De crônica, não basta a vida!



Comments: Sexta-feira, Outubro 31, 2003

SERÁ MODA?


Sempre convivendo com más notícias, em meio a uma sequência ilógica de absurdos, há algumas semanas encontrei algo que me tirou por um instante deste marasmo, e gostaria de compartilhar com os confrades.
Enquanto voltava para o aconchego do meu apertamento, ainda no metrô, fui surpreendido por uma visão interessante. Na estação Consolação do metrô (e em outras estações), em meio ao corre-corre de pessoas, existe uma máquina de vender livros ... isso mesmo. Tipo estas máqUInas que vendem refrigerante, doces, cartões de telefone. Lá existe uma "Máquina de Livros". São na verdade exemplares de grandes clássicos da literatura, na sua maioria, vendidos em formato menor(tipo pocket), e com preço acessível. Não venho aqui querer julgar o mérito da intenção do dono desta máquina, ou os livros em si, mas a idéia me parece por demais útil, pois no meio da correria do dia-a-dia, ficou mais fácil alguém lembrar de ler um livro.
Achei a idéia espetacular, e hoje me lembrei de outros fatos que também me parecem louváveis, como um grupo de pessoas que está deixando exemplares de livros em locais públicos, de propósito, para que alguém possa ler, e por sua vez fazer o mesmo (isso já tem um nome, só não me lembro qual). Ou outro grupo que distribui gratuitamente livros em locais pobres de São Paulo.
Será que, finalmente, o leitura irá virar "moda". Diante de tantas coisas cretinas que se divulgam por aí como sendo a última moda, talvez tenha chegado a hora de "Ser chique ler um livro!". Se os senhores prestarem atenção, até a maior rede de televisão do país, em meio às suas transmissões de futebol, está vinculando que "a leitura também é um exercício".
Que bom, pois acredito fielmente que as mudanças reais do nosso país terão de passar pela educação do nosso povo. Mais do que isso, conscientização popular. E essa depende de uma sociedade informada, não apenas por jornais nacionais, mas informada no sentido amplo da palavra. Isso só se consegue, de uma forma: lendo. E esta leitura tem que começar de alguma forma, recebendo um livro nas portas da favela, encontrando em um banco de alguma praça, ou até mesmo comprando enquanto espera o metrô.
Do aditor
GustavoGT
São Paulo 31/10/03

postado por: RODOLFO TORRES 1:22 PM


Comments: Quinta-feira, Outubro 30, 2003


Não tem jeito que dê jeito.

Já perceberam quantas coisas sem jeito existem no
mundo? Quantas vezes escutamos que não se pode fazer
nada sobre determinado assunto. Ontem eu fui no DETRAN-
SP (perdi um manhã inteira da minha vida) e tirando uma
dúvida com uma funcionária, deixei ela ver o documento
original do meu carro. Ao ver o documento, ela notou que
estava junto a nota, recibo, papel, sei lá... de compra
e venda do veículo. Ela parou o que estava fazendo e
perguntou em tom solene: "você sempre anda com este
documento?" Respondi que não, que sempre andava com a
cópia. Ela falou que pelo menos hoje eu estava de posse
deste documento e que isso estava errado. Eu perguntei
porque, quase interrogando se era proibido andar com
aquilo; parecia que precisava de algo como porte de arma
para sair com aquilo na rua. Sei lá, talvez eu fosse
multado ou ganhasse pontos na carteira, algo assim
(situação bem próxima da realidade, já que estamos
falando de DETRAN). Ela percebeu meu sorriso irônico e
contou-me seriamente que se eu perdesse aquele papel
colorido não tinha mais jeito. Eu não perguntei mais
nada, mas não entendi. Que jeito que não tinha? Eu não
poderia vender o carro jamais, é isso? Ia ter que morrer
com o carro ou então esperar ele ser roubado? Acho que
foi isso que ela quis dizer. Outra situação sem jeito é
quando se esquece o crachá do Hospital; Não se consegue
almoçar nesse dia, só pagando. Se consegue entrar no
hospital, atender pacientes, pegar medicamentos,
inclusive tarja-preta, mas não almoçar. Já argumentei de
diversas formas mas nunca consegui entrar no refeitório
sem o crachá. Não há outro meio. NO WAY. A resposta é
que a culpa é minha; eu deveria ter trazido o crachá.
Funciona como uma punição. Quer dizer, se o crachá
quiser almoçar no refeitório, sozinho, sem pagar, ele
pode, mas eu não. O crachá é muito mais poderoso e
influente do que eu. É um fato... lamentável, mas um
fato. Só que eu sou médico. A minha pespectiva de
impossibilidade e coisa sem jeito é muito mais ampla. Já
pensou se um paciente chega no pronto-socorro dizendo
que se enganou com o frasco e tomou veneno de rato sem
querer? Baseado no argumento da funcionária e diretória
do refeitório eu poderia dizer que infelizmente eu não
iria fazer nada pela paciente pois o erro foi dela e não
haveria jeito. E quando a ambulância traz o paciente com
o coração parado a 5 minutos. Eu deveria dizer: desculpe
não tem mais jeito, tinha que ter trazido antes. Não é
assim. No mínimo, a tentativa e o esforço para salvar
essa vida serão apresentados sem hesitação. Talvez seja
isso que me salve um dia no firmamento. Mas não salvará
a funcionária que diz que não há jeito. Para tudo tem um
jeito, às vezes até para a morte.
O agudo
Bruno Magalhães
29/10/03

postado por: RODOLFO TORRES 6:31 PM


Comments:
Risque

Contava com apenas seis anos, quando fui colocado para estudar íniciação musical no Instituto Waldemar de Alemida. O instrumento, nessa época, era uma flauta doce. A minha era branca, e contranstava com a dos meus colegas, geralmente marrons. Não gostava muito de lá, as professoras só eram améveis perante nossos pais e os garotos que estudavam comigo eram insuportáveis. Quando acabou o ano, fizemos uma apresentação. Cinco pequenos alunos tocando flauta e uma das professoras, a mais bela, tocando piano. Depois, decidiram que deveria tocar violão. Com sete anos fui ter aulas de violão com um senhor chamado "Antônio sete cordas". Ele tocava violão de sete cordas, fazia parte de um grupo de chorinho e contava, à época, com mais de sessenta anos. É possível imaginar o abismo que nos separava. Na "aula", apenas observava-o tocar chorinho. Quando ele notava minha presença, tentava me ensinar alguma coisa. Me ensinou o dó maior e mi menor. Só! Ele sempre reclamava que eu não era, segundo suas próprias palavras, interessado. Depois de muito tempo, ele me ensinou o início de uma música de Ary Barroso, chamada Risque. O início da letra é assim: "Risque, meu nome do seu caderno, pois não suporto o inferno do nosso amor fracassado...". Eram apenas duas notas, o início, com uma firula entre elas. Treinei durante uma semana, e numa noite, quando todos estavam deitados, e apenas eu e meu pai acordados (ele estava estudando na biblioteca), cheguei para ele e perguntei se ele queria me escutar tocando a música que havia aprendido. Ele parou o que estava fazendo e se mostrou disposto a presenciar a cena. Toquei para ele, e qual não foi a minha surpresa ao ver em seu rosto uma alegria absurda. Ficou muito orgulhoso e disse que eu levava jeito para a coisa. No fim de semana seguinte, quando vários primos e tios estavam lá em casa, ele, na inocência de um pai admirado com o "talento" do filho, pede que eu busque o violão que ele havia comprado de uma conhecida para mim, e tocasse a música que eu havia aprendido. Sento no sofá. A plátéia está na minha frente. Silêncio! Começo a tocar e antes de alcançar a segundo nota, levo uma vaia misturada aos risos mais debochados, que, de alguma forma, me travou para todo o sempre. Passei até os 13 anos estudando violão sem nunca ter conseguido aprender absolutamente nada. Sorte da música por ter me perdido. Azar das letras, que foram solicitadas por mim.

Rodolfo Torres - 30/10/03

postado por: RODOLFO TORRES 6:28 PM


Comments: Quarta-feira, Outubro 29, 2003


O otimista triste

Ziraldo já falou que ler é mais importante que estudar. Quem lê, segundo ele, vive mais e melhor. E esse hábito tão solitário, que exige renúncia e disciplina, por condições climática e antropológicas, não faz parte do nosso cotidiano. Outro impecílio para nossa projeção internacional é nossa estimada língua. O português em escala mundial não tem a menor representatividade. Mesmo tendo escritores que não devem absolutamente nada a seu ninguém, o Brasil não é uma "encubadora" de homens e mulheres de texto. No calor dos trópicos, a praia, a cerveja, os amigos, as mulheres são muito mais convidativos que um livro. Mas mesmo assim, existe quem se atreva a desafiar as belezas naturais e a convivência social pulsante. Um escritor de ruas ensoladoradas, que gostava de tomar banho de mar, assistir aos jogos de futebol. Um homem que conviveu com a miséria, com a fome, com a falta de horizonte. Argelino, que posteriormente foi morar na França (país que colonizou sua terra) é considerado o filósofo do absurdo. Somos habituados a encontrar nos livros mais consagrados um ambiente que não é o nosso: neve, gelo, ausência de pedintes, organização social... Só a tristeza nos aproxima das grandes obras. Não existe, para mim, literatura alegre. A grande literatura, assim como a vida, é essencialmente triste. Albert Camus trouxe as paisagens quentes às páginas das grandes obras literárias. Ele conseguiu fazer com que as pessoas naturais de lugares com forte incidência solar se sintam representadas e encontrem em suas páginas uma maior aproximação com sua realidade. " O homem absurdo é aquele que não se separa do tempo". Ainda quero visitar a Argélia, em seu nome.

¿Penso agora em flores, sorrisos, desejo de mulher, e compreendo que todo o meu horror de morrer está contido em meu ciúme de vida. Sinto ciúme daqueles que virão e para os quais as flores e o desejo de mulher terão todo o seu sentido de carne e de sangue. Sou invejoso porque amo demais a vida para não ser egoísta... Quero suportar minha lucidez até o fim e contemplar minha morte com toda a exuberância de meu ciúme e de meu horror¿.

Albert Camus (1913 - 1960)

postado por: RODOLFO TORRES 6:19 PM


Comments: TELEFONE PARA O SENHOR

Estava ontem atendendo um paciente, quando fui de súbito interrompido por um aviso: - Telefone urgente para o senhor! (é, no ambulatório talvez ainda tenha alguma moral!). Isto quando acontece, geralmente significa que um dos seus superiores lhe quer falar, e se existe alguma coisa a fazer, é ir de imediato atender o telefone.
Assim eu procedi, saindo do consultório e pedindo desculpas ao paciente, fui até o telefone, e qual não foi a minha surpresa quando do outro lado da linha alguém disse: - Boa tarde Doutor, estou ligando para lhe oferecer um curso de inglês diferente de tudo o que o senhor já ouviu falar, ....
E por aí foi .... como estava diante de várias pessoas, não pude expressar para o cidadão toda a minha indignação com aquela situação. Cortei a frase dele no meio, me limitando a dizer que não estava interessado. Para você perder menos que dez minutos no telefone, é necessário praticamente gritar, pois a tática desta espécie é a de falar ininterruptamente, depressa e destilando várias informações ao mesmo tempo. Em nenhum momento eles te dão a oportunidade de dizer, logo no início, que você não está interessado. Isto só é possível após ouvir-se tudo aquilo a que eles se propõem a falar.
O cúmulo aconteceu comigo há cerca de 01 ano, quando fui abordado no telefone celular por uma funcionária da empresa de telefonia, me oferecendo o serviço de olho mágico (me resguardo ao direito de não fazer propaganda da empresa). Pois é, não tenho e não quero ter este serviço. Quando lhe disse que não estava interessado, a mesma se mostrou contrariada, quase revoltada, e me perguntou um Por Quê, em tom agressivo, como se eu lhe devesse alguma informação. Não estou interessado e pronto, isso já deveria ser suficiente, mas como ela insistiu, pude jogar nela toda a minha revolta, em diálogos impublicáveis em tão seleta confraria. Vejam o absurdo da situação, na verdade ter que explicar porquê você não quer um serviço tal, ou seja, o consumidor em vez de escolher se quer ou não, é pressionado, tendo que justificar o porquê de não utilizá-lo.
Não julgo o mérito das pobres pessoas que trabalham neste tipo de função, até porque eles são os menos culpados, precisam deste sofrido emprego, que hoje em dia é coisa rara, sendo obrigados a expor a propaganda, vivendo em constante estresse, tendo que produzir clientes, mas não entendo como isso dá certo. Pois se existe pessoas fazendo isso, é porque alguém compra estes produtos e serviços, talvez até para se livrar daquela pressão. Comigo funciona o oposto, se me ligam, com certeza a resposta será não.
Se algum dia tiver um inimigo de verdade, darei o nome dele à várias empresas de telemarketing. Por enquanto não conheci ninguém que mereça tamanho castigo.
Do aditor
GustavoGT
SP 29/10/03

postado por: RODOLFO TORRES 9:28 AM


Comments: Terça-feira, Outubro 28, 2003


Nas capitais, o paradoxo erguido

Finalmente conheci o Memorial da América Latina. Esse era um dos meus objetivos estando em terras bandeirantes. Não conheci em sua plenetidude, mas ao menos já posso falar que pisei por lá. Fui ao Parlatino, que inclusive é presidido pelo potiguar Ney Lopes, para o XXV Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos. Dois jornalistas daqui receberam uma menção honrosa. Após a premiação, umas vinte pessoas foram comemorar em um barzinho, chamado Pirajá. Essa premiação é uma das mais importantes do jornalismo nacional, e lá estava eu, justamente eu, infiltrado entre os grandes da comunicação brasileira. Mas o que gostaria de expor aqui é o que senti estando naquele templo latino das américas. Poucas vezes me senti integrado ao pedaço do continente do qual faço parte. Vendo a foto do ex-presidentes do Parlatino, onde estavam mexicanos, venezuelanos, bolivianos, argentinos, brasileiros, chilenos, uruguaios, etc; percebi como estamos perdendo tempo tentando nos igualar aos anglo-saxões. Como somos bobos em querer imitá-los. Com tanta riqueza explodindo na nossa frente, ainda não somos capazes de dizer um não, um sonoro não, a esse estilo de vida que, infelizmente, já é o nosso. Também pude observar a arquitetura de Niemeyer. Imponente! Gostaria de fazer uma escultura. Ser um escultor. Colocaria a mesma obra em todas as capitais latino-americanas, que simbolizaria nossa miséria, perante tanta riqueza. O paradoxo em concreto e ferro. Fome diante da nossa capacidade agrícola; a legião de pedintes e desempregados diante da absurda reserva de tantos produtos valiosos; vontade de sair dessa terra, que poderia ser muito melhor. Há os que ainda têm esperança... Boa sorte irmãos!



postado por: RODOLFO TORRES 4:35 PM


Comments: Segunda-feira, Outubro 27, 2003

Vale-amigo

Durante todo esse final de semana transcrevi três fitas da entrevista com o senador Suplicy, realizadas na sexta e no sábado. E se não fosse pela paciência e compreensão do meu irmão e da minha cunhada, que permitem que eu me utilize do computador em seu apartamento, teria que fazê-lo na própria redação da revista, bem mais longe de onde fico. Acabei meu trabalho na madrugada de hoje, lá pelas 4 da manhã. Dormi até às 14:30 horas, tomei banho, escovei os dentes e fui tomar o café da manhã na Duas Rosas. Quando saio do elevador, dou de cara com minha queria cunhada. Portanto essas primeiras linhas são uma defesa prévia do meu horário. Já estava tomando meu desjejum às 15:30 horas quando começa uma discussão entre uma mulher e um dos garçons. A mulher, aos berros, alegava que o funcionário era desleal, safado, que iria chamar a polícia... Nessas horas todos ficam com a mesma expressão facial, no rosto trasnparece o desejo de não está no local para presenciar tal cena. César, corintiano fanático, o responsável pelo caixa, alegou que a nota que a mulher era falsa. Ela retrucou falando que acabara de receber aquele dinheiro, que não poderia ser falso, que iria chamar um policial para resolver aquela pendência. Os funcionários falaram que ela poderia ir. "Vá chamar os homem!", retratava a indiferença deles perante o descabelamento da velha senhora, que emitia em sua voz um som semelhante a de uma gralha. A senhora saiu. O clima ficou pesado. Aos poucos o ambiente suavizou-se, e as inevitáeveis brincadeiras sobre o que ocorreu brotaram. E isso serviu para que notasse algo que não queria reconhecer, que teimava em trazer comigo. Uma bóia nessa mar de solidão no qual estou mergulhado. Sou bem tratado porque pago, com "bom dinheiro". A nota poderia ser falsa, mas o que é mais falso nisso tudo é a minha certeza de, por pagar com notas legítimas, sou um ser diferente daquela mulher.



postado por: RODOLFO TORRES 6:17 PM


Comments: A marca da glória

Hoje me deparei com uma cena que tinha tudo para ser
normal: Vi uma mulher com uma lata de Coca-cola na mão.
Normalíssimo! Só que olhando atentamente, não era uma
lata de refrigerante comum. Da lata, saia um fio que se
alojava nas orelhas da mulher. Na verdade, a lata de
coca-cola era um rádio comum AM-FM. Parei para pensar. O
que leva uma pessoa a andar com um rádio em forma de
lata de coca-cola na rua? Ainda mais como aquele, sem
alça ou amarras para facilitar o caminhar. A mídia está
tão poderosa que consegue fazer propaganda até sem pagar
nada. Melhor: as grandes empresas estão recebendo para
fazer propaganda. Porque por mais que essa pessoa
simples não perceba, ela está fazendo uma propaganda de
graça para a Coca-cola. Não digo que não se deve usar
grandes marcas, até porque na maioria das vezes elas são
melhores mesmo. Mas a questão é que essa desavisada está
fazendo simplesmente propaganda gratuita, num produto
que não é da linha de venda da própria empresa. Todas as
grandes empresas fazem isso. A NIKE com seu ¿tracinho¿
simples conquistou o mundo e todo mundo quer ter
aquele ¿tracinho¿ em forma de checado, mesmo que seja
falsificado ou contrabandeado. Tomar uma Coca-cola ou
usar uma camiseta da Nike não é a questão. Percepção
errada é comprar um produto que não faz parte da linha
de produção de uma determinada marca. Um acessório
desenvolvido só para fazer propaganda e que, acho eu,
deveria ser brinde. O mais impressionante é que ela deve
ter comprado este rádio numa loja; deve ter escolhido
este modelo no lugar de outros. Deve ter sido mais ou
menos assim: ¿Por favor, eu gostaria de ver aquele rádio
vermelho, do lado direito do preto simples, do lado
esquerdo do amarelo básico que amarra no braço e em cima
daquele em forma de banana¿. Ou então: ¿Dê-me uma Coca-
cola, por favor... Ah! É um rádio? Eu vou levar assim
mesmo¿.
O agudo
Bruno Magalhães
27/10/03

postado por: RODOLFO TORRES 5:06 PM


Comments: Assinaturas no meu livro

Comprei ontem um livro que estava procurando no mínimo há oito meses. Encontrei-o num sebo na rua Fradique Coutinho, na Vila Madalena. Estava indo para a segundo parte da entrevista com o senador Eduardo Suplicy, quando antes de tomar o café da manhã em qualquer padaria ou lanchonete, resolvi olhar se os sebos estavam abertos. O que eu queria que estivesse aberto, não estava. Se bem que concordo com a lógica do dono. Quem vai querer comprar livros no sábado pela manhã? E principalmente antes das 10 da manhã. Mas havia um que estava aberto. O proprietário é um japonês, que ficou um pouco espantado quando me viu àquela hora da manhã perguntando sobre "O óbvio ululante", de Nelson Rodrigues. Ele prontamente falou que tinha. Perguntei o preço e ele, ao abrir o exemplar, viu que estava escrito 16, mas resolveu me presentear com um desconto de 1 real. Paguei e fui tomar um pingado (café com leite, geralmente servido em copo americano) e algum salgado de queijo. Ao colocar açúcar no café percebo que o livro continha uma dedicatória extensa e que, de certa forma, maculava o livro. A filharada resolveu presentear a mãe no Carnaval de 1993 com um Nelson Rodrigues. Essa mulher deve ser uma sábia, ou no mínimo, não aceita se sentir vira-lata, como todos os brasileiros. Não questiono a razão que fez com que ela se livrasse de um livro tão importante. E, sinceramente, do jeito que o carnaval hoje em dia está, no que se transformou, no total vazio de significado que lhe é incorporado, prefiro um Nelson. Voltei ao Sebo Sagarana, 624, na Fradique e pedi ao rapaz que trocasse. Desta vez o livro pertencia a algum André, mas sua assinatura é encoberta pela etiqueta da loja.

Rodolfo Torres - 26/10/03

postado por: RODOLFO TORRES 3:09 AM


Comments: Sábado, Outubro 25, 2003

Como se chora?

Não choro há dez anos! A última vez em que lágrimas banharam meus rosto, como uma infiltração numa parede, foi em 1993. Nessa época estava concluindo a última série do primeiro grau. As garotas da minha sala de aula já estavam tomando forma de mulher, enquanto os moços ainda insistiam em permanecer fisicamente meninos. Recebi o convite para a festa de quinze anos de uma de minhas colegas, chamada Karla Silvéria (posteriormente ela namorou um primo meu), e tomei aquilo como uma passagem ao mundo dos mais velhos. Meus colegas e eu ficávamos discutindo como seria nosso procedimento, o quanto iríamos beber, se alguma delas estaria disposta a nos beijar, essas coisas. Pouco menos de uma semana antes da celebração, o boletim escolar é entregue. Confesso que nunca fui um aluno extremamente dedicado. Tinha, e ainda tenho, uma absurda dificuldade de concentração. Se bem que as aulas não ajudavam. Mas só permanecia atento aos primeiros minutos de explicação do(a) professor(a), não porque queria, mas é que de repente me imaginava em outros ambientes, com outras pessoas (certos casos alguns presentes estavam), fazendo algo que achava mais produtivo. O resultado do meu rendimento escolar foi bombástico: diversas notas abaixo da média ( que era 7,5) e em ciências contava com um 3,9. Ao ver aquilo, meu pai não ficou contente. Disse que não sairia de casa enquanto não recuperasse aquela "nota vermelha" (bela alusão ao comunismo sentenciar uma nota baixa como uma nota vermelha). Sai da mesa em que jantávamos e fui para minha cama. Prometi que nunca mais iria chorar, que aquilo era uma coisa de gente fraca, sem alicerce interior. Se existe alguma promessa minha que persiste é essa. Para a minha desgraça própria. Tenho dez anos de lágrimas acumuladas e o canal de vazão delas foi entupido por uma promessa. Se algum dia conseguir chorar novamente, e como o quero, meus olhos acompanharão essa década de lágrimas.

Rodolfo Torres 25/10/03

postado por: RODOLFO TORRES 11:57 PM


Comments: Sexta-feira, Outubro 24, 2003

Maracujina Verbal

Com quase quatro horas de entrevista, que ainda será complementada amanhã, o Senador do PT/SP Eduardo Suplicy deixou a redação da Caros amigos. E com aquela voz mansa, ele passou mais da metade do falatório explicando e dando exemplos de seu projeto de renda mínima para todos os brasileiros. Segundo tal idéia, todos os brasileiros deveriam receber uma quantia em dinheiro, independente de tudo. Ficaríamos sendo "sócios" do país, em suas riquezas exorbitantes e tudo o mais. Só tenho uma ressalva em relação ao projeto. Enquanto o senador propõe 500 reais para todos, valor a ser negociado segundo os cofres, deveríamos receber no mínino uns "doizinho". Claro! Se achas absurda a idéia, pense na corrupção, nos devios de renda, nas reservas e recursos, nas farras bancárias que presenciamos quietos e que são expostas nos jornais, sugerindo que tal façanha de lucro seja uma coisa a ser aplaudida e não uma vergonha. Essa proposta está há onze anos para ser votada pelos deputados, e, adivinhem, ainda não foi. Se o governo, de qualquer época, foi capaz de ofertar benifícios e regalias aos pouquíssimos seres que detém os absurdos valores que circulam nessa pátria, não terá chegado a hora de garantir "unzinho" decente para nós, só pelo fato de termos suportado tudo isso caladinhos e obedientes? Uma recompensa ao bom povo pacífico que, mesmo sabendo de tantas, não faz nada. A idéia é muito boa, mas com aquela voz lenta e calma de Suplicy, se não tivermos renda mínima, teremos, ao menos, um bom cochilo ao som dos nosso direitos.

postado por: RODOLFO TORRES 8:48 PM


Comments: Oi, olá, bom dia!!!

Fiz nos últimos dias algo que não costumo fazer: tomar um bom café da manhã. Reconheço o erro desta dieta pouco lógica, em que se priorizam outras refeições, mas o corre-corre do dia-a-dia deixa-me poucas alternativas, e os minutos de sono matutino são prorrogados em detrimento do meu desjejum.
Voltando ao assunto, fui a uma lanchonete, pois não há melhor lugar do que um bom boteco para se tomar café, nem em casa. Só alguns hotéis podem se comparar a um bom café da manhã de balcão. É ... isso é igual a pipoca, bom é fora de casa.
Enquanto meu estômago estranhamente recebia aquela visita ilustre e inesperada (pingado e pão na chapa), não pude deixar de observar displicentemente o movimento no recinto, só sendo interrompido por uma cidadã de seus trinta anos, que sentou ao meu lado e disse: ¿Oi ... olá ... bom dia .... por favor eu gostaria de um pão na chapa, sem o miolo, e um copo de suco de laranja ... batido viu, e com um pouco de açucar!!!¿. Aquilo me revoltou. Naquele momento perdi toda a concentração no meu café da manhã, e não pude parar de pensar.
-Para que uma frase com três saudações, seguidas e espaçadas desta forma. É, não lhes disse mas ela falava bem lentamente. Irritantemente lento, como se tivesse ainda dormindo ou com problemas em sua tireóide. Antes não faça saudação nenhuma.
-Pão na chapa sem miolo ???. Pelo amor de Deus, é abusar da boa vontade dos pobres funcionários de tão digno recinto a esta hora (oito da madrugada de uma quarta-feira).
-Suco batido???. Reconheço a minha ignorância, mas podia ser de outra forma?. Quantas pessoas vocês já virão dizendo isso?.
-Um pouco de açúcar?. Aí sim perdeu a noção do ridículo?. Se quiser individualizar, peça o açucareiro. Visto que é um pouco subjetiva esta dosagem.
Resumindo .... funcionário de boteco não é professor, mas sooofre!!!.
Do aditor
GustavoGT
SP 23/10/03

postado por: RODOLFO TORRES 7:41 PM


Comments: COISA DE CRIANÇA?!

Fiquei extremamente preocupado com o que vi numa reportagem de um telejornal local. Era domingo, doze de outubro, dia das crianças. A reportagem deu-se exatamente em virtude deste dia. Foi uma boa matéria, traçava um paralelo entre duas crianças: uma residente em um condomínio de classe média na zona sul de Natal; outra residente em uma fazenda no oeste do estado, na região de Mossoró. Eram dois meninos absolutamente normais, que gostavam de jogar bola e brincar com os irmãos. Um desempenhava tranqüilamente as suas tarefas escolares, o outro era dedicado e habilidoso na lida da roça.

Até aí tudo bem, nada de extraordinário. Mas uma questão apresentada aos dois garotos me surpreendeu pela distância absurda entre as respostas. Diante da singela pergunta ¿do que você mais tem medo?¿, os garotos mostraram o abismo que existe entre suas vidas. O garoto da fazenda, sem pestanejar, respondeu como um bom sertanejo: ¿a única coisa de que tenho medo nessa vida é de raposa¿. Já o garoto da cidade: ¿tenho muito medo de ser assaltado¿.

Ora, medo de ser assaltado?! Não me lembro muito bem dos meus medos de criança, mas certamente ¿ser assaltado¿ não era um deles. Acho que no meu tempo as criancinhas tinham medo da Cuca, do Bicho-Papão ou coisas assim. E quando ficavam maiorzinhos não tinham mais medo de nada. A não ser de alma penada, nas tenebrosas conversas em noite de lua. Ao que, aliás, os adultos, como que já prevendo o caos a que chegaríamos, aconselhavam: ¿Besteira, menino, gente morta não faz nada. Tem que ter medo é de quem ta vivo!¿.

Bom, o fato é que, nos dias de hoje, nossas crianças têm medo de assalto. Isto deveria ser uma preocupação de nossas crianças? Deveria ser este um de seus medos infantis? Isto é, afinal, coisa de criança? E olhe que o garoto da reportagem vive em Natal, cidade da qual nos gabamos de ser calma, tranqüila, pacata.

Acho que aquela reportagem deveria ser vista por todos os brasileiros, para que refletíssemos sobre nossas cidades, nossas crianças, nossos medos...


Natal, 24 de outubro de 2003.

Rafael Loiola

postado por: RODOLFO TORRES 7:30 PM


Comments: BANHO NÃO !!!

Ontem a noite, navegando pela internet, li uma notícia que me deixou completamente estarrecido, para não dizer revoltado. No site do ig, como notícia principal estava isto: Maurício de Souza vai dar banho em cascão !!!.
A notícia informava que já estava planejado para o próximo ano, em um de seus gibis, o trágico desfecho deste personagem. Confesso que não me recordo de detalhes (a revolta afetou minha memória recente), mas existia a associação do banho dele com alguma campanha educativa. Isso é um verdadeiro absurdo.
Sou fã incondicional de Maurício de Souza, que com a sua turma, conseguiu conquistar o mundo, mais de 70 países lêem as história da turma da mônica. Fui criado lendo todos os gibis, nas férias era um moleque que me deliciava com o ¿almanacão¿ da turma, por isso mesmo imploro: NÃO DÊEM BANHO NO CASCÃO.
Não há argumento lógico neste ato. O que o caracteriza como personagem é este gesto de aversão à água. Ninguém que cresceu lendo suas histórias se tornou um adepto da sujeira por vê-lo assim, e se o é hoje, nunca vai dizer que foi pelas suas histórias. NÃO DESCARACTERIZEM O PERSONAGEM!
Me lembro bem que há alguns anos alguns professores se revoltaram contra Chico Anísio, o Professor Raimundo, por ele ensinar e vincular as vezes informações e condutas erradas em uma sala de aula através de seus personagens (alunos). Com a sua inteligência habitual, ele retrucou elegantemente. Seu argumento foi o de que o programa não tinha a função de educar, e sim de divertir, a educação é responsabilidade daqueles que o recriminaram. É a mais pura verdade, caros confrades. Ninguém assitia a escolinha para aprender algo, mas só para se divertir. Tudo bem que as crianças possam aprender lendo os gibis, mas daí a querer ensinar as crianças a tomar em banho através do cascão, á piada de mal gosto.
Se todos os argumentos não bastam para amolecer o coração dos editores da revista, invoco a necessidade do racionamento de água na cidade de São Paulo. Ah se a SABESP sabe desta história ....
Do aditor
GustavoGT
SP 24/10/03


postado por: RODOLFO TORRES 5:11 PM


Comments: Quinta-feira, Outubro 23, 2003

Cena urbana

Numa dessas noites em que estava sem nada para fazer, e sem ninguém para conversar, achei por bem comprar algumas cervejas e passar a noite bebendo. Inclusive, não vejo mal nenhum em beber só. Às vezes é até preferível. Comprei algumas latinhas e estava voltando para meu reino, quando um homem moreno, um pouco mais alto que eu, de gravata, camisa e calça social, me abordou dizendo que havia sido assaltado e pediu qualquer quantia em dinheiro para poder retornar para sua casa. Fez questão de me mostrar como tremia, colocando suas mãos cambaleantes perto do peito para reforçar seu extremo terror. Fiquei comovido com a situação dele e como tinha cinco reais no bolso, ofertei ao homem. Ele agradeceu, beijou minha mão (como se faz com algum homem santo) e perguntou qual era meu nome. Falou que tinha um irmão chamado Rodolfo. A vida passa. Ontem quando novamente voltava para meu reino, com uma garrafa d'água na mão, e sem barba, escuto um chamado de uma voz trêmula: "Ei moço, pelo amor de Deus..." O mesmo homem, com a mesma roupa e a mesma história, pedindo dinheiro porque havia sido assaltado. Deve ter me reconhecido algum tempo depois, pois não insistiu muito. Deveria ficar chateado, indignado, revoltado... Mas não fiquei. Esse homem é um artista de rua. Ele incorpora uma personagem e ganha seu dinheiro com a interpretação de homem de bem que foi roubado. Precisamos de gente assim. Gente que acredita em sua história. Já paguei entrada para filmes e peças de teatro, que custaram mais que cinco reais, e o ator além de não ter sido tão convincente, jamais beijou minha mão.

Rodolfo Torres - 23/10/03


postado por: RODOLFO TORRES 7:50 PM


Comments: Agneliano

João Cabral de Melo Neto. Em seu poema Morte e Vida Severina, o poeta quase me descreve por completo. Em certo trecho, cita:
"Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas
e iguais também porque o sangue,
que usamos tem pouca tinta".
O que faltou à descrição, e à minha anatomia, foi o pescoço. Como todo nordestino nato, não tenho pescoço. E é um problema usar gravata, levar cheiro no cangote e achar a jugular. Assim como um tradicional político potiguar, pertenço a essa raça de despescoçados. Se bem que fiquei surpreso, ontem, quando resolvi tirar a barba por completo após seis meses de penugens na face. Como emagreci, tenho caminhado com freqüência, parei de beber cerveja (em demasia) e abusar das massas; ele reapareceu imponente, maior do que nunca. Sei que seu comprimento é proporcional ao meu peso, e com o passar dos anos ele simplesmente sumirá, assim como os degraus da cidade de Veneza que são encobertos pelas águas, um centímetro por ano, como diz aquela propaganda de um cartão de crédito. E como a genética é cruel, ele me abandonará mais cedo do que tarde. Por enquanto ele persiste, dando uma espécie de adeus. Vai pescoçinho. Por sua causa, ou por sua ausência, não sou uma definição cabraliana completa. Enterre-se em meu peito e diga a meu coração, que verá de tão perto, o que presenciou aqui fora. Explica para ele por que carrega tanto sofrimento traduzido em tun-tun. Leve aromas distantes de perfumes baratos, cremes de barbear e batons breves. E se perguntarem para você por que se escondeu, responda que não foi capaz de garantir a seu dono uma caracterização completa de Severino, obra de um dos maiores poetas. João Cabral de Melo Neto.

Rodolfo Torres - 22/10/03

postado por: RODOLFO TORRES 3:53 PM


Comments: As (os) malas.

Na página inicial da confraria dos crônicos, tem uma
figura bem interessante: duas malas, marrons, em
ligítimo couro e madeira, bem cuidadas, que parecem ser
de algum século anterior ao corrente. O internauta
apressado talvez imagine que elas sirvam para
identificar uma personalidade difícil de aturar dos
criadores da página. Não é isso. Elas poderiam
representar diversas metáforas, como a prevenção de ter
sempre uma mala arrumada para qualquer imprevisto, de
bombas atômicas a cupins, passando por epidemias de
conjuntivite. Outra representação seria o caráter
aventureiro dos participantes, alguém que está sempre
pronto para começar uma viagem, alguém corajoso e sem
preguiça, que não protela uma nova missão. De fato, os
confrades são assim, bravos. Mas a simbologia não é
essa. As malas representam a viagem que começa pela
inspiração dos escritores e terminam mas não se encerram
na imaginação dos leitores. Numa página dedicada
exclusivamente à cultura, o leitor se emocionará com
textos, por vezes, belíssimos e gargalhará com estórias
anedóticas, todas tiradas da melhor musa inspiradora, a
vida real. Nós nem sempre somos chatos. Melhor: nem
todos nós são chatos o tempo todo. Quando quisermos ser
chatos, tiraremos as alças das malas.
O agudo
Bruno Magalhães
23/10/03


postado por: RODOLFO TORRES 3:51 PM


Comments: Quarta-feira, Outubro 22, 2003

Ao capitão

Estava pensando, após reler o belo poema ¿Mal secreto¿, de Raimundo Correia, sobre o que me levou a gostar de ler, e ler principalmente poesias, daquelas dos livros de literatura do segundo grau. Sempre fui péssimo aluno em português, mas adorava ler os livros de literatura, e saber sobre os poetas de séculos atrás, que morriam tão jovens e quase sempre de tuberculose.
Na maioria das vezes é difícil saber o que nos leva a gostar de alguém ou de algo, muitas vezes é uma coisa que acontece. Podemos até lembrar do primeiro contato, primeiro toque, mas o exato momento em que ¿aconteceu¿, é complicado. Em relações afetivas vale mais o ¿desde a primeira vez que te vi¿. E em relação à leitura, música ... fica mais difícil.
Porém, sobre a minha admiração pela literatura, tenho nítidos na mente alguns momentos que queria compartilhar com os confrades.
O grande responsável pelo meu gosto pelos textos creio que seja o ilustre professor de português e literatura do pré-vestibular do colégio salesiano, o Prof. Capitão Caverna. O próprio professor Edmo Jales fazia questão de se apresentar desta forma, por isso tomo a liberdade de chamá-lo carinhosamente assim.
Dois momentos me marcaram muito, e irei contá-los. O primeiro foi em uma de suas aulas (saudosas aulas), na qual o mesmo declamou um poema de Gonçalves Dias, sobre a história de seu grande amor, que o abandonou, e o poeta a reencontra, anos após, se ajoelha diante dela, e declama o belíssimo texto. Capitão caverna declamou o texto (inteirinho) imenso, de joelhos, diante de nós, estupefatos. Confesso que me apaixonei pelo poema. Lembro da seguinte parte: ¿Mas que tens, não me conheces, de mim afastas teus rosto, pois tanto pode o desgosto, transformar o rosto meu ...¿. Infelizmente não me recordo agora do nome (Confrade Rafael, me salve novamente!!!), e perdi o texto original, de quase seis páginas, uma pena.
Mas a passagem que selou o meu destino de adorador das palavras escritas foi sem dúvida um dia de aula do professor Adailton (Professor de história). Este outro exemplo de docencia, estava comentando conosco sobre o grau de dificuldade das redações em sua época de vestibular. E citou o tema de sua redação :¿Quanta gente que ri talvez existe, cuja ventura única consiste, em parecer aos outros venturosa¿. Graças a Deus Adailton não lembrou do resto da poesia e nem do autor. Como é típico de algumas pessoas, o mesmo ficou indignado por não se lembrar. Eis que surge no corredor a figura do Capitão(ele tinha o costume de passear pelos corredores e perturbar as outras aulas de vez em quando). Adailton correu para perguntar ao capitão sobre o autor do texto. Qual não foi nossa surpresa, quando este também não lembrou, e ficou mais indignado ainda. Adailton desconversou e retornou para a sua aula. Ignoro completamente o tema da aula, pois também estava indignado, e queria saber o nome do tal autor.
Passaram-se cerca de 1 ou 2 minutos, e o capitão ficou imóvel no corredor, de cabeça baixa, como que resgatando do fundo de sua alma alguma ficha guardada. Confesso que cheguei a desanimar e pensar que sairia dali sem aquela resposta. De repente (não mais que de repente), ele invade a nossa sala, como que para quitar uma dívida ou coisa assim. Nesta altura acho que nem lembrava mais do pedido de Adailton. Entrou, e recitou por completo um dos mais belos textos que já li.
Lembro com sinceridade até hoje de cada um destes segundos. E o homem que um dia, quando criança, tinha o sonho de conhecer o colégio salesiano, e lá foi proibido de entrar por estar descalço, proporcionou sem dúvida o surgimento de um apaixonado pela boa escrita, pelas palavras que podem transformar uma vida, ou somente proporcionar viagens inimagináveis.
Obrigado capitão.
Do aditor
GustavoGT
SP 08/10/03

postado por: RODOLFO TORRES 9:50 PM


Comments: Terça-feira, Outubro 21, 2003

Possível minguado

O mundo, como o conhecemos, é dual. O certo e o errado, o feio e o bonito, o velho e o novo, o culpado e o inocente, o doente e o sadio, etc... Trata-se do dualismo platônico, que foi incorporado para todas as áreas do conhecimento ocidental. Leis, saúde, estética, e por aí vai. No que se refere às ciências humanas, temos um dualismo. Só que acredito que esse é mais relativo que o de Platão, pois ao invés de dois pontos extremados, temos um ideal, uma meta, um modelo; e por outro a situação atual, o que dispomos. Passam-se os dias e, ao invés de avançarmos para esse ponto máximo, estamos regredindo. O que dispomos é muito pouco frente ao que seria digno para todos. E quem se dedica a entender, interpretar, representar o homem, terá que se acostumar a trabalhar com cada vez menos. Menos liberdade, menos diversidade, menos autonomia. O mundo ficará mais feio. Minhas lástimas ao que irão nascer, independente do local. Com o possível diminuindo numa escala exponencial, boa idéia é morrer!

Rodolfo Torres - 21/10/03

postado por: RODOLFO TORRES 6:47 PM


Comments: CTRL + ALT + DEL
Quando um computador dá algum tipo de problema técnico,
coisa não muito rara, existe uma forma simples de
solucionar. Depois que você já tentou tudo e a ampulheta
insiste em continuar acesa, nada melhor que uma medida
definitiva. E essa alternativa final é um "control +
alt + delete". Sempre funciona. Se não funcionar, um
segundo "CTRL + ALT + DEL" com certeza funcionará
(reiniciará o computador). Só lembrando, principalmente
às mulheres: "o computador não faz o que você quer, faz
o que você manda ele fazer". Já pensou se tudo na vida
fosse assim? Que bom seria se ao menor problema,
pudéssemos recomeçar do zero, como se o problema não
existisse. Contraiu dívida impossível de pagar? "CTRL +
ALT + DEL". Seu time perdeu de goleada e seus amigos
estão tirando sarro? "CTRL + ALT + DEL". A empregada
quebrou toda a sua louça de porcelana chinesa? "CTRL +
ALT + DEL". Seu chefe quer te dispensar porque você não
fez aquele projeto no domingo de madrugada? "CTRL + ALT
+ DEL". Seu avô teve um derrame? "CTRL + ALT + DEL". Sua
mulher está enchendo o saco por causa daquela saidinha
inocente da última sexta? "CTRL + ALT + DEL". Aliás, a
mulher você pode dar um segundo "CTRL + ALT + DEL".
Talvez até trocar por um programa mais novo. Essa última
via de resolução de distúrbios da computação funciona
como o "foda-se" da vida real. Muitas vezes, o melhor a
fazer é "ligar o CTRL + ALT DEL" no automático e deixar
rolar. O que não tem remédio... Hoje eu estou assim.
Acordei com os dois pés esquerdos. Pois é, tô
endividado, quebrei a louça, não saí à noite porque
estava fazendo o projeto. Só falta o meu avô me ligar.
Então eu "toquei o CTLR + ALT + DEL". Deram bom-dia no
trabalho e eu: "CTRL + ALT + DEL". Acenaram para mim na
rua e eu gritei: "CTRL + ALT + DEL". E ainda dei o dedo,
para o caso de alguém não ter ouvido. Então, como eu não
estou para muita conversa hoje, "CTRL + ALT + DEL PARA
VOCÊ TAMBÉM!!!!
O agudo
21/10/03

postado por: RODOLFO TORRES 6:44 PM


Comments: Celebração alienígena

Na sexta feira passada, meu irmão me convidou para jantar em seu apartamento. Quando acabei o que tinha que fazer na redação, fui ao metrô e, ao invés de jantar na lanchonete Duas Rosas, peguei o caminho de sua residência. Uma agradável surpresa me aguardava: minha cunhada estava preparando uma sopa, prato que adoro e que não tomova há mais de seis meses. Perguntei se havia pão, pois sopa sem pão não dá. Fica incompleto. Comprei alguns pães e, antes da delícia ser posta à mesa, minha mãe telefona. Não poderia dispensar minha mãe, mesmo com muita fome e desejo de me deliciar na iguaria. Após uns vinte minutos de conversa, consigo finalmente experimentar a primeira sopa depois de tanto tempo. E estava deliciosa. Tão deliciosa que repeti umas três vezes. Quando já estava acabando, ouço diversas vozes alegres que saem do elevador. Eles tocaram em todos os apartamentos, e minha primeira impressão foi de que eram os amigos do meu irmão que moram no mesmo prédio. Mas não era. Diversos garotos e garotas que estavam "comemorando" o dia das bruxas antecipadamente, pedindo de porta em porta doces, dinheiro ou o que quer que fosse. Parafraseando as crianças nos países em que se comemora esse dia, falavam algo do tipo: "Doces ou travessuras", " Travessuras ou gostosuras", não sei bem. Me chamou a atenção essa subserviência de pequenos brasileiros. Na época do São João, não vi ninguém comer pamonha, canjica; nem mesmo soltar aqueles insuportáveis fogos de artifício. Festa junina por aqui passa desapercebida, enquanto esse dia das bruxas é comemorado com antecipação. Não atendemos ao chamado dos pequenos colonizados voluntários, mas o vizinho ao apartamento do meu irmão abriu a porta e salvou minha noite. Ao pedido feito pelos fantasiados idiotas, ele ofertou, num gesto de brasilidade, voluntário ou não, um mamão. O mamão do vizinho vingou momentaneamente nossas desvalorizadas e esquecidas tradições.

Rodolfo Torres - 20/10/03

postado por: RODOLFO TORRES 6:43 PM


Comments: Guerra de Canudos

Não pensem os mais pretensiosos que aqui irão se debruçar sobre um texto épico, ou que fale sobre temas bélicos. Deixo a "guerra de canudos" para aqueles que entendem da história.
Apesar de não ter um cunho histórico, iremos discorrer sobre uma história que retrata a complexidade da mente feminina. Sinto frustar também aqueles que pensam que irão ler sobre a beleza e as qualidades do sexo oposto, mas deixo esta parte para os poetas(antes que maldosos se manifestem, aqui não vale a prerrogativa anterior, pois tenho algum entendimento neste assunto).
É inegável a confusão mental que a linha de raciocínio feminino causa na mente masculina, e existem célebres aforismos a este respeito, mas sou testemunha e vítima de um fato que comprova totalmente esta verdade absoluta, que nem precisaria de comprovação. Sendo encarada até hoje como um postulado da humanidade, agora teremos uma prova cabal dos tortuosos mecanismos envolvidos neste tipo de raciocínio. Permito aos demais confrades que a utilizem em qualquer discussão mais acalorada, como argumento irrefutável sobre o assunto.
Em um Domingo qualquer, fomos ao cinema, eu e minha esposa(Me reservo ao direito de não citar seu nome, pois o fiz em crônica prévia e quase fui expulso de casa).
Ao chegar, minutos antes do filme, fomos comprar pipoca e refrigerante, como de praxe, pois há quase que uma obrigação social a este respeito. Ao comprar um refrigerante grande, peguei um canudo para o mesmo, e aí começou o primeiro problema. Ouvi mais ou menos isto: "Poooxa ... nem quer dividir o seu refrigerante comigo, só um canudo!!!". Confesso aos senhores que cheguei a ficar com complexo de culpa (quão maldoso eu era!). Passadas algumas semanas, como todo bom morador da "Cidade Shopping", retornamos ao cinema. Metodicamente repetimos todo o procedimento, desde a compra do bilhete até a chegada na lanchonete do cinema. Foi aí que me veio na lembrança o ocorrido do último filme. Para limpar o meu nome, triunfantemente, peguei dois canudos para o nosso novo refrigerante, o líquido que iria sacramentar a minha redenção perante os bons modos, uma verdadeira injeção de cavalheirismo. E sabem o que eu ouvi. Foi mais ou menos isso: " Poooooxa ..... nem quer tomar o refrigerante no mesmo canudo que eu!!!".
Aquilo foi o argumento que eu precisava para desistir de vez de tentar entender as mulheres. Notei que não há solução, caros amigos. E começei a compreender algumas coisas, como por exemplo: a mulher é realmente mais evoluída que o homem, pois não precisa dele para discutir, ou melhor, se ela quiser, o que quer que ele faça vai dar em briga. Ainda acham que não!!!; pois quantas vezes acordo com ela chateada comigo pois no seu sonho eu fazia isso, aquilo, aquilo outro, e por aí vai...
A partir deste ocorrido, quando vamos ao cinema (é ... ainda vou), ela é quem pega os canudos. Já pensei em alguma vez colocar três canudos no refrigerante, mas imaginem o que isso causaria (tremo só de pensar). Logo desisiti. Se cometo esta loucura, aí sim vocês leriam sobre a história da "Guerra de Canudos", provavelmente sobre a minha lápide.
Do aditor
GustavoGT
São Paulo 17/10/03

postado por: RODOLFO TORRES 6:41 PM


Comments: Sábado, Outubro 18, 2003


Inicia-se hoje (18/10/2003) a fase on line da "Confraria dos Crônicos". Iniciada em 13/09/2003 na cidade de São Paulo, esse grupo de escritores ( um advogado, um jornalista e dois médicos) vai encarar o maior desafio para quem se externa num texto: a exposição pública de suas idéias, análises e observações do mundo. A crônica, que se caracteriza pela leveza e subjetividade, foi o meio escolhida para esse fim. Esperamos proporcionar bons momentos de leitura aos que nos visitam e, dessa forma, estimular um hábito que deveria estar presente no nosso cotidiano: a escrita.

postado por: RODOLFO TORRES 9:38 PM


Comments: Como engravidei vocês...

Outro dia, procurando algum assunto referente a cinema (minha grande
paixão) na internet, descobri uma entrevista com um cineasta sueco, que
tanto admiro, chamado Ingmar Bergman. Em sua declaração, ele dizia sofrer de
gravidez psicológica, portando todos os sintomas que as mulheres que passam
por esse processo carregam consigo. Mas, em vez de carregar um feto no
útero, ele estava "grávido" de um roteiro cinematográfico. Bergam, que
estava há décadas sem dirigir nenhum filme, pensava em encerrar sua carreira
com mais um filme. Filme que seria "parido". O diretor só pretendia
"engravidar" algumas pessoas para que sua idéia fosse levada à prática. E é
com muita honra que a partir de uma idéia sem grande ambições, consegui
"engravidar" três grandes pessoas para uma atividade que tanto admiro, e ao
contrário de muitos colegas de profissão acreditam, deve ser levadas para
todos os membros de uma sociedade: a escrita. Inicia-se agora a gênese de
vários textos que serão produzidos por dois médicos, um advogado e um
jornalista. Creio que "Os crônicos" só terão a contribuir para o
engrandecimento da língua portuguesa e da escrita em si, e trago a certeza
que boas surpresas nos aguardam e talentos até então adormecidos irão
despertar para a prática da escrita e produção de textos que, antes de tudo,
é um exercício de cidadania.
Rodolfo 15/09/03

postado por: RODOLFO TORRES 9:24 PM



arquivo