesmente uma pergunta, foi uma imposição. Eu, mero transeunte, já estava praticamente dentro do taxi. Pelo nível elevado de abestalhamento em que me encontrava, associado ao imprevisto da situação, parei em frente ao "dono do meu destino". Fiquei imóvel em sua frente não sei por quantos segundos (ou minutos), pois a falta de dióxido de carbono nos priva da precisão temporal. Estava pasmo com a violência da ordem, mas ao mesmo tempo irritado. A conjuntura disso me deixou sem saber o que dizer.
Primeiro pensei em ignorá-lo, pois estava a poucos metros de casa. Depois pensei em despejar nele toda a minha indignação pela petulância do mesmo. Por certo tempo achei realmente que tinha que pegar aquele taxi, para onde não sei.
E quantas vezes não somos levados a tomar importantes decisões pela força do imprevisto, provocando o muitas vezes irresponsável improviso. Quantos de nós já estiveram tão próximos de seu objetivo e entraram no primeiro táxi que lhe abriu as portas, sem saber aonde ir. Pena que nem todos os nos levem para onde realmente queremos ou precisamos ir.
Do aditor
GustavoGT
SP 19/01/04

postado por: RODOLFO TORRES 5:35 PM


Comments: Gorjeta Selvagem

Já pelas duas horas da tarde, nada mais justo para um indivíduo do que uma pausa para o almoço. O que deveria ser uma simples escolha de mesa em um restaurante se transformou em um espetáculo interessante, se não trágico.
Presenciei por várias vezes uma disputa, não obstante ferrenha e muitas vezes desleal, por clientes, entre estabelecimentos vizinhos. Mas esta foi estranha, talvez sempre ocorra, porém nunca a vi com tamanha ferocidade. Fui vítima desta batalha travada por garçons do mesmo restaurante, ouvindo propagandas (na maioria enganosas) sobre esta ou aquela mesa, desde "aqui é mais agradável", até "nesta mesa o ar condicionado funciona melhor".
Não consegui me concentrar plenamente no almoço, e pasmem, era frango. Comecei a observar o movimento desenfreado e neurótico dos garçons atrás de cada cliente que entrava. E ainda bem que o mesmo ocorria com todos os clientes, pois cheguei a pensar que haviam me confundido, talvez com algum jogador de Golf famoso, o que justificaria tamanho empenho deles.
Após vencida a batalha, restava aos garçons perdedores o consolo de perturbar o próximo cliente, de maneira acintosa e incômoda. Do garçom vencedor, após devidamente acomodados na "sua mesa", não podíamos esperar nem um milésimo da prestatividade demonstrada segundos atrás. É mais uma face do capitalismo selvagem.
Do aditor
GustavoGT
SP 18/01/04

postado por: RODOLFO TORRES 5:35 PM


Comments: Cala tua mão, Ariano

Há quem acredite que findando determinado projeto, sua vida não terá mais sentido, e a conseqüência natural dessa falta de rumo é a morte. Esse é um caso contado por Ariano Suassuna de um homem que nunca termina a reforma de sua casa, pois, para ele, quando a última mão de tinta passar pela último local de tijolo explícito, uma mão fria tocará em seu ombro e ao olhar para trás, uma moça pálida o convidará para um canto de parede e lhe beijará. Talvez seja esse o motivo para que Ariano não termine seu último livro, que espera as últimas palavras suas. E lá vou eu dar conselhos a Ariano Suassuana... Em se tratando de livros, caro Ariano, quem morre não é o escritor. O leitor é quem fica órfão de si. Quando se conclui uma leitura na qual nem olhos piscam, quem morre é o leitor. E essa morte começa quando o peso na mão esquerda começa a ficar maior. No último capítulo, cada sentença é uma despedida. As páginas finais são um funeral. E quando se alcança a pontuação última, pergunta-se: "E agora ?". O escritor estará imortalizado na primeira página e nas primeiras também. Mas para que não sejas o pior assassino em série que esse país conheceu, melhor que não termine o livro. Afinal, quando se chega ao último ponto final de uma obra tua, uma mão fria pousa no ombro de cada leitor...

postado por: RODOLFO TORRES 5:34 PM


Comments: Que Pressão

Poucos podem imaginar a pressão que me castigou, vinda de mim mesmo, por não poder escrever durante estes quinze primeiros dias do ano. Estava, como os demais confrades, em longínquos e paradisíacos lugares, que de tão pouco explorados, não nos permitiam o simples gesto de se utilizar da internet. O máximo que me era possível, o uso do telefone celular, se fazia factível de modo precário e intermitente.
Essa pressão só pode ser comparada àquela exercida por alguns admiradores do nosso site, que exigiram a elaboração, da minha parte, de uma crônica entitulada: "Minhas Férias".
Recorrendo ao direito da livre escolha, não entitularei esta do modo sugerido, mas se faz mister que fale aos confrades algo a este respeito, retornando honrosamente aos saudáveis hábitos da escrita.
Nos últimos quatro meses de janeiro da história da humanidade, este foi o primeiro no qual não trabalhei integra e forçosamente. Férias são férias, mas nenhuma se compara àquelas de Janeiro. Aqueles que pensarem de modo contrário, nunca tiveram realmente férias na vida. Falo isto porque, ao retornar ontem para São Paulo, notei que estes quinze dias, apesar de alguns compromissos profissionais e conversas bastante sérias, foram maravilhosos, talvez os melhores dias de férias que tive desde que me formei.
Como todas as coisas boas, o tempo voou, e na velocidade da luz. Muito que teria e deveria ser feito não foi. Muitos amigos que mereciam uma visita ou simples telefonema não o tiveram. Locais que acrescentariam beleza e história aos meus olhos não tiveram esta oportunidade. Nem a nossa idéia de fugir por uns dois dias para uma prainha longe e pacata se consolidou (aqui faltou tempo e vontade).
A não ser que marcianos canibais e esquizofrênicos (verdes, com bolinhas azuis apenas na nuca) invadam e terra (montados em avestruzes), retornarei ao meu lar e a minha gente no início do próximo ano. Até bem pouco tempo pensava: Só falta um ano. Agora penso: Ainda falta um ano. Quem manda, no meio do inferno e caos, redescobrir o que é viver.
Do aditor
GustavoGT
SP 16/01/04

postado por: RODOLFO TORRES 5:34 PM


Comments: Metrônomo das vias públicas

Já fiquei irritado, e muito, com os detentores do ritmo certo. Achava uma agressão, uma ofensa, aquelas carroças que teimavam em ensinar aos motoristas o passo saudável, mesmo que no asfalto. O fogo saltava das minhas ventas quando as encontrava, afinal minha pressa era mais importante, mais urgente. Mas notei que na verdade minha raiva é fruto de um despeito por não ter um único cavalo que me leve. No meu caso são vários que não posso tocar. Nem sequer sei suas cores. Meus cavalos, que não são meus, são roucos, não comem na minha mão, não amam, nem muito menos sabem meu cheiro. São acordados e adormecem com uma quebrada de um pulso qualquer. E como é bom poder dividir um espaço fadado à impessoalidade com várias carroças. Só hoje foram quatro. Que apareçam mais carroças. Quase esqueço das bicicletas. Como seria triste passar pelas ruas e não ver aqueles trabalhadores voltando para qualquer lugar em sua bicicleta no final da tarde e imaginar como é seu dia, servindo de consolo para que suportemos mais um nosso. Aquele homem que num sinal fechado fica ao seu lado e coloca o pé no chão, e que provavelmente terá uma vida mais saudável do que os equinos obesos entre um banco e um volante.

postado por: RODOLFO TORRES 5:33 PM


Comments: O ninar das folhas

Duas árvores fazem parte do meu adormecer. Quando abro as janelas de meu quarto, vejo apenas uma. A outra é visível do quarto ao lado, que é do meu irmão. Vejo um pé de jambo e ouço uma palmeira do Piauí que causa admiração em várias pessoas que entram por aqui. Seu caule só sai do chão aproximadamente aos vinte anos de idade. Por enquanto, só folhas brotam da terra a uma altura de cinco metro mais ou menos. É uma espécie de palmeira imperial do Piauí, terra da minha mãe. E quando deito na rede de meu quarto, com as janelas devidamente abertas, sou embalado pelo som dessas duas plantas que cantam por meio do balanço de suas folhas. Choveu pela madrugada e quando os pássaros despertavam nos fios molhados dos postes, recebiam um vento de pós-chuva que garantia um acompanhamento à cantoria de toda manhã, seja pelo som do próprio vento ou pelas folhas. Há quem prefira acompanhar esse evento de bom-dia ao sol quando acorda. Só me sinto autorizado a dormir quando pássaros, vento e folhas trocam de turno comigo e acalantam uma rede que range...

postado por: RODOLFO TORRES 5:33 PM


Comments: Dentes escancarados por dólares escassos

Bebia com meu grande amigo Rafael Bezerra em sua bela casa, equipada recentemente com um maravilhoso campo de futebol, harmonicamente gramado e com um espaço privilegiado. Recebi uma intimação (na verdade eu me convidei) para jogar futebol lá e espero que ainda essa semana tudo esteja nos conformes. E enquanto bebíamos e conversávamos sobre propaganda, surge um casal de sapos que pularam na área e por lá ficaram. Um em cima do outro, dando a entender que aquele que estava em cima era o macho; e o debaixo, fêmea. E por lá permaneceram bons minutos. Fui olhar mais de perto com um receio desses bichos, afinal escutava desde garoto que eles jogam um "leite" em quem se aproxima. E caso esse líquido entre em contato com os olhos, o resultado é a cegueira. Olhei por alguns minutos, depois voltamos para a mesa, mas sempre olhando-os. Até que a fêmea, em seu pudor característico, começou a andar. E o macho não saia de cima. Foram para a grama. Perderam-se por lá... Após muito tempo, quando nem mais lembrávamos dos sapos, fui jogar algo no jardim, quando os encontro na mesma posição. Queria muito uma metáfora não vulgar entre os sapos e nossa relação diplomática com os EUA. Mas não acho mais necessário dizer quem é quem após as camisetas entregues aos cidadãos dos Estados Unidos quando chegam ao Rio de Janeiro. Parece até que gostamos!

postado por: RODOLFO TORRES 5:33 PM


Comments: Na ponta dos pés, o braço ainda é curto

O vidro do carro estava embaçado com aquele vento que traz o sal e insiste em guerrear com o ferro, sempre vencendo. Quando chego ao sinal fechado, sem água para limpar os próprios vidros, um garoto como tantos outros, que aguardam não só naquele sinal de trânsito, mas em tantos outros; não só aqui, mas em todo o país, aproxima-se para limpar, já preparado para um "deixa para a próxima". Dentro daquele monte de ferro que anda e faz as pessoas melhores que outras, devidamente climatizado, como o mais desgraçado dos homens, peço que o menino limpe o vidro. Seu braço, de tão curto, não chegava ao final do vidro mesmo auxiliado com a haste de madeira. Ficou tão empolgado que apenas limpou o da frente. Voltou aos seus exibindo as moedas poucas que ofertei. E de tão triste por minha terra permitir que crianças que não têm o tamanho adequado para certas práticas, as pratique; tentei me consolar com aquele pensamento praxe, ou melhor, o pensamento alívio de consciência: a pobreza existe por culpa do pobre, não por nossa.

postado por: RODOLFO TORRES 5:33 PM


Comments: Presa em terra inimiga

Desde que fui ao Rio de Janeiro, em 2000, para uma ocasião pomposa, proclamava que seria magnífico morar por lá nas décadas de trinta a cinqüenta. Seria magnífico fundir numa cidade tão bela o distrito federal, com aquela relativa paz que nem sonhamos mais nos dias que vemos. Mas reformulo agora minha pregação. Seria magnífico morar em Natal nessa época. Tanto o era, que Cascudo jamais saiu daqui. Mesmo com o provincianismo de Natal; o que lhe salva em certas horas e o que lhe mata todos os dias, Câmara Cascudo declarava-se um "provinciano incurável". Alguns se "curam" dessa característica, mas a maioria apenas aceita e até gosta de sua condição. E naquela época dourada da nossa cidade Natal, onde o Carnatal não existia; o Trio Irakitan tocava nas rádios; as moças eram sinceras; os poucos carros não paravam nas esquinas para abrir o porta-mala e exibir aquele equipamento de som de uma potência tão grande que só se equivale à estupidez de seu proprietário; existia uma locomotiva "Maria Fumaça", muito pequena, simples, uma locomotiva natalense. Mas nossa. Pequena, simples, mas natalense. Cascudo e tantos outros devem ter andado em "Catita", como era carinhosamente chamada a locomotiva. O tempo passa e Catita ficou obsoleta. Nesse instante uma das características do povo de Natal aparece: Catita foi esquecida. Estava entregue ao tempo, passava os dias sob o sol (que não alivia) e à noite ao sereno. Catita estava quase em estado terminal. Quem entrava naquela porção de ferro desprezada, jurava ouvir, um pouco longe, os sons que em outras épocas animaram-na. Catita foi raptada por restauradores de trens e hoje está no museu ferroviário em Pernambuco. Não gosto nem de pensar nos bons tratos a que ela agora está sendo submetida...

postado por: RODOLFO TORRES 5:31 PM


Comments: Pouco tempo de ar molhado

Choveu quando cheguei. Rapidamente. Tão breve que apenas deixou aquele cheiro gostoso de sal molhado por muito pouco tempo. Estou em casa. Sonhei com esse momento por dias e mais dias; e quantos dias imaginarem. Ainda estou me readaptando. Mas não senti o ar molhado, como disseram que sentiria. Fala-se que quando um natalense sai de sua terra e permanece por algum tempo (bom tempo) fora; ao retornar, o ar parece-lhe molhado. Quase como se estivéssemos respirando água. Mas o ar não estava molhado antes da chuva, quando aqui cheguei. Quem sabe a cidade não quis que eu me decepcionasse com ela. Fez meu gosto. Quando estava voltando, uma idéia fixa me acompanhava, como uma dor de dente horrorosa. Queria sentir que no meu lugar, o ar é molhado, salgado e limpo. Mas não senti muita diferença. Na verdade, só quando fui à praia. E confesso que não prestei atenção quando respirava. Olhava para o mar, sentia aquele vento todo; que antes me incomodava e que agora quero lhe dar o maior dos abraços. A cidade quis me enganar. Providenciou uma chuva para molhar o ar e não me deixar frustrado. Por muito pouco tempo o ar me parecia realmente molhado. Prestava atenção quando respirava porque o que entrava nos meus pulmões era ar molhado, assim como me disseram que era o ar da minha terra. Já posso dizer que respirei as lágrimas dessa cidade.

postado por: RODOLFO TORRES 5:31 PM


Comments: Não é a Cidade

Para quem está acostumado com a correria do dia-a-dia, ficar mais de vinte e quatro horas seguidas em um apertamento de 50 metros quadrados é angustiante. Como isso é raro, não sei muito como lidar com a situação. Me encontro neste grupo de neurótico-histérico-compulsivos habitantes de uma metrópole.
Como que numa fuga, saí para tentar visitar o centro cultural, próximo a minha casa, pelo qual já passei inúmeras vezes, sempre apreciando e declamando que algum dia iria conhecê-lo. Hoje vi que era o grande dia, então parti a caminhar até o local. Como nada é perfeito, o mesmo se encontrava fechado neste dia entre feriados.
O ocorrido não me abateu, muito pelo contrário, segui andando por alguns minutos, pela calçada de uma das grandes ruas de São Paulo, extremamente movimentada em dias normalmente anormais de trabalho. Mas como se trata de um quase feriado, em período de quase férias, as ruas estão (ao meio dia) quase desertas. A sensação que tinha era muito boa, tudo parecia maior e mais lento, até o tempo.
Já morando há quatro anos por estas terras, experimentei outras datas de pouco movimento, e chego cada vez mais a conclusão de que o grande problema não é a cidade, e sim a quantidade de pessoas. Sem aquele ritmo frenético e desenfreado da rotina, é gostoso caminhar por estas ruas, as mesmas que há uma semana estavam fervendo de gente. Até dirigir pelas grandes ruas quase desertas é um ato agradável. A cidade parece maior ainda, se não estamos em um "formigeiro".
Tanto caminhei que cheguei a lugares nunca antes imagináveis para um pedestre, com certeza não atingível em se tratando de um dia normalmente anormal de quase caos e tumulto. Até me empolguei e me imaginei correndo a São Silvestre, outra dessas coisas que digo que um dia farei, pena é que lá também tem muita gente, é um quase caos, e que tumulto. No dia em que inventarem uma São Silvestre para quinze pessoas, estarei lá.
Do aditor
GustavoGT
SP 26/12/03

postado por: RODOLFO TORRES 5:30 PM


Comments: Vai meu irmão

No regresso ao Brasil, naqueles dias de incertezas e repressão de idéias, Toquinho se despediu de Chico Buarque, amigo e companheiro de "exílio" em Roma, sem saber que ali nascia uma bela letra de música. A música fora feita por Toquinho dias antes, como que prevendo a vinda de uma grande letra. O Samba de orly (Vai meu irmão, pega esse avião, você tem razão, de correr assim desse frio mas beija, o meu RJ ...) é um dos meus sambas preferidos. Segundo o próprio Toquinho, essa letra foi composta aos prantos por Chico Buarque após a partida do amigo para o RJ.
Há poucas horas embarcou para Natal o meu irmão, após oito meses aqui em São Paulo. Ainda não estou vertendo lágrimas, mas também digo: pega esse avião, você tem razão .... (até frio fez hoje, o que não é comum nessa época do ano).
No último abraço de despedida, ouvi: "Muito obrigado, você foi mais que um irmão!". Talvez não Rodolfo, acho que na verdade, nesses oito meses, realmente podemos é "ser irmãos". Foram os momentos em que estivemos mais próximos, e com certeza um período de muito crescimento para você, enquanto pessoa e profissional, e isso me alegra muito.
O que começou com uma brincadeira entre eu, você e Bruno, hoje é para mim motivo de grande alegria. Se me falta qualidade, sobra entusiasmo. E é pela confraria que te digo o que não consegui quando te dei aquele abraço: Boa viagem.
Do aditor
GustavoGT
SP 25/12/03

postado por: RODOLFO TORRES 5:30 PM


Comments:
Once there was a way to get back home

Acordei e estava sem ressaca. Fiquei triste, pois faltava aquela sensação de mal estar que já me acompanhava nos dias pós-bebedeira. Estou ficando um bebedor experiente. Agora sei que entre um gole e outro, devemos tomar água, comer e manter intervalos regulares entre uma dose e outra. Caminhar ou dançar ajudam. Na celebração do Natal, fomos ao Terraço Itália, um restaurante num dos prédios mais altos daqui (o garçon falou que era o mais alto, mas não confiei). Como somos bobos. Pagamos uma fortuna e não foi bom. Preferia aqueles pratos simples e muita bebida barata, ao que passei ontem. A ressaca não me acompanhou hoje. Hoje deixarei alguns meses de convivência e relacionamento, não tão fácil; para trás, aguardando que o benefício a longo prazo seja maior que a desgraça imediata. O narrador se despede da terra da garoa, que deixará saudades, e muito mais alívio. O que mais desejo agora é ouvir a voz metálica da cabine dos pilotos: "Senhoras e senhores, bem vindos à Natal". Até a volta irmãos!

postado por: RODOLFO TORRES 5:30 PM


Comments: Snif-snif

Na redação da Caros Amigos, que no estilo arquitetônico se assemelha à da W/Brasil, por não possuir divisórias; ou seja, o patrão fica no mesmo ambiente do resto, existe uma mesa de sinuca profissional. Quando aqui entrei, meu maior sonho era jogar nessa mesa. Não queria publicar texto, perguntar qualquer coisa para gente famosa, nada disso. Apenas jogar várias partidas de sinuca. Dentro de alguns instantes começará minha última, não diria partida, visto que serão várias, vez nessa mesa. A redação já está praticamente vazia. As meninas mineiras da arte se foram. A assistente de redação também. Estou entre homens mais velhos. O mais novo deles tem quase sessenta anos. E vamos jogar sinuca. Formo dupla com o revisor, Mauro Feliciano, mais conhecido como Maurão. Se algum dia minhas letras mudarem de endereço, para as páginas impressas, gostaria que ele fosse o revisor. Quando a última partida de sinuca terminar, deixarei o melhor ambiente de trabalho do qual já pude fazer parte. E quem já teve algum amigo na vida sabe que, na amizade, as brigas são fundamentais. Não é o universo cor-de-rosa trabalhar aqui; apenas é o que de melhor poderia ter encontrado. Outro dia apareço, Caros Amigos.

postado por: RODOLFO TORRES 5:29 PM


Comments: Doce regresso

Como é gostosa a sensação de voltar. Voltar é sempre bom. Para qualquer lugar, para qualquer coisa, para qualquer alguém é maravilhoso. Até para ninguém é bom. A volta sempre completa um ciclo. Tudo que vai, volta. Se ir é bom, imagine voltar. Voltar é melhor do que ir. A expectativa gerada na ida só é superada pela ansiedade da volta. Estou há meses na expectativa. Há 1 ano que não volto. Um longo ano. Para muitos esse ano passou correndo. Não para mim. O tempo parava sempre que eu lembrava o quanto faltava para voltar. Um ano, um mês, um dia... é sempre longa a espera de quem deseja. Escrevo este faltando uma hora para o meu regresso. Longa hora que teima em não passar. Não é 1 hora, são SESSENTA minutos. Três mil e seiscentos segundos. Conto-os um por um. Mas quando chegar, tudo será doce, será vida, felicidade. Mais, satisfação e preenchimento. Um dia eu fico, mas nunca deixarei de voltar.
O agudo
Bruno Magalhães
23/12/03

postado por: RODOLFO TORRES 5:29 PM


Comments:
APRENDENDO A ANDAR
Para onde correm as criancinhas?

Vai em desabalada carreira a procura de algo novo. Sempre novo; terminantemente novo. Sua cabeça desloca para frente, muda o ponto de gravidade, seu corpo é impulsionado avante como um pêndulo desequilibrado. Suas pernas parecem que não vão dar conta de levar o resto. Agem por reflexo, instintivamente. Seus braços, descoordenados, mais atrapalham que ajudam. Como não cai? Sua única defesa são alguns poucos dentes que se abrem num sorriso sincero, de puro êxtase. Os olhos apertados de quem não sabe aonde ir. Cabelos ao vento como um corcel. A brisa acaricia-lhe a face. Emite sons de contentamento. Quer ir, não sabe para onde. Também não importa, só importa ir. Não importa com quem. No subconsciente, sabe que nunca vai estar só; haverá sempre alguém por atrás, dando suporte. Seguram-lhe para não ir longe. Por si, iria. Quisera eu ter essa coragem de correr sem rumo pelo mundo, sem receios, com apenas um sorriso no rosto, armado só com esperança e tendo como recompensa tão somente o descobrimento.
O agudo
Bruno Magalhães
23/12/03

postado por: RODOLFO TORRES 5:29 PM


Comments: Que Nó

O ser humano é dotado da incrível facilidade de aprender, pois todos os animais conseguem aprender, mas com a nossa facilidade não. Somos inteligentes e extremamente capazes de incorporar novos conceitos e habilidades ao nosso arsenal de aptidões.
Porém, já é sabido que não é apenas necessário querer para aprender, pois apesar das características acima, se exige uma certa tendência já genético-divinamente determinada para tal aquisição. Isto é válido para tudo, e não só para os esportes e para a dança, como pode parecer aos mais simplistas.
Na minha determinação cromossômica, foi esquecido aquela sequência pequenininha de letras que diria mais ou menos assim: "serás capaz de aprender, mesmo que de forma sofrida e demorada, a dar um nó de gravata. Não exijas porém que este seja digno de elogios. Esta sequência genético-divina só te dá o direito de fazê-lo, para não passares vergonha perante os demais de tua espécie." Vejam os caros confrades que não exijo a sequência genética super-especial, que garantiria o domínio desta arte, com maestria e criatividade, sendo capaz de aprender os vários tipos de nós, e quem sabe até inventar alguns.
Tenho já a plena convicção que nunca aprenderei tal ofício. As minhas gravatas tem o mesmo nó desde a sua compra, e ai delas se este se desfizer ou desaparecer. Recentemente fui ao Rio de Janeiro e esqueci a gravata. Precisava desesperadamente de uma. O nobre colega com quem estava dividindo o quarto do hotel, prevenido a um nível já de neurose, trouxe consigo duas gravatas extras, para qualquer eventualidade, como por exemplo, o surgimento de um incrível monstro devorador de gravatas ou algo parecido. Gentilmente me ofereceu uma das duas. Não tive opção, fiquei com a que tinha o nó já feito. Graças a Deus era a que mais combinava (ou tentava combinar) com o resto do vestuário.
Não me interpretem como preguiçoso ou algo do tipo. Eu tento (ou tentava) virtuosamente aprender. Já até recortei e guardei na carteira até os modelos de nós, para tentar decorá-los, já que aprender é difícil. O último ato de tentativa foi em programa de televisão, aí foi quando me dei contar de que não tem jeito.
Mas continuarei tentando, pois no local do dito gene em falta, Deus colocou um que diz mais ou menos assim: "Existirão algumas poucas coisas que não terá a menor capacidade de aprender, como por exemplo, dar nó em gravata. Mas nunca serás capaz de desistir, e o pior continuarás tentando e se lamentando pelo resto dos seus dias, inclusive em crônicas destinadas aos seus amigos mais próximos, até pela internet".
Do aditor
GustavoGT
SP 21/12/03

postado por: RODOLFO TORRES 5:29 PM


Comments: Município mulher que dorme

Já nasceu mulher. E como tal, tem seus caprichos e suas vontades difíceis. É esnobe e carrega um orgulho impróprio. Nosso relacionamento é complexo. Quando estou nela, desdenho-a; longe dela, proclamo um amor não correspondido. Temos nossos momentos de casal. Mas a maior parte do tempo, nem dirigimos palavras um ao outro. Mas ela é mulher. Sei que está sentindo saudades e mesmo assim não fará festa quando sentir que estou perto. Vai clarear como se nada tivesse acontecido, como se seu filho mais apaixonado não lá pisasse. Sou o seu melhor amante à distância. Chorei pela primeira vez perto do mar. Carrego sua imagem como a verdadeira vista de qualquer olho. Ao lado dos hotéis caros, saindo da parte antiga e indo ao novo; vejo-a deitada. Olha para outro lado. Se bem a conheço, deve ter alguma vergonha. O Careca é seu braço que repousa sobre seu ventre. O seio direito é muito bem definido. Seu rosto olha para a esquerda e não há quem o veja. Os cabelos longos e verdes estão derramados e se encontram com o mar. Minha cidade é uma mulher deitada e de rosto desconhecido. Ainda dorme com o pudor de uma debutante. Ainda sonha em se levantar e mostrar sua face.

postado por: RODOLFO TORRES 5:29 PM


Comments: O coral, e muita coisa, passou

A ladeira que subia pela madrugada, que sempre subo pela madrugada, estava a mesma. Silenciosa, mas o meu temor era que a qualquer momento aparecesse um monstro ou assombração e dançasse para mim, especialmente para mim. Divido-a em guaritas, onde homens solonentos passam suas noites e vidas. Acho que são quatro. É melhor ser atacado ou assaltado com alguma testemunha, mesmo sabendo que isso não vai evitar o desastre se por acaso ele quiser fazer parte do meu fim-de-noite. Ao subir mais uma vez a ladeira da Nicolau de souza Queiroz, antes de chegar ao segundo posto, ouço vozes cantando. Algumas mais graves formam a base, as mais agudas fazem o papel de "lençol". Assim a música, com as diferentes vozes e tons toma um formato belo e inegualável de coral. Um coral na madrugada de São Paulo, cantando músicas típicas, para outros povos, de natal. Quando percebi que tinha que atravessar aquela gente toda cantando, no lado oposto da calçada, fiquei meio sem jeito. Baixei a vista e mesmo andando em um espaço público, a sensação era de macular um local reservado ao coordenador das vozes. Passei. Pena que de onde estava deitado não era possível ouvir aquelas vozes que cantavam nossas canções de natal, que já não sei mais se são nossas. Lastimei por adormecer longe de tanta coisa que gosto, tanta coisa que me faz bem. Caso eu novamente encontre esse coral da madrugada, ficarei observando-os, como sempre e tão somento faço. Observo, apenas observo!

postado por: RODOLFO TORRES 5:28 PM


Comments: Realidade Real

"Tarde paulistana, quente e abafada como quase todas do mês de dezembro. Naquele dia nem as chuvas súbitas e fugazes deram o ar de sua graça. Por entre os carros, em um trânsito infernal, me encontrava a caminho de resolver mais um dos muitos problemas que temos que solucionar no nosso tão cruel e desgastante dia-a-dia. Passo apressado em frente a um shopping center, que como todos nesta época do ano, se encontram lotados de pessoas preocupadas com as compras dos presentes natalinos, como que para sacramentar a boa ação do ano. Atrasado e lutando contra o relógio, tenho poucos segundos para se preocupar com o que ocorre lá fora, mas uma cena me chama atenção: um mendigo (típico, destes que estamos acostumados a olhar e não ver) cata algo no lixo em frente ao shopping, acha uma lata de suco, olha no seu interior rapidamente bebe o conteúdo da lata. Como que satisfeito e saciado, após beber algumas gotas do precioso líquido, devolve a lata ao lixo e sai com ar de vitorioso (até sorridente)."
Já estou, como quase todos nós, dessensibilizado para com o sofrimento alheio. Temos que vestir uma carapaça de resignação para sobreviver ao nosso tão injusto sistema. Mas há dois dias esta cena não me sai da cabeça, não só porque sempre encaramos os problemas dos outros como sendo exclusivamente deles. Acho que o que mais me marcou foi ver aquele mendigo fazendo algo tão simples e trivial, beber suco, de uma lata de lixo.
Ao vermos uma pessoa suja no chão de uma calçada, muitas vezes não temos a percepção de que ali está alguém que dorme (no frio), se sente sujo (mas não toma banho) e sente fome (e não come). No nosso inconsciente, não são pessoas com necessidades básicas. Ao vê-lo beber suco do lixo, fui puxado subitamente para a realidade, a real realidade das necessidades diárias, aquelas com as quais nem temos que nos preocupar. Quando falo dos nossos vários problemas a resolver, estes com certeza não estação na lista, é algo basal e superado. Mas existem e o mais interessante, na frente de um rico e endinheirado shopping center.
Do aditor
GustavoGT
SP 20/12/03

postado por: RODOLFO TORRES 5:28 PM


Comments: Muito traço pouco espaço

A ampulheta está com a areia quase que totalmente em sua parte inferior. Tudo fica mais rápido e urgente. Mas como é possível conciliar duas saudades? São Paulo está ficando no passado... E eu que me portava como um valente que levava a bandeira de um chão esquecido, que brigava contra aqueles que desconheciam minha origem; estou melancólico nesses últimos intervalos de incidência luminosa. Certamente sentirei saudades daqui. Mas não daria certo, por maior que fosse a tentativa de um êxito. Mesmo certo de que não sentirás minha falta, prefiro sair à noite, onde tudo é mais calmo e a partida fica menos dolorida. Vou embora e não voltarei, nos meus planos, a lhe pisar. Fica com aquela paz somente possível nos cartões de boas festas e vontades. Sei que nunca dormes. Abandonarei-te num momento de distração; ou melhor, num momento de ressaca. Mas sem tristeza, nem perceberás o meu partir. Volto ao meu refúgio e, como se fizesse alguma diferença para ti, lembrarei do que passei. Certamente serás protagonista em muitos sonhos vindouros; que, espero, sejam diferentes do pesadelo que é ser um habitante teu.

postado por: RODOLFO TORRES 5:28 PM


Comments: A fubica de Enoque

Quando era criança na cidadezinha que eu nasci, tinha
uma visão limitada e encantada da vida. Aquele era o meu
mundo. Para mim, os limites da cidade eram imensos, pois
era tudo que eu já tinha visto. E na minha cidade o
melhor que havia depois da festa de São João, padroeiro
da cidade, era o carnaval. O carnaval era ainda sem axé,
sem trio-elétrico, sem cordas, sem mamãe-sacode, sem
necessidade de organização central. Era só animação, só
alegria. Era carnaval de clube, com marchinhas e
fantasias. Os mais velhos iam para o baile da noite.
Inclusive meu pai que guarda até hoje o troféu de melhor
folião do carnaval de 1985, às custas de muitos
passinhos de lado. As crianças, como eu, participavam
das matinês, com direito a fantasia de super-homem,
confete e serpentina. O povo na rua fazia uma festa mais
bonita ainda. Espontânea, criativa. O principal pré-
requisito era a felicidade. O evento mais solene era
quando passava a escola de samba ¿Originais do Córrego¿,
com seus passistas, alegorias e bateria nota 10. A
marquês de Sapucaí era toda a cidade. Todos paravam para
ver e aplaudir. Mas o melhor da festa era a fubica de
Enoque. Enoque era e ainda é o dono de uma oficina na
minha rua, pai de um colega de turma, que não só
consertava carros como inventava maravilhas. Criou a
fubica. Era um carro velho, acho que uma rural, que só
tinha o banco do motorista, o eixo, os pneus e o motor.
Não havia lataria, nem portas, nem pára-brisas, nem
cobertura. Não puxava mais que 20 por hora. Atrás do
banco tinha uma carroceria sem paredes laterais. Ele
colocava a criançada da rua na carroceria e ficava dando
voltas pela cidade. A meninada levava as armas do bem do
carnaval que são revólveres de água e muita, muita
maizena e saía espalhando alegria por toda a cidade.
Havia um dispositivo engenhoso criado por ele que ao
juntar dois fios desencapados, ouvia-se o estampido de
uma pequena explosão. Depois da explosão, sempre vinha o
riso. Para mim aquele era o som do carnaval. Carnaval
sem explosão era como se não houvesse folia ou pierrots
e colombinas. São como os carnavais de agora. Hoje,
quando chega o carnaval, fico procurando o estampido da
alegria nas ruas, mas o som mais parecido é de tiro de
verdade. E depois dele nunca tem riso.
O agudo
Bruno Magalhães
19/12/03

postado por: RODOLFO TORRES 5:28 PM


Comments: Viagem de formiga

Estação da Sé. 18 horas. Formigueiro humano com muito
mais desorganização do que se formigas fôssemos. 1ª
missão: entrar no vagão do metrô. Pego a última porta
porque dizem que é a mais vazia. As riscas no chão
predizem onde a porta do metrô vai abrir. Tem umas 20
pessoas na minha frente e muito mais atrás. O alto-
falante anuncia: ¿mantenha-se atrás das linha amarela;
evite correr riscos¿. Ninguém respeita. O metrô chega.
Sente-se aquele bafo quente de ar sendo empurrado para
frente sem muito espaço. Atinge rostos já acostumados.
Pé-ante-pé. Passos curtos; progredi-se a uma velocidade
de alguns centímetros por minuto (assim como formigas).
Após alguns empurrões, acomodo-me confortavelmente em pé
no espaço reservado para mim. Aproximadamente, uns 80000
centímetros cúbicos (20 x 20 x 200 cm). Quer mais? É
muito espaço para uma formiga. Meu ticket dá direito a
isso tudo. E se for idoso, grávida ou deficiente, você
ainda pode sentar. É muito privilégio. Mas não é para
mim ainda. O alto-falante interno ressona: ¿não fiquem
nas portas do trem, não atrase a viagem¿. Ninguém se
mexe nem se abala. Não me seguro. Meu braço não chega no
corrimão do teto ou do lado. Também não precisa. Vou ao
sabor da inércia. As formigas do meu lado não me deixam
cair. Até porque não há espaço para cair. Um corpo
estendido no chão ou sentado ou debruçado ocupa um
espaço maior que o permitido pelo seu ingresso. Não há
espaço para cair. Não há espaço nem para pisar. Tem
neguinho só com um pé no chão desde que entrou. Sem
falar no último que entrou que com certeza está com o pé
preso à porta. Se a higiene e a educação permitissem,
não se acharia lugar nem para cuspir no chão. Aliás, eu
não sei qual a cor do chão do vagão do trem. Um jovem
sortudo, sentado em um macio banco de plástico, que
deveria estar vindo de outra estação, provavelmente da
primeira, é olhado constantemente pelas formigas. Os
insetos tem inveja do seu lugar e ficam torcendo para
chegar alguma velhinha para ele sair. A velha chegou e
ficou encostando a barriga grande no rapaz até ele
acordar e perceber que deveria dar o lugar a velha
formiga. Agora todos estava no mesmo nível. Nivelamento
por baixo. Alto-falante: ¿Estação A-na Ro-sa.
Desembarquem pelo lado esquerdo do trem¿. Estação final.
Próxima missão: descer. O cara que escolheu a porta do
lado errado é levado de costas. Outro que segurava no
teto segue com o braço para cima. Lá fora, um velhinho
descobre que aquela não era a estação que ele deveria
descer. Não conseguiu deter a onda de formigas. Passo
pela roleta. Missão comprida cumprida. Só falta vencer
os camelôs, panfleteiros e pedintes para chegar em casa.
O agudo
Bruno Magalhães
18/12/03

postado por: RODOLFO TORRES 5:27 PM


Comments: Avisa lá

Fala para o "pingüim" que fica na frente de um monte de instrumento caros que aquilo é apenas um estilo de regência. Não a regência em si. Diga que num pedaço de chão da América do Sul uns homens coordenam pulsações com um apito na boca e uma baqueta na mão. Enquanto o primeiro não sabe levantar quem o prestigia, o segundo faz com que o público encoste nos outros que estão parados apenas a observar. E isso contagia, é cármico. Os outros podem considerar a mágica como apenas uma representação exótica. Sorria e declare que o exótico ao mundo é o que nos faz chorar...

postado por: RODOLFO TORRES 5:27 PM


Comments: PARA QUE NASCER?

Nasceu num parto difícil onde foram gastas mais 90 horas de trabalho de parto, sob fórceps, depois de quase 10 meses. Mais um mês e não seria homem; seria jumento. Quase não chorou, não tinha forças. Foi criança mirrada, doente, subnutrida. Quando acabou a mamata nas tetas da mãe, foi embora sua única fonte segura de calorias. Passou então a viver dos parasitas que se alimentavam do seu corpo. Os vermes mais doavam que sugavam dele. Demorou a andar. Demorou a falar. Sua voz era o retrato fiel de sua figura abatida; quando tentava balbuciar alguma frase, sempre incompleta, mal se ouvia. Aos 4 anos já tinha tido mais de 4 pneumonias. Ficava mais no hospital que em casa. Aos 8 descobriu-se doença rara. Seu pulmão nunca mais prestaria. Nunca brincava na rua. Quando sonhava brincando com os amiguinhos, acordava com falta de ar. Mais meia hora de inalação para dormir. Conviveu com toda flora nociva que poderia. Teve sarampo, bexiga, tiriça, papeira e algumas febres terçãs ignoradas. Entrou na escola atrasado como sempre; depois dos 10. Dois anos depois, aprendeu a rabiscar o seu nome. Continuou sua luta contra a doença. Mas não podia tomar muitos remédios, tinha alergia. Descobriu quando ficou internado com uma meningite bacteriana. Teve alergia até ao anti-alérgico. Tentou sair de casa e foi atropelado; perna e cabeça quebradas, mais 20 dias de UTI e 3 meses de hospital. Saiu apenas um pouco melhor que quando entrou. Aos 18, virou homem e pegou sua primeira gonorréia. Nesse tempo já puxava de uma perna desde que a quebrou e o seu polegar direito havia sido trucidado por um moinho manual ensandecido. Após longos 25 anos, rendeu-se em uma guerra que não poderia vencer, parou de adiar o inevitável e entregou-se a um adversário imbatível. Suicidou-se de forma competente. Foi o único feito que conseguiu realizar com êxito do começo ao fim. Finalmente descansou. No seu cortejo, seguido por algumas testemunhas, ouviu-se: esse nasceu para morrer.

O agudo
Bruno Magalhães
17/12/03

postado por: RODOLFO TORRES 5:27 PM


Comments:
A cultura da esmola

Por todo lado se observa as famosas "caixinhas" de natal. Um complemento de renda no final do ano, conseguido com contribuições baseadas na caridade. Já que o rendimento é injusto, a fórmula encontrada para se conseguir um troco nesse período do ano é apelar para a boa vontade das pessoas. E a célebre frase pronta, antes do pedido, é: (quem quer que seja) deseja um feliz Natal e um próspero ano novo. São os votos de (quem quer que seja). E a caridade aflora. Esse "Natal sem Fome" nada mais é do que um pedido de esmolas feito por artistas. Uma campanha como o "Criança Esperança" não passa do reconhecimento público da incapacidade governamental de cuidar de suas crianças. Com apoio do Unicef. Uma mega-estrutura é armada, atores, cantores, Renato Aragão, e quem mais que seja dizendo: "Ligue e faça uma criança feliz". Sem falar no programa oficial do governo, o Fome Zero. Como se a fome soubesse contar... O mais contraditório é que a política econômica do goveno Lula se resume a arrecadar mais e mais para o pagamento de dívidas. A confiabilidade dos investidores no país vem antes dos milhões de estômagos de vento. Há quem atribua esse assistencialismo a herança Ibérica, católica. Gostaria de viver em um país que não recrutasse figuras públicas para pedir alimentos ou dinheiro em comerciais de televisão aos milhões que não têm nada para comer, e que não precisasse de um programa oficial de arrecadação de alimetos; como nos países de um pós-guerra qualquer. Aliás, gostaria de viver em um país!

postado por: RODOLFO TORRES 5:27 PM


Comments: Bocejos

Poucas coisas são tão contagiantes quando um simples bocejo, isso é universal, inerente a todos que se dizem da espécie humana. Acho particularmente que sou mais susceptível e influenciável do que a maioria neste aspecto. Se alguém bocejar a trezentos metros de minha pessoa, é fato consumado, logo estarei mostrando toda a minha arcada dentária. Se ouço apenas algum comentário displicente sobre bocejo, é também fato, estarei materializando o ato de bocejar. É provável que se alguém próximo pensar em bocejar, eu o faça.
Não falo isso aos confrades com rancor ou descontentamento. Adoro bocejar. Prolongo ao máximo este momento, aproveitando cada segundo deste momento único e imensurável. Treino há vários anos a melhor e mais prolongada forma de bocejar. É um exercício constante e prazeroso. É cientificamente comprovado que o bocejo é um ato de sociabilização. Para bocejar, o animal tem que estar relaxado, pois não faz parte do estresse (ou da reação de fuga e luta) o ato de bocejar. Com certeza a adrenalina é a mais feroz inimiga do bocejo. Já imaginaram uma zebra fugindo de um leão e soltando um leve e alegre bocejo?
Quando cito animais, quero exatamente lembrar que o bocejo não é exclusivo do ser humano. Os animais bocejam, e exatamente nos momentos de descanso e relaxamento. Sempre com aquela cara de "não tô nem aí". Para falar a verdade, nem sei se todos o animais bocejam. Já imaginaram a cena de uma cobra bocejando? Outro ponto que me intriga é se não foi permitido aos seres aquáticos esse belo hábito. Será que o peixe boceja?, não acho que combine com tubarões, por exemplo, mas para um peixinho de aquário não seria de todo feio.
Acho inclusive que o bocejo está associado ao ato de bondade, ou seja, aos animais malvados e sorrateiros(como a cobra) não foi permitido por Deus a regalia de bocejar. Como toda a regra tem exceção, o leão boceja.
Por falar em bocejo, já são quase meia noite, acho que vou deitaaaaar (bocejei).
Do aditor
GustavoGT
SP 16/12/03 (23:48h)

postado por: RODOLFO TORRES 5:27 PM


Comments: PT F.C

Um dia antes da eleição presidencial de 1998, recebi uns adesivos onde o presidente da República na ocasião "devorava" a universidade pública. Eram alguns adesivos, acho que chegavam a cinqüenta, não sei bem. Fui a um churrasquinho, onde diversas mesas postas na calçada revelavam a simplicidade do local, e começei a distribuí-los, achando que aquela atitude poderia surtir algum efeito. Explicava que se o atual presidente se reelegesse, a instituição pública de ensino superior estava fadada à falência. Mais parecia aquele beija-flor, tentando apagar sozinho o incêndio na floresta. Alguns olhavam, se divertiam com a caricatura monstruosa do governante; outros não davam a menor atenção. Não era apenas um eleitor do partido dos trabalhadores, era um torcedor, um beato. Achava que o mal do país era a ausência de seu principal representante no mais alto posto do executivo brasileiro. E não estava só. Milhares de fãs também achavam isso. Não tinha entrado em contato com Fernando Pessoa. Já dizia o poeta português que o sonho era apenas para ser sonhado; não exatamente nessas palavras, mas no sentido. Hoje existe um oco. Meu time está uma decepção. Aliás, não sou mais torcedor, crédulo ou beato desse partido. Sou um frustrado, um desiludido. Desertei da minha condição passada. O discurso de um "outro país é possível" está falido. Meu time ganhou o campeonato, mas que vitória indesejada! Certa vez, ouvi que o segundo lugar é o primeiro dos últimos. Seria mais feliz se meu clube de outrora sempre fosse o vice. No campo do "se", a felicidade é uma realidade.

postado por: RODOLFO TORRES 5:26 PM


Comments:
Cesta de Natal

Nada melhor do que receber uma boa notícia, principalmente quando menos se espera, aí é realmente delicioso. É como aquela hora que você coloca a mão no bolso da calça e acha um nota perdida (de preferência de muito valor). Pena que estes momentos são raros, mas estou em uma fase de receber boas notícias, e espero que isto dure só mais algumas .... décadas se possível.
Quando recebi a notícia, ou melhor, um "vale-cesta de natal", fiquei realmente contente, e comecei a imaginar o que me esperaria nesta cesta inusitada. Fora o fato de terem me entregue no último dia do prazo de quinze que eu teria para retirá-la, e a correria que isto causou, retirei a mesma e a trouxe para casa.
Ao abrí-la, aos olhos criteriosos e vorazes de minha esposa e de meu irmão (por sinal um talentoso escritor), não podemos deixar de fazer algumas observações e constatações.
É impressionante como estas cestas trazem coisas inúteis, como por exemplo lentilha. Não me darei ao trabalho de citar a indigna e totalmente dispensável presença de azeitona e panetone, mas isso é assunto para outra crônica ...
Até entendo que algumas pessoas suportem alimentos como azeitonas, ou achem emprego útil para coisas como lentilha. O grande problema na minha opinião é a quantidade absurda (em termos de variedade, deixe-se isto registrado) de produtos. É quase impossível que a pessoa consiga gostar de tudo que vem nestas cestas. Acho que deveria haver uma reformulação neste organograma para as cestas. Sou favorável a uma consulta prévia ao futuro desfrutador da cesta, com as opções disponíveis, onde o mesmo assinalaria os itens desejados. Logicamente programaria uma forma de solicitar os itens desta cesta de alguns dos meus inimigos. Acho que faltaria azeitonas e panetones ...
Do aditor
GustavoGT
SP 15/12/03

postado por: RODOLFO TORRES 5:26 PM


Comments: A gênese da discórdia é o que menos importa

Mais uma vez sou acordado com um telefonema para ficar sabendo do que acontece no mundo. Assim como no 11/09/01; Minha Carla ligou e resumiu em algumas palavras que Saddam havia sido capturado. Usei preto. E caiu bem, não só porque apenas tinha uma camisa preta limpa; mas simbolizou de alguma forma meu luto. Não pela pessoa dele, mas por um vazio de argumentos lícitos que findaram nisso tudo. Protestos mundiais pela paz, passetas em várias capitais do mundo, campanhas humanitárias; foram ofuscadas por essa caçada que chega ao fim. As bombas lançadas em Bagdá, que não foram aprovadas pelo conselho de segurança da ONU (órgão que diz quem pode lanças bomba em quem) e que mataram milhares de pessoas fazem parte de um passado turvo. Várias mensagens de todos os cantos parabenizando o transgressor pelo êxito militar alicerçam um peça perigosa. O injustificável está de parabéns. Lembro que essa mesma nação tentou, sem sucesso, iniciar um golpe de Estado na Venezuela há pouco tempo. Recordo que a justificativa para a invasão era a produção de armas de destruição em massa no Iraque. Armas nunca encontradas. Passou-se então a dizer que o Iraque estava apoiando terroristas. Parece que não há provas também. Depois do que estava feito, sem argumento fundamentado, a grande ordem era capturar o ex-presidente. E os motivos não importam. Prenderam-no e agora a presa está à vista de todos, para a glória de um presidente. Há poucos minutos ouvi um amigo falar que votaria em Bush. Que ele era um homem que, segundo suas próprias palavras, "ia e fazia". O rosto abatido de Saddam deveria representar algo. Talvez a impotência de instituições, governos e da própria mobilização popular diante de um cenário tão antagônico. Celebração da prepotência; nascimento de um novo, e trágico, consenso.

postado por: RODOLFO TORRES 5:26 PM


Comments: Paridos nos dias do absurdo

Não desejaria isso para seu ninguém. É vergonhosa e humilhante nossa condição de filhos da ditadura. Provavelmente quem estiver lendo essas linhas, nasceu sob um regime estúpido que desmerece qualquer condição mínima de cidadania. Somos filhos da "revolução", termo oficial para um dos episódios (entre tantos) escabrosos de nossa história. Nasci num país sob um regime militar. Meu pai votou para presidente da república, pela primeira vez, aos 39 anos. Imaginem o que é ter a possibilidade de escolher o presidente de seu país pela primeira vez quase aos quarenta anos de idade... Mas parece que ninguém mais está preocupado com isso. Sábios são os judeus. Já perceberam que a maioria dos filmes que ganham o Oscar relatam as atrocidades que esse povo sofreu de 1940 a 1945. E eles até hoje não deixam o planeta deixar de lembrar seu sofrimento. Com toda a razão. Mas poderíamos fazer o mesmo. A "cortina de ferro", grupos de países do leste europeu sob o regime escroto de Stalin, nas américas central e latina não mereceu uma citação como exemplo de desrespeito completo e absoluto aos mínimos preceitos da dignidade humana. Portanto lembrem-se, lembrem-se, somos nascidos na ditadura militar de um país da amárica latina, que para o resto do mundo não significa absolutamente nada. O sofrimento de um morador daqui é apenas mais um sofrimento. Acorde, escove os dentes, faça as refeições (se puder), trabalhe, ame, viva..., tendo a ciência que és filho de um regime ditadorial latino americano. Apoiado pela igreja, pela burguesia, e retratado nos livros de história de maneira indevida. Façam um voto de vergonha, um acanhamento de ter nascido numa pátria que por mais de vinte anos viveu sob o regime de generais. Após o último, Sarney (atual presidente do senado) deveria ter convocado eleições. Ele saiu oferecendo rádios e televisões aos políticos e configurou um cenário medíocre das comunicações em nossa pátria. Collor queria roubar só e foi expulso. Não pensem que ele é pior dos que estão agora no comando. FHC, intectual para quem quiser assim achar, pediu que as pessoas desconsiderassem o que ele escreveu no primeiro governo e deu um golpe de Estado no segundo. A emenda da reeleição de FHC foi um golpe de Estado. Aprovado, com suborno, em 1997. Carrege mais essa vergonha em seu passaporte. De 1998 a 2002 o país viveu sob um regime ilegítimo. Um golpista. E Lula nada mais é do que um abobalhado com o poder. Vai aderir a ALCA em 2005. Nesse mochilão de desgraças, nessa coleção de vergonhas, nisso que chamamos governo, podemos carregar uma certeza, apenas uma. Somos tão ricos, tão abençoados em termos potenciais, que nem essa série, que parece infinita, de corrupação e incompetência governamental (incompetência para o bem comum, que fique claro), não foi capaz de dar fim as nossas riquezas. Mas tem nada näo. Em 2005, o que era nosso acaba!

postado por: RODOLFO TORRES 5:26 PM


Comments: Toratons e Electangrilas

Gosto realmente de assistir aos programas sobre animais, como os vários programas nas sextas à noite sobre o tema. Me distraio e divirto vendo a luta diária dos animais pela sobrevivência, com imagens interessantes de perseguições e fugas. Graças a Deus raramente assisto, pois acho algo mais interessante para fazer. Apesar da forte oposição que encontro em meu lar, se estiver à toa, assisto.
Do mesmo modo, sou revoltado com alguns programas sobre a pré-história, em que os roteiristas, achando que somos imbecis, ficam fantasiando sobre esta época, e nitidamente inventando bichos e situações ridículas, dignas de filmes de ficção científica. Não falo aqui dos programas sérios sobre o tema, que existem e dos quais gosto muito.
Acho que ainda está em exibição, uma série dominical (produzida pela BBC) na qual existem vários bichos esquisitos que são apresentados como ancestrais dos animais atuais, alguns simulando o ridículo. Desde coisas grotescas até mistura de animais, com nomes idiotas. O maior representante desta série que pude ver foi um bicho preguiça gigante (não gravei o nome), que tinha a agilidade de um lince. Vejam o ridículo, um bicho preguiça que sou faltava voar e fazer pipoca, porque o resto... Isso é um desrespeito a um animal essencialmente inerte e sem expressão como o ilustríssimo bicho preguiça.
Se querem entreter e colocar a frutífera imaginação para funcionar, que o responsáveis por estas "coisas" assumam esta condição. Neste molde, acabo de assistir a um programa sobre os animais do futuro, no qual os criativos roteiristas criaram os "toratons" de várias toneladas, que destroem tudo, e uns peixes horríveis, chamados de "electangrilas", feios que chega dá pena se um dia chegarem a existir.
Assim eu concordo ... para ficção científica tudo vale. Não há aí a pretensão de te explicar como os bichos eram, o que sentiam, se tinham três ou dez filhotes no ano. Agora vir querer abusar da minha boa vontade e paciência, querendo me convencer que o bicho preguiça já foi estressado, eu não admito!
Do aditor
GustavoGT
SP 13/12/03

postado por: RODOLFO TORRES 5:25 PM


Comments: Telefonista Amador Desqualificado

No mesmo dia em que é escrito na minha carteira de trabalho as palavras "Jornalista Profissional Diplomado", ocorre o fato que agora trancrevo -
Estava lendo um artigo numa das primeiras edições da revista, quando o telefone que está na minha frente toca. "A Natália está"? Procuro minha amiga Natália Viana no grande vão que é a redação e a encontro na mesa localizada à frente da do editor-chefe. "Ela está numa ligação. Você quer aguardar"... Antes de conseguir perguntar se o indivíduo gostaria de deixar algum recado, sou bombardeado com um falatório mais ou menos assim - "Aqui quem fala é o professor Roberto Romano, não vou aguardar pois estou sendo muito mal tratado por vocês. Meu tempo não é brincadeira... Fale para o Sérgio ( Sérgio de Souza, editor-chefe) que ele está desrespeitando os colaboradores... Tenha uma boa tarde"! Desliga sem possibilidade de uma resposta minha. Vou falar com o Serjão, digo o que se passou. A editora executiva liga para o cidadão, pede milhares de desculpas. "Professor, o senhor tem que nos desculpar. A culpa foi do rapaz que não está preparado para esse tipo de situação". Ou seja, a culpa foi minha. Não tenho condições de atender a um telefonema de um professor de filosofia da Unicamp. O mais engraçado é que há poucos dias tinha condições para agendar uma entrevista com o presidente da Argentina. Possuia qualificação para entrevistar Eric Hobsbawm. Entrevistei o ex-secretário nacional de segurança pública. No entanto, atender telefones, definitivamente, não é comigo. Horas depois, no lançamento do livro do procurador Luiz Francisco, na própria editora, soube que a queixa era devido ao pronome de tratamento que utilizei na ocasião. Um termo inadequado provoca ódios colossais nos honoris-causa da academia velhaca. Mesmo assim continuo gostando da aula-magna que ele proferiu no ano de 1999, ano que entrei na universidade. Ele é um excelente palestrante. E um péssimo "amigo da sabedoria"

postado por: RODOLFO TORRES 5:25 PM


Comments: SÍNDROME DE MAGALHÃES

Não é "reiter", é "raiter" (se escreve "Reiter" síndrome de Reiter, doença reumatológica rara). Com essa frase o chefe cortou a minha apresentação do paciente que estava atendendo naquele momento. Falou em tom de brincadeira, rindo com vontade, enquanto minha cara ficava apenas mexendo, meu sorriso tornava-se amarelo, as mãos não cabiam no bolso e as pernas superavam o número de sapatos. Completou dizendo que Reiter era alemão e a pronúncia era com ¿a¿ e não com "e". E continuou rindo. Como não tinha o que dizer, sorri também. Até a paciente ficou constrangida. Emendou dizendo era não era "reiter" da mesma forma que não era forró. O certo seria "for all". Ele sabe que eu sou de Natal. Lascou-se. Péssima comparação em um péssimo momento. Entrei de sola, acima do joelho, com os dois pés. Expliquei-lhe toda a origem do termo forró, alfinetando sempre que possível, e de outros termos como Oxente (Oh chite ¿ escrevo como se fala, pois não sei a grafia correta em inglês) e caninga ("Kannigan" só quem é de lá entende). Terminei dizendo que pelo menos nós, nordestinos, não aceitamos tão passivamente os neologismos. Quando são inevitáveis, modificamos para que se tornem mais simpáticos ao nosso gosto. Escapei do vexame. Pensei depois como as pessoas daqui dão valor à pronúncia correta do inglês e outras línguas. Nunca vi um americano tentando falar sem sotaque ou sem errar as pronúncias de palavras em português. A própria embaixatriz dos Estados Unidos no Brasil fala um "portuglês" de quinta. E todos nós entendemos, sem muito esforço. É essa submissão em relação aos países desenvolvidos que nos torna sub. Mais que a economia, a vontade de sermos iguais a eles em tudo é o maior retrato da nossa posição colonial. Nós, brasileiros, estamos à margem do que se pode chamar de desenvolvimento. Mas não é por imitação que vamos conseguir chegar ao G7. Adquirindo dinheiro de monte e maximizando saúde e educação podemos chegar a integrar o grupo dos desenvolvidos, mas sem personalidade e posições firmes que demonstrem nossas idéias e visões de mundo, nunca passaremos de caricaturas de ricos. Como os novos ricos, emergentes, que querem ser bem-nascidos, quase fazer parte da nobreza. Temos que nos desenvolver, mas para isso não precisamos nos tornar americanos ou alemães. Se assim for o caso, é fácil. É só anexar o território brasileiro aos EUA, assim como Havaí, Porto Rico e Alaska, e ser mais um estado da poderosa América. Quero ver, professor, se na Alemanha eles vão acertar o meu nome quando eu descobrir a próxima síndrome da moda.

O agudo
Bruno magalhães
12/12/03

postado por: RODOLFO TORRES 5:25 PM


Comments: BOM PARA QUEM?
Vive la diference!

Fui interpelado após emitir a expressão "bom!", em alto tom, em plena sala de reuniões do meu trabalho, por uma colega do interior de São Paulo. Ela me pediu para repetir como se pede a uma criança. Repeti sem muita vontade. Ela sorriu jocosamente. Achou que o meu "bom" não era muito bom. Foi taxativa em afirmar que eu falava diferente dela, falava errado. Ela falava "bomm" e eu "bon". Eu falava seco, sem melodia, cortando o fim do fonema, enquanto o bom dela tinha ritmo, era harmônico, quase declamando. Não sabia que falava tão diferente dela. Pelo menos não essa palavra simples. Mas depois dela chamar minha atenção, eu pude perceber as diferenças sutis. Eu acho apenas que ela fala mais longamente e pelo nariz, quase chorando, e eu falo com ímpeto, com tônus, forte, sem frescura. Aliás, por que o meu jeito é o errado? As diferenças regionais é que nos faz um povo rico. Já pensou quão triste seria se todos fossem paulistas (eca!)? O brasil seria bem menos festivo, alegre e criativo, com certeza. E num país tão grande não querer que se fale diferente em cada lugar é no mínimo um contra-senso. Não temos dimensões continentais à toa. Somos maiores que muitos países da Europa juntos. É surpreendente e maravilhoso que falemos a mesma língua, de modo inteligível, depois de tanto tempo. Temos as mesmas ambições, modus vivents e leis. Se fôssemos iguais seríamos menores. A soma das partes é sempre maior que o todo. A cultura, dentro dela o sotaque, é o que nos faz nação. E o que importa no final é a comunicação. A lingüística não considera nenhum vício regional um erro de português. Não existe fonema perfeito. Só dentro de cada região. Mas querem mudar tudo, até as pequenas coisas. Não basta "chiar" (tchi e dji), usando fonemas que simplesmente não existem na língua portuguesa. É pouco. Querem mudar nossa entonação, o suingue da nossa voz. Já nos tiraram muito. Água, comida, dinheiro, futuro, quase tudo se foi. Querem tirar agora o nosso sotaque. Não deixemos.

O agudo
Bruno Magalhães
11/12/03

postado por: RODOLFO TORRES 5:25 PM


Comments: Prima Fina?

O grotesco tem seu valor. Ao menos eu acho. Serve como parâmetro avesso, um caminho desaconselhável. Prefiro, inclusive, piadas mal contadas; pela atmosfera de constrangimento que é produzida. As faces desconcertadas após uma anedota ruim são muito mais engraçadas que aquelas sorridentes, ao término de uma boa. Entretanto o execrável não se aplica apenas as piadas. Tive o desprazer de assistir ao Cinema Especial que a Globo transmitiu ontem. Vários atores brasileiros, a espanhola Penélope Cruz e um roteio simplesmente podre. Foi um festival de clichês. O Brasil "apapagaiado" como nunca o tinha visto. Já que a maioria dos povos têm uma caracterização, rasteira diga-se de passagem, em escala mundial; temos a nossa. Um país de credos exóticos, um povo místico. As mulheres daqui não passam de prostitutas sensuais para o resto do planeta. Os homens, uns irresponsáveis beberrões. O anti-cinema novo estava lá.Volto ao roteiro. Um texto canalha. Fiquei decepcionado com o roteirista, mas ao mesmo tempo sei que "aquilo" foi uma caracterização do país. Uma vergonha. Se existe um filme pobre em roteiro, certamente é aquele. Penélope Cruz faz uma "Ana Maria Braga" em São Francisco, com seu programa culinário de sucesso na televisão e Murilo Benício, seu marido na trama, fica atrás dela cantando como um imbecil. Mas fui "fisgado" pela seqüência absurda. De certa forma é bom saber como os outros povos nos veêm. E há cada cena, aprendia como não ser tão estúpido em termos do relato em movimento. Queria, e precisa, ver os créditos. Antes mesmo da tela escurecer, aparece o nome de uma venezuelana chamada Fina Torres, assinando a direção. Não é a primeira vez que me declaro um cineasta embrionário. Gostaria de falar mal da direção. E existe uma enorme distância entre o roteiro e a direção de um filme. Diretor não faz milagre. Com um roteiro ruim, não há condições. Com um roteiro bom, pode até sair coisa boa. Ah, Fina... Por que carregas esse sobrenome, me impedindo de falar o que quero ?!

PS: O filme é dublado.

postado por: RODOLFO TORRES 5:24 PM


Comments: Cardápio do Inferno

Dentre os muitos pensamentos abstratos e loucos que passam diariamente pela minha não menos louca cabeça, um passou lentamente e resolveu ficar por um tempinho, o suficiente para se tornar o tema deste texto. Pensava fervorosamente no cardápio após o triste dia do nosso obituário.
Certamente no céu não existe um, mas vários cardápios, variados em formas e tamanhos, incluindo com plena justiça frutas como cajá, siriguela, pinha e manga espada, e crustáceos (logicamente chefiados pelo carangueijo, feito nos moldes da casa de Tia Yolanda) e deliciosos frangos, servidos por educados e higiênicos seres alados.
No purgatório, enquanto aguardamos a decisão final e para qual portão seguir, penso existir algo tipo um self-service, pois com certeza não seremos servidos, e obviamente o menu se restringe a uma dieta leve e politicamente correta, porém sem ofender aos paladares presentes. Algo que seja justo para os presenteados com o reino dos céus, mas sem oferecer privilégios aos que irão para o andar de baixo.
Já no inferno tenho plena certeza do esquema e da dieta. Lá você é servido, mas o cardápio inclui: pela manhã, um suco de Murici (congratulo aqui a todos os confrades que nunca tiveram o desprazer de provar tal fruta, típica do Maranhão e Piauí). O suco de Murici será seguido, já no almoço, por uma porção de Kibes, alguns fritos e outros crus. Esta iguaria inventada pelo homem, tenho certeza, é feita a base de detergente (aqueles Minerva, de limão). Entremeando os dois pratos (já que é o inferno, e não um Spa), são oferecidas várias Azeitonas, à vontade, para aqueles que não tem medo de morrer de novo. À noite, repetem-se Kibes e suco de Murici a gosto, com opção de trocar a guloseima por panetone. Este último é horrível, inclusive hoje em dia estão colocando chocolate para ver se alguém tem coragem de comprar.
Aos mais puritanos me desculpem a brincadeira com tema tão sério como a morte, mas com esse "cardápio do inferno", não tenho medo de mais quase nada.
Do aditor
GustavoGT
SP 10/12/03

postado por: RODOLFO TORRES 5:24 PM


Comments: Angenor e Noel

Dois rapazes se conheceram num café pequeno e mal iluminado. Trocaram algumas palavras e em pouco tempo eram os maiores amigos. Um deles, o branco, vinha de uma família de boas condições. Nada de muita riqueza, mas vivia-se muito bem. Mau estudante do curso que se propunha a fazer (medicina). O outro era um negro franzino, que morava num barraco em um morro tradicional da cidade. Trabalhava como pedreiro, arrumava uns "bicos" e quando chegava ao lar, escrevia sempre alguma coisa que os outros achavam bonito. O branco passou praticamente a morar no barraco pequeno. Bebiam, escreviam, admiravam-se. E bebiam muito. Sempre bebiam. O rapaz branco, dois anos mais moço que o negro, bebia mais. Era comum cair bêbado na sala do casebre; nessa hora a esposa do negro já sabia o que fazer: trocar sua roupa, dar-lhe um banho, preparar um caldo com carne e esperar que a bebedeira do moço rico melhorasse. Era um época em que as amizades eram mais intensas. Pressa mesmo era só para viver. O resto era acalentado com poesia, cerveja e amizade. A música os uniu e se fortaleceu desse encontro mágico. Quando o branco morreu, a tristeza que acompanhava o negro aumentou. Ele escreveu então esses versos: "Eu quisera esquecer o passado, Eu quisera, mas sou obrigado, A lembrar o grande Noel. Ainda resta a cadeira vazia, Da escola de filosofia, No bairro de Vila Isabel". Noel Rosa deixou Cartola no Rio de Janeiro. Se existe algum exemplo maior de parceria na música do país, unindo um branco e um negro; um "rico"e um "pobre"; desconheço.

postado por: RODOLFO TORRES 5:24 PM


Comments: NUNCA ME VI MAIS GORDO
Apresentação a Marlous Apius (quem???)

Não me conheço. Não sei quem sou. Não me reconheceria se passasse por mim na rua. Talvez me cumprimentasse com um simples aceno, mas sem mais. Talvez eu desse um sorriso amarelo de quando a gente cumprimenta mas não se lembra bem com quem está falando. Decididamente não me convidaria para o cinema ou para tomar um chope; não sem me conhecer antes. Não me reconheceria vendo minha própria imagem refletida no espelho. Distorcida. Sou louco ou lúcido demais para me reconhecer. Como poderia me reconhecer se não me conheço? Nunca me conheci. Nunca vou me conhecer. Se me fosse apresentado e depois conversasse comigo longamente, talvez eu me conhecesse. Talvez até que eu gostasse de mim. Talvez não. Talvez eu descobrisse com que finalidade eu vim ao mundo e para onde vou. Mas para que eu me perguntaria isso? Não me conheço o suficiente para saber. Não tenho tanta intimidade assim comigo. Sou simples ou sou composto? Sou côncavo ou convexo? Singular ou plural? Abstrato ou concreto? Serei um substantivo ou um adjetivo? Carne ou peixe? Unha ou carne? Subtraio ou somo? Divido ou multiplico? Vivo ou sobrevivo? Sou vítima ou sou réu? Se réu, tenho culpa? Nunca me perguntei isso. Não sei se sei. Mas acho que se soubesse, não me diria a resposta; não a quem eu desconheço. Essa dúvida é que me mata. Ou não. Para que saber. Não me interessa saber tanto sobre quem eu ignoro. Se eu for um crápula, um descrente, um infiel, um fraco, um déspota? Melhor não perguntar. E se eu for um bravo, um bom samaritano, um firme, um líder, um crente, um nobre? Melhor não saber, é muita responsabilidade. Sigo assim sem me conhecer. Também, se eu não sei de mim, quem vai saber? Só eu para saber tudo que eu preciso sobre mim. Um dia eu saberei, quem sabe. Mas talvez nesse dia não haja mais importância.

O agudo

Bruno Magalhães

10/12/03

postado por: RODOLFO TORRES 5:23 PM


Comments: Como peixe

Algumas pessoas são como peixe, que morrem pela boca. Assisti a uma reportagem sobre uma conversa gravada de um deputado, obviamente sem saber que estava sendo vítima de uma arapuca, o mesmo fala abertamente que 40 dos cinquenta deputados estaduais de SP votam mediante o que ele chama de mesada (pagamento em espécie que pode chegar a quinhentos mil dólares por votação, a depender dos lucros envolvidos).
A reportagem mostrava trechos da gravação e logo após o depoimento de diversos políticos, que exigiam e bradavam pela condenação (cassação do mandato) do autor das denúncias. Este foi entrevistado no final da reportagem (agora sabendo), e disse, com aquele tom de quem sabia que tinha falado demais, que não adiantava esclarecer se o que disse era mentira ou verdade, pelo simples motivo de ele não poder provar nada, no caso de ser verdade.
Este mesmo argumento foi usado pelos políticos (acusadores), exigindo "justiça", pela acusação leviana e sem provas do insano do deputado. Era comovente a indignação dos senhores deputados.
O que mais me abismou e entristeceu é que, embora altamente provável de ser verídica a história, pelas circunstâncias da gravação e pela reputação destes ilustres senhores, em nenhum momento se cogitou uma investigação dos fatos, ou uma apuração de qualquer natureza. O dito foi interpretado como um verdadeiro absurdo, indigno de uma casa tão respeitável como a câmara dos deputados. A reportagem foi omissa e parcial, encarando o diálogo como absurdo. A importância dada ao fato em si foi pífia, talvez se dissessem que estavam plantando cocaína em marte, o fato merecesse mais valor. Não defendo o linchamento público por uma simples conversa informal, mas merecemos uma resposta concreta e a altura de todos estes senhores.
Sou totalmente contra qualquer tipo de denúncia vil e pusilânime. Entendo que não se pode falar por falar, sem provas do que se diz. Mas diante de tantos absurdos em todas as esferas de nossa sociedade e especialmente dessa em questão, será que o digníssimo quase ex-deputado deve ser tratado como um lunático?
Do aditor
GustavoGT
SP 09/12/03

postado por: RODOLFO TORRES 5:23 PM


Comments: Abismo do leito estreito

Às quatro da manhã trago as soluções para todos os problemas. Adormeço e ao acordar caio e me rendo ao cotidiano. Sentia falta de acordar com o barulho da chuva e fechar a janela que deixava aquela água toda molhar um pedaço do quarto. Aconteceu após muito tempo. Quando voltei para terminar o sono, como sempre faço, guardei o lugar dela. Que nem aqueles bebedores dos bares mais afastados que ofertam um pouco de aguardente ao santo de sua devoção, sabedores que de nada adiantará ofertar cachaça a um ministro de Deus; um lugar do colchão pouco é reservado. Feito um brinde antes do primeiro gole numa mesa de bar, do sinal da cruz antes de um desafio, do cruzar de dedos antes do chute a gol, do voto em uma eleição qualquer. Como um "bom dia", um "saúde" depois do espirro, os três toques preventivos na madeira, o rabo de coelho no retrovisor do carro. Tipo fazer todas as coisas inúteis que sempre fazemos, acreditando que determinada atitude vai influenciar em algo; com essa mesma disposição, sou um flanelinha de um corpo que nunca chegará. Minha cama é uma ponte. Nesses tempos de leito incerto, sono-fuga e saudade ardente, o lugar à direita de onde eu deitar está ocupado.

postado por: RODOLFO TORRES 5:23 PM


Comments: Caixa de entrada

Não devo ser componente da maioria, mas acho simplesmente irritante receber aqueles e-mails que são enviados para várias pessoas ao mesmo tempo. Deve haver um nome para este tipo de coisa, que desconheço. E não me refiro aos de propaganda, que são absurdos por si só, sem precisar de críticas definitivas a seu respeito.
O meu e-mail de maior uso, era pouco frequentado por estas metástases informatizadas, mas há pouco tempo recebi visitas de certa de quinze e-mails de uma mesma pessoa(os nomes dos envolvidos serão ocultados para preservar a integridade física deste confrade).
Quando vi tal povoamento abrupto e insano da minha caixa de entrada, já tive a sensação que me deixa descontente. Aquela de que você vai ler uma mensagem, geralmente piadas sem graça, mandadas para você e mais dezenas, que receberão e repassarão para outros, e assim por diante. Contesto essa veiculação por achar altamente impessoal. Se mando algo para alguém, acho que deve ser pessoal e dirigido a ela, exatamente o contrário do que ocorre nestes casos.
E nada pior do que aqueles que lhe desejam mil e uma maravilhas, desde que você mande algo ou aquele mesmo e-mail para mais não sei quantas vítimas. Esses me deixam não só descontente, mas revoltado. Não acredito que alguém se sinta um refém de superstições e "tarefinhas" nas suas realizações e em seus objetivos ... porque se você não enviar ...
Gosto de receber cartas e e-mails (quem não gosta), mas isso na minha mente está ligado ao fato de saber que há algo dirigido para mim. Acho que por isso eu não acho a mínima graça em 90% das piadas que me enviam. Creio que algumas realmente o sejam, e se alguém me contasse, com certeza me divertiria.
Exceto aqueles e-mails mandados pelos confrades
à minha pessoa, desde os primórdios da confraria, antes da nossa home-page, nenhuma mensagem que chegou a mim, mandada para mais outras pessoas, me conseguiu convencer do contrário.
Do aditor
GustavoGT
SP 08/12/03

postado por: RODOLFO TORRES 5:23 PM


Comments: Saprofitismo dos Sapiens

Há pouco tempo fiquei sabendo que moscas e baratas servem para "limpar", se é que pode-se usar esse termo para esses bichos; a superfície, e no caso das baratas, até o subsolo, dos resíduos. Tenho nojo dos dois, mas certo é que eles possuem função, por que não, nobre. Lendo livros paradidáticos de geografia aprendi que a produção de alimentos na terra é mais que suficiente para alimentar todos. E que a fome é um processo social, não natural. A fome humana é produto dos homens, de suas relações interpessoais; não da maldade da natureza. E há cada ano, a produção de alimentos e a fome aumentam. Os decompositores ganharam concorrentes humanos. Milhares. O que mais me impressionou em São Paulo foi a quantidade de mendigos nas ruas. Gente vasculhando latas de lixo a qualquer hora, sem mais aquele pudor que poderiam ter há algum tempo. Talvez nunca o tiveram. Seres humanos que "limpam" as ruas, se alimentam dos alimentos que os "seres humanos" não aproveitam. Eles também têm função. A decomposição do lixo dos bons. Soube de gente que se alimenta até de lixo hospitalar. Gente que come placenta. Gente que agora tem a função que outrora tiveram bactérias, fungos, moscas e baratas. Outro dia vi um homem vasculhando o lixo em frente a uma lanchonete. Baratas corriam em torno dos seus pés. Moscas estavam acima de sua cabeça. O "Golias dos restos" tomava seu alimento. A concorrência era desleal. Um homem concorre com insetos pelo alimento. Outro dia li que somos todos iguais...

postado por: RODOLFO TORRES 5:22 PM


Comments: NOSTALGIA INJUSTA

Há uma tendência geral e própria do ser humano de considerar o passado melhor que o presente e o presente pior que o futuro. Consideramos sempre que antes era mais fácil de viver, a economia ia melhor, os valores eram mais nobres, a violência era menor, que o futebol era mais bonito e outras coisas. Entendo que isso ocorre por um mecanismo de defesa psicológico onde prevalece a lógica de que o que passou era melhor só porque já passou. Explico: as condições, as dificuldades e as resoluções já são conhecidas, então pensa-se que era mais fácil. Acha-se mais fácil porque já se conhece a solução daquele determinado problema. O problema já foi resolvido. Ou seja, antes era daquela forma, com os defeitos e qualidades de cada época, e cada ser individualmente sobreviveu, amadureceu e cresceu, apesar de tudo. Por exemplo: o vestibular era mais fácil e menos concorrido porque você conseguiu passar (mas teve gente que nunca passou); a economia era melhor porque você conseguiu emprego e ganhou algum dinheiro (mas já existia pobreza); os valores eram mais nobres porque você seguiu com retidão moral (mas safadeza sempre existiu); o futebol era mais bonito porque o Brasil ganhava fácil e saiam muito mais gols (mas não foi o Brasil que piorou, os outros países melhoraram; os ataques não estão menos criativos, as defesas melhoraram, e muito). Quanto ao futuro piorar é simplesmente pela dúvida e medo que pensamos isso. Sabemos o que já passou e conhecemos o presente, mas o futuro ninguém sabe. Por isso tendemos ao pessimismo; é menos decepcionante. Com raras exceções, as coisas estão melhores hoje do que há tempos atrás, inclusive a economia e o futebol. Os indicadores econômicos estão aí para comprovar o que eu digo. E o futebol? Esse está muito melhor. O nível técnico atingido numa partida hoje é muito superior do que há tempos atrás. Um Zidane de hoje é muito melhor do que um Platini de ontem; Ronaldo supera Tostão; qualquer goleiro e defensor de qualquer time atual é melhor do que seu correspondente do passado. Só Pelé se salva entre as exceções. Teria lugar em qualquer time do mundo de hoje. Como péssima exceção, também escapa a violência que notadamente está pior que no passado. Então quando você falar que no seu tempo era melhor, troque melhor por diferente e você será mais justo com o seu próprio tempo. E o futuro? Dê um crédito, quem sabe não melhora.
O agudo
Bruno Magalhães
08/12/03

postado por: RODOLFO TORRES 5:22 PM


Comments: Lavar roupa todo dia...

Mulheres sentadas à beira de um rio qualquer, batendo roupas contra as pedras nessa altura cobertas pela espuma do sabão, cantando na harmonia de suas vozes nasais os lamentos da vida. A batida da roupa contra a pedra fica mais firme e menos dolorida com as cantorias. Costumava vê-las rapidamente quando passava com meus familiares, de carro, em alguns locais que ainda guardam essa prática. Não as escutava, mas sabia que cantavam. Já em casa, onde havia apenas uma e não um grupo, ouvia-a cantar enquanto lavava a roupa. Dessa vez o rádio era o companheiro da mulher. O rio não estava lá, as outras mulheres também não. As crianças que brincavam perto de suas mães foram substituídas por paredes. Apenas o rádio. Mas havia a música cantada pela pessoa que lava a roupa, a música que parece servir de bengala à vida. Hoje um quadrado, geralmente branco, não canta e faz um barulho feio e irritante. Tão feio quanto o estilo de vivência que traz consigo. Mas ainda poderei ver as mulheres que cantam à beira do rio qualquer. Minha terra ainda não as libertou para a canção, função de suas vidas.

postado por: RODOLFO TORRES 5:22 PM


Comments: Pelada na infância

Quando voltava do colégio, ainda nos anos oitenta, jogava bola na rua da minha casa que ainda é de paralelepípedo. Meu portão marron era um gol, a rua era o campo, o portão branco (que não existe mais) da casa em frente era o outro. Jogávamos as mochilas na área e só parávamos quando as mães, em conluio, chamavam para jantar. Não era raro algum garoto sair antes do término com uma parte do pé multilada. O chamado "chaboque" era retirado devido ao contato brusco com o chão, e ficava parecendo mais a banda menor de uma laranja quando cortada transversalmente. Até os carros eram menos apressados. Os motoristas daquela época compreendiam que nós garotos já estávamos sem espaço para brincadeiras de garoto. Paravam seus carros e só passavam quando o percebíamos. Não bizinavam. Os vizinhos devolviam a bola, quando ela caia em seus quintais. Alguns de cara mais fechada, outros com ternura. Tocar a campanhia das outras pessoas não significava necessariamente pedir esmola. Certo dia pulei o muro de uma casa para pegar a bola que lá estava. A dona quando soube ficou furiosa, foi falar com minha mãe. Não levei nem advertência. Nos domingos, às cinco da manhã, íamos à pousada do atleta (hoje Hiper Bompreço), local de treinamento do América Futebol Clube. Os treinadores das categorias de base davam aula de graça para os garotos que queriam ser profissionais. Fui duas vezes. Numa delas, cheguei a tocar na bola. Achava a distância da minha casa ao campo absurda. Era o menor de todos; sendo assim não era desejado como parceiro. Meu irmão e os outros apressavam o passo. Chegava exausto e com sede. Hoje ainda temos a quadra de futebol de salão da praça. A de basquete nunca ficou inteira por mais de três meses. Considero a construção da igreja na pracinha do meu bairro um sério perigo à prática esportiva do conjunto dos professores. Com o tempo passando, o número de crianças diminuindo, a culpa dos moradores aumentado; a igreja vai englobar a quadra. Acabará com o último vestígio das práticas esportivas da infância. Em nome do pai.

postado por: RODOLFO TORRES 5:22 PM


Comments: Paradoxo térmico

O calor que faz aqui em São Paulo é maior do que o de Natal. Esta cidade não é preparada para o calor. Nenhum lugar tem condicionador de ar (se tiver, é ligado no mínimo) e ventiladores são mais raros ainda. Janela? Sempre fechada, quando tem. Também se abrir não corre vento. O calor daqui só é comparável ao de Assu. É um calor abafado, sem vento, e quando tem, é quente. Hoje, fui na Rua Augusta, a pé, e notei que algumas pessoas chegam ao cúmulo de usar casaco. A temperatura devia estar uns 25 a 30 graus, maior sol, e a galera de casaco. Acho que o que ocorre é uma prevenção exagerada. O cara vai para rua muito cedo, quando ainda está frio (se bem que não é tão frio assim), ou então leva o casaco para o caso do tempo virar. As pessoas passam tanto frio aqui no inverno (se bem que não tão frio assim) que ficam com medo de passar frio no verão. Não condeno quem leva o casaco, só quem usa. Cautela, assim como canja de galinha, é sempre justificável. O problema é o excesso. Mas também não é um fenômeno isolado dessa metrópole. Quem de vós não passou frio em Natal? Lembra daqueles luais na beira da praia que a gente vai só de camiseta e as meninas de top? É um frio cortante porque venta. É como se cada onda do mar trouxesse consigo uma rajada de alfinetes que nos atinge sem dó. Mas continuamos de camiseta. Bom, pelo menos lá a gente usa o frio como pretexto para conseguir um cobertor de orelhas. Para que melhor?
O agudo
Bruno Magalhães

postado por: RODOLFO TORRES 5:21 PM


Comments: Alucinações gustativas

Olhei. Pensei. Escolhi. Quis a maior. Pus na boca. Mordi. Era crocante. Do jeito que eu me lembrava. Joguei fora a casca, era muito dura. Aproveitei o que sobrou. Viajei. Um sabor salgado, forte, com leve tom de côco, enebriante, que me lembrou de reuniões familiares acompanhadas de cerveja, churrasco e pagode. Lembrei de como se pega no mangue, lama até o joelho, buraco no chão que cabe todo um braço e muita luta para se conseguir um espécime. Amarra a perna na corda; a corda amarra no pau. Traz a dúzia. Mata no tanque, espeta o bucho. Enche o panelão de água, leite de côco, especiarias e sal a gosto. Se o mês não tiver erre, está gordo. A fêmea é melhor de comer. Impossível comer sem se melar. Nunca gostei de quebrar com um martelo, só no dente. Me sinto mais viril. Acho que o bicho também prefere assim. Pois é conhecida a sua valentia enquanto está vivo. Não sobra nada, só a carapaça. Como tudo que o guaxinim come. O pulmão não escapa. A cabeça com farinha é uma delícia. Nunca se matou a fome de ninguém só com ele. Geralmente, cansamos antes. Ali, lá pelo décimo, vigésimo... Empanturrado, acordei. Era só bolacha com patê de atum. Acho que eu preciso de uma caranguejada urgentemente.
O agudo
Bruno Magalhães
05/12/03

postado por: RODOLFO TORRES 5:21 PM


Comments:
River Plate usa calcinha

Quem pode fazer uma análise do que é o Brasil sem considerar o futebol como o principal elemento, ou até, principal característica do seu povo? O Brasil é futebol. Mário Rodrigues Filho, irmão de Nelson Rodrigues, mais conhecido como Mário Filho, é o principal responsável pela popularização e incorporação desse esporte ao imaginário coletivo nacional. Tanto é que o Maracanã tem seu nome. Ele trouxe o futebol para "a boa página" dos jornais, no tempo em que futebol era coisa de preto. Escreveu um livro que é um marco da sociologia esportiva brasileira: O Negro no Futebol Brasileiro. Falo isso porque assiti ao jogo São Paulo e River Plate ontem, no Morumbi. Já fui repórter esportivo, mas cobria a série C do brasileirão, em jogos como Pau Ferrense X São Gonçalo. Nunca tinha presenciado um time argentino jogando "ao vivo". Os caras são bons. O jogo foi quase perfeito. Dois gols no segundo tempo, suficiente para levar a decisão para os pênaltis; briga entre os jogadores; paz nas arquibancadas. O melhor nessas ocasiões são os comentários dos torcedores. Quem está atento ao jogo não percebe, mas como estava apenas observando imparcialmente, escutei comentários característicos daqueles que frenquentam estádios. A mãe do árbitro e dos argentinos não foi poupada. Muito menos a honra dos portenhos. Os gritos eram constantes. Atrás de mim, um pai exaltado com dois garotos. Provavelmente seus filhos. A idade dos garotos era oito ou sete anos. Muito tempo depois do primeiro insulto, um garoto, com sua voz fina e apaixonada solta um refrão num momento em que todos estavam calados. "Inha, inha, inha, River Plate usa calcinha". Os mais próximos de onde estávamos se entreolharam, soltaram um leve sorriso como se falassem: "Realmente o garoto ofendeu o time adversário". Voltaram ao espetáculo com a alma mais sossegada. Uma criança aprendera a insultar o time que jogava contra o São Paulo. Já nos pênaltis, o garoto ainda gritava. O pai sentenciou seu silêncio, ameaçando-o dar-lhe uns tapas. São Paulo desclassificado. A torcida aplaude o clube, canta seu hino e sai confortava na medida do possível. O tricolor deu o sangue. Exposto isso, digo: "Conheçam o Brasil pelo futebol. Um jogo é um fértil campo de trabalho para sociólogos, antropólogos, cientistas políticos; ou quem se aventurar a entender esse povo, que torce. Apenas torce. E essa vocação para torcer é o que nos torna platéia. Nunca atores de um processo urgente e vital. Torce Brasil. Torce"!

postado por: RODOLFO TORRES 5:21 PM


Comments:
Bolero preterido

Certa tarde, conversando com uma tia da minha cunhada, enquanto ela preparava um delicioso café, disse-lhe que sairia frustrado de São Paulo se não fosse assistir a uma apresentação dos Demônios da Garoa. Ela concordou, disse que realmente não se pode sair daqui sem ver o espetáculo legítimo do samba paulistano. Ontem pude cumprir minha missão. Realmente foi sensacional. Não costumo me exaltar diante de tanta gente, mas estava tão bom, me sentindo tão bem, que fui aplaudir os senhores do samba com sotaque italiano bem na frente do palco. Pena que durou menos de uma hora. Mas tudo bem. Na "urtima" música - trem das onze - uns jovens subiram ao palco. E essa foi a parte triste. Uns caras que mais pareciam sair daqueles filmes que retratam a periferia de Nova York, tatuados, com bonés, roupas, correntes, gestos e alma norte-americana. E aqueles gestos característicos do Hip Hop é o cúmulo. Padronizaram até o gestual. Fiquei triste. Mas ao mesmo tempo entendo que hoje em dia é isso que vende, e que aquilo era uma homenagem ao grupo sexagenário. Ao menos os daqui rendem homenagens e reconhecem seus músicos famosos de outras épocas. Pensei no Trio Irakitan, nascido em Natal, em 1950. Cascudo deu esse nome que em tupi significa "mel verde" ou, simbolicamente, "doce esperança". Amanhã começa a festa de Paulinho Freire, mais conhecida como Carnatal. Trago a vergonha de ter participado de algumas edições desse evento (se bem que no Burro elétrico foi bem legal). Uma festa privada (literalmente), que atrapalha e mobiliza a fazendinha. Faço-lhes um pedido: conheçam o Trio Irakitan! Esses músicos mereciam homenagens diárias, praças em seus nomes, ruas, pontes, livros, filmes, avenidas, prédios; e até um feriado municipal. Porém, o que oferecemos ao grupo é apenas nossa ignorância. Acabo de pensar num programa de rádio, de madrugada, que tocaria boleros, inclusive do Trio. Verei o que posso fazer! Eles merecem.

postado por: RODOLFO TORRES 5:20 PM


Comments: O segredo do bipedalismo

A revista Scientific American lançou uma edição especial
recente sobre a evolução humana desde os ancestrais
primatas. Na primeira reportagem, eles tentam explicar,
ainda que de maneira controversa, o motivo ou os motivos
que levaram os primeiros hominídeos ao bipedalismo, ou
seja andar com apenas duas patas no chão, coisa que
alguns de nós ainda hoje não conseguem após uma
bebedeira. Esse salto evolutivo dos predecessores
humanos (ainda nem éramos considerados humanos, apenas
hominídeos) foi fator fundamental para que milhões de
anos depois chegássemos a condição de racionalidade (ou
não) dos dias atuais, com grau elevado de pensamento
abstrato e cultura . Uma das explicações citadas na
reportagem, por sinal a mais plausível, é de que o homem
passou a andar com duas patas para liberar as mãos para
outras tarefas. O texto vai mais além e decreta que a
principal vantagem em ter as mãos livres é de poder
coletar mais comida com agilidade e rapidez. Em segundo
plano e posteriormente viria a capacidade de produzir
ferramentas. Antes de tudo era colher e carregar frutos.
E por que que os hominídeos queriam coletar frutos? Para
si? Engana-se quem pensa que era para auto-consumo. O
objetivo principal era abastecer a fêmea de comida para
que a corte e depois a cópula fosse mais fácil. Daí
conclui-se que desde que lutavam contra tigres dente-de
sabre, os homens trabalham para prover as mulheres no
intuito de conseguir sexo mais fácil. E desde o
paleolítico que as mulheres escolhem os homens que são
melhores provedores. E como na idade da pedra ainda não
havia pensamento abstrato e muito menos hipocrisia, as
coisas eram bem mais diretas. Tipo: Ô mulherídea, mim te
dá essa manga se tu for comigo para atrás daquela moita.
E a mulher respondia: Não quero; a manga do neanderthal
é muito maior. Pensem bem, As "hominídeas" (hominídea
não é um bom nome, parece homossexual pre-histórico) não
escolhiam o homo erectus mais bonito, nem mais forte,
nem mais inteligente (se bem que parte do erectus já
devia ser deveras importante no tempo das cavernas);
elas escolhiam o que melhor fornecesse frutas (frutas
porque não haviam jóias ou dinheiro naquela época).
Vejam bem, não estou aqui, como alguns podem pensar,
denegrindo ou caçoando das mulheres. Pelo contrário,
entendo que só estamos aqui hoje, com esse nível de
evolução, devido ao desejo e, porque não dizer,
interesse feminino. Desde o tempo dos mamutes que os
homens só agem por uma coisa dinheiro (frutas). E porque
que eles querem frutas (dinheiro)? Para obter sexo.
Claro que no sentido reprodutivo e de espalhar os seus
genes em detrimento de outrem. Resumindo: o interesse
feminino é mais antigo que andar para frente.
O agudo
Bruno Magalhães

postado por: RODOLFO TORRES 5:20 PM


Comments:
Ainda pode melhorar

Encontro-me em fase final de preparação para a apresentação de um trabalho em um congresso da minha especialidade, fato que me deixa feliz e recompensado pelo trabalho realizado em um ano, mas também está me desgastando a passos largos, e ainda bem que já é quase chegada a hora de mostrar os resultados deste.
Quando falo em contentamento, é a materialização de algo que você ajudou a pesquisar. Extraindo informações deste material, que podem ser úteis para você e aos demais colegas, sela que algo de proveitoso foi colhido.
Mas o desgaste é imensurável. Digo isso aos nobres confrades, pois o ambiente em que me especializo é um dos melhores centros do país. Em sendo um local de excelência, o perfeccionismo e a cobrança fazem parte do dia-a-dia. A competitividade e a busca por novas respostas estão arraigadas no ambiente, quase que independente das pessoas. Chega as vezes parecer que terá vida própria.
A minha apresentação já foi vista e revista inúmeras vezes, sempre sendo modificado a cada verificação. No início a constante mudança de enfoque e de conteúdo me preocupava, pois quando algo me parecia bom e importante de ser dito, logo era substituído sem a menor piedade por outros dados, ou pelos mesmos, só que ditos de outra forma. E o que noto de mais interessante é o enfoque a cada avaliação nossa (e nisso me incluo). Na grande maioria das vezes, sempre enxergamos o "pode melhorar". O "Está bom" não fará parte do nosso vocabulário até o final da apresentação.
Talvez seja isso que diferencie os serviços de ponta e aqueles que fazem um trabalho de excelência. Não notamos isso em na maioria dos nossos locais de formação. Sinto-me animado por esta oportunidade, mas tenho que redobrar os cuidados com minhas úlceras e minha fiel companheira, a gastrite.
Do aditor
GustavoGT
SP 02/12/03

postado por: RODOLFO TORRES 5:20 PM


Comments: Triste Regresso

Um dos programas que lutam pela liderança de audiência de nossa tão estimada televisão aos domingos, chamado Domingo Legal, resolve fazer, em um dos seus quadros, o que se poderia chamar de serviço de utilidade pública.
Famílias humildes, nordestinas, que vem tentar a vida na grande metrópole, escrevem para este programa para que o mesmo realize o seu sonho, o de retornar à cidade natal.
Neste Domingo pude assistir a um deste regressos, de uma família do interior da Paraíba, que estava com ação de despejo de seu barraco, em São Paulo. É tão comovente quanto deprimente o depoimento destas pessoas, que no auge do desespero e da falta de perspectiva, lançam não de tudo que tem (quase nada), e se aventuram em uma jornada ao desconhecido, na doce ilusão de uma melhor vida, em meu ao "mundo das oportunidades" que é a grande cidade. Com certeza a ilusão de uma vida melhor os alimenta por algum tempo , até que os mesmos notem que não terão chance de progresso, principalmente hoje, em que vemos advogados como candidatos em um concurso para gari.
Cada vez mais a sociedade é mais competitiva. Se décadas atrás nos bastava concluir a faculdade, do que quer que seja, para com o canudo garantir uma vida digna, ou vir para São Paulo ou Rio de Janeiro, onde os empregos existiam e não se exigia nada, ou quase nada, além de disposição e perseverança, hoje as exigências são outras, e sempre haverá alguém na luta por um emprego, com mais capacidade do que precisa, infelizmente. Num tempo onde se fabricam diplomados (em todos, todos os cursos), não há lugar para o romantismo e a força de vontade apenas.
Que estes regressos pelo menos sirvam para mostrar que, mesmo sob condições ruins, a situação pode piorar. Uma das frases que me marcou foi da mãe da família, que disse: - Aqui ninguém ajuda ninguém ...
Como ajudar aos outros se falta para si mesmo, em um local onde muitos vieram com a mesma ilusão e se arrependeram?, como tirar a carcaça da insensibilidade do coração daqueles que já perderam a esperança no amanhã? ... pelo menos na humildade do nordestino e dos seus familiares, o pouco pode ser repartido.
Hoje o velho Luiz Gonzaga talvez dissesse, "Não deixo me Cariri, nem no último pau de arara..."
Do aditor
GustavoGT
SP 01/12/03

postado por: RODOLFO TORRES 5:19 PM


Comments: Rio Grande sem Norte

Poderia desejar outro berço, porém não o faço. Se trago o elefante no peito, disfarço. Um dia não teremos mais jeito, é onde mora meu embaraço. Rio Grande um Corte. Quisera plantar um orgulho, nesse povo que colhe a mangaba. Mas quem nasce por lá, o orgulho é igual a nada. Rio Grande não Forte. Nenhum dia a glória habitou, nesse chão de terra rosada. O jambo pintou seus caminhos para o inferno da tua morada. Rio Grande da Morte. És roubado todos os dias. Aplaudes as mãos destronadas. A ilha é tua e vizinha, mas ficas calado ou calada. Rio Grande do Porte. O que lhe salva é a beleza. É o que lhe resta também. Mas se disserem que és só beleza, cala-te. Beleza é só o que tens. Rio Grande, que Sorte?

postado por: RODOLFO TORRES 5:19 PM


Comments: Nenhum cuspe

"Setembro passou, com outubro e novembro. Já tamo em dezembro, meu Deus que é de nós"... (A triste partida). Achava que novembro era infinito. Hoje rasguei essa folha do calendário preso à parede, com uma satisfação que não me é própria. Vamos entrar no próximo ano, o último ano antes da maior tragédia para esse país desde Fernando Henrique Cardoso: o acordo da ALCA. Não canso de falar sobre isso. No dia primeiro de janeiro de 2005, o Brasil fará parte de um acordo de livre comércio com nada mais, nada menos que os Estados Unidos e o Canadá. Reconheço os esforços do presidente para buscar novos parceiros comerciais. Atitude louvável essa preocupação em conseguir novos mercados para os produtos daqui, porém não passa de puro teatro. Lula está consciente que ficará na história como o presidente que aderiu à ALCA. E podem ter a certeza que se ele não tivesse se comprometido a concordar com esse "estupro" em forma de tratado; ele jamais ficaria na presidência. Para permanecer na alvorada, Lula sentou no colo dos norte-americanos, e parece que gostou. Um trabalhador que chegou ao mais alto cargo do executivo brasileiro vai assinar um documento garantindo que os produtos "made in USA" tenham livre trânsito por aqui. Alguns ingênuos falam: "Algumas discussões serão levadas à organização mundial do comércio. Faremos acordos com outros países e outras regiões". Vamos aos nossos parceiros além-ALCA: a) Países africanos. Com todo o respeito aos países africanos, com suas culturas fabulosas, fazer acordo com países africanos é o mesmo que vender fiado. Eles não tem dinheiro. São ainda mais explorados, mais corruptos, mais miseráveis que nós. b) O Mercosul. Chile, Uruguai, Peru já se comprometeram a lamber as botas dos norte-americanos. Aliás, eu pensava que o Mercosul estava extinto. Desconsidere o Mercosul. ele nunca existiu. c) Países do Oriente. Vamos esperar a viagem do presidente para averiguar o que se passou. Porém acredito que naquela região há países mais interessantes para a prática de acordos bilaterais. Esperemos. d) União Européia. Até parece que termos alguma chance de fazer acordos com os europeus sem o consetimento dos EUA. Aliás, coitados dos que comemoram a discussão de alguns tópicos da ALCA na OMC. Qual o idiota que acredita que será um julgamento sério? Se os Estados Unidos passaram por cima do Conselho de segurança da ONU para soltar bombas no Iraque, se não está nem aí para as resoluções que condenam Israel por práticas que constantemente violam os direitos humanos naquela região; adivinhem quem terá vantagem num órgão da ONU que trata de comércio internacional, os Estados Unidos ou o Brasil? Lula ficará nos anais da política como o operário grevista que levou o Brasil à maior desgraça do ponto de vista macro. A ALCA vai acabar com nós. Lembro de um livro de Chomsky "O lucro ou as pessoas"?, que em certo trecho fala sobre a relação entre Estados Unidos e Brasil. Desde 1945 os EUA usam o Brasil como área de pesquisa para práticas capitalistas intensivas. Essa declaração está alicerçada com documentados oficiais do governo dos USA. Somos cobaia para métodos capitalistas. Além de consumirmos as piores frutas que produzimos. "Esta fruta é boa? Vai para fora. Essa não serve para a exportação? Nois come"! Agora o jeito é ficar sossegado. Já que o estupro é inevitável, relaxe e goze. Mas a melhor forma de se manter vivo por aqui é seguir o conselho, digamos assim, de Vinícius: "Mas não tem nada não. Tenho o meu violão".

postado por: RODOLFO TORRES 5:19 PM


Comments: Misto Frio
Ontem, por volta das 17:30h, percebi que não tinha almoçado. Estava preparando algo de extrema importância (mais para terceiros do que para mim mesmo), quando cheguei a esta complexa conclusão, junto com um colega, que estava mais enrolado e atarefado do que eu.
Como sou por definição "um homem de refeições", já tinha dado aquela por perdida e me resignei em esperar o jantar. Mas o meu digníssimo companheiro de jejum forçado não foi tão altruísta, e me perguntou se não poderia ir à lanchonete comprar dois mistos frios para o nosso almoço.
A proposta me pareceu interessante. Lanche rápido, e ainda por cima independente de energia elétrica, pois na teoria basta colocar o queijo e o presunto dentro do pão e pronto. Nada mais lógico e prático. Me restava apenas uma dúvida, será que alguém pede "misto frio" em uma lanchonete. Tive medo de não ser compreendido.
Ao chegar no referido local, solicitei de imediato o meu pedido: - Boa tarde ... dois mistos frios por favor! Confesso que esperava pelo menos uma cara de espanto da balconista, mas nem isso. De imediato já me deu o preço. Paguei e aguardei.
Os confrades não fazem idéia de quanto tempo esperei, vendo neste longo período alguns sanduíches preparados (quentes) saírem para o seu destino, e o meu nada. Após alguns destes passarem por mim, perdi a paciência e disse para a funcionária que se fosse mais fácil poderia esquentar o misto.
Se tivesse pedido de imediato o sanduíche quente, teria comido uns quinze minutos antes. Existem certas pessoas que não podem sair da rotina, acho que era o caso das funcionárias.
Cheguei a brilhante conclusão que o misto frio não é uma boa pedida, principalmente para os apressados.
Do aditor
GustavoGT
SP 28/11/03

postado por: RODOLFO TORRES 5:18 PM


Comments: Eu ou Eles - Parte II

Acho sinceramente que, em filmes ou livros principalmente, qualquer sequência é geralmente pretensiosa e desnecessária, salvo raras exceções, mas não poderia deixar de retratar o fato ocorrido ontem aos caríssimos confrades.
Estava no refeitório do hospital, nos meus quinze minutos de almoço, quando ao meu lado duas mulheres terminavam uma conversa, uma se levantava, e a outra falou, aumentando o tom de voz: - Se for fazer esta loucura de casar de novo, me convide viu ... foi um prazer te conhecer ... tchau querida!
Não sou absolutamente ou voyerista das conversas alheias, mas existem certas coisas e determinados tons de voz que não nos permitem ignorar alguns diálogos, principalmente estes.
Pelo que pude perceber, eram duas acompanhantes de pacientes internados, que por certo se conheceram ali no refeitório ou momentos antes na enfermaria. O que na minha humilde opinião não dá o direito da cidadã dona do diálogo acima dizer tantos absurdos em apenas uma frase.
Se não, vejamos. Ela opinou, para uma pessoa que acaba de conhecer (mas que já é para ela: querida) sobre uma coisa seríssima, o seu casamento, e o pior, desestimulando, como se conhecesse os noivos a trezentos anos. De forma não menos irritante, a mesma se convida para o casamento, como quem se convida para ir a casa de alguém para bater um papo.
Quando escutei o diálogo das duas, me veio a mesma sensação que tive no outro dia, conforme já comentei com os confrades. Porém hoje não quero mais saber quem está certo ou errado, apenas tenho a convicção de que somos bastante diferentes.
Do aditor
GustavoGT
SP 29/11/03

postado por: RODOLFO TORRES 5:17 PM


Comments: Através do talvez

O sim foi dado por ambos e agora minha amiga Gudmila está oficialmente casada com meu também amigo Gustavo. A cerimônia num cartório de Santos, litoral paulista, foi hoje pela manhã. O caminho que já é bonito, estava ainda mais devido ao tempo nublado. Em alguns momentos, a impressão era de andar dentro das nuvens. Vários túneis que penetravam montanhas imensas. Muito verde. Quedas d'água que mais pareciam espuma escorrendo nas garrafas de cerveja. Nuvens "lambiam" o topo das montanhas. Pontes altíssimas. A tão famosa Serra do Mar, decorada tantas vezes no colégio, foi generosa nesse encontro. Uma temperatura agradável foi companheira nessa viagem de uma hora. São Paulo some rápido, mas reaparece mais subitamente. Cubatão fica antes, poucos minutos passando pela cidade e percebi sua atmosfera triste e industrial. Mas Cubatão tem uma beleza cinzenta. A tristeza mora em Cubatão. Vejo novamente o horizonte e o mar, após vários meses, em Santos. Bastou para me sentir mais perto de casa. Achava que o contato com o mar não me faria falta, que tendo nascido num dos locais onde as praias são as mais belas e salgadas do mundo; aquele contato com o mar seria simplesmente substituível. Há quem diga que essa necessidade está relacionada com meu horóscopo. Tendo nascido e morado em Natal, preciso do mar. Preciso ver o branco acima da linha preta que divide a água e o céu, do ponto que minha vista não alcança para me sentir menos preso. A praia não foi feita para o banho. Apenas para ser vista, respirada e nos dar a ciência de que somos pequenos e precisamos perder o olhar. Percam o olhar e não alcancem o horizonte. A palha de coqueiro é surrada pela maresia. Sou surrado pela falta de vento salgado.

postado por: RODOLFO TORRES 5:17 PM


Comments: TELEFONE SEM FIO

Fui ao banco, atrás do hospital em que eu trabalho, e depois de pagar as minhas contas e coisas afins, dirigi-me para a porta de saída. A porta era daquelas giratórias, que apitam ao menor objeto metálico. Quando estava para passar pela giratória, um senhor tentava entrar repetidamente sem sucesso. A porta teimava em apitar. O cidadão foi ficando com raiva e começou a falar alto que era um absurdo e que era um constrangimento e outras reclamações. O guarda mandou tirar o celular, a chave do carro, a carteira, as moedas... nada. Para cada tentativa um apito. O segurança orientou o homem a tirar o cinto, no que foi prontamente atendido. Mas a porta ainda apitava. O cliente impedido de entrar foi se irritando, tirou a camisa e tentou passar. Pipipipi, gritava a porta. Tirou o sapato. Pipipi. E a meia. Pipipi, mais uma vez. Chegou ao extremo e, entre um palavrão e outro, tirou a calça. Ficou só de cueca. Só de cuequinha branca, mostrando o cofrinho cabeludo e o começo (ou o fim) do rego. Ainda assim não conseguiu passar. Pipipi, mais alto. O segurança estava aturdido, sem a menor noção do que fazer, ficou mudo e escondido. A fila que se formou atrás de mim, composta por pessoas que queriam sair, e a outra atrás do cara nu, cheia de gente querendo entrar, aumentava mais e mais. A risadagem era geral. ¿Chama o Ratinho¿, começou alguém. Outro anônimo gritou: ¿tira a cueca¿. Mais alguém jogou lenha: ¿tá com o revolver escondido no...¿ A galera estava ensandecida e não perdoava. Eu já tinha saído da fila para rir em um lugar isolado. É que eu fico com vergonha dessas coisas. Quando o gerente chegou, o ânus de asno (confusão) já estava formado. Mandou o cara vestir a roupa senão ele iria chamar a polícia. O segurança escondeu-se mais ainda. O cara xingou mais algumas vezes e, conformado, vestiu a roupa. O gerente o deixou entrar pela entrada de deficientes. A turba foi se acalmando. As coisas foram voltando ao normal. Logo ninguém nem reconheceria o sujeito de cueca branca. Pelo menos vestido ele passaria desapercebido. Seria mais um fato que só se vê em grandes metrópoles. Passaria a ser banal. Bom, é melhor do que ter violência como banalidade. Passou-se. Voltei para o hospital e assim que cheguei ao ambulatório para retomar a labuta diária um colega me interpelou: ¿você soube do assalto que teve no banco? Parece que um cara com a arma escondida no reto levou todo o dinheiro e o gerente de refém e ainda mostrou os genitais para as mulheres que passavam¿.

O agudo

Bruno Magalhães

postado por: RODOLFO TORRES 5:17 PM


Comments: Texto aleijado

A faculdade de comunicação é capaz de doutrinar quem a cursa da seguinte forma: escreva tudo o que deve ser dito em apenas um parágrafo. O chamado Lead, técnica criada pelos jornalistas dos Estados Unidos, visa fornecer ao leitor uma objetividade extrema; afinal não se pode perder muito tempo lendo o papel de enrolar peixe. Seria injusto da minha parte dizer que apenas aprendemos isso. Pude trabalhar em televisão e hoje assisto-a de uma forma completamente diferente. O mundo do audiovisual é simplesmente sensacional. Outro habitat fantástico, e desprezado hoje, é o rádio. Tive o prazer de apresentar um programa na FM Tropical ao lado do meu amigo, à época locutor, Breno BX. Um especial do U2. Breno me apresenta como um dos maiores especialistas em U2 do RN. Ao menos sou especialista em algo... Mas voltando ao texto, a faculdade podou o lirismo do meu texto. Não só do meu. Vários alunos saem dos bancos universitários com a capacidade reduzida de escrever, em nome da objetividade. Minha amiga Natália Viana, jornalista daqui de São Paulo, disse-me (com toda a razão) que não sou um repórter. Vivo em primeira pessoa, não na terceira. Detesto receber pauta. Faço as minhas. Pelo menos ela disse que seria um bom editor. Como se jornalista fosse apenas e tão somente repórter. Mas isso não deve servir de desculpas ou atenuante para minha falta de talento para a reportagem diária. Até gosto de não sê-lo. Já que nas aulas do professor Ricardo Rosado, tinhamos que escutar que "repórter não pode ter opinião", fico na querida primeira pessoa e com meu texto pessoal e podado. Nessas horas, lembro de uma música de Osvaldo Montenegro, chamada Drops de Hortelã - única música que Glória Pires gravou em sua vida - que em certo trecho diz: "Eu achava que tamanho tinha a ver com poesia, eu não sei".

postado por: RODOLFO TORRES 5:16 PM


Comments: Olhos de vidro

Olhava para mim como se não me visse. Na verdade, não me
via. Olhava através de mim. Olhava além. Para lugar
nenhum. Fui eu que passei na sua linha de visão, que
estava fixa, inerte, penetrando na janela do ônibus, sem
quebrar nenhum vidro, sem ser notada. Olhava o
horizonte, como um soldado. Mas não via. Suas vistas já
não viam nada. Não tinha um horizonte para olhar. Mas eu
a vi. Cabelos loiros, desgrenhados, olhos azuis, postura
derrotada, ombros largados, braços arqueados para trás.
Tinha uma beleza surrada, pouco mais que trinta. Seu
olhar não era de desesperança, era de indiferença. Nada
lembrava viço, juventude, não havia chama. Já esfriara
há alguns anos atrás. Levava consigo outra vida além da
sua. Abdome protuso, tenso, prestes a espremer o que
havia dentro. Mas era como se não soubesse. Parecia
comum. Deveria ter outras vidas em casa que dependiam da
sua; talvez muitas. Não esperava o ônibus, não esperava
mais nada. Talvez pensasse que não tinha meios de fazer
qualquer coisa que não fosse olhar. Talvez nem pensasse
mais. Por isso só olhava. Era o que lhe restara. A única
certeza que tinha era que um dia seus olhos se fechariam
e nem olhar poderia. Algo tirara-lhe tudo. Sobrou apenas
o poder de gerar e o azul de seus olhos a olhar. Iria
morrer como nasceu, apenas olhando a vida que passava.
O agudo
Bruno Magalhães

postado por: RODOLFO TORRES 5:16 PM


Comments: Nomes de renome

Voltando à Dona Maria, a senhora cega da última crônica.
Recordo-me que ela falou que morava no bairro Parque
Imperial. Imponente, não. A impressão que eu tenho é de
que quanto mais pobre for o bairro, mais bonito e
pomposo é o seu nome. Os bairros ricos são simples:
Morumbi, Interlagos, Moema, Itaim Bibi, Alto de
Pinheiros. Os pobres são enfeitados. É Parque Imperial,
Dom Pedro, Princesa Isabel, Rochdale, Vila kennedy,
Anhaguera, Artur Alvim, Vila Divina. Outra, aqui em São
Paulo proliferam as vilas e os jardins. As vilas são no
feminino, como a Vila Mariana, Madalena, Maria, Matilde.
Só para citar algumas no M. Ainda tem Vila Sônia,
Leopoldina e formosa. A mais charmosa com certeza é a
vila Natal. Já os jardins são no masculino: Jardim
Avelino, Medeiros, São Luiz. Sem falar no próprio bairro
dos Jardins, que, coincidência ou não, ficou indefinido
e eclético e é freqüentado pela galera coluna do meio,
também conhecida como público GLS. Essa de nomear o
bairro com nomes bonitos serve para demonstrar, ao mesmo
tempo, orgulho pelo bairro em que vive, e vergonha
necessária para esconder a real situação de miséria
existente. Também não é exclusivo dessa metrópole.
Outras metrópoles do mundo, como por exemplo a
megalópole que eu nasci, também modificam nomes para que
soe melhor nos ouvidos alheios e gere uma expectativa
nunca alcançada de glamour. Na minha cidade havia um
bairro que se chamava Boi Choco. A associação de
moradores (se é que havia uma) tanto fez que retirou
esse nome singular, único e cheio de personalidade.
Renomearam como Bela Vista. Bela vista de que? Eu é que
não sei. Acho que preferia Boi choco. Tinha mais estilo.
Na mesma linha, em outra comunidade, havia um hotel com
um escrito na parede em letras garrafais: CINCO
ESTRELAS. Mas a estalagem não passava de uma pensão
pestilenta. Cinco Estrelas era o nome do Hotel.
O agudo
Bruno Magalhães.

postado por: RODOLFO TORRES 5:16 PM


Comments: Mais ou menos

Ao chegar do trabalho, quase já em casa, após uma corrida pela chuva paulistana, ainda no elevador, escutei uma frase do meu companheiro de viagem que me chamou atenção: - "Mais um dia!". Ele dizia isso com um evidente cansaço no rosto, com certeza após um longo dia de trabalho. Seu cansaço era físico, naturalmente. Nada que um bom banho e um jantar não resolvessem.
Na mesma hora pensei (mas não disse): - "Para mim ... menos um dia!". Preferi responder com um quase sorriso amarelado. Estava sim cansado fisicamente, mas o motivo da nossa discórdia filosófica não residia aí. O meu desânimo era mental.
Apesar da vida corrida que levamos, não creio que isso ocorra com frequência. Na maior parte dos dias, a minha linha de contagem é exatamente como a do meu companheiro de viagem. Mas naquele dia não.
Nada especial (de ruim ou de bom) aconteceu. Não consigo achar o real motivo da minha contagem às avessas. Motivos existem sempre, mas não sou um daqueles que odeia SP com todas as suas forças, e reza para chegar o dia de ir embora. Não odeio SP, mas amo Natal. Não nego o crescimento profissional que a vinda para cá me proporcionou, mas morro de saudade dos carangueijos aos domingos na casa de Tia Yolanda e Tio Toinho. Quem sabe a saudade da terrinha, guardada lá no fundo no baú, não resolveu me lembrar que estava alí. Não sei (essa possibilidade só me veio à mente agora).
Em dias assim, conto como menos um dia ... talvez menos um dia longe dos meus, menos um dia de pressão no trabalho, menos um dia de poluição e 15 minutos para o almoço. Ou talvez o meu "menos um dia" seja para tentar repetí-lo, quem sabe de forma diferente, sem tantos motivos para no final achar que aquele dia não valeu a pena.
Com certeza o "mais um dia" dito ao final do expediente, em tom cansado, mas com aquela entonação do dever cumprido, é revigorante.
No somatório geral dos dias, meu saldo é positivo.
Do aditor
GustavoGT
São Paulo 26/11/03

postado por: RODOLFO TORRES 5:16 PM


Comments: O samba que desconheço

"E aqui tem samba"? Com essa simples provocação, desencadeou-se uma revolta geral na mesa que estava com colegas de redação. As meninas, paulistas, quase me bateram. Uma delas, Sofia, rebateu com uma ofensa: "Natal não tem samba, só tem frevo". Já estava me levantando, alegando que naquela momento o ofendido era eu. Elas se desculparam e para mostrar que tudo estava bem, fomos todos para um barzinho chamado "O ó do borogodó". Chorinho ao vivo, com dois violões (um de sete cordas), pandeiro e flauta. Bastava. Fiquei desejando tocar flauta, ou bandolim; algo que me fizesse tocar chorinho. Quem sabe? Mas fiquei pensando no samba de Natal. Que preocupação estúpida. Apesar de possuir em grande quantidade todos os elementos que compõem esse estilo; dor, sofrimento, angústia, solidão, a cidade não tem samba. Diria mais: para que o samba? Deixemos a briga entre paulistas e cariocas (com grande vantagem para os últimos) para ver quem merece o título de detentor desse estilo. Com suas escolas e agremiações desfilando no carnaval, como se a cultura desse colosso fosse apenas isso. E meu crime maior, vindo de uma terra sem samba, no país do samba; é achar que o samba é muito pouco para expressar uma dor tão grande como a nossa. Mesmo assim, vida longa ao samba, que não me representa, e me força a ser caracterizado por ele. Há distância entre intenção e gesto.

postado por: RODOLFO TORRES 5:16 PM


Comments: Admirável Mito da Caverna Novo

A única novidade que o filme Matrix carregada é relacionada com os efeitos especiais. Técnica cinematográfica de vanguarda. Só e somente só. No que se refere ao roteiro, os irmãos gênios que escreveram a saga do protagonista beberam apenas de dois autores. O grego Platão e o inglês Huxley. De platão, o mito da caverna foi chupado, de forma até vergonhosa. Ouvi várias pessoas conclamando que a história era inovadora. Com alguns milênios de defasagem. Nesse mito, um homem que vive na escuridão de uma caverna, com muitos outros também acorrentados, consegue sair e ver a luz do sol, as cores definidas; antes só existia uma penumbra e todos eram cegos. Uma metáfora representando a ignorância (escuridão no interior da caverna) e o conhecimento (luz solar). Quando o pioneiro retorna e conta o que viu na superfície, é desacreditado, taxado de louco e morto pelos outros. Na atualidade, ele teria tomado a pílula vermelha; enquanto os outros estavam na azul. O futuro catastrófico de Matrix, dominado por máquinas, racionalizado e estéril, foi copiado de maneira deslavada da obra "Admirável Mundo Novo" de Aldous Huxley. Caso você me dê crédito nessa análise "barriga de cobra", não se sinta mal. Não se produz mais arte, conhecimento filosófico ou qualquer coisa relevante hoje em dia. Apenas fazemos uma releitura de tudo. Esse filme é bom para a atualidade. Uma cópia defasada de pensamentos; uma fusão de conceitos; um aparelho de propaganda absurdo. Ao menos as referências do filme são respeitáveis! Ao menos...

postado por: RODOLFO TORRES 5:15 PM


Comments:
Meu cabelo duro é assim

Uma das coisas que menos gosto na vida é de ir cortar cabelo, apesar de querer estar sempre com ele curto, pois é bem mais fácil de organizá-lo em cima da minha cabeça dura.
Acho uma completa e total perda de tempo o fato de ir ao cabeleireiro. A única vez que me distraí durante o um corte de meu precioso cabelo, levando um livro para ler enquanto lá se iam os meus fios pelo chão, quase fui submetido a uma neuro-cirurgia por R$ 6,00. Uma energúmena que se diz cabeleireira por alguns milímetros não deixa o meu couro cabeludo totalmente à mostra, isso lá em cima, no centro da minha cabeça. Fiquei parecendo o Vampeta na sua reestréia pelo corinthians há poucos dias (desculpem as mulheres, mas a comparação é ilustrativa).
Desde então mudei de salão, passando a frequentar outro recinto. Neste novo estabelecimento, só tenho (ou tinha) coragem de cortar cabelo com um funcionário. O salão é de um italiano de quase 80 anos, que ainda trabalha em raros momentos, pois em 99% do tempo o mesmo fica na calçada soltando piadas com todas as mulheres que passam, sem nenhum critério de discriminação (passou ... levou cantada). São três os seus empregados. Um deles, octagenário, tem Mal de Parkinson ... se treme todo a cada respiração. Vê-lo cortar um cabelo é interessante, pois você jura que junto com o cabelo vai voar a orelha do freguês a cada tesourada (é um espetáculo emocionante e tenso). O segundo, da mesma faixa etária, deve ter apnéia do sono ou algo assim, pois dorme em pé, com a tesoura na mão, enquanto trabalha, vários cochilos em apenas um corte (é um espetáculo sonolento e tenso). O terceiro e último parece ser normal, em seus aproximados trinta anos e corpo franzino.
Na última vez que cortei meu cabelo(com o terceiro, lógico), o mesmo revelou o real motivo de trabalhar ali. Enquanto trabalhava, o mesmo resolveu, de forma entusiasmada demais para quem está com uma tesoura em mãos, me contar a sua teoria. Dizia ele que a natureza errou feio ao projetar o nariz, justificando que para não ver bastava fechar o olho, para não comer apenas fechamos a boca, até (segundo ele) o ouvido tinha uma carnosidade inferior que se presta para ser fechado se necessário, com uma ajudinha logicamente. Já o nariz não, o nosso apêndice olfativo não se permite a exclusão do mundo externo sem a ajuda dos dedos. Isso o deixava revoltado enquanto cortava o cabelo, cada vez mais eufórico. Como mesmo sabia que sou médico, se sentiu na obrigação de me convencer de sua teoria.
Como nunca se deve brincar com uma pessoa que tem uma tesoura na mão, concordei com toda euforia que a situação exigia, elogiando o funcionário e comentando o quão original e observador o mesmo se mostrava com a sua teoria, sempre pedindo a Deus para aquele corte acabar logo.
Após sair do salão naquela tarde, vi como é perigoso cortar cabelo ... quem sabe não deixo o meu crescer. Acho mais seguro.
Do aditor
GustavoGT
SP 24/11/03

postado por: RODOLFO TORRES 5:15 PM


Comments:
Mattress bank

O símbolo mais que perfeito para o comercial de banco é um rato. Justo, certo; é aquilo mesmo. Ratazanas humanas, que vivem de explorar, apenas explorar. E o pior é que não pensamos na possibilidade de desvincular nossa vida desse ninho. Não há volta senhores. Mas e se nós resolvermos ficar com nossa renda, sem entregar o que conseguimos juntar no mês? O que aconteceria? Não somos competentes e nem queremos sê-lo para essa questão. Portanto, estou errado. Vamos continuar nesse processo em que já estamos completamente atolados, sem jamais; leia bem, jamais, procurar algo melhor. E como seria tolo imaginar uma volta às origens. Uma desmonetarização da vida é impensável, afinal o que poderia ser referência para trocas de bens e serviços? Se algum dia, três pessoas tiverem a noção de que o valor do dinheiro é simbólico, uma construção humana e não algo definitivo para a eternidade, nesse dia elas vão, quem sabe, pensar que sendo algo relativo, volátil (em última análise, uma farça); tudo que gira em torno desse símbolo possui o alicerce flácido. Mas que trabalho daria refazer tudo! Portanto deixa como está assim mesmo. Facilita até comprar diferentes apetrechos com um único sistema de valor. Um papel que compra tudo. Sólidos e idéias. Mas quem estiver interessado em brincar com essa situação, proponho um breve teste: quando ganhar dinheiro, fique triste, envergonhado, enojado. Dê um nó semântico nos seus valores, que como os meus, estão atrelados ao dinheiro. Enquanto não houver nojo pelo papel moeda, fiquem com a frase que resume bem nossos dias: "O pior não é ser comprado; é não ter quem lhe compre".

postado por: RODOLFO TORRES 5:15 PM


Comments: ESPERA DA PROVIDÊNCIA

Entrando no supermercado, vi uma senhora com uma bengala
a vasculhar o que havia a frente colidindo sem muita
força no corrimão da rampa que dava acesso ao
estabelecimento. Adverti-a a ter cuidado e ela me
perguntou se eu estava indo para o ponto de ônibus.
Falei que não, mas pensei dois segundos e resolvi
conduzi-la até o local. Ao chegar lá, ela me perguntou
se havia mais alguém no ponto e eu disse mais uma vez
que não. Perguntei a ela como ela pegaria o ônibus
certo. Ela me disse que ficaria com o braço estendido
todo o tempo e quando passasse um motorista bonzinho,
ele pararia e ela perguntaria qual linha era aquela.
Achei difícil haver motoristas bonzinhos em abundância
naquela manhã de Domingo e fiquei com ela até que
chegasse o transporte. Enquanto isso, descobri que se
chamava Maria, que morava só, e que era cega por
catarata, alguns meses depois de um acidente dentro de
um ônibus. Expliquei que não era assim, que o problema
foi a catarata e não o acidente, mas ela não acreditou.
Perguntei porque ela não fazia cirurgia. Ela me contou
que tinha tentado, mas na hora H o médico contra-indicou
por pressão alta. Insisti para ela tentar de novo, mas
ela me disse que agora estava esperando que Deus fosse
curar-lhe as vistas. Deus! Desde Jesus que não existem
mais milagres assim com facilidade. Mas as pessoas
humildes ainda esperam pela providência divina. É uma
mistura de ignorância com conformismo exagerado. Os
desprovidos usam esse lema para justificar a vida e
amparar suas decisões, muitas vezes movidas por preguiça
ou resignação. Tem que se tentar até o fim, enquanto
houver forças. E quando não houver mais, há de se
arranjar em algum lugar. Mas é bem mais fácil, cruzar os
braços (e abrir as pernas, em alguns casos) e colocar a
culpa no Divino. Deus opera milagres nos homens, sim,
mas Ele opera milagres principalmente através dos
homens. No caso da dona Maria, Deus intercederia
antecipando a cirurgia e depois guiando as mãos do
cirurgião, para que nada de mal acontecesse. Não há
outra forma de milagre. Pelo menos essa é a minha
crença, apesar de ser Católico Apostólico Romano. Mas
dona Maria acha mais fácil esperar que Deus cure seus
olhos e que, antes disso, coloque muitos motoristas
bonzinhos no seu caminho. De qualquer forma, fico
torcendo pela senhora, D. Maria.
O agudo
Bruno Magalhães
24/11/03

postado por: RODOLFO TORRES 5:15 PM


Comments: Venta-vermelha

Mais faço para não ver o que quero. Nesse "país picadeiro", não mais fico surpreso com a falta de revolta dos milhões. Não somos bons o suficiente para merecer a indignação. O riso substitui a raiva, quando deveria inflamar o sentido do errado notório. Quem se contenta apenas com o hilário decadente, ficará rindo de si até o sangue esfriar. Trago uma vergonha visceral pelos meus. Queridos, amados. Tenho uma completa descrença na terra que me abriga. Saudosa, bela. Carrego o desânimo dos fracassados para com o próximo calendário. Vejo cirandas infantis, e me forço a sentir um ânimo que já não está mais por aqui. Seria mais fácil assumir uma condição circense. Um nariz rubro seria a máscara simbólica ideal para dar algum sentido a vivência desse país. Somos palhaços, todos. No mau sentido. Vivemos a vida dos palhaços. Um garimpo. Nele procuramos uma condição que justifique tudo. Apesar de não acharmos nada, nunca, há que diga que com persistência acha-se. Além da picareta, peneira e da laterna, não esqueçam o principal - o nariz de palhaço.

postado por: RODOLFO TORRES 5:14 PM


Comments: O menino que passa

A estrada que corta transversalmente o RN é cansativa, principalmente durante o dia, quando o asfalto transpira no final da reta. Dos dois lados, apenas o mato, geralmente seco, cercas precárias, alguns crucifixos indicando que por ali alguém perdeu a vida, acreditando que ganharia outra. As cidades de apenas um "quebra-mola" são mortas; crianças praticamente se jogam nos carros, quando eles têm que diminuir a velocidade, tentando vender alimentos de toda espécie; doces, salgados, frutas... Mas logo eles se perdem e novamente uma paisagem triste retoma seu lugar, dessa vez agravada pela lembrança do rosto dos pequenos, lutando por centavos de uma moeda ridícula, de um país que não faz a mínima questão de suas vidas. Algumas vezes durante o trajeto, que corta de leste a oeste um dos Estados mais pobres da federação, meninos vendem passarinhos mortos à beira da estrada escaldante, para consumo dos motoristas e seus passageiros, devidamente climatizados aos dezessete graus. Quando ficam mais velhos deixam de vender codorna pois um homem não mais sensibiliza ninguém. Além do que, só se para um automóvel no meio do nada para comprar algo de uma criança. Comi várias vezes esses pássaros vendidos na estrada. O gosto é muito bom. Fala-se que um homem nunca esquece do menino que foi, nunca. Pode transparecer firmeza, mas se foi um menino fraco, desamparado, assim o será. No homem que hoje sou mora esse menino que olhava um outro garoto; um menino atrás de um vidro, que passa rápido pelas misérias mesmo sabendo que o combustível daquilo que o transporta está acabando. Logo ele e o pequeno vendedor serão iguais. Parados; a vida passando; e um desejo profundo que aquilo tudo acabe o mais rápido.

postado por: RODOLFO TORRES 5:14 PM


Comments:
Eu ou eles?

Ontem à noite fui para um show, por sinal muito bom. Apesar de não ter escutado "deslizes" e nem "Lenha", Fagner e Zeca Baleiro me impressionaram pelo bom repertório (E eu só conhecia três ou quatro músicas de todas as que foram cantadas), mas também pelo atraso de 45 minutos, afinal todo show parece que tem que começar atrasado, melhor dizendo, começar o espetáculo na hora programada não é chique, além de ser uma tamanha falta de respeito com os atrasados.
Mas o que queria conversar com os senhores foge um pouco dessa questão. Assim que cheguei ao local do show (10 minutos antes do suposto horário), não pude deixar de reparar no casal na mesa ao lado, que conversava (ou discutia, sei lá) freneticamente e em alto som. Se o ocorrido se limitasse a isso não haveria problemas, pois logo me desliguei da situação. Quando de repente sentam na mesa as outras duas pessoas que iriam assistir ao show (pois é, são mesas de quatro lugares).
Ao se completar a citada mesa, novamente uma cena me chamou a atenção. As duas últimas pessoas (duas mulheres) chegaram, sentaram e se iniciou em frações de milisegundos, uma conversa entre os quatro componentes em um volume agora mais alto, quase ensurdecedor. Acho que existe um traço genético de algum conterrâneo caicoense naqueles ...
O mais impressionante é que o casal não conhecia as duas mulheres que chegaram (e vice-versa). Brilhante conclusão a que pude chegar graças ao volume da conversa, que da maneira súbita como se iniciou, também terminou sem deixar vestígios (com certeza saíram sem saber os nomes uns dos outros).
Confesso aos confrades que não me sinto à vontade em uma mesa em que não conheço as outras pessoas. E isto ocorreu ontem. Ao chegar, já havia um casal na nossa meia-mesa, aos quais cumprimentei educadamente e sentei. Não me acho no direito de conversar distraído e alegremente com alguém que acabo de conhecer. Acho que antes de arrogância ou o que quer que seja, é uma questão de respeito para com a outra pessoa (depois que já conheço, eu desconto o tempo em que a deixei em paz ...). Sou sempre cauteloso no primeiro contato com alguém, pois nada mais chato do que conversar neuroticamente com quem não gosta ou não tem paciência (com quem gosta é até legal). Certo escritor disse que o cara chato é aquele que você pergunta: - Como vai? .. e ele faz questão de lhe dizer.
O interessante é que constato que nós (não habitantes das grandes metrópoles) somos mesmo assim. Acho que pelo grau de convivência que temos com familiares e amigos, não precisamos com urgência de estreitar laços e afetos. Isso parece ocorrer naturalmente. Falo isso, pois estou em São Paulo há quatro anos, e vejo que as mesmas pessoas que no dia do seu aniversário não tem com quem comemorar, morando na cidade onde nasceram , com sua família (isso já ocorreu de verdade), são as mesmas que falam com você pela primeira vez, não lhe conhecem e te chamam de apelidos destinados ou presos à algum afeto, como "querida", "benzinho", ... (principalmente as mulheres).
Essa é a minha visão da situação ... mas reconheço que posso estar sendo pretensioso ou arrogante. Ontem dormi com essa dúvida: quem age certo, eu ou eles?
Do aditor
GustavoGT
SP 21/11/03

postado por: RODOLFO TORRES 5:14 PM


Comments: O jornalista Rock

Rua Doutor Homem de Melo, Perdizes, São Paulo. Às 16 horas entramos no prédio que abriga um dos maiores jornalistas de música do Brasil. Fábio Massari abre a porta de seu apartamento e logo nos deparamos com centenas de CDs, LPs, bem na sala. Um bonito apartamento, muito limpo, claro, ilustrado com quadros em que Frank Zappa aparece, em um deles, sentados num vaso sanitário. Sento ao lado do "reverendo" e observo uma biblioteca musical. Livros e mais livros que tratam de bandas, a maioria escrito em inglês. Estamos todos nervosos, afinal tratar com autoridade é sempre complicado. Mas que nada. Massari é muito receptivo, educado. Apesar do abismo de conhecimento sobre Rock dos que estavam naquela sala, ele responde com a maior paciência e até revela fatos sobre suas entrevistas com os Rolling Stones, U2, Ramones, Frank Zappa, etc. Agora que saiu da MTV, ele está escrevendo livros sobre o rock; estilo literário desprezado no país, que tem muita coisa boa (e mais coisa ruim). Desliga-se o gravador após duas horas de conversa, com alguns pequenos contra-tempos : uma fita simplesmente travou e ficamos uns cinco minutos parados, o telefone tocou duas vezes e o entrevistado teve que se retirar. Ele mostra seu lar, oferece água (bem que poderia sair uma cervejinha), seus livros, discos (ele só compra uma dúzia por mês). Conheço vários seres que não possuem um décimo do saber que o "reverendo" tem, no que se propõem a serem bons, com uma impaciência própria dos ignorantes. Quem quiser saber mais, acesse na próxima semana o site da revista Caros Amigos. E ainda poderá concorrer aos dois livros do Massari, autografados. Na verdade ele me deu os livros, mas resolvi fazer um sorteio.

postado por: RODOLFO TORRES 5:13 PM


Comments: Ícaro sem asas

Eu não sonho. Pelo menos acho que não. Dizem que todo mundo sonha, só que alguns não se lembram. Por que o destino me escolheu para não lembrar dos meus sonhos? Será que é castigo? Será que estou pagando penitência por alguma vida passada? Será que o castigo é por alguma malfeito do presente? Talvez seja excesso de pecados. Minha formação de colégio de freiras se conforma com essa explicação. De qualquer modo, lastimo muito o fato de não sonhar, apesar de já estar acostumado. Desde criança que sou assim. Todos os dias acordo feliz na esperança de me lembrar dos desvarios do meu próprio pensamento da última noite. Nunca lembro. Só quando é pesadelo, daqueles que te acordam no meio da noite, é que eu tenho guardado na memória. Ainda bem, pois se nem os pesadelos eu lembrasse, já estaria louco (ou mais louco). Acho que os pesadelos são a válvula de escape do pensamento. Para lembrar que tudo é instável e mutável, que a vida não é tão tangível assim e que um dia você pode enlouquecer, portanto acorde e fique alerta. Por outro lado, quando acordado, falo sozinho. Dizem que isso é coisa de gente sem os parafusos da cabeça. Ou então de sonhadores. Como posso ser um sonhador se eu não sonho? Não entendo. Talvez eu não sonhe à noite para sonhar de dia, acordado. Já li que os sonhadores, aqueles que falam sozinhos, são mais resistentes às doenças. Se assim for, fico contente. Acho que os que sonham acordados, são mais felizes. Mas para funcionar tem que fazer o sonho acontecer. Bom, não sei se faço, mas pelo menos eu tento. E meu pai sempre dizia, e ainda diz: desce daí, menino. Algumas vezes no sentido real, mas a maioria no sentido conotativo. Desce daí, menino! Como é que ele sabia? Vou desobedecer, pai. Vou voar mais. Cada vez mais alto. Se eu cair, por favor me segure.
O agudo
Bruno Magalhães
20/11/03

postado por: RODOLFO TORRES 5:13 PM


Comments: Projeto Tamar

Hoje, durante um dos poucos momentos de folga vespertina, estava literalmente jogando conversa fora com mais dois colegas (um deles inclusive adora caju, mas isso é outra história ...). Falávamos sobre o que realmente importa, ou seja, coisas banais. Nessas deliciosas horas, o assunto geralmente toma um rumo totalmente inesperado. Se inicia falando sobre o estresse do dia-a-dia e acaba-se conversando sobre os anéis de Saturno.
Mas, voltando ao assunto, estava discorrendo sobre temas banais, quando de repente surgiu o tema: Ilha Bela (litoral de São Paulo) ... conversa vai e vem, e um dos colegas nos fala algo, que agora não lembro o quê, e cita: Projeto Tamar. Em um ato de puro respeito ao tema em debate e ao colega, eu disse: - Ah, o Projeto Tamar, aquele de preservação de Tartarugas, né!
Após falar esta infeliz frase, fui espancado moralmente pelo colega que tocou no assunto, que me disse: - Como é que é? ... tartaruga? ... saiba você que o projeto Tamar é muito mais que isso, pois ele cuida de....
A partir daí, tive uma aula, com toda veemência que se tem direito, sobre o projeto. Depois disso, o mesmo, sem me dar o direito de resposta, retirou-se do local súbita e triunfantemente. O fato de eu Ter limitado o projeto às tartarugas ofendeu por demais o nobre colega, a ponto de sua revolta, e de minha vergonha, serem notados por outros que ali passavam. Estávamos em um corredor, e nada pior do que ser humilhado em um corredor, se vocês não tiveram esta triste experiência, rezem para não tê-la.
Tamanha foi a indignação, que realmente me senti um imbecil por limitar o projeto somente às tartarugas. O terceiro colega, que até então só escutara, ao ver o outro sair, me disse: - Eu achava que o projeto Tamar era só para Tartarugas! .... aí o revoltado passou a ser eu. Passei então a fazer uma enquete, perguntando a todos sobre o que era o projeto Tamar (imaginem a cena). Só ouvi uma resposta: TARTARUGA.
Portanto amigos, agora até sobre assuntos banais temos que andar precavidos. Eu por exemplo passarei a exigir uma pauta de temas previamente a qualquer destas conversas casuais, para evitar novamente tamanha gafe e desrespeito para com tamanhos assuntos.
Do aditor
GustavoGT
SP 19/11/03

postado por: RODOLFO TORRES 5:13 PM


Comments: Esperança inocente

Viação Gato Preto. Linha 978-L, da Barra Funda até o Terminal de Vila Nova Cachoeirinha. E depois volta. Já sai da Barra Funda lotado. Ir sentado é privilégio de grávidas, velhos e alguns poucos homens. Chego no fundão do ônibus com muita dificuldade, só para ficar perto da saída. Uma garotinha de 4 a 8 anos (sou péssimo em correlacionar tamanho com idade) me cede o lugar. Eu sento me achando o mais feliz do ônibus. Em seguida, eu dei o meu lugar a um senhor idoso. Eu num gosto de dar meu lugar, não. Eu dou, mas num gosto! Eu já vi aquela menina. Já viajei (sim é uma viagem) umas duas ou três vezes com ela. Ela, junto com sua irmã mais nova (3 a 7 anos, sei lá), sempre pegam esse ônibus na mesma hora que eu. Têm uma aparência bastante humilde, de meninas de rua mesmo. Usam roupas rasgadas e de brinquedo levam uma garrafa pet de guaraná vazia (espero que pelo menos tenha sido uma delas que tomou). Não há nenhum adulto com elas. Diferente do que eu imaginara na primeira vez que as vi, e confesso que pensei também das outras vezes, elas não estavam fazendo caras de tristes e desamparadas, não choraram de fome, não pediram comida nem muito menos dinheiro. Muito pelo contrário. Elas brincavam e riam alto dentro do ônibus, como crianças que são. Havia inocência nas suas vozes e nas suas palavras. Logo contagiaram a turma do fundão, feita absolutamente de trabalhadores honestos e pessoas de bem. Os passageiros passaram a rir não delas, mas com elas. A cada freio ou curva do ônibus vinha uma brincadeira seguida de uma gargalhada aguda em dueto. De coadjuvantes da viagem, de candidatas ao repúdio, reprovação, negação e indiferença da pequena massa transportada, elas se tornaram estrelas naquele pequeno palco. E riam e cantavam e dançavam cada vez mais. E o seu "público" disputava a atenção delas de forma contundente. Como é o seu nome? Quantos anos você tem? Onde você estuda? E outras perguntas para começar uma conversa com uma criança. Elas respondiam a todos com satisfação sem esquecer ninguém. De vez em quando alguém dava alguma coisa a elas. De balas a moedas, elas não recusavam nada. E nem poderiam. Entendam bem, não havia nada parecido com um show ou apresentação. Era tudo espontâneo mesmo. Elas só estavam brincando. Até que elas desceram. E até nessa hora houve bom humor. Elas só perceberam que era o ponto certo para descer depois que o ônibus já havia aberto as portas. E saíram correndo e gritando e sorrindo, deixando uma trilha de otimismo por onde passavam. Espere, alguém gritou, o casaco. Uma delas havia deixado cair o casaco no banco por onde havia pulado. O ônibus estava fechando as portas e partindo. O que seria dela nas noites de frio? Será que tinha outro casaco? A reação da turma foi imediata e parecia ensaiada. O casaquinho foi atirado de mão em mão, com o ônibus já em movimento, até chegar no final do veículo e nas mãos do último elemento que gritou para alertá-las e jogou na calçada. Uma delas correu para apanhá-lo e agradeceu com um sorriso e um aceno. Hoje à noite o frio será um pouco menor para aquela família. O coração de cada passageiro daquele ônibus também estava mais aquecido e reconfortado. Parecia que havíamos feito uma boa ação coletiva. De fato, elas nos ajudaram bem mais que nós a elas. Nos deram alegria e esperança naquele momento geralmente estressante. Não sei se a viagem foi mais rápida, mas com certeza foi mais amena e menos perceptível. Mesmo eu, que não conversei com elas, não toquei no casaco, nem nelas, estava me sentindo leve. Terça-feira tem outra viagem. Espero ter sorte de pegar o mesmo ônibus que elas.

O agudo

Bruno Magalhães

19/11/03

postado por: RODOLFO TORRES 5:13 PM


Comments: Cão Paulo

O calor que faz por aqui me fez sonhar com Mossoró. Um calor seco, onde a respiração fica difícil. Nesses últimos dias tenho sonhado com o RN. É a ansiedade do retorno. Mas descobri que gosto do frio, que um clima de 15° é bastante acolhedor. E os reflexos da temperatura ambiente na personalidade também são notórios. A concentração chega mais fácil. A sensibilidade diminui. Mesmo vendo um pequeno cão perdido pelas ruas desse metrópole, à noite, vagando sem destino. Ele entra no estacionamento de um grande edifícil, onde é rapidamente expulso pelo guarda. Já está acostomudo com o barulho dos carros, que nunca param de passar ao seu lado, das buzinas irritadas, da fumaça que já não lhe irrita os olhos. Vive de sobras de carrinhos de lanches rápidos. Ninguém oferece sequer um carinho, uma leve alisada na sua cabeça. Vai andando com uma cara assustada. Simplesmente vive, como muitos de nós, vai vivendo. Essa cidade não se importa com o cachorrinho. Talvez ele nunca tenha pisado em areia, apenas em concreto e asfalto. Seu andar elegante contrasta com seu grau de nutrição. Cachorro urbano que não late mais. E que encontra abrigo, às vezes, nos mendigos. Somento com os mendigos eles se entendem. E são esses moradores de rua que prestam um grande serviço a todos, como eu, que gostam de cachorros: passam a mão em sua cabeça e alisam suas barrigas, tão magras; e dividem seu alimento com o pequeno animal para que São Paulo ainda tenha a presença de cães de rua, como qualquer outra cidade.

postado por: RODOLFO TORRES 5:13 PM


Comments: O "Velho Braga"

Supondo que a crônica seja um estilo nacional, supondo apenas; ela teve seu mestre maior, um homem que se dedicou a escrever durante toda a vida fragmentos e perpecpeções próprias dos momentos. Esse homem foi Rubem Braga. Quando estava em Parati, pude assistir a um debate sobre esse estilo, a Crônica. Nela estavam presentem três cronistas, sendo que um deles era Zuenir Ventura, os outros dois, um homem e uma mulher; não me recordo os nomes. E a questão principal era a discussão sobre a localização geográfica da crônica. Queriam nos convencer que a crônica era um estilo carioca; pela leveza, subjetividade e até diria malícia. Discordo em todos gêneros. Mas fato é que a cidade do Rio de Janeiro abrigou os maiores cronistas desse país e serviu de inspiração para seus escritos. E Rubem Braga, capixaba de Cachoeiro do Itapemirim, também viveu por lá durante anos. Recentemente comprei um livro dele para meu irmão, mas ainda não acabei de ler. E a única coisa que constato lendo o "Velho Braga"´, como era carinhosamente chamado, é que aquele mundo em que ele habitou não mais faz parte de nosso cotidiano. Um mundo mais gentil, mais suave, mais descompromissado. Até os fracassos tinham lá sua poesia. O simples olhar de uma moça na rua servia de pretexto para encher páginas e mais páginas de jornal. Hoje, os periódicos impressos "jogam" informação frenética, sem o menor espaço para o lirismo onde raro é o humor desvinculado da prática sexual compulsiva. E sem esse olhar ingênuo, áridos ficaremos. Rubem Braga Salva!

postado por: RODOLFO TORRES 5:12 PM


Comments: COMPLEXO DE VÍSCERAS

Cada pessoa humana é um conjunto de vísceras. Mas cada
ser individual tem uma víscera que se sobressai. Uns são
amargos como o fel do fígado, sabem que a vida não é e
nem deve ser fácil, são realistas demais, pé-no-chão, às
vezes pessimistas. São ótimos administradores, mas
péssimos empreendedores. Essas pessoas geralmente
padecem de doenças consuptivas. Sofrem com antecedência.
Vão se degenerando ao longo do tempo, transformando toda
a carne em fibras inertes e carcomidas, envelhecendo com
precocidade. Outras são fluidas e flexíveis. São capazes
de se adaptar às mais complexas situações. Depuram o que
é ruim para ficar só com o supra-sumo da vida. São
regidas pelo rim. O perigo é quando não têm como
excretar tanta miséria e sofrimento. Há aqueles que são
todo ouvidos; que ajudam, se preocupam e levam conforto
para outrem. Não há lugar para desesperança. O solidário
em excesso é vítima de si mesmo; muitas vezes não
consegue se auto-ajudar. Os pulmonares são vitais,
aventureiros, gostam do desconhecido, gostam da vida,
são plugados e tentam de tudo. Acontece de exagerarem,
saírem do rumo certo e não conseguirem mais voltar a sua
lucidez habitual. Às vezes enlouquecem. Aqueles
românticos, sonhadores, amáveis e amantes ardentes são
coração. A decepção é o seu pior inimigo e o infarto sua
causa-mortis. Existem os calmos, bem-resolvidos,
ponderados, contemplativos. Suas sinapses são o seu
forte. São cerebrais. O problema é pensar demais perder
algumas chances que não deveriam. Hão de ter mais
emoção. Uns são só músculos: são bonitos, orgulhosos e
exibicionistas. Geralmente não passam disso. Os que só
pensam, agem e funcionam para o sexo, são genitais
(geralmente associado ao musculoso anterior). Outros são
apenas apêndice. Não são carne, nem peixe; não fedem,
nem cheiram. São figuras apenas decorativas e sem
função. Só são lembrados quando morrem ou ficam doentes.
Eu? Acho que sou ungueal: duro por fora, mas se cutucar
sai sangue.
O agudo
Bruno Magalhães
18/11/03

postado por: RODOLFO TORRES 5:12 PM


Comments: TEMPO

Não gostaria de começar a escrever minhas crônicas de forma tão áspera e raivosa. Mas tudo é válido. O motivo desta é uma discussão, quase uma briga, que acabei de ter na fila do supermercado. Aconteceu assim: eu estava na fila do supermercado há 20 minutos atrás, esperando meu lugar no caixa, quando finalmente chegou a minha vez. Comecei a colocar os produtos no balcão, quando percebi que a caixa de leite estava amassada. Avisei a mocinha do caixa o ocorrido e que eu iria trocar a caixa de leite. Não tinha ninguém atrás de mim. 20 segundos depois eu estava de volta com uma nova caixa de leite. Qual não foi a minha surpresa ao ver as minhas compras no mesmo lugar que eu colocara e uma mulher, nos seus 30 anos, mais ou menos (Talvez 40 e poucos - era meio acabadinha), passando as compras dela na minha frente. Na minha frente! No meu lugar que eu tinha adquirido de forma honesta e com méritos próprios, depois de muito esperar. Fiz cara de quem não gostou e a mulher falou que como eu não estava lá, ela me passou, mas que já estava acabando. Respondi que eu só tinha ido trocar o leite há 10 segundos atrás. Ela falou que era empresária e que não tinha tempo a perder. Eu retruquei mais algumas reclamações e mulher respondeu no mesmo tom. A conversa foi aumentando de volume. Ora eu atacava, ora eu defendia. Eu disse que ela era muito apressada e que deveria ter mais calma. Nesse momento, surgiu, do nada, outra mulher, mais velha, lá na casa dos 60, que estava esperando só uma brechinha para entrar na briga (eu acho que esse povo muito esperto anda sempre em grupos ou duplas, que é pra ter alguém que prove que ele pegou mais um besta). E disse que eu era muito folgado. Eu era folgado, pode! Quer dizer eu fui ultrapassado na fila de forma leviana e artimanhosa, e ainda fui chamado de folgado. Em outras palavras, eu era folgado por ter me rebelado contra uma situação já bastante comum e há muito conhecida em todas as esferas: "Lei de Gerson", "Foi namorar, perdeu o lugar", "Foi trocar o leite, tomou um cacete...aceite". Aí eu me emputeci. Disse mais alguns desaforos para as mulheres, até que ela falou mais uma vez que era empresária e que tempo era dinheiro. Eu estava muito nervoso, e falei que se tempo era dinheiro, ela provavalmente não tinha muito "tempo", pois se tivesse não estaria comprando naquele supermercado de classe C (Barateiro) e, principalmente, que se ela tivesse "tempo" mesmo ela contrataria alguém para fazer as comprar por ela. É claro que ela não entedeu o que eu falei porque a crítica foi muito sutil, mas ela entendeu meu tom de voz e começou a gritar comigo junto com a amiga velha (ou velha amiga... ou nova amiga... não sei). Nesse momento, a merda já tinha virado boné. Desse ponto em diante eu me lembro vagamente, parece um sonho (ou pesadelo). Eu passei a guerrear em outros fronts. Mudei a tática e comecei a agredir verbalmente não só as duas mulheres, mas também a caixa do supermercado, pois ela tinha sido, no mínimo, conivente (talvez até incentivadora) dessa perversão de conduta moral de aproveitamento de boas almas direcionada contra a minha pessoa. Falei que a atitude daquelas duas mulheres eu poderia esperar, mas a funcionária eu não perdoava, pois estava me sentindo traído no meu âmago, já que foi para ela que tinha avisado que iria só trocar a caixa de leite; que ela foi condescendente com essa pouca vergonha. Ela poderia ter começado a passar as minhas compras sem a minha presença, falei. E não parei por aí. Virei para as filas que estavam perto e perguntei em voz alta, em tom de ironia, se tinha mais alguém que queria passar na minha frente (já que tinha virado festa). O pior foi que teve uma outra senhora na fila ao lado que respondeu que queria sim. Acredita? Depois de toda aquela confusão, uma outra pessoa, que não tinha nada a ver com a estória, falou que queria passar na minha frente. Vi que não tinha onde conseguir aliados, pois todos concordavam com a mulher que tomou o meu lugar. Ignorei a afronta daquela terceira pessoa e voltei minha atenção para a ladra de lugares em filas. Agredí-a verbalmente mais algumas vezes até que ela disse que ninguém poderia perder um segundo pois estávamos em São Paulo. São Paulo! Acordei! Lembrei-me onde estava. Recobrei minha consciência e recomecei a raciocinar. Deixei a mulher ir embora com cara de que tinha ganho a batalha (de fato, esta batalha ela ganhou mesmo, pois conseguiu terminar a feira primeiro do que eu). Analisando friamente a situação, tive pena dela. Ela não tem culpa, na verdade. Ela nasceu aqui e vai morrer aqui (coitada - dá ou não dá pena!). Ela é filha de uma cidade enlouquecida e que nos violenta de formas que nem imaginamos. O tempo talvez seja aquilo que esta cidade mais nos roube. Não são carros, bolsas, relógios que são assaltados; mas horas, minutos e segundos preciosos, e que com certeza não voltam mais. Nunca mais. O Tempo, depois da vida, é o bem mais irrecuperável que existe. Não tem volta mesmo. O tempo (ou a falta dele) nos afasta de nossos hobbies, de nossa diversão, de nossas primeiras escolhas... de nossos amores. De tudo aquilo que gostaríamos de fazer e não temos... tempo. Engana-se quem diz que "tempo é prioridade". Na verdade, a prioridade é o tempo. Com tempo, escolhe-se melhor as suas prioridades e se vive melhor. Também não concordo com "tempo é dinheiro". Pelo contrário dinheiro é tempo. Eu não quero ter dinheiro sem tempo para gastá-lo (coisa que paulista sabe bem o que é). Essa mulher pode ter ganho esta batalha. Mas ela que me aguarde. Isso tem volta. Minha vingança será doce. Será o crime perfeito. Perfeito mesmo: ela nem vai ficar sabendo. Eu vou ganhar a guerra. VOU VOLTAR PARA NATAL!
O mais agudo dos crônicos,
Bruno.

postado por: RODOLFO TORRES 5:12 PM


Comments: CAPADÓCIOS DO VERNÁCULO

Quão rapinante é aquele se vale de chufas de dição de modo a se converter em um mofatrão pândego. A intrujice está presente, pois em cada pilrete que atende pelo apodo de escriba, se dissimula uma soberba pandiada.
Essa frase representa o meu mais sincero repúdio àqueles que tornam as palavras mais importante que as idéias. Num egocentrismo barroco sem parelha, o indivíduo que torna-se refém da forma em oposição ao conteúdo deveria ser encarado sempre como um comediante. O riso, após cada palavra desconhecida e, por sê-la, obscena, deveria vir largo e sem vergonha ou remorso. A gramática já é demasiadamente difícil para que possamos atender às nossas carências corriqueiras. Não há necessidade, em um texto simples ou erudito, quando fora do contexto cômico, de um palavreado rebuscado e, antes de tudo, esnobe. O texto que se exubera em prepotência é chato, galhofado e espalhafatoso. Não é inteligível para mentes medianas, portanto não se assume o risco de se fazer entender. O receio do entendimento coletivo é próprio de um argumentador fraco. Então, sem substância, as suas palavras se perderão no vento e serão facilmente engolidas e contestadas por observadores astutos. Para que isso não ocorra, os embusteiros de plantão usarão os escaninhos da língua para não se fazerem entender e portanto estarem sempre certos. Imaginam eles que detêm todo o poder do conhecimento. Mal sabem, que a sabedoria dá de capote no conhecimento, pois o conhecimento é apenas uma mistura de oportunidade com esforço pessoal, portanto fácil de se apoderar. Enquanto que a sabedoria vem de regiões bem mais impenetráveis da psique humana, por conseguinte, privilégio de poucos. Não estou desfazendo do conhecimento, evidente que é muito importante. Mas, frente à sabedoria, o que será do conhecimento? O iletrado sabido é feliz e principalmente torna as pessoas em seu entorno felizes por tabela. O mestre estudioso sem astúcia perde-se no tempo e desaparece na história. O profundo conhecedor repete fórmulas já testadas e, óbvio, não erra nunca. O astuto inventa, vai por caminhos não navegados e chega brilhantemente ao seu destino. O estudioso deixa palavras, o sabido fomenta e semeia idéias.

O agudo
Bruno Magalhães
17/10/03

postado por: RODOLFO TORRES 5:12 PM


Comments: Respeita Kerginaldo

Não se trata propriamente de uma afirmação. Na verdade é um trocadilho com a música "Respeita Januário" do mestre Gonzagão. Quando Gonzaga volta do Rio de Janeiro para sua terra, com uma sanfona de 120 baixos (aqueles botões pretos do lado esquerdo de quem toca), ele tentou esnobar seu velho pai, também tocador. Só que o instrumento paterno contava com apenas 8 baixos. Daí, o "velho Jacó", ficou irritado com o jovem e proferiu a célebre frase imortalizada na obra do gênio: "Tu pode ser famoso, mas seu pai é mais tinhoso e com ele ninguém vai. Respeita os oito baixo do seu pai". Infelizmente, nem eu nem meu pai tocamos sanfona, mas eis um conselho de mim para eu mesmo: "Respeite o que seu pai diz". Ontem, os três homens da residência dos Gomes Torres jantaram juntos. E como não poderia ser diferente, uma enxurrada de conselhos me foram ditos. "Organize-se para sua ida ao Canadá". Liguei para o consulado geral querendo saber quais os documentos necessários para iniciar o processo de imigração mas uma "gravação" me atendeu, e não respondeu minha pergunta. Apenas soube que o Canadá está recebendo imigrantes (que bom!). Ainda ontem, tentei falar de uma música de Cartola que é um conselho para qualquer teen: O Mundo é um Moinho. Mas não fui bem entendido. Nela Cartola fala para sua filha, que queria sair de casa aos quinze anos para se casar, que "O mundo vai destroçar teus sonhos tão mesquinhos; vai reduzir às ilusões a pó". Agora entendo os conselhos de Cartola para sua filha, e certamente ela também entendeu. Como meu pai não é um poeta, ele me falou a mesma coisa de outra forma ao longo dos anos. Só não sei o que é pior: escutar do próprio pai que o mundo não é aquilo que acreditávamos ou ter que vivenciar essa tragédia? E uma outra pergunta pertinente, será que sou retardado por ter percebido isso tão tarde, ou o casulo que me foi ofertado era muito espesso? Nã (expressão que caracteriza desânimo)!

postado por: RODOLFO TORRES 5:11 PM


Comments: Migalha amada

Em nome de um idealismo infantil, como todos, sempre achei absurda a idéia de se colocar o futebol antes de tudo. Apesar dos sub-humanos índices sociais que temos, o que vale mesmo é que somos o único país que participou de todas as copas já realizadas, o único com cinco títulos mundiais, a maior potência nesse esporte. Ficava pra morrer escutando isso. Mas hoje, ao ver o fiasco do jogo contra o Peru; aliás, nem somos os melhores, não com essa porcaria de seleção e desse idiota de técnico. Nem falo de Zagalo, afinal se não fosse por João Saldanha em 1970, que armou toda a seleção mas brigou com os militares, ele nunca teria sido o técnico. À época, ele nada mais era do que capacho de general. Retomando, hoje estava assistindo ao jogo e notei meu erro ao reclamar do futebol por tantos anos. Não é um erro de análise, afinal eu bem queria que esse país tivesse os índices sociais da Suiça; mas é um erro de... Não saberia explicar, mas a questão é que só temos o futebol (e alguns outros esportes). O futebol é uma bóia nesse mar de fel que se chama Brasil. Se nós não acreditarmos que isso é realmente importante, que pelo fato da seleção ter conquistado cinco edições da copa do mundo temos algum valor especial (sabe-se lá para...), que somos essa pátria de chuteiras; se realmente não incorporarmos isso, quem iria resistir? Como se só isso bastasse. E com nosso nível de consciência, educação, leitura, cidadania, etc; que venha o futebol nos embriagar com noventa minutos do mais puro espetáculo, para que possamos esquecer que fazemos parte disso, que somos responsáveis pelo que ocorre, que nunca seremos nada além de meros espectadores, de gado histérico na hora do gol, de hipócritas cantadores de um hino nacional que, de tão complexo, nem parece ser o nosso (o que o salva é o instrumental), de brasileiros. Por convicção e desgraça. Próxima semana tem mais jogo.

postado por: RODOLFO TORRES 5:11 PM


Comments: Involução da espécie


Sempre gostei de publicidade... falo aqui do curso, ou melhor, da profissão de publicitário. Gostei da idéia de ter alguns segundos para vender o seu produto ou passar uma mensagem. Por isso, sempre fico atento às propagandas, e me divirto quase sempre com elas. Não raramente elas são melhores que os programas nos quais estão inseridas.
Hoje, voltando para casa, escutei no rádio uma propaganda que me chamou a atenção. Iniciava com o diálogo entre duas jovens, e este era restrito a algumas frases e expressões: "tipo assim"; "entende?"; fala sério"; "não tô entendendo"; etc. Após alguns sofríveis segundos deste diálogo dos tempos atuais, o locutor interrompe-o, e anuncia uma exposição no museu de artes de São Paulo (MASP), dizendo: - Leve o seu filho, antes que seja tarde demais ...
Esta propaganda me chamou atenção. Há alguns anos, o programa humorístico TV pirata, fez uma analogia semelhante, só que naquela época, o objeto em questão eram os surfistas. Hoje em dia este conceito do não saber o que dizer se estendeu à todos os jovens. Isso é lamentável, mas é a pura verdade. Com a internet e todas as facilidades de entretenimento individual, o jovem não precisa mais nem conhecer o seu vizinho, nem saber o seu nome. Logicamente os tempo são outros, e a violência atual não permite mais certos tipos de exposições como (graças a Deus) tive na minha infância. Mas será só isso que justifica o isolamento dos jovens atualmente.
Na tentativa de adquirir identidade, os adolescentes (como mostra o diálogo da propaganda), estão cada vez mais iguais. Não acho que a minha geração de adolescentes tinha muito mais a dizer ou pensar do que a geração atual, mas pelo menos nós dizíamos, e cara-a-cara. Éramos obrigados ao contato e a socialização. Em uma entrevista, certo sociólogo disse que a geração atual é de "bananas". Entendo o que ele quis dizer, e com total razão. Sua afirmação foi seguida de vários depoimentos, nos quais os jovens diziam se sentir muito mais à vontade na frente de um computador do que na frente de uma pessoa. Lamentável ...
Se não mudarmos este comportamento, daqui a alguns anos, este tipo de propaganda servirá para todas as pessoas, independente da idade ou de gostar de pegar onda. É a inegável involução da espécie.
Do aditor
GustavoGT
SP 15/11/03

postado por: RODOLFO TORRES 5:11 PM


Comments: Sua sede de Sangue

A nação clama por justiça! Após o assassinato do casal paulista, um crime sem perdão, só se fala na redução da idade penal (ou que nome tenha a quantidade de anos que o indivíduo possa ser considerado adulto para responder por seus atos) no Brasil. Como estamos numa democracia, a discussão é absolutamente salutar. Mas o que é trágico nisso tudo é a lógica de nosso país (e de tantos), uma lógica punitiva. Sem entrar no "sociologiquês", deveria-se também olhar esse fato pelo lado do menor infrator. Será que ele é mal, como afirmou o delegado responsável pelo caso? Ou será que planejou o assalto e depois a morte dos jovens porque é um produto dos nossos dias? E agora? Estou há muito tempo tentando entrar em contato com uma entidade de direitos humanos em Natal, chamada de CDHMP (Centro de Direitos Humanos e Memória Popular), mas não obtive nenhuma resposta. Nada. Após ajudar um jornalista numa matéria sobre violëncia policial no Brasil, tendo transcrito mais de seis horas de entrevista com corregedores, juizes e membros de entidades de direitos humanos, entrevistado com exclusividade o ex-secretário nacional de segurança pública por mais de uma hora, percebi que esse ramo me atrai muito. E o que é pior, além de não ter obtido nenhuma resposta do CDHMP, ainda observo como os Direitos Humanos são bombardeados pela imprensa. Alguns jornalistas oportunistas, no calor do momento e da ira provocados por eles mesmos, lançam "pérolas" em todos os veículos de informação (até aqueles apresentados por acéfalos - é assim mesmo a grafia?) onde pregam que DH é para proteger bandido, que se um parente do pessoal dos DH sofresse o que o casal sofreu a opinião deles seria diferente, tem que aprovar leis mais "duras"... Essas coisas. Diria que nesse contexto de criminalização das pessoas que trabalham em favor dos direitos humanos no país, e do'próprio direito do ser humano, a única defesa dos grupos de DH é apenas responder aos carniceiros de todos os cantos o seguinte - "trabalhamos para impedir que a vontade de um país não seja a mesma vontade desses homens, quando praticaram crime tão brutal".

postado por: RODOLFO TORRES 5:10 PM


Comments: Perdão

Perdão, mas por que? Será que é porque estou hospitalizada? Não, acho que não. Será por que amo demais? Também não. Então por que estou pedindo perdão? Ah! Isso é uma coisa séria demais. Ou então, como dizia minha sobrinha Marcó, ¿vocês não entendem isso¿. É... tudo veio a transformar-se em uma idéia quando estive no hospital muito doente de uma infecção. O engraçado é que, quando estamos muito doentes, ficamos tão fracos que daríamos tudo para termos a mesma energia anterior. E através dessa fraqueza física, veio a idéia de fazer esta música (ou talvez poema).

O certo é que estou pedindo perdão por não ter feito ou dito tudo que eu sentia sobre o amor. Na vida, passamos por momentos de alegria, tristeza, reflexão... que devemos registrar. Esse momento já passou, aconteceu em junho de 1998.

Perdão


Perdão, porque não te abracei

Perdão, porque não te falei

Perdão, porque não te acariciei

Perdão, porque sempre te amei.



Não sabia que o tempo era curto assim

Não sabia que você precisava de mim

Não sabia que poderia modificar assim

Nossa vida, nossos momentos e tudo enfim.



Não sabia que poderia ter você só para mim

Mas, a dúvida passou, você chegou bem perto de mim

Temos o tempo todo só para nós dois enfim.

Teresinha Torres

postado por: RODOLFO TORRES 5:10 PM


Comments: Holofotes ao nada

Custo sinceramente a acreditar no que se diz sobre a retomada do cinema brasileiro. O alarme sobre o assunto me enoja. Não existe cinema no Brasil. Obviamente que exceções estão aí para comprovar a regra, mas podem acreditar que qualquer filme que apareça em comerciais de televisão não valem à pena. Nenhum (desconheço às exceções)! O que existe é uma linguagem televisiva medíocre, melhor produzida, filmada em câmeras digitais ou película e exibidas em salas de projeção fechadas. Para nós, acostumados a presenciar o grotesco cênico diariamente em nossas casas, a sensação de pagar ingresso, comprar pipoca, ficar no escurinho em frente a uma grande tela; pode ser confundida com essa arte industrial que é o cinema. Mas por favor, não vamos colocar "tentáculos" de emissoras de televisão no mesmo patamar da sétima arte. O que se vê é apenas um "novelão" cretino travestido. Já me proclamei um cineasta embrionário, e não me envergonho em dizer que ainda preciso digerir muito cinema, mas muito mesmo. Preciso digerir Gláuber Rocha, Nelson Pereira dos Santos, etc. Nunca Arnaldo Jabor. E também estava pensando: "Como é fácil falar bem de Walter Sales Jr.". Quem se atreveria a dizer que Central do Brasil é um filme chato? Quem enfrentaria o Unibanco? O que está ocorrendo com o cinema é o que já ocorreu com a música: só aparece na mídia o que não presta! Incrível saga das artes. Sem querer, acabo tendo que concordar com o grande jornalista mineiro Otto Lara Resende, quando dizia que "O cinema é uma maneira muito fácil de ser intelectual sem precisar ler nem pensar". Ô máfia braba essa do cinema nacional.

postado por: RODOLFO TORRES 5:10 PM


Comments: TRANSPORTE POPULAR

Em lugares públicos os elevadores são um problema. Estão
sempre demorados, superlotados ou com defeito. Às vezes
demorados, com defeito e superlotados. Alguém poderia
dizer que é porque há poucas unidades dos mesmos, que
deveria haver mais elevadores. Tudo bem, concordo, mas a
questão-chave não é essa. Os elevadores não estão sempre
cheios por excesso de gente; eles estão lotados por
excesso de gente que faz questão de usá-los. Muitos
transeuntes que se transportam apenas um andar acima, e
até para baixo, só conhecem o caminho do elevador.
Deveria existir uma lei que proíba o uso de elevadores
para pessoas normais por uma distância menor que três
andares. Ou melhor deveria haver conscientização da
população que seria bem mais proveitoso, porém mais
dispendioso e complicado. Uma forma fácil de educar a
população seria utilizar-se de pagamento para utilizar a
caixinha mágica. Quanto mais perto mais barato e depois
de 3 andares seria de graça. Em todos os elevadores
existe aquele aviso ignóbil, baseado em uma lei imbecil, que
manda se certificar que o elevador está realmente ali
antes de adentrá-lo. Acho que esse aviso é totalmente
dispensável; qualquer um que consiga ler aquela placa
tem discernimento suficiente para não entrar no elevador
se o mesmo não estiver ali. Além desse aviso
estúpido, deveria existir outro assim: "Para menos de 3
andares, para cima ou para baixo, só utilize este
elevador em caso de gravidez acima de 7 meses,
deficiência física, idade maior que 65 anos (contra-
indicação relativa), criança de colo, ou preguiça ou
ganância extrema". Melhor seria ainda traduzir de forma que todas classes sociais pudessem entender: "Pra andar, pra riba ô pra baixo, meno de três droba de escada, só vá de eleivadô se tivê cum a barriga pela boca, em causo de alejo, véio de bengala (mas se tivê disposto num precisa), menino aperriando, verminose ou usura". Coloco a ganância (onde eu nasci chamava usura) além da preguiça
(condição óbvia do passageiro de elevador para menos de
3 andares) porque alguns passageiros de elevador não são
preguiçosos, mas gananciosos. Explico: Se o elevador
existe, eu tenho que usá-lo, pois é um direito meu. É o
mesmo princípio que nos faz aceitar sempre a comida de
avião e comer até o fim, mesmo sem gostar, ou então de
usar o plano de saúde só porque pagamos por ele todo o
mês. É um motivo despropositado, mas verdadeiro. A
maioria nem percebe que usa o elevador por isso. E é
difícil aceitar. Com as escadas rolantes acontece o
mesmo. Em shoppings e no metrô, é cômico como as pessoas
esperam, se acotovelam e sofrem para conquistar um lugar
para colocar os pés (apenas os pés) na escada rolante,
enquanto que a escada de concreto, que geralmente fica
ao lado, permanece vazia e inexplorada. Por isso, leitor amigo, da próxima vez
VÁ DE ESCADA.
O agudo
Bruno magalhães
13/11/03

postado por: RODOLFO TORRES 5:09 PM


Comments: Apotiguar

Saio agora de uma reunião de pauta sobre uma edição especial da revista sobre cultura nordestina. Como único representante da região, fui encarregado pelo editor de chamar alguns jornalistas conhecedores do que acontece nas artes por lá. E como sempre, a arrogância pernembucana reinou. Mas não os condeno. Quisera eu ter o conhecimento da cultura do meu lugar como os pernambucanos têm. Sugeri escrever sobre uma poetisa potiguar que muito aprecio, Iracema Macêdo. Lembro a primeira vez que tive o prazer de entrar em contato com seu texto. Estava no Salão da minha querida amiga Nalva Melo. Aliás, ainda pretendo escrever sobre Nalvinha. Figura humana da melhor qualidade. Nesse poema que li, Iracema falava do túmulo de uma moça judia que lhe chamou a atenção. Chamava-se Rosinha Palatinik (se não estou enganado). À época, pensei, e não abandonei a idéia, de fazer um mini-documentário, ou registro em vídeo, uma "viagem em vídeo" sobre o tal poema. Quando fui questionado sobre o que poderia ser interessante mostar da nova cultura potiguar nessa edição, calei-me, pela mais profunda ignorância sobre o tema. Sugeri escrever sobre como Fernando de Noronha nos foi roubada por Pernambuco; sinal evidente do mais completo sentimento de "apotiguariedade" dos potiguares. Sugestão não acatada. Ainda ouvi de um pernambucano a seguinte frase: "Noronha já é nossa. Esqueça"! Quem não sabe o que se passa em termos culturais no seu Estado, merece propagar com indignação que o paraíso de Fernando de Noronha lhe foi roubado?

postado por: RODOLFO TORRES 5:07 PM


Comments: O estandarte do sanatório pessoal

Existe, sim, uma coisa impensável nessa terra: falar mal de Chico Buarque. Qualquer coisa que envolva seu nome, logo merece o aplauso imediato, instantâneo, uma ato reflexo. Inegável é seu talento como letrista, ao menos nos anos duros da ditadura. Suas letras são simplesmente belas, perfeitas, e servem de muleta para muitos professores de português "aparícios" (Pasquale Cipro Neto). A construção das linhas de suas canções merecem um tratamento especial, um cuidado com a palavra, uma rígida métrica. Esse trabalho artesanal imortalizou esse brasileiro (que adora Paris e Roma) e brindou nossa música. Sem desmerecer seu sofrimento diante da falta de liberdade nos anos duros da repressão, Chico exilou-se voluntariamente na Itália. Nenhum militar, por mais severo e linha dura que fosse, jamais bateria ou torturaria o filho do intelectual paulista Sérgio Buarque de Holanda. Em relação ao talento do artista enquanto escritor, bem... Não se pode ser genial para todo o sempre. Muitas pessoas que conheço não apreciaram seus livros na mesma dimensão das suas músicas. Inclusive se comenta por aí que o primeiro romance de Chico, Estorvo, é realmente é um estorvo. Mas sempre existe, principalmente em se tratando de uma figura pública, uma brecha para o falatório. Tenho uma escassa, envergonhada crítica ao nobre compositor carioca. Sua omissão diante dos atos do governo Lula. Chico Buarque, que sempre apoiou Lula, em todas as suas candidaturas, calou-se diante dos absurdos desse governo que ele ajudou, com sua imagem, a eleger. Com o seu peso intelectual, seria um disparate esperar uma aparição pública de Chico pedindo desculpas ao povo brasileiro diante das atrocidades PTistas? Seria incoerência pedir isso? "Prezado povo brasileiro, venho, envergonhado, pedir desculpas pelas atitudes governamentais desse homem, que apoiei e ajudei a eleger". Óbvio que não somente ele apoiou, mas quem se equivale a Chico Buarque, em termos de crédito e respeito perante o país? Ao menos em relação ao ALCA, que vai sair em 2005 e acabar com o que resta de nossa "soberania", um dos versos da música "Vai passar" deveria ser usado: "Dormia, a nossa pátria mãe tão distraída, sem perceber que era subtraída, em tenebrosas transações".

postado por: RODOLFO TORRES 5:07 PM


Comments: Apenas aguenta

A confraria dos crônicos, investindo na qualificação profissional e intelectual de seus colaboradores enviou, há poucos dias, o confrade agudo para uma relato especial sobre os nossos vizinhos argentinos. Lendo o seu texto sobre tal incursão, comecei a refletir sobre alguns porquês que gostaria de compartilhar com os senhores.
Na verdade acredito fielmente que os nossos erros se iniciam desde a colonização. Já começamos errado. Não que acho que deveríamos ter sido colonizados por espanhóis, mas o problema foi quem as portugueses mandaram inicialmente para cá. Seria o mesmo de colonizarmos uma ilha, e mandar para lá trezentos ¿carandirus¿, chefiados pelos indivíduos das solitárias. O fato de Portugual querer sugar todos os nossos recursos não foi o pior castigo, com certeza. E a vinda da família real, que vergonha .... esse é um episódio deprimente de nossa história. Correr ao som dos primeiros ocorridos foi cômico, se não trágico.
Em um salto histórico, vejamos o que ocorre hoje em dia. O brasileiro é um povo que acha normal ou bonito tudo o de ruim que lhe acontece, desde a nossa falta de educação, até a nossa falta de perspectiva. Pois enfiaram na nossa cabeça que o brasileiro é um povo legal, que aceita tudo, ou melhor dizendo, que aguenta tudo.
Um dos maiores poetas nordestinos, Luiz Gonzaga, já fez uma música se lamentando pela seca, e pedindo chuva. Mas também já se sentiu culpado pela forte chuva que caiu sem parar (¿se não rezei direito o senhor me perdoe, eu acho que a culpa foi, deste pobre que nem sabe fazer oração¿).
Certa vez, vendo uma entrevista de uma atriz, destas mais antigas, que sabiam no palco a diferença entre o choro e o riso, a mesma disse que o que falta no Brasil é um pouco de revolta. Não recordo com certeza, mas acho que foi Fernanda Montenegro. É a mais pura e crua verdade. A pátria do ¿aceita tudo¿, é incapaz de se revoltar contra os absurdos que ocorrem, e olhem que são muitos. Quando falo revolta, é um ato de inteligência por parte da população, e não de vandalismos como as vezes assistimos. Em entrevista com Fidel Castro, certo repórter comentou sobre o confisco da poupança do governo Collor. O estadista, não acreditando sobre o fato, perguntou se não houve revolta popular. E olhe que estamos falando do mais longo regime ditatorial do planeta. Nem Fidel teria coragem.
Começei há alguns meses a tentar ler ¿Morcegos negros¿, na verdade um dossiê sobre todo o absurdo do governo de Collor. Parei na metade pois tinha crises de raiva e revolta todas as noites. Vi que iria ter um enfarte antes dos trinta, e resolvi parar. Por muito menos do que esta ali escrito se merece o inferno.
Quando De Gaule disse que este país não é sério, muitos acharam um absurdo. O dito foi o óbvio, só não vê quem não quer, ou quem acha que assim é a melhor maneira de se conduzir uma nação.
Triste de um povo que ¿ri quando deve chorar, e não vive apenas aguenta.¿
Do aditor (hoje: amargurado, abismado, atônito, afásico ...)
GustavoGT

postado por: RODOLFO TORRES 5:07 PM


Comments: Bigode incompleto pelo segredo do anjo

Todos nós, quando ainda estamos no ventre materno, recebemos a visita de um anjo. Alguns chamam de anjo da guarda, espírito protetor, o que seja... Ele chega quando nossa mãe está dormindo, e após sua visita ela fica seriamente enjoada, acordando logo em seguida, vomitando rios de um líquido lamacento. Essa é a consequência da visita do anjo. Só que ele nos deixa a par do mistério, mas pede segredo. Não somos autorizados, em nenhuma hipótese, a propagá-lo, sob risco de severas penas celestiais. Eis a explicação anatômica para a fenda que temos entre o lábio superior e o nariz, chamada de sulco naso-labial. O dedo indicador ângelo toca essa parte do nosso corpo, formando a marca. Com o passar do tempo, a imensa maioria esquece desse segredo chegando inclusive a acreditar que ele nunca foi ofertado. Ontem, ao tirar a barba, pude relacionar esse fato a outro. Além do meu pai, sou o único homem que tenho notícia que não possui pêlos no sulco naso-labial. O dedo do anjo "queimou" essa região da minha face, impedindo o bigode completo. E qual foi o segredo? Não lembro, mas posso fazer alguma especulação: "Esse mundo é a morada da agonia. Não perca tempo procurando a felicidade, pois ela não é acessível. Tente suportar a penúria e engolir a dor. Verás o pior lado da essêncial de tua espécie. O outro, é apenas idealização". E minha mãe acordou...

postado por: RODOLFO TORRES 5:06 PM


Comments: IMPRESSÕES PLATINAS

Durante breve incursão à terra de Evita Peron, percebi
diferenças cruciais em relação a nossa brasilianice
singela. A argentina realmente se parece com a Europa
(pelo menos pela televisão, já que nunca saí do
continente americano). O povo é orgulhoso sim, mas com
motivos. A educação é fácil de notar. Não há pressa como
aqui em São Paulo. As filas andam contentes e sem muita
demora. Já na chegada àquele país, notei que eles são
realmente latinos (talvez mais que nós). Cada pessoa
querida que saía do vôo era saudada de forma explícita e
exagerada pelos amigos e familiares. No início cheguei a
pensar que eram famosos; havia para alguns até faixa de
boas-vindas. Não há violência gratuita. Não há
patrulhamento policial ostensivo por absoluta falta de
necessidade. Perguntando ao motorista, constatei que as
multas são bastante raras, diferente do caça-níqueis
daqui. Passeando pelos canais locais de televisão, para
minha grata surpresa, não vi nenhum programa do estilo
de ¿Cidade Urgente¿, ¿Aqui e agora¿, e outros. Esse
ítem, por sinal, deveria inclusive fazer parte do IDH
(índice de desenvolvimento Humano); quanto mais
programas do gênero existissem, pior seria o IDH. Os
edifícios de Rosario, cidade em que fiquei, são antigos
e bem conservados. As pichações são raras. A cidade é
limpa. Esta é a cidade-sede do Rosario central e Newel¿s
old boys, dois grande times argentinos e de imensa
rivalidade. São conhecidos como leprosos (rosario) e
pilantras (newel¿s). Uma semana antes de eu chegar, teve
o clássico-rei local, Pilantras x leprosos (não sei qual
o pior apelido) e tudo transcorreu na mais absoluta
tranqüilidade. Vi alguns pedintes na rua, mas fui
informado que até a quebradeira geral da Argentina, não
havia tal situação. O custo de vida é bem mais baixo.
Por exemplo: uma Quilmes, cerveja local (fala-se
cerveza), muito gostosa, de 1 litro é encontrada por
2,20 pesos, cerca de R$ 1,76.
Pontos negativos: tem muitos argentinos e eles não
entendem português; quase não há frutas e, pior, não
encontrei arroz (isso é grave); existe a igreja nacional
do São Maradona (isso é vero), relativa ao craque
cocainômano, onde a ¿bíblia sagrada¿ é a biografia dele
(reitero que as informações foram tiradas de fontes
seguras).
Por incrível que pareça, os habitantes do sul do rio La
Plata não tem ódio de nós brasileiros, pelo contrário,
eles nos trataram muito bem. Eles não gostam mesmo é dos
ingleses, que roubaram as malvinas, e dos chilenos , que
ajudaram os ingleses. Conosco , existe apenas rivalidade
futebolística.
Rapidinho esses caras vão se recuperar e daí ninguém
segura.
Hasta luego!

O agudo
Bruno Magalhães

postado por: RODOLFO TORRES 5:06 PM


Comments: O país do futebol

Aquele dia era com certeza especial. Logo de manhã, um belo céu surgiu para homenagear a batalha que se anunciaria em breve. Os passarinhos pareciam gorjear o hino dos combatentes aos primeiros raios de sol. A estrada de domingo estava bem mais movimentada que o habitual e enquanto esperava o concerto do meu carro no acostamento, avistei dezenas de transportes diversos que zuniam no asfalto com pressa para chegar rápido ao campo de batalha. De lotados caminhões e ônibus a motos e pessoas a pé em peregrinação esperançosa de uma carona amiga, todos se dirigiam para aquela cidade imensa e sempre receptiva a embates sensacionais. Os aficionados exibiam com orgulho as cores de sua preferência e hostilizavam as camisas adversárias com uma paz instável. Seguiam cantando velhas e novas canções de guerra, da mais saudável guerra que se conhece. Uma guerra que sempre tem um vencedor mas nunca um vencido; no fim todos ganham. A guerra saudável do esporte. Fora algumas exceções lamentáveis, é sempre festa e delírio... às vezes também é esperança e ópio... não ódio, embora possa parecer. As paixões de milhões estavam em jogo. Numa peleja decisiva tudo se resolveria, finalmente, após muita espera. A expectativa era de uma partida maravilhosa com herói e vilões como toda grande saga. O futebol, depois do casamento, é a mais imprevisível das paixões. Tudo pode acontecer. E os carros seguiam passando cada vez mais eufóricos e em maior número e freqüência. Bandeiras tremulavam contentes ao vento. Todos que passavam me cumprimentavam amistosamente, provavelmente querendo ajudar mas com certeza com medo de perder coisas preciosas como o início do jogo. Eles se sentiam, com razão, privilegiados por testemunhar ocularmente a história. Dada a importância do jogo, somente alguns poucos milhares seriam agraciados com duas horas de entretenimento absoluto. Naquele momento tudo era relegado a segunda opção. Na verdade, não havia segunda opção, somente a peleja importava. A semana inteira, todo o país se engajara voluntariamente em uma campanha proposital de propagandear o jogo. As redes de televisão proclamavam como a partida mais importante do ano. As rádios seguiam os jogadores e comissão técnica para saber todos os detalhes e noticiavam literalmente até de madrugada. E os torcedores, totalmente parciais e otimistas, comentavam e polemizavam a disputa com exagero. Aquele com certeza é o maior clássico das Américas. BOCA JUNIORES x RIVER PLATE. A argentina merece esses dois gigantes.
PS: o Boca ganhou, 2x0, mas o herói foi Yarley, brasileiro e paraense.

O agudo
Bruno Magalhães

postado por: RODOLFO TORRES 5:06 PM


Comments: Monogamia espiritual

Oscilei durante toda a vida entre o cristianismo e o ateísmo. Negava-me, por mágoa, a aceitar Javé; afinal sua escolha, segundo a mitologia judaica, foi o povo hebreu. Se ele não faz questão, muito menos eu. Também nunca me agradou a mudança de temperamento dele do Antigo para o Novo testamento. Antes, um Deus guerreiro, ciumento, possessivo, cruel. Agora ele está piedoso, generoso, solidário. Com a enxurrada de ensinamentos religiosos, não consideramos uma outra alternativa metafísica, que me parece mais justa e abrangente: o politeísmo. Considerado por tantos como uma forma primitiva de credo, sendo inclusive rebaixado a sub-crença nos dias nossos, admito essa possibilidade (que foi a primeira) como forma de relacionamento com o divino. Não me proclamaria ateu, mas cético. Com o politeísmo, as possibilidades se ampliam. E nada mais injusto do que limitar o imaginário de gerações e gerações com apenas um Deus. Fiquei assustado com o resultado de uma pesquisa, mostrando que a instituição que os brasileiros mais confiam é a igreja. Não bastasse esse avanço desordenado de seitas via-satélite. Eis um perigo à liberdade, principalmente à liberdade de crença. Proclamar que macumba, candomblé, umbanda são manifestações do mal; é dizer, nas entrelinhas, que: "a cultura negra é coisa do demo". Portanto, meus caros, apenas vos digo: Javé não é nosso. O pai de Cristo e o próprio não nos pertencem. Vamos conhecer e apreciar a vasta e maravilhosa coleção de divindades índias e negras da qual dispomos. E dessa forma alcançar um paraíso mais belo, mais feliz, mais nosso. Esqueçamos o "filho do italiano".

postado por: RODOLFO TORRES 5:05 PM


Comments: Pústula social

Vendo esses programas policialescos, onde o apresentador carrega os valores da família brasileira (assim como os pastores caça níqueis), pude observar um único e claro pedido deles às autoridades de segurança de São Paulo: acabar com os bandidos. Com essa onde de ataques aos postos policiais daqui, o ambiente para essa gente não poderia ser melhor. Muito simples falar como eles. "Lugar de bandido é na cadeia", "Bandido bom é bandido morto", "Temos que limpar São Paulo"... Não falam, por exemplo, que o principal fator da criminalidade é a falta de toda e qualquer perspectiva do país. Não citam que as medidas conservadoras tomada pelo ministro Palocci têm reflexos diretos no aumento da criminalidade. Quando o país deixa de aplicar recursos para melhoria da qualidade de vida da população e os transfere para Bancos e instituições financeiras internacionais, como pagamento de juros, é claro que a coisa tem que vazar por algum local. Segurança pública se traduz hoje em dia na construção de presídios e viaturas cada vez mais modernas nas ruas. Qual governante não vai inaugurar uma penitenciária com um largo sorriso, falando que a obra vai aumentar a segurança? Não entendem que a segurança pública tem que ter um papel profilático e não ser a vedete da mídia. Nossa maior herança do período da ditadura militar, na televisão, são esses programas policiais. Eles servem para eleger indivíduos da extrema direita, pregar o pânico e dar sustentabilidade a uma instituição que acredito existir apenas no Brasil: a polícia militar. Não sei se já perceberam, mas polícia é uma coisa e militar é outra. Polícia civil é pleonasmo. Polícia tem que ser civil. Polícia Militar só possui sentido dentro de um quartel ou instituição de militares. Nunca nas ruas. Como estamos passando, há tempos, por uma guerra civil, onde policiais com treinamento de militares estão sendo perseguidos, deixarei de ir à uma festa hoje, lá pelas 23 horas. E por aí vamos, nesse festival de incoerências e absurdos de que somos filhos.

Rodolfo Torres

postado por: RODOLFO TORRES 5:02 PM


Comments: A íris dos sofridos

Já estava me preparando para comer um frango à parmegiana, muita saliva na boca diluída com cerveja e com aquela sensação de "agora o mundo pode acabar que não estou nem aí"; ouço uma voz infantil, triste, bem baixa, pedindo um pouco que fosse, caso sobrasse, daquele prato que estava sobre a mesa. Mas fui escoltado pelo amigo que trabalha na lanchonete. Ele retirou aquele estorvo do meu campo de visão e pude deliciar minha refeição "tranqüilo". Antes de sair, o garoto me lança um olhar de clemência, de por favor, de socorro. Não fiz nada, apenas continuei meu jantar, e à cada garfada, a impressão é que estava engolindo culpa pelo garoto que passava fome ao meu lado. "Mas o moço falou que ia me dar comida", argumentava ao garçon que gentilmente o expulsava de lá. Chovia muito naquela noite. Entra um homem negro, magro, alto, que vendia flores. Sua expressão era do mais profundo penar. Se conseguisse tirar uma fotografia de seu rosto, ou melhor, se Sebastião Salgado encontrá-lo por aí vendendo suas flores, certamente ganhará mais um prêmio para sua tão vasta coleção de honras ao retratar em preto e branco as misérias do mundo. O homem partiu para dentro da chuva com suas flores e um histórico ancestral de exclussão e humilhação. Acabo a refeição. Um café me é oferecido. Aceito-o. Saio com a certeza de que tudo (tudo mesmo) vai piorar e que, diferente de outras épocas, com suas paixões e sonhos próprios; não existe alternativa que seja desejada por nós. Queremos o que aí está. Na verdade, o que é o sofrimento do outro?

Rodolfo Torres

postado por: RODOLFO TORRES 5:02 PM



arquivo